quarta-feira, 14 de outubro de 2020

A NOÇÃO DOS HYPERBÓREOS: SUAS VICISSITUDES DURANTE A ANTIGUIDADE

Por Roger Dion
Traduzido do francês por Francisco José dos Santos Braga

Dedico este trabalho literário ao saudoso Professor Mário Celso Rios (✰ Barbacena, 1952 - ✞ Barbacena, 13/10/2020), 2º presidente da Academia Barbacenense de Letras cuja estrela brilhou durante 27 anos (1993-2020) como grande incentivador das letras na comunidade cultural de Barbacena, da Região das Vertentes e de Minas Gerais, ensinando o poder e a magia das palavras e sempre dirigindo e orientando ex cathedra e com seu espírito de luz as tertúlias e atividades literárias de forma sempre cavalheiresca que enobrece o Brasil a partir de Barbacena.


A propensão dos poderosos do mundo, condutores de povos ou chefes de exércitos, de inclinar na direção favorável a seus desígnios ou a seu prestígio as representações da geografia, teve, como era natural, seus efeitos mais sensíveis sobre as dessas representações que tinham um caráter mítico ou esquemático. 

O caso dos Hiperbóreos tem o interesse de mostrar que o próprio pensamento científico sofreu a influência do que foi dito acima, pelo menos em certas abordagens. 

O nome puramente grego de Hyperbóreos traz em si a marca duma reflexão que se praticou, bem antes da idade clássica, sobre um dos mais tocantes entre os fenômenos físicos próprios à natureza mediterrânea: este vento frio do Norte que, sob as denominações populares modernas de bora ou de mistral — os antigos Gregos o chamavam Bóreas — resvala de vez em quando para o litoral passando rente ao sol com uma tal violência que o poeta Calímaco ¹ dizia ser capaz de tombar muralhas. 

A gente se imagina que, avançando contra esse vento, na direção do interior do continente, como se subisse contra a corrente, acabaria por atingir os locais onde ele nasce, sendo possível ter uma ideia dos locais com o aspecto de montanhas comunicando à atmosfera a friagem de suas neves. Os Gregos deram a essas montanhas setentrionais imaginárias o nome de Rípeas, já presente na poesia arcaica ² e considerado pelo gramático Servius ³ como formado do termo grego ῥιπή que exprime a ação de lançar. Do alto dos montes Rípeos, Bóreas era de alguma forma lançado na direção das planícies mediterrâneas. 

Essa figura, uma das mais antigas que produziu a geografia mítica dos Gregos, foi também uma das que resistiram pelo mais longo tempo aos progressos do conhecimento objetivo. Ainda na época imperial romana, arranja-se um lugar para os montes Rípeos na descrição da Europa. Reencontramo-los no século II d.C. na Geografia de Ptolemeu (III, 5, 10), relegados é verdade às regiões muito mal conhecidas onde esse sábio situava, ao norte do Palus Meotide , a nascente do rio Tanaïs. Um geógrafo latino que precede Ptolemeu cerca de um século, Pomponius Mela, contemporâneo do imperador Cláudio, permanece fiel à ótica tradicional quando imagina esses montes Rípeos orientais lançando, na direção do litoral meridional da Europa, as águas do Tanaïs: “Tanais ex Rhipaeo monte dejectus... praeceps ruit. ” 

Mapa múndi segundo Pomponius Mela (ca. 40 d. C.)

 

Era uma representação menos afastada das realidades geográficas que a de um “outro mar”, ἡ ἑτἐρα θάλασσα — assim a designa um historiador grego contemporâneo de Heródoto — banhando ao Norte o contorno do continente europeu, e se coloca a questão de saber como tal noção tinha podido brotar no espírito dos Gregos dos tempos pré-clássicos, apesar de nada, no universo que lhes era familiar, ser de natureza a lhes fazer imaginar costas marítimas setentrionais opostas às do Mediterrâneo. 

Esse traço da configuração geral da Europa só pôde ter sido levado a seu conhecimento na ocasião dos contatos que tiveram com estrangeiros que haviam visto com seus olhos o Báltico ou o mar do Norte. 

Contatos dos Helenos com o mundo setentrional na época do comércio do âmbar 

Uma orientação útil à nossa pesquisa dá Heródoto (III, 115-116) quando ele, depois de ter rejeitado como não fundada a crença na existência dum rio Erídano “desembocando no mar setentrional donde, segundo se diz, viria o âmbar”, bem como na existência de “ilhas Cassitérides donde nos viria o estanho”, afirma como um fato incontestável que o estanho e o âmbar “provêm de uma extremidade do mundo”. 

Com efeito, o estanho era de proveniência britânica, enquanto o âmbar era recolhido da costa oeste da Jutlândia, e sobretudo na costa do mar Báltico, no sopé dos penhascos ocidentais da península do Samland (ou Sambia), próximo à foz do Vístula.

Para atingir as costas mediterrâneas, essas matérias preciosas deviam atravessar, de um lado ao outro, o continente europeu, e isso desde tempos que, pelo menos no que diz respeito ao âmbar, remontam à segunda metade do segundo milênio antes de nossa era. 

No período heládico médio (2.100-1.580 a.C.), observa M.-P. Nilsson , nenhum traço de âmbar vindo do Norte ainda não aparece na Grécia. Ao contrário, esse âmbar fica abundante a partir de heládico recente ou micênico (1.580-1.200). Três dos túmulos escavados em poços sobre a acrópole de Micenas e um dos túmulos com cúpula de Pylos de Nestor forneceram centenas de pérolas de âmbar ¹⁰. O âmbar está descrito na Odisseia ¹¹ como um objeto de adorno muito cobiçado. 

O fato de que os Helenos recebiam o âmbar recolhido das costas dos mares setentrionais não implicava necessariamente que eles conhecessem a situação das jazidas fornecedoras dessa matéria. A história do comércio oferece mais de um exemplo do caso em que os usuários e os consumidores duma coisa comprada consideraram essa coisa como originária não do país do qual ela era recolhida ou criada, mas do país onde se encontravam os mercados que a arranjavam para eles. Este foi o caso dos Gregos para o âmbar, que a lenda representava como proveniente da solidificação das lágrimas vertidas pelas Helíades, irmãs de Fáeton, o imprudente condutor da carruagem do Sol, quando elas prestavam as honras fúnebres a seu irmão fulminado por Zeus e precipitado no rio Erídano ¹² (esse nome que Heródoto assinala como designando um rio do litoral setentrional da Europa, se ligava também, na linguagem poética ¹³ , ao curso do rio Pó). Apolônio de Rhodes na parte de suas Argonáuticas (IV, 505-506 e 596-611), onde lembra essa lenda, situa, perto da litoral adriático onde desemboca o Erídano, uma fabulosa ilha Électris (ilha do âmbar) que é a figuração poética dum mercado do âmbar. O fundo do golfo adriático era de fato, na antiguidade grega, um dos principais locais de carregamento ¹⁴ do transporte de barcos por terra, pelos quais o âmbar coletado nos litorais setentrionais da Europa era encaminhado para o mundo mediterrâneo. 

Esse tráfego teria podido acontecer do mesmo modo sem que os Helenos tivessem contatos com os fornecedores ou exploradores das jazidas de âmbar. Heródoto narra (IV, 33) que, de seu tempo, as pessoas de Delos se lembravam de que oferendas, outrora enviadas desde o Norte da Europa até aquela ilha famosa, celebrada no mundo antigo como o lugar de nascimento de Apolo ¹⁵, eram sucessivamente assumidas pelos povos em cujo território elas tinham que atravessar para atingir Delos, ao final de uma série de etapas, estando uma dessas últimas situada na costa adriática. Joseph Dechélette ¹⁶ pensa que, da mesma maneira, vários povos se revezando ao longo do caminho metiam a mão sucessivamente no transporte de âmbar do Norte em direção aos países mediterrâneos. 

Mas Heródoto disse também na mesma passagem que, antes que fosse praticado esse modo de encaminhamento, os próprios remetentes setentrionais das oferendas destinadas ao santuário de Delos as tinham acompanhado até o término da viagem, e que naquela ocasião eles tinham periodicamente enviado delegações aos habitantes de Delos, às quais estes últimos davam o nome de Perphéres

Plínio o Velho, classificando de fabulosas várias das coisas estranhas que se narrava sobre os homens do Norte, achava seus envios de oferendas à Delos, como uma realidade que ele não estava autorizado a colocar em dúvida. ¹⁷

Não podemos em todo caso rejeitar a priori a ideia de que, nos tempos muito anteriores à idade clássica grega, os Helenos tenham tido relações diretas com os portadores da civilização superior, que, na idade do bronze, floresceu em Jutlândia bem como nas ilhas dinamarquesas, das quais o Museu Nacional da Dinamarca, em Copenhague, conserva testemunhos notáveis. ¹⁸

O fato de que objetos votivos provenientes do Norte tenham sido levados, de uma borda a outra da Europa, até Delos para aí serem apresentados como oferendas rituais prova que essas relações se desenvolveram tanto no plano das trocas de crenças e de ideias quanto no da economia. Nos tempos proto-históricos, na parte oriental da planície do Pó e principalmente em Veneza ¹⁹, nos países cujos povos detinham os principais mercados do âmbar, aparecem, reveladas pela arqueologia, representações míticas do cisne e do disco solar, cujo análogo se acha na outra borda da Europa, nos países cujos povos detinham as regiões produtoras do âmbar ²⁰. Na mitologia grega da idade clássica, a lembrança desses antigos elos cultuais está conservada pela lenda dum Apolo migrante, deixando periodicamente ²¹ a Grécia para ir permanecer entre os habitantes do mar setentrional e retornar de lá montado num cisne ou num carro aéreo rebocado por um bando de cisnes. ²²

Dos povos do Norte aos Helenos, a comunicação de certas atitudes religiosas foi junto com a transmissão de mais de uma noção geográfica. Não se saberia, sem referência a essas antigas relações, explicar o fato de que Homero ²³ tenha podido imaginar noites de verão tão breves que um pastor capaz de prescindir do sono (ἄυπνοϛ) não pararia de ali ver bastante claro para guardar, durante vinte e quatro horas sem interrupção um rebanho de bois, depois um rebanho de carneiros, e ganhar assim duplo salário. 

E sobretudo os Gregos ficaram sabendo, no contato de seus visitantes vindos do Norte, que a orla setentrional do mundo era uma costa marítima habitável. A imagem que eles formavam do universo deixava então de ser demarcada, do lado do Norte, pelos montes Rípeos. Ela se enriquecia de um novo domínio que era o espaço ocupado pelos povos de além dos montes Rípeos. 

O fato de que, na época de Pausânias (V, 7, 8), por sua referência ao poeta Olen ²⁴, nos autoriza a considerar como anteriores à história, os Gregos deram a esses povos o nome de Hyperbóreos cujo sentido era claro. Os Hyperbóreos, explica Diodoro de Sicília (II, 47), são “assim chamados porque vivem além do ponto de onde sopra Bóreas”, quer dizer, além desses imaginários montes Rípeos sobre os quais se supunha nascer Bóreas. Heródoto (IV, 36) se recusa, com reserva, a considerar esse nome de Hyperbóreos como a autêntica denominação dum povo além do helênico, que se denuncia ele próprio como uma invenção grega. Mas ele não pode deixar de utilizá-lo por falta de possuir um outro termo à sua disposição, quando ele quer (IV, 33-35) informar seu leitor das memórias que se guardavam em Delos de antigas relações que, tomando forma de remessas rituais de oferendas em relação com a comemoração do nascimento de Apolo, tinham se estabelecido outrora entre os povos do Norte e a Grécia. Era também sob o nome de Hyperbóreos que a mitologia designava os povos longínquos, junto aos quais supostamente Apolo permanecia em estadas periódicas ²⁵

Situação geográfica dos Hyperbóreos 

Criada para exprimir a ideia do extremo Norte, o nome de Hyperbóreos foi de fato, na sua acepção primeira, aplicado pelos antigos a todos esses povos europeus que eram considerados como os mais afastados tanto na direção do Norte quando nas do Noroeste ou do Nordeste. Pôde assim servir para designar povos que, na nomenclatura geográfica moderna, não seriam classificados entre os nórdicos. 

É o que mostra, entre outros exemplos, a maneira com a qual se exprimem Heródoto e Píndaro na alusão que fazem um e outro a um grande itinerário transcontinental que, sob a designação de Ister ou Istros (Danúbio), partia de onde os Celtas se estabeleceram vizinhos dos Pireneus e do Oceano para terminar, no outro extremo da Europa, à foz do verdadeiro Danúbio: “O Istros”, diz Heródoto (II, 33), “começa no país dos Celtas perto da vila Pireneu ²⁶”; enquanto que Píndaro, na sua 3ª Olímpica (25-29), situa a nascente “umbrosa“ do Ister no país dos Hyperbóreos, servidores de Apolo” (esta palavra umbrosa, sinônima de: situada no lado da noite, isto é, no poente, significa que, no pensamento de Píndaro, os Celtas encostados na vertente atlântica dos Pireneus se incorporam a uma série de povos hyperbóreos sucedendo-se de oeste em leste sobre a margem oceânica do mundo). Ésquilo situava do mesmo modo a nascente do Istros ² no país dos Hyperbóreos. A assimilação dos Celtas aos Hyperbóreos reaparece, no século IV antes de nossa era, num autor do qual Plutarco nos diz ² que atribuía a conquista de Roma pelos Gauleses, por volta de 390, a “um exército saído do país dos Hyperbóreos”. Da mesma forma, um historiador contemporâneo de Alexandre o Grande, Hecateu de Abdera cita os Hyperbóreos e descreve como adoradores de Apolo, periodicamente visitados por esse deus, os habitantes de uma ilha setentrional que só pode ser a Grã-Bretanha, pois, diz Diodoro de Sicília (II, 47), — por quem conhecemos esse fragmento de Hecateu —, ela é “não menos grande que a Sicília e situada além da Céltica, no Oceano”. O espaço marinho britânico será ainda qualificado de hyperbóreo por um poeta dos últimos tempos do Império romano ².

