domingo, 30 de agosto de 2020

SÃO JOÃO DEL-REI NA VIDA E OBRA DO PADRE-MESTRE CORREIA DE ALMEIDA

Por Francisco José dos Santos Braga

Ocupante da Cadeira N. 02 (Patrono: Omar Vianna. Fundador: Gentil Palhares) do Quadro dos Membros Correspondentes da Academia Barbacenense de Letras

 

Prefaciando o livro “Correia de Almeida” de Zenaide Vieira Maia, o professor Mário Celso Rios, Presidente da Academia Barbacenense de Letras, destaca, entre outras observações, o seguinte fato:  

“[...] Já existem em nível regional bons levantamentos sobre sua obra e estilo. Entretanto, permanecem inexplorados espaços essenciais, como sua relação com a música, sua contribuição na imprensa fora de Barbacena e as polêmicas em que se envolveu no plano político e religioso. [...]” 

Acreditamos que, por estarmos mais afeito a estudos historiográficos e genealógicos, possamos contribuir com alguns insights aos dois primeiros itens indicados pelo professor Mário Celso Rios a relação do Padre-Mestre com a música e sua contribuição na imprensa são-joanense e lançar alguma luz sobre essas duas áreas inexploradas da atuação do nosso biografado. Inicialmente vejamos sua relação com a música. 

I. RELAÇÃO DO PADRE-MESTRE COM A MÚSICA 

Antes de abordarmos a veia poético-musical do Pe. José Joaquim Correia de Almeida, filho de Fernando José de Almeida e Souza e de Bárbara Marcelina de Paula, parece-nos relevante o fato de ter nosso biografado, do lado materno, em conformidade com [CINTRA, 1982, p. 213 e 336] ¹, sua avó Francisca Antônia de Paula, natural de São João del-Rei, e seu avô, o sargento-mor José Joaquim Correia, natural do Rio de Janeiro. De acordo com o Arquivo da Arquidiocese de Mariana, do lado paterno, o casal era originário de Tiradentes: capitão Antônio Joaquim de Almeida e Souza e Ana Gertrudes Pereira, possivelmente de menor expressão na formação do caráter do neto José Joaquim. Embora não se possa concluir apressadamente sem informações do próprio Correia de Almeida, ainda assim podemos imaginar que deve ter havido, por parte dos seus avós maternos, uma mais efetiva interação com o neto, transmissão de conhecimentos e de experiências vivenciadas que encontraram eco no seu íntimo. 

Essas raízes atávicas parece terem sido determinantes, se não para a sua atuação, pelo menos para a fruição de sua inspiração e, consequentemente, sua disposição para a poesia e a música. Embora o menino venha a ser um crítico do modo de viver cortesão e de certos costumes são-joanenses (como veremos em alguns sonetos publicados em periódico são-joanense), ainda assim é fácil reconhecer sua ligação quase umbilical com influências de duas procedências: a primeira (a corte), pela facilidade de estabelecer relações com pessoas poderosas e influentes (ou “influenciadoras”) capazes de auxiliá-lo na divulgação de sua obra poética, e a segunda (São João del-Rei), por sua cultura, existência de bons educandários, tradição e projeção na Província de Minas Gerais como importante entreposto comercial suprindo a corte imperial, após o esgotamento de suas jazidas auríferas no século anterior (século XVIII). 

Embora fuja ao escopo deste trabalho analisar o povoamento de toda a região de entreposto, cabe aqui pelo menos salientar resumidamente alguns fatos históricos relevantes. São João del-Rei drenava a maior parte das exportações de subsistência mineira, enquanto Barbacena concentrava principalmente as exportações de algodão. Ao longo do Caminho Novo, seu descobridor, o bandeirante Garcia Rodrigues Paes, instalou-se em várias áreas que posteriormente foram reconhecidas pela Coroa portuguesa em forma de sesmarias. Uma dessas localidades foi a Borda do Campo, onde foi instalado o registro posto de fiscalização da Coroa que mais tarde ficou conhecido como Registro Velho. Muitos proprietários de jazidas de São João del-Rei, vendo o seu esgotamento no final do século XVIII, emigraram, acompanhados de suas famílias em geral numerosas, para esse novo Eldorado, ao abrigo das sesmarias concedidas pelas autoridades, passando a desenvolver aí atividades produtivas associadas com a agricultura e a pecuária. É sabido que, tendo seus moradores se posicionado a favor do Príncipe Regente acerca dos acontecimentos que marcaram o processo de Independência e tendo a Câmara Municipal enviado um Manifesto de apoio a D. Pedro II, Barbacena obteve, com esse gesto, o título de "Nobre e mui leal Villa". 

Constatamos ser o Padre-Mestre contemporâneo do seu amigo, o músico são-joanense José Maria Xavier, nascido em 23/08/1819 na vila de São João del-Rei, portanto um ano antes do nascimento do nosso biografado, isto é, em 04/09/1820 na então vila de Barbacena. Além desse fato, constatamos outras coincidências na vida desses dois sacerdotes que desenvolverão uma grande amizade por afinidades profundas (religiosas, artísticas, eventualmente políticas por sua simpatia pelo Partido Liberal e sociais), desde 1835, quando “Correia de Almeida passa a cursar em São João del-Rei os preparatórios para matrícula nas academias imperiais” e, supostamente, “lá, em outro momento, com José Maria Xavier (também sacerdote), co-participaria de manifestações sacras” antes de janeiro de 1887 (quando faleceu José Maria Xavier por complicações provocadas por um tombo). Conforme colhemos nas informações de seus biógrafos, o padre Correia de Almeida manteve o hábito de participar ativamente, como convidado especial e até na condição de regente de orquestra e coro, das cerimônias da Semana Santa de São João del-Rei, enquanto padre José Maria Xavier estava vivo, e depois, pelo menos até 1904, um ano antes de morrer, quando pela última vez esteve presente na Semana Santa são-joanense. Em 19/02/1905, o jornal Cidade de Barbacena noticia que o padre-mestre já enfermo, em Barbacena, recebe a visita do amigo, literato e professor Aureliano Pimentel, de São João del-Rei, provavelmente o primeiro biógrafo de Pe. José Maria Xavier. Inicialmente vejamos então algo sobre a formação de cada um desses personagens. 

Publicada no jornal Arauto de Minas, de 29 de janeiro de 1887, e na Revista do Arquivo Público Mineiro, de 1901, foi pioneira a biografia escrita por Severiano de Resende e Aureliano Pimentel, este amigo de José Maria Xavier desde 1844, na qual destaca os fundamentos da formação do seu biografado: 

“[...] Ainda menino inicia o aprendizado de música com seu tio Francisco de Paula Miranda, participando das atividades da corporação então por ele dirigida, como menino cantor no registro de tiple ou soprano. Posteriormente passa a ser o 1º clarinetista e é também ótimo violinista e violista. [...] Aprendeu as primeiras letras com o antigo e conceituado professor, de austera disciplina, Guilherme José da Costa [...]  Desejoso de dar maior cultivo à sua inteligência, passou a estudar humanidades. Tendo por seu primeiro mestre em gramática latina o padre-mestre Santana (José Joaquim de Santana), latinista de fama e que tinha um pequeno colégio, donde saíram muitos mineiros, que ocuparam proeminente lugar em posições oficiais. 

