Por Francisco José dos Santos Braga
Em nome da família de Roque da Fonseca Braga, gostaria de dizer que ela se sente muito confortada com a presença de tantos parentes, amigos e colegas de seu pai que aqui comparecem para comemorarmos juntos o primeiro centenário de seu nascimento, sempre gratos à bondade de Deus por ter-nos permitido conviver com um ser humano tão especial e amoroso, durante 66 anos.
Aqui faço um parêntese todo especial para agradecer à Diocese de São João del-Rei, representada aqui pelo Revmo. Pe. Ramiro Gregório, que nos acolhe tão bem em atitude de fé e unção nesta Capela do Divino Espírito Santo.
Convido a todos para fazer o seguinte exercício de imaginação: imaginemos com que alegria a esposa de Roque, Celina, estaria aqui neste dia participando desta comemoração em honra a seu esposo e como sua alma deveria rejubilar-se e aplaudir esse nosso gesto de carinho para com nosso pai, parente, amigo e colega!
O homenageado com esta Santa Missa, Roque da Fonseca Braga, nasceu no dia 15 de abril de 1918, portanto há 100 anos atrás. Veio ao mundo na zona rural do distrito são-joanense de São Sebastião da Vitória, sendo terceiro filho de José da Silva Braga e D. Josefina Fonseca Braga, cujo nome de solteira era Josefina Fonseca de Carvalho, natural de Madre de Deus.
Na solidão da zona rural onde nasceu, na Fazenda da Lagoa Verde, muitas vezes Roque deve ter ouvido o som plangente e longínquo de uma sanfona, razão por que, mais tarde e ao longo de toda a sua vida, foi um amante de acordeon, o instrumento preferido que infelizmente nunca dedilhou, e de música sertaneja, principalmente das duplas “Tião Carreiro & Pardinho”, “Tonico & Tinoco” e “Pedro Bento & Zé da Estrada”. Da primeira dupla lembro sua predileção por “Menino da Porteira” e “O Rio de Piracicaba”; da segunda dupla destaco “Cabocla Tereza”, “Tristeza do Jeca”, “Inhambu xintã e o Xororó”, “Piracicaba que eu adoro tanto” e “Chico Mineiro”; da terceira dupla lembro a sua preferência por “Mágoa de Boiadeiro”. Também apreciava a voz maravilhosa de Orlando Silva, o “cantor das multidões”, Inezita Barroso em “Lampião de Gás” e Teixeirinha em “Coração de Luto”, “Gaúcho de Passo Fundo”, “Passo Fundo do Coração” e outras faixas, possuindo deste último quase toda a sua discografia em discos LP, inclusive com a parceria da acordeonista Mary Terezinha e do Gaúcho da Fronteira.
Quando Roque e outros irmãos chegaram à idade escolar, sua avó paterna e seus pais decidiram mudar-se para São João del-Rei que possuía bons educandários e maiores recursos sanitários. Ingressou no Grupo Maria Teresa aí fazendo seu curso primário e em seguida deu continuidade a seus estudos no Ginásio Santo Antônio, que naquela época consistia de cinco anos letivos. Meu pai Roque sempre comentou que tinha especial predileção pelas matérias exatas, mencionando especialmente a ciência da matemática, a ponto de ser o aluno preferido de frei Norberto, professor que pretendia vê-lo com formação superior de engenharia. No Ginásio Santo Antônio, foi colega de Dr. Milton de Resende Viegas, Júlio Teixeira e Sebastião de Oliveira Cintra.
Mas isso nunca se concretizou, porque, quando tinha 12 anos, seu pai perdeu tudo, fazenda, gado e utensílios, num investimento fracassado no comércio desta cidade, sendo obrigado a cobrir a dívida contraída, com a venda de seus bens. Conseguiu reter apenas uma casa de moradia na rua Santo Antônio com extenso lote que chegava até a rua das Flores. Profundamente chocado com o incidente, Roque teve que procurar emprego para quitar as despesas da família, junto a uma oficina de conserto de sapatos dirigida por certo Sr. Bernardo, que conheci na minha infância, ainda funcionando bem ali no Largo Tamandaré, atualmente Praça Severiano de Resende, onde teve a oportunidade de aprender o ofício de sapateiro. A seguir, foi admitido no Açougue do Bibi Rios, onde atualmente funciona a Padaria Pio XII, onde aprendeu tudo sobre cortes de carne bovina e suína. Apesar de todas as inconveniências, meu pai guardava boas recordações dessa época dura e difícil.
