Por Francisco José dos Santos Braga
Fui agraciado com uma mensagem do professor de grego Aléxandros Orfanídis, diretamente de Atenas, que me externou votos de Boa Iluminação neste 6 de janeiro de 2015, ao mesmo tempo que observava, dentro da melhor Ortodoxia grega, que nesta data os Gregos veneram e comemoram o batismo ¹ de Jesus Cristo. Chamam a esta festa Teofania, significando a manifestação/revelação de Deus, durante o Batismo de Jesus Cristo nas águas do rio Jordão, através de uma voz que foi ouvida: "Este é o meu Filho muito amado, em quem pus toda a minha complacência!" O abençoado professor ainda achava que é importante acrescentar que a Teofania se refere também à revelação da Tríade Divina, já que na ocasião o Espírito Santo apareceu em forma de pomba.
Oficialmente, o Natal chega hoje a seu fim. Este dia adquire um significado especial para os Gregos. Neste dia se celebra uma cerimônia de bênção das águas e dos barcos que as singram. Todas as cidades costeiras ou banhadas por rio, organizam suas próprias cerimônias. A de Atenas se realiza no porto de Piréus, onde um sacerdote lança um grande crucifixo às águas do porto. Jovens valentes, que não temem o frio, competem entre si para recuperá-lo. Uma vez finalizada a cerimônia da cruz, os pescadores locais aproximam seus barcos do molhe, para serem benzidos pelo sacerdote.
Que é que tudo isso tem a ver com o Natal? Segundo as crenças ortodoxas, 6 de janeiro é o dia do batismo de Jesus. Daí a associação dessa data com a água.
Definitivamente esta é uma festa religiosa totalmente grega, celebrada para e por gregos ortodoxos, não para turistas. A Epifania também é chamada de festa das Luzes (gr. Fóta).
Inicialmente sugiro clicar no link abaixo para entrar no clima da festa da Teofania, conforme uma canção bizantina homenageando o batismo do Senhor, cantada por monges ortodoxos.
Link: https://youtu.be/cxXxtzF_KaE
A Canção ² das Luzes (bizantina)
Do deserto o Precursor veio para batizar o Senhor.Inicialmente sugiro clicar no link abaixo para entrar no clima da festa da Teofania, conforme uma canção bizantina homenageando o batismo do Senhor, cantada por monges ortodoxos.
Link: https://youtu.be/cxXxtzF_KaE
A Canção ² das Luzes (bizantina)
Erourém, erourém, érou, rérou, rerourém, salve Precursor!
O Precursor batizou no Jordão o Rei de todos.
Erourém, erourém, érou, rérou, rerourém, salve Precursor!
Terráqueos, saltai, desfrutai; classes dos anjos, diverti-vos!
Erourém, erourém, érou, rérou, rerourém, salve Precursor!
Recebe, Jordão, o teu Criador antes de conteres as águas!
Erourém, erourém, érou, rérou, rerourém, salve Precursor!
No Jordão é batizado por João o Senhor.
Erourém, erourém, érou, rérou, rerourém, salve Precursor!
Texto grego:
Bυζαντινά κάλαντα Φώτων
Από της ερήμου ο Πρόδρομος ήλθε του βαπτίσαι τον Κύριον.Ερουρέμ, ερουρέμ, έρου,ρέρου, ρερουρέμ, χαίρε Πρόδρομε.
Βασιλέα πάντων εβάπτισε εις τον Ιορδάνην ο Πρόδρομος.
Ερουρέμ, ερουρέμ, έρου,ρέρου, ρερουρέμ, χαίρε Πρόδρομε.
Γηγενείς σκιρτάτε και χαίρεσθε, τάξεις των Αγγέλων ευφράινεσθε.
Ερουρέμ, ερουρέμ, έρου,ρέρου, ρερουρέμ, χαίρε Πρόδρομε.
Δέξου Ιορδάνη τον Κτίστην σου πριν αναχαιτίσεις τα ύδατα.
Ερουρέμ, ερουρέμ, έρου,ρέρου, ρερουρέμ, χαίρε Πρόδρομε.
Εις τον Ιορδάνην βαπτίζεται υπό Ιωάννου ο Κύριος.