Frequentou depois as aulas públicas de Latim, Francês, História, Geografia e Filosofia, sendo seus professores: Reginaldo Ferreira de Barros, D. Domingos José da Cunha e Cônego José Antônio Marinho, recebendo em exames públicos diplomas honoríficos e prêmios como devida recompensa de sua aplicação; concluindo seus preparatórios no ano de 1838. Aos 23 anos de idade, resolve tomar o estado eclesiástico e das mãos do venerando Bispo de Mariana, D. Antônio Ferreira Viçoso, recebe o presbiterado em 19 de abril de 1846, e aos 23 de maio do mesmo ano canta sua primeira missa solene na Igreja de Nossa Senhora do Pilar, de sua terra natal. 

Nomeado vigário de Rio Preto ², lá permanece pouco mais de um ano, retornando a São João del-Rei, por motivos de saúde, de onde não mais sairá. Assume então a Vigararia da Vara e leciona no Colégio Duval. Nomeado capelão de diversas irmandades, a todas elas presta os seus serviços inestimáveis, como sacerdote, músico e cidadão. [...]” 

Vejamos agora, como a formação do Padre-Mestre Correia de Almeida apresenta curiosas coincidências com a do importante músico são-joanense, segundo [FONSECA (org.) et al., 2003, 239-257] e [MAIA (org.), 2005, 13-18]:

“[...] Sob a orientação do padre Joaquim Camilo de Brito, Correia de Almeida fez seus primeiros estudos em Barbacena. [...] Segundo o biógrafo do padre-mestre, Pe. Sinfrônio Augusto de Castro, em 1835 Correia de Almeida passa a cursar, em São João del-Rei, os preparatórios para matrícula nas academias imperiais, onde também estuda Música, ali permanecendo até 1840. Foi um de seus preceptores o cônego José Antônio Marinho, historiador da Revolução Liberal de 1842, e teve por condiscípulo o compositor de músicas sacras padre José Maria Xavier. [...] Passada a turbulência do governo Pedro I e das regências que se seguiram, o menino Pedro II foi sagrado Imperador do Brasil em 1840, aos 14 anos, episódio conhecido como “o golpe da maioridade”. ³

Correia de Almeida dedica ao monarca então sua primeira produção poética:  um hino denominado “Hino à Maioridade de Sua Majestade o Senhor D. Pedro II”. [FONSECA (org.) et al., idem] se refere ao fato da seguinte forma: “No mesmo ano, em São João del-Rei, Correia de Almeida compôs um hino dedicado à maioridade do monarca, publicado em São João del-Rei.” (grifos nossos)

Apesar dessa importante informação fornecida por Fonseca (de que o poema do padre-mestre foi “musicado e publicado, talvez em São João del-Rei”), infelizmente ainda não logrou êxito minha pesquisa nos arquivos das bicentenárias orquestras Lira Sanjoanense (fundada em 1776, portanto há 244 anos atrás, ostentando, segundo a UNESCO, a honra de ser a orquestra mais antiga das Américas e a segunda mais antiga do mundo) e Ribeiro Bastos (datada de 1840). Na melhor das hipóteses, há até a possibilidade de que o próprio compositor José Maria Xavier tenha musicado o suposto Hino à Maioridade de autoria do Padre-Mestre, porque, do gênero profano, ainda segundo [VIEGAS, 1987, 53-65), consta que Xavier “compôs valsas, minuetos, aberturas, e fez arranjos orquestrais de diversas aberturas de óperas como: Recreio dos Clérigos, de Herold, Les Bacchantes, de Generalli; árias, duetos e coros de óperas, e escreveu fantasias para o instrumento muito em voga na época, o oficleide. Para banda de música, escreveu algumas marchas processionais, destacando-se a que compôs para a procissão de Nossa Senhora da Boa Morte, que se realiza em 14 de agosto.” 

Também não teve melhor resultado minha pesquisa junto à Biblioteca Nacional-BN, tentando localizar o referido Hino à Maioridade do Padre-Mestre Correia de Almeida, principalmente após folhear um precioso trabalho de Analía Chernavsky, intitulado “A construção dos mitos e heróis do Brasil nos hinos esquecidos da Biblioteca Nacional” na referida BN. Com referência aos Hinos do Império, especialmente às páginas 22-26, a autora registra: “Em 23 de julho de 1840 decretou-se a maioridade do imperador. Passados exatamente um ano e um dia dessa data, em 24 de julho de 1841, encerravam-se os nove dias das festividades organizadas para o evento de sua sagração e coroação. Na Coleção Teresa Cristina Maria encontramos alguns hinos compostos especialmente para essa ocasião, mas não sabemos se foram efetivamente executados durante as festividades.” Além dos hinos constantes na dita Coleção, Chernavsky ainda pesquisou na Divisão de Música e Arquivo Sonoro da Biblioteca Nacional-DIMAS (mais especificamente em obras pertencentes à Coleção Império) e em Obras Raras da BN. O resultado da sua pesquisa foi ter encontrado, para comemorar a Maioridade propriamente dita, apenas um hino em Obras Raras, qual seja o Hino à maioridade de S. M. o Imperador, do liberal Paula Brito (código BN, OR 99 A, 21, 6). Reconhece, entretanto, a existência de muitos outros hinos celebrando especificamente os eventos da sagração e coroação dentro da Coleção Teresa Cristina Maria. Segundo [CHERNAVSKY, 2009, 9-41], “a importância e suntuosidade com a qual foi revestido este evento explicam o porquê dos hinos compostos para esse fim apresentarem tamanha variedade e complexidade musical.”  

Portanto, o que importa relatar aqui é que o Hino à Maioridade de Sua Majestade o Senhor D. Pedro II da autoria do Padre-Mestre também não consta do acervo doado em 1891 pelo ex-Imperador D. Pedro II com o desejo expresso deste de que se conservasse o nome da Imperatriz, daí, "Coleção Teresa Cristina Maria".

Ainda segundo [FONSECA (org.) et al., idem] e de acordo com seu biógrafo Massena: “[...] Em 1842, houve a anexação da cadeira de Instrução Secundária de Francês e Noções de Geografia e História à de Latim e Poética e Vernácula, ficando ambas a cargo de José Joaquim Correia de Almeida. [...] Em 03/03/1844, ainda segundo Massena, Correia de Almeida é ordenado padre no Convento de Santo Antônio, no Rio de Janeiro , pelo coadjutor Dom Frei Antônio de Arrabida, bispo titular de Anemúria, rezando sua primeira missa em Barbacena, a 21 de abril do mesmo ano. [...] Finalmente segundo Massena, 1846 foi o ano em que Correia de Almeida foi aprovado, em Ouro Preto, no concurso público para a cadeira de Latim, sendo confirmado como regente da mesma cadeira de Barbacena. Além disso o padre Correia de Almeida substituiu o cônego Joaquim Camilo de Brito na função de vigário da Paróquia de Nossa Senhora da Piedade de Barbacena, nos anos de 1846 e 1847. [...] Segundo sua biógrafa Filocelina C. Matos Almeida, 1871 foi o ano de jubilamento de sua carreira no magistério público (1841-1871). Entretanto, continua a ensinar no Colégio Providência e dar aulas particulares, em sua casa, de Latim, Português, Francês e Música. [...]” 

