quarta-feira, 13 de fevereiro de 2019

MADAME CURIE

Por SELEÇÕES DO READER'S DIGEST



MADAME CURIE



(Seleção de Livros, Editora: Reader's Digest, 1951, p. 65-84)
"Teria sido um crime adicionar o mais leve ornato a essa história de minha mãe, tão semelhante a um mito" — escreve Eva Curie. "Não referi um só episódio de cuja autenticidade não tivesse a certeza; não inventei sequer a cor de um vestido. Os fatos deram-se tais como aqui narrados; as palavras são textualmente as pronunciadas na realidade.
A minha esperança é que o leitor possa sentir através deste livro o que, em Madame Curie, era ainda mais extraordinário que a sua obra ou a sua vida: a inflexível estrutura do seu caráter moral; a qualidade duma alma cuja excepcional pureza, nem a fama nem a adversidade podiam ter adulterado. Qualidade essa que levou Einstein a dizer dela: 'Maria Curie é, de todas as pessoas célebres, a única a quem a fama não corrompeu.'"


No outono de 1891, uma jovem emigrada polonesa, Maria Sklodovska, registrava-se, cheia de nervosismo, no curso de ciências da Sorbonne, em Paris. 

Os estudantes iriam daí em diante encontrar muitas vezes, nos corredores cheios de ecos de vozes e risos, essa moça tímida, de cara fechada e obstinada, que se vestia com a austeridade da pobreza, e perguntavam: "Quem é ela?" Mas a resposta era sempre vaga: "Uma estrangeira, com um desses nomes arrevesados. Senta-se sempre na primeira fila, nas aulas de Física." Os rapazes seguiam com os olhos sua graciosa silhueta pelos corredores afora e comentavam: "Bonito cabelo!" O cabelo dum louro cendrado e a cabecinha foram, por muito tempo, os únicos sinais que os estudantes da Sorbonne tiveram para identificar a sua tímida companheira de estudos. 

Mas os rapazes eram a coisa que menos interessava a essa moça concentrada, que os estudos científicos absorviam e fascinavam totalmente e que trabalhava com uma intensidade febril. Cada minuto que não dedicava ao estudo era, para ela, um minuto perdido. 

Demasiado tímida para cultivar relações com os franceses, Maria Sklodovska refugiava-se entre os seus compatriotas, cuja colônia formava uma espécie de ilhota da Polônia livre, no Quartier Latin de Paris. Aí sua vida era duma simplicidade monacal, só devotada ao estudo. Sua renda — fruto de suas próprias economias feitas na Polônia, onde trabalhara como governanta, e de pequenas somas que lhe podia mandar o pai, obscuro mas erudito professor de matemática — era cerca de 40 rublos por mês. Desse estipêndio — três francos por dia! — ela tinha de pagar o aluguel do seu modesto quarto, as refeições, o vestuário e os encargos universitários. 

Deliberadamente suprimiu do seu programa de vida as diversões, bem como as reuniões de amigos e criou-se uma existência espartana, estranha e quase desumana. Maria Sklodovska não admitia sequer a possibilidade de sentir fome ou frio. Para não comprar carvão, deixava muitas vezes de acender o fogãozinho de aquecimento e escrevia números e equações sem reparar que o frio lhe entorpecia os dedos e lhe punha um tremor nos frágeis ambros. Semanas seguidas, chegava a não se alimentar senão de pão com manteiga e chá. Quando queria banquetear-se, comprava dois ovos, ou uma barra de chocolate e uma fruta qualquer... 

Com semelhante regime, a robusta moça que partira de Varsóvia poucos meses atrás, foi-se rapidamente amenizando. Muitas vezes, ao se erguer da mesa de estudo, a cabeça lhe andava à roda. Mal tinha tempo de cair na cama, onde ficava sem sentidos. E quando voltava a si, ainda perguntava porque desmaiara. Julgava-se doente, mas desprezava a doença, como desprezava tudo que perturbasse seu trabalho. Nunca, nessas ocasiões, lhe passaria pela cabeça que a sua única doença era — a fome. 

Pierre Curie 

Maria tinha riscado as palavras amor e casamento do seu programa de vida espartana. Dominada pela paixão da ciência, aos 26 anos ainda estava orgulhosamente aferrada à sua independência. 

Surgiu então Pierre Curie. Francês e cientista de gênio, dedicara-se de alma e coração à pesquisa científica e aos 35 anos ainda estava solteiro. Era alto, possuía mãos longas e reveladoras de sensibilidade, uma barba áspera, e em todo ele uma expressão de rara inteligência e distinção. 

Encontraram-se pela primeira vez no laboratório, em 1894, e uma mútua simpatia logo os aproximou. Pierre Curie achou aquela taciturna Mlle. Maria Sklodovska uma pessoa verdadeiramente assombrosa. Que estranha coisa falar a uma mulher tão nova e encantadora, empregando somente termos técnicos, fórmulas complicadas... E como isso era, ao mesmo tempo, adorável!

Pierre olhava o cabelo louro cendrado de Maria, a sua alta fronte levemente convexa, as suas doces mãos de mulher já impregnadas dos ácidos de laboratório. A graça dela o desconcertava, com essa ausência de coquetismo que a tornava ainda mais atraente. 

Pierre Curie esforçou-se com gentil tenacidade por entrar em mais amistosas relações com a estudante. Perguntou se podia visitá-la. Cordial, mas com reserva, ela o recebeu no seu quartinho e Pierre, com o coração apertado por tanta pobreza que via, nem por isso deixou de apreciar o sutil acordo entre aquele caráter e o seu ambiente. Maria nunca lhe parecera mais bela do que naquele humilde ambiente, o pobre vestido gasto e as feições cheias de ardor e obstinação. O que o fascinou não foi só a total devoção dela ao trabalho, mas igualmente a sua coragem e nobreza de ânimo. Essa grácil jovem tinha o caráter e os dons de um grande espírito! 

Dentro de poucos meses Pierre Curie pedia Maria Sklodovska em casamento. Mas casar com um francês, deixar a família para sempre, abandonar a sua Polônia oprimida e bem-amada, parecia a Mlle. Sklodovska toda uma cadeia de pavorosas traições... Dez meses passariam, antes que a voluntariosa polonesa aceitasse a ideia do casamento. 

Pierre e Maria passaram os primeiros dias da sua vida em comum a percorrer a doce Île de France, pedalando em bicicletas compradas com o dinheiro que lhes tinha sido ofertado como presente de núpcias. Almoçavam pão com queijo e fruta, paravam ao acaso em estalagens desconhecidas e à custa de alguns milhares de pedaladas e de uns magros francos para alojamento, nas aldeias, compraram o raro luxo da solidão, durante longos dias e noites de encanto. 

O pequeno apartamento da rua Glacière, 24, onde o casal se alojou, brilhava singularmente pela falta de conforto. Mas recusaram, apesar disso, a mobília que o pai de Pierre teimava
em oferecer-lhes. Maria não tinha tempo para se ocupar de limpezas. As nuas paredes tinham por único enfeite os livros, duas cadeiras e uma mesa de pinho cru. Sobre a mesa viam-se tratados de Física, um candeeiro de querosene, um vaso com flores; isso era tudo. Na presença dessas duas cadeiras, nenhuma das quais lhe pertencia, o visitante mais intrépido só tinha uma coisa a fazer: era bater logo em retirada! 

Pouco a pouco Maria melhorou também em ciência doméstica. Inventou pratos que exigiam poucos preparos, ou se podiam deixar a cozer só por si. Antes de sair de casa, regulava a chama do gás com a precisão do físico; depois, relanceando um último olhar inquieto às caçarolas que ia assim deixar entregues ao cuidado do fogo, voava escada abaixo e ainda ia alcançar o marido no caminho. Daí a um quarto de hora, inclinada sobre outros recipientes, estaria regulando a chama dum bico de Bunsen, com o mesmo gesto cuidadoso. 

O segundo ano de matrimônio diferiu do primeiro só no estado de saúde de Mme. Curie, que a gravidez veio alterar. Maria desejara um filho, mas vexava-a sentir-se tão doente, que nem podia ficar de pé, junto do aparelho onde estudava então a magnetização do aço. 

Poderia supor-se que o estado de Maria servisse de aviso àqueles corações, aconselhando-os a passar um verão tranquilo. Nada disso. Com a inconsciência de dois loucos, foram de bicicleta para Brest, no oitavo mês da gravidez de Maria, cobrindo etapas tão longas quanto era seu costume. Mme. Curie declarava não sentir qualquer fadiga, e Pierre, por seu lado, já tinha o vago sentimento de que ela era um ser sobrenatural, refratário às leis naturais... 

Bem cedo, porém, a recém-casada se viu forçada, com grande humilhação, a interromper a viagem para regressar a Paris, onde deu à luz uma filha: Irene, um lindo bebê que mais tarde viria a receber o prêmio Nobel... 

A ideia de escolher entre os deveres de família e a carreira científica nem sequer passou pela cabeça de Maria: aceitou as duas responsabilidades. Dava banho à filhinha, punhas as panelas ao lume e continuava como dantes a trabalhar num laboratório onde tudo faltava — marchando tenazmente em direção ao mais importante descobrimento que se conhece na moderna ciência. 

A descoberta de rádio 

Pelos fins de 1897, o balancete da atividade de Maria mostrava dois diplomas universitários, uma bolsa de estudo e uma monografia sobre a magnetização do aço de têmpera. A etapa seguinte era o grau doutoral. Rebuscando materiais necessários ao seu plano de pesquisas para a tese de doutoramento, foi atraída por uma publicação recente do notável cientista francês Henri Becquerel. 

Becquerel tinha descoberto que os sais de urânio emitiam, espontaneamente, e sem serem expostos à luz, certas radiações de natureza desconhecida. Certo composto do urânio, colocado sobre uma chapa fotográfica envolta em papel preto, gravava uma impressão na chapa, através do papel. Era a primeira observação do fenômeno que Maria mais tarde batizou de radioatividade; mas a origem e a natureza da radiação permaneciam um enigma. 

A descoberta de Becquerel fascinou os esposos Curie. Perguntaram a si mesmos donde poderia vir a energia que os compostos de urânio constantemente liberavam, sob a forma de radiações. Aí estava um assunto de absorvente interesse para a investigação — um salto nos domínios do ignoto! 

Restava a questão de saber onde fazer as experiências e aí começavam os embaraços. Finalmente, graças ao diretor da Escola de Física, onde Pierre Curie lecionava, foi concedido a Maria o uso dum pequeno e úmido armazém do rés-do-chão, que escorria umidade, e onde se arrumavam as máquinas fora de uso. 

Num buraco desses a investigação científica não era fácil tarefa! E o clima do lugar, fatal para instrumentos de precisão tão sensíveis, não era muito melhor para a saúde de Maria. Mas isto pouco importava. Quando sentia frio, ela se vingava, registrando furiosamente as temperaturas no seu canhenho. 

