terça-feira, 1 de setembro de 2026

RECUPERE SEU LATIM > > PARTE 25: O MAIOR DESASTRE ESTRUTURAL DA ANTIGUIDADE

Tradução literal do latim, comentários e bibliografia sugerida por Francisco José dos Santos Braga 
 
O colapso do anfiteatro de Fidenae
 
I. INTRODUÇÃO DE ANAIS DE TÁCITO, LIVRO IV, cap. 62-63
 
Segundo o site oficial do Guinness World Records, o pior desastre esportivo da Antiguidade ocorreu em Fidenae, perto de Roma, Itália, em 27 A.D. Fidenae era uma cidade do Lácio antigo, localizada a cerca de 8 km ao norte de Roma, na margem esquerda do rio Tibre. Os nascidos ou moradores dessa cidade eram chamados de fidenates
Por ser uma cidade muito pequena para ter dezenas de milhares de habitantes próprios envolvidos na tragédia, a multidão que lotava o anfiteatro era composta majoritariamente por moradores de Roma (que ficava a apenas 8 km de distância). 
Antecedentes: A maioria das pessoas viajou de Roma até lá porque o imperador Tibério havia proibido temporariamente os jogos de gladiadores na capital, gerando uma enorme demanda reprimida. 
Quantidade de vítimas: Em vez de um censo prévio, a contagem foi feita após o colapso através de um esforço de emergência médica. Foi o registro de atendimentos públicos e remoção de corpos que serviu de base para os números que os historiadores documentaram mais tarde. 
Subsequentes: Os nobres e cidadãos ricos de Roma abriram suas casas para acolher os feridos. Médicos de toda a região foram requisitados pelo Senado para tratar as vítimas na própria cidade e no trajeto de volta a Roma. 
Relatos históricos ou fontes primárias fundamentais: Tácito, em sua obra Anais (Annales), escreveu que houve 50.000 entre mortos ou gravemente feridos. A sua descrição do trágico desastre em Fidenae encontra-se no quarto livro dos Anais, reconhecido como "o melhor que Tácito já escreveu". Tal livro abrange os anos 23 a 28 A.D., começando quando Tácito notou uma deterioração significativa  no principado do imperador Tibério e a influência cada vez mais malévola de seu "gênio maligno". Já Suetônio, em A Vida dos Doze Césares (De Vita Cæsarum), estimou o número de mortos em 20.000. Vejamos abaixo o texto de cada um desses historiadores.

 
II. TEXTO LATINO DE TÁCITO (ANAIS, LIVRO IV, cap. 62-63)
 
Cap. 62: M. Licinio L. Calpurnio consulibus ingentium bellorum cladem aequavit malum improvisum: eius initium simul et finis extitit. nam coepto apud Fidenam amphitheatro Atilius quidam libertini generis, quo spectaculum gladiatorum celebraret, neque fundamenta per solidum subdidit neque firmis nexibus ligneam compagem superstruxit, ut qui non abundantia pecuniae nec municipali ambitione sed in sordidam mercedem id negotium quaesivisset. adfluxere avidi talium, imperitante Tiberio procul voluptatibus habiti, virile ac muliebre secus, omnis aetas, ob propinquitatem loci effusius; unde gravior pestis fuit, conferta mole, dein convulsa, dum ruit intus aut in exteriora effunditur immensamque vim mortalium, spectaculo intentos aut qui circum adstabant, praeceps trahit atque operit. et illi quidem quos principium stragis in mortem adflixerat, ut tali sorte, cruciatum effugere: miserandi magis quos abrupta parte corporis nondum vita deseruerat; qui per diem visu, per noctem ululatibus et gemitu coniuges aut liberos noscebant. iam ceteri fama exciti, hic fratrem, propinquum ille, alius parentes lamentari. etiam quorum diversa de causa amici aut necessarii aberant, pavere tamen; nequedum comperto quos illa vis perculisset, latior ex incerto metus. 

Cap. 63: Ut coepere dimoveri obruta, concursus ad exanimos complectentium, osculantium; et saepe certamen si con fusior facies sed par forma aut aetas errorem adgnoscentibus fecerat. quinquaginta hominum milia eo casu debilitata vel obtrita sunt; cautumque in posterum senatus consulto ne quis gladiatorium munus ederet cui minor quadringentorum milium res neve amphitheatrum imponeretur nisi solo firmitatis spectatae. Atilius in exilium actus est. Ceterum sub recentem cladem patuere procerum domus, fomenta et medici passim praebiti, fuitque urbs per illos dies quamquam maesta facie veterum institutis similis, qui magna post proelia saucios largitione et cura sustentabant. 

Link: https://thelatinlibrary.com/tacitus/tac.ann4.shtml 
 
 
TEXTO DE TÁCITO TRADUZIDO PARA O PORTUGUÊS 
 
Cap. 62. Sendo cônsules M. Licínio e L. Calpúrnio ¹, um desastre imprevisto igualou a calamidade de grandes guerras: começou e terminou ao mesmo tempo. Um certo Atílio  na condição de liberto , querendo celebrar um espetáculo de gladiadores em Fidenae, construiu um anfiteatro, (mas) sem assentar suas fundações em base sólida nem edificar sobre esta uma estrutura de madeira com conexões firmes; do mesmo modo, como alguém que motivou o empreendimento não por abundância de dinheiro nem por vaidade política local, mas sim com vistas a um lucro sórdido ². Afluíram pessoas ávidas por tais espetáculos  já que no reinado de Tibério foram mantidos longe dos jogos (de gladiadores) , do sexo viril e feminino, de todas as idades, mais desmedidamente por causa da proximidade do local; donde a calamidade foi mais grave, com a estrutura apinhada de gente, em seguida despedaçada, enquanto rui para o lado de dentro ou se espalha para o lado de fora por sobre uma imensa quantidade de seres humanos, os que estavam atentos (ao espetáculo) ou os que estavam do lado de fora nos arredores, (os quais) o precipício arrasta e sepulta. E aqueles, de fato, a quem o início do colapso tinha arremessado à morte, considerando a circunstância de tal destino, escaparam do tormento: mais dignos de compaixão (foram) os que, embora tivessem partes do corpo decepadas, a (sua) vida ainda não (lhes) havia abandonado; os que, durante o dia pela visão, e durante a noite por uivos e gemidos, reconheciam seus cônjuges ou filhos. Então, os demais, atraídos pelos boatos, lamentavam, este um irmão, aquele um parente, e outro os seus pais. Mesmo aqueles cujos amigos ou entes queridos estavam ausentes por um motivo diferente, ainda assim temeram; e como ainda não se sabia ao certo quem aquela força violenta havia atingido, o medo era ainda maior por causa da incerteza.
 
Cap. 63. Assim que os escombros começaram a ser removidos, houve uma corrida em direção aos mortos por parte daqueles que os abraçavam e beijavam; e frequentemente surgia uma disputa, se um rosto mais desfigurado, mas uma estatura ou idade semelhante, tivesse gerado erro naqueles que tentavam reconhecê-los. Cinquenta mil homens foram mutilados ou esmagados ³ por aquele desastre; e, para o futuro, precaveu-se por meio de um senatusconsulto que ninguém promovesse um espetáculo de gladiadores cujo patrimônio fosse inferior a quatrocentos mil sestércios, e que nenhum anfiteatro fosse erguido a não ser em solo de comprovada solidez. Atílio foi expulso (do território romano) para o exílio. De resto, logo após a recente catástrofe, as mansões dos patrícios  foram abertas, curativos e médicos foram oferecidos por toda parte; e a cidade , naqueles dias, embora com uma triste aparência, assemelhava-se aos costumes antigos, quando, após grandes batalhas, amparavam os feridos com generosidade e cuidados .
 
