quarta-feira, 18 de julho de 2018

VINGANÇA DE UMA MULHER


Por Antón Pávlovitch Tchékhov

Tchekhov e sua esposa Olga Knipper

Conto traduzido do russo por Francisco José dos Santos Braga 

Alguém puxou a campainha. Nadiejda Petrovna, dona do apartamento, no qual estava se passando esta história, levantou-se do sofá e saiu correndo para abrir a porta.
“Deve ser meu marido...” pensou.

Porém, ao abrir a porta, não foi seu esposo que ela viu. Diante dela estava de pé um homem alto, bonito, vestido com um casaco caro feito de pele de urso e usando óculos dourados. Sua testa estava franzida e seus olhos sonolentos miravam o mundo de Deus com indiferença e preguiça.
Em que posso servir-lhe? perguntou Nadiejda Petrovna.
Eu sou médico, minha senhora. Alguns daqui mandaram me chamar... eh-eh-eh... os Chelobityevs... Vocês são Chelobityevs?
Sim, somos Chelobityevs, mas... por amor de Deus, desculpe, doutor. Meu esposo teve abscesso dentário e febre. Ele lhe mandou uma carta, mas o senhor demorou tanto para vir que ele perdeu a paciência e foi ao dentista.
Hum... Ele poderia ter ido ao dentista sem me incomodar...

O doutor franziu o cenho. Passou um minuto em silêncio.
Desculpe, doutor, que o tenhamos incomodado e obrigado a vir em vão... Se meu esposo soubesse que viria, então pode crer que não teria ido ao dentista... Desculpe...

Passou ainda outro minuto em silêncio. 

Nadiejda Petrovna coçou a nuca.
“O que afinal ele está esperando? Não entendo!” pensou, olhando de soslaio para a porta.

Libere-me, senhora! murmurou o doutor. Não me retenha. O tempo é tão precioso, sabe?, que...
Isto é... Eu, isto é... eu não o estou segurando...
Porém, senhora, não posso ir-me embora, sem receber por meu trabalho!
Por seu trabalho? Ah, sim... pôs-se a balbuciar Nadiejda Petrovna, fortemente ruborizada. O sr. tem razão... Pela visita é preciso pagar, é verdade... O sr. teve trabalho, veio... Mas, doutor... tenho até vergonha... meu esposo saiu de casa e levou nosso dinheiro consigo... Em casa agora não tenho decididamente nada...
Hum... É esquisito... O que fazer? Eu não posso ficar à espera de seu marido! A propósito, procure, talvez se encontre algo... É um valor, na verdade, insignificante...
Mas garanto-lhe que meu marido levou tudo... Estou com vergonha... Eu não gostaria, por causa de um rublo qualquer, de me preocupar com semelhante... situação estúpida...
É esquisita a opinião que o público tem do trabalho dos médicos... realmente, esquisita... Como se também não fôssemos pessoas, como se nosso trabalho não fosse trabalho... Pois eu vim até vocês, perdi tempo... trabalhei...
Sim, eu entendo isso muito bem, mas, convenha, há certas ocasiões, em que não há em casa nenhum copeque!
Ah, sim? O que tenho a ver com essas ocasiões? A senhora, simplesmente... é ingênua e ilógica... Não pagar a uma pessoa... isto é até desonesto... A senhora tira proveito do fato de que eu não possa entregá-la ao juiz de paz e... tão sem cerimônia, por Deus... É mais do que estranho!

O doutor titubeou. Sentia-se com vergonha da humanidade...

Nadiejda Petrovna ficou corada. Estava chocada...
Bem disse ela em tom áspero. Espere um minuto... Vou mandar à mercearia, e lá, talvez, me dêem dinheiro... E vou pagar ao sr.

Nadiejda Petrovna foi à sala de visitas e sentou-se para escrever um bilhete ao merceeiro. O doutor tirou o casaco, entrou na sala de visitas e desabou numa poltrona. À espera pela resposta do merceeiro, ambos ficaram sentados e em silêncio. Cinco minutos após chegou a resposta. Nadiejda retirou do envelope um rublo e passou-o ao doutor. Os olhos do doutor brilharam.
A senhora está brincando, disse ele, pondo o rublo sobre a mesa. É possível que meu criado cobre um rublo, mas eu... não, desculpe!
Quanto o sr. quer?
Geralmente eu cobro dez... da senhora é possível que eu cobre cinco, se quiser.
Bem, o sr. não vai chegar a ver cinco de mim... Não tenho dinheiro para o sr.
Mande ao merceeiro. Se ele pôde lhe dar um rublo, então por que não pode dar-lhe cinco? Por acaso, não é a mesma coisa? Peço-lhe, minha senhora, que não me retenha. Eu não tenho tempo.
Escute, doutor... O sr. não está sendo amável, senão... atrevido! Não, o sr. é grosseiro, desumano! Entende? O sr. é... torpe!

Nadiejda Petrovna virou-se para a janela e mordeu o lábio. De seus olhos brotaram lágrimas volumosas.
“Canalha! Miserável! pensava. Animal! Ele se atreve... se atreve! Não pode entender minha terrível, injuriosa situação! Bem, espere... diabo!”

E, depois de pensar um pouco, virou o rosto para o doutor. Desta vez na sua face havia uma expressão de sofrimento, súplica.
Doutor! disse com voz calma, suplicante. Doutor! Se o sr. tivesse coração, se o sr. quisesse entender... o sr. não se poria a atormentar-me por esse dinheiro... E, fora isso, há muito tormento, muita tortura.

Nadiejda Petrovna comprimiu sua fronte e foi como se tivesse comprimido uma mola: os cabelos em mechas caíram sobre seus ombros...
“Estás sofrendo por causa do ignorante do teu marido... suportas este ambiente horrível, penoso, e aqui ainda uma pessoa educada se permite recriminar-te. Deus meu! Isto é insuportável!” disse a si mesma.
Mas entenda, minha senhora, que a posição especial de nossa classe...
Mas o médico teve que interromper seu discurso. Nadiejda Petrovna cambaleou e caiu sem sentido nos braços estendidos dele... A cabeça dela se inclinou sobre o ombro dele.
Para cá na lareira, doutor... sussurrou ela um minuto depois. Mais perto... vou contar ao sr. tudo... tudo...

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Uma hora depois, o doutor saiu do apartamento dos Chelobityevs. Ele estava tão irritado, quão envergonhado, e satisfeito...
"Que diabo ... pensava, sentando em seu trenó. Nunca convém levar consigo muito dinheiro ao sair de casa! A gente nunca sabe com o que vai se deparar!”


Fonte https://ostrovok.de/p/chekhov/mest-zhenshchiny.html