O filósofo grego Stelios Ramfos é entrevistado pelo jornal La Croix. Texto coligido por Marie Verdier.
Tradução por Francisco José dos Santos Braga
Para Stelios
Ramfos, os Gregos são pré-modernos que privilegiam a família em detrimento do bem comum. Fortemente marcados pela ortodoxia, não se relacionam com o tempo da mesma forma que os outros Europeus. Prevê, para daí a três dias, eleições legislativas em que prevalecerá a irreflexão, resultado da fúria diante dos problemas sociais enfrentados.
Lembre-se de que a situação descrita aqui é de uma Grécia por ocasião das eleições legislativas de 17 de junho de 2012.
A Grécia antes das eleições legislativas de 2012
La Croix: Qual é o estado de espírito dos Gregos?
Stelios Ramfos: Eles estão enfurecidos. Sua psicologia não lhes permite pensar serenamente nos problemas. Deixam-se levar ao niilismo e são capazes de votar sem refletir.
La Croix: Como isso se explica?
Stelios Ramfos: A Grécia nunca teve Renascença. Não conheceu tampouco o Esclarecimento ¹. Somos Europeus em suspensão desde vários séculos. A dominação otomana prolongou a Idade Média. É preciso lembrar-se de que os Bizantinos escolheram os Otomanos por ódio dos Latinos. Somos arcaicos, pré-modernos, no sentido antropológico do termo, que não conhecem o equilíbrio da razão e dos sentimentos. Pendemos para o lado do sentimento. A democracia tem necessidade de razão, de síntese, de compromisso. Ora, os Gregos são incapazes de ver o interesse comum. A democracia grega é frágil. Aliás, nós a temos vivido por alternância.
La Croix: Como você analisa a situação atual?
Stelios Ramfos: A questão cultural está na raiz da crise. Na Grécia, "mexem-se os pauzinhos" em favor da família, da família contra o Estado. Nenhum contrato social foi estabelecido. Portanto, não há possibilidade de estruturar uma vida política em torno de um Estado respeitável. Só contam os contatos pessoais. O clientelismo é a relação natural. Uma consequência direta dele são nossos problemas orçamentários. O dinheiro fácil serviu para melhorar a sorte dos parentes sem se lixar para o bem comum. Somos obsediados pela saúde da alma, não pelo mundo aqui em baixo. O euro não mudou nada.
La Croix: Como resolver essa questão?
Stelios Ramfos: A Europa é uma realidade polimorfa. Há uma civilização europeia, mas também culturas diferentes. É preciso criar uma Europa que contenha essas diferenças e não conduzir uma política de exclusão. Negar as tradições é algo suicida. A lição do "Esclarecimento" é a lição kantiana: o abandono da verdade absoluta em benefício do compromisso erigido como verdade. As críticas formuladas contra a Grécia são provavelmente justas, mas os Gregos não se reconhecem nessas verdades estatísticas. A política econômica ditada pelos Alemães não é a via real (do rei). Claro, a gente não pode se dispensar de toda disciplina. Mas como impor racionalidade sem compreender a irracionalidade? Isso não é uma questão de economistas. É uma questão muito profunda. É preciso dizer à troika que se cerque de antropólogos, de filósofos e comece a reformar a educação na Grécia. Somos tidos por loucos, mas é uma loucura cultural, não uma moléstia!
La Croix: Que papel desempenha a ortodoxia?
Stelios Ramfos: A ortodoxia, o cristianismo do Oriente, forjou profundamente as mentalidades, como em Chipre, nos Bálcãs e na Rússia. Não compreender a Grécia significa não compreender o continente europeu de Chipre a Vladivostok. Para compreender a Grécia, é preciso ler Dostoïevski! Independente de ser crente ou não, o dogmatismo religioso está presente. Nós nunca reconhecemos nossas faltas — a crítica e a autocrítica não existem — e temos a memória muito curta por causa do peso dos sentimentos. Amamos a memória da repetição, da rememoração. Há uma convergência com o dogmatismo comunista. Não é por acaso que temos ainda um partido comunista estalinista.