NOTAS EXPLICATIVAS
 
¹  Outra tradução aceitável é: No consulado de M. Licínio e L. Calpúrnio... Observe que o verbo ser (esse) não possui particípio presente em latim. Trata-se do ablativo absoluto em que o sujeito M. Licinius et L. Calpurnius vai para o ablativo (M. Licinio et L. Calpunio) e o predicativo do sujeito consules também aparece no ablativo (consulibus).
O desastre esportivo aconteceu em 27 A.D. 
 
² Com essas palavras (in sordidam mercedem), Tácito expõe a motivação mesquinha e puramente mercantil do liberto Atílio ao construir o anfiteatro de Fidenae. A frase serve para enfatizar a condenação moral de Tácito à ganância que resultou no colapso estrutural.
 
³ Pode não haver necessariamente uma discrepância entre o número apresentado por Tácito e Suetônio, uma vez que este fala em 20.000 mortos, enquanto aquele fala em 50.000 mortos e feridos
 
 Próceres ou nobres. Ao longo dos séculos (sob a Monarquia, República e Império), foram mantidas divisões de classe muito nítidas. O próprio relato de Tácito ilustra isso: ele cita os proceres (nobres), os libertini (ex-escravos como Atílio) e a linha de riqueza dos 400 mil sestércios (que definia a Ordem Equestre). 
 
 Refere-se a Roma. 
 
Com essa passagem, Tácito conclui de forma solene a narrativa sobre o desabamento do anfiteatro. O elogio ao passado da República Romana (Mos Maiorum) é uma das maiores marcas da filosofia do historiador Tácito. O Mos Maiorum (costume dos maiores ou dos antepassados) era entendido como um conjunto de conduta não escrito, moldado por séculos de tradições, que os romanos consideravam a base do sucesso e da estabilidade de sua civilização, que todo cidadão romano (especialmente os da elite) deveria cultivar. O critério para a licitude ou ilicitude de atos do cidadão era a própria fonte viva do direito (Ius non scriptum), que vigorou plenamente no período arcaico e parcialmente no período clássico, sob a égide da Lei das XII Tábuas que oficializaram esses costumes ancestrais. Como Tácito viveu durante o Alto Império Romano (57 A.D. a 120 A.D.), pode-se considerar que Tácito, sob uma ótica moderna, era ideologicamente retrógrado, conservador e saudosista, mas no contexto intelectual da Roma Antiga, essa postura não era vista como um atraso, mas sim como a expressão máxima do patriotismo e do rigor intelectual. 
 
III. TEXTO LATINO DE SUETÔNIO (De Vita Cæsarum), cap. 40,  parágrafo 2
 
Statimque revocante assidua obtestatione populo ¹ propter cladem, qua apud Fidenas supra viginti hominum milia gladiatorio munere ² amphitheatri ruina ³ perierant (...)
 
 
TEXTO DE SUETÔNIO TRADUZIDO PARA O PORTUGUÊS 
 
E enquanto o povo  chamava de volta imediatamente, com insistente súplica, por causa da catástrofe em Fidenae, onde mais de vinte mil pessoas haviam morrido na ruína de um anfiteatro durante um espetáculo de gladiadores, (...)
 
NOTAS EXPLICATIVAS 
  
¹  Revocante populo: ablativo absoluto. 
² Gladiatorio munere, expressão no ablativo.  Munus, -eris” (substantivo neutro) originalmente significava dever sagrado aos mortos, exéquias, funeral, ou também ofício público, ocupação; mais tarde, os munera” passaram a designar jogos, espetáculos e combates de gladiadores.
³ Ruina, palavra no ablativo. Pode ser traduzido por "na ruína" ou "pelo desabamento".
O imperador Tibério. Como se comportou Tibério quando tomou conhecimento do desastre de Fidenae? No momento do desabamento do anfiteatro de Fidenae no ano 27 A.D., o imperador Tibério estava na ilha de Capri, localizada no Golfo de Nápoles. Exausto das pressões políticas de Roma e de sua relação tensa com o Senado, Tibério havia se retirado para Capri no ano anterior (26 A.D.), onde governava o império à distância a partir de seu palácio fortificado, a famosa Villa Jovis (Vila de Júpiter). Apesar de seu isolamento voluntário, os historiadores antigos registram que o impacto da tragédia civil foi tão profundo que Tibério deixou temporariamente o seu isolamento na ilha de Capri  e retornou ao continente italiano, dirigindo-se imediatamente para a região de Fidenae devido ao clamor e à comoção gerados pela magnitude da calamidade em Fidenae, a fim de coordenar pessoalmente o atendimento médico e os esforços de socorro às dezenas de milhares de vítimas. O impacto do seu gesto na opinião pública foi muito favorável, tendo a aristocracia e o povo de Roma elogiado temporariamente a sua atitude, pois ele demonstrou sua benevolência e presença que há muito faltavam a seu governo. Apesar de ter prestado esse atendimento pessoal, logo após a situação ser controlada, Tibério voltou definitivamente para Capri, de onde continuou governando de forma isolada até sua morte em 37 A.D.
 
 
IV. BIBLIOGRAFIA

CHAMPLIN, Edward: Tiberius and His Age: Myth, Sex, Luxury, and Power. Publicado pela Princeton University Press, 2026, 288 p.
 
GUINNESS WORLD RECORDS: Worst sporting disaster 
 
MARTIN, R. H. & WOODMAN, A. J. (Eds.): Tacitus: Annals Book IV. Publicado pela Cambridge University Press, 1989, 292 p. 
 
NAPOLITANO, Rebecca: Failure at Fidenae: Visualization and analysis of the largest estrutural disaster in the Roman world, tese apresentada como requisito parcial para a obtenção do grau de bacharel em Artes em Física, Connecticut College, 2015, 100 p.
Link: https://digitalcommons.conncoll.edu/physicshp/7/ 

quarta-feira, 26 de agosto de 2026

RECUPERE SEU LATIM > > PARTE 24: SUETÔNIO: PRESSÁGIOS SOBRE A MORTE DE JÚLIO CÉSAR

Tradução literal do latim, comentários e bibliografia sugerida por Francisco José dos Santos Braga 
Caio Suetônio Tranquilo (✰ c. 69 A.D. ✞ c. 141 A.D.)

Caesar: The ides of March are come. 
Soothsayer: Ay, Caesar, but not gone. 
William Shakespeare: Julius Caesar 

 

 

I. INTRODUÇÃO

Os presságios da morte de Júlio César são relatos mitológicos e históricos célebres, registrados principalmente pelos historiadores antigos Suetônio e Plutarco. Eles indicavam que o ditador romano corria grave perigo antes de ser assassinado nos Idos de Março (15 de março de 44 a.C.).
Os presságios mais famosos documentados pela tradição incluem: o alerta do arúspice ou adivinho Spurinna, os sonhos premonitórios, sinais da natureza (cavalos que choravam, sacrifício de vítimas sem coração e um "pássaro tirano"). 
 

II. TEXTO LATINO DE VITA DIVI JULI in DE VITA CÆSARUM  

Cap. 81. (...) Caesari futura caedes evidentibus prodigiis denuntiata est. Paucos ante menses, cum in colonia Capua deducti lege Iulia coloni ad extruendas villas vetustissima sepulcra disjicerent idque eo studiosius facerent, quod aliquantum vasculorum operis antiqui scrutantes reperiebant, tabula aenea in monimento, in quo dicebatur Capys conditor Capuae sepultus, inventa est conscripta litteris verbisque Graecis hac sententia: quandoque ossa Capyis detecta essent, fore ut illo prognatus manu consanguineorum necaretur magnisque mox Italiae cladibus vindicaretur. 
 
