domingo, 17 de fevereiro de 2019

O NOSSO PÁTIO


Por Maria Iordanídou
Traduzido por Francisco José dos Santos Braga


Vivemos na época do cimento e do prédio.

E eu agora moro num prédio. Tenho um apartamento interno de dois quartos no terceiro piso. Chamamos agora de internos os apartamentos que não dão para a rua, mas para o pátio. Mas também o pátio já não é assim chamado, mas de espaço sem cobertura.

Capa do livro "O nosso Pátio" de Maria Iordanídou, ed. Vivliopoleíon tis Estias, 1983.

Na maioria desses prédios que são construídos, um depois do outro, raramente verás uma janela. São sempre portas da varanda que dão para uma sacada que dá uma volta ao redor do prédio e lembra convés de navio. Então, porta de varanda e divisória, e cada divisória parece um corredor. Não precisas pensar em como está mobiliado, como esse espaço é habitado. O arquiteto previamente o decidiu. Colocou para ti a tomada para o televisor onde é preciso instalá-lo, colocou para ti os suportes para iluminação onde será instalada a sala de estar, isto é, o sofá, a mesinha e as duas imensas poltronas da moda.

Não há um ponto adequado para a patroa instalar seu recanto, onde possa se empoleirar para tomar seu cafezinho, para pegar a gata no seu colo e para escutar a folga da sua casa. Talvez por isso a mulher de hoje não ame sua casa. Coisa estranha. Tudo uniformizado, tudo premeditado. (O arquiteto premeditou) a distância para poderes estender a tua perna e a tua mão. (Premeditou) quanto precisas inclinar a tua cabeça quando te levantares dentro da banheira, de modo a não cabeceares o corpo do aquecedor que está preso na parede.

Mudam os tempos, mudam também as pessoas. Dentro dos prédios as pessoas tornam-se com maneiras inglesas. Olhas para alguém na escada ou no elevador e não te cumprimenta. Fica de pé à tua frente como uma coluna de gelo, e também receias cumprimentá-lo. Mal sabes se é um condômino ou um estranho. Perderam os Gregos o espírito grego.

Sei que não conheço a cara dos condôminos. Conheço, todavia, a voz deles, a tosse deles. Conheço o suspiro e o gemido da minha vizinha. Geme de noitinha quando cai na cama e de madrugada. Parece que possui cristais nas suas articulações e sente dores. Toda manhã, às seis horas, ouço o seu despertador. Tudo isso se faz ouvir porque a cama dela está próxima à minha e nos separa uma parede.

Pelo banheiro faço divisa com o apartamento cuja porta está em frente à do meu apartamento.

Ali, de novo, ouves berros dilacerantes de criança. Toda manhã, a mãe dela tenta vesti-la; ela, mal acordada, defende-se, e parece que leva uma surra.
— Minha senhora, grito-lhe da janela do banheiro, deixa que a criança se acalme. Está na idade que precisa aprender a vestir-se por si mesma.
— O que dizes, minha senhora? grita de dentro a mãe fora de si. Preciso estar no trabalho às oito. Também chegou a van da escola para pegá-la. A senhora não ouve na rua buzinando?

Realmente, da rua ouve-se o fon-fon da van. Calei-me. Soube da faxineira Panagióta que a mãe e o pai eram bancários.

Poucas horas de calmaria, e ao meio dia novamente berros da criança. A van da escola chegou, porém a mãe se atrasou, e o motorista não pode deixar a criança no passeio. Toma-a consigo e parte. A criança urra de dentro.