Quanto mais Maria penetrava na intimidade dos raios de urânio, tanto mais eles lhe pareciam sem precedentes, essencialmente desconhecidos. Por fim, após laborioso exame de todos os corpos químicos então conhecidos, ela descobriu que os compostos de outro elemento, o tório, emitiam também radiações espontâneas, semelhantes às do urânio. Além disso, em cada caso a radioatividade se mostrava consideravelmente mais forte do que permitiam supor as quantidades de urânio, ou de tório, contidas nos corpos examinados. 

De onde viria essa radiação anormal? Só uma explicação parecia admissível: os minerais deviam conter, em pequena quantidade, uma substância muito mais poderosamente radioativa do que o urânio ou o tório. Mas que substância seria essa? No curso de suas experiências, Maria tinha examinado todos os elementos conhecidos da Química. E a cientista replicou a essa pergunta, com a audácia própria dos grandes espíritos: os minerais continham certamente uma substância radioativa que devia ser um elemento químico até então desconhecido. 

Um novo elemento! A hipótese era bem fascinante. Mas era preciso quebrar o incógnito da prodigiosa substância. A pesquisadora devia habilitar-se a dizer com toda a segurança: "Aqui está."

Pierre Curie, que seguia com apaixonado interesse o rápido progresso das experiências de sua mulher, abandonava agora as suas próprias pesquisas, para auxiliar nas dela. Dois cérebros e quatro mãos procuravam o elemento desconhecido, no úmido e lôbrego gabinete de trabalho e começava assim uma colaboração que iria durar oito anos, até que um acidente fatal lhe havia de por termo.

Pierre e Maria iniciaram pacientemente a sua prospecção, separando e medindo a radioatividade de todos os elementos na pechblenda, ou seja o minério de urânio. Mas, à medida que o campo da pesquisa se ia estreitando, as conclusões do casal Curie indicavam a existência de dois novos elementos, em vez de um só. Em julho de 1898 já lhes era possível anunciar a descoberta de uma dessas substâncias.

Maria chamou-lhe polônio, em homenagem à sua bem-amada Polônia.

Em dezembro de 1898 os Curie anunciavam a existência de um segundo elemento químico na pechblenda e davam-lhe o nome de rádio — cuja radioatividade acreditavam fosse de imensa utilidade.


O gênio - e um barracão


As propriedades especiais do rádio vinham transtornar as teorias fundamentais, em que os homens de ciência tinham acreditado durante séculos, e os físicos acolheram com reserva a descoberta. A atitude dos químicos foi ainda mais severa: por definição, um químico só acredita na existência duma nova substância quando a examina, quando a submete a reações com ácidos e determina seu peso atômico.

Ora ninguém vira nunca o radium. Ninguém conhecia seu peso atômico. Para provar a existência do polônio e do rádio, o casal Curie ia penar agora por mais quatro anos! Conheciam já o processo pelo qual esperavam isolar os dois novos metais, mas isso representava a laboração de grandes quantidades de material em bruto.

A pechblenda, em cujo seio o polônio e o rádio se ocultavam, era tratada nas minas de S. Joachimsthal, na Boêmia, para a extração dos sais de urânio empregados na fabricação de vidro. Era um minério dispendioso, mas, de acordo com os cálculos dos Curie, a extração do urânio deixaria intactos o polônio e o rádio. Nessas condições, por que não trabalhar com os resíduos industriais, que eram de tão pouco valor?

Conseguiram obter do governo austríaco uma tonelada desse refugo e começaram a trabalhar com ele num barracão abandonado, próximo do gabinete onde tinham feito as suas primeiras experiências. A Faculdade de Medicina noutro tempo fizera uso desse barracão como sala de dissecação, mas agora nem mesmo o considerava já bom para alojar cadáveres... Não tinha soalho e toda a sua mobília eram algumas mesas de cozinha, escalavradas, um quadro negro e uma velha fornalha de ferro fundido para cozinhar o refugo.

No estio, o barracão era quente e abafado como uma estufa; no inverno, a fornalha, mesmo quando aquecida ao rubro-branco, deixava zonas de frio pelos recantos... Contudo, uma vez que a instalação técnica não possuía chaminé para tiragem dos gases tóxicos, a maior parte do tratamento tinha de ser feita lá fora, no pátio.

"Assim mesmo (escrevia mais tarde Mme. Curie) foi nesse velho e arruinado barracão que passamos os melhores e mais felizes anos de nossa vida, inteiramente devotados ao trabalho. Eu levava muitas vezes o dia inteiro mexendo uma massa em ebulição, com uma barra de ferro quase do meu tamanho. Ao anoitecer, estava completamente arrasada de cansaço."

Em tais condições trabalhou o casal Curie desde 1898 até 1902. Nesse pátio, envergando uma bata branca toda empoeirada e manchada de ácidos, os cabelos desgrenhados pelo vento, envolta em fumos acres que lhe mordiam os olhos e a garganta, Maria era, só por si, uma verdadeira fábrica!

"Cheguei a tratar 20 quilos de refugo de cada vez (escreveu depois), o que tinha por efeito que o barracão se ia enchendo de grandes jarros de líquidos e precipitados. O esforço quase matava: carregar os receptores, transferir os líquidos e mexer, horas e horas de cada vez, a massa ebuliente numa bacia de fundição."

Os dias de trabalho fizeram-se meses e anos. Pierre e Maria não perdiam coragem. Às vezes, quando deixavam por momentos os seus aparelhos, para repousar, o que conversavam do seu rádio bem-amado já não era transcendente — era infantil.
— Que aspecto terá ele? — disse um dia Mme. Curie, com a febril curiosidade da criança a quem prometeram um brinquedo.
— Pierre, que forma achas tu que ele virá a tomar?...
— Não sei — respondeu docemente o sábio. — Mas gostaria que tivesse a de uma linda cor.

À medida que Maria, com uma paciência quase terrível, continuava a tratar quilo a quilo as toneladas de refugo da pechblenda recebida de S. Joachimsthal, nas velhas mesas do barracão iam-se acumulando produtos cada vez mais concentrados — mais e mais ricos de rádio. Ela estava já quase no fim; encontrava-se agora na fase de purificação de soluções fortemente radioativas. Mas a pobreza do seu equipamento de acaso, rudimentar, dificultava-lhe progressivamente o trabalho. Nesse barracão aberto a todos os ventos, a poeira de ferro e de carvão flutuava, misturando-se, para desespero de Maria, com os produtos purificados à custa de tantas penas. Seu coração se apertava, muitas vezes, em presença desses pequenos incidentes diários, que lhe roubavam tanto tempo e energia.

Pierre estava tão fatigado da interminável luta, que a teria abandonado, ao menos por algum tempo. Os obstáculos lhe pareciam insuperáveis. Não seria possível recomeçar mais tarde, em condições menos dificultosas?

Mas Pierre não contava com o caráter da esposa. Maria queria isolar o rádio e havia de isolá-lo mesmo. Dominou a fadiga e as dificuldades e até as lacunas do seu próprio saber, que lhe complicavam a tarefa. No fim de contas, ela era apenas uma cientista de poucos anos; e muitas vezes tropeçava com fenômenos ou métodos de cálculo, a respeito dos quais não sabia muito. Então, para compensar a sua ignorância, improvisava estudos às pressas.

Em 1902, quarenta e cinco meses após haverem os Curie anunciado a existência provável do rádio, Maria, por obra de uma obstinação sobre-humana, alcançou finalmente a vitória: conseguiu preparar um decigrama de rádio puro e determinar-lhe o peso atômico.

Os químicos não tiveram mais remédio senão inclinar-se ante os fatos: o rádio tinha, já, foros de existência oficial.

Vida bem dura

Desafortunadamente o casal Curie tinha outras lutas a travar, além das que travava com a Natureza no seu pobre laboratório. O salário de Pierre Curie na Escola de Física era de 500 francos por mês e, depois do nascimento da primeira filha, o ordenado duma nurse abriu grossas brechas no orçamento da família. Era urgente encontrar novas fontes de receita.

Em 1898 abria-se na Sorbonne uma vaga de Físico-química e Pierre decidiu candidatar-se a ela. Rendia 10.000 francos e representava menos horas de ensino. Mas a candidatura foi rejeitada. Pierre só viria a obter esse posto de professor em 1904, depois de vitoriado no mundo inteiro pelo seu mérito. Resignava-se por agora a aceitar um posto inferior na Sorbonne, cujas autoridades estavam mais que desejosas de lhe confiar cursos de importância secundária, para matar o tempo. Entretanto, Maria conseguiu um lugar de professora numa escola de meninas, perto de Versalhes.

O orçamento estava assim equilibrado, mas os Curie ficavam sobrecarregados com um tremendo excesso de trabalho, precisamente na altura em que as experiências com a radioatividade reclamavam todas as suas energias. Amigos de Pierre se esforçaram por colocar mais ao alcance dele aquela cátedra aparentemente inacessível. A entrada de Pierre para a Academia das Ciências reforçaria muito o seu prestígio e em 1902 insistiram com o sábio para que apresentasse a sua candidatura. Hesitou ele, primeiro, para mais tarde aceitar, mas sem entusiasmo. Parecia-lhe difícil andar de porta em porta, fazendo as visitas de praxe aos senhores acadêmicos. E dizer dos seus títulos, confessar a boa opinião que tinha de si mesmo, gabar o seu trabalho, eram coisas que pareciam exceder as suas forças. De maneira que fazia o elogio do seu concorrente, dizendo que M. Amagar era melhor qualificado do que ele mesmo, para dar entrada no Instituto e na Imortalidade... Os acadêmicos elegeram Amagar!

Pouco depois, Pierre recusava aceitar a Legião de Honra: parecia-lhe burlesco que um cientista, a quem se recusavam os meios de trabalhar, devesse receber, à guisa de encorajamento, uma cruzinha esmaltada e um fitilho de seda encarnada.

Os Curie continuaram a ensinar de boa vontade e sem despeito, dando ao trabalho o melhor dos seus esforços. Divididos entre o trabalho pessoal e o ganha-pão, esqueciam-se de dormir e de comer. Inconscientes da sua loucura, ambos abusavam de suas minguadas forças. Mais de uma vez Pierre foi forçado a recolher-se à cama, com ataques de insuportáveis dores nas pernas. Só a sua reserva de energias evitava que Maria caísse num estado de crise nervosa, mas a sua face pálida e emaciada causava apreensões aos amigos.

Desse modo cresceu e se desenvolveu a radioatividade, esgotando ao mesmo tempo, pouco a pouco, o casal de físicos que lhe tinha dado a vida.

Resolução de "pouca monta"

Rádio prodigioso! Purificado como um cloreto, revelou-se com aparência dum pó branco, bastante parecido com o sal de cozinha. Mas suas propriedades eram assombrosas. Sua radiação excedia todas as perspectivas, quanto à intensidade; provou ser dois milhões de vezes mais forte que a do urânio. Os raios atravessavam a matéria mais dura e opaca. Só uma grossa muralha de chumbo se mostrava capaz de deter o seu poder de penetração.