Ερουρέμ, ερουρέμ, έρου,ρέρου, ρερουρέμ, χαίρε Πρόδρομε.
No Brasil, em 6 de janeiro celebra-se o Dia dos Reis (Magos), diferentemente da Grécia. O povo brasileiro considera a Festa de Reis como o encerramento do ciclo natalino. É o dia de desmontar a árvore de Natal, o presépio e outras manifestações da religiosidade popular. Neste dia, as Folias de Reis, como as crianças na Grécia, levam suas preces cantadas às casas dos "foliões", porém sua função primária é precatória, ou seja, angariar fundos para a festa dos Santos Reis, em 6 de janeiro. Normalmente, essas folias fazem a sua aparição durante o período natalino.
Para exemplificar o costume grego de festejar a Epifania, o professor Orfanídis ainda juntou à mensagem um vídeo com o Canto das Luzes, canção folclórica entoada por crianças (geralmente meninos) e muito difundida por toda a Grécia. Para apreciação dos meus leitores, apresento a
tradução portuguesa do texto grego dessa canção folclórica grega,
conforme consta do vídeo in
http://youtu.be/9V1JG65GPbU:| Crianças gregas cantam na festa das Luzes ou Epifania (6 de janeiro), encerrando assim o tempo do Natal. Ouça também o canto das Luzes in |
A canção das Luzes (do folclore grego)
Hoje as luzes e a iluminação,
a grande alegria e a santificação
Lá embaixo no rio Jordão
está sentada a nossa Virgem Maria.
Ela segura um instrumento musical e uma vela
e pede São João.
São João, mestre e batista,
Batiza-me também filho de Deus.
São João, mestre e batista,
Batiza-me também filho de Deus.
Quero subir ao céu
para rosas e incenso colher.
Bom dia, boa noite
Teu bom dia brilha com a Senhora. (refrão)
Bom dia, boa noite
Teu bom dia brilha com a Senhora. (refrão)
Após esse rico ensinamento do professor Orfanídis, resolvi instruir-me mais nos principais preceitos ortodoxos que estão por detrás dessa Festa das Luzes, quando localizei na Internet o seguinte texto explicativo para a festa da Epifania de 2015 da autoria do Papás Themistoklís Mourtzanós, disponibilizado em
http://themistoklismourtzanos.blogspot.gr/2015/01/blog-post_5.html.A antiga e nova familiaridade da Epifania
Por Themistoclís Mourtzanós
Nós em nossa vida temos necessidade de darmos o nosso coração a alguém ou àqueles que confiamos e amamos. Esses são os que têm demonstrado o seu interesse por nós, têm compartilhado conosco não apenas os nossos sentimentos, mas também as alegrias e as tristezas, são aqueles que sentimos serem os nossos familiares, nossos parentes. Basicamente, porém, sentimos como nossos aqueles com os quais temos parentesco natural. Para com nossos pais e nossos filhos, sentimos eterna familiaridade, confiança, amor. Com todos os que nos conectaremos em nossa vida, dificilmente a familiaridade para com esses pode ser comparada com a familiaridade para com os nossos parentes naturais. Somente o amor pode criar novos vínculos, sem abolir, contudo, essencialmente os mais antigos.