 

COINCIDÊNCIAS ENTRE OS DOIS PADRES-MESTRES: JOSÉ MARIA XAVIER E CORREIA DE ALMEIDA 

 

Inicialmente, é digno de nota o fato de que ambos os artistas Padres-Mestres Correia de Almeida e José Maria Xavier adotaram a vida sacerdotal, desempenhando de forma rotineira, quase burocrática e recusando as ofertas de promoção a cargos superiores aos de presbítero, exceto em breve período quando exercem a função de vigário. De forma semelhante, ambos também fazem sua primeira incursão em suas respectivas artes quando contavam com a idade de 20 anos. Conforme discutido no item anterior, a obra de estreia de Correia de Almeida na sua carreira literária é o Hino à Maioridade de Sua Majestade o Senhor D. Pedro II, datado em 1840, conforme seus biógrafos. 

Há um artigo já citado do musicólogo, regente, copista e violoncelista são-joanense Aluízio José Viegas, que consideramos fonte fidedigna a respeito da vida e obra do Padre-Mestre José Maria Xavier e se baseia nos seus biógrafos contemporâneos, incluindo ainda informações e conclusões próprias tiradas após esmerado estudo de partituras e documentos existentes no arquivo da Orquestra Lira Sanjoanense. De acordo com [VIEGAS, ibidem], as primeiras partituras da lavra de José Maria Xavier são datadas de 1839, conforme sua pesquisa: “[...] Sua primeira obra: “Qui sedes e Quoniam” a solo de baixo foi feita em 1839, baseada em um terceto de Rossini, como especifica no manuscrito. Dedicou esta obra a seu amigo e contemporâneo absoluto, Hermenegildo José de Souza Trindade, a quem dedicará a maioria de suas obras. O ter utilizado melodia de Rossini, adaptando-a para um texto religioso, porém empregando harmonização e instrumentação próprias, era fato comum na Corte do Rio de Janeiro, onde os compositores como Pedro Teixeira de Seixas, Fortunato Mazziotti, e outros, sofreram a influência da música operística em voga, principalmente de Rossini, a ponto de enxertar em suas obras para igreja reminiscências de óperas em voga. [...]” 

Ainda uma coincidência pode ser constatada nas distinções honoríficas de que ambos os padres foram ou são detentores: Padre José Maria Xavier é patrono do Conservatório Estadual de Música que leva o seu nome em sua terra, bem como patrono da Cadeira nº 12 da Academia Brasileira de Música, cujo fundador foi Octavio Bevilacqua em 1945, depois sucedido pelo musicólogo são-joanense José Maria Neves e atualmente ocupada pelo Acadêmico John Neschling. Por sua vez, o Padre-Mestre José Joaquim Correia de Almeida é patrono da Cadeira nº 19 da Academia Mineira de Letras, cujo fundador foi Francisco Lins, depois sucedido por Mário Mendes Campos e atualmente ocupada pelo Pe. José Carlos Brandi Aleixo, e da Cadeira nº 1 da Academia Barbacenense de Letras, cujo fundador foi Plínio Tostes de Alvarenga, depois sucedido por Fernando Campos Duque-Estrada e atualmente ocupada por Ângela Maria Rodrigues Laguardia. Além dessas distinções honoríficas, Correia de Almeida acumulou outras. 

Em fevereiro de 1883, publicou a monografia “Notícia da Cidade de Barbacena e seu Município”, que ocasionou o seu ingresso, como sócio correspondente, no Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro-IHGB. Sacramento Blake, Antônio José Gomes Brandão e José Luiz Alves indicaram o nome de Correia de Almeida, cujo ingresso foi aprovado em 20 de abril de 1894. 

No campo da música, o padre-mestre ainda fundou, em Barbacena, a banda de música, hoje centenária e conhecida como Corporação Musical “Correia de Almeida”, que durante quase 130 anos vem desenvolvendo um trabalho social, cultural e profissionalizante, servindo a sociedade de Barbacena em todos os eventos para os quais foi e é convidada, o que demonstra a importância atribuída à música instrumental por seu fundador. Em 04/05/2000, foi sancionada a Lei Estadual nº 13.516, que declarava de utilidade pública essa entidade musical e apenas em 30/06/2006, através da Lei 3.962, o Prefeito Municipal reconheceu como de utilidade pública municipal essa entidade musical. 

Também digno de registro, por ser sinal de reverência e honra ao assim chamado “Tolentino Brasileiro”, foi a fundação do Clube Literário “Correia de Almeida” na Escola Normal de São João del-Rei, tendo como primeiro presidente José de Paula Moreira e 1º Secretário Raul Campos Maciel, em abril de 1898. São João del-Rei nada mais fez do que corresponder à afeição que lhe dedicara por setenta anos este grande poeta satírico barbacenense. 

Conforme já mostrado, há ainda outra afinidade entre os dois padres-mestres Xavier e Correia de Almeida: sua paixão pela música. Segundo o Pe. Sinfrônio Augusto de Castro apud [FONSECA (org.), idem] registra: “[...] Cultor da música, de que foi também professor, o padre Correia de Almeida, anos mais tarde, nas Semanas Santas de São João del-Rei, assumia a regência das orquestras afamadas que ali executavam composições musicais do padre José Maria Xavier. É de notar que a última lição do terceiro Noturno do Ofício de Trevas, escrita pelo padre Xavier, e especialmente dedicado a Correia de Almeida, era por este cantada”, ainda acrescentando: “com acentuado garbo e elegância.” Aqui o biógrafo de Correia de Almeida, formulou a hipótese de que certamente se estabeleceu uma marcante colaboração entre os dois padres amigos na produção de música sacra para as Semanas Santas de São João del-Rei, o poeta satírico assessorando o compositor especialmente no texto latino e estendendo-se até mesmo à regência da música executada durante as Semanas Santas. 

Finalmente, verificamos outra importante afinidade entre os dois Padres-Mestres: a sua consagração fora do Brasil. A Missa (Kyrie e Glória) nº 5 e as Matinas do Natal são as duas obras do compositor e instrumentalista Padre José Maria Xavier, cujas partituras foram editadas respectivamente em 1884 e 1885, em Munique, na Alemanha, fato singular na música sacra oitocentista mineira. Quanto ao Pe. Correia de Almeida, foi hábil ao estabelecer excelente intercâmbio com os escritores românticos portugueses, supostamente por iniciativa própria enviando-lhes seus livros impressos ou através do empenho de terceiros intermediários. O fato é que duas personalidades literárias portuguesas endossaram a veia satírica do Padre-Mestre, tanto através de uma crítica extremamente favorável (Castilho), quanto incluindo um de seus poemas satíricos, O Carnaval, em uma coletânea da poesia contemporânea portuguesa e brasileira acompanhado de valiosa apreciação crítica (Castelo Branco). Escreveu Castelo Branco a respeito do poeta barbacenense na sua apreciação do talento do satirista barbacenense:  