O derradeiro e mais emocionante milagre foi que o rádio podia tornar-se aliada da humanidade na luta contra o câncer. O rádio era útil — prodigiosamente útil — e a sua extração não tinha um interesse puramente experimental. A indústria do rádio estava a caminho da existência.

Desde que os efeitos terapêuticos do rádio se tinham divulgado, em vários países, sobretudo na Bélgica e nos Estados Unidos, vinham-se fazendo planos para exploração de minérios radioativos. Mas os engenheiros só poderiam produzir "o metal fabuloso", quando conhecessem o segredo das delicadas operações que isso implicava.

Todas estas coisas Pierre as explicava à mulher, certo domingo de manhã. Tinha acabado agora mesmo de ler uma carta de alguns técnicos norte-americanos, que pretendiam explorar o rádio na América, e lhe pediam informações.

— Temos dois caminhos à nossa escolha. — dizia Pierre Curie — Podemos descrever sem reserva os resultados da nossa investigação, incluindo os processos de purificação...

Aqui, Mme. Curie fez um gesto maquinal de aprovação e murmurou:
— Claro, claro.
— ... ou — prosseguiu Pierre Curie — podemos considerar-nos proprietários ou "inventores do rádio, requerer patente do nosso processo de tratamento da pechblenda e assegurar-nos uma percentagem sobre a fabricação do rádio em qualquer parte do mundo.

Maria refletiu durante alguns segundos. E depois disse:
— Não pode ser. Isso seria contrário ao espírito científico!

A fisionomia de Pierre Curie, sempre tão séria, iluminou-se. Para acalmar a própria consciência deteve-se no assunto, mencionando mesmo, com um breve riso, a única coisa a que lhe era cruel renunciar:
— Poderíamos talvez arranjar um belo laboratório...

O olhar de Maria Curie tornou-se fixo. Considerou intensamente essa ideia de lucro. E quase imediatamente a repeliu:
— Os físicos publicam sempre na íntegra os seus trabalhos de investigação. Se o nosso descobrimento tem um futuro comercial, é isso um puro acidente do qual não devemos tirar proveito. E o rádio vai ser de incalculável utilidade no tratamento de doenças!... É impossível (concluiu) procurar lucrar com isso.

Não precisava esforçar-se para convencer o marido. Bem sabia que ele falara em patentes só para tranquilizar os seus escrúpulos de consciência. As palavras que ela pronunciou, com tão firme segurança, exprimiam os sentimentos que lhes eram comuns, a sua infalível concepção do papel humanitário do cientista.

Pierre acrescentou, como que rematando um assunto de somenos importância:
— Vou então escrever a esses engenheiros americanos, dando-lhes a informação que pedem.

Um quarto de hora depois desta curta conversa matinal, os Curie pedalavam suas queridas bicicletas a caminho dos bosques. Tinham para sempre escolhido entre a fortuna e a pobreza. E regressaram à casa pelo anoitecer, exaustos e felizes, os braços carregados de folhas e flores silvestres...

O inimigo

Vinha agora o prelúdio da sinfonia, que em breve entraria no seu crescendo.

Em junho de 1903, a Royal Institution de Londres convidava oficialmente Pierre Curie para ali fazer conferências sobre o rádio. Um dilúvio de convites se seguiu, pois toda a Londres queria conhecer os progenitores do rádio.

Os Curie, embaraçados, aturaram aquilo alguns dias e depois regressaram ao seu barracão. Mas os anglo-saxões são fiéis às suas admirações. Em novembro de 1903 a Real Sociedade de Londres conferia a Pierre e Maria Curie uma de suas mais altas distinções: a medalha Davy.

Veio depois a homenagem da Suécia: a 10 de dezembro de 1903, a Academia das Ciências de Estocolmo anunciava que o prêmio Nobel de Física, para esse ano, seria concedido em partes iguais a Henri Becquerel e ao casal Curie, pelas suas descobertas no domínio da radioatividade.

Esse prêmio Nobel equivalia a 70.000 francos-ouro e aceitá-lo já não era "contrário ao espírito científico". Ocasião única para libertar Pierre das suas horas de ensino, para salvar-lhe a saúde! Quando o abençoado cheque lhes foi pago, foram presentes e empréstimos ao irmão de Pierre, às irmãs de Maria, contribuições para sociedades científicas e donativos a estudantes polacos, a um amigo de infância de Mme. Curie, etc...

Maria mandou também instalar um banheiro "moderno" no seu acanhado apartamento e por papel novo nas paredes dum quartinho inóspito. Mas pela cabeça nem lhe passou a ideia de comprar um chapéu novo, para comemorar o acontecimento! E continuou a dar lições, embora insistindo com Pierre para que deixasse a Escola de Física.

Quando a fama abriu sobre eles as suas asas, os telegramas se amontoaram na vasta mesa de trabalho, saíram nos jornais artigos aos milhares, os pedidos de autógrafos e fotografias foram às centenas, cartas de inventores e até poemas sobre o rádio... Um americano escreveu mesmo para saber se o autorizavam a dar a um cavalo de corrida o nome de "Marie".

Mas um permanente mal-entendido separava o casal Curie do público, que agora se voltava para eles em adoração. Tinham chegado ao momento que era talvez o mais patético de suas vidas: porque a missão dos Curie não se acabara e eles só pediam que os deixassem trabalhar.

Mas pouco se importava a fama com o futuro para o qual o casal Curie tendia com todas as suas forças. A fama se apodera dos grandes, pesa sobre eles, tenta deter-lhes o desenvolvimento.

A publicidade do prêmio Nobel levou milhões de pessoas a colocar a radioatividade, ainda então no estado embrionário, na categoria das vitórias definitivas, acabadas; e todos se esforçaram por se intrometer na intimidade do já lendário casal Curie. Esse frenesi de homenagens privou os Curie do único tesouro que eles desejavam preservar: silêncio e meditação.

Escrevia Mme. Curie na primavera de 1904: 
"(...) Sempre esta lufa-lufa. Todos nos impedem de trabalhar o mais que podem. Decidi agora fazer-me forte e não receber mais visitas — mas ainda assim me incomodam. A nossa existência ficou inteiramente desarranjada com as horas e a fama... A nossa vida de paz e trabalho está totalmente desorganizada." 
O que mais a fazia sofrer era o papel que o mundo queria que ela representasse; a sua natureza era tão exigente que, entre todas as atitudes exigidas pela fama, ela não podia escolher nenhuma: nem familiaridade, nem amizade maquinal, nem austeridade deliberada, nem modéstia espetaculosa... Não sabia como ser célebre. Uma irresistível timidez a congelava, assim que sentia os olhos da curiosidade assestarem-se nela.

Uma anedota, entre mil, caracteriza perfeita e admiravelmente a reação dos Curie às aclamações do público. O casal jantava uma noite no Eliseu com o presidente Loubet e sua esposa. No curso da soirée, a senhora do presidente perguntou a Mme. Curie:
— Gostaria que a a apresentasse ao rei da Grécia?
Inocente e delicadamente, Maria replicou, talvez com demasiada sinceridade:
— Não vejo que utilidade possa ter...
E logo, percebendo a estupefação de Mme. Loubet, ruborizou-se e disse com precipitação:
— Mas... decerto, decerto! Farei tudo que Madame entender! Exatamente como entender!

Como compensação para as devastações que a celebridade causara nas suas vidas, certas vantagens deveriam ter advindo aos Curie: uma cátedra na Sorbonne, o sonhado laboratório, os créditos e os colaboradores há tanto ambicionados. Mas todos esses prêmios legítimos do esforço, como sempre, haviam de chegar tarde.

Lado a lado

Ao atingir o termo da segunda gravidez, em 1904, Maria estava roçando pelo esgotamento. Foi preciso retirar-se da atividade. Interminável e penoso lhe foi esse feriado, Finalmente, a 6 de dezembro de 1904, nascia-lhe um bebê gorducho, com uma farta cabeleira preta, em caracóis. Outra filha: Eva.

Depressa Mme. Curie regressava à rotina da escola e do laboratório. Os Curie nunca eram vistos na sociedade. Mas nem sempre se podiam livrar dos banquetes de homenagem oficial a cientistas estrangeiros. Em tais ocasiões, Pierre envergava a sua casa luzidia e Maria punha o seu único vestido de soirée.

Esse vestido, que ela conservou muitos anos, para ser de tempos em tempos transformado pela modista, era de granadina preta. Qualquer mulher elegante o teria olhado com pena. Mas a discrição e a reserva, que eram a nota dominante do caráter de Mme. Curie, davam uma espécie de estilo a esse vestido. Quando ela enrolava o seu cabelo louro cendrado no alto da cabeça e timidamente suspendia um leve colar de filigrana de ouro em volta da garganta, era verdadeiramente requintada. Subitamente, o seu frágil corpo e sua face inspirada revelavam um penetrante encanto.
— É lástima! Um vestido de soirée fica-te à maravilha! — murmurou Pierre numa dessas ocasiões. — Mas aí está, não temos tempo para nada...

A 3 de julho de 1905, Pierre dava entrada na Academia, mas só por um fio não perdeu a eleição: vinte e dois membros votaram pelo seu opositor. Entretanto a Sorbonne havia criado para ele uma cadeira de Física - o lugar há tanto ambicionado. Mas ainda não havia laboratório em condições.

Mais oito anos de paciência iam ser precisos, antes que Marie pudesse instalar a radioatividade em quartéis dignos dela — instalações que Pierre, infelizmente, nunca chegaria a ver. A pungente ideia de que o companheiro tinha esperado em vão por esse belo laboratório — única ambição de sua vida inteira — nunca havia de abandoná-la, até ao fim da existência. 
"Madame Curie e eu estamos trabalhando (escrevia Pierre a 14 de abril de 1906) para dosear o rádio com precisão, pela quantidade de emanação que ele produz. Isso pode não parecer nada e, entretanto, aqui estamos nós a trabalhar há já alguns meses e só agora começamos a atingir resultados apreciáveis." 
Madame Curie e eu estamos trabalhando...

Essas palavras, escritas pelo físico ilustre, cinco dias antes de morrer, traduzem bem a essência e beleza duma união que nunca fraquejou. Cada passo à frente, no trabalho, cada vitória ou desapontamento pareciam ligar mais fortemente este marido e sua mulher. 

Entre esses dois iguais, que mutuamente se admiravam com paixão, sem nunca se invejarem, reinava uma camaradagem de trabalhadores, requintada e leve, que era talvez a mais delicada expressão de seu profundo amor. 