Cuius rei, ne quis fabulosam aut commenticiam putet, auctor est Cornelius Balbus, familiarissimus Caesaris. Proximis diebus equorum greges, quos in traiciendo Rubiconi flumini consecrarat ac vagos et sine custode dimiserat, comperit pertinacissime pabulo abstinere ubertimque flere. Et immolantem haruspex Spurinna monuit, caveret periculum, quod non ultra Martias Idus proferretur. 
 
Pridie autem easdem Idus avem regaliolum cum laureo ramulo Pompeianae curiae se inferentem volucres varii generis ex proximo nemore persecutae ibidem discerpserunt. Ea vero nocte, cui inluxit dies caedis, et ipse sibi visus est per quietem interdum supra nubes volitare, alias cum Iove dextram iungere; et Calpurnia uxor imaginata est conlabi fastigium domus maritumque in gremio suo confodi; ac subito cubiculi fores sponte patuerunt. 
 
Ob haec simul et ob infirmam valitudinem diu cunctatus an se contineret et quae apud senatum proposuerat agere differret, tandem Decimo Bruto adhortante, ne frequentis ac iam dudum opperientis destitueret, quinta fere hora progressus est libellumque insidiarum indicem ab obvio quodam porrectum libellis ceteris, quos sinistra manu tenebat, quasi mox lecturus commiscuit. Dein pluribus hostiis caesis, cum litare non posset, introiit curiam spreta religione Spurinnamque irridens et ut falsum arguens, quod sine ulla sua noxa Idus Martiae adessent: quanquam is venisse quidem eas diceret, sed non praeterisse.
 
 
II. TRADUÇÃO por Francisco José dos Santos Braga para Vida de Júlio César Deificado in As Vidas dos Doze Césares 
 
Cap. 81 - (...) o iminente assassinato de César foi prenunciado a ele por prodígios claros. Poucos meses antes, como os colonos, levados para a colônia de Cápua pela Lei Juliana ¹, estivessem demolindo túmulos muito antigos, para construir villas; e estivessem exercendo seu trabalho com o maior zelo porque, ao vasculharem, encontraram uma quantidade de vasos de artesanato antigo, foi descoberta em uma tumba, que se dizia ser a de Capys, o fundador de Cápua, uma placa de bronze, inscrita com palavras e caracteres gregos com este propósito:
No dia em que os ossos de Capys forem descobertos, acontecerá que um seu descendente será morto pela mão de seus parentes e logo será vingado com perdas para a Itália.” ²
Que ninguém julgue que esta história é fabulosa ou inventada, pois ela é atestada por Cornélio Balbo, um amigo íntimo de César. Nos dias seguintes, ficou sabendo que a manada de cavalos que ele (César) tinha consagrado ao Rio Rubicão ao cruzá-lo, e deixado solta, sem guarda, rejeitava obstinadamente pastar e chorava copiosamente. E enquanto César estava oferecendo um sacrifício, o arúspice ³ Spurinna advertiu-o para tomar cuidado com um perigo, que não seria adiado para além dos Idos de Março. 

Por outro lado, na véspera dos mesmos Idos, uma ave-rei 
, carregando um ramo de louro , voou em direção à Cúria de Pompeu , perseguida por outras de várias espécies vindas de um bosque próximo, que a despedaçaram aí mesmo. Quanto à referida noite após a qual rompeu a aurora do dia do assassinato, César sonhou que ele próprio ora sobrevoava as nuvens, ora segurava a mão direita de Júpiter; e sua esposa Calpúrnia sonhou que a cumeeira da casa estava desabando e que seu marido estava sendo esfaqueado nos braços dela; e de repente as portas do quarto se abriram sozinhas. 
 
Tanto por estas razões  quanto por problemas de saúde, (César) hesitou durante muito tempo se deveria ficar em casa e adiar o que pretendia tratar no Senado; mas finalmente, por exortação de Décimo Bruto , [César decidiu ir] para não desapontar os [senadores] que já se encontravam reunidos em grande número e esperando por ele há muito tempo. Ele saiu quase no final da quinta hora ; e quando alguém ¹ que vinha ao seu encontro lhe entregou uma petição que denunciava a conspiração, ele a misturou com outras que segurava na mão esquerda, pretendendo lê-los logo. Em seguida, tendo sido sacrificadas várias vítimas, sem que pudesse conseguir presságios favoráveis ¹¹, ele entrou na Cúria, desprezando a religião, zombando de Spurinna e acusando-o de falso, porque os Idos de Março chegaram sem lhe causar danos; embora este tenha dito que eles realmente tinham chegado, mas não tinham ido. 
 
Artemidoro de Cnido entrega bilhete a César denunciando a conspiração - Crédito: Getty Images

 
 
 
III. NOTAS EXPLICATIVAS
 
¹ A Lei Juliana Agrária (Lex Julia Agraria), promulgada em 59 a.C. pertence às reformas agrárias implementadas por Júlio César. Durante o seu primeiro consulado, Júlio César propôs essa medida para resolver dois problemas graves da República Romana: a falta de terras para os cidadãos urbanos empobrecidos e a necessidade de recompensar os soldados veteranos de guerra de Pompeu. Os cidadãos beneficiados eram enviados para estabelecer novas colônias agrícolas (daí o termo "colonos"). Para evitar a especulação imobiliária, os novos colonos não podiam vender as terras recebidas por um período mínimo de 20 anos. 
 
²  A profecia da tabuazinha de bronze de Cápua, narrada por Suetônio, antecipa a trágica e devastadora guerra civil que seguiu o assassinato de Júlio César e culminou na punição dos conjurados, considerados culpados pela morte de César.
Temos a fazer algumas observações sobre o conteúdo da tabuazinha:
1) O descendente de Cápys: Refere-se a Júlio César, visto que a gens Júlia (e os troianos fundadores) traçavam sua linhagem mítica até Iulo e Enéias, ligados a essa ancestralidade troiana/Campânia.
2) A morte pelas mãos de parentes: Aponta para a traição dentro do próprio círculo e de aliados/familiares políticos (como Bruto), colaborando ativamente com os conspiradores para o assassinato de César. 
Marco Júnio Bruto era um dos aliados mais próximos e queridos de César. Filho de Servília (a amante mais famosa do ditador), havia rumores na época de que Bruto poderia ser filho biológico de César. Ele foi convencido a liderar a trama porque sua família descendia diretamente de Lucius Junius Brutus, o herói lendário que havia expulsado o último rei de Roma séculos antes. Sua presença dava legitimidade moral ao assassinato.
Suetônio sugere que a última frase real de César teria sido dita em grego: "Kai su, téknon?" (Também tu, meu filho?)
3) A vingança com grandes perdas para a Itália (magnis mox Italiae cladibus): Profetiza com precisão o banho de sangue subsequente das guerras civis lideradas por Marco Antônio e Otaviano contra Bruto e Cássio, além das proscrições e das fomes e crises que castigaram profundamente a península itálica.
4) Segundo relatos de historiadores antigos como Suetônio, nenhum dos assassinos de Júlio César em 44 a.C. sobreviveu por mais de três anos após o crime, morrendo seja em batalha, por suicídio ou assassinados por inimigos políticos.
 
³ Na Roma Antiga, era o nome dado ao sacerdote ou adivinho que previa o futuro examinando as entranhas (especialmente o fígado e os órgãos internos) de animais sacrificados. 
Nos dias que antecederam os Idos de Março, César não estava completamente alheio ao que estava sendo planejado. De acordo com o historiador grego Plutarco, um adivinho advertiu César de que sua vida estaria em perigo o mais tardar nos Idos de Março (15 de março de 44 a.C.). O biógrafo romano Suetônio identifica esse vidente como um Arúspice chamado Spurinna. 
 
