quinta-feira, 29 de dezembro de 2016

PROCURANDO O SENTIDO DO NATAL


Por Apóstolos Papademetríou
Traduzido e comentado por Francisco José dos Santos Braga


Apóstolos Papademetríou











O Natal se tornou nas comunidades ocidentais uma festa de preparativos, e só. Elas ignoram a razão por que se preparam e o que festejam. O comercialismo da festa no âmbito da comunidade consumista parece ter causado um golpe fatal na festa direcionado a um grande prazer de todos os que urgem com ela para que o nosso planeta passe a uma era pós-cristã. 

Claro que alguns elementos da festa natalina ainda testemunham a sua origem. As municipalidades montam nas praças presépios e os pais levam ali seus filhos para verem o Cristozinho, pequeno, impotente, antiquado. As crianças prestarão atenção e verão os magos, os pastores e alguns animais, mas, em tempo real, demorarão muito para perceber como as comunidades ocidentais se afastam  da natureza a uma velocidade rapidíssima!

Porém tudo o que se refere ao nascimento de Cristo parece inútil e doentio diante do velho rechonchudo ¹, que se impôs com a sua presença e domina não só durante o período festivo de doze dias mas também muitos dias antes desse. Extremamente triste é constatar que os instáveis Neo-helenos ², para a inserção inquestionável do velho corpulento nas celebrações do período, lhe deram o nome de santo Rei e de macilento, pela prática e trabalho árduo a serviço dos seus sofridos "próximos"! O corpo eclesial com uma voz cada vez mais exaurida tenta projetar o mais profundo sentido da encarnação do Salvador. Também muitas coisas não atingem o ponto. O velho bem nutrido, o símbolo da prosperidade, parece mostrar-se vencedor! Vencedor nos países que visita, partindo do Norte coberto de neve. Por que ele jamais chega aonde as crianças não esperam brinquedos, que afinal destruiriam nas primeiras vinte e quatro horas ou lançariam em algum canto depois de o brinquedo ficar consigo  umas poucas horas? As crianças do chamado Terceiro Mundo o esperam para ele lhes dar um pouco de comida. Mas ele não tem para todos. É feito pelos ricos para os ricos. Não lhe permitem prover as crianças dos marginalizados. Estes levam suas próprias crianças até ele para terem as sobras e "festejarem" o "Natal" com todo o esplendor possível!

A revista "Todas as Nações" da Diaconia Apostólica da Igreja nos trouxe à leitura um artigo intitulado: "Nossos passarinhos perecem, cantando". Assina-o um monge e apóstolo na África. Achei por bem acrescentar ao presente artigo fragmentos dele.

"Há pouco tempo me encontrava em casa de um bom amigo, o qual trabalha como motorista de ônibus... À medida que nossa conversa avançou e, mais uma vez, a noite me encontrou junto daquelas pessoas que amo,  ouvindo a queixa delas, que soa como um monólogo, como um treno monótono ouvido diariamente nesta terra, saindo da boca de todo o mundo, desde o mais novo até o mais velho.
Aqui, meu padre, temos más notícias.
Realmente? 
– A minha esposa adormeceu (no Senhor) em agosto. Eu te procurei, meu padre, mas o teu telefone estava desligado.
–  Parti para a Grécia.
– Sim, eu o sei. Precisava de pequena ajuda (para minha mulher). Eu estava sem dinheiro... Bem, ela morreu. Porém, o problema é a criança. Devia estar mamando na mãe desde o terceiro mês e agora tem oito meses.
No outro dia o pai me trouxe o filho dele para me mostrar. A vista que tive foi trágica! Um bebê de apenas oito meses cuja pele parecia com a de uma pessoa idosa. Perguntei ao pai com o que se nutria o bebê e ele me respondeu que lhe dava, principalmente, arroz e algumas vezes leite que lhe fornecia uma freira católica. Infelizmente essas são as circunstâncias do nosso dia a dia, desde que a pobreza impõe suas próprias condições. Na mesma tarde comprei leite especial para o bebê. De noite contactei o pai do bebê, o qual me agradeceu ainda uma vez. Disse-me que a criança bebia o leite com grande apetite. Poucas horas mais tarde, porém, telefonou-me dizendo que a criança sofreu recaída repentina e, quando lhe disse para trazê-la, para irmos consultar algum médico, respondeu-me com pesar que já estava morta." ³