[...] A satyra do senhor padre Corrêa foi muito elogiada pelo primeiro visconde de Castilho quando appareceu na Gazeta de Lisboa. [...] Não está o senhor padre Corrêa na turba dos elogiados caprichosamente por Castilho. Tem graça, metrifica nitidamente, folheia o seu Tolentino, e é mais erudito que o que se espera n’estas brincadeiras de entrudo. (Castelo Branco: Cancioneiro Alegre de Poetas Portuguezes e Brazileiros, Porto: Livr. Internacional de Ernesto Chardron, 1887, Vol. I, p. 235-254, 320 p.) 
Sem excluir a possibilidade de os epigramas e sátiras do Padre-Mestre terem ultrapassado as fronteiras brasileiras e terem sido bem acolhidos na Europa, o que era de esperar, não podemos afastar a possibilidade também de ter havido a intermediação de pessoas importantes contactando dois dos escritores românticos portugueses visando informar sobre o valor do satirista barbacenense e sua obra poética. A começar pelo próprio Dom Pedro II que tinha, em termos gerais, no clero brasileiro um importante sustentáculo (o Estado leigo surgiu com a República) e, particularmente, em Correia de Almeida um monarquista convicto e lúcido, portanto apto a apadrinhar a referida aproximação. Achamos interessante indagar se haveria outro(s) intermediário(s) favorecendo essa parceria ou intercâmbio entre o Padre-Mestre e esses escritores portugueses. Quem poderia tê-lo apresentado à imprensa portuguesa e recomendado sua produção poética ao meio literário português? Na falta de evidências dessa intermediação, podemos ainda imaginar um conjunto de três possibilidades, além do monarca e do próprio autor: 
1) Laemmert & Cia. Editores e suas sucessoras que deviam ter uma política de distribuição de livros impressos a formadores de opinião brasileiros e do exterior.
Assim aconteceu com o primeiro livro de Correia de Almeida, "Satyras, Epigrammas e outras Poesias": embora seu 1º volume tenha sido impresso em 1854 impresso pela Empreza Typographica Dous de Dezembro, de Paula Brito, os seguintes 5 tomos (1858, 1862, 1868, 1872 e 1876)  foram impressos pela Eduardo e Henrique Laemmert, bem como seu premiado ensaio “Notícia da Cidade de Barbacena e seu município" (1883) foi impresso na Typographia Universal de H. Laemmert e Cia, no Rio de Janeiro. Finalmente, o último volume de suas Satyras (1879) foi impresso pela A.J.G. Brandão. É importante lembrar que o Padre-Mestre dedicou esses sete volumes a diferentes personalidades e autoridades do Império. (O 2º volume, por exemplo, foi ofertado a seu irmão Pe. Mariano Carlos de Souza Correia, alto funcionário da Secretaria da Guerra.)
Quanto ao contéudo desses 7 tomos de Satyras, é bem conhecido o alto apreço de Sacramento Blake por tal produção poética do Padre-Mestre, conforme [BLAKE, 1883-1902, v. 4, 473-474]: “Os versos das Satyras [...] têm graça, são naturais e espontâneos. O autor, poeta satírico, só teve no Brasil um rival, Gregório de Mattos. Foi, entretanto, superior a este por elevar a sátira à altura de um apostolado, tendo realizado o ideal desse gênero literário, como opinou o literato e erudito Aureliano Pimentel. A obra recebeu vários juízos críticos positivos e negativos, os quais o autor rebateu.
Além de cinco tomos das Satyras e do premiado ensaio, também a Laemmert editou ou imprimiu os dois tomos (1890 e 1892) de “Semsaborias Metricas ou Versos Piegas do Septuagenário Padre José Joaquim Corrêa de Almeida-Ramerraneiro e rabugento ex-professor de latim”.  
Ou seja, Correia de Almeida tinha experiência profissional em tipografia, quando se responsabilizou pela redação e impressão dos manifestos da Revolução Liberal de 1842, e, portanto, seu gosto era refinado no que se refere à qualidade de suas edições.  
2) Conforme citado em [FONSECA (org.) et al., 2003, 247], “no ano de 1878 faleceu, no Rio de Janeiro, o conselheiro Mariano Carlos de Souza Correia, padre, ex-cônsul do Brasil em Lisboa e ex-diretor da Secretaria da Guerra, no Rio de Janeiro, irmão de Correia de Almeida e, até o ano de seu falecimento, poderia bem ter sido o "emissário" de Correia de Almeida aos escritores portugueses. 
3) José Feliciano de Castilho, irmão do escritor português António Feliciano de Castilho, viveu no Rio de Janeiro, de 1847 até sua morte em 1879, tendo atuado na cena literária desse período como jornalista, filólogo, educador, latinista e tradutor; neste último caso, como escoliasta de fartas anotações à tradução feita por seu irmão António Castilho, dos Amores (1858) e d' Arte de Amar (1862), ambos de Ovídio; tradutor de parte do poema épico Farsália, de Lucano (a saber, os cantos I, VI, VII e metade do X); e autor de Grinalda Ovidiana, um compêndio de traduções greco-romanas, notas, comentários e interpretações do texto de Ovídio que perfazem um total de oito volumes com 785 páginas. Além disso, o próprio António Feliciano de Castilho, escritor e polemista, em 1865 veio ao Brasil com o intuito de propagar o seu Methodo Portuguez Castilho e poderia eventualmente ter-se avistado com Correia de Almeida, no Rio de Janeiro. 

 

II. CONTRIBUIÇÃO DO PADRE-MESTRE NA IMPRENSA DE SÃO JOÃO DEL-REI  

 

Não só sua terra natal enobreceu seu filho Correia de Almeida, mas também São João del-Rei o estimou como a um filho adotivo querido, hospedando seus poemas geniais (em geral, sonetos) nas páginas do periódico são-joanense Gazeta Mineira, durante os 11 anos de sua circulação (de 1884 a 1894). Informamos que a única coleção desse magnífico periódico só se encontra sob guarda do escritório do IPHAN/13ª Superintendência Regional, Escritório Técnico II de São João del-Rei e que no presente se apresenta com lacunas por um longo período (1885, 1886, 1887, 1888, 1889 e 1890), ou seja, dos 11 anos de sua publicação apenas 5 anos constam da referida coleção. É lamentável que, ao que nos consta, nem a hemeroteca digital do Arquivo Público Mineiro nem a da Biblioteca Nacional possuem a coleção completa desse periódico. 

Consideramos que nosso levantamento da contribuição de Correia de Almeida na imprensa são-joanense, embora ainda incompleto pelas razões apresentadas e independentes da nossa vontade, confirmam algumas características de sua obra poética já publicada e conhecida: além de polígrafo e humanista, sua atitude de polemista, sua manifesta veia satírica e sua produção poética utilizando a literatura como expressão do pensamento político, numa evidente sátira ao Brasil oitocentista, por 65 anos, cobrindo o Brasil Império e os primórdios da República, na Província de Minas Gerais e na corte. 