  Observe que Suetônio se refere a uma "avis regaliolum". 
Comecemos por verificar que uma das acepções para "avis" é exatamente a de presságio. Observe ainda que a palavra "regaliolum" tem relação direta com o radical do adjetivo latino "regalis", cujo sentido é "real ou de rei", que também deu origem ao termo "regalia" (as coisas ou prerrogativas da realeza). O nosso "regaliolum" é um composto do radical "regalis" + sufixo diminutivo "iolum". 
Outra questão refere-se à palavra "avis", que em português, no caso, imaginamos que possa ser traduzida por pássaro ou passarinho por suas pequenas dimensões (10 cm de comprimento). "Passer, -eris" em latim é o nosso conhecido pardal, uma ave urbana muito comum nas ruas e telhados da Roma antiga. Como os romanos viam pardais o tempo todo, o nome dessa espécie acabou sendo usado no dia a dia para se referir a qualquer ave pequena. A palavra portuguesa "pássaro" vem de "passer", passando por "passaru" do latim vulgar.
Alguns tradutores entendem que esse pássaro-rei tenha a ver com a carriça ou régulo (assim chamado por possuir uma coroa de penas vistosas na cabeça), achando que Suetônio pensava exatamente nesse pássaro com um ramo de louro no bico, quando, no capítulo 81, relata os presságios agourentos ocorridos pouco antes do assassinato do "rei" ou ditador romano nos Idos de Março. O relato de Suetônio nos dá conta de que uma "avis regaliolum" (uma "avezinha-rei" ou carriça/régulo) voou para o interior da Cúria de Pompeu carregando um ramo de louro, e logo em seguida foi perseguida e despedaçada por vários outros tipos de pássaros vindos de um bosque próximo. 
Apesar de ser a carriça uma das menores aves da Europa, há uma fábula de Esopo em que ela conquistou o título de "rei das aves" por sair-se vitoriosa em disputa com a águia na competição pelo teste do voo mais alto. 
 
 O ramo de louro é o símbolo máximo de vitória, triunfo, honra e sabedoria na história ocidental. O louro era associado a Apolo, o deus grego da luz, da poesia, da música e da profecia. Por isso, poetas destacados, artistas e pensadores eram coroados com louros (origem do termo "poeta laureado").
Na Grécia e na Roma Antiga, coroas feitas com ramos de louro eram entregues aos generais que retornavam vitoriosos das guerras e aos atletas campeões dos Jogos Olímpicos. Imperadores romanos (como Júlio César) e, mais tarde, figuras como Napoleão Bonaparte, utilizavam coroas de louro em moedas e pinturas para legitimar seu poder supremo e eterno. 
 
 Cf. Virgílio, Eneida, X, 143. A Cúria de Pompeu será o local do assassinato de César no dia seguinte. 
Recentemente (2012), arqueólogos desenterraram a monumental estrutura em concreto em Torre Argentina, em Roma, com as dimensões de 3m X 2m que pode ter sido erigida por César Augusto para condenar o assassinato de seu tio. A estrutura está na base da Cúria, ou Teatro, de Pompeu, o local onde escritores clássicos narraram que aconteceu o esfaqueamento de Júlio César.
Link: https://www.livescience.com/23900-julius-caesar-assassination-place-discovered.html 
 
 As tais "razões" se referem aos presságios, inclusive ao sonho de Calpúrnia. 
 
Apesar de todos esses sinais e de um forte mal-estar físico, César foi convencido pelo conspirador Décimo Bruto a comparecer à sessão, sob o argumento de que sua ausência seria vista como um insulto ao Senado.
 
  O sistema de contagem romano dividia o período de luz solar (do amanhecer ao pôr do sol) em exatamente 12 horas diárias, independentemente da estação do ano. A "quinta hora" corresponde aproximadamente ao período entre 10h e 11h da manhã (ou, dependendo da estação do ano, estendendo-se até próximo ao meio-dia). A "primeira hora" começava exatamente ao nascer do sol. A "hora sexta" correspondia sempre ao meio-dia exato. Portanto, a quinta hora representava o último intervalo de tempo antes do meio-dia.
 
¹ Artemidoro de Cnido, professor de literatura grega em Roma que conhecia alguns dos conspiradores e tentou salvar a vida de César. 
 
¹¹ O resultado do sacrifício foi decepcionante para César, eis que a vítima (o animal sacrificado) não possuía coração, o que foi considerado um dos piores e mais sinistros presságios da história romana. O terrível augúrio aconteceu da seguinte forma: ao abrir o animal para examinar as entranhas, o arúspice (ou adivinho Spurinna) constatou que faltava o coração na vítima. A reação de César, diante dessa evidência, foi minimizar o aviso divino e ironizar a situação, mostrando-se cético em relação a superstições. Ele declarou que o presságio apenas significava que "ele teria coragem", ou que um animal sem coração não era algo extraordinário na natureza. Logo após ignorar esse e outros avisos (como o seu pesadelo e o de sua esposa Calpúrnia e o famoso alerta "Cuidado com os Idos de Março", ou "Beware the Ides of March", tão recorrente na tragédia de Shakespeare), César seguiu para a Cúria de Pompeu e acabou assassinado por um grupo de senadores conspiradores. Desse golpe político e tiranicídio resultou o seguinte desdobramento: em vez de serem aclamados como heróis defensores da República, os conspiradores tiveram fins trágicos. Quase todos os assassinos de Júlio César foram perseguidos, perderam o poder político em Roma e morreram violentamente ou cometeram suicídio poucos anos após o crime de 44 a.C., derrotados pelas forças do Segundo Triunvirato liderado por Marco Antônio e Otaviano (o mesmo que iria inaugurar o Império Romano, com o título de Otaviano Augusto que lhe seria concedido pelo senado em 27 a.C.).
 
IV. BIBLIOGRAFIA 
 
BRAGA, F.J.S.: RECUPERE SEU LATIM > > PARTE 15: EXCERTOS DA HISTÓRIA ROMANA POR EUTRÓPIO, publicado no Blog do Braga em 16/12/2022
 
SUETÔNIODE VITA CÆSARUMDE VITA DIVI JULI  
 
__________:  A Vida dos Doze Césares, Brasília: Secretaria de Editoração e Publicações do Senado Federal, 2012, 320 p.

sábado, 22 de agosto de 2026

RECUPERE SEU LATIM > > PARTE 23: CÍCERO: CARTAS

Tradução literal do latim, comentários e bibliografia sugerida por Francisco José dos Santos Braga 
Marco Túlio Cícero (✰ 106 a.C., Arpino ✞ 43 a.C., Fórmias)

I. INTRODUÇÃO: visão geral sobre as cartas, sua autoria e seus correspondentes 

Para introduzir o leitor no tema das Cartas de Cícero a Ático, julgo oportuno tomar emprestado o trecho inicial da Introdução das Cartas de Cícero I. Cartas a Ático I, livro publicado pelo Editorial Gredos, mencionado na bibliografia e traduzido por mim do espanhol:
“INTRODUÇÃO por Miguel Rodríguez-Pantoja Márquez 
Os 16 livros de Cartas a Ático contêm quase 50% da correspondência ciceroniana conservada que, se somarmos as respostas de outras pessoas (algo mais de 70), alcança a cifra total de 931 cartas. São, juntamente com as dirigidas a seu irmão Quinto, as mais "privadas" do corpus, tanto no conteúdo (Cícero se expressa muitas vezes com grande espontaneidade, deixando transparecer seus sentimentos mais íntimos ou suas opiniões mais discutíveis) quanto na forma: utiliza o sermo cotidianus das classes cultas de seu tempo, não dessa cadência rítmica das frases que tão zelosamente elabora em boa parte de suas obras (sem excluir não poucas das cartas dirigidas a muitos destinatários), concede amplo espaço à língua grega (não só nas citações e frases, mas também na redação de passagens inteiras como recurso  por sinal algo muito significativo do ponto de vista cultural  para ocultar  questões especialmente delicadas das leituras indiscretas dos entregadores). 
Nelas Marco Túlio "conversa" aberta e livremente quem tem como seu melhor amigo (e conhecido é o valor que dava a esta palavra que, inclusive, foi autor de um tratado, Sobre a Amizade) e a ele confia, comenta e consulta sobre todo tipo de questões, políticas sem dúvida (...), mas também sociais e pessoais. Ao mesmo tempo, as cartas esporadicamente intercaladas de seus correspondentes permitem conhecer outros pontos de vista e outras formas de se expressar. 
A leitura atenta destas páginas, que abarcam cronologicamente 25 anos decisivos na história do Ocidente  de novembro de 68 a novembro de 44 —, proporciona um excelente posto de observação para contemplar o vaivém cotidiano de pessoas e instituições que integram (ou talvez melhor, desintegram) uma sociedade em crise. (...)