Por mais afastados que pudessem estar uns dos outros, supunha-se que os povos que os contemporâneos de Heródoto qualificavam de Hyperbóreos habitavam a costa de um mesmo mar, este “outro mar”, como o chamava, como visto, o historiador Damastês de Sigeion. Recobrindo aquela das faces do continente europeu oposta à face mediterrânea, este “outro mar”, mais frequentemente chamado mar Exterior, era aquele que era formado pelo conjunto da parte do Oceano hoje denominado golfo de Gasconha, os mares britânicos, o mar do Norte e o que Heródoto designa (III, 115), sem poder afirmar a realidade de sua existência, como o “mar setentrional donde se diz que nos chega o âmbar” (isto é, o atual mar Báltico). Segundo Damastês de Sigeion ³⁰, o “outro mar” se prolongava a Leste, com os Hyperbóreos por habitantes, até o Norte do espaço onde vivem os Citas, habitantes da atual planície russa. 

O testemunho desse historiador e o de Píndaro, que se completam um ao outro, nos trazem então junto a lembrança dum tempo em que os Gregos viam em imaginação, além das supostas montanhas que chamavam de Rípeas, desdobrarem-se, ao longo do mar Exterior, desde a extremidade oceânica dos Pireneus até aos confins da Ásia, uma banda hyperbórea, cujos traçado e posição em latitude não teriam podido além disso definir. 

Mapa múndi segundo Heródoto (séc. V a.C.)
 

Heródoto (III, 115 e IV, 45) nos faz medir o alcance dessas ignorâncias, que persistiram muito tempo depois dele. Numa época já muito próxima do estabelecimento da dominação romana na Gália oceânica, um sábio que só precede César no tempo de trinta anos, Posidônio, afirmava ainda, se for preciso crer num escoliasta de Apolônio de Rhodes ³¹, que os Alpes confinavam com as regiões habitadas pelos Hyperbóreos. 

Até a conquista romana, Hyperbóreos e Montes Rípeos, essas duas representações míticas inseparáveis uma da outra ³² puderam, sem concorrência, se impor aos espíritos como noções geográficas fundamentais. Lá onde, diferentemente, só teria havido vazio, essa ficção manifestava a existência duma costa habitada, marcava abaixo dessa costa uma linha de relevos, sugeria a ideia de fenômenos climáticos em relação com esses relevos, obtinha enfim o meio de designar com um nome eloquente os dos povos da Europa extra-mediterrânea dos quais não se sabia como eles próprios se nomeavam. 

Mais tarde, à medida que se ficou conhecendo os nomes autênticos desses povos, os nomes nativos, estes substituíram a designação de Hyperbóreos, cujas aplicações ficaram assim progressivamente reduzidas ³³. Vê-se em Estrabão (VII, 3, 1) que na época em que esse geógrafo escrevia, a penetração dos exércitos romanos, revelando os nomes reais das populações que se sucediam, ao longo da costa do mar Exterior, até ao estuário do Elba, deitando luz sobre os traços essenciais da configuração física dos lugares, tinham banido os Hyperbóreos desta parte do mundo ocidental, donde eram apagados os montes Rípeos. Mas daí não se seguiu, nos meios esclarecidos, uma reflexão resultando na rejeição sistemática e total da geografia mítica. Desta, historiadores e geógrafos continuaram a fazer uso para preencher os territórios ainda inexplorados que se estendiam a leste do Elba. Por volta de meados do século I de nossa era, nos escritos do geógrafo Pomponius Mela (I, 12-13 e III, 36), a gente reencontra os Hyperbóreos e os montes Rípeos relegados a norte do mar Cáspio, na Ásia setentrional. No século II enfim, na Geografia de Ptolemeu (III, 5, 5 e 10), montes Rípeos reaparecem ao norte do Palus Méotide (o atual mar de Azov) e o qualificativo de hyperbóreo se liga ainda aos confins do mundo setentrional desconhecido: montes hyperbóreos (V, 8, 7) e Sármatas Hyperbóreos (V, 8, 10) representam tudo o que a geografia física e a geografia humana podem, no norte da Ásia, perceber de mais afastado, enquanto que para a frente das costas ocidentais da Europa, está assinalado um oceano hyperbóreo (II, 2, 1) ao norte da Irlanda. 

Imagens de felicidade associadas ao nome hyperbóreo 

Ou porque eles retrataram seu país de maneira favorável, ou melhor devido à sua qualidade de habitantes de um oceano que forma o limite do mundo, Homero ³⁴ fez atribuir a eles as vantagens de que os habitantes dos Campos Elísios gozavam, igualmente situados "nos confins da terra", onde "a vida mais doce é oferecida aos humanos, sem neve, sem grande inverno...", os homens do Norte que levaram suas oferendas a Delos não eram considerados pelos Helenos como tendo que sofrer uma natureza inclemente. Qualificados de “nação santa ³⁵”, por Píndaro, os Hyperbóreos são retratados tanto por ele quanto mais tarde por Hecateu de Abdera ³⁶, sob os traços dum povo piedoso e sábio que um clima sem excesso e uma terra fértil contribuíam para tornar feliz e pacífico. Píndaro evoca as “magníficas hecatombes” que eles oferecem a Apolo, seus banquetes rituais que são, para esse deus, “a alegria mais viva” e a “via maravilhosa que leva a suas festas ³⁷”, enquanto que na tragédia de Ésquilo ³⁸ se diz que esses mesmos Hyperbóreos têm como quinhão mais ainda que a felicidade suprema. 

Sem dúvida, no espírito dos Gregos, a ideia da frialdade era inseparável do nome de Bóreas. Mas eles situavam as costas hyperbóreas além dos montes Rípeos, donde se precipitava Bóreas. Pode-se imaginar que essas montanhas frias não tinham mais efeito sobre o clima da margem marítima hyperbórea, da mesma forma que as neves do Etna não têm sobre o litoral que se desdobra sob elas. Píndaro, fazendo alusão, na sua IIIª Olímpica (31-34), a uma viagem que Hércules fez até às fontes hyperbóreas do alegórico Istro, assim se exprime: “Ele visitou até este país que está além das aragens do frio Bóreas; lá, quando ele parou, admirou as árvores ³⁹...” O poeta especifica que as oliveiras figuravam no adereço arborescente com que se adornava a paisagem hyperbórea, tal como Hércules o descobriu e atribui-se ao herói a ideia de pedir aos Hyperbóreos que lhe dessem de presente uma oliveira que planejava trazer para a Grécia para ser plantada perto do santuário de Olímpia, que assim seria dotado de uma árvore “dando sua sombra à multidão de visitantes e fornecendo coroas de flores para os atletas ”⁴⁰

Essa fábula ⁴¹, que inventaram evidentemente Mediterrâneos, incapazes de representar para si outra vegetação que a do mundo que lhe era familiar, originava-se de um erro menos grave, afinal de contas, que o de considerar a palavra “hyperbóreo” como expressão da situação de um povo sujeito aos rigores do clima polar. É fato que as costas, sob as latitudes em que se desdobram, onde se recolhia o âmbar, na orla do mar do Norte e do Báltico, gozam de um clima relativamente doce, e é possível que tenha havido um elemento de verdade na lenda atribuindo ao solo hyperbóreo uma alta fertilidade ⁴². Os habitantes da Dinamarca podem ter julgado sua terra maravilhosamente fértil, quando tiveram a ocasião de compará-la ao solo rochoso da Grécia. 

Entre os Latinos, Pomponius Mela (III, 36-37) e Plínio o Velho (História Natural IV, 89-91) tomaram por conta própria a imagem favorável que a literatura grega esboçava do caráter dos Hyperbóreos e da natureza hyperbórea. Resulta do conjunto desses testemunhos que os povos que Heródoto e outros autores nos mostram atravessando a Europa para levar a Delos as primícias de suas colheitas viviam numa terra não somente habitável mas capaz de nutrir bem sua população. 

Repentina alteração do clima atribuído pela lenda ao mundo hyperbóreo 

Neste coro de louvores, as Geórgicas fazem ouvir uma nota discordante. Ao contrário da concepção tradicional segundo a qual os Hyperbóreos eram protegidos do frio por sua situação geográfica exterior à parte do mundo donde soprava Bóreas, Virgílio coloca em seu território a origem mesma desse vento, chamado por ele Aquilão vigoroso ⁴³, e qualifica de glacial ⁴⁴ a atmosfera onde vivem. 

Sua opinião é compartilhada por um de seus contemporâneos, o geógrafo Estrabão, que exprime, sobre os Hyperbóreos, opiniões contrariando da mesma maneira as ideias comumente recebidas desde séculos. 

Estrabão (I, 3, 22) repreende Heródoto “por ter suposto que o nome de Hyperbóreos pudesse designar povos onde Bóreas não sopra”. Sustenta que Bóreas sopra desde o próprio polo, bem como, desde o equador, seu contrário o vento do sul (notos), e que esses dois limites extremos do domínio dos ventos, são também os da extensão dos povos na superfície da terra, de tal maneira que os Hyperbóreos, que ele diz serem os mais setentrionais, βορειοτἄτους, de todos os povos devem ser, caso se tome à letra, considerados como vivendo na zona glacial, nos confins do polo. 

Como pôde, sem violentar-se, aceitar propor a seu leitor tal visão das coisas, quando não contesta em nenhuma parte a tradição, relatada por Heródoto (IV, 33), e considerada por Plínio (História Natural IV, 91) como tendo valor de dado histórico, segundo a qual os Hyperbóreos mandavam levar, através da Europa, ao santuário de Delos, as primícias de suas colheitas? Estrabão nos surpreende aqui, quanto mais que professa, por outro lado, que as regiões próximas ao polo são inabitáveis devido ao frio: τα πρὸς τᾧ πόλῳ δὶα ψύχος (ἀοίκτά εστι). Admite com efeito (II, 2, 1-3) a divisão do globo terrestre em cinco zonas, tal como Posidônio havia exposto, cuja invenção atribuía a Parmênides de Elea: uma zona tórrida estendendo-se de um lado a outro do equador; duas zonas temperadas, uma no hemisfério norte, a outra no hemisfério sul; e duas zonas glaciais correspondendo às duas calotas polares e caracterizadas uma e outra pelo fato de que o frio impede o homem de aí se estabelecer de modo estável. 

Na época que Estrabão escrevia, a astronomia grega tinha também descoberto, desde vários séculos já, que o polo era sujeito à alternância de um dia contínuo de seis meses consecutivos e de uma noite contínua de mesma duração ⁴⁵

Colocar em tais condições de vida homens que a tradição apresentava como pessoas felizes recolhendo os frutos de uma terra generosa era um contra-senso. Teria valido tanto a pena eliminar o nome dos Hyperbóreos do vocabulário histórico e geográfico, como se teria feito de uma ficção pura com a qual não convinha que um homem razoável sobrecarregasse sua mente. Mas isso é o que não puderam fazer Estrabão, nem, depois dele, Pomponius Mela e Plínio, o Naturalista, tão fortemente estava estabelecido o prestígio dos antigos relatos nos quais os Hyperbóreos desempenhavam um papel que os incorporava à sociedade europeia dos tempos míticos. Não é possível, diz Plínio, questionar a existência desse povo: Nec licet dubitare de gente ea ⁴⁶, e é o que o próprio Estrabão admite implicitamente quando concorda em discutir a opinião outrora estabelecida, segundo a qual os Hyperbóreos moravam fora das áreas devastadas pela aragem do Bóreas. 

No século I de nossa era, Pomponius Mela e Plínio assim se reencontraram, em suas pesquisas sobre os Hyperbóreos, em presença de dois dados contraditórios: um consagrado por uma tradição mais de cinco vezes secular; o outro recente, mas tendo para tal a alta autoridade de Virgílio e de Estrabão. O surpreendente é que não lhes tenha parecido dever rejeitar nem um nem outro. Como não terem visto que assim agindo eles iam ao encontro de gritantes absurdos? 

Mela (III, 36), tirando a consequência da afirmação de Estrabão sobre as condições nas quais se manifesta Bóreas e sobre a posição dos “mais setentrionais” dentre os homens, situa os Hyperbóreos abaixo do ponto do céu pelo qual passa o gonzo (cardo) em volta do qual se efetua a revolução dos astros: sub ipso siderum cardine. É a definição mesma do polo tal qual o representava a astronomia grega. E para não deixar dúvida de que é o polo que ele atribui para morada dos Hyperbóreos, Mela especifica que, para eles, o ano se divide entre um dia que dura seis meses e uma noite de igual duração. Depois, sem nos dizer de que maneira a sequência de seu texto pode se conciliar com o início, ele garante que, sobre uma terra naturalmente fértil (per se fertilis) onde não faltam nem as florestas nem os bosques sagrados, esses mesmos Hyperbóreos vivem a feliz existência que lhes atribuía a antiga lenda grega. 

Em termos pouco diferentes se encontra, em Plínio (Hist. Nat. IV, 89-91), a mesma associação de dados inconciliáveis: o local dos “gonzos do universo” (cardines mundi), quer dizer no polo mesmo, lá onde o sol fica visível durante seis meses consecutivos, vive, numa atmosfera agradavelmente temperada (felici temperie), entre as florestas e os bosques sagrados, o povo feliz (gens felix) dos Hyperbóreos, que se fez conhecer ao mundo pela oferenda que fazia no santuário de Delos das primícias de suas colheitas. 

Em suma, Mela e Plínio, nas passagens em questão, teriam seguido fielmente a mitologia grega se não lhes tivesse parecido deverem recuar a morada dos Hyperbóreos até ao polo mesmo. Como esses sábios, que não ignoravam certamente a noção comumente conhecida dum polo inabitável devido ao frio, puderam julgar oportuno desfigurar assim um dado tradicional, fabuloso em mais de um ponto sem dúvida, mas contendo também elementos de verdade que se torna impossível de por em evidência quando se representa os Hyperbóreos como habitantes do polo? 