Por terem os Gregos uma fraca consciência de si mesmos, precisam de um pai, enquanto o Europeu é precisamente o sujeito confiante em si mesmo. A modernidade é fluida: ela nos escapa. É preciso explicar isso à Sra. Merkel! Se a Europa não compreender a Grécia, fracassará na integração dos Bálcãs.
Nós, Gregos, não temos a mesma relação com o tempo. Somos arcaicos porque o presente e o passado contam mais que o futuro. Amamos o tempo que retorna, não o que progride. Em substituição ao futuro, conduzimos um combate entre o bem e o mal. Enfrentamos o mal — os Estados Unidos da América, a Alemanha — para não enfrentarmos o futuro. O futuro se esquiva, não existe. É porque as reformas da Europa são incompreensíveis. Só fazem sentido se a gente se projeta no futuro.
La Croix: Você fala duma "tentação Syriza", expressão tomada do nome de partido de extrema esquerda decidido a renegociar os planos de austeridade com a Europa, e que poderia ganhar as eleições...
Stelios Ramfos: É o que eu chamo "o risco Maghreb", a tentação de se instalar num pré-modernismo para a eternidade, num presente imóvel, o presente dos ascetas, dos sufis, da oração, e não o da ação. Ora, a oração hoje deve ser criativa e não passiva. Deve conjugar-se com a ação. Isso supõe a emergência de um indivíduo maduro. Há fortes semelhanças de comportamentos entre a Grécia e o Maghreb ². Isso explica as muito boas relações que nós mantemos com os Árabes. E esta é a razão por que somos igualmente muito úteis para a Europa.
Fonte: LA CROIX: "La question cultural est à la racine de la crise grecque", edição de 14 de junho de 2012
¹ Na entrevista, Ramfos se refere a "Lumières" (Luzes), que é uma tradução francesa de "Aufklärung" (substantivo feminino), em alemão, que traduzi como "Esclarecimento", em português.
"Resposta à pergunta: O que é Esclarecimento?" é uma obra do filósofo alemão Emmanuel Kant, datada de 1784. Ele escreveu esse texto explicando quão benéfico é para o Homem pensar por si mesmo, sem preconceitos. Assim inicia seu ensaio: "O Esclarecimento permite ao homem sair da menoridade pela qual ele próprio é o responsável. A menoridade é a incapacidade de empregar seu entendimento sem a direção de outro indivíduo." Kant argumenta, a seguir, que a menoridade lhe é imputável não pela falta de entendimento, mas pela falta de coragem de recorrer à sua própria razão, intelecto e entendimento sem a tutela de outrem. Exclama a máxima do Esclarecimento: "Sapere aude! Tenha a coragem de se servir de seu próprio entendimento!" para se tornar um Aufklärer (esclarecido).
Assim o Esclarecimento retoma a máxima "Sapere aude!" (Ouse saber!), tomada de empréstimo ao poeta latino Horácio. Essa máxima é a expressão duma vontade da razão que caracteriza toda filosofia como tal.
Kant ataca o dogmatismo metafísico, definindo-o como a ilusão duma razão que presume suas próprias forças, ilusão racionalista que é filosófica, enquanto que a extravagância (Schwärmerei) e o misticismo são uma renúncia à razão que coloca em questão a liberdade: com efeito, se não escutássemos nossa razão, em que acreditaríamos? E, sob pretexto de instituição ou de gênio, não nos arriscaríamos a nos sujeitar à lei de outrem, quando obedecer à razão é obedecer à lei que a gente se prescreveu?
Cf. in https://fr.wikipedia.org/wiki/Qu'est-ce_que_les_Lumi%C3%A8res_%3F
² A tradicional definição do Maghreb era tida como a região incluindo as Montanhas do Atlas e as planícies costeiras de Marrocos, Argélia, Tunísia e Líbia, tendo sido mais tarde desbancada, especialmente seguindo a formação da União do Maghreb Árabe de 1989, pela inclusão da Mauritânia e do território disputado do Saara Ocidental (na maioria controlado por Marrocos).