Complementarmente a essas informações, a Wikipédia acrescenta outros dados muito curiosos, que apresentamos aqui para apreciação do leitor:

A coleção Epistulae ad Atticum compreende 16 livros e foi publicada antes de 66 pelo editor e empresário romano Atticus, destinatário desta correspondência de Cícero, da qual era fiel amigo e confidente. “Mais do que todos os outros, Atticus era amado por Cícero, que não tinha um afeto mais intenso e próximo por seu irmão Quinto”, diz Cornelius Nepos, seu colaborador e biógrafo. Desta amizade quotidiana, restam 454 cartas a Atticus (das 813 cartas de Cícero que chegaram até nós) que se retiram do diário e dizem respeito às mais diversas questões. Cornelius Nepos afirmou que Atticus coletou a correspondência em 11 livros. 
Foi Francesco Petrarca quem deu a conhecer as Cartas de Cícero a Ático, preservadas em um manuscrito descoberto em 1345 na biblioteca do capítulo de Verona, do qual ele mandou fazer uma cópia. Esta cópia foi usada pelas edições importantes destas obras, como a de Paolo Manuzio, no século XVI.
A coleção das cartas de Cícero é indubitavelmente a parte mais valiosa e interessante de sua obra literária. Inclui cerca de 800 cartas escritas por ele e perto de 100 por ele recebidas de uma ampla variedade de correspondentes. As cartas cobrem um imenso leque de tópicos, mas acima de tudo fornecem um quadro vivo do próprio Cícero.

Tomando como referencial o pano de fundo acima citado, passemos a apreciar trechos de duas cartas a seu amigo Ático, cujo nome completo era Tito Pompônio Ático (em latim, Titus Pomponius Atticus).

Cicero e seus dois Amigos, Ático and Quinto, em sua Villa em Arpinum (1769-70), pelo pintor Richard Wilson - Ashmolean Museum
 
II. TEXTO, TRADUÇÃO E COMENTÁRIOS
 
1) Cartas de Cícero ao amigo Ático 

a) Livro III, carta XXVI 
Scr. Dyrrachi m. Ianuario a. 697 ¹ (57 A.C.).
CICERO ATTICO SAL.  ²
Litterae ³ mihi a Quinto fratre cum senatus consulto quod de me est factum adlatae sunt. Mihi in animo est legum lationem exspectare et, si obtrectabitur, utar auctoritate senatus et potius vita quam patria carebo. Tu, quaeso, festina ad nos venire.
 
Comentário: Para tradução desse texto, proponho alterar a ordem de certas palavras para maior simplificação do nosso trabalho para a seguinte construção:
Adlatae sunt mihi litterae a fratre Quinto cum consulto senatus quod factum est de me.
Recebi uma carta do (meu) irmão Quinto juntamente com um decreto aprovado no senado, sobre mim.
Est mihi in animo expectare lationem legum, et, si obtrectabitur, utar auctoritate senatus, et carebo potius vita quam patria
É minha intenção esperar que as leis sejam votadas, e, se se houver oposição, usarei da autoridade do senado, e renunciarei antes à vida do que à pátria.
Tu, quaeso, festina venire ad nos.
Quanto a ti, peço, apressa-te em vir até mim (nós).  
 
¹ (Litterae) scriptae Dirrachi  mense Ianuario anno 697 (57 A.C.)
Ab urbe condita 697 ou anno urbis conditae 697: no ano 697 da fundação de Roma ou 57 A.C. no nosso calendário.

² A abertura combinava o nome de quem escrevia (no caso nominativo), o nome de quem recebia (no caso dativo) e a saudação. Exemplo: 
Cicero Attico salutem. 
Tradução: "Cícero [deseja] saúde a Ático" ou "Cícero (envia) saudações a Ático" ou ainda "Cícero (envia) cumprimentos a Ático".
Observe que a palavra latina salus assume diversas acepções, dependendo do contexto em que for usada. Pode significar saúde (física e mental), saudação ou cumprimento, ou ainda salvação/segurança/bem-estar. Neste último caso, não nos esqueçamos do célebre aforismo de Cícero: Que o bem-estar do povo seja a lei suprema (em latim: Salus populi suprema lex esto), mencionado em sua obra jurídica e política De Legibus (Das Leis), especificamente no Livro III.

³ Pluralia tantum são palavras que só existem ou só se usam no plural.
Como em português, também no latim alguns substantivos só registram o número plural e se referem a um único objeto e só possuem essa forma. É o caso de castra (acampamento), insidiae (emboscada), etc. 
Litterae (carta) não é um exemplo estrito de pluralia tantum em latim, porque a palavra existe também no singular (littera), com o significado de letra.
 
 
⁴ O antigo Dyrrachium, situado na Illyria, hoje Durrës, estava localizado na costa da Albânia, às margens do Mar Adriático, o terminal ocidental da Via Egnácia, a grande estrada romana que cortava os Bálcans até Bizâncio (atual Istambul). Era por ali que Cícero recebia de forma mais rápida as cartas, boatos e notícias políticas vindas da capital durante este seu exílio. 
Nas cartas de Cícero, essa cidade portuária ganha enorme relevância porque foi o seu principal refúgio durante o exílio em 58 a.C., além de ter sido um ponto estratégico fundamental de comunicações e logística na República Romana. 
 
b) Livro III, carta XXVII
Scr. Dyrrachi ex. m. Ian. a. 697 (57 A.C.).
CICERO ATTICO SAL.

ex tuis litteris et ex re ipsa nos funditus perisse video. te oro ut quibus in rebus tui mei indigebunt nostris miseriis ne desis. ego te, ut scribis, cito videbo.

Da tua carta e pela própria situação, vejo que estou completamente arruinado. Nos assuntos em que os meus (de minha família) precisam de tua ajuda, suplico-te que não nos desampares em nossa miséria. Conforme tua carta, ver-te-ei em breve. 
 
2) Carta de Cícero a sua esposa Terência
 
c) Livro LXIV, carta 22 
Scr. Brundisii  an. 707 (47 A.C.) 
TULLIUS S. D. TERENTIAE SUAE 
 
S. v. b. e.; e. v.  Nos cotidie tabellarios nostros exspectamus; qui si venerint, fortasse erimus certiores quid nobis faciendum sit, faciemusque te certiorem statim. Valetudinem tuam cura diligenter. Vale. 
K. Septemb.
 