Responsabilizar Estrabão por essa inovação desastrosa só seria uma maneira de adiar a dificuldade, agravando-a aliás, pois a gente compreenderia então menos ainda a razão por que esse geógrafo, em certas de suas afirmações sobre os Hyperbóreos, sustenta o oposto das afirmações que ele próprio formula alhures sobre a distribuição dos climas na superfície da terra. Não podemos fugir à impressão de que ele não acredita, que não pode acreditar na existência dessa humanidade confinada em uma zona gelada que também evoca, na poesia de seu contemporâneo Virgílio, a expressão Hyperboreas glacies.

A única maneira que a gente percebe de tornar plausível esse reencontro do poeta e do geógrafo consiste em supor que, sobre o ponto em questão, eles obedeceram a um e outro a uma palavra de ordem. Nem Virgílio nem Estrabão não deixam ignorar que põem um sua poesia e o outro sua ciência a serviço do poder e do prestígio de Roma. Sequamur... tua, Maecenas, haud mollia iussa, diz Virgílio nas Geórgicas (III, 40-41). E Estrabão (I, 1, 16): “A geografia é essencialmente orientada para as necessidades da vida política.” 

Em que então esses autores podiam servir à política de Otávio ou de Augusto quando eles mostravam os Hyperbóreos como sujeitos aos rigores do clima polar? 

Seria preciso, para julgá-lo, saber quais ideias suscitava então em Roma, no espírito do grande público o velho mito hyperbóreo, popular e sempre bem vivo, como o prova a acolhida que lhe fazem ainda os escritores dessa época. A gente já disse como esse mito tinha servido durante séculos para designar aqueles povos da parte extra-mediterrânea do continente sobre os quais ainda se ignorava que nomes eles se davam; depois, como seu alcance reduzira à medida que o progresso dos conhecimentos geográficos tinha resultado em conhecer os nomes autênticos desses povos. A gente vê através de Estrabão (VII, 3, 1) que no século de Augusto só se servia mais do nome de Hyperbóreos para designar humanos confinados na parte do mundo setentrional que permanecia fora do orbis romanus

Ora, entre os países do Norte em que o poder romano ainda não estava estabelecido, figurava então uma importante parte do arquipélago britânico – a saber, a Irlanda –, e isso não era agradável ao orgulho dum povo a quem os deuses tinham prometido o império do mundo (entendamos não a posse do planeta inteiro, mas uma dominação estabelecida sobre a parte habitável ⁴⁷ do que se conhecia do universo).

Que, sob Augusto, a renúncia à conquista das ilhas britânicas tenha ocorrido intencionalmente, ou que se tivesse tido que renunciar a isso sob a pressão de circunstâncias contrárias , parece, não obstante, que foi solicitado a Estrabão para explicar ao público esclarecido que, se Roma não tinha feito essa conquista, é porque ela tinha boas razões para se abster disso: os Romanos, “que podiam tomar posse da Bretanha”, escreve ele (II, 5, 8), “desdenharam de fazê-lo”. César, no entanto, tinha planejado, da parte da ilha onde as suas operações militares o tinham conduzido, uma imagem que não era a de um país sem vantagens naturais. Ele notou em particular que o clima lá era "mais temperado que o da Gália, o frio sendo menos rigoroso ” (de Bello Gallico, V, 12, 6). 

Mas, desde a publicação de de Bello Gallico, as circunstâncias políticas, no Ocidente, haviam tomado uma direção que incitou Estrabão a mudar a conversa. Fiel à doutrina que ele professa (I, 1, 18), e segundo a qual a razão de ser da geografia é colocar-se a serviço dos governantes e acomodar-se às necessidades deles, defende que as terras que constituem o arquipélago britânico não merecem, nem por suas disposições naturais, nem pelo estado de civilização de seus habitantes, que Roma se dê ao trabalho de conquistá-las. Ele cita, como exemplo, o caso de Ierné (a Irlanda), cujo clima, ele diz em várias ocasiões (I, 4, 4; II, 1, 13 e 17), é “quase insuportável” por causa do frio. 

Se era inoportuno apresentar sob uma luz lisonjeira a descrição física e humana de um pedaço da Europa escapando ao império de Roma, com mais razão se deveria abster-se de atribuir aos Hyperbóreos, os quais eram eles também Europeus escapando ao domínio romano, o clima feliz, a terra generosa e os costumes exemplares com que a lenda os gratificava. Que este Éden povoado por homens piedosos e justos ficasse fora do orbis romanus, eis o que teria sido contrário à verdade primeira que Estrabão (XVII, 3, 24), na conclusão de sua monumental obra , formula nestes termos: “Os Romanos, superiores a todos os conquistadores cuja memória a história conservou, chegaram a possuir o que a terra habitada contém de mais rico e famoso...” Na Europa, da qual retêm a maior parte, o que eles deixam fora de seu império “é ou inabitável ou habitado apenas por populações miseráveis e nômades ¹”. 

Era então desejável, na época de Augusto, que, no espírito do público, o nome de Hyperbóreos deixasse de despertar ideias de natureza favorável, de humanidade virtuosa e de felicidade. É o que autores dóceis às sugestões do Mestre buscaram obter representando o mundo hyperbóreo como sujeito aos rigores do clima polar e sem outros habitantes, lá onde se achavam humanos, apenas seres enterrados na mais baixa barbárie. 

Vãs tentativas. Vimos como, no século seguinte, as imagens tradicionais ainda encontram acolhida em Pomponius Mela e Plínio o Velho, que, no entanto, se abstêem de denunciar o absurdo da passagem pelas fronteiras dos Hyperbóreos na zona glacial. Por não terem ousado posicionar-se contra essa recente e tendenciosa correção da lenda, eles aceitaram que seu trabalho deveria permanecer, neste capítulo, manchado por um absurdo que não é o menor dos delitos atribuíveis a uma geografia que Estrabão (I, i, 14) define como tendo que ser “acima de tudo política”, πολιτικωτἔραν. 

 

I.  NOTAS EXPLICATIVAS 

 

¹  Hinos, IV, 25. 
²  Sob a forma Ῥίπαια ὄρη. Primeira menção conhecida em ALCMAN, poeta que vivia em Esparta cerca de 650 a.C. (BERGK, Poetae lyrici graeci, 1882, fragm. 58, p. III)
³ Comentário sobre as Geórgicas, III, 382. Mesma opinião em ISIDORO DE SÉVILLE, Étymologies, XIV, 8, 8.
N.T.: Na antiguidade era conhecido como lago Meótis, acima do mar Negro. Modernamente é chamado de mar de Azov (ao norte) que se liga ao mar Negro (ao sul) através do estreito de Kertch, situado entre a Ucrânia (a norte), a Rússia (a leste) e a península da Crimeia (a oeste). 
⁵  De chorographia, I, 115. N.T.: “O Tanaïs desce do monte Rípeo, e corre precipitadamente…” 
  Damastês de Sigeion, fragm. 1, em Fragm. Hist. graec. MÜLLER, t. II, p. 65. 
  “Por mais que eu dê minha atenção à questão”, diz Heródoto (III, 115), “eu não posso ouvir dizer por quem quer que seja que tenha constatado com seus olhos que exista um mar nos confins da Europa” (trad. Ph.-E. Legrand). 
  Uma rota comercial frequentada na antiguidade é seguida pelo curso inferior desse rio abaixo da flexão de Bromberg. Perto dessa cidade foi feito em 1833 o notável achado de 36 moedas gregas dos séculos VI e V (K. MÜLLENHOF, Deutsche Altertumskunde, t. I, 1890, p. 213). 
  Geschichte der grieschichen Religion, I, 1941, p. 308. 
¹⁰  H. L. LORIMER, Homer and the monuments, 1950, p. 16. O teor em ácido sucínico deste âmbar revela sua origem báltica (A. GÖTZE, s. v. Bernstein, in Marx EBERT, Reallexikon der Vorgeschichte, t. I, 1924, p. 439 e 442). 
¹¹  IV, 73; XV, 460-463; XVIII, 295-296. 
¹²  Diodoro de Sicília (V, 23) dá esta versão do mito: “A queda de Fáeton aconteceu na embocadura do Pó, outrora chamado Erídano. Suas irmãs choraram amargamente a sua morte; sua dor foi tanta que elas mudaram de natureza e se metamorfosearam em álamos. Essas árvores deixam anualmente, na mesma época, escorrer lágrimas. Ora, essas lágrimas solidificadas constituem o élektron” (quer dizer, o âmbar). 
¹³  Políbio, II, 16, 6. 
¹⁴  J. DÉCHELETTE, Manuel d’archéologie préhistorique, t. II, 1ª parte: Idade do bronze, 1924, p. 19-21. J. Perret, ed. TÁCITO, La Germanie, 1949; Introdução, p. 15 
¹⁵  Estrabão (X, 4, 19) lembra que o legislador Licurgo, em busca de exemplos e de informações, visitou Delos para aí consultar Apolo. Nessa ilha de Delos, escreve ele ainda (X, 5, 4), o ajuntamento religioso anual, panegyris, “sempre teve um pouco o caráter dum grande mercado”. 
¹⁶  J. Déchelette, ibid., p. 20. 
¹⁷  Historia Naturalis, IV, p. 91. 
¹⁸  “O bronze, em nenhuma parte no mundo atlântico, produziu mais coisas, e mais belas coisas, mais punhais, espadas e jóias do que entre Hamburgo e Estocolmo. Foi lá, e não na Gália, mais longo tempo atrasada no trabalho da pedra, que floresceu ‘a força do bronze’ (C. JULIAN, Histoire de la Gaule, 6ª ed., 1926, t. I, p. 236). 
¹⁹  J. DÉCHELETTE, Manuel d' archéologie préhistorique, t. II, 1ª parte: Idade do Bronze, 1924, p. 430. 
²⁰  J. Déchelette, ibid., p. 18-19. 
²¹  P. Grimal, Dictionnaire de la mythologie grecque et romaine, 2ª ed., 1958, no verbete: Hyperboréens. 
²²  J. Déchelette, ibid., p. 422. 
²³  Odisseia, X, 82-86. É possível que os homens que comunicaram aos Helenos esta informação a tenham eles próprios recebido dum povo mais setentrional com o qual haviam tido contatos. 
²⁴  O poeta Olen, assinalado por Pausânias como o primeiro a mencionar os Hyperbóreos nos seus versos, era considerado como anterior a Orfeu. Ele reaparece numa lenda recolhida por Diodoro de Sicília (IV, 51) que, na Tessália na época de Jasão, o nome hyperbóreo era aureolado de um grande prestígio. Segundo Heródoto (IV, 32), os Hyperbóreos são mencionados em Hesíodo
²⁵ APOLÔNIO DE RHODES, Argonáuticas, II, 675. HECATEU DE ABDERA, citado por DIODORO DE SICÍLIA, II, 47.
²⁶  Este nome é na realidade o de uma montanha, diz Aristóteles, Meteor., I, 13, 19.
“A primeira ideia de conjunto que os Antigos tenham tido sobre a Gália, é que... os Pireneus iam duma costa a outra e que, entre suas extremidades marítimas, havia somente sete dias de marcha. Talvez, desde antes do século VI, caravanas carregadas de estanho, de cobre, de âmbar e de pedras verdes foram organizadas no sopé setentrional dos Pireneus entre a região de Pasajes e a de Port-Vendres.” (C. JULIAN, Histoire de la Gaule, 6ª ed., 1926, t. I, p. 188-189) 
² Prometeu liberto, tragédia perdida. O teor da passagem relativa ao Istros é conhecido por um escólio a Apolônio de Rhodes, As Argonáuticas, IV, 284. 
² Plutarco, Vidas Paralelas: A Vida de Camilo, 22, 3. O autor mencionado é Heraclides do Ponto, discípulo de Platão e de Aristóteles. 
² Claudiano, Panegírico sobre o III consulado de Honório Augusto, 55-56. 
³⁰ Fragm. Hist. Graec., MÜLLER, t. II, p. 65, fragm. I. Damastês de Sigeion é um historiador contemporâneo de Heródoto. 
³¹ As Argonáuticas. Escólio a II, 675. 
³²  Estrabão, VII, 3, 1. 
³³  J. CARCOPINO, Promenades historiques au pays de la dame de Vix, 1957, p. 59-60. 
³⁴  Odisseia, IV, 563-568. 
³⁵  ἱερᾷ γενεᾷ (Pyth. X, 43). 
³⁶  Passagem conhecida por DIODORO DE SICÍLIA, II, 47. 
³⁷ Xª Pítica, 29-35. 
³⁸ Les Choéphores, 372-374. 
³⁹ Trad. A. Puech. Paris, Éd. Les Belles Lettres, 1958. 
⁴⁰ Píndaro, Olimpíaca III, 14-20. 
⁴¹  Encontra-se também em Pausanias, V, 7, 7. 
⁴²  Hecateu de Abdera, in DIODORO DE SICÍLIA, II, 47. 
⁴³ Aquilo densus (Geórg. III, 196). 
⁴⁴ Hyperboreas glacies (Georg. IV, 517) 
⁴⁵ O fenômeno tinha sido pressentido, desde o século VI, pelo filósofo jônico Xenófanes de Cólofon, a partir de uma reflexão sobre o fato que, à medida que se afasta do equador, a diferença aumenta entre a duração do dia mais longo e a do dia mais curto (H. BERGER. Geschichte der wissenschaftlichen Erdkunde der Griechen, 1903, p. 191). 
Heródoto (IV, 25) ouviu contar que muito longe, nas regiões desconhecidas do Norte, existiam pessoas que dormiam uma metade do ano. Ele declara não acreditar em nada disso. Talvez uma alusão à noite polar se escondia sob essa fábula. 
⁴⁶ Hist. Nat., IV, 91. 
⁴⁷ Estrabão, I, 1, 16. 
É esta segunda alternativa que deve ser retida. Dion Cassius lembra (XLIX, 38, 2: LIII, 22, 5 e 25, 2) que em três vezes seguidas, em 34, em 27 e em 26, Augusto concebeu o projeto de uma descida à Ilha da Bretanha. Teve que renunciar a isso a primeira vez por causa de uma revolta dos Ilírios, a segunda devido a distúrbios na Gália, a terceira em razão de uma revolta dos Salasses e duma sublevação dos Cantábrrios e dos Astures. (E. JANSSENS, Histoire ancienne de la mer du Nord. Bruxelas, 1946, p. 40). 
de Bello Gallico, V, 12-14. 
Ele próprio a qualifica de κολοσσουργία (I, 1, 23). 
¹  Tradução A. Tardieu. 
 