Penso que é totalmente conhecida a razão por que as comunidades ocidentais detestam o Natal. A criança da manjedoura, apesar da perseguição que Herodes deslanchou, sobreviveu, de forma a ser sacrificada em conformidade com o que nosso Salvador julgava  que tinha vindo para a plenitude do tempo. Cuidou de deixar um modelo eterno para os que anseiam pela eternidade. Porém para o acesso a seu reino colocou claros e racionais pré-requisitos: "Tive fome e me deste de comer, tive sede e me deste de beber..." Como somos rudes diante da dor humana, viramos nossas costas para o Salvador, e finalmente O rejeitamos, visto que não preenchemos os pré-requisitos para nossa salvação! Como vamos amplamente preenchê-los, sendo egoístas e arrogantes? Como nós, avarentos, saqueadores, perdulários, dissolutos, que nos consideramos centro do universo, vamos admitir que encontraremos algum dia o bebê do nosso "irmão" africano no colo de Abraão? Esta é a razão por que preferimos afundarmo-nos no vácuo existencial!

Certamente num esforço para não nos descolarmos completamente do nosso Salvador, recorremos a movimentos de filantropia e solidariedade, como preferem alguns, para evitar que ele cheire a incenso. Em que medida esses movimentos preenchem os pré-requisitos para uma favorável decisão contra uma crise futura? Apesar da crise econômica, que vivenciamos por seis anos, ficamos entre os "próximos" privilegiados, que não ultrapassam algumas centenas de milhões, enquanto mais de seis bilhões sobrevivem como mais ou menos o motorista africano. Muitos latejam certamente, porque não podem gastar, como antes. A maioria confia que a tempestade vá diminuir e voltar à época das vacas gordas. Não poucos se desapontaram de novo e subsistem com medicamentos calmantes e antidepressivos, que a comunidade científica do Ocidente nos oferece com liberalidade. Finalmente, alguns, aumentando menos com alarmante velocidade, põem fim à própria vida. E tudo isso, porque desprezamos a criança da manjedoura e acolhemos o velho rechonchudo, o modelo do consumo. 

O saudoso arcebispo da Albânia, santo apóstolo na África, algumas décadas antes, distribuía em algum lugar pedaços de pão bento  às crianças, que estendiam suas mãos implorando. Logo o cesto ficou vazio, enquanto muitas mãozinhas negras ainda permaneciam erguidas. Foi sentida intensa a perplexidade, quando lhes anunciou o padre que não haveria mais nada! Como desculpar-se àqueles olhares cheios de súplica? O que lhes deveria ser dito? Que os "cristãos" do mundo economicamente desenvolvido mantêm o seu pão com a pilhagem das suas fontes produtoras de riqueza, com o brinquedo de má qualidade da determinação dos preços dos produtos, com o desafio das guerras e com a disponibilidade de armamento aos sitiados?

Será que é tempo de nos ocuparmos com a mensagem que Deus nos enviou quando escolheu nascer numa estalagem barata longe dos poderosos do mundo?

https://e-ptolemeos.gr/anazitontas-noima-ton-christougennon-grafi-o-apostolos-papadimitriou/