Em resumo: Roque teve que se contentar com seus estudos de 2º grau, porque não quis sacrificar sua família com seus estudos superiores. Contudo, ficou viva no seu coração a grata lembrança de seus mestres de então: freis Zacarias, Pedro, Norberto, Optato, Godoberto, Bertrando, Rufino, Beno, Osmundo, Herardo, Flaviano, Clemenciano, Lourenço...
Após seu curso ginasial, Roque foi convocado para se alistar no Tiro de Guerra de Lavras, que tinha sido criado em 1916.
Em seguida, para complicar as coisas, em 20 de dezembro de 1937, morreu seu irmão José (“Zezé”) com 24 anos, vítima de tuberculose e febre tifóide, e Roque teve que ser seu acompanhante e enfermeiro durante a moléstia galopante do irmão, que só durou três meses. O processo infeccioso de seu irmão o impressionou tanto que, mais tarde, cobria de cuidados seus filhos pequenos, proibindo o consumo de picolés e obrigando-os ao recolhimento noturno às 20 horas por medo da ação maléfica do sereno.
Prestou concurso no Banco de Crédito Real em São João del-Rei, sendo classificado e nele ingressando em 15/12/1941, aos 23 anos de idade. Ao ser classificado, apresentou-se na agência local, quando foi informado que o seu destino era a agência de Uberlândia, de onde retornou em 30/08/1943, para não mais sair nem ser transferido durante os seguintes 25 anos de serviço, embora tenha sido “ameaçado” de ser promovido a gerente de agência nas cidades de Ouro Branco, Oliveira e Muzambinho. Mas o seu destino era mesmo continuar na agência de São João del-Rei, onde exerceu as funções de caixa, tesoureiro e contador durante esse período, sem nunca faltar a nenhum dia de serviço.
Minha mãe era normalista e, enquanto namorava meu pai durante uns dois anos, era professora na escola rural de César de Pina, localizada nas Águas Santas, distrito de Tiradentes.
Em 15/02/1947, realizou-se o seu casamento religioso na Matriz de Nossa Senhora do Pilar às 6 horas da manhã ou uns vinte minutos depois, porque, devido a um mal entendido, o taxista Patativa, em vez de buscar meu pai, conforme era esperado, achou que tinha sido contratado para levar minha mãe à igreja. A solução para meu pai foi caminhar às pressas até a igreja, porque a noiva já estava bem ansiosa no altar. O casal passou sua lua de mel em Juiz de Fora.
O nascimento do primeiro filho Roque César em 07/12/1947 foi muito festejado, com o auxílio de uma parteira, embora o casal estivesse mal instalado, numa casa alugada no Pau d’Angá.
Eu nasci no dia 16/02/1949 numa casa então recém-construída nos fundos do lote de meu avô paterno que dava para a rua das Flores.
A primeira filha, muito aguardada, Celina Maria, veio ao mundo em 2/06/1950.
O quarto filho, Carlos Fernando, completou o primeiro quarteto em 29/03/1952.
Luiz Antônio foi o quinto filho nascido em 24/02/1956, tendo sido também o último a nascer com o auxílio de uma parteira.
Os últimos três filhos nasceram em hospital com assistência de médico ou enfermeiras. A próxima filha foi Luzia Rachel, nascida 31/08/1957. Em seguida, Rafael nasceu em 31/01/1965. Por fim, Elizabeth, nascida em 11/06/1967, completou o conjunto de 8 filhos que aqui se encontram comemorando o centenário de nascimento de seu pai.
Roque Braga era exageradamente responsável, trabalhando muito e organizando o próprio serviço e o dos outros funcionários do banco, razão por que sempre foi o último a deixar a agência bancária. Muitas vezes, mamãe me pedia para ir ao banco buscar meu pai, quando ele estava demorando demais a retornar para casa, não sem antes passar na “Gruta Mineira” e encomendar alguns salgados ao Sr. Queiroz, que era um dos poucos restaurantes abertos àquela hora. (Era justificada a preocupação de mamãe, já que meu pai jamais almoçava em dias úteis, preferindo ingerir cápsulas de vitaminas e fortificantes durante o dia. Para complicar, fumava com frequência.) Eu batia no vidro da porta e ele me fazia entrar, pedindo-me que o esperasse por uns 15 minutos, durante os quais ele, fumando, ainda arrumava as últimas mesas dos colegas e colocava em ordem alguns documentos. Quando saíamos, as ruas já estavam desertas, pelo adiantado da hora. Ao chegarmos à casa, mamãe o esperava com a comida quente e saborosa, embora trivial, à qual juntava os salgados que eu tinha comprado, esperando agradar a seu marido.