Seu livro “A República dos Tolos” (1881), poema herói-cômico-satírico em 10 cantos sobre a cidade do Rio de Janeiro é um importante testemunho para um melhor entendimento da história literária mineira e do campo social brasileiro no século XIX; é um livro de um herói quixotesco que se utiliza da sátira para aplicar ao seu momento histórico o axioma de Juvenal e que se tornou o princípio “Castigat ridendo mores” (Corrige os costumes com o riso), cunhado por Jean de Santeuil, sobre o qual se fundamenta a comédia. Correia de Almeida constatou que na sua época as paixões humanas, cujo entrechoque eclodia na interação social, eram as mesmas que motivaram a indignação de Juvenal: amor, ódio, ambição, inveja, cobiça do poder e da riqueza, desprezo pelos fracos, insensibilidade com os oprimidos. Embora se comunicasse com irreverência, tinha o cuidado de usar certo refinamento ao criticar tanto o poder com suas nuances quanto os costumes. Ou seja, Pe. Correia de Almeida produziu uma sátira refinada pelo humor. Polemista, adoçava seu ceticismo com musicalidade, poesia, bom humor, abertura ao novo, sendo tudo isso processado pelo satirista com muita elegância e presença de espírito. 

Eis os sonetos do Pe. Correia de Almeida que ainda se mantêm preservados, publicados no periódico são-joanense “Gazeta Mineira”, às vezes com réplica de algum outro poeta local ou da própria Redação do jornal em nota de gratidão ou em nota crítica sobre algum livro recém-lançado, sempre com reverência ao experiente e renomado poeta satírico barbacenense. Observamos também que mantivemos a grafia de época, conforme estampada nas páginas do periódico. 

1) Gazeta Mineira, 14/8/1884, Anno I, p. 2, edição nº 43 

Sonetos e Sonetinhos (coluna Noticiário

O nosso distincto comprovinciano Pe. José Joaquim Corrêa de Almeida acaba de offerecer-nos delicado mimo, enviando o seu livro de Sonetos e sonetinhos

Lemol-o de uma assentada, porque nem comprehendemos como se possa interromper, uma vez principiada, a leitura de qualquer das producções do nosso apreciado poeta. 

De elogios está farto o Pe. Corrêa e, portanto, bem dispensa os da nossa inhabil penna. 

Diz-nos o Padre Corrêa que serão estes os seus ultimos versos. 

Felizmente ninguem sabe quando os poetas satyricos escrevem sério, e, portanto, embala-nos a leda esperança de que, dizendo isso, teve o Padre Corrêa em mira pregar-nos uma peça, peça agradabilissima, por certo.

E nem vemos razão para que o illustre poeta dê, tão cedo, um pontapé nas Muzas, suas boas amigas de tantos annos. 

Pela franca confissão que faz em um de seus sonetos (sempre mostra que não é mulher), vemos que já vae beirando os seus setenta annos, mas é que seus versos ainda trazem o cunho e a verve da idade vigorosa; e, por isso, não enxergamos motivo para serem os ultimos. 

Diz o poeta: 

“Divirto-me lançando mão da penna, 
Sem estro nem sciencia verdadeira 
E de annos vou na rapida carreira, 
Já proximo da setima dezena.” 

Pois bem: salva a modestia aqui contida, diga-nos o Padre Corrêa que é ultimo livro seu aquelle em que puder repetir este verso, mas assim: 

... já proximo da decima dezena.

Agradecemos o precioso mimo, a que sabemos dar o merecido valor, e como o pouco espaço, de que dispõe a nossa modesta folha, não nos permitte destacar hoje alguns dos sonetos e sonetinhos que mais nos agradárão, passaremos, com a devida venia do auctor, alguns delles para as nossas columnas, sempre que para isso dispuzermos de espaço. 

 

2) Gazeta Mineira, 29/7/1891, Anno VIII, edição nº 351 

Fraternidade christã 

Padre Corrêa de Almeida 
 
Refere-nos a Biblia que tres Magos
viérão adorar Christo nascido, 
tendo lá do Oriente elles trazido, 
um, incenso; outro, myrra; outro, ouro em bagos. 
 
E é certo que não houve indicios vagos, 
de um desses offertantes haver sido, 
por motivos de cores, excluido 
de taes respeitosissimos affagos. 
 
No céo entrou e após canonizou-se
o humilde Benedicto, inda que fosse, 
o mais preto entre os homens de côr preta. 
 
Mas este duplo exemplo não milita 
na Ordem Sanjoanense Carmelita, 
que contra um preto irmão poude achar treta. 
Barbacena, julho de 1891. 
 

3) Gazeta Mineira, 16/9/1891, Anno VIII, p. 1, edição nº 364 

Soneto Ao Padre Corrêa de Almeida 

Fausto Maia 

 
Vós dissestes, ó mestre respeitavel 
Da moderna e futura raça humana, 
Que a musa galhofeira e leviana 
Não mais a gana tem tão estimavel. 
 
Não parece; essa lyra veneravel 
Será, foi e é a fonte d’onde emana 
A lição mais conspicua e mais ufana 
De graça e sapiencia inimitavel. 
 
Na verdade sois velho, e a alegria 
Eu vejo que renasce cada dia 
Nas proprias producções já da velhice. 
 
E esse vigor antigo sempre encanta 
Da vossa musa, ó mestre, sacrosanta 
Àquelles que hoje são da modernice. 

 

4) Gazeta Mineira, 7/10/1891, Anno VIII, p. 2, edição nº 370 

Soneto Ao Padre Corrêa de Almeida 

Fausto Maia 
 
Obrigado, muitissimo agradeço
o soneto, beijando a vossa mão
com prazer e maior satisfação, 
pois elle tem p’ra mim subido preço. 
 
Duvido que o enthusiasmo, que conheço
em vós, já se extinguisse e a animação
se apagasse, levando a inspiração —
que tantas glorias tem e tanto apreço. 
 
Vossos versos, ó mestre, galhofeiros
dão soberba lição a esta gentinha
que deseja galgar altos poleiros. 
 
A muza não deixou de ser madrinha, 
e mesmo sob o peso dos janeiros 
não vos custa acertar uma quadrinha! 

5) Gazeta Mineira, 12/12/1891, Anno VIII, p. 2, edição nº 389 

Padre Corrêa de Almeida (Nota da Redação) 

Visitou-nos este respeitado sacerdote e conhecido poeta, que, embora de longe em longe, costuma honrar-nos com producções suas. 
Cumprimentamol-o. 
 

6) Gazeta Mineira, 30/3/1892, Anno IX, edição nº 417 

Consequencia da saude e fraternidade 

Padre Corrêa de Almeida 
 
O destroço da imagem que desperta 
a lembrança do manso Nasareno 
horror produz, que nada tem de ameno 
para o crente que vela sempre alerta. 
 
A heresia, que já não se acoberta, 
vem plantar o mortifero veneno, 
e é porque poude achar franco terreno, 
e porque poude achar a porta aberta. 
 
Si hoje é quebrada a sacro-santa effigie, 
desde hontem (o demonio assim o exige) 
guarda e nome supprimem-se de Deus. 
 
O exemplo desceu do alto, e o facto de ser-nos 
imposta a impiedade de Governos 
formados de sacrilegos atheus. 
Barbacena, 27 de março de 1892. 

 

7) Gazeta Mineira, 24/12/1892, Anno IX, p. 2, edição nº 466 

Quousque tandem? 

Padre Corrêa de Almeida 
 
Todos os dias vemos annunciada 
entre Ministros larga conferencia, 
ou entre elles ou a Vice-Presidencia, 
e fica a expectativa sempre ansiada! 
 
A sucia de banqueiros asseada 
tambem tem sido ouvida com frequencia, 
a crise é de continua permanencia, 
e a gente está scismando desconfiada! 
 