NOTAS  EXPLICATIVAS
 


¹  Papai Noel, no Brasil, ou Pai Natal, em Portugal, é uma figura lendária que, em muitas culturas ocidentais, traz presentes aos lares de crianças bem comportadas na noite da Véspera de Natal (24 de dezembro) ou no Dia de São Nicolau (6 de dezembro). A lenda pode ter-se baseado em parte em contos hagiográficos sobre a figura histórica de São Nicolau. Uma história quase idêntica é atribuída no folclore grego e bizantino a Basílio de Cesareia. O Dia de São Basílio, em 1º de janeiro, é considerado a data de troca de presentes na Grécia.
O "bom velhinho" foi inspirado em São Nicolau, bispo de Mira, da província de Lícia, no século IV, o qual costumava socorrer, anonimamente, quem estivesse em dificuldades financeiras. Colocava o saco com moedas de ouro a ser ofertado na chaminé das casas. Foi declarado santo depois que muitos milagres lhe foram atribuídos. Sua transformação em símbolo natalino aconteceu na Alemanha e daí "viralizou".
Enquanto São Nicolau era originalmente retratado com trajes de bispo, atualmente Papai Noel é geralmente retratado como um velho rechonchudo, alegre e de barba branca trajando um casaco vermelho com gola e punho de manga brancos, calças vermelhas, e cinto e botas de couro preto. No século XX, essa imagem se popularizou nos Estados Unidos e Canadá devido a um comercial da Coca-Cola.
Há bastante tempo existe certa oposição a que se ensine as crianças a acreditarem em Papai Noel. Alguns cristãos dizem que a tradição de Papai Noel desvia das origens religiosas e do propósito verdadeiro do Natal. Outros críticos sentem que Papai Noel é uma mentira elaborada e que é eticamente incorreto que os pais ensinem os filhos a crerem em sua existência. Finalmente, outros se opõem a Papai Noel como um símbolo da comercialização do Natal, ou como uma intrusão em suas próprias tradições nacionais.
Obs: texto levemente adaptado.
Fonte: https://pt.wikipedia.org/wiki/Papai_Noel

²  Na Wikipédia, os Neo-helenos se caracterizam como pessoas da raça helênica que seguem tendências subsequentes às do Iluminismo Neo-helênico. É difícil definir um neo-heleno, mas esse termo é usado moderna e pejorativamente para indicar indolência, incapacidade ou decadência, conceitos que não têm a mínima relação com o real Neo-helenismo. Segundo a versão mais aceita, o Iluminismo neo-helênico tem suas raízes no século XV e, sob a influência do espírito europeu, sistematiza desde os albores do século XIX a ideia da identidade nacional para as populações dos antigos territórios helênicos. De acordo com o educador e historiador Apóstolos Diamantís, o Iluminismo helênico foi um movimento espiritual cuja demanda era a educação dos Helenos. 

³  O narrador deste incidente é o monge Polykarpos. A citação deste, que foi utilizada por Apóstolos Papademetríou, encontra-se no interior do texto intitulado "Nossos passarinhos perecem, cantando".
Cf. in https://kostasxan.blogspot.com.br/2016/12/blog-post_308.html?utm_source=feedburner&utm_medium=email&utm_campaign=Feed:+blogspot/vhzE+(%CE%91%CF%82+%CE%BC%CE%B9%CE%BB%CE%AE%CF%83%CE%BF%CF%85%CE%BC%CE%B5+%CE%B5%CF%80%CE%B9%CF%84%CE%AD%CE%BB%CE%BF%CF%85%CF%82!)

⁴  O vocábulo "δώρο" na língua grega significa "presente, mimo, oferta, oferenda". Já o vocábulo "αντίδωρο", que corresponde a esse "pão bento", em língua grega, é composto da preposição αντί, indicando oposição [contra, anti-, no grego antigo; no grego moderno, em vez de, no lugar de], e do substantivo δώρο (presente).

 


AGRADECIMENTO



Agradeço ao Prof. Aléxandros Orfanídis, residente em Atenas, a sugestão de que eu traduzisse o presente texto, o que me trouxe grande emoção por sentir quão diminuto é nosso trabalho cômodo, sereno e despreocupado em relação ao desenvolvido por um missionário noutro país, por exemplo, na África, repleto de dúvidas, inquietações e perturbações de toda espécie.