Conto traduzido do russo por Francisco José dos Santos Braga
Alguém puxou a campainha. Nadiejda Petrovna, dona do apartamento, no qual estava se passando esta história, levantou-se do sofá e saiu correndo para abrir a porta.
“Deve ser meu marido...” — pensou.
Porém, ao abrir a porta, não foi seu esposo que ela viu. Diante dela estava de pé um homem alto, bonito, vestido com um casaco caro feito de pele de urso e usando óculos dourados. Sua testa estava franzida e seus olhos sonolentos miravam o mundo de Deus com indiferença e preguiça.
— Em que posso servir-lhe? — perguntou Nadiejda Petrovna.
— Eu sou médico, minha senhora. Alguns daqui mandaram me chamar... eh-eh-eh... os Chelobityevs... Vocês são Chelobityevs?
— Sim, somos Chelobityevs, mas... por amor de Deus, desculpe, doutor. Meu esposo teve abscesso dentário e febre. Ele lhe mandou uma carta, mas o senhor demorou tanto para vir que ele perdeu a paciência e foi ao dentista.
— Hum... Ele poderia ter ido ao dentista sem me incomodar...
O doutor franziu o cenho. Passou um minuto em silêncio.
— Desculpe, doutor, que o tenhamos incomodado e obrigado a vir em vão... Se meu esposo soubesse que viria, então pode crer que não teria ido ao dentista... Desculpe...
Passou ainda outro minuto em silêncio.
Nadiejda Petrovna coçou a nuca.
Nadiejda Petrovna coçou a nuca.
“O que afinal ele está esperando? Não entendo!” — pensou, olhando de soslaio para a porta.
— Libere-me, senhora! — murmurou o doutor. — Não me retenha. O tempo é tão precioso, sabe?, que...
— Isto é... Eu, isto é... eu não o estou segurando...
— Porém, senhora, não posso ir-me embora, sem receber por meu trabalho!
— Por seu trabalho? Ah, sim... — pôs-se a balbuciar Nadiejda Petrovna, fortemente ruborizada. — O sr. tem razão... Pela visita é preciso pagar, é verdade... O sr. teve trabalho, veio... Mas, doutor... tenho até vergonha... meu esposo saiu de casa e levou nosso dinheiro consigo... Em casa agora não tenho decididamente nada...
— Hum... É esquisito... O que fazer? Eu não posso ficar à espera de seu marido! A propósito, procure, talvez se encontre algo... É um valor, na verdade, insignificante...
— Mas garanto-lhe que meu marido levou tudo... Estou com vergonha... Eu não gostaria, por causa de um rublo qualquer, de me preocupar com semelhante... situação estúpida...
— É esquisita a opinião que o público tem do trabalho dos médicos... realmente, esquisita... Como se também não fôssemos pessoas, como se nosso trabalho não fosse trabalho... Pois eu vim até vocês, perdi tempo... trabalhei...
— Sim, eu entendo isso muito bem, mas, convenha, há certas ocasiões, em que não há em casa nenhum copeque!
— Ah, sim? O que tenho a ver com essas ocasiões? A senhora, simplesmente... é ingênua e ilógica... Não pagar a uma pessoa... isto é até desonesto... A senhora tira proveito do fato de que eu não possa entregá-la ao juiz de paz e... tão sem cerimônia, por Deus... É mais do que estranho!
O doutor titubeou. Sentia-se com vergonha da humanidade...
Nadiejda Petrovna ficou corada. Estava chocada...
— Bem — disse ela em tom áspero. — Espere um minuto... Vou mandar à mercearia, e lá, talvez, me dêem dinheiro... E vou pagar ao sr.
Nadiejda Petrovna foi à sala de visitas e sentou-se para escrever um bilhete ao merceeiro. O doutor tirou o casaco, entrou na sala de visitas e desabou numa poltrona. À espera pela resposta do merceeiro, ambos ficaram sentados e em silêncio. Cinco minutos após chegou a resposta. Nadiejda retirou do envelope um rublo e passou-o ao doutor. Os olhos do doutor brilharam.
— A senhora está brincando, — disse ele, pondo o rublo sobre a mesa. — É possível que meu criado cobre um rublo, mas eu... não, desculpe!
— Quanto o sr. quer?
— Geralmente eu cobro dez... da senhora é possível que eu cobre cinco, se quiser.
— Bem, o sr. não vai chegar a ver cinco de mim... Não tenho dinheiro para o sr.
— Mande ao merceeiro. Se ele pôde lhe dar um rublo, então por que não pode dar-lhe cinco? Por acaso, não é a mesma coisa? Peço-lhe, minha senhora, que não me retenha. Eu não tenho tempo.
— Escute, doutor... O sr. não está sendo amável, senão... atrevido! Não, o sr. é grosseiro, desumano! Entende? O sr. é... torpe!
Nadiejda Petrovna virou-se para a janela e mordeu o lábio. De seus olhos brotaram lágrimas volumosas.
“Canalha! Miserável! — pensava. — Animal! Ele se atreve... se atreve! Não pode entender minha terrível, injuriosa situação! Bem, espere... diabo!”
E, depois de pensar um pouco, virou o rosto para o doutor. Desta vez na sua face havia uma expressão de sofrimento, súplica.
— Doutor! — disse com voz calma, suplicante. — Doutor! Se o sr. tivesse coração, se o sr. quisesse entender... o sr. não se poria a atormentar-me por esse dinheiro... E, fora isso, há muito tormento, muita tortura.
Nadiejda Petrovna comprimiu sua fronte e foi como se tivesse comprimido uma mola: os cabelos em mechas caíram sobre seus ombros...
“Estás sofrendo por causa do ignorante do teu marido... suportas este ambiente horrível, penoso, e aqui ainda uma pessoa educada se permite recriminar-te. Deus meu! Isto é insuportável!” — disse a si mesma.
— Mas entenda, minha senhora, que a posição especial de nossa classe...
Mas o médico teve que interromper seu discurso. Nadiejda Petrovna cambaleou e caiu sem sentido nos braços estendidos dele... A cabeça dela se inclinou sobre o ombro dele.
— Para cá na lareira, doutor... — sussurrou ela um minuto depois. — Mais perto... vou contar ao sr. tudo... tudo...
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Uma hora depois, o doutor saiu do apartamento dos Chelobityevs. Ele estava tão irritado, quão envergonhado, e satisfeito...
"Que diabo ... — pensava, sentando em seu trenó. — Nunca convém levar consigo muito dinheiro ao sair de casa! A gente nunca sabe com o que vai se deparar!”
Fonte: https://ostrovok.de/p/chekhov/mest-zhenshchiny.html
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