Embora seja larga, alta ou comprida 
a infinda conferencia ou parolagem, 
sob o peso a Nação jaz opprimida! 
 
E emquanto os Brasileiros não reagem, 
de um apertado becco sem sahida 
o systema actual é vera imagem! 
Barbacena, Dezembro de 1892. 

 

8) Gazeta Mineira, 20/01/1894, Anno XI, p. 2, edição nº 521 

Silentium verbis facundius 

Padre Corrêa de Almeida 
 
Ao Jornal do Commercio dou louvores 
pela idéa feliz de ficar mudo, 
uma vez que não póde dizer tudo 
à cerca da milicia e seus horrores. 
 
Se leitor perspicaz acaso fores, 
estudando as manobras por miúdo, 
verás que certa imprensa faz estudo 
de impingir a mentira a seus leitores. 
 
Viver às claras é falsa divisa, 
visto que alta policia fiscalisa, 
sem deixar transpirar, a opinião. 
 
Assim, pois, o silencio actualmente 
é mais do que as palavras eloquente, 
e o Jornal é que tem toda a razão. 
Barbacena, Janeiro de 1894. 

 

9) Gazeta Mineira, 21/04/1894, Anno XI, p. 2, edição nº 533

O mais difficil de esfolar-se 

Padre Corrêa de Almeida 
 
Na opinião de muita gente bôa 
está completamente debellada 
a guerra que tem sido tão fallada, 
cujo termo glorioso se apregôa. 
 
E se o Te Deum laudamus já não sôa 
no recinto da egreja preparada, 
é só por estar esta separada, 
depois do banimento da corôa. 
 
Certo é que havendo paz tudo prospéra 
e com justa razão hoje se espera 
a cornucopia a jorros abundantes. 
 
Mas inda resta a cauda financeira, 
nem a pôde esfolar toda a canceira 
de exactores rhetoricos, pedantes. 
Barbacena, Abril de 1894. 

 


III. NOTAS EXPLICATIVAS

 

¹   Sebastião de Oliveira Cintra é citado na obra "Biografias" de Plínio Alvarenga, Barbacena: GECB, 1993, em sua correspondência abaixo transcrita ao autor: 

“São João del-Rei, 5 de fevereiro de 1980 

Caro Amigo Prof. Plínio Tostes de Alvarenga 

Cordiais cumprimentos: Acabo de ler com especial agrado o seu Perfil Biobibliográfico do Padre-Mestre José Joaquim Correia de Almeida. O Ilustre Presidente não poderia ter escolhido melhor Patrono. O poeta satírico Correia de Almeida encontrou merecida glorificação em todo o Brasil e em Portugal, mercê de sua bagagem política. Minha afeição ao Padre-Mestre explica-se, também, por outros fatores. Afinal de contas, corria nas veias dele nobre sangue sanjoanense. Também o Prof. Plínio descende de fidalgo tronco familiar sanjoanense. São coincidências muito agradáveis para o missivista. 

Sebastião de Oliveira Cintra 

Historiador residente em São João del-Rei

²   Localidade no Estado do Rio de Janeiro.

³  Vide MARINHO, José Antônio: “A Declaração da Maioridade de Sua Magestade Imperial, o Senhor D. Pedro II, desde o momento em que essa idéa foi aventada no corpo legislativo até o acto de sua realização”, Rio de Janeiro: Typographia da Associação do Despertador, 1840 (compilação de documentos, discursos parlamentares, e artigos a respeito da maioridade de D. Pedro II. Na página de introdução “Ao Leitor” consta a identificação "Huma testemunha ocular". A autoria, segundo Paiva (1926, p. 167) é atribuída a José Antonio Marinho, político, padre e educador, havendo dele uma litografia de Sisson. O projeto de maioridade, de autoria do senador Antônio Francisco de Paula de Holanda Cavalcanti de Albuquerque (senador de 1838 a 1863) foi apresentado ao Senado em 1840).

 Link: https://www2.senado.leg.br/bdsf/handle/id/242439

  Apesar de ter sido frustrante até o presente nossa busca do "Hino à Maioridade de Sua Majestade o Senhor D. Pedro II", da autoria do Padre-Mestre Correia de Almeida, datado em 1840, há em Barbacena uma tradição oral que dá conta de que o seu autor aproveitou parte do poema de 1840 na letra do seu Hino do 4º Centenário do Descobrimento do Brasil com o título In Hoc Signo Vince, de 1899. 

Segundo [FONSECA (org.) et al., idem], “foi no dia 18 de maio de 1899 a data marcada para realização do concurso aberto para a letra do 4º Centenário do Descobrimento do Brasil. [...] O concurso foi vencido pelo poeta Sebastião Cícero dos Guimarães Passos.”

[CHERNAVSKY, idem, 42-79], na sequência da sua pesquisa, nos dá mais detalhes do ocorrido, referindo-se aos Hinos da República na sua pesquisa na BN. Segundo ela, em 1899 o governo republicano preparou uma série de eventos para comemorar a data com participação das seguintes instituições: Associação do IV Centenário e o Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro-IHGB. A primeira ficou responsável pelos eventos dirigidos ao público popular, os quais visavam "estimular sua adesão à pátria"; o segundo ocupou-se dos atos dirigidos ao público letrado. Inicialmente, organizou uma comissão responsável pelos preparativos e estavam entre seus membros mais importantes Benjamin Franklin Raiz Galvão (ex-diretor da BN no período 1870-1882) e o escritor Coelho Neto. A Associação abriu um concurso para a escolha da poesia que serviria para um eventual Hino do Centenário a ser cantado durante as comemorações organizadas para o ano seguinte. Prometeu-se um prêmio de um conto de réis ao vencedor. Franklin Dória, José Veríssimo e Rodrigo Otávio foram escolhidos para julgar as 25 poesias recebidas pela Associação. Entretanto, após a avaliação dos textos inscritos, a comissão julgadora decidiu que "nenhuma das peças examinadas correspondia, em inspiração e factura à magnitude do feito que se propunham celebrar. À vista de tal juízo, a Associação recolheu as poesias, julgadas inclassificáveis e, com um critério literário assaz discutível, conferiu o prêmio à poesia com que concorreu o Sr. Guimarães Passos e menção honrosa a outras duas, cujos autores ignoramos. [...] Aguardemos agora o resultado do concurso referente à música", de acordo com o articulista da revista A Educadora (edição nº 1, agosto de 1899, p. 4-5 na hemeroteca digital da BN). Citando Lúcia Lippi Oliveira, in "Imaginário histórico e poder cultural: as comemorações do Descobrimento", Chernavsky resume assim a comemoração do IV Centenário do Descobrimento: "a campanha do IV Centenário procurava sensibilizar os brasileiros para a importância da celebração, mas não obteve o retorno esperado, e os preparativos para a festa acabaram sendo um fracasso."

  Devido ao fechamento do seminário de Mariana, precisou prosseguir seu preparo religioso até a ordenação no Rio de Janeiro. Correia de Almeida é ordenado padre no Convento de Santo Antônio, no Rio de Janeiro.

 




IV. BIBLIOGRAFIA

 

 

ALVARENGA, Plínio Tostes de: Biografias, Barbacena: Ed. do autor, 1993.