Na solidão 

Deviam ser umas duas e meia da tarde, na quinta-feira, 19 de abril de 1906 — dia chuvoso e abafado — quando, na Faculdade de Ciências, Pierre se despediu dos colegas com quem estivera almoçando e meteu à chuva que desabava sobre Paris. Ao tentar atravessar a rua Dauphine, distraidamente, o professor surgiu por trás duma carruagem, em frente dum pesado carro cujo cavalo ia a galope. Apanhado de surpresa, Pierre Curie quis ainda agarrar-se aos peitos do cavalo, que se empinou. Os calcanhares do físico escorregaram no pavimento úmido. O carroceiro ainda puxou as rédeas, mas em vão: o enorme carro, arrastado para diante pelo seu próprio peso de seis toneladas, rodou ainda alguns metros. A roda traseira da esquerda topou um débil obstáculo e esmagou-o ao passar... Os agentes ergueram da calçada um corpo quente mas inanimado: a vida de Pierre Curie apagara-se num abrir e fechar de olhos. 

Seis horas da tarde... Batem na porta da casa e Mme. Curie vai abrir, alegre e cheia de vida; mas logo, na atitude diferente e compungida dos visitantes, ela vê o sinal da condolência. O relato do trágico evento deixa-a paralisada, muda de espanto. Ao cabo dum silêncio pesado e longo, seus lábios descerram-se por fim, para dizer: 
— Pierre está morto? morto? irremediavelmente morto?... 

Desde o instante em que essas três palavras — Pierre está morto — lhe atingiram os centros de consciência, ela se tornou uma mulher digna de dó, incuravelmente solitária. 

Em poucas e lacônicas palavras rogou que o corpo de Pierre lhe fosse trazido para casa. Pediu a amigos que levassem Irene, a filha mais velha. Despachou um breve telegrama a seu pai, em Varsóvia. Depois, foi sentar-se lá fora, no jardinzinho solitário e molhado de chuva, com a fronte entre as mãos, o olhar fixo e vazio. Muda, inerte e surda, ali ficou esperando o companheiro de sua vida. 

Lenta, penosamente, a maca foi dando entrada pela estreita porta. O cadáver foi depositado num quarto do rés-do-chão e Maria Curie ficou a sós com o que fora seu marido. Beijou-lhe a face, prendeu-se àquele corpo flexível, ainda morno. Foi preciso levá-la à força para outra sala, para que ali não estivesse enquanto vestiam o morto. Obedeceu, meio inconsciente; mas, súbito, como tomada pela ideia de que se deixara roubar daqueles últimos momentos de companhia, voltou correndo e não mais largou o cadáver. 

Depois do funeral, o governo francês resolveu oficialmente conceder à viúva e órfãos do grande Pierre Curie uma pensão nacional. Mme. Curie recusou terminantemente: "Não quero uma pensão", disse ela, fazendo sentir o primeiro eco da sua habitual bravura de ânimo. "Sou nova o bastante para ganhar meu pão e o de minhas filhas." 

A 13 de maio de 1906, o conselho da Faculdade de Ciências decidiu por unanimidade confiar a cátedra de Pierre Curie, na Sorbonne, à sua viúva. Era a primeira vez que uma mulher recebia uma cátedra na esfera do ensino superior na França. 

Maria escutou distraidamente, quase com indiferença, os conselhos que o sogro lhe dava sobre a pesada missão, que ela se devia a si própria aceitar. Respondeu-lhe em poucas sílabas: "Vou tentar."

No dia da sua primeira conferência na Sorbonne, a multidão encheu as bancadas do pequeno anfiteatro, transbordando pelos corredores e na praça, lá fora. Toda a gente de pescoço estirado, para não perder vista da entrada de Mme. Curie. Quais seriam as suas primeiras palavras? Seriam de agradecimento ao ministro, à universidade? Falaria de Pierre Curie? Sim, não havia dúvida: o costume era começar pelo elogio do predecessor... 

Uma e meia... A porta do fundo abriu-se e Maria Curie marchou para a cátedra sob uma trovoada de aplausos. Inclinou a cabeça. Era em verdade um breve e seco gesto de saudação. De pé, esperou que a ovação cessasse. E ela cessou de repente. 

A viúva de Pierre Curie olhou bem direito em frente e começou: 
"Quando consideramos o progresso realizado na Física, nestes últimos dez anos, ficamos surpreendidos com o avanço que teve lugar em nossas ideias relativamente a eletricidade e a matéria..." 

Mme. Curie retomava o curso precisamente na mesma frase que o interrompera Pierre Curie, seu marido! As lágrimas borbulharam de muitos olhos e correram em muitas faces dos alunos presentes.

Tendo chegado, sem fraquejar, ao termo da sua árida exposição, Maria retirou-se pela pequena porta, tão depressa quanto tinha entrado. 

Triunfos e provações 

A fama pessoal de Mme. Curie começava agora a subir e a se espalhar como um foguetão de lágrimas. Os diplomas e títulos honoríficos das academias estrangeiras choviam-lhe às dúzias. E embora a Academia das Ciências recusasse honrá-la com uma cadeira — perdeu a eleição por um voto apenas! — a Suécia conferiu-lhe o prêmio Nobel da Química, para 1911. Nenhum homem ou mulher foi jamais considerado digno de receber duas vezes semelhante recompensa. 

A Sorbonne e o Instituto Pasteur juntaram esforços para fundar o Instituto do Rádio, constituído por duas seções: um laboratório de radioatividade, dirigido por Mme. Curie, e um laboratório de pesquisa biológica para o estudo do tratamento do câncer, confiado a um médico eminente. Contra o conselho da família, Maria fez ao laboratório o donativo de um grama de rádio, no valor de mais de 1 milhão de francos-ouro, que ela e Pierre tinham preparado por suas próprias mãos. Até ao fim da vida, esse laboratório se manteve como fulcro da sua existência. 

Declarada a guerra, em 1914, Mme. Curie pôs-se de alma e coração ao serviço da pátria adotiva. Descobrindo que os hospitais não dispunham de material de raios X adequado, por meio do qual se localizassem as balas e estilhaços de granada no corpo dos feridos, reconheceu imediatamente a sua missão: era preciso criar sem demora um grande número de estações radiológicas. Empreendeu uma peregrinação junto aos fabricantes e dos laboratórios universitários, para recolher todos os aparelhos de raios X que fosse possível utilizar e depois distribuiu-os pelos hospitais das imediações de Paris. Entre professores, engenheiros e homens de ciência, foram recrutados os operadores voluntários. 

Para serviço de ambulância junto ao front, Mme. Curie criou, com fundos ministrados pela União Feminina da França, o primeiro "carro radiológico": um automóvel em que instalou um aparelho Roentgen e um dínamo acionado pelo motor do próprio veículo. Esse posto móvel, completo, circulou de hospital em hospital, desde agosto de 1914 em diante. Foi o único de que se dispunha durante a memorável batalha do Marne. 

Mais tarde, um a um, outros carros deste tipo foram sendo aparelhados por Maria Curie. Deram-lhes por isso a alcunha de "pequenos Curie". Essa mulher de gênio e ação ralhava com os funcionários vagarosos, exigia passes e requisições, não tinha sossego enquanto não via os carros a serviço. Ela própria trabalhou muitas vezes com um deles, no front. Instalou, além disso, vinte gabinetes de radiologia. O número total dos feridos examinados por esses 220 postos, fixos e móveis, passou do milhão. 

Insensível ao desconforto, Mme. Curie nunca reclamou qualquer consideração especial no curso desse trabalho. Não se queixava de fadiga nem do cruel efeito dos raios X sobre a sua saúde, nem do risco de cair sob o fogo do inimigo. Não recebeu sequer uma citação pelos seus serviços excepcionais durante a guerra; mas tinha consciência de haver servido a França. 

A América 

Em 1920 as mulheres da América reuniram 100.000 dólares para a compra de 1 grama de rádio, que ia ser oferecido a Mme. Curie. Em troca, rogaram a esta que lhes fizesse uma visita.

Ela hesitou primeiro. Mas, tocada pela magnânima generosidade, dominou seus receios e, aos 54 anos, aceitou pela primeira vez as pesadas obrigações duma grande jornada oficial. 

Uma multidão monstro a esperou a pé firme, no cais de desembarque, durante cinco horas. Desde o momento da chegada tornou-se evidente quanto a tímida Mme. Curie significava para a América. Antes mesmo de conhecê-la, os americanos já a envolviam numa devoção quase religiosa; agora o seu preito seria ilimitado. 

Não pretendo definir aqui a alma dum povo; mas a onda de irreprimível entusiasmo com que os Estados Unidos saudaram a vinda de Mme. Curie não deixava de ter uma profunda significação. Os latinos concedem que os americanos têm gênio prático, mas por ato de singular vaidade se reservam o monopólio do idealismo. E, no entanto, foi uma onda de idealismo que veio rebentar aos pés de Mme. Curie. Uma sábia que fosse segura de si, altaneira, enriquecida pelas suas descobertas, teria talvez provocado curiosidade; mas não teria podido desencadear essa ternura coletiva... Para cima e para além da alarmada cientista, os americanos aclamavam uma atitude perante a vida, que profundamente os comovia: o desprezo do lucro, a paixão intelectual, o desejo de bem-servir. 

Todas as universidades da América do Norte tinham convidado a Sra. Curie a visitá-las. Esperavam-na medalhas, graus e títulos honoríficos às dúzias... Mas ela ficou aturdida com o ruído e as aclamações. O olhar fixo de milhares de pessoas a apavorava, assim como a veemência com que todos se queriam aproximar para vê-la de perto. Sentia-se vagamente assustada, à ideia de ficar esmagada numa dessas terríveis voragens... A certa altura sentiu-se demasiado fraca para continuar a viagem e, a conselho dos seus médicos assistentes, julgou oportuno regressar à França. 

Ao mesmo tempo que fatigada, sentia-se contente. A mais teimosa das modéstias não lhe podia ocultar o fato de que o seu êxito pessoal nos Estados Unidos tinha sido tremendo e que ela tinha conquistado o coração de milhões de norte-americanos. 

Creio que a viagem à América ensinou à minha mãe que o seu isolamento voluntário era paradoxal. Como investigadora, ela podia isolar-se do mundo e do século, para se consagrar por completo ao seu trabalho pessoal. Mas Mme. Curie, aos 55 anos, era alguma coisa mais do que uma simples investigadora de gênio: o prestígio do seu nome era tal que só pelo ato de presença ela podia assegurar o triunfo de qualquer projeto que lhe fosse caro ao coração. Desde esse momento ela iria, pois, reservar lugar para essas missões na sua existência. 

As viagens sucederam-se, todas parecidas. Congressos científicos, conferências, cerimônias universitárias e visitas a laboratórios, levaram Mme. Curie a grande número de capitais. Por toda a parte aclamada e festejada. Procurou tornar-se útil. Era forçada com frequência a lutar contra uma saúde vacilante. 