Fonte: DION, Roger, «La notion d'Hyperboréens. Ses vicissicitudes au cours de l'Antiquité», Bulletin de l’ Association Guillaume Budé-BAGB, nº 2, junho de 1976, p. 143-157; in TAILLANDIER, Guillaume: HYPERBOREE, Texts et Documents 

Link: https://www.academia.edu/40749656/HYPERBOREE_Textes_et_Documents_publi%C3%A9s_par_G%C3%A9r%C3%B4me_Taillandier

terça-feira, 6 de outubro de 2020

PENTHESILEIA, A HISTÓRIA DE UM AMOR ATEMPORAL

Por Spyros Sourvínos
Traduzido do grego por Francisco José dos Santos Braga

Temporada teatral 2017-18 

 

"Telhado" (Salão de Letras e Artes Cênicas) da Fundação Onassis

“Safo” e “Centauro Morrendo”, obras de arte esculpidas pelo francês Antoine Bourdelle, à esquerda e à direita do principal hall de entrada do edifício

 

No melhor momento do "Telhado" (Salão de Letras e Artes Cênicas), patrocinado pela Fundação Onassis para este ano, a Rainha das Amazonas e o comandante militar Aquiles tornam-se os protagonistas de um amor eterno através da pena de Heinrich von Kleist (1777-1811) e da imaginação de Pantelís Dentákis. 

No dia 14 de fevereiro, data sobre a qual não preciso falar muito, estive no "Telhado" mais uma vez este ano e assisti a "Penthesilea" de Heinrich von Kleist dirigida por Pantelís Dentákis. Cheio de entusiasmo, como me sinto até agora que estou escrevendo este texto, tenho que admitir que esse show em particular é provavelmente o melhor que vi este ano! 

No verão passado, li por acaso um artigo sobre a lenda de Penthesileia, a Rainha das Amazonas, e de Aquiles, que se apaixonou perdidamente por ela no momento em que a matou, tirando seu capacete e encarando seu rosto. 

Ânfora de figuras negras, de Exéquias, que integra a coleção do British Museum (550-540 a.C.), na qual se destaca a brancura de Penthesileia
 

Fascinado pelo mito, assim que soube que havia um texto teatral baseado nesse fato, li nos dias seguintes, na esperança de que em algum momento o veria no palco. A notícia da ascensão de Penthesileia ao "Telhado" me deixou em êxtase e ansioso para fevereiro de 2018. Cheio de alegria e admiração, então, pela obra-prima de Pantelís Dentákis, interrompo o flashback histórico do meu primeiro contato com o texto e continuo na apresentação da peça. 

Kleist, um escritor e filósofo do século XIX cuja vida e carreira poderiam ser usadas como material para um artigo separado, apareceria pela primeira vez durante o período romântico, em meio ao enorme "monopólio" da escrita de Goethe. Este, embora o povo caracterizasse Kleist como uma continuação de sua obra, nunca o aprovou, ato que privou o jovem alemão do reconhecimento e da fama que tanto buscava. Em 1808 Kleist completa sua "Penthesilea" e, muito orgulhoso dessa conquista, envia o seu texto ao grande escritor para lê-lo, mas ele o rejeita. A inversão do mito da Amazona e de Aquiles, sendo a primeira a que mata o mercenário grego, mas depois de ambos terem se apaixonado perdidamente, constitui o elemento que eleva a obra de Kleist. Portanto, é uma história de amor bestial, apaixonado, possessivo, implacável e, em última instância, mortal, que todo ser humano gostaria de viver, mas poucos ousam buscá-lo. O amor de Penthesileia e Aquiles segundo Kleist incorpora em seu grau mais trágico a frase "Tudo ou nada!"

Em primeiro lugar, convém mencionar que "Penthesileia" subiu no pequeno palco do "Telhado" com todas as apresentações esgotadas antes da estreia. A trupe, selecionada com especial cuidado e critérios específicos, atuou ao máximo no palco, dando à peça um ar de amor modernizado, embora, cronologicamente, o evento se passe na Guerra de Tróia. A atriz alemã Vicky Volióti, uma verdadeira amazona de fora, encarnou a rainha protagonista, com o experiente Thános Tokákis completando o casal. 

Dentákis apresentou sua Amazona como uma mulher moderna, dinâmica e confiante, que não tem medo de suportar uma sociedade dominada pelos homens, de lutar, se opor e se revoltar. Na entrada do Salão lê-se que, justamente por causa do caráter de Penthesileia, a popularidade da obra aumentou acentuadamente no início do século 20 com o despertar do movimento feminista. A escolha do vermelho como cor principal nas roupas da rainha parece uma via de uma única pista. Pelo contrário, o caráter e o status de Aquiles foram abordados de uma forma bastante inovadora. Tokákis pôs em evidência um herói que se transformou em uma marionete ou mesmo em uma fera, um macaco, assim que as flechas do amor o atingiram. Gritos, baixo centro de gravidade, joelhos dobrados, fala reduzida e estilo ingênuo foram algumas de suas características principais. De fato, em alguns momentos, diante do rosto de sua amada, Aquiles fazia movimentos mecânicos/dançantes, ganhando assim a caracterização de amante uma marionete de seus impulsos. 

O trágico casal, que, como outros heróis de Shakespeare, acaba morrendo, com a Amazona inicialmente matando seu amante e ao final cometendo suicídio, tinha como coadjuvante um elenco de grandes atores com Syrmó Kéke, porém no papel de amiga íntima de Penthesileia, Prothóe, a fim de causar uma viva impressão. Além disso, o corpo flexível, provavelmente sem ossos (!), de Enéias Tsamátis, em combinação com seu movimento tecnicamente uniforme, foi utilizado ao máximo por Dentákis, com o diretor teatral dando ao seu ator a cena de abertura, onde o deus Eros aparecia e dançava ao ritmo das cordas. Esse astuto personagem aparecerá mais duas vezes no palco: na primeira vez, animando o momento em que os dois protagonistas se apaixonam atirando-lhes as flechas dele, e a outra vez, no final do amor deles, morrendo pelo resto da peça. Deve ser destacada a forma como foi apresentada a Sacerdotisa, interpretada por Álkistis Poulopoúlou, com Argyris Xáfis e Kostas Koronaíos como coadjuvantes dela vestidos de mulher, em diferenciação com os principais papéis de Odysseu e Diomedes respetivamente. O resultado visual é pelo menos agradável e de forma alguma disparatado, com esses três personagens aparecendo sob os sons da famosa canção francesa "Je T'aime". 

Em geral, o elemento cômico esteve difuso na peça, com Dentákis dando um caráter mais leve a uma peça pesada, dramática, alemã, mas com absoluto respeito e consistência no que ele criou. Trágicos e cômicos ao mesmo tempo, como qualquer amante, as suas personagens, assim abordadas, deram vida à Penthesilea com duração total de 125 minutos, sem sentir, como espectador, a necessidade de uma pausa, mas mais de se sentir como uma criança para a qual é lido um conto de fadas. E, certamente, o elemento narrativo era inerente ao texto original de qualquer maneira, pois especialmente a cena da morte de Aquiles é transmitida ao público ou ao leitor potencial, pela boca de Prothóe, uma das amazonas, para cujo papel foi escolhida Iró Bézos. A partir daí, rumando para os títulos finais, Penthesileia surge em cena, sem ter sequer percebido que matou seu amado, arrastando o monte do infeliz que os cães devoraram, bem como a própria amazona com seus dentes. Eu poderia te comer por amor, ela havia dito antes, e falava da forma mais macabra. Como outra cruz nas costas, a trágica heroína chega ao pequeno lago que havia sido criado no cenário minimalista da representação teatral, tira o corpo sem vida de seu amado e finalmente afunda na água manchada de sangue com ele, retornando ao elemento líquido, ali donde a pessoa surgiu desde os primórdios. 

Fechando meu texto e recordando todas aquelas cenas da peça, ainda agora me sinto contente por ter tido a honra de ver essa representação. Dirigida com maestria, perfeitamente meticulosa em um nível técnico e com os oito atores atendendo admiravelmente ao plano original de seu orquestrador, "Penthesilea" foi uma representação que eu pessoalmente exorto todos a irem ver, mas infelizmente suas performances foram limitadas. Espero sinceramente que esta obra-prima reapareça em um palco interno ou mesmo em um teatro antigo. Porque Kleist, um amante da cultura grega, escreve seu texto no estilo de Homero e sua Ilíada, dando um caráter grego antigo modernizado à sua obra. Um último elemento que me impressionou quando li e acho que vale a pena ler , está relacionado à forma como Leftéris Veniádis criou a música da representação. Então, pegando emprestado seu comentário na página do "Telhado" para a performance, cito-o intacto a seguir. 

O principal raciocínio para a música de Penthesilea 

 “A musicalidade da performance veio com o fluxo dos ensaios e com a proporção dos motivos centrais para os heróis e as situações da obra. Motivo de amor, motivo de Penthesileia, motivo de Aquiles, motivo dos Aqueus, motivo de batalha, motivo de luz. […] Também, falando mais particularmente, em termos musicais, em pontos não melódicos, para a escolha dos tons utilizei o conhecido "método-raciocínio" de Bach e Schönberg, onde o nome PEntHEsilEA deriva das notas-tons E, H, E, E e A, ou seja, Mi, Si, Mi, Mi e Lá, e do nome ACHilEAs (Αχιλλέας) as notas A, C, H, E e As, ou seja, Lá, Dó, Si, Mi e Lá bemol." 

Leftéris Veniádis

Link: http://www.mixgrill.gr/ar58343el-penthesileia-i-istoria-enos-diaxronikoy-erwta.html
 
Vídeo com trailer da representação cênica de Penthesilea: https://www.onassis.org/el/video/penthesilea-heinrich-von-kleist

sexta-feira, 11 de setembro de 2020

ÚLTIMA THULE ou Deus tem humor

Por Dimítris Mikhalópoulos
Traduzido do francês e comentado por Francisco José dos Santos Braga

Dedico esta pesquisa à minha linda e querida sobrinha e afilhada Bianca Girafa Braga (✰ Rio de Janeiro, 24/03/1975 - ✞ Niterói, 10/09/2020), que desde ontem "passeia antigas lembranças amáveis, à sombra dos flamboyants" da antiga Thule, ilha que, segundo a tradição mito-poética, tem o dom de serenar todas as veleidades, paixões e vaidades humanas.


A ilha Thule como Tile na Carta Marina de 1539 por Olavo Magno, localizada a noroeste das ilhas Orkney, com um "monstro, avistado em 1537", uma baleia ("balena") e uma orca ("orcha") ao lado. Legendas dentro da ilha de Tile: "Esta ilha tem 30.000 habitantes ou mais" e "Aqui vive o Senhor das Ilhas".

 

Depois de ter esquadrinhado alguns dos mistérios do mundo grego, Dimítris Mikhalópoulos, desta vez se afasta do Mediterrâneo, para navegar nos mais frios mares, aqueles que tiraram da rota mais de um navegante. Ele se muniu de uma ferramenta nova e surpreendente... O dicionário copta/latim de Fernand Crombette. É para a misteriosa Thule que ele aponta seu sextante, apesar dos obstáculos colocados por hipóteses multisseculares... 

A história de Pytheas é bem conhecida: originário de Massilia (atual Marselha), realizou na segunda metade do século IV a.C. uma viagem de exploração nos mares do Norte. Ele navegou ao longo das costas ocidentais da Península Ibérica e da França, bem como as da Bélgica e da Holanda; foi então para a Britannia (hoje Grã-Bretanha), que descreveu muito bem, porque a percorreu a pé ¹ e finalmente atingiu um país, onde, durante os meses de verão, a noite só durava muito pouco. Ele falou, além disso, de uma ilha, Thule (do grego Θούλη,  pron. Thoúlē), muito nórdica ², que ficava "perto do mar congelado" a uma distância de seis dias de navegação ao norte da Britannia ³, e próxima a uma área do Oceano Atlântico, em que a navegação era impossível, porque o mar parecia um 'pulmão' feito de água

Tendo-se perdido a obra de Pytheas, levantaram-se várias hipóteses, desde a antiguidade até os dias atuais, sobre suas façanhas de exploração. Por mais que seja considerado teratologista , não há dúvida de que percorreu grande parte da costa da Europa Ocidental e da Britannia. Porventura ele entrou no mar Báltico? O que ele quis dizer quando falou de um "pulmão marinho"? E sua Thule, onde se acha? 

Em relação ao mar Báltico, não teria importância uma resposta categórica, porque com toda a probabilidade os países por ele banhados eram conhecidos na Grécia durante a Alta Antiguidade. Seu "pulmão marinho", que impossibilitava a navegação, era sem dúvida uma mistura de água e gelo anunciando os icebergs do Pólo Norte. Em relação a Thule, no entanto, ainda é uma questão em debate. Em todo caso, era uma ilha localizada perto da "zona congelada" (o Círculo Polar Ártico). Lá, devido à pouca luz solar, não se podia cultivar o trigo e, como resultado, o alimento consistia principalmente de milhete e raízes. Trata-se da Islândia? Da Groenlândia? Sendo a vida humana "cheia de surpresas", é Fernand Crombette quem, graças ao seu dicionário copta-latim e latim-copta, nos possibilita dar uma resposta, senão categórica, pelo menos razoável. 

Em primeiro lugar, vejamos o testemunho de nosso antigo explorador. Conforme atestado, Thule é uma ilha que se acha a seis dias de viagem da costa britânica (noroeste) e em direção ao norte. Consequentemente, não pode ser a Islândia, porque, de acordo com os cálculos de distâncias feitos por nossos Antigos, o tempo de viagem dado por Pytheas é muito longo. É preciso, de fato, levar em conta que a viagem da Europa à América é muito mais fácil do que na direção oposta. É por isso que, durante a Antiguidade Tardia, se estimou em apenas cinco dias a duração da travessia da atual Grã-Bretanha até Ogígia, uma ilha próxima à América do Norte (a Grande Bermuda, com toda probabilidade) a apenas cinco dias. ¹⁰ Portanto, é totalmente impossível pensar que eram necessários seis dias de navegação para ir da Britannia à Islândia. Portanto, a conclusão razoável é que Thule de Pytheas é a Groenlândia. 