BLAKE, A. V. A. Sacramento: Diccionario bibliographico brazileiro. Rio de Janeiro: Typ. Nacional, 1883, 7 volumes.

CHERNAVSKY, Analía: A construção dos mitos e heróis do Brasil nos hinos esquecidos da Biblioteca Nacional, 2009, 98 p., com o apoio do Programa Nacional de Apoio à Pesquisa na Biblioteca Nacional. Link: https://www.bn.gov.br/en/node/1000 

Link: https://www.google.com/search?client=firefox-b-d&q=Hinos+do+Imp%C3%A9rio%2C+de+Anal%C3%ADa+Chernavsky 

CINTRA, Sebastião de Oliveira. Efemérides de São João del-Rei. v. I e II, – 2ª ed. – Belo Horizonte: Imprensa Oficial, 1982, 622 p.  

FONSECA, L.M.A. (org.), DEOUD, I.M., HELENO, J.G. e OLIVEIRA, F.R.: Padre Correia de Almeida, Barbacena: Centro Gráfico e Editora Ltda., 2003, 283 p.  

MAIA, Zenaide Vieira (org.): Correia de Almeida, Barbacena: Gráfica e Ed. Cidade de Barbacena, com apoio cultural da FUNDAC, 2005, 120 p.  

RESENDE, Severiano Nunes Cardoso de; & PIMENTEL, Aureliano Pereira Corrêa. Traços biográficos do Pe. José Maria Xavier, Revista do Arquivo Público Mineiro, Belo Horizonte, ano 6, fasc. 1, p. 97, jan/mar 1901.

VIEGAS, Aluízio José: Música em São João del-Rei de 1717 a 1900, Revista do Instituto Histórico e Geográfico de São João del-Rei, volume V, 1987, p. 53-65, Juiz de Fora: Esdeva Empresa Gráfica Ltda, 1987, 128 p.

quinta-feira, 13 de agosto de 2020

A CRISE DE ENDIVIDAMENTO DA GRÉCIA (E DO SUL DA EUROPA)

 


Por María Negrepónti-Delivánis
 
Traduzido do francês por Francisco José dos Santos Braga



I. INTRODUÇÃO



A crise econômica da Grécia teve seu início a partir do final do ano de 2009 e início de 2010, quando várias agências de classificação de risco de crise detectaram e divulgaram evidências de crescimento do déficit público na Grécia o que significava que a Grécia aumentara suas dívidas e diminuíra sua arrecadação e alertaram sobre o não pagamento de sua dívida externa. Diziam que o risco de uma moratória (o não pagamento da dívida) poderia afetar toda a União Europeia-UE. 
Foi nesse contexto que a economista grega María Negrepónti-Delivánis, nossa hóspede no Blog do Braga há quase 3 anos, foi eleita membro honorário da Academia de Ciências da Romênia, sediada em Bucareste, no início de 2010, tendo proferido seu histórico discurso de estreia para seus confrades Acadêmicos. Portanto, o leitor do Blog conhecerá esse documento divulgado em língua francesa por essa expert em economia.
 
Academia de Ciências da Romênia, sediada em Bucareste
 
Com essa divulgação negativa por parte das agências, o governo grego, a partir do ano de 2010, anunciou a execução de um plano de austeridade, que consistiu em tomar medidas para controle de gastos públicos e aumento da arrecadação. Isso implicava na redução de benefícios (como a aposentadoria), de salários, no aumento de impostos e em demissões em massa em órgãos públicos. Diante disso, a população grega entrou em choque. 
O aumento do déficit público, entretanto, continuou aumentando. Assim, o governo da Grécia solicitou um empréstimo em abril de 2010 de 45 bilhões de euros para a União Europeia. No mês seguinte, o FMI (Fundo Monetário Internacional), a União Europeia e o BCE (Banco Central Europeu) anunciaram um empréstimo de 110 bilhões de reais, dividido em várias parcelas que seriam depositadas à medida que a Grécia cumprisse as exigências impostas por esses órgãos, como a implantação de novas medidas de austeridade. 
Essas medidas, então, revoltaram a população grega que foi às ruas em protesto contra a redução de salários, aumento de impostos, aumento da inflação e planos de privatizações. Muitas das manifestações acabaram em conflito com a polícia e geraram algumas mortes, o que ampliou a repercussão internacional sobre a crise. O desenrolar da crise grega todos já conhecemos.
 
 
   
População vai às ruas em protesto. Foto tirada
   
em 28 de julho de 2011 na cidade de Thessalônica
  






II. DISCURSO DE MARÍA NEGREPÓNTI-DELIVÁNIS NA ACADEMIA DE CIÊNCIAS DA ROMÊNIA EM 01/02/2010

Caros colegas e confrades da Academia de Bucareste. Como esta é a primeira vez que estou me apresentando na qualidade de membro honorário da Academia de Bucareste embora minha entrada oficial ainda não tenha ocorrido gostaria de enfatizar quão profundamente esta eleição me honrou e quanto me alegra o pensamento que um vínculo estreito e qualitativo se soma àqueles, já numerosos, que me ligam à Romênia: este país que muito amo, que estimo infinitamente e onde tenho inúmeros amigos para a vida. Assim, direi um enorme obrigado à Academia de Bucareste, que quis tornar-me um dos seus, bem como àqueles que tomaram a iniciativa de me propor e que são queridos colegas e amigos fiéis. 

Para esta ocasião, então, tentei escolher um tema que interessasse aos nossos dois países, e não foi difícil encontrá-lo, já que a Romênia e a Grécia foram sangradas, desde alguns meses, sob o peso de suas dívidas, mas também e acima de tudo, sob o fanatismo ideológico extremo da UE e do FMI. Refiro-me às prescrições do neoliberalismo, que nunca foram verificadas, que provocaram a grande crise de 1929-32 e foram imediatamente abandonadas em seguida em favor do keynesianismo. Mesmo assim, essa balbúrdia, que insiste em se apresentar como sistema, soube, mais uma vez, se impor sobre o universo nos anos 80, promovida por sra. Thatcher e sr. Reagan a fim de conduzi-lo à segunda grande crise econômica mundial de 2007. Infelizmente, o pânico dos fanáticos neoliberais, de toda a parte do mundo, durou pouco e a arrogância logo voltou, primeiro dentro da UE. Como observou recentemente James Galbraith ¹

Toda a concepção da UE foi construída em torno das besteiras econômicas neoclássicas... e é por isso que a UE é economicamente mais neoliberal do que os EUA.
Quero deixar claro que a análise crítica que se segue praticamente não significa que sou contra uma Europa Unida ou mesmo contra a moeda única. Pelo contrário. No entanto, estou cada vez mais convencida de que, se a UE continuar no mesmo caminho escorregadio, em breve ela mesma e o euro serão lembranças remotas. É por esta razão que estou convencida de que todos nós, Europeus, devemos estar cientes dos perigos efetivos à volta da nossa querida Europa e ajudar a reformá-la. 

