quarta-feira, 13 de junho de 2018

A ALEMANHA TEM MUITO A PERDER, SE NÃO MUDAR DE TÁTICA


Por Philip Stephens *
Financial Times

(em artigo no blog grego Ας μιλήσουμε επιτέλους, editado em 07/06/2018)
Traduzido por Francisco José dos Santos Braga


















A Itália é governada por populistas eurocéticos; a Polônia e a Hungria, por nacionalistas autoritários. A Grã-Bretanha anda mancando para um infeliz Brexit; um novo governo de coalizão na Espanha colide com os separatistas catalães. Ninguém poderia acusar os Europeus de tentar esconder as angústias e as pressões no continente.

Claro que a Alemanha é a exceção. Angela Merkel, o abrigo mais seguro, permanece Chanceler, a economia está seguindo a pleno emprego, enquanto os governos federal e estaduais estão lutando para gastar suas receitas excedentes. Aqui, há um paradoxo: a nação mais vulnerável à atual turbulência geopolítica é a Alemanha.

A Europa observa o unilateralismo beligerante de Donald Trump com frustração e irritação. Como pode um presidente tão perigosamente disparatado como o sr. Trump apresentar as relações comerciais transatlânticas como uma ameaça à segurança nacional dos EUA? Os Europeus sabem que não há nada a ganhar com a retaliação contra as tarifas americanas; mas há muito a perder se forem coagidos à submissão. Todos serão empobrecidos por uma guerra comercial.

Ninguém tem mais a perder do que a Alemanha. A fratura da aliança transatlântica é uma questão existencial para Berlim. Washington é o guardião vital da importância alemã, um dos dois pilares de sua estabilidade pós-guerra. Não há maior vencedor da OTAN. Como fiador do sistema comercial aberto, os EUA igualmente têm sido a parteira para a prosperidade alemã. Assim, nenhuma outra nação depende tanto da ordem internacional baseada em regras que atualmente é desdenhada pelo Sr. Trump.

A perda da proteção dos EUA é um grande golpe para Berlim. Estilhaçar a coesão política e econômica na Europa, que se reflete na ascensão do populismo antieuropeu, ameaça destruir o segundo pilar do sucesso alemão. A União Europeia (UE) prestou a necessária legitimidade política que permitiu a reunificação alemã no final da Guerra Fria. Ainda oferece à indústria alemã os ricos mercados internos, que garantem sua excelência econômica mundial.

É muito cedo para se dizer se a coalizão sacrílega na Itália dos populistas de esquerda do movimento Cinco Estrelas com os nacionalistas de extrema direita da Liga marca a dissolução da zona do euro. Meus amigos italianos prevêem que a aliança será dissolvida muito antes de ter a chance de dissolver a União Europeia. Talvez. Mas seria temerário ser tão otimista quanto ao futuro do euro.

Durante a última crise do euro, sempre parecia provável que sobrevivesse. Até mesmo quando eminentes economistas, um após o outro, dia após dia, previam a morte do euro, a política parecia estar na direção oposta. Os credores estatais, mas também os países endividados, estavam unidos, julgando que o custo da saída era muito alto. O protesto contra Bruxelas e Berlim foi um problema. Os manifestantes que inundaram as ruas de Atenas, no entanto, não exigiam um retorno ao dracma.

Mais recentemente, a perspectiva em Berlim é considerar que o risco mais sério para a UE venha da imigração descontrolada do que da união monetária desequilibrada. Enquanto o presidente francês Emmanuel Macron tem lutado pela cooperação na zona do euro, a Alemanha tem se concentrado na abordagem mais ampla dos EUA para com os imigrantes.

A sra. Merkel não pediu desculpas pela abertura da fronteira alemã a um milhão de refugiados em 2015. Mas, depois do sucesso do partido de extrema-direita "Alternativa para a Alemanha" nas eleições de 2017, ela tem absorvido todas as consequências políticas. Ela fez o que era certo, mas essa foi uma decisão que nunca deve ser repetida.

O perigo agora reside no fato de que na Itália essas duas vertentes de insatisfação popular estão unidas: a profunda indignação pelos padrões de vida estagnados e a austeridade estão cooperando para uma raiva crescente em face dos números de migrantes que atravessam o Mediterrâneo. O euro não causou as adversidades econômicas da Itália, mas fecha a porta para a antiga rota de fuga, a da desvalorização. Acrescente-se ainda o acidente geográfico que faz da Itália um ponto de desembarque para os imigrantes e é facilmente explicada uma guinada anti-establishment para os extremos, tanto para a esquerda quanto para a direita.

Uma das lições do referendo do Brexit foi que há um nível de descontentamento político, no qual os eleitores estão prontos a não dar importância aos hipotéticos interesses financeiros; concluem, em vez disso, que eles não têm nada mais a perder. Nesse ponto, punir as elites assume sua própria lógica, quase com quaisquer consequências. Sair do euro destruiria as economias e os padrões de vida dos Italianos. Mas, e se a raiva deles os levar além de tais cálculos?

A Alemanha deveria se preocupar. A República Federal prosperou como uma força do status quo. Uma forte aliança transatlântica e uma UE coesa forneceram os baluartes que permitiram uma política externa essencialmente passiva. Em termos brutos, a Alemanha foi o país que recebeu - importando estabilidade de seus vizinhos e seus aliados.

Agora, a negação desta liderança americana por sr. Trump reflete as divisões abertas que existem dentro da UE. Se Berlim quiser manter os lucros, deve ter uma contribuição positiva para a melhoria das regras e estruturas, das quais depende. O risco está em não fazer nada.

Em uma recente entrevista à Frankfurter Allgemeine Sonntagszeitung, a sra. Merkel demonstrou algum reconhecimento dessa nova responsabilidade. Seus comentários sugeriram que Paris e Berlim podem se aproximar mais do que muitos esperavam na direção, se não na velocidade da reforma da zona do euro. Mas isso pode ser só o começo.

A Alemanha não pode salvar a Itália. Pode, se assim o desejar, reformular a UE como aliada em vez de inimiga. Claro, sempre há em Berlim quem perguntará: "por que temos que pagar?" A resposta é muito simples: no interesse da Alemanha.


*  Philip Stephens é comentarista e autor. É editor associado do Financial Times, onde, como comentarista, escreve, duas vezes por semana, colunas sobre assuntos britânicos e mundiais.