Mas por que Thule? O que essa denominação significa? Nunca é demais repetir que a chave de tal mistério nos é oferecida por Fernand Crombette, que nos impele constantemente para a língua do antigo Egito. No entanto, fiquem tranquilos! Não precisamos seguir os passos de Champollion, porque o copta, língua em que o egípcio antigo sobreviveu ¹¹, felizmente está escrito no alfabeto grego. A palavra copta "thoulīs" significa: “lama”. ¹² A conclusão? Thule é, muito simplesmente, um "[local] enlameado", descrição mais ou menos exata que diz respeito a várias ilhas e países nórdicos devido ao derretimento do gelo, ainda que temporário, que lá acontece. É por isso que os Romanos falavam de várias Thule, uma das quais era a “última”, a saber, a mais afastada... ¹³; e não há dúvida de que esta Última Thule fosse para eles a Groenlândia. ¹⁴

Também é muito importante notar que sempre existem topônimos derivados do egípcio thoulīs. Em primeiro lugar, conhecemos Toula, uma cidade russa localizada às margens do rio Oupa. ¹⁵ Ora, Toula não é uma palavra russa e seu significado "é obscuro". ¹ A cidade de Toula, além disso, no México, a inimiga obstinada dos Astecas, tinha a particularidade de ser atravessada por um riacho de mesmo nome... ¹⁷ etc., etc. 

O que tudo isso significa? Em primeiro lugar, que a ideia de Crombette se revela, em princípio, correta, segundo a qual devemos buscar a solução dos mistérios etimológicos, e até mesmo da gnose de nossa existência na língua egípcia. Eis, então, que uma nova "frente de pesquisa" se abre diante de nós. "Dêem-me a origem das palavras e eu lhes reconstruirei a história do mundo", teria declarado Thiers; e eu acrescento: "e Crombette a nos mostrar o caminho a seguirmos..." Porém, antes de engajarmos no caminho trilhado por este, é preciso reconhecer que, por sua vez, os Ingleses têm razão: Deus tem humor! Vocês conhecem, de fato, as histórias sobre Thule, supostamente o berço místico dos Hiperbóreos, terra ideal que devemos resgatar para iniciar o renascimento da humanidade. Vocês já ouviram falar da famosa Thule-Gesellschaft, cujo brilho ofusca, mesmo atualmente, as mentes das pessoas de muito boa fé até hoje. Vocês sabem, graças às suas leituras, o misticismo desenvolvido em torno da existência mítica dos seres quase sobrenaturais que outrora habitavam a sonhada Thule... Como então explicar a todo o mundo que "Thule" apenas significa "lugar lamacento"? 

Aqui está um nó górdio que devemos desatar... 

 

I.  NOTAS EXPLICATIVAS 

 

¹  ESTRABÃO, Geografia, C 104. 
²  ESTRABÃO, Geografia, C 201. 
³  ESTRABÃO, Geografia, C 63. 
  ESTRABÃO, Geografia, C 104. 
  ESTRABÃO, Geografia, C 63, C 190, C 148-149. 
  PLÍNIO O VELHO, História Natural, 37.11 ; cf. ESTRABÃO, Geografia, C 104. 
  ESTRABÃO, Geografia, C 201. 
  ESTRABÃO, Geografia, C 201. 
  SIEGFRIED P. PETRIDĪS, Odisseia. Uma epopeia marítima dos Gregos pré-históricos na América, Atenas, 1994, p. 157. 
¹⁰ PLUTARCO, Sobre a Face Visível no Orbe da Lua, 941a-b. 
¹¹  FERNAND CROMBETTE, Dictionnaire copte-latin et latin-copte (Tournai: CESHE, 2000), p. 5. 
¹²  Ibidem, p. 44. 
¹³  Virgílio, Geórgicas, 1. 30. 
¹⁴  https://la.wikipedia.org/wiki/Thule#cite_note-2 (consultado em 06/01/2017). 
¹⁵  https://fr.wikipedia.org/wiki/Toula (consultado em 06/01/2017). 
¹  https://en.wikipedia.org/wiki/Tula,_Russia#cite_note-14 (consultado em 06/01/2017). 
¹⁷  https://en.wikipedia.org/wiki/Tula_River (consultado em 06/01/2017).

Link: https://ceshe.fr/actualites/11_ultima-thule-ou-dieu-a-de-l-humour.html

 

II.  COMENTÁRIOS pelo tradutor 

 

1) Thule era o lugar localizado no mais distante Norte, próximo ao Círculo Polar Ártico, o que foi mencionado na Antiguidade Clássica, tanto na literatura quanto na cartografia. Na literatura clássica e medieval, Última Thule adquiriu um significado metafórico de qualquer lugar distante localizado além das "fronteiras do mundo conhecido". 
 
2) A respeito de Thule sabemos o que dizem os mitólogos, poetas e navegadores. Resta saber o que dizem os geógrafos, polígrafos, etimólogos e historiadores, ou seja, cientistas que se ocuparam dessa estranha ilha nórdica. Conforme o texto acima da autoria de Dimítris Mikhalópoulos, o primeiro a falar de Thule parece ter sido o explorador grego Pytheas, na obra Sobre o Oceano, hoje infelizmente perdida, narrando suas viagens ao Norte entre 330 a.C. e 320 a.C, ocasião em que foi enviado pela colônia grega de Massalia (atual Marselha) para pesquisar a origem de produtos ali comercializados. 
 
3) Descrevendo Thule como um lugar em que terra, água e ar perdem suas propriedades distintivas "congelando conjuntamente em substâncias com aparência de pulmão marinho (provavelmente águas-vivas-de-pente ou ctenophoras), sobre as quais não se podia nem caminhar nem navegar Pytheas, navegante e astrônomo da colônia de Massalia (atual Marselha), observou (ou teorizou) que essa ilha era o ponto mais ao norte da cadeia britânica, onde "o círculo do trópico do verão é o mesmo que o círculo ártico". Ele sabia da geometria da esfera que deve haver algum ponto no globo onde o sol brilharia por todo um dia no solstício de verão. Ele também notou que a amplitude das marés oceânicas depende das fases lunares, e que o Polo Norte celestial é marcado não por uma única estrela, Polaris, mas antes por um retângulo formado por Polaris junto com outras três estrelas fracas. 
A substância resultante da mistura dos elementos assemelhava-se à ctenophora 
 
Embora não exista nenhum registro de Pytheas ter produzido um mapa, tanto sua abordagem teórica quanto seu acúmulo de dados muito avançaram a ciência da cartografia. Pytheas criativamente explorou a linguagem abstrata e precisa da matemática e da astronomia juntamente com um enorme volume de evidência empírica reunido cuidadosamente. Ele estendeu o conhecimento grego da geografia do Noroeste europeu e, apesar do desprezo de Estrabão, estabeleceu a fundação para incorporar paralelos de latitude dentro dos mapas. 
 
Um contemporâneo de Pytheas que, ao contrário, ganhou reconhecimento por fazer uma contribuição significativa à cartografia foi Dicearco de Messana na Sicília (floresceu ca. 340-290 a.C.), um sábio que estudou com Aristóteles em Atenas, estabeleceu a fundação de um sistema coordenado impondo sobre o globo um eixo com um meridiano (através de Rhodes) e um paralelo, ou linha de latitude (diafragma), estendendo dos Estreitos de Gibraltar, através da Sicília, e ao longo das Montanhas Taurus ao Monte Himeus (nos Himalayas). Descreveu o globo em seus Períodos (ou Circuitos) da Terra, que foi provavelmente acompanhado de um mapa. Seguindo Demócrito, Dicearco adotou a razão de 3:2 para a extensão do globo. Ele registrou distâncias entre certos lugares e mediu as altitudes de montanhas, que então comparou com o tamanho do globo para mostrar que elas não afetavam significativamente a esfericidade da terra. Além disso, orientou corretamente a extensão oriental das Montanhas Taurus ao longo de uma coordenada leste-oeste, em vez de desviá-las para o norte, como tinham feito antigos geógrafos gregos. 
 
Eratósthenes, trabalhando um século depois, apossou-se da ideia de Dicearco e desenvolveu-a além; embora quisesse fazer um revisão completa desses primitivos mapas geográficos, teve de seguir a ideia de Dicearco (de que as Montanhas Taurus prolongavam um trajeto direto sobre o paralelo de Atenas).  
 
Estrabão (63 a.C.-ca. 24 d.C.) foi um historiador, geógrafo e filósofo grego. Foi o autor da monumental Geografia, um tratado de 17 livros contendo a história e descrições de povos e locais de todo o mundo que lhe era conhecido à época. Nesta obra, história, religião, costumes locais e as instituições de diferentes povos estão misturados às descrições geográficas. Estrabão, no Livro 2 Capítulo 4 Seção 1 de sua Geografia, escreveu em tradução de Hamilton, H.C. & Falconer, M.A. (Londres: George Bell & Sons, 1903): 
Políbio, em sua corografia da Europa, nos diz que não é sua intenção examinar os escritos dos antigos geógrafos, mas as declarações dos que os criticaram, tais como Dicearco de Messana na Sicília, Eratósthenes que foi o último dos que em seu tempo trabalharam em geografia, e Pytheas, por quem muitos foram enganados. É esse último escritor que afirma que viajou a pé por toda a Britannia, e que a ilha mede acima de 40.000 estádios em circunferência. Igualmente é ele que descreve Thule e outras localidades vizinhas, onde, segundo ele, nem terra, nem água, nem ar existem separadamente, mas um tipo de mistura de todos esses (elementos), assemelhando a esponja marinha, na qual a terra, o mar e todas as coisas estavam suspensas, assim formando, como um elo a unir o todo. Através dele não se pode nem navegar nem velejar. Quanto à tal substância, ele afirma que a contemplou com seus próprios olhos; o resto, narra com base na autoridade de outros. Não se deve contar com as declarações de Pytheas, que nos diz, além disso, que, ao retornar dali, atravessou todas as costas da Europa, de Gades ao Don.” 

Link: http://www.perseus.tufts.edu/hopper/text?doc=Perseus%3Atext%3A1999.01.0239%3Abook%3D2%3Achapter%3D4%3Asection%3D1

Em 77 d.C., Plínio o Velho, ao discutir as ilhas em torno da Grã-Bretanha, diz que a mais distante conhecida é Thule, onde não há noites no meio do verão, nem dias no meio do inverno. Do paralelo mais setentrional, o "paralelo dos Citas", diz que passa pelos montes Rípeos e por Thule e que nessa latitude o dia dura seis meses e a noite outros seis meses.  
 
Orosius (384-420 A.D) e o monge irlandês Dicuil (final do século VIII e início do IX) descreveram Thule como estando a noroeste da Irlanda e Grã-Bretanha, além das Faroés, o que parece sugerir a Islândia. O historiador Procopius, na primeira metade do século VI, disse que Thule era uma grande ilha do Norte habitada por 25 tribos, inclusive os Gautoi (provavelmente os Godos, do sul da atual Suécia) e os Scrithiphini (provavelmente os saami, ou Finlandeses), o que sugere a Escandinávia. Escreveu também que, quando os Hérulos retornaram, eles atravessaram o Varni (povo germânico do atual Mecklenburg) e os Danes (Dinamarqueses) e então cruzaram o mar rumo a Thule, onde se estabeleceram ao lado dos Godos. 
 
(vide arquivo pdf anexo com uma monografia de 4 páginas)
 

domingo, 30 de agosto de 2020

SÃO JOÃO DEL-REI NA VIDA E OBRA DO PADRE-MESTRE CORREIA DE ALMEIDA

Por Francisco José dos Santos Braga

Ocupante da Cadeira N. 02 (Patrono: Omar Vianna. Fundador: Gentil Palhares) do Quadro dos Membros Correspondentes da Academia Barbacenense de Letras

 

Prefaciando o livro “Correia de Almeida” de Zenaide Vieira Maia, o professor Mário Celso Rios, Presidente da Academia Barbacenense de Letras, destaca, entre outras observações, o seguinte fato:  

“[...] Já existem em nível regional bons levantamentos sobre sua obra e estilo. Entretanto, permanecem inexplorados espaços essenciais, como sua relação com a música, sua contribuição na imprensa fora de Barbacena e as polêmicas em que se envolveu no plano político e religioso. [...]” 

Acreditamos que, por estarmos mais afeito a estudos historiográficos e genealógicos, possamos contribuir com alguns insights aos dois primeiros itens indicados pelo professor Mário Celso Rios a relação do Padre-Mestre com a música e sua contribuição na imprensa são-joanense e lançar alguma luz sobre essas duas áreas inexploradas da atuação do nosso biografado. Inicialmente vejamos sua relação com a música. 

I. RELAÇÃO DO PADRE-MESTRE COM A MÚSICA 

Antes de abordarmos a veia poético-musical do Pe. José Joaquim Correia de Almeida, filho de Fernando José de Almeida e Souza e de Bárbara Marcelina de Paula, parece-nos relevante o fato de ter nosso biografado, do lado materno, em conformidade com [CINTRA, 1982, p. 213 e 336] ¹, sua avó Francisca Antônia de Paula, natural de São João del-Rei, e seu avô, o sargento-mor José Joaquim Correia, natural do Rio de Janeiro. De acordo com o Arquivo da Arquidiocese de Mariana, do lado paterno, o casal era originário de Tiradentes: capitão Antônio Joaquim de Almeida e Souza e Ana Gertrudes Pereira, possivelmente de menor expressão na formação do caráter do neto José Joaquim. Embora não se possa concluir apressadamente sem informações do próprio Correia de Almeida, ainda assim podemos imaginar que deve ter havido, por parte dos seus avós maternos, uma mais efetiva interação com o neto, transmissão de conhecimentos e de experiências vivenciadas que encontraram eco no seu íntimo. 