O desejo e a vivência da familiaridade existem porque a gente foi criado à imagem e semelhança de Deus. A relação de amor que existe entre as Pessoas da Santa Trindade, a qual é descrita com a frase "Deus é amor" (I Jo. 4, 8), isto é, doa-se a nós. Certamente o amor das Pessoas da Santa Trindade é integral, inesgotável, perfeito e não brota da necessidade. É de fato entrelaçado com a liberdade, a qual nos foi doada pelo Deus Trino, igualmente dádiva preciosa. De nossa natureza, da nossa procedência divina, nós recebemos e fomos chamados para conduzir-nos em nossa vida vivendo este mistério do amor e da liberdade. Sejamos filhos de Deus e, simultaneamente, voltemo-nos para os outros a fim de experenciarmos a filialidade e a fraternidade como presentes abençoados do amor de Deus. Por isso, também o evangelista João nos ensina: "Vede que grande amor nos tem concedido o Pai: que fôssemos chamados filhos de Deus; e nós o somos. Por isso o mundo não nos conhece; porque não conheceu a Ele. Amados, agora somos filhos de Deus, e ainda não é manifesto o que havemos de ser. Mas sabemos que, quando Ele se manifestar, seremos semelhantes a Ele; porque assim como é, O veremos. E todo o que n'Ele tem esta esperança, purifica-se a si mesmo, assim como Ele é puro." (I Jo. 3, 1-3). Vede com quanto amor nos amou o Pai! O Seu amor é tão grande, a ponto de sermos chamados filhos de Deus. Por isso, o mundo não nos compreende, porque não conhece Deus Pai. Agora somos filhos de Deus. O que estamos para nos tornar no futuro não foi ainda manifesto. Sabemos, porém, que, quando Cristo manifestar-se na Sua Segunda Parusia, tornar-nos-emos iguais a Ele, porque O veremos como realmente é. Quem, então, tiver essa esperança com confiança em Cristo, prepara-se. Purifica-se do pecado, tendo como modelo a pureza d'Ele.
A plenitude da glória divina vivenciaremos quando da Segunda Parusia de Nosso Senhor. Mas, em festividades como a Epifania, vemos, segundo o modo limitado dos nossos sentimentos, tanto somáticos quanto psíquicos, a forma dessa glória. Conscientizamo-nos de que Deus é trino. Cristo se deixa batizar no Jordão, tendo recebido a natureza humana. A despeito de ser Deus-homem, não recusa nada das coisas humanas, com exceção do pecado. O Espírito Santo, em forma de pomba, vem para Ele. E se ouve a voz de Deus Pai a dizer tanto ao Precursor, quanto aos presentes, mas também para toda a humanidade: "Este é o meu Filho amado, no qual pus toda a minha complacência." (Mt. 3, 17) Este é o meu Filho amado. Ele é o meu eleito, Ele me dá satisfação.
Com essa manifestação se revela o Mistério do Amor e da Liberdade do Deus trino. A liberdade se revela na existência das três Pessoas com atributos comuns e diversos, os quais se unem e ocorrem conjuntamente. O Pai tem Filho. Há entre eles a relação da Paternidade e da Filialidade. O Espírito Santo é outra pessoa em relação com o Pai e o Filho. Renova e ilumina a criação, satisfazendo a Vontade do Pai e mostrando o Filho à gente. O Filho se torna homem, a fim de dar-nos o amor de Deus na sua plenitude, que é o resgate da existência humana da corrupção e da morte. E as três Pessoas se revelam ao mundo, mostrando a unidade, que brota da liberdade e do amor entre Elas. E simultaneamente, na nova humanidade, no novo universo participa toda a criação. Por isso também, o Filho entra no rio Jordão. Toca-o o último e principal dos profetas, um homem, João, o Precursor, em cuja pessoa se manifesta a bênção que recebe toda a humanidade, a fim de poder tocar o Deus Salvador. Para santificar-se por meio da comunhão com Ele, porque nós, no mistério da Eucaristia, não tocamos simplesmente Cristo, mas tornamo-nos familiares d'Ele, uma vez que Ele habita dentro da nossa existência. E simultaneamente, queremos receber o amor d'Ele como doação máxima. E as águas, o céu, tudo ilumina tomando parte na alegria da nova alvorada.
Não há mais segredos entre Deus e a gente. Para Deus somos todos Seus filhos. E simultaneamente somos convidados a correspondermo-nos a esse movimento da familiaridade que Deus nos oferece. Vencendo a corrupção e a morte. Como se refere usualmente São João Crisóstomo, o rio Jordão brota de duas fontes, a Iór e a Dan, donde o nome "Jordan" e desemboca no Mar Negro. Esse rio é um tipo do gênero humano mortal, o qual, como o Jordão, possui duas fontes de que procede: Adão e Eva, que com a escolha deles de usar a sua liberdade, recusando o amor a Deus e seguindo o caminho da autodeificação, acabaram na morte, no abismo do Hades, na mortalidade. Cristo entra nesse Jordão a fim de inverter a rota para a necrose, a rota para o Mar Negro. Por isso também o Jordão "fluiu para trás". Assim também o gênero humano, se for batizado na água no Espírito Santo e for introduzido na Igreja, retornando livremente ao amor e à comunhão com Deus, inverte a rota para a morte. Dirige-se à ressurreição e à nova vida que Cristo dá.