Varsóvia construíra por subscrição popular um instituto de rádio — o Instituto Maria Sklodovska Curie — e as mulheres da América mais uma vez fizeram o milagre de reunir fundos para a compra de um grama de rádio para esse Instituto — o segundo grama de rádio que a América do Norte oferecia a Mãe. Curie! Os acontecimentos de 1921 se repetiram: em outubro de 1929 Mme. Curie embarcava novamente para os Estados Unidos. Foi hóspede do presidente Hoover, que a reteve alguns dias na Casa Branca. 

Nada, porém, se tinha alterado nela: nem o medo físico às grandes multidões, nem a sua incurável inaptidão para a vaidade. A despeito dos esforços mais honestos, não conseguiu jamais acostumar-se à celebridade. Era sempre o laboratório — e seus jovens cientistas — que tinham o primeiro lugar no coração de Maria Curie. "Não sei se seria capaz de viver sem o meu laboratório", escreveu ela um dia. 

Para compreender essa confissão, seria preciso tê-la visto presa ao seu aparelho. Mas, para imprimir às suas feições uma sublime expressão de êxtase e absorção, não era precisa nenhuma experiência de excepcional valor: uma operação complicada de modelação em vidro (os trabalhadores de laboratório são geralmente forçados a soprar e modelar os seus próprios instrumentos de vidro), coisa em que ela era artista, ou uma medição rigorosamente feita, bastavam para enchê-la duma imensa alegria. Falhando uma experiência, parecia fulminada por um desastre. Sentada, com os braços cruzados, as costas abauladas, o olhar vazio, fazia pensar nalguma velha camponesa, emudecida e acabrunhada por um golpe do destino. 

O fim da missão 

Até ao fim da vida, Mme. Curie continuou trabalhando com intensidade singular e a singular imprudência que sempre a caracterizara. Recusara sempre tomar as precauções que tão severamente impunha a seus discípulos: manipular com pinças os tubos de substâncias radioativas, nunca tocar em tubos desprotegidos, empregar "escudetes" de chumbo como anteparo das perigosas radiações. Dificilmente se deixava submeter aos testes de sangue, que eram de regra no Instituto do Rádio. Seu conteúdo sanguíneo era anormal. E depois?...

Mme. Curie tinha manipulado e respirado as emanações do rádio durante 35 anos. Durante os quatro anos da guerra estivera exposta às radiações, ainda mais perigosas, do aparelho Roentgen. Uma ligeira deterioração do sangue, queimaduras dolorosas e incômodas nas mãos, não eram, afinal de contas, punição demasiado severa, dado o número de riscos que ela tinha corrido. 

Maria ligou pouca atenção à febrezinha que começava a importuná-la. Mas em maio de 1934 um ataque de gripe levou-a à cama, de onde não mais se levantaria. Quando, por fim, aquele robusto coração deixou de pulsar, a ciência pronunciou o veredito que a condenara. Os sintomas anormais, os estranhos testes de sangue, sem precedentes, tudo acusava o verdadeiro culpado: o rádio! 

No dia 4 de julho de 1934, uma sexta-feira, sem que estivesse presente um político ou um representante oficial, Mme. Curie foi tomar modestamente o seu lugar entre os mortos. Foi sepultada ao lado de Pierre Curie, no cemitério de Sceaux, na presença, tão só, de parentes, de amigos e dos seus cooperadores que tanto a amaram.


Fonte: READER'S DIGEST. Seleção de Livros, Editora: Reader's Digest, 1951, 207 p. 


AGRADECIMENTO

A Rute Pardini Braga pela foto que tirou e editou para os fins desta matéria.

terça-feira, 5 de fevereiro de 2019

PEREGRINAÇÃO JUBILAR DO PAPA JOÃO PAULO II À GRÉCIA


Por Francisco José dos Santos Braga


São João Paulo II (⭐︎ Wadowice, Polônia, 18/05/1920 ✞ Vaticano, 02/04/2005)






INTRODUÇÃO

Antes de adentrar no objeto principal do artigo, cujo cerne é a viagem de João Paulo II à Grécia, devo esclarecer que esse pontífice ficou conhecido como o “Papa da Família e Peregrino”. Ao início de seu pontificado em 22/10/1978, anunciou a sua recomendação de que "não devíamos temer; antes, procurar abrir, melhor, escancarar as portas a Cristo" ¹, palavras que ecoaram por toda a Igreja de tal forma que aquela data se tornou a marca registrada do papa polonês, sendo esse mesmo dia (22 de outubro) considerado a data da memória litúrgica do santo.

Mas, apenas para relembrar o seu amor por nossa terra, relembro que ele veio ao Brasil 4 vezes: entre 30 de junho e 12 de julho de 1980 (viagem oficial), junho de 1982 (permaneceu apenas no aeroporto, quando ia para a Argentina em 1982, onde fez um rápido discurso durante a escala de seu voo no Rio de Janeiro), 12 a 21 de outubro de 1991 (viagem oficial) e, por fim, viagem oficial entre 2 e 6 de outubro de 1997 (Rio de Janeiro).

AÇÕES PREPARATÓRIAS PARA A PEREGRINAÇÃO  JUBILAR 


Para situar bem a temática deste artigo, inicialmente vejamos algumas datas importantes e anteriores que preparam a peregrinação do Sumo Pontífice pelo caminho do Apóstolo Paulo na Grécia, Síria e Malta, que consistiu de 5 dias, com 19 discursos. São relevantes as seguintes datas, a meu ver:

1) 10 de novembro de 1994: o Papa assina a Carta Apostólica “Tertio Millennio Adveniente” (Pela chegada do Terceiro Milênio) com as indicações para o Grande Jubileu do ano 2000.

Gostaria de destacar alguns trechos da Carta Apostólica, que, a meu ver, dão a real dimensão do Grande Jubileu do Ano 2000:

Mais alguns meses, portanto, e estaremos vivendo o Grande Jubileu do Ano 2000. Será, sem dúvida alguma, um “Ano de graça do Senhor”. Segundo o Papa, haverá uma nova primavera de vida cristã, “se os cristãos forem dóceis à ação do Espírito Santo” (TMA 18).

Importa, pois, preparar nosso coração para esse acontecimento, tendo “uma particular sensibilidade por tudo quanto o Espírito Santo diz à Igreja e às Igrejas (cf. Ap 2,7)” (TMA 23). A Igreja “não pode transpor o limiar do novo milênio sem impelir os seus filhos a se purificarem, pelo arrependimento, de erros, infidelidades, incoerências, retardamentos.” (TMA 33).

“Cada um é convidado a fazer tudo quanto esteja ao seu alcance para que não fique transcurado o grande desafio do ano 2000, ao qual está seguramente ligada uma particular graça do Senhor para a Igreja e para a humanidade inteira.” (TMA 55).

2) 29 de novembro de 1998: Bula Papal de Proclamação do Grande Jubileu do Ano 2000 “Incarnationis Mysterium”.

Gostaria de destacar um trecho da Bula Papal que prevê o início do Grande Jubileu do Ano 2000:

“Estabeleço que o Grande Jubileu do Ano 2000 tenha início na noite de Natal de 1999, com a abertura da porta santa da Basílica de S. Pedro, no Vaticano.
Estabeleço que a inauguração do Jubileu nas Igrejas Particulares seja celebrada no dia santíssimo do Natal do Senhor Jesus, com uma solene Liturgia Eucarística presidida pelo Bispo diocesano…” (João Paulo II, IM 6).

3) 24 de dezembro de 1999: o Papa abre a Porta Santa da Basílica de São Pedro, inaugurando assim o Jubileu do Ano 2000.

4) 12 de março de 2000: em uma cerimônia de "autopurificação" sem precedentes na história do catolicismo, João Paulo II pede "perdão" a Deus pelos pecados cometidos no passado pelos católicos contra os judeus.

Toda a preparação contida nas iniciativas anteriores desagua na Peregrinação Jubilar “Seguindo os Passos de São Paulo Apóstolo” na Grécia, Síria e Malta, com duração de 5 dias (4 a 9 de maio de 2001), quando 19 discursos foram proferidos por Sua Santidade.

NOTÍCIA SOBRE O ENCONTRO COM O ARCEBISPO LÍDER DA IGREJA ORTODOXA GREGA

Durante as suas viagens de 2001, João Paulo II se tornou o primeiro papa a visitar a Grécia em 1291 anos. Em Atenas, o papa se encontrou com Cristódoulos de Atenas, o arcebispo líder da Igreja Ortodoxa Grega. Após um encontro privado de 30 minutos, os dois falaram ao público. Christódoulos leu uma lista de "13 ofensas" da Igreja Católica contra a Igreja Ortodoxa desde o Grande Cisma, incluindo o saque de Constantinopla pelos cruzados (1204), e reclamou pela falta de um pedido de desculpas da Igreja Católica Romana, afirmando "Até agora, não se conhecia um único pedido de perdão" pelos "cruzados maníacos do século XIII".

O papa respondeu dizendo "Pelas vezes, passadas e presentes, quando filhos e filhas da Igreja Católica pecaram, por ação ou omissão, contra nossos irmãos e irmãs ortodoxos, que o Senhor nos conceda o perdão", ao que Christódoulos imediatamente aplaudiu. João Paulo II disse que o saque de Constantinopla era a causa de um "profundo pesar" para os católicos. Posteriormente, João Paulo e Christódoulos se encontraram no lugar onde São Paulo um dia pregara para os cristãos atenienses. Ali, eles emitiram um "comunicado conjunto", dizendo "Faremos tudo o que estiver em nosso poder para que as raízes cristãs da Europa e a sua alma cristã seja preservada. (...) Nós condenamos todos os recursos à violência, ao proselitismo e ao fanatismo em nome da religião". Os dois líderes então rezaram o Pai Nosso juntos, quebrando um antigo tabu ortodoxo contra rezar juntamente com católicos.

É bom registrar aqui, mesmo estando fora do escopo do artigo, que o Papa sempre afirmou, por todo o seu pontificado, que um dos seus grandes sonhos era visitar a Rússia, mas isso jamais ocorreu. Ele tentou resolver os problemas que surgiram durante a história entre a Igreja Católica e a Igreja Ortodoxa Russa, como quando ele determinou a devolução à Igreja Ortodoxa Russa do ícone de "Nossa Senhora de Kazan", a "Theotókos" (Mãe de Deus) e sempre Virgem Maria. No dia 28 de agosto de 2004, a "Solenidade da gloriosíssima Dormição da Theotókos", delegação representativa da Igreja Católica, chefiada pelo cardeal Walter Kasper, presidente do Pontifício Conselho para a Promoção da Unidade dos Cristãos, entregou o ícone, depois de um solene ofício na Catedral da Dormição, no Kremlin, em Moscou, em que participaram numerosos fiéis.