(Carta) escrita em Brundisi no ano 707 (47 A.C.)
Túlio envia saudações a sua (esposa) Terência
 
Se vais bem, alegro-me; eu vou bem. Todos os dias espero nossos mensageiros. Se eles vierem, talvez ficarei ciente do que devo fazer, e te mantenha informada imediatamente. Cuida diligentemente de tua saúde. Passa bem!
Nas calendas de setembro.
 
 Brundisium (conhecida hoje como Brindisi) ficava localizada na região da Apúlia (Puglia), no sudeste da Itália. A cidade está situada exatamente no "salto da bota" da península italiana, banhada pelas águas do Mar Adriático. Na época, a cidade era o destino final da famosa Via Ápia, a estrada monumental que ligava Roma ao sul do país.
 
 Si vales, bene est; ego valeo. Era comum, na época de Cícero, o uso de diversas fórmulas abreviadas em latim e usadas no cabeçalho para saudar o destinatário.
Nesta carta, há dois tipos dessas fórmulas: S. D. (Salutem Dicit, significando "diz saudações" ou "envia saudações") e S. v. b. e.; e. v. (Si vales, bene est; ego valeo.)
 
3) Carta de Cícero a Curião
 
d) Livro II Ad familiares, carta 4 

Scr. Romae an. 701 (53 A.C.) 
CICERO S. D. C.  CURIONI 

Epistularum genera multa esse non ignoras sed unum illud certissimum, cuius causa inventa res ipsa est, ut certiores faceremus absentis si quid esset quod eos scire aut nostra aut ipsorum interesset. (...)

Carta escrita em Roma no ano 701 (53 A.C.)
Cícero envia saudações a Curião e aos demais 

Você bem sabe que existem muitos gêneros de cartas, mas um por excelência, por causa do qual a coisa mesma foi inventada, para que mantivéssemos os ausentes informados do que acontece, que importaria ou a nós ou a eles próprios saber. (...)
 
 Nas cartas de Cícero, a sigla S.D.C. significa Salutem Dicit Ceterisque (ou variantes como Salutem Dicit Ceteris). Esta é outra fórmula utilizada na abertura (cabeçalho) da correspondência quando o remetente desejava saudar o destinatário principal e também as demais pessoas ligadas a ele, como familiares, amigos próximos ou membros de uma mesma comitiva, sem precisar listar o nome de cada um individualmente.
 
⁸ O nome completo de Curião, o famoso amigo e correspondente de Cícero, é Caio Escribônio Curião (em latim, Gaius Escribonius Curio). Foi tribuno da plebe em 50 a.C. e amigo íntimo de Marco Antônio. Apesar de sua juventude rebelde e cheia de escândalos, Cícero gostava muito dele, tentou atuar como seu mentor político e lhe enviou várias cartas que sobreviveram na coletânea Epistulae ad Familiares. Mais tarde, Curião mudou de lado e morreu lutando por Júlio César na Guerra Civil. 
 
III. BIBLIOGRAFIA 
 
BRAGA, F. J. S.: RECUPERE O SEU LATIM > > PARTE 3, matéria publicada em 16/12/2017 pelo Blog do Braga
 
______________: CONSPIRAÇÃO CONTRA A REPÚBLICA ROMANA (65-63 a.C.), matéria publicada em 11/04/2016 pelo Blog do Braga
 
______________: RECUPERE SEU LATIM > > PARTE 9: ÚLTIMAS PALAVRAS DE CIRO, O GRANDE, SOBRE A ALMA, matéria publicada em 07/06/2022 pelo Blog do Braga
 
______________: RECUPERE SEU LATIM > > PARTE 19, matéria publicada em 15/03/2024 pelo Blog do Braga
 
______________:  RECUPERE SEU LATIM > > PARTE 21: SOBRE IDADE AVANÇADA, POR CÍCERO, matéria publica em 02/06/2025 pelo Blog do Braga
 
CÍCERO, Marco Túlio: Cartas I. Cartas a Ático I. Madri: Editorial Gredos, 1996, introdução, tradução e notas por Miguel Rodríguez-Pantoja Márquez
Link: https://archive.org/details/ciceron-marco-tulio.-cartas-i.-cartas-a-atico-i-g-1996_202202/page/n1/mode/2up 
 
COSTA, Rafaela Manha da: Cícero e sua relação de amicitia com Ático: dinâmicas financeiras (IAEC), dissertação apresentada à Faculdade de Ciências Humanas e Sociais, Universidade Estadual Paulista “Júlio de Mesquita Filho”, como pré-requisito para obtenção do Título de Mestre em História, 2025, 209 p.
 
WIKIPÉDIA: verbete "Lettres à Atticus"
 
 
 

domingo, 9 de agosto de 2026

REPERCUSSÕES DA GUERRA DE CANUDOS EM SÃO JOÃO DEL-REI

Por Francisco José dos Santos Braga


I. INTRODUÇÃO 
 
Dando continuidade às minhas duas publicações  Flashes da Memória de um cabo do Exército na Guerra de Canudos e Logística no Sertão: Marechal Bittencourt , concluo aqui com a presente matéria uma trilogia ou ciclo dedicado a um dos mais graves episódios da história brasileira, que funcionou como um trauma fundador e expôs as contradições, a violência e a exclusão social do novo regime republicano. Como faltava apresentar uma pesquisa com coloração local, entendo necessário dar atenção à minha própria terra natal e verificar como esta acolheu as notícias da vitória das tropas governistas sobre os "fanáticos" conselheiristas em outubro de 1897.
 
5 de outubro de 1897, dia da vitória da violência militar  extrema contra uma comunidade de sertanejos pobres. Há pouco mais de cento e vinte e oito anos chegava ao fim o massacre de 25.000 "fanáticos" sertanejos que se uniram a um líder religioso, Antônio Vicente Mendes Maciel, popularmente conhecido como Antônio Conselheiro. Esse líder religioso nasceu em Quixeramobim, Ceará, onde passou a primeira metade de sua vida. Após desilusões pessoais e profissionais, ele iniciou uma longa peregrinação messiânica pelo sertão nordestino, deixando registros de sua passagem por duas províncias (Pernambuco e Sergipe), antes de se fixar definitivamente em solo baiano a partir de 1874, culminando mais tarde na fundação do histórico Arraial de Canudos em 1893. Uma característica central de seu movimento era o milenarismo (o fim dos tempos estava próximo), profundamente interligado ao seu perfil messiânico, dois fatores responsáveis por arrastar milhares de fiéis ao sertão nordestino no final do século XIX. Ele fazia profecias sobre o fim do mundo e o retorno de Dom Sebastião para destruir a República. Para ele, o casamento civil e o censo da República eram "leis do Cão". O povo o enxergava como um enviado de Deus, mas ele se considerava o mensageiro direto de Jesus Cristo para guiar os injustiçados. Conclamava seus liderados ao arrependimento imediato antes da punição divina. Prometia também uma vida melhor no céu para compensar a miséria da Terra. Fundou o Arraial de Canudos como uma terra prometida livre das leis da República. Aconselhava seus seguidores a construírem capelas, cemitérios e açudes. 
 
Apesar dessas características serem típicas de um católico fundamentalista e anti-republicano, a grande imprensa da capital federal, de São Paulo e especialmente de Salvador passou a fazer uma campanha contra a comunidade dos conselheiristas, acusando-os de ameaça à ordem pública local para, em seguida, passar a extrapolar, acusando-os de ameaça à própria República e de um agente da restauração monárquica. Igualmente passou a pressionar as forças federais a reprimir o movimento que gerava inquietação nos líderes políticos, nos latifundiários e no clero. 
 
A Guerra de Canudos, que teve a duração de um ano, consistiu de 4 expedições, que mobilizaram inicialmente um pequeno contingente de 100 soldados na primeira expedição, que foi se encorpando até atingir 10.000 soldados fortemente armados com artilharia pesada na última, culminando no massacre total da população de Canudos e destruição completa do arraial. Estima-se que cerca de 5.000 militares (forças do Exército e da polícia) morreram ao longo de toda a Guerra de Canudos (1896–1897). 
 