Se acreditarmos no Deus Trino, inicia-se para nós uma familiaridade, antiga e nova. A antiga tem a ver com a aceitação, no nosso interior, de que somos filhos de Deus, como fomos criados desde o começo. A nova tem a ver com a vitória contra a morte, na qual tudo toma parte, na Luz da Igreja no tempo presente e na Luz da comunhão eterna com a Pessoa do Cristo, O Qual veremos como precisamente é na Segunda Parusia. A antiga familiaridade tem a ver com o amor para com aqueles aos quais nos ligamos pela natureza ou porque escolhemos amá-los. A nova familiaridade tem a ver com a abertura do nosso coração e da nossa vida para com todas as pessoas, inimigas e amigas. É isso que o mundo nunca pôde e talvez não poderá nunca entender, porque permanece na situação do antigo Jordão. Caminha sem Deus na sua vida. É possível que nós também não queiramos confiar, familiarizar-nos, amar todas as pessoas, permanecendo prisioneiros do antigo homem. Mas toda a vida da Igreja, que parte do santo batismo e termina na participação no mistério da Divina Eucaristia, é um escopo contínuo de vivermos o mistério do amor e da liberdade, que nos foi doado.
Esses sejam a nossa bênção e o nosso objetivo na grande festa da Epifania do Senhor.
Korfú, 6 de janeiro de 2015
NOTA EXPLICATIVA
¹ Para os cristãos ortodoxos, o sacramento do batismo também é conhecido por sacramento da iluminação. Segundo a crença ortodoxa, a criança batizada passa das trevas do pecado para a luz da graça. Por isso, faz-se uso de um simbolismo: o sacerdote manda acender as velas que os presentes ao batismo da criança seguram na mão e proclama: "Bendito seja Deus que ilumina e santifica todo homem que vem a este mundo." Cf. https://ortodoxogrego.wordpress.com/tag/batizado/
² Esta canção natalina ( gr. κάλαντα ) é classificada como tradicional (tanto na letra quanto na música) e pan-helênica quanto ao período. Não nos esqueçamos de que a festa da Teofania encerra as as festividades natalinas na Grécia, tanto que a referida palavra grega ― κάλαντα ― é traduzida para outras línguas com a seguinte acepção: ingl. Christmas carol, fr. chant de Noël, esp. canción de Navidad, it. canto di Natale, etc. A letra do vídeo no YouTube difere um pouco da versão mais tradicional apresentada acima em português e que, em grego, assim se apresenta:
² Esta canção natalina ( gr. κάλαντα ) é classificada como tradicional (tanto na letra quanto na música) e pan-helênica quanto ao período. Não nos esqueçamos de que a festa da Teofania encerra as as festividades natalinas na Grécia, tanto que a referida palavra grega ― κάλαντα ― é traduzida para outras línguas com a seguinte acepção: ingl. Christmas carol, fr. chant de Noël, esp. canción de Navidad, it. canto di Natale, etc. A letra do vídeo no YouTube difere um pouco da versão mais tradicional apresentada acima em português e que, em grego, assim se apresenta:
Τα κάλαντα των Φώτων
Σήμερα τα φώτα κι ο φωτισμός
η χαρά μεγάλη κι ο αγιασμός
Κάτω στον Ιορδάνη τον ποταμό
κάθετ' η κυρά μας, η Παναγιά.
'Οργανo βαστάει, κερί κρατεί
και τον Αϊ-Γιάννη παρακαλεί.
'Αϊ-Γιάννη αφέντη και βαπτιστή
βάπτισε κι εμένα Θεού παιδί,
Ν' ανεβώ στον ουρανό
να μαζέψω ρόδα και λίβανο.
Καλην μέρα, κάλην σπερά
Κάλη σου μέρα φεγγεί με την κυρά. (bis)