Essas raízes atávicas parece terem sido determinantes, se não para a sua atuação, pelo menos para a fruição de sua inspiração e, consequentemente, sua disposição para a poesia e a música. Embora o menino venha a ser um crítico do modo de viver cortesão e de certos costumes são-joanenses (como veremos em alguns sonetos publicados em periódico são-joanense), ainda assim é fácil reconhecer sua ligação quase umbilical com influências de duas procedências: a primeira (a corte), pela facilidade de estabelecer relações com pessoas poderosas e influentes (ou “influenciadoras”) capazes de auxiliá-lo na divulgação de sua obra poética, e a segunda (São João del-Rei), por sua cultura, existência de bons educandários, tradição e projeção na Província de Minas Gerais como importante entreposto comercial suprindo a corte imperial, após o esgotamento de suas jazidas auríferas no século anterior (século XVIII). 

Embora fuja ao escopo deste trabalho analisar o povoamento de toda a região de entreposto, cabe aqui pelo menos salientar resumidamente alguns fatos históricos relevantes. São João del-Rei drenava a maior parte das exportações de subsistência mineira, enquanto Barbacena concentrava principalmente as exportações de algodão. Ao longo do Caminho Novo, seu descobridor, o bandeirante Garcia Rodrigues Paes, instalou-se em várias áreas que posteriormente foram reconhecidas pela Coroa portuguesa em forma de sesmarias. Uma dessas localidades foi a Borda do Campo, onde foi instalado o registro posto de fiscalização da Coroa que mais tarde ficou conhecido como Registro Velho. Muitos proprietários de jazidas de São João del-Rei, vendo o seu esgotamento no final do século XVIII, emigraram, acompanhados de suas famílias em geral numerosas, para esse novo Eldorado, ao abrigo das sesmarias concedidas pelas autoridades, passando a desenvolver aí atividades produtivas associadas com a agricultura e a pecuária. É sabido que, tendo seus moradores se posicionado a favor do Príncipe Regente acerca dos acontecimentos que marcaram o processo de Independência e tendo a Câmara Municipal enviado um Manifesto de apoio a D. Pedro II, Barbacena obteve, com esse gesto, o título de "Nobre e mui leal Villa". 

Constatamos ser o Padre-Mestre contemporâneo do seu amigo, o músico são-joanense José Maria Xavier, nascido em 23/08/1819 na vila de São João del-Rei, portanto um ano antes do nascimento do nosso biografado, isto é, em 04/09/1820 na então vila de Barbacena. Além desse fato, constatamos outras coincidências na vida desses dois sacerdotes que desenvolverão uma grande amizade por afinidades profundas (religiosas, artísticas, eventualmente políticas por sua simpatia pelo Partido Liberal e sociais), desde 1835, quando “Correia de Almeida passa a cursar em São João del-Rei os preparatórios para matrícula nas academias imperiais” e, supostamente, “lá, em outro momento, com José Maria Xavier (também sacerdote), co-participaria de manifestações sacras” antes de janeiro de 1887 (quando faleceu José Maria Xavier por complicações provocadas por um tombo). Conforme colhemos nas informações de seus biógrafos, o padre Correia de Almeida manteve o hábito de participar ativamente, como convidado especial e até na condição de regente de orquestra e coro, das cerimônias da Semana Santa de São João del-Rei, enquanto padre José Maria Xavier estava vivo, e depois, pelo menos até 1904, um ano antes de morrer, quando pela última vez esteve presente na Semana Santa são-joanense. Em 19/02/1905, o jornal Cidade de Barbacena noticia que o padre-mestre já enfermo, em Barbacena, recebe a visita do amigo, literato e professor Aureliano Pimentel, de São João del-Rei, provavelmente o primeiro biógrafo de Pe. José Maria Xavier. Inicialmente vejamos então algo sobre a formação de cada um desses personagens. 

Publicada no jornal Arauto de Minas, de 29 de janeiro de 1887, e na Revista do Arquivo Público Mineiro, de 1901, foi pioneira a biografia escrita por Severiano de Resende e Aureliano Pimentel, este amigo de José Maria Xavier desde 1844, na qual destaca os fundamentos da formação do seu biografado: 

“[...] Ainda menino inicia o aprendizado de música com seu tio Francisco de Paula Miranda, participando das atividades da corporação então por ele dirigida, como menino cantor no registro de tiple ou soprano. Posteriormente passa a ser o 1º clarinetista e é também ótimo violinista e violista. [...] Aprendeu as primeiras letras com o antigo e conceituado professor, de austera disciplina, Guilherme José da Costa [...]  Desejoso de dar maior cultivo à sua inteligência, passou a estudar humanidades. Tendo por seu primeiro mestre em gramática latina o padre-mestre Santana (José Joaquim de Santana), latinista de fama e que tinha um pequeno colégio, donde saíram muitos mineiros, que ocuparam proeminente lugar em posições oficiais. 

Frequentou depois as aulas públicas de Latim, Francês, História, Geografia e Filosofia, sendo seus professores: Reginaldo Ferreira de Barros, D. Domingos José da Cunha e Cônego José Antônio Marinho, recebendo em exames públicos diplomas honoríficos e prêmios como devida recompensa de sua aplicação; concluindo seus preparatórios no ano de 1838. Aos 23 anos de idade, resolve tomar o estado eclesiástico e das mãos do venerando Bispo de Mariana, D. Antônio Ferreira Viçoso, recebe o presbiterado em 19 de abril de 1846, e aos 23 de maio do mesmo ano canta sua primeira missa solene na Igreja de Nossa Senhora do Pilar, de sua terra natal. 

Nomeado vigário de Rio Preto ², lá permanece pouco mais de um ano, retornando a São João del-Rei, por motivos de saúde, de onde não mais sairá. Assume então a Vigararia da Vara e leciona no Colégio Duval. Nomeado capelão de diversas irmandades, a todas elas presta os seus serviços inestimáveis, como sacerdote, músico e cidadão. [...]” 

Vejamos agora, como a formação do Padre-Mestre Correia de Almeida apresenta curiosas coincidências com a do importante músico são-joanense, segundo [FONSECA (org.) et al., 2003, 239-257] e [MAIA (org.), 2005, 13-18]:

“[...] Sob a orientação do padre Joaquim Camilo de Brito, Correia de Almeida fez seus primeiros estudos em Barbacena. [...] Segundo o biógrafo do padre-mestre, Pe. Sinfrônio Augusto de Castro, em 1835 Correia de Almeida passa a cursar, em São João del-Rei, os preparatórios para matrícula nas academias imperiais, onde também estuda Música, ali permanecendo até 1840. Foi um de seus preceptores o cônego José Antônio Marinho, historiador da Revolução Liberal de 1842, e teve por condiscípulo o compositor de músicas sacras padre José Maria Xavier. [...] Passada a turbulência do governo Pedro I e das regências que se seguiram, o menino Pedro II foi sagrado Imperador do Brasil em 1840, aos 14 anos, episódio conhecido como “o golpe da maioridade”. ³

Correia de Almeida dedica ao monarca então sua primeira produção poética:  um hino denominado “Hino à Maioridade de Sua Majestade o Senhor D. Pedro II”. [FONSECA (org.) et al., idem] se refere ao fato da seguinte forma: “No mesmo ano, em São João del-Rei, Correia de Almeida compôs um hino dedicado à maioridade do monarca, publicado em São João del-Rei.” (grifos nossos)

Apesar dessa importante informação fornecida por Fonseca (de que o poema do padre-mestre foi “musicado e publicado, talvez em São João del-Rei”), infelizmente ainda não logrou êxito minha pesquisa nos arquivos das bicentenárias orquestras Lira Sanjoanense (fundada em 1776, portanto há 244 anos atrás, ostentando, segundo a UNESCO, a honra de ser a orquestra mais antiga das Américas e a segunda mais antiga do mundo) e Ribeiro Bastos (datada de 1840). Na melhor das hipóteses, há até a possibilidade de que o próprio compositor José Maria Xavier tenha musicado o suposto Hino à Maioridade de autoria do Padre-Mestre, porque, do gênero profano, ainda segundo [VIEGAS, 1987, 53-65), consta que Xavier “compôs valsas, minuetos, aberturas, e fez arranjos orquestrais de diversas aberturas de óperas como: Recreio dos Clérigos, de Herold, Les Bacchantes, de Generalli; árias, duetos e coros de óperas, e escreveu fantasias para o instrumento muito em voga na época, o oficleide. Para banda de música, escreveu algumas marchas processionais, destacando-se a que compôs para a procissão de Nossa Senhora da Boa Morte, que se realiza em 14 de agosto.” 

Também não teve melhor resultado minha pesquisa junto à Biblioteca Nacional-BN, tentando localizar o referido Hino à Maioridade do Padre-Mestre Correia de Almeida, principalmente após folhear um precioso trabalho de Analía Chernavsky, intitulado “A construção dos mitos e heróis do Brasil nos hinos esquecidos da Biblioteca Nacional” na referida BN. Com referência aos Hinos do Império, especialmente às páginas 22-26, a autora registra: “Em 23 de julho de 1840 decretou-se a maioridade do imperador. Passados exatamente um ano e um dia dessa data, em 24 de julho de 1841, encerravam-se os nove dias das festividades organizadas para o evento de sua sagração e coroação. Na Coleção Teresa Cristina Maria encontramos alguns hinos compostos especialmente para essa ocasião, mas não sabemos se foram efetivamente executados durante as festividades.” Além dos hinos constantes na dita Coleção, Chernavsky ainda pesquisou na Divisão de Música e Arquivo Sonoro da Biblioteca Nacional-DIMAS (mais especificamente em obras pertencentes à Coleção Império) e em Obras Raras da BN. O resultado da sua pesquisa foi ter encontrado, para comemorar a Maioridade propriamente dita, apenas um hino em Obras Raras, qual seja o Hino à maioridade de S. M. o Imperador, do liberal Paula Brito (código BN, OR 99 A, 21, 6). Reconhece, entretanto, a existência de muitos outros hinos celebrando especificamente os eventos da sagração e coroação dentro da Coleção Teresa Cristina Maria. Segundo [CHERNAVSKY, 2009, 9-41], “a importância e suntuosidade com a qual foi revestido este evento explicam o porquê dos hinos compostos para esse fim apresentarem tamanha variedade e complexidade musical.”  

Portanto, o que importa relatar aqui é que o Hino à Maioridade de Sua Majestade o Senhor D. Pedro II da autoria do Padre-Mestre também não consta do acervo doado em 1891 pelo ex-Imperador D. Pedro II com o desejo expresso deste de que se conservasse o nome da Imperatriz, daí, "Coleção Teresa Cristina Maria".

Ainda segundo [FONSECA (org.) et al., idem] e de acordo com seu biógrafo Massena: “[...] Em 1842, houve a anexação da cadeira de Instrução Secundária de Francês e Noções de Geografia e História à de Latim e Poética e Vernácula, ficando ambas a cargo de José Joaquim Correia de Almeida. [...] Em 03/03/1844, ainda segundo Massena, Correia de Almeida é ordenado padre no Convento de Santo Antônio, no Rio de Janeiro , pelo coadjutor Dom Frei Antônio de Arrabida, bispo titular de Anemúria, rezando sua primeira missa em Barbacena, a 21 de abril do mesmo ano. [...] Finalmente segundo Massena, 1846 foi o ano em que Correia de Almeida foi aprovado, em Ouro Preto, no concurso público para a cadeira de Latim, sendo confirmado como regente da mesma cadeira de Barbacena. Além disso o padre Correia de Almeida substituiu o cônego Joaquim Camilo de Brito na função de vigário da Paróquia de Nossa Senhora da Piedade de Barbacena, nos anos de 1846 e 1847. [...] Segundo sua biógrafa Filocelina C. Matos Almeida, 1871 foi o ano de jubilamento de sua carreira no magistério público (1841-1871). Entretanto, continua a ensinar no Colégio Providência e dar aulas particulares, em sua casa, de Latim, Português, Francês e Música. [...]” 

 

COINCIDÊNCIAS ENTRE OS DOIS PADRES-MESTRES: JOSÉ MARIA XAVIER E CORREIA DE ALMEIDA 

 

Inicialmente, é digno de nota o fato de que ambos os artistas Padres-Mestres Correia de Almeida e José Maria Xavier adotaram a vida sacerdotal, desempenhando de forma rotineira, quase burocrática e recusando as ofertas de promoção a cargos superiores aos de presbítero, exceto em breve período quando exercem a função de vigário. De forma semelhante, ambos também fazem sua primeira incursão em suas respectivas artes quando contavam com a idade de 20 anos. Conforme discutido no item anterior, a obra de estreia de Correia de Almeida na sua carreira literária é o Hino à Maioridade de Sua Majestade o Senhor D. Pedro II, datado em 1840, conforme seus biógrafos. 

Há um artigo já citado do musicólogo, regente, copista e violoncelista são-joanense Aluízio José Viegas, que consideramos fonte fidedigna a respeito da vida e obra do Padre-Mestre José Maria Xavier e se baseia nos seus biógrafos contemporâneos, incluindo ainda informações e conclusões próprias tiradas após esmerado estudo de partituras e documentos existentes no arquivo da Orquestra Lira Sanjoanense. De acordo com [VIEGAS, ibidem], as primeiras partituras da lavra de José Maria Xavier são datadas de 1839, conforme sua pesquisa: “[...] Sua primeira obra: “Qui sedes e Quoniam” a solo de baixo foi feita em 1839, baseada em um terceto de Rossini, como especifica no manuscrito. Dedicou esta obra a seu amigo e contemporâneo absoluto, Hermenegildo José de Souza Trindade, a quem dedicará a maioria de suas obras. O ter utilizado melodia de Rossini, adaptando-a para um texto religioso, porém empregando harmonização e instrumentação próprias, era fato comum na Corte do Rio de Janeiro, onde os compositores como Pedro Teixeira de Seixas, Fortunato Mazziotti, e outros, sofreram a influência da música operística em voga, principalmente de Rossini, a ponto de enxertar em suas obras para igreja reminiscências de óperas em voga. [...]” 