Consumada a vitória das forças federais, a imprensa festejou laureando os novos heróis da República, especialmente os seguintes: o Coronel Moreira César que tombou enquanto comandava a terceira expedição (março de 1897), o Coronel Thompson Flores enquanto comandava a 3ª Brigada de Infantaria durante a 4ª expedição militar contra Canudos, (junho de 1897) e o ministro da Guerra, Marechal Bittencourt, que estruturou a vitória militar em Canudos durante a 4ª expedição militar contra Canudos. 
 
Não foram apenas os órgãos de imprensa a festejarem a vitória. A destruição total do Arraial de Canudos (novembro de 1897) deu uma demonstração de força do primeiro presidente civil da República, Prudente de Morais, enfraquecendo os rumores espalhados pelos "jacobinos" (republicanos radicais e florianistas) de que ele seria fraco ou monarquista. O júbilo oficial contaminou muitos municípios brasileiros, através de seus representantes eleitos, que aclamaram os vitoriosos na campanha militar contra Canudos, e até mesmo suas populações fizeram manifestações de júbilo, exaltação e triunfo patriótico. Em meio à comoção nacional provocada pelas baixas governistas no conflito, as Câmaras Municipais nomearam seus logradouros públicos (ruas, praças, avenidas, pontes e viadutos) com o nome de alguns militares que tombaram em combate, além de fazerem indicações de apoiamento contra Canudos. Viva a República... O fato de o Marechal Bittencourt ter sofrido morte heróica na capital federal ao proteger o presidente Prudente de Morais de um atentado covarde, exatamente um mês depois do massacre de Canudos, comoveu intensamente o imaginário popular da época e funcionou como um abafador das críticas que o Exército vinha sofrendo pela violência excessiva no sertão baiano. Cinco anos mais tarde, Os Sertões, de Euclides da Cunha, desconstruiria esse triunfalismo ao expor o drama social e a violência desmedida do Estado contra os sertanejos. Nessa obra, o autor revelaria a existência de "dois Brasis": o Brasil do litoral civilizado que ignorava completamente a realidade, a miséria e a cultura do Brasil do sertão interiorano. Concluiu seu livro denunciando que a campanha militar contra Canudos foi, na verdade, um crime e uma loucura do Estado.
 
II.  SÃO JOÃO DEL-REI APLAUDIU OS VENCEDORES
 
Em uma pesquisa feita em periódico em circulação em 1897, livros de historiadores e indicação feita por edis, todos são-joanenses, podemos ter uma visão do pensamento que prevalecia na época sobre os fatos ocorridos em Canudos e a imagem reinante sobre seu líder. 
 
1. Fato noticiado pelo semanário O RESISTENTE, ano III, edição nº 111, São João d'El-Rey, quinta-feira, de 07/10/1897, pág. 2
 
Sucesso de Canudos
Nos dias decorridos desde as últimas notícias que inserimos na folha de quinta-feira passada, pouco ou quase nada se adiantou sobre conhecimento dos fatos do sítio e ataque decisivo de Canudos.
Houve até certa falta de comunicações, que deu lugar novamente a boatos de algum modo alarmantes, mas que logo foram destruídos pela afirmação positiva das vantagens de nossas forças no derradeiro ímpeto patriótico e valoroso contra os miseráveis fanáticos acuados no último recanto de seu quase vencido reduto.
Constou também, mas não é crível, que Antônio Conselheiro, tendo fugido, não se acha mais em Canudos, e sim na Várzea da Ema.
Damos em seguida o telegrama recebido por último pelo sr. presidente da República, e que representa as mais recentes notícias chegadas do centro das operações.
Ei-lo:
Monte Santo, 4 de Outubro - (Recebido às 12 horas e 25 minutos da noite)  Exmo. sr. Presidente da República  Ainda não recebi parte do general Arthur Oscar, mas feridos aqui chegados hoje informam que nossas forças no dia 1º do corrente atacaram o inimigo com intrepidez e tomaram a igreja nova; que o inimigo ainda se conserva em um grupo de casas com seteiras e furnas, defendendo-se de nossas forças, que com grande valor sustentam cerrado tiroteio desde aquele dia; que tem havido prejuízos de parte a parte, tendo nós vários oficiais fora de combate; que grande número de mulheres, crianças e alguns homens têm-se apresentado às nossas forças, confessando estarem os jagunços sofrendo muita fome e sede; de que se deve concluir o próximo desenlace desta luta.  Cordiais saudações  M. Bittencourt.
Já estava composto e paginando-se o que se lê aí acima, quando à última hora recebemos ontem à tarde a esperada notícia da vitória completa de nosso exército contra os jagunços de Canudos, sendo arrasado esse terrível reduto e feito prisioneiro o chefe dos fanáticos, o célebre Antônio Conselheiro, na Várzea da Ema.
Não temos espaço para comentar como devíamos o grande acontecimento, que vem restituir a paz e a tranquilidade à Pátria Brasileira, consolidando outrossim com mais uma sanguinolenta vitória as belas instituições republicanas.
Glória excelsa ao brioso e denodado Exército Brasileiro!
Glória ao bravo e patriótico General Arthur Oscar!
Viva a memória do imortal, do grande patriota Marechal Floriano Peixoto!
Viva a República!
_____________________

A grata nova foi acolhida nesta cidade com as mais entusiásticas demonstrações de regozijo público, embandeirando-se logo os edifícios oficiais e muitos particulares, havendo à noite iluminação e subindo ao ar festivas girândolas, traduzindo tudo, com vibrante eloquência, as expansões patrióticas da alma popular.
 