Fonte: https://pt.wikipedia.org/wiki/Papa_Jo%C3%A3o_Paulo_II 



PROGRAMAÇÃO PARA SEXTA-FEIRA, 4 DE MAIO DE 2001 


Sexta-feira, 4 de maio de 2001, 08h 28min

O papa João Paulo II pediu "perdão" nesta sexta-feira em Atenas, diante do chefe da Igreja Ortodoxa grega, Sua Beatitude Christódoulos, pelos católicos "que pecaram contra os ortodoxos". João Paulo II destacou esta sexta-feira em Atenas ante o presidente grego Kostís Stephanópoulos que o recebeu no palácio presidencial o papel da Grécia na Europa como ponte entre Oriente e Ocidente e defendeu a unificação dos cristãos. "A vocação natural da Grécia é edificar pontes e construir uma cultura de diálogo. Isto é hoje essencial para o futuro da Europa", declarou o Papa em seu discurso inicial. "Numerosos muros foram derrubados em um período recente, mas há outros ainda de pé. A tarefa da unificação entre as partes orientais e ocidentais da Europa continua sendo complexa", acrescentou o chefe da Igreja Católica.

O Papa agradeceu enfaticamente o convite do presidente grego para visitar a Grécia. A Igreja Ortodoxa grega, abertamente antipapista, aceitou de má vontade esta visita depois de ter sido colocada diante de um fato consumado pelo convite do presidente grego durante uma visita ao Vaticano, em janeiro passado.

Em seu discurso, o Papa defendeu a unificação das duas igrejas cristãs. "Ainda resta muito a fazer pela harmonia entre os cristãos de Oriente e Ocidente, para que a Igreja possa respirar com seus dois pulmões. Todo fiel deve sentir-se comprometido em conseguir esse objetivo", disse João Paulo II, que pareceu em boa forma, insistiu no fato de estava na Grécia como "peregrino, seguindo os passos de São Paulo, cuja memória está gravada para sempre no solo deste país".

Resumidamente, foram estas as cerimônias previstas para o dia 04/05/2001, todas fartamente documentadas:

4/5/2001 Encontro com Sua Beatitude Christódoulos, Arcebispo de Atenas e de toda a Grécia
https://w2.vatican.va/content/john-paul-ii/pt/speeches/2001/may/documents/hf_jp-ii_spe_20010504_archbishop-athens.html

4/5/2001 Declaração conjunta do Santo Padre e do Arcebispo de Atenas e de toda a Grécia
https://w2.vatican.va/content/john-paul-ii/pt/speeches/2001/may/documents/hf_jp-ii_spe_20010504_joint-declaration.html

4/5/2001 Encontro com os bispos católicos da Grécia
https://w2.vatican.va/content/john-paul-ii/pt/speeches/2001/may/documents/hf_jp-ii_spe_20010504_bishops-greece.html

4/5/2001 Visita à Catedral católica de São Dionísio
https://w2.vatican.va/content/john-paul-ii/pt/speeches/2001/may/documents/hf_jp-ii_spe_20010504_san-dionigi.html

PROGRAMAÇÃO PARA SÁBADO, 5 DE MAIO DE 2001 



CONCELEBRAÇÃO EUCARÍSTICA NO PALÁCIO DE DESPORTOS

HOMILIA DO SANTO PADRE

Porto de Piréus, 5 de maio de 2001



Queridos Irmãos e Irmãs

1. "O que venerais sem conhecer é que eu vos anuncio" (Act 17, 23).

Narradas nos Atos dos Apóstolos, estas palavras de Paulo pronunciadas no Areópago de Atenas constituem um dos primeiros anúncios da fé cristã na Europa. "Se se pensa no papel que a Grécia teve na formação da cultura antiga, compreende-se a razão por que aquele discurso de Paulo pode considerar-se, de algum modo, o próprio símbolo do encontro do Evangelho com a cultura humana" (Carta Sobre a peregrinação aos Lugares relacionados com a história da salvação, n. 9).

"Aos santificados em Jesus Cristo, chamados à santidade, com todos os que, em qualquer lugar, invocam o nome de Jesus Cristo Senhor deles e nosso: Graça e paz vos sejam dadas da parte de Deus, nosso Pai, e da do Senhor Jesus Cristo" (1 Cor 1, 2-3). Com estas palavras dirigidas pelo Apóstolo à comunidade de Corinto, saúdo-vos com afeto a todos vós, Bispos, Sacerdotes e leigos católicos que viveis na Grécia. Em primeiro lugar, agradeço a D. Fóscolos, Arcebispo católico de Atenas e Presidente da Conferência Episcopal da Grécia, o seu acolhimento e as suas gentis palavras. Dirijo também a minha saudação a todos os Cardeais, Bispos, sacerdotes, religiosos e religiosas presentes nesta celebração. Reunidos esta manhã para a celebração eucarística, pediremos ao Apóstolos Paulo que nos dê o seu fervor na fé e no anúncio do Evangelho a todas as nações, bem como a sua solicitude pela unidade da Igreja. Alegro-me com a presença na Divina Liturgia de fiéis de outras confissões cristãs, que testemunham também a atenção que prestam à vida da comunidade católica e a sua comum fraternidade em Cristo.

2. Paulo recorda claramente que não podemos circunscrever Deus às nossas maneiras de ver e de agir totalmente humanas. Se desejamos acolher o Senhor, somos chamados à conversão. Eis o caminho que nos é proposto, caminho que nos faz seguir Cristo a fim de viver como ele, filhos no Filho. Então podemos considerar o nosso caminho pessoal e o da Igreja como uma experiência pascal; é preciso que nos purifiquemos para estarmos plenamente em sintonia com a vontade divina, aceitando que Deus, mediante a sua graça, transforme o nosso ser e a nossa existência, como no caso de Paulo que, sendo perseguidor se tornou missionário (cf. Gal 1, 11-24). Vivemos também a prova da Sexta-Feira Santa, com os seus sofrimentos, com as noites da fé, com as incompreensões recíprocas. Mas também vivemos momentos de luz, semelhantes ao alvorecer da Páscoa, quando o Ressuscitado nos comunica a sua alegria e faz com que cheguemos à verdade total. Encarando desta forma a nossa história pessoal e a história da Igreja, não podemos deixar de ter esperança, com a certeza de que o Mestre da história nos conduz por caminhos que só Ele conhece. Peçamos ao Espírito Santo que nos incentive a sermos, através das nossas palavras e ações, testemunhas da Boa Nova e da caridade de Deus! Com efeito, é o Espírito que suscita o fervor missionário na sua Igreja, é Ele quem chama e quem envia, e o verdadeiro apóstolo é em primeiro lugar um homem "à escuta", um servidor disponível para a ação de Deus.

3. Recordar em Atenas o caminho e a ação de Paulo, é como ser convidados a anunciar o Evangelho até aos extremos confins da terra, propondo aos nossos contemporâneos a salvação dada por Cristo e mostrando-lhes os caminhos da santidade e a orientação moral reta que constituem as respostas à chamada do Senhor. O Evangelho é uma Boa Nova universal, que todos os povos podem compreender.

Ao dirigir-se aos atenienses, São Paulo não esconde nada da fé que recebeu; ele deve, como todos os apóstolos, conservar fielmente o seu depósito (cf. 2 Tim 1, 14). Se ele parte das referências habituais dos seus ouvintes e das suas maneiras de pensar, é para fazer com que eles compreendam melhor o Evangelho que lhes quer levar. Paulo baseia-se no conhecimento natural de Deus e no profundo desejo espiritual que os seus interlocutores podem sentir, para os preparar para aceitarem a revelação do Deus único e verdadeiro.

Se ele pôde citar perante os atenienses os autores da Antiguidade clássica, foi porque, de uma certa forma, a sua cultura pessoal tinha sido forjada pelo helenismo. Por conseguinte, dele se serviu para anunciar o Evangelho com palavras que podem arrebatar os seus ouvintes (cf. Act 17, 17). Que lição! Para anunciar a Boa Nova aos homens do nosso tempo, a Igreja deve estar atenta aos diferentes aspectos das suas culturas e aos seus meios de comunicação, sem que isto leve a alterar a sua mensagem ou a diminuir o sentido do seu alcance. "O cristianismo do terceiro milénio deverá responder cada vez melhor a esta exigência de inculturação" (Novo millennio ineunte, 40). O discurso magistral de Paulo convida os discípulos de Cristo a iniciar um diálogo verdadeiramente missionário com os seus contemporâneos, no respeito do que eles são, mas também com um propósito claro e forte do Evangelho, bem como das suas implicações e das suas exigências na vida das pessoas.

4. Irmãos e Irmãs, o vosso País goza de uma longa tradição de sabedoria e de humanismo. Desde as origens do cristianismo, os filósofos empenharam-se por "mostrar a ligação entre a razão e a religião. [...] Esboçou-se assim um caminho que, saindo das antigas tradições particulares, levava a um desenvolvimento que correspondia às exigências da razão universal" (Fides et ratio, 36). Este trabalho dos filósofos e dos primeiros apologistas cristãos permitiu sucessivamente iniciar, no seguimento de São Paulo e do seu discurso em Atenas, um diálogo fecundo entre a fé cristã e a filosofia.

Seguindo o exemplo de São Paulo e das primeiras comunidades, é urgente criar ocasiões de diálogo com os nossos contemporâneos, sobretudo nos lugares em que se decide o futuro do homem e da humanidade, para que as decisões tomadas não sejam condicionadas apenas pelos interesses políticos e económicos que não têm em conta a dignidade das pessoas e as exigências que dela derivam, mas que seja para vós como um suplemento de alma que recorde o lugar insigne e a dignidade do homem. Os areópagos que hoje solicitam o testemunho dos cristãos são numerosos (cf. Redemptoris missio, 37); encorajo-vos a estar presentes no mundo; como o profeta Isaías, os cristãos estabelecem-se como sentinelas em cima da muralha (cf. Is 21, 11-12), a fim de discernir as orientações humanas das atuais situações, de descobrir na sociedade os germes da esperança e anunciar ao mundo a luz da Páscoa, que ilumina com uma nova luz todas as realidades humanas.

Cirilo e Metódio, os dois irmãos de Salônica, receberam o mandamento do Ressuscitado: "Ide pelo mundo inteiro e anunciai a Boa Nova a toda a criatura" (Mc 16, 15). Tendo partido ao encontro dos povos eslavos, souberam anunciar-lhes o Evangelho na sua própria língua. Eles não só "desempenharam a sua missão com todo o respeito pela cultura que já existia entre os povos eslavos, mas promoveram-na e incrementaram-na de modo iminente e incessante ao cultivarem a religião" (Slavorum apostoli, 26). Oxalá o seu exemplo e a sua oração nos ajudem a responder sempre melhor à exigência da inculturação e faça com que rejubilemos com a beleza deste aspecto multiforme da Igreja de Cristo!

5. Na sua experiência pessoal de crente e no seu ministério de apóstolo, Paulo compreendeu que Cristo era o único caminho de salvação, Ele que, mediante a graça, reconcilia os homens consigo e com Deus. "Ele é a nossa paz, Ele que de dois povos fez um só, destruindo o muro de inimizade que os separava" (Ef 2, 14).