Ainda uma coincidência pode ser constatada nas distinções honoríficas de que ambos os padres foram ou são detentores: Padre José Maria Xavier é patrono do Conservatório Estadual de Música que leva o seu nome em sua terra, bem como patrono da Cadeira nº 12 da Academia Brasileira de Música, cujo fundador foi Octavio Bevilacqua em 1945, depois sucedido pelo musicólogo são-joanense José Maria Neves e atualmente ocupada pelo Acadêmico John Neschling. Por sua vez, o Padre-Mestre José Joaquim Correia de Almeida é patrono da Cadeira nº 19 da Academia Mineira de Letras, cujo fundador foi Francisco Lins, depois sucedido por Mário Mendes Campos e atualmente ocupada pelo Pe. José Carlos Brandi Aleixo, e da Cadeira nº 1 da Academia Barbacenense de Letras, cujo fundador foi Plínio Tostes de Alvarenga, depois sucedido por Fernando Campos Duque-Estrada e atualmente ocupada por Ângela Maria Rodrigues Laguardia. Além dessas distinções honoríficas, Correia de Almeida acumulou outras. 

Em fevereiro de 1883, publicou a monografia “Notícia da Cidade de Barbacena e seu Município”, que ocasionou o seu ingresso, como sócio correspondente, no Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro-IHGB. Sacramento Blake, Antônio José Gomes Brandão e José Luiz Alves indicaram o nome de Correia de Almeida, cujo ingresso foi aprovado em 20 de abril de 1894. 

No campo da música, o padre-mestre ainda fundou, em Barbacena, a banda de música, hoje centenária e conhecida como Corporação Musical “Correia de Almeida”, que durante quase 130 anos vem desenvolvendo um trabalho social, cultural e profissionalizante, servindo a sociedade de Barbacena em todos os eventos para os quais foi e é convidada, o que demonstra a importância atribuída à música instrumental por seu fundador. Em 04/05/2000, foi sancionada a Lei Estadual nº 13.516, que declarava de utilidade pública essa entidade musical e apenas em 30/06/2006, através da Lei 3.962, o Prefeito Municipal reconheceu como de utilidade pública municipal essa entidade musical. 

Também digno de registro, por ser sinal de reverência e honra ao assim chamado “Tolentino Brasileiro”, foi a fundação do Clube Literário “Correia de Almeida” na Escola Normal de São João del-Rei, tendo como primeiro presidente José de Paula Moreira e 1º Secretário Raul Campos Maciel, em abril de 1898. São João del-Rei nada mais fez do que corresponder à afeição que lhe dedicara por setenta anos este grande poeta satírico barbacenense. 

Conforme já mostrado, há ainda outra afinidade entre os dois padres-mestres Xavier e Correia de Almeida: sua paixão pela música. Segundo o Pe. Sinfrônio Augusto de Castro apud [FONSECA (org.), idem] registra: “[...] Cultor da música, de que foi também professor, o padre Correia de Almeida, anos mais tarde, nas Semanas Santas de São João del-Rei, assumia a regência das orquestras afamadas que ali executavam composições musicais do padre José Maria Xavier. É de notar que a última lição do terceiro Noturno do Ofício de Trevas, escrita pelo padre Xavier, e especialmente dedicado a Correia de Almeida, era por este cantada”, ainda acrescentando: “com acentuado garbo e elegância.” Aqui o biógrafo de Correia de Almeida, formulou a hipótese de que certamente se estabeleceu uma marcante colaboração entre os dois padres amigos na produção de música sacra para as Semanas Santas de São João del-Rei, o poeta satírico assessorando o compositor especialmente no texto latino e estendendo-se até mesmo à regência da música executada durante as Semanas Santas. 

Finalmente, verificamos outra importante afinidade entre os dois Padres-Mestres: a sua consagração fora do Brasil. A Missa (Kyrie e Glória) nº 5 e as Matinas do Natal são as duas obras do compositor e instrumentalista Padre José Maria Xavier, cujas partituras foram editadas respectivamente em 1884 e 1885, em Munique, na Alemanha, fato singular na música sacra oitocentista mineira. Quanto ao Pe. Correia de Almeida, foi hábil ao estabelecer excelente intercâmbio com os escritores românticos portugueses, supostamente por iniciativa própria enviando-lhes seus livros impressos ou através do empenho de terceiros intermediários. O fato é que duas personalidades literárias portuguesas endossaram a veia satírica do Padre-Mestre, tanto através de uma crítica extremamente favorável (Castilho), quanto incluindo um de seus poemas satíricos, O Carnaval, em uma coletânea da poesia contemporânea portuguesa e brasileira acompanhado de valiosa apreciação crítica (Castelo Branco). Escreveu Castelo Branco a respeito do poeta barbacenense na sua apreciação do talento do satirista barbacenense:  

[...] A satyra do senhor padre Corrêa foi muito elogiada pelo primeiro visconde de Castilho quando appareceu na Gazeta de Lisboa. [...] Não está o senhor padre Corrêa na turba dos elogiados caprichosamente por Castilho. Tem graça, metrifica nitidamente, folheia o seu Tolentino, e é mais erudito que o que se espera n’estas brincadeiras de entrudo. (Castelo Branco: Cancioneiro Alegre de Poetas Portuguezes e Brazileiros, Porto: Livr. Internacional de Ernesto Chardron, 1887, Vol. I, p. 235-254, 320 p.) 
Sem excluir a possibilidade de os epigramas e sátiras do Padre-Mestre terem ultrapassado as fronteiras brasileiras e terem sido bem acolhidos na Europa, o que era de esperar, não podemos afastar a possibilidade também de ter havido a intermediação de pessoas importantes contactando dois dos escritores românticos portugueses visando informar sobre o valor do satirista barbacenense e sua obra poética. A começar pelo próprio Dom Pedro II que tinha, em termos gerais, no clero brasileiro um importante sustentáculo (o Estado leigo surgiu com a República) e, particularmente, em Correia de Almeida um monarquista convicto e lúcido, portanto apto a apadrinhar a referida aproximação. Achamos interessante indagar se haveria outro(s) intermediário(s) favorecendo essa parceria ou intercâmbio entre o Padre-Mestre e esses escritores portugueses. Quem poderia tê-lo apresentado à imprensa portuguesa e recomendado sua produção poética ao meio literário português? Na falta de evidências dessa intermediação, podemos ainda imaginar um conjunto de três possibilidades, além do monarca e do próprio autor: 
1) Laemmert & Cia. Editores e suas sucessoras que deviam ter uma política de distribuição de livros impressos a formadores de opinião brasileiros e do exterior.
Assim aconteceu com o primeiro livro de Correia de Almeida, "Satyras, Epigrammas e outras Poesias": embora seu 1º volume tenha sido impresso em 1854 impresso pela Empreza Typographica Dous de Dezembro, de Paula Brito, os seguintes 5 tomos (1858, 1862, 1868, 1872 e 1876)  foram impressos pela Eduardo e Henrique Laemmert, bem como seu premiado ensaio “Notícia da Cidade de Barbacena e seu município" (1883) foi impresso na Typographia Universal de H. Laemmert e Cia, no Rio de Janeiro. Finalmente, o último volume de suas Satyras (1879) foi impresso pela A.J.G. Brandão. É importante lembrar que o Padre-Mestre dedicou esses sete volumes a diferentes personalidades e autoridades do Império. (O 2º volume, por exemplo, foi ofertado a seu irmão Pe. Mariano Carlos de Souza Correia, alto funcionário da Secretaria da Guerra.)
Quanto ao contéudo desses 7 tomos de Satyras, é bem conhecido o alto apreço de Sacramento Blake por tal produção poética do Padre-Mestre, conforme [BLAKE, 1883-1902, v. 4, 473-474]: “Os versos das Satyras [...] têm graça, são naturais e espontâneos. O autor, poeta satírico, só teve no Brasil um rival, Gregório de Mattos. Foi, entretanto, superior a este por elevar a sátira à altura de um apostolado, tendo realizado o ideal desse gênero literário, como opinou o literato e erudito Aureliano Pimentel. A obra recebeu vários juízos críticos positivos e negativos, os quais o autor rebateu.
Além de cinco tomos das Satyras e do premiado ensaio, também a Laemmert editou ou imprimiu os dois tomos (1890 e 1892) de “Semsaborias Metricas ou Versos Piegas do Septuagenário Padre José Joaquim Corrêa de Almeida-Ramerraneiro e rabugento ex-professor de latim”.  
Ou seja, Correia de Almeida tinha experiência profissional em tipografia, quando se responsabilizou pela redação e impressão dos manifestos da Revolução Liberal de 1842, e, portanto, seu gosto era refinado no que se refere à qualidade de suas edições.  
2) Conforme citado em [FONSECA (org.) et al., 2003, 247], “no ano de 1878 faleceu, no Rio de Janeiro, o conselheiro Mariano Carlos de Souza Correia, padre, ex-cônsul do Brasil em Lisboa e ex-diretor da Secretaria da Guerra, no Rio de Janeiro, irmão de Correia de Almeida e, até o ano de seu falecimento, poderia bem ter sido o "emissário" de Correia de Almeida aos escritores portugueses. 
3) José Feliciano de Castilho, irmão do escritor português António Feliciano de Castilho, viveu no Rio de Janeiro, de 1847 até sua morte em 1879, tendo atuado na cena literária desse período como jornalista, filólogo, educador, latinista e tradutor; neste último caso, como escoliasta de fartas anotações à tradução feita por seu irmão António Castilho, dos Amores (1858) e d' Arte de Amar (1862), ambos de Ovídio; tradutor de parte do poema épico Farsália, de Lucano (a saber, os cantos I, VI, VII e metade do X); e autor de Grinalda Ovidiana, um compêndio de traduções greco-romanas, notas, comentários e interpretações do texto de Ovídio que perfazem um total de oito volumes com 785 páginas. Além disso, o próprio António Feliciano de Castilho, escritor e polemista, em 1865 veio ao Brasil com o intuito de propagar o seu Methodo Portuguez Castilho e poderia eventualmente ter-se avistado com Correia de Almeida, no Rio de Janeiro. 

 

II. CONTRIBUIÇÃO DO PADRE-MESTRE NA IMPRENSA DE SÃO JOÃO DEL-REI  

 

Não só sua terra natal enobreceu seu filho Correia de Almeida, mas também São João del-Rei o estimou como a um filho adotivo querido, hospedando seus poemas geniais (em geral, sonetos) nas páginas do periódico são-joanense Gazeta Mineira, durante os 11 anos de sua circulação (de 1884 a 1894). Informamos que a única coleção desse magnífico periódico só se encontra sob guarda do escritório do IPHAN/13ª Superintendência Regional, Escritório Técnico II de São João del-Rei e que no presente se apresenta com lacunas por um longo período (1885, 1886, 1887, 1888, 1889 e 1890), ou seja, dos 11 anos de sua publicação apenas 5 anos constam da referida coleção. É lamentável que, ao que nos consta, nem a hemeroteca digital do Arquivo Público Mineiro nem a da Biblioteca Nacional possuem a coleção completa desse periódico. 

Consideramos que nosso levantamento da contribuição de Correia de Almeida na imprensa são-joanense, embora ainda incompleto pelas razões apresentadas e independentes da nossa vontade, confirmam algumas características de sua obra poética já publicada e conhecida: além de polígrafo e humanista, sua atitude de polemista, sua manifesta veia satírica e sua produção poética utilizando a literatura como expressão do pensamento político, numa evidente sátira ao Brasil oitocentista, por 65 anos, cobrindo o Brasil Império e os primórdios da República, na Província de Minas Gerais e na corte. 

Seu livro “A República dos Tolos” (1881), poema herói-cômico-satírico em 10 cantos sobre a cidade do Rio de Janeiro é um importante testemunho para um melhor entendimento da história literária mineira e do campo social brasileiro no século XIX; é um livro de um herói quixotesco que se utiliza da sátira para aplicar ao seu momento histórico o axioma de Juvenal e que se tornou o princípio “Castigat ridendo mores” (Corrige os costumes com o riso), cunhado por Jean de Santeuil, sobre o qual se fundamenta a comédia. Correia de Almeida constatou que na sua época as paixões humanas, cujo entrechoque eclodia na interação social, eram as mesmas que motivaram a indignação de Juvenal: amor, ódio, ambição, inveja, cobiça do poder e da riqueza, desprezo pelos fracos, insensibilidade com os oprimidos. Embora se comunicasse com irreverência, tinha o cuidado de usar certo refinamento ao criticar tanto o poder com suas nuances quanto os costumes. Ou seja, Pe. Correia de Almeida produziu uma sátira refinada pelo humor. Polemista, adoçava seu ceticismo com musicalidade, poesia, bom humor, abertura ao novo, sendo tudo isso processado pelo satirista com muita elegância e presença de espírito. 

Eis os sonetos do Pe. Correia de Almeida que ainda se mantêm preservados, publicados no periódico são-joanense “Gazeta Mineira”, às vezes com réplica de algum outro poeta local ou da própria Redação do jornal em nota de gratidão ou em nota crítica sobre algum livro recém-lançado, sempre com reverência ao experiente e renomado poeta satírico barbacenense. Observamos também que mantivemos a grafia de época, conforme estampada nas páginas do periódico. 

1) Gazeta Mineira, 14/8/1884, Anno I, p. 2, edição nº 43 

Sonetos e Sonetinhos (coluna Noticiário

O nosso distincto comprovinciano Pe. José Joaquim Corrêa de Almeida acaba de offerecer-nos delicado mimo, enviando o seu livro de Sonetos e sonetinhos

Lemol-o de uma assentada, porque nem comprehendemos como se possa interromper, uma vez principiada, a leitura de qualquer das producções do nosso apreciado poeta. 

De elogios está farto o Pe. Corrêa e, portanto, bem dispensa os da nossa inhabil penna. 

Diz-nos o Padre Corrêa que serão estes os seus ultimos versos. 

Felizmente ninguem sabe quando os poetas satyricos escrevem sério, e, portanto, embala-nos a leda esperança de que, dizendo isso, teve o Padre Corrêa em mira pregar-nos uma peça, peça agradabilissima, por certo.