Roque tinha também o dom de ensinar. Como era craque em matemática e contabilidade bancária, distribuía gratuitamente seus conhecimentos aos candidatos a bancário. Alguns futuros colegas dele desfrutaram desses seus dons para professor, comparecendo à sua casa nesta rua das Flores e, sentados em bancos improvisados na copa, aprenderam ambas as disciplinas que meu pai ensinava, preparando-os para concurso que a agência bancária promovia.
De 1950 em diante, meu pai fez questão de acompanhar as copas do mundo em transmissão radiofônica. O mesmo se dava com as partidas envolvendo o Flamengo, seu time preferido do Rio. Quanto ao Minas Futebol Clube, “O Glorioso” Leão da Biquinha, nesta cidade, lembro-me de que comparecíamos aos jogos e nos juntávamos aos fanáticos torcedores. Lembro-me que ele torcia com muita empolgação e gritava a plenos pulmões, nas partidas com o arqui-rival Athletic, em coro com a torcida, a trova inventada pelo veterano Paulo Alvarenga, para comandar os meninos de seu batalhão de torcedores:
“Eu virei tico-tico,
Eu virei sabiá,
Eu virei o Athletic
De pernas pro ar.”
Na década de 50, a convite do presidente do Minas, o saudoso João Hallak, Roque aceitou o cargo de primeiro tesoureiro e convidou seu colega de banco José Rodrigues Filho a ocupar o cargo de segundo tesoureiro. Lembro-me dos dois trabalhando, madrugada a dentro dos sábados, fazendo escrita do Minas na copa de nossa casa. Foi uma época de muito trabalho para meu pai, pois ele, além do banco, estava assumindo nova missão, agora de cunho social: era preciso controlar a entrada do Estádio “João Lombardi”, autorizando os sócios adimplentes e impedindo a entrada de sócios inadimplentes. O mesmo valia para a entrada nos bailes e festas na sede social do clube, no famoso “Salão dos Espelhos”. Dentro do conceito de justiça social de meu pai, todos os sócios, sem exceção, deviam regularizar a sua situação financeira junto ao Clube. Em ambos os casos, fazia-se acompanhar de “Sô Nhozinho”, homem truculento e forte, de meias palavras, que se fazia entender perfeitamente pelos empurrões que distribuía a torto e a direito, se necessário. O resultado dessa parceria foi compensador, pois melhorou as finanças do clube e atraiu as atenções para a organização e o controle exemplares que eram pela primeira vez observados nas relações do Clube com os seus sócios.
O ex-Ministro do Trabalho, Sr. Fernando Nóbrega, em visita à sede social do Minas, assim deixou consignado:
“O Minas Futebol Clube é um modêlo de organização. Tudo aqui é bonito. Encanta e entusiasma. Honraria qualquer Capital Brasileira.
Ass. Fernando Nóbrega”.
Inesquecível foi a equipe administrativa que comandava o Minas naquela época: João Hallak, Jamil Tuffy Resgalla, Dr. Jaci de Castro, Francisco de Almeida Neves, Paulo Cristófaro, Gentil Palhares, Raimundo Rodrigues Rocha (“Mundico”) e Roque Braga. Dois foram os técnicos que, na ocasião, deram ao Minas o tri e o tetracampeonato: Tuffy Hallak e Raimundo Rodrigues Rocha (“Mundico”).
Antevendo que os esportistas seriam muito bem remunerados em nosso País e no mundo, Roque matriculou, assim que atingimos uma idade adequada, três de seus filhos (Roque, Fernando e eu) no Time Infantil do Minas Futebol Clube, aos cuidados do técnico e jogador Pavão. Também nos incentivou a frequentar diariamente os vestiários e a piscina “Francisco de Paula Neves”, aos cuidados do Sr. Walter Lopes da Silva, plantando em nós a semente dos esportes que deveria frutificar em nossos corações e de toda a sociedade são-joanense.
O tempo disponível de Roque não era só feito de festa e empolgação. Lembro-me de acompanhá-lo, nas manhãs de domingo, às reuniões da Conferência da Associação de São Vicente de Paulo, do Tijuco, nas instalações do Oratório Festivo São Caetano, que foi a primeira escola para meninos de rua de São João del-Rei. Lembro-me ainda de alguns membros: presidente Sebastião, que só tinha um dos braços, Sr. Pereira, irmão da saudosa vizinha Nica, Sr. Lindolfo Carvalho e Élcio, do supermercado tijucano. Após as reuniões, costumávamos ir a pé até às Águas Férreas e visitar os assistidos pela Conferência, sendo a maioria velhos e famílias sem ganha-pão, desassistidos pelo poder público.