Dali em diante o Apóstolo tornou-se defensor da unidade, no meio das comunidades e entre elas, porque nele ardia a "solicitude por todas as Igrejas" (cf 2 Cor 11, 28)!

A paixão da unidade da Igreja deve ser a de todos os discípulos de Cristo. "Infelizmente, os tristes legados do passado vão acompanhar-nos ainda para além do limiar do novo milénio... há ainda tanto caminho a percorrer" (Novo millennio ineunte, 48). Mas não nos deixemos desencorajar; o nosso amor pelo Senhor impele-nos a empenhar-nos cada vez mais em favor da unidade. Para dar novos passos nesta direção, é importante "partir de Cristo" (ibid., 29).

"É sobre a oração de Jesus, não sobre as nossas capacidades, que assenta a confiança de poder chegar, também na história, à comunhão plena e visível de todos os cristãos... A lembrança do tempo em que a Igreja respirava com os dois "pulmões", estimule os cristãos do Oriente e do Ocidente a caminharem juntos, na unidade da fé e no respeito das legítimas diferenças, aceitando-se e ajudando-se uns aos outros como membros do único Corpo de Cristo" (Ibid., 48)!

A Virgem Maria acompanhou com a sua oração e com a sua presença materna o caminho e a missão da primitiva comunidade cristã, à volta dos Apóstolos (cf. Act. 1, 14). Ela recebeu com eles o Espírito do Pentecostes! Que ela vigie sobre o caminho que nós agora devemos percorrer, a fim de nos encaminharmos rumo à plena unidade com os nossos irmãos do Oriente e de cumprirmos juntos, com disponibilidade e entusiasmo, a missão que Jesus Cristo confiou à sua Igreja. Que a Virgem Maria, tão venerada no vosso País e particularmente nos santuários das Ilhas, como Virgem da Anunciação na Ilha de Tinos, e sob o título de Nossa Senhora da Graça, em Faneroméni, na Ilha de Siros, nos guie sempre para o seu Filho Jesus (cf. Jo 2, 5). E Ele é o Cristo, o Filho de Deus, "a luz verdadeira que, vindo ao mundo, a todo o homem ilumina" (Jo 1, 9)!

Fortalecidos pela esperança que nos é dada por Cristo e sustentados pela oração fraterna de todos os que nos precederam na fé, prossigamos a nossa peregrinação terrena como verdadeiros mensageiros da Boa Nova, felizes pelo louvor pascal que habita os corações e desejosos de o partilhar com todos:

"Louvai ao Senhor, todos os povos.
Exaltai-O todas as nações!
Grande é o Seu amor para connosco,
e a Sua fidelidade permanece para sempre!" (Sl 116).

Amen.



Saudação

Dou graças ao Senhor por poder realizar estas jornadas de Peregrinação nos passos do Apóstolo dos Gentios. Peço a São Paulo que vos acompanhe todos os dias. Assim como ele foi, sede também vós testemunhas de Cristo!

Agradeço em primeiro lugar ao Senhor Presidente da República o seu convite e a sua hospitalidade. Estou grato a Sua Beatitude Christódoulos e aos seus colaboradores pela solicitude que demonstraram por esta minha Peregrinação nos passos de São Paulo. Agradeço de igual modo a D. Fóscolos e a cada um dos Bispos católicos. Obrigado a todos vós aqui presentes. Cristo e a Igreja contam convosco. Abençoo-vos do íntimo do coração!

Saúdo cordialmente todas as pessoas que para aqui vieram da Polônia.

Estou feliz por participardes ativamente na vida da Igreja católica que está na Grécia; foram os Bispos locais que me deram várias vezes estas informações. Viveis num País em que desde há séculos se misturam diversas culturas, religiões e tradições espirituais. É-me grato saber que conseguis beneficiar desta variedade e, ao mesmo tempo, conservais a vossa identidade. Agradeço aos Padres Jesuítas e a todos aqueles que estão comprometidos no vosso cuidado pastoral. Conservo no meu coração as vossas alegrias e preocupações, enquanto as confio à Providência divina. Por intercessão do Apóstolo São Paulo, cuja memória está particularmente viva em Atenas, peço ao bom Deus que vos cumule com as suas bênçãos.

A paz esteja convosco! Deus abençoe a Grécia!



PROGRAMAÇÃO PARA SEGUNDA-FEIRA, 7 DE MAIO DE 2001


2ª feira, 7/5/2001


RETROSPECTO FEITO PELO PRÓPRIO PAPA DA PEREGRINAÇÃO JUBILAR "SEGUINDO OS PASSOS DE SÃO PAULO"

Quarta-feira, Audiência de 16/5/2001
Sobre a peregrinação jubilar seguindo os passos de São Paulo
http://www.clerus.org/bibliaclerusonline/pt/hyh.htm


CRÍTICA DE UMA ALA DA IGREJA CATÓLICA INCONFORMADA COM A POUCA RECEPTIVIDADE DA POLÍTICA DE APROXIMAÇÃO DO PAPA JOÃO PAULO II


Podemos aquilatar quão difícil foi para o Sumo Pontífice conviver com a incompreensão de uma ala da Igreja, inconformada com a sua política de aproximação com outras religiões e com outros povos. Veja, por exemplo, o artigo "Ecumenismo de mão única", por Victor Peregrino, que reflete essa oposição "à humildade papal que não gerou nenhuma retribuição por parte do prelado ortodoxo".

http://www.montfort.org.br:84/ecumenismo-de-mao-unica/



NOTAS  EXPLICATIVAS


¹   Cf.        http://w2.vatican.va/content/john-paul-ii/pt/homilies/1978/documents/hf_jp-ii_hom_19781022_inizio-pontificato.html 
 

quinta-feira, 24 de janeiro de 2019

ÍTACA, CEFALÔNIA



Por Nicole Dubois-Tartacap
Traduzido do francês por Francisco José dos Santos Braga



Estudamos a Odisseia na sexta série e na imaginação da criança que nós somos se desenham, através das aventuras que pontuam o longo retorno de Ulisses para o seu reino de Ítaca, os contornos de uma ilha lendária forçosamente mais bonita que todas as outras ilhas, já que o herói, para encontrá-la, enfrenta todos os perigos e renuncia a todas as tentações. ¹ Então, um dia, escaneando um mapa, descobrimos que Ítaca realmente existe, e essa revelação traz emoção intensa, uma mistura de entusiasmo e descrença. Pelo menos eu vivi assim: de repente, o mito tomava forma, ganhava vida. Ele se ancorava na realidade. Eu vi muitas outras ilhas antes de atracar em Ítaca. Ela nunca estava em nossas rotas. Mas no fundo, era esse o motivo? Finalmente, esse dia chegou.

Cefalônia (em cor alaranjada), a maior entre as Ilhas Jônicas e, à sua direita, a pequena ilha de Ítaca (em cor cinza)
As paisagens de Ítaca estão entre as mais belas e virgens que já me foi dado ver em uma ilha grega. Isso é devido ao seu pequeno tamanho, pequena população, número muito pequeno de turistas, seu terreno acidentado, seus vinhedos, o frescor de suas florestas de pinheiros e ciprestes, seus riachos e pequenos portos que pontilham ao longo da costa norte algumas tavernas, não mais, à beira d'água... Mas, sobretudo, isso é devido à sua configuração única: uma longa faixa de terra, em que correm duas cadeias de montanhas, uma ao norte, a outra ao sul, estreitou-se no centro de uma cordilheira rochosa, estreito istmo no qual serpenteia a estrada, tão fina que se encontra suspensa entre o céu e o mar, afogada em um oceano de azul que se estende, a oeste, até à Cefalônia (ou Kefalonia), a leste, até às margens da Grécia ocidental. Ítaca é admirável.

Ítaca

Então, como é que eu não tenha ressentido, aqui, essa vibração que me veio à vista de outros sítios Micenas, o templo de Afaia, Mystra...? É ter acreditado demais, tempos atrás, em um mito grande demais para que um dia possa ser confrontado com a realidade? Ou é porque em Ítaca não encontrei nenhuma pedra, nenhum lugar para ancorar as imagens que eu carregava em mim, nenhum lugar para encontrar Penélope, Eumea, Telêmaco ou Ulisses? Fala-se bem de uma caverna onde ele teria escondido o tesouro oferecido pelos Feácios, uma fonte onde se encontrou, vestido como um mendigo, com o guardador de porcos Eumaeus... Mas do palácio de Ulisses, da praia, na qual ele desembarcou, da cabana do guardador de porcos, nenhum traço, nenhum indício até que razoavelmente nos permita dizer: foi ali. Pior: não há evidências de que realmente seja essa ilha e talvez não sua vizinha Cefalônia o que me recuso a considerar.

Seria aqui o Palácio de Ulisses (ou Odisseu em grego)?
Como para Ulisses tocando finalmente as costas tantas vezes esperadas, uma névoa vem entre Ítaca e mim, que confunde e me impede de reconhecer a ilha que tomou forma em mim quando eu era uma criança. Mas, finalmente, qual é a importância?

ÍTACA ²

Por Konstantínos Kaváfis
(Traduzido do grego por Francisco José dos Santos Braga)


Quando tomares o caminho de Ítaca,

deseja que a rota seja longa

cheia de aventuras, plena de saberes.

Nem os Lestrigões e os Ciclopes

nem o colérico Posêidon não temas;

nunca encontrarás nada disso em teu caminho

se teu pensamento ficar elevado, se sutil emoção

desligar teu espírito e teu corpo.

Os Lestrigões e os Ciclopes,

tu não os reencontrarás, nem o irascível Posêidon,

se não os transportares em tua alma,

se tua alma não os fizer surgir diante de ti.

Deseja que a rota seja longa.

Que numerosas sejam as manhãs de verão

onde – com quanto prazer e quanta alegria! –

tu descobrirás portos que nunca viste;

para em lojas fenícias,

em busca de preciosas mercadorias,

âmbar, coral, ébano, nácar

e inebriantes perfumes de toda sorte,

o máximo que puderes de tais aromas.

Visita também muitas vilas egípcias,

e não pares de te instruir junto dos sábios.

Guarda sempre Ítaca presente em tua mente.

Lá chegar é a destinação final.

Mas não te apresses sobretudo na tua viagem.

É melhor prolongá-la durante anos;

e só atracar na ilha na tua velhice,

rico do que tiveres ganho no caminho,

sem esperar de Ítaca outro benefício.

Ítaca te ofereceu essa bela viagem.

Sem ela, não te terias posto a caminho.

Ela não tem mais nada a dar-te.

Mesmo se a achares pobre, Ítaca não te enganou.

Tu te tornaste sábio com tal experiência,

já compreendeste o que significam Ítacas.


Fonte: Poemas 1897-1933, Íkaros 1984.