E nem vemos razão para que o illustre poeta dê, tão cedo, um pontapé nas Muzas, suas boas amigas de tantos annos. 

Pela franca confissão que faz em um de seus sonetos (sempre mostra que não é mulher), vemos que já vae beirando os seus setenta annos, mas é que seus versos ainda trazem o cunho e a verve da idade vigorosa; e, por isso, não enxergamos motivo para serem os ultimos. 

Diz o poeta: 

“Divirto-me lançando mão da penna, 
Sem estro nem sciencia verdadeira 
E de annos vou na rapida carreira, 
Já proximo da setima dezena.” 

Pois bem: salva a modestia aqui contida, diga-nos o Padre Corrêa que é ultimo livro seu aquelle em que puder repetir este verso, mas assim: 

... já proximo da decima dezena.

Agradecemos o precioso mimo, a que sabemos dar o merecido valor, e como o pouco espaço, de que dispõe a nossa modesta folha, não nos permitte destacar hoje alguns dos sonetos e sonetinhos que mais nos agradárão, passaremos, com a devida venia do auctor, alguns delles para as nossas columnas, sempre que para isso dispuzermos de espaço. 

 

2) Gazeta Mineira, 29/7/1891, Anno VIII, edição nº 351 

Fraternidade christã 

Padre Corrêa de Almeida 
 
Refere-nos a Biblia que tres Magos
viérão adorar Christo nascido, 
tendo lá do Oriente elles trazido, 
um, incenso; outro, myrra; outro, ouro em bagos. 
 
E é certo que não houve indicios vagos, 
de um desses offertantes haver sido, 
por motivos de cores, excluido 
de taes respeitosissimos affagos. 
 
No céo entrou e após canonizou-se
o humilde Benedicto, inda que fosse, 
o mais preto entre os homens de côr preta. 
 
Mas este duplo exemplo não milita 
na Ordem Sanjoanense Carmelita, 
que contra um preto irmão poude achar treta. 
Barbacena, julho de 1891. 
 

3) Gazeta Mineira, 16/9/1891, Anno VIII, p. 1, edição nº 364 

Soneto Ao Padre Corrêa de Almeida 

Fausto Maia 

 
Vós dissestes, ó mestre respeitavel 
Da moderna e futura raça humana, 
Que a musa galhofeira e leviana 
Não mais a gana tem tão estimavel. 
 
Não parece; essa lyra veneravel 
Será, foi e é a fonte d’onde emana 
A lição mais conspicua e mais ufana 
De graça e sapiencia inimitavel. 
 
Na verdade sois velho, e a alegria 
Eu vejo que renasce cada dia 
Nas proprias producções já da velhice. 
 
E esse vigor antigo sempre encanta 
Da vossa musa, ó mestre, sacrosanta 
Àquelles que hoje são da modernice. 

 

4) Gazeta Mineira, 7/10/1891, Anno VIII, p. 2, edição nº 370 

Soneto Ao Padre Corrêa de Almeida 

Fausto Maia 
 
Obrigado, muitissimo agradeço
o soneto, beijando a vossa mão
com prazer e maior satisfação, 
pois elle tem p’ra mim subido preço. 
 
Duvido que o enthusiasmo, que conheço
em vós, já se extinguisse e a animação
se apagasse, levando a inspiração —
que tantas glorias tem e tanto apreço. 
 
Vossos versos, ó mestre, galhofeiros
dão soberba lição a esta gentinha
que deseja galgar altos poleiros. 
 
A muza não deixou de ser madrinha, 
e mesmo sob o peso dos janeiros 
não vos custa acertar uma quadrinha! 

5) Gazeta Mineira, 12/12/1891, Anno VIII, p. 2, edição nº 389 

Padre Corrêa de Almeida (Nota da Redação) 

Visitou-nos este respeitado sacerdote e conhecido poeta, que, embora de longe em longe, costuma honrar-nos com producções suas. 
Cumprimentamol-o. 
 

6) Gazeta Mineira, 30/3/1892, Anno IX, edição nº 417 

Consequencia da saude e fraternidade 

Padre Corrêa de Almeida 
 
O destroço da imagem que desperta 
a lembrança do manso Nasareno 
horror produz, que nada tem de ameno 
para o crente que vela sempre alerta. 
 
A heresia, que já não se acoberta, 
vem plantar o mortifero veneno, 
e é porque poude achar franco terreno, 
e porque poude achar a porta aberta. 
 
Si hoje é quebrada a sacro-santa effigie, 
desde hontem (o demonio assim o exige) 
guarda e nome supprimem-se de Deus. 
 
O exemplo desceu do alto, e o facto de ser-nos 
imposta a impiedade de Governos 
formados de sacrilegos atheus. 
Barbacena, 27 de março de 1892. 

 

7) Gazeta Mineira, 24/12/1892, Anno IX, p. 2, edição nº 466 

Quousque tandem? 

Padre Corrêa de Almeida 
 
Todos os dias vemos annunciada 
entre Ministros larga conferencia, 
ou entre elles ou a Vice-Presidencia, 
e fica a expectativa sempre ansiada! 
 
A sucia de banqueiros asseada 
tambem tem sido ouvida com frequencia, 
a crise é de continua permanencia, 
e a gente está scismando desconfiada! 
 
Embora seja larga, alta ou comprida 
a infinda conferencia ou parolagem, 
sob o peso a Nação jaz opprimida! 
 
E emquanto os Brasileiros não reagem, 
de um apertado becco sem sahida 
o systema actual é vera imagem! 
Barbacena, Dezembro de 1892. 

 

8) Gazeta Mineira, 20/01/1894, Anno XI, p. 2, edição nº 521 

Silentium verbis facundius 

Padre Corrêa de Almeida 
 
Ao Jornal do Commercio dou louvores 
pela idéa feliz de ficar mudo, 
uma vez que não póde dizer tudo 
à cerca da milicia e seus horrores. 
 
Se leitor perspicaz acaso fores, 
estudando as manobras por miúdo, 
verás que certa imprensa faz estudo 
de impingir a mentira a seus leitores. 
 
Viver às claras é falsa divisa, 
visto que alta policia fiscalisa, 
sem deixar transpirar, a opinião. 
 
Assim, pois, o silencio actualmente 
é mais do que as palavras eloquente, 
e o Jornal é que tem toda a razão. 
Barbacena, Janeiro de 1894. 

 

9) Gazeta Mineira, 21/04/1894, Anno XI, p. 2, edição nº 533

O mais difficil de esfolar-se 

Padre Corrêa de Almeida 
 
Na opinião de muita gente bôa 
está completamente debellada 
a guerra que tem sido tão fallada, 
cujo termo glorioso se apregôa. 
 
E se o Te Deum laudamus já não sôa 
no recinto da egreja preparada, 
é só por estar esta separada, 
depois do banimento da corôa. 
 
Certo é que havendo paz tudo prospéra 
e com justa razão hoje se espera 
a cornucopia a jorros abundantes. 
 
Mas inda resta a cauda financeira, 
nem a pôde esfolar toda a canceira 
de exactores rhetoricos, pedantes. 
Barbacena, Abril de 1894. 

 


III. NOTAS EXPLICATIVAS

 

¹   Sebastião de Oliveira Cintra é citado na obra "Biografias" de Plínio Alvarenga, Barbacena: GECB, 1993, em sua correspondência abaixo transcrita ao autor: 

“São João del-Rei, 5 de fevereiro de 1980 

Caro Amigo Prof. Plínio Tostes de Alvarenga 

Cordiais cumprimentos: Acabo de ler com especial agrado o seu Perfil Biobibliográfico do Padre-Mestre José Joaquim Correia de Almeida. O Ilustre Presidente não poderia ter escolhido melhor Patrono. O poeta satírico Correia de Almeida encontrou merecida glorificação em todo o Brasil e em Portugal, mercê de sua bagagem política. Minha afeição ao Padre-Mestre explica-se, também, por outros fatores. Afinal de contas, corria nas veias dele nobre sangue sanjoanense. Também o Prof. Plínio descende de fidalgo tronco familiar sanjoanense. São coincidências muito agradáveis para o missivista. 

Sebastião de Oliveira Cintra 

Historiador residente em São João del-Rei

²   Localidade no Estado do Rio de Janeiro.

³  Vide MARINHO, José Antônio: “A Declaração da Maioridade de Sua Magestade Imperial, o Senhor D. Pedro II, desde o momento em que essa idéa foi aventada no corpo legislativo até o acto de sua realização”, Rio de Janeiro: Typographia da Associação do Despertador, 1840 (compilação de documentos, discursos parlamentares, e artigos a respeito da maioridade de D. Pedro II. Na página de introdução “Ao Leitor” consta a identificação "Huma testemunha ocular". A autoria, segundo Paiva (1926, p. 167) é atribuída a José Antonio Marinho, político, padre e educador, havendo dele uma litografia de Sisson. O projeto de maioridade, de autoria do senador Antônio Francisco de Paula de Holanda Cavalcanti de Albuquerque (senador de 1838 a 1863) foi apresentado ao Senado em 1840).

 Link: https://www2.senado.leg.br/bdsf/handle/id/242439

  Apesar de ter sido frustrante até o presente nossa busca do "Hino à Maioridade de Sua Majestade o Senhor D. Pedro II", da autoria do Padre-Mestre Correia de Almeida, datado em 1840, há em Barbacena uma tradição oral que dá conta de que o seu autor aproveitou parte do poema de 1840 na letra do seu Hino do 4º Centenário do Descobrimento do Brasil com o título In Hoc Signo Vince, de 1899. 

Segundo [FONSECA (org.) et al., idem], “foi no dia 18 de maio de 1899 a data marcada para realização do concurso aberto para a letra do 4º Centenário do Descobrimento do Brasil. [...] O concurso foi vencido pelo poeta Sebastião Cícero dos Guimarães Passos.”

[CHERNAVSKY, idem, 42-79], na sequência da sua pesquisa, nos dá mais detalhes do ocorrido, referindo-se aos Hinos da República na sua pesquisa na BN. Segundo ela, em 1899 o governo republicano preparou uma série de eventos para comemorar a data com participação das seguintes instituições: Associação do IV Centenário e o Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro-IHGB. A primeira ficou responsável pelos eventos dirigidos ao público popular, os quais visavam "estimular sua adesão à pátria"; o segundo ocupou-se dos atos dirigidos ao público letrado. Inicialmente, organizou uma comissão responsável pelos preparativos e estavam entre seus membros mais importantes Benjamin Franklin Raiz Galvão (ex-diretor da BN no período 1870-1882) e o escritor Coelho Neto. A Associação abriu um concurso para a escolha da poesia que serviria para um eventual Hino do Centenário a ser cantado durante as comemorações organizadas para o ano seguinte. Prometeu-se um prêmio de um conto de réis ao vencedor. Franklin Dória, José Veríssimo e Rodrigo Otávio foram escolhidos para julgar as 25 poesias recebidas pela Associação. Entretanto, após a avaliação dos textos inscritos, a comissão julgadora decidiu que "nenhuma das peças examinadas correspondia, em inspiração e factura à magnitude do feito que se propunham celebrar. À vista de tal juízo, a Associação recolheu as poesias, julgadas inclassificáveis e, com um critério literário assaz discutível, conferiu o prêmio à poesia com que concorreu o Sr. Guimarães Passos e menção honrosa a outras duas, cujos autores ignoramos. [...] Aguardemos agora o resultado do concurso referente à música", de acordo com o articulista da revista A Educadora (edição nº 1, agosto de 1899, p. 4-5 na hemeroteca digital da BN). Citando Lúcia Lippi Oliveira, in "Imaginário histórico e poder cultural: as comemorações do Descobrimento", Chernavsky resume assim a comemoração do IV Centenário do Descobrimento: "a campanha do IV Centenário procurava sensibilizar os brasileiros para a importância da celebração, mas não obteve o retorno esperado, e os preparativos para a festa acabaram sendo um fracasso."

  Devido ao fechamento do seminário de Mariana, precisou prosseguir seu preparo religioso até a ordenação no Rio de Janeiro. Correia de Almeida é ordenado padre no Convento de Santo Antônio, no Rio de Janeiro.

 




IV. BIBLIOGRAFIA

 

 

ALVARENGA, Plínio Tostes de: Biografias, Barbacena: Ed. do autor, 1993.

BLAKE, A. V. A. Sacramento: Diccionario bibliographico brazileiro. Rio de Janeiro: Typ. Nacional, 1883, 7 volumes.

CHERNAVSKY, Analía: A construção dos mitos e heróis do Brasil nos hinos esquecidos da Biblioteca Nacional, 2009, 98 p., com o apoio do Programa Nacional de Apoio à Pesquisa na Biblioteca Nacional. Link: https://www.bn.gov.br/en/node/1000 

Link: https://www.google.com/search?client=firefox-b-d&q=Hinos+do+Imp%C3%A9rio%2C+de+Anal%C3%ADa+Chernavsky 

CINTRA, Sebastião de Oliveira. Efemérides de São João del-Rei. v. I e II, – 2ª ed. – Belo Horizonte: Imprensa Oficial, 1982, 622 p.  

FONSECA, L.M.A. (org.), DEOUD, I.M., HELENO, J.G. e OLIVEIRA, F.R.: Padre Correia de Almeida, Barbacena: Centro Gráfico e Editora Ltda., 2003, 283 p.  

MAIA, Zenaide Vieira (org.): Correia de Almeida, Barbacena: Gráfica e Ed. Cidade de Barbacena, com apoio cultural da FUNDAC, 2005, 120 p.  

RESENDE, Severiano Nunes Cardoso de; & PIMENTEL, Aureliano Pereira Corrêa. Traços biográficos do Pe. José Maria Xavier, Revista do Arquivo Público Mineiro, Belo Horizonte, ano 6, fasc. 1, p. 97, jan/mar 1901.

VIEGAS, Aluízio José: Música em São João del-Rei de 1717 a 1900, Revista do Instituto Histórico e Geográfico de São João del-Rei, volume V, 1987, p. 53-65, Juiz de Fora: Esdeva Empresa Gráfica Ltda, 1987, 128 p.