2. Registros em livros são-joanenses 
 
No seu livro intitulado "Ruas de São João del-Rei", [GUIMARÃES, 1994, 24-25] discorre sobre a exaltação da memória dos soldados governistas mortos durante a refrega, reafirmando a simpatia pela República,  pasmem! —, vinda da "briosa e fiel Vila de São João del-Rei" (alcunha dada por D. Pedro I à nossa municipalidade devido à adesão imediata às decisões dele sobre o processo de emancipação política do Brasil entre 1821 e 1822 e ao compromisso inabalável da nossa vila com o regente e, depois, imperador em 12/10/1822), a saber:
Os acontecimentos desenrolados durante o governo de Prudente de Morais ecoaram fundo junto ao civismo da Câmara, em época de sedimentação sinérgica da realidade republicana. Outrossim, conforme revela Euclides da Cunha em sua obra magna, o 16º Batalhão, que permanecia na cidade de São João del-Rei, empunhou armas em Canudos, para onde rumou chefiado pelo coronel Sousa Menezes, com 28 oficiais e 290 praças. E, em 3 de março de 1897, faleceram de maneira trágica o coronel Moreira César, o coronel Pedro Nunes Tamarindo e o capitão Joaquim Quirino Vilarim, recebendo os mesmos denominações em ruas são-joanenses através da resolução nº 116, de 22 de abril daquele ano. As ruas Municipal, do Fogo, do Barro e a praça do Colégio passaram a ser conhecidas com os epítetos de Coronel Moreira César, Capitão Vilarim, Coronel Tamarindo e Praça da República, sucessivamente, sob indicação do Padre João Pereira Pimentel, depois vigário paroquiano. Também complementando fatos decorrentes da primeira administração civil republicana, a resolução nº 139, de 9 de fevereiro de 1898, muda o cognome da rua do Comércio para Marechal Bittencourt, morto pouco mais de 3 meses antes, isto é, em 5 de novembro de 1897.
Outro autor são-joanense, [GAIO SOBRINHO, 2016, 161], em seu livro São João del-Rei através de Documentos - 2º volume, faz referência à efeméride são-joanense do dia 20/04/1897 a respeito da notícia do fracasso da 3ª expedição militar contra Canudos com a morte de seu comandante Moreira César em 4 de março de 1897, o que provocou o apoiamento de uma moção a ser dirigida aos governos estadual e federal:
INDICAÇÃO: Indicamos que a Câmara Municipal dirija ao Governo Estadual e Federal em ofício a seguinte moção: A Câmara Municipal de São João del-Rei-Rei, a primeira vez que se reúne em sessão ordinária, após o desastre de Canudos, onde tão distintos  brasileiros baquearam sacrificados à sanha dos restauradores servidos pelos bandidos de Antônio Conselheiro, envia sinceros pesares à República pela perda de tão valentes soldados e assegura ao Governo da Nação o seu inteiro e decidido apoio e toda a sua leal dedicação na defesa das instituições democráticas, interpretando assim os sentimentos patrióticos do Município de São João del-Rei. Ainda a Câmara declara que confia na energia e na ação eficaz das armas legais para que triunfe o princípio da autoridade e da lei e sejam restabelecidas a ordem e a paz pública e severamente punidos os baixos exploradores que tanto concorrem para o descrédito do Brasil com tão insólito e reprovado procedimento. Sala das sessões da Câmara Municipal de São João del-Rei, 20 de abril de 1897. Ass. Paulo dos Passos Teixeira, Pe. João Pereira Pimentel, Jerônimo Ribeiro das Dores, Dr. Ciro Teixeira Peçanha, Francisco Honório Moreira, Felipe Marchetti, J. Augusto Pinto P. Guadalupe, Antônio Augusto Gomes França, João Batista Teixeira, Bento José Pereira Portela, Francisco Leopoldo das Chagas. 
Nota do transcritor: No referido desastre morreu Antônio Moreira César, que ganhou nome de rua em São João del-Rei, denominação depois substituída pela de Artur Bernardes. Também ganharam ruas nesta cidade os militares, igualmente mortos na inglória e covarde campanha de Canudos, Capitão Joaquim Quirino Vilarim e Coronel Pedro Nunes Tamarindo, que ainda permanecem, até que algum vereador desavisado e néscio de nossa história invente de mudar mais esses nomes.
Lembro ainda que a atual rua Marechal Bittencourt é a antiga via conhecida popularmente como rua da Cachaça. No século XX ficou também conhecida informalmente por "rua da Zona" ou "rua dos Boêmios" devido à intensa vida noturna e prostíbulos. Ao longo do tempo, também foi chamada de rua da Alegria (1859), rua Tiradentes (1883) e rua João Jacó (1923). No começo do século XX, a rua Marechal Bittencourt estava localizada em parte da atual rua Marechal Deodoro. Em 1939, ocorreram as seguintes mudanças: a rua Marechal Bittencourt foi substituída pelo nome de rua Marechal Deodoro e a rua João Jacó teve sua denominação alterada para o nome oficial de rua Marechal Bittencourt. Hoje é uma rua de tavernas, botequins e também de residências, além de sediar a sede da Fundação CEREM-Centro de Referência Musicológica José Maria Neves no nº 24 e CCF-Centro Cultural Feminino no nº 42. 
 
3. Batalhões de Infantaria que participaram da Guerra de Canudos 
 
O 31º Batalhão de Infantaria (31º BI), que estava sediado em São João del-Rei no início da década de 1890, foi um dos corpos do Exército Brasileiro mobilizados para combater no sertão da Bahia, sob o comando do General Carlos Maria da Silva Telles. Durante a campanha contra Canudos, este foi promovido a comandante da 4ª Brigada, que englobava, ao lado de outros BI's, o próprio 31º BI, atuando diretamente na violenta quarta e última expedição militar do conflito, em 1897, participando de missões de alto risco nas regiões de Colônia do Patrimônio e Canudos para evitar emboscadas dos conselheiristas. 
 
Outro historiador são-joanense, [CINTRA, 1982, 52] nos dá ideia da movimentação de tropas por nossa cidade no seu livro "Efemérides de São João del-Rei - volume I", através da efeméride do dia 31/01/1897:
Deixa S. João del-Rei com destino a Canudos, na Bahia, o 16º Batalhão de Infantaria, sob o Comando do Cel. Agostinho de Souza Menezes. A tropa deveria lutar contra os jagunços de Antônio Conselheiro. A referida unidade militar viera em junho de 1896 da cidade gaúcha de Pelotas, onde permaneceu um ano. (...) 
Ainda outra efeméride são-joanense do mesmo autor, desta feita a de 20/12/1897 no volume II, trata da chegada de outro batalhão à nossa cidade:
Chega a S. João del-Rei-Rei o 28º Batalhão de Infantaria, que foi formado no Rio Grande do Sul. Vieram 175 praças e a oficialidade seguinte: Comandante Cap. Luiz Manoel da Silva Daltro, Cap. Fiscal Joaquim Gonzaga Marques Porto, Alf. Secretº Vicente de Souza Brasil, Alf. Quartel-Mestre Firmino Gomes Jardim, Alf. ajudante José da Costa Vasconcelos, Cap. Com. de Comp. Luiz Acácio Leyrand, Alf. Feliciano Ribeiro Carneiro Monteiro, Alf. Rosemiro Francisco Guerreiro e os Médicos Cap. Villaboim e Ten. José Teles de Moraes Barbosa, ajudante. O 28º BI tinha parado no Rio Grande do Sul e ali foi por duas vezes reorganizado durante a última campanha em que tomou parte, chegando a ser, uma vez completamente dizimado. Na expedição de Canudos recebeu a missão de proteger os comboios que passavam pela estrada de Monte Santo, não tendo, por isso, entrado em fogo na cidadela de Antônio Conselheiro. O 28º trouxe Banda de Música. A 28/08/1898 chegou a S. João del-Rei o Cel. Pedro Paulo da Fonseca Galvão, nomeado Com. da Unidade Militar pelo Presidente da República; exerceu o posto até 17/02/1903, granjeando a estima dos Sanjoanenses.

Finalizo esta minha contribuição para o debate público e a discussão do episódio de Canudos que está sendo permanentemente revisitado, rediscutido e reavaliado pela historiografia moderna, mesmo após 128 anos da euforia inicial que acompanhou a notícia da vitória das forças legalistas por defenderem a ordem constitucional da recém-proclamada República contra os "jagunços de Antônio Conselheiro".

 

III. BIBLIOGRAFIA

 

BRAGA, F.J.S.: Flashes da memória de um cabo do Exército na Guerra de Canudos, publicado no Blog do Braga em 04/08/2026  

____________: Logística no sertão: Marechal Bittencourt, publicado no Blog de São João del-Rei em 06/08/2026

Link: https://saojoaodel-rei.blogspot.com/2026/08/logistica-no-sertao-marechal-bittencourt.html

CINTRA, S.O.: Efemérides de São João del-Rei - volumes I e II, Belo Horizonte: Imprensa Oficial, 1982, 622 p. 

____________: Nomenclatura de Ruas de São João del-Rei, separata da Revista do Instituto Histórico e Geográfico de São João del-Rei, vol. VI, 1988, pp. 5-24

COELHO, E.A.:  Informações sobre o nome dos logradouros de São João del-Rei - MG, Barbacena: Gráfica e Editora Cidade de Barbacena, 2022, 70 p. 

GAIO SOBRINHO, A.: São João del-Rei através de Documentos - 2º volume, 2026, 244 p. 

GUIMARÃES, F.N.: Ruas de São João del-Rei, edição patrocinada pela FAPEC, 55 p.