Um simples estreito separa Ítaca de Cefalônia. A gente o cruza em um dos barcos que partem do porto de Pisaetos, na costa ocidental de Ítaca, e, dirigindo o rumo para o oeste, meia hora mais tarde, aporta em Sami. A capital, Argostoli, está localizada no outro lado da ilha.

Porto de Sami
Porto de Argostoli, capital da Cefalônia
Vista parcial de Argostoli, Cefalônia

Uma longa presença veneziana comum a todas as ilhas jônicas, que só terminou no século XVIII, havia marcado a arquitetura de Cefalônia. Argostoli era linda e elegante, como Corfú (em grego Κέρκυρα), talvez. Nada resta dela: o terrível terremoto de 1953, que atingiu também Ítaca e Zante, erradicou-a de repente. Sua força foi tal que se modificou até no relevo da ilha.

12/8/1953: um fortíssimo terremoto de 7.3 graus devasta 
a ilha de Zante (em grego: Ζάκυνθος)
Agosto de 1953: alguns perderam tudo...

O acaso havia levado Maurice Grandazzi a Argostoli alguns dias antes. “Foi ele escreveu em seu retorno, nos Anais da Geografia, como se uma serra gigante tivesse fendido os rochedos, como se um trem, em um estrondo que estava crescendo, atravessasse uma grande ponte de metal no subsolo, depois passasse ao outro lado da ilha e afundasse no coração da montanha. Na noite seguinte, um vento forte se levantou, o mar estava agitado, os cães começaram a uivar, os burros a zurrar, os galos a cantar. A terra ainda estava se movendo. Quando o sol nasceu, os abalos sísmicos recomeçaram. O cume das montanhas pareceu dobrar sobre si mesmo. A terra se arrebentava como uma fruta madura. Uma nuvem de poeira, que se levantara de Argostoli, abatida em alguns segundos como um castelo de cartas, caiu de volta em nós. A escuridão tornou-se tal que, a 3 metros de distância, não podíamos mais adivinhar quem éramos. [...] Então o sol brilhou novamente.” Argostoli não existia mais. A ilha de Solal era apenas um campo de ruínas. O número de mortos foi contado por centenas, e foram milhares os habitantes que deixaram a ilha.

Hoje, como em todas as áreas de risco, os que ainda vivem lá ainda se compõem de pessoas caracterizadas por impressões que vão desde fatalismo até temor, sabendo que a qualquer momento suas vidas podem ser pulverizadas por uma reação de humor vinda das profundezas da terra. Este foi novamente o caso em janeiro de 2014, quando outro terremoto, felizmente de menor importância, devastou muitos edifícios e jogou centenas de famílias nas ruas.

Fiskardo, Cefalônia

Em 1953, apenas um punhado de aldeias foi poupado pelo cataclismo. Entre elas, Fiskardo, na ponta norte da ilha, se achava no oposto do epicentro. Era uma aldeia de pescadores em torno de um pequeno porto, apenas um Saint-Tropez, talvez antes de Brigitte Bardot, com aquele não-sei-o-quê que encanta à primeira vista. A autenticidade de tais lugares está sempre fadada à desaparição: depois dos descobridores, vêm os artistas, depois os iates, depois as multidões. Fiskardo não escapou à regra. Na década de 1960, os hippies a haviam tornado seu refúgio. Instalados no duplex do faroleiro, eles arranhavam o violão sem cerimônia com os aldeões. Depois eles foram embora, e foi no café da Kyría Iríni, a primeira taverna-café-ouzeria do porto, onde continuamos a festejar. Outros cafés e restaurantes seguiram, dentre os quais o dos pais de Tasia Dendrinou, na década de 1970. Tasia tinha 12 anos de idade. A aldeia não tinha eletricidade e, para chegar à capital a 50 quilômetros de distância, demorava pelo menos quatro horas!

Quando você a vê pela primeira vez em seu restaurante, sentada um pouco à parte com seu parceiro, cabelos muito escuros, corpulência de boa vida, gargalhadas explosivas e voz alta, sabemos desde já quem, aqui, é o mestre. Tasia é uma estrela, uma Maité grega conhecida em todo o país por seus programas culinários na televisão. Uma personagem. Uma personalidade. Uma Loxandra em terra jônica.

Loxandra, a verdadeira, viveu em Constantinopla no século XIX. Ela era uma mulher do povo transbordante de vida e energia, generosa, excelente cozinheira, amorosa, simples e forte. Sua neta, a romancista Maria Iordanídou, tornou-a a personagem central de um romance que foi um enorme sucesso. Loxandra, tornada emblemática de uma época e de um lugar, cristalizará toda a nostalgia dos Gregos por Constantinopla e pelo helenismo da Ásia Menor, e se tornará uma verdadeira figura da literatura grega.

Loxandra, de Maria Iordanídou, 1ª edição grega (1966)
Loksandra Istanbul Dusu, edição turca (1994)


Tudo o que Cefalônia, afamada pelo filme Capitão Corelli, conta com celebridades Tom Hanks, Giorgio Armani, Fernando Botero –, marca encontro aqui, em Fiskardo, no restaurante de Tasia. Isso não muda nem a impressiona. Com estrelas ou com estranhos, Tasia é Tasia, redonda, aberta, generosa, truculenta.

Filme dirigido por John Madden (vencedor do Oscar) sobre Capitão Corelli (Nicolas Cage), que se apaixonou por uma garota local grega, Pelagia (Penelope Cruz), durante a II Grande Guerra.

Na última noite de nossa estada em Fiskardo, tínhamos pedido, ao final da refeição, uma sobremesa de laranja que tinha me agradado tanto que, na manhã seguinte, acordei com a lembrança de sua frescura e com a obsessão de conhecer a sua receita. Morávamos numa aldeia a poucos quilômetros da vila, mas antes de sairmos, precisávamos passar por lá para fazer compras. O porto, às 10 horas da manhã, mal emergia de sua letargia, mas Tasia já estava lá, acampada atrás de seu forno. Duvidava que ela me desse sua receita, mas afinal... As coisas não se arrastaram: mal meu pedido foi formulado, encontrei-me impelida para trás das grandes panelas, precedida por uma Tasia decidida: “Pegue este papel! Você tem uma caneta? Escreva!” Ela listava: laranjas, suco, açúcar, centáurea... Ela ditou as proporções a toda a velocidade, metade em grego, metade em inglês. Ao fazer isso, ela levantava as tampas e me mostrava o que ela já estava cozinhando para o almoço: um guisado de legumes “feito com os que eu trouxe esta manhã do jardim! Èla Yanni! Tome dois pratos!... Eu vou fazer você provar. Sente-se lá fora!” E aqui nos sentamos em frente a dois grandes pratos de uma “ratatouille” sublime, acompanhada por dois copos de licor caseiro. “Você gosta? Quer a receita?” (p. 243-249)


DUBOIS-TARTACAP, Nicole: KALIMÉRA, permanências e sonhos em terra grega, Paris, Edições Transboréal, 1ª edição 2017, 432 p.


NOTAS  EXPLICATIVAS  DO  TRADUTOR

¹  Há um curto poema em língua portuguesa, de um poeta alagoano de fina inspiração, Judas Isgorogota, pseudônimo de Agnelo Rodrigues de Melo (1901-1979), o qual ganhou projeção internacional, tendo diversas de suas poesias sido traduzidas para o francês, inglês, alemão, espanhol, italiano, húngaro, árabe, tcheco e lituano. O poema de sua autoria, a que me refiro, é intitulado A Ulisses. Gostaria de incluí-lo aqui por trazer um novo olhar sobre o herói da Odisseia. Ei-lo:


A ULISSES 

Judas Isgorogota

Quando à manhã parti — era a partida
de um novo Ulisses à Ítaca sonhada —
eu vivia da homérica investida
e empolgavam-me os lances da chegada! 

Menino, ia este sonho me levando...
Não nasci para Ulisses... melhor fora
não ouvir a sereia enganadora
e ter ficado junto ao mar, sonhando... 

Mas, se voltasse a ser, numa outra vida,
a mesma criança de alma forasteira,
sempre a rolar como uma pedra mó, 

certo, madrugaria na partida,
na ânsia de não ser nada a vida inteira
e ser Ulisses um minuto só...



²  Ιθάκη



Σα βγεις στον πηγαιμό για την Ιθάκη,
να εύχεσαι νάναι μακρύς ο δρόμος,
γεμάτος περιπέτειες, γεμάτος γνώσεις.
Τους Λαιστρυγόνας και τους Κύκλωπας,
τον θυμωμένο Ποσειδώνα μη φοβάσαι,
τέτοια στον δρόμο σου ποτέ σου δεν θα βρεις,
αν μέν’ η σκέψις σου υψηλή, αν εκλεκτή
συγκίνησις το πνεύμα και το σώμα σου αγγίζει.
Τους Λαιστρυγόνας και τους Κύκλωπας,
τον άγριο Ποσειδώνα δεν θα συναντήσεις,
αν δεν τους κουβανείς μες στην ψυχή σου,
αν η ψυχή σου δεν τους στήνει εμπρός σου.

Να εύχεσαι νάναι μακρύς ο δρόμος.
Πολλά τα καλοκαιρινά πρωιά να είναι
που με τι ευχαρίστησι, με τι χαρά
θα μπαίνεις σε λιμένας πρωτοειδωμένους·
να σταματήσεις σ’ εμπορεία Φοινικικά,
και τες καλές πραγμάτειες ν’ αποκτήσεις,
σεντέφια και κοράλλια, κεχριμπάρια κ’ έβενους,
και ηδονικά μυρωδικά κάθε λογής,
όσο μπορείς πιο άφθονα ηδονικά μυρωδικά·
σε πόλεις Aιγυπτιακές πολλές να πας,
να μάθεις και να μάθεις απ’ τους σπουδασμένους.

Πάντα στον νου σου νάχεις την Ιθάκη.
Το φθάσιμον εκεί είν’ ο προορισμός σου.
Aλλά μη βιάζεις το ταξείδι διόλου.
Καλλίτερα χρόνια πολλά να διαρκέσει·
και γέρος πια ν’ αράξεις στο νησί,
πλούσιος με όσα κέρδισες στον δρόμο,
μη προσδοκώντας πλούτη να σε δώσει η Ιθάκη.

Η Ιθάκη σ’ έδωσε τ’ ωραίο ταξείδι.
Χωρίς αυτήν δεν θάβγαινες στον δρόμο.
Άλλα δεν έχει να σε δώσει πια.

Κι αν πτωχική την βρεις, η Ιθάκη δεν σε γέλασε.
Έτσι σοφός που έγινες, με τόση πείρα,
ήδη θα το κατάλαβες η Ιθάκες τι σημαίνουν. 
http://www.kavafis.gr/images/line.jpg–––––––––––––––––––––––––––––––––
(Από τα Ποιήματα 1897-1933, Ίκαρος 1984)