Quando foi inesperada e sumariamente despedido do banco, junto com seu cunhado e gerente Júlio Teixeira, ambos no mesmo dia, - com o que ficaram muito magoados, diga-se de passagem -, Roque foi contratado pela Prefeitura Municipal para fazer parte da equipe administrativa de seu colega de Ginásio Santo Antônio, o então Pref. Dr. Milton de Resende Viegas, para quem prestou serviço por uns 3 anos.
Após esse período, foi convidado pela MIBRA-Companhia de Estanho Minas Brasil, dirigida pelos engenheiros romenos Dr. Pierre Cartianu (diretor) e Dr. Martin (presidente), para gerir o seu escritório, sediado em Nazareno. Na ocasião, toda semana Roque retornava à casa nos sábados à tarde e passava com a família até 2ª feira à tarde, quando concluía o expediente do primeiro dia útil, nas suas relações com agências bancárias e o comércio são-joanenses. Mais tarde, esse escritório foi transferido para São João del-Rei, quando ele pôde aproveitar um pouco melhor a infância de seus filhos Rafael e Elizabeth, ainda menores. Nessa fase, o chileno Dr. Diego Hernandez Cabrera tinha substituído os romenos na direção da MIBRA e com quem Roque se dava muito bem. Essa foi uma ocasião que eles puderam beneficiar inúmeros funcionários de sua confiança na MIBRA, prestando-lhes e às suas famílias uma verdadeira assistência digna de países desenvolvidos. Nessa firma ele trabalhou diligentemente durante uns 10 anos.
Depois de desligar-se da MIBRA, afastou-se definitivamente do convívio social, recolhendo-se à sua residência, onde recebia amigos para um divertido bate-papo. Combalido pela doença pulmonar que o acometeu nos últimos anos, ainda viveu uns quatro anos assistido por minha mãe Celina e acompanhado pelos dois filhos menores.
Meu pai faleceu em 26 de setembro de 1984 no Hospital Mater Dei, de Belo Horizonte, para onde tinha sido levado em busca de socorro médico. Foi inútil esse último recurso. Seu corpo foi velado em São João del-Rei na residência de seu querido cunhado e colega Júlio Teixeira.
Seu corpo foi enterrado no cemitério das Mercês com a bandeira do “Leão da Biquinha”, ao som do elogio fúnebre pronunciado pelo tenente Gentil Palhares, velho torcedor e historiador do Minas Futebol Clube.
Finalmente, queremos agradecer a todos quantos colaboraram para que a existência de Roque da Fonseca Braga fosse a mais leve possível, dentro das suas condições físicas e de trabalho. A essas pessoas, nossa eterna gratidão.
O sentimento dos familiares de Roque da Fonseca Braga é também de gratidão por sua vida reta, seu exemplo de homem de caráter e honesto, seu comportamento sempre ético em todas as suas ações em prol da família e da comunidade são-joanense.
Portanto, nada mais justo do que solicitar, nesta data de hoje que comemoramos o Centenário de Nascimento de Roque da Fonseca Braga, uma salva de palmas, pedindo a Deus o descanso eterno de sua alma.
São João del-Rei, 15 de abril de 2018.
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| Vista interna da capela (ala direita) - Crédito: Elizabeth dos Santos Braga |
Vista interna da capela (ala direita) - Crédito Elizabeth dos Santos Braga
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| Carlos Fernando fazendo 1ª leitura, Salmo Responsarial e 2ª leitura - Crédito: Rute Pardini Braga |
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| Beatriz Braga Coelho conduzindo as Oferendas - Crédito: Elizabeth dos Santos Braga |
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| Elizabeth dos Santos Braga lendo as Orações dos Fiéis - Crédito: Pedro Constant Braga |
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| Orador Francisco José dos Santos Braga - Crédito: Rute Pardini Braga |
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| Fiéis após a Missa - Crédito: Rute Pardini Braga |
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| Luíza Guimarães e Rute Pardini - Crédito: Rute Pardini Braga |
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| Roque César, José Alvim Rezende e Celso Lopes de Oliveira - Crédito: Rute Pardini Braga |
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| Luiz Cláudio Braga Lovatto, atual presidente do Minas Futebol Clube, Francisco Braga e Celina Maria Braga Campos - Crédito: Rute Pardini Braga |
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| Valéria, Marta Teixeira Vale e Rute Pardini - Crédito: Rute Pardini Braga |
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| Lourdes Inácio Lima, Maria de Fátima Teixeira e Rute Pardini Braga - Crédito: Rute Pardini Braga |
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| Edison de Assis Coelho, amigo leal até o último adeus de Roque Braga - Crédito: Rute Pardini Braga |
