Por um mês tive sossego, quando o casal tirou suas férias de verão. Partiram os dois com o seu carro para o exterior e deixaram a menininha com a avó que morava em Khaidári. Um dia, pelos gritos da criança e da mãe, entendi que as férias findaram. Já tinham voltado. Uma noite ouço berros dilacerantes da criança, gritos de dor.
— Come! Come, já disse! Não vais comer?
Logo o berro dilacerante de novo.
— Abre a tua boca! Vou te estapear!
E novamente o berro.
Não aguentei. Lancei-me para fora, Nélli me agarra, me puxa.
— Aonde vais?
— Vou bater na porta deles com pontapés. Deixa-me.
— Enlouqueceste?
Sim, praticamente enlouqueci. Penso a quem me dirigir. À Polícia? A alguma Associação? Chamo Panagióta e pergunto-lhe o que se passa.
— A criança, desde que (os pais) voltaram, não come nada. Virou pele e osso. O pai acha que a avó a mimou.

Os Franceses dizem: Les enfants, quand ils sont petits, ils nous aiment. Quand ils grandissent, ils nous jugent, et parfois ils nous pardonnent. As crianças, quando pequenas, nos amam. Quando crescem, julgam-nos, e às vezes nos perdoam. 

Esta pequena, parece, amadureceu antes do tempo, julgou a sua mãe e não lhe perdoou nem pela surra nem pelo abandono. Vinga-se dela. Como de outra forma pode vingar-se dela? Também as crianças têm a sua dignidade.

A minha vida dentro desse prédio tornou-se insuportável. Felizmente, porém, a família comprou o seu próprio apartamento e mudou-se. O apartamento foi alugado de novo muito depressa. Alugou-o um solteiro e tivemos sossego. Agora pela janela do banheiro ouves apenas a descarga da privada nas tuas costas. Ouves também todos os ruídos que é possível alguém ouvir dentro de um banheiro, e, contudo, não conheces a cara da pessoa. Sabes apenas que é um homem, porque logo começa a barbear-se. Isso sabes por causa das fragrâncias do creme de barbear e pelo ruído do barbeador elétrico. Compreendes que é um homem jovem, porque muitas vezes cantarola baixinho e assovia.

Pela canção que canta, o colocas politicamente na centro-esquerda, talvez até mais à esquerda. Pena que não conheces a cara dele. A sra. Panagióta não pode me ajudar em nada neste caso, porque ele não possui faxineira.

Frequentemente vem sua namorada aqui e faz todo o serviço. Ela cozinha para ele ainda por cima, porque pelo banheiro me vem também o cheiro da sua cozinha quando a janela está aberta.

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Coisa curiosa: tanto Nélli quanto eu, desde que entramos no prédio, começamos a nos sentir estranhas com o nosso ambiente. O mesmo diz também meu filho Giánnis que também mora em prédio, com sua esposa e seus filhos, um pouco mais além de nós.

Deixa para lá! Por que vou ficar esquentando a minha cabeça? O que tinha que fazer na vida, fiz, cheguei aos 85 anos de idade. Já é tempo de descansar.

Estendi-me na poltrona, peguei também o combolói na mão, de vez em quando tiro uma soneca. Começa a doer todo o meu corpo. Sim, claro, envelheci.

Começo a preocupar-me. Mando recado para meus netos virem me fazer companhia. Onde vão arrumar tempo!? Mergulhados ambos nas lições. Bem, o que são essas muitas lições que os filhos têm agora!? No meu tempo não era assim. E a minha cunhada, mergulhada ela também nos afazeres. A minha cunhada não trabalha fora, fica em sua casa, porém a verdade é que não tem empregada. Nenhuma ajuda, faz tudo sozinha, mas com a eletricidade e com as tais facilidades, o que é hoje o trabalho doméstico? Brincadeirinha. Mas as ruelas a matam. A correria. Bem, que correria têm as pessoas hoje! Todos correm. “Tenho que ir à CESP, tenho que ir também à TELESP, e preciso passar pelo banco. Ah! Há ainda a Receita Federal. Mas, é claro, preciso passar pelo cartório para autenticar a assinatura da minha sogra...”. A correria não tem fim. (...)

Fonte: O NOSSO PÁTIO, Atenas: Vivliopoleíon tis Estías, p. 11-18