A crise grega, desencadeada em 2009, bem como a do conjunto do Sul da Europa embora menos grave no momento é, em grande parte, a consequência inevitável das escolhas de política econômica europeia. Estas, sob o peso da dupla crise mundial e grega puseram em relevo a profundidade das deficiências do sistema, que põem em perigo a sua sobrevivência e que impedem os países-membros de desempenhar um papel decisivo na cena internacional. A crise grega, por outro lado, demonstrou de forma dramática que o edifício da UE de forma alguma tinha previsto os meios necessários para lidar com crises; por outro lado, a concepção da UE ingenuamente se baseava na hipótese de que haveria apenas dias ensolarados pela frente. Esta é a razão pela qual a UE se apressou em apelar ao FMI para encararem conjuntamente a crise grega, apesar de ser a primeira vez que este organismo internacional iria lidar com um país-membro da zona do euro, e apesar de ser muito dolorosa a história das suas intervenções, uma vez que se interessa apenas pelos credores, ao mesmo tempo que afunda em angústia as populações dos países-vítimas. Na verdade, a comissão administrativa da UE ficou visivelmente em pânico com a exposição da Grécia à exploração implacável dos especuladores. Ela temia, e com razão, que a tempestade grega se espalharia para o resto das economias do Sul da Europa, ameaçando seriamente o euro. Para fazer face a isso, o comissão administrativa da UE convocou reuniões consecutivas dos funcionários europeus, a fim de os pressionar a tomar medidas urgentes e eficazes para evitar o aparecimento de tais crises no futuro. 

Foi então que a Grécia sofreu uma tempestade com o espantoso inchaço dos spreads, que aumentaram ainda mais o déficit orçamentário inicial, cujas dimensões nacionais, econômicas e políticas sem precedente ameaçam deteriorar, de forma dramática, o seu papel no cenário global, expondo seu povo a riscos e aviltamento de uma envergadura ainda desconhecida. No entanto, poder-se-ia expressar muitas dúvidas sobre se procedem desses rumores que anunciavam a morte iminente da economia grega, que diziam: já que a economia grega se acha em situação desesperadora, à beira da falência, correndo o risco de ser expulsa da UE, consideravam inevitável um controle rígido do FMI. Claro que essas dúvidas dificilmente se baseiam no pressuposto de que a economia grega esteja em perfeita saúde, mas antes no fato inegável de que suas dificuldades não são sem solução, que elas não surgiram repentinamente e que não se trata do único país europeu a ser confrontado com isso. Parece bem evidente que esta tempestade econômica nunca poderia ter estourado por conta própria, que nunca teria feito a primeira página da imprensa internacional, nem figurado entre as notícias mais importantes da mídia do mundo inteiro. A modesta dimensão da economia grega, que representa apenas 2,7% da economia da zona do euro e 4% do seu déficit global, nunca poderia ter atraído o interesse sombrio dos especuladores mais agressivos de todo o mundo ² em busca de uma nova presa, após a bolha dos imóveis se as autoridades da UE tivessem se dado ao trabalho de proteger a economia grega e de sufocar os rumores. 

Acrescentemos ainda que, se a economia grega está realmente em uma situação desesperadora, isso dificilmente é uma consequência conjectural, mas antes, e sem dúvida, estrutural; é por isso que as dificuldades da Grécia já deveriam há tempos ser conhecidas da UE, cujos executivos visitam a Grécia com frequência. 

Esta propagação desenfreada em todos os seus detalhes, centrada e insistindo na má, ou antes, trágica situação da economia grega, segundo as mídias sempre, fora um golpe ofensivo contra o nosso país, encorajou sobretudo a degradação em cadeia da nossa capacidade de endividamento pelas principais agências de classificação * americanas. Os erros muito graves dessas agências no passado levantaram suspeitas sobre informações internas, interesses particulares e jogos especulativos. Com base em critérios que creio objetivos, tenho a sensação de que este estado de pânico, a esta altura, dificilmente se justifica. Por outro lado, este estado de pânico, que durou muito tempo, permitiu a invasão de especuladores sobre os títulos do Tesouro gregos, garantindo-lhes assim lucros elevados, condenando, por outro lado, a economia grega a um retrocesso de dez anos, inchando ainda terrivelmente suas dívidas. É provável que a intenção da UE, tentando explicar sua passividade em face à difamação de um de seus membros, que expôs uma perigosa falta de coesão e coordenação entre os membros da UE e que, portanto, também a afeta gravemente, não fique alheia a seu desejo de preparar o terreno para a introdução de reformas que visem, sobretudo, restringir o setor público e, antes de tudo, o Estado Providência, assim como a elasticidade no mercado de trabalho

Neste clima de pânico generalizado, de especulação criminosa e de exageros em torno da situação econômica da Grécia, o jovem governo grego foi incapaz de coordenar sua defesa e estabelecer sua argumentação em favor de um plano de recuperação que seja o mais eficaz possível para o país. Por outro lado, confuso e intimidado por esta polêmica sem precedentes, ele se contentou com um esforço desesperado para persuadir a comissão administrativa da UE e perante todos os especuladores de que “a Grécia vai atender a todas as suas demandas. Que o governo dispõe de um programa abrangente que tire o país da crise”. Porém, o problema dificilmente é encontrar uma forma de satisfazer temporariamente aqueles que contestam nosso país, mas sim elaborar um programa capaz de tirá-lo dessa tempestade. E justamente, por inúmeras razões, deve a todo custo contestar a eficácia das medidas impostas pela comissão administrativa da UE e insistir no fato de que a expectativa de resultados positivos, à custa de nossos sacrifícios, pressupõe levar em consideração particularidades muito numerosas e muito importantes da sua economia ³

É por isso que me atrevo a sustentar que o problema primordial da Grécia, mas em certa medida também do Sul da Europa e das economias em transição, não é o que se apresenta agora, a saber, a dívida pública e o déficit orçamentário, ultrapassando em muito os critérios do Pacto de Estabilidade, mas a sua incapacidade de definir e aplicar medidas que lhe permitiriam enfrentar o impasse em que se encontra. É necessário, portanto, expressar certas verdades que automaticamente sobem aos lábios de cada um de nós, pois o risco das medidas inadequadas é grande demais. E, neste caso, fora o fato de que a economia grega estará condenada a uma recessão duradoura e qualquer outra economia em situação semelhante o pior seria que o objetivo principal, ou seja, a capacidade de controlar dívida e déficits não poderia ser alcançada por causa da redução dos recursos públicos. 

É óbvio que o fato de contestar as medidas que a UE impõe à Grécia - e noutros lugares - não significa de forma alguma que subestimamos a nossa adesão à zona do euro, nem o fato de não termos consciência dos erros que assolam o país. Mas se a Grécia está de fato em uma situação tão desesperadora quanto as mídias querem no-lo fazer crer, ela finalmente precisaria ousar enfrentar, e, em pé de igualdade, seus interlocutores na UE para lembrá-los de alguns fatos inegáveis, que vão diminuindo à medida que se afasta o momento do início da crise . Trata-se de: 

1. A imensa responsabilidade do neoliberalismo na eclosão da atual crise global , indiscutível, principalmente após a humilde confissão do prelado do sistema e não só ouço o ex-presidente do FED Sr. Alain Greenspan, segundo o qual “o contexto em que operávamos estava errado” . Então, é tolo, injusto e até mesmo criminoso que a Grécia se torne a vítima expiatória no altar das infelizes receitas neoliberais; é impensável que a Grécia e qualquer país do Sul seja privado de acesso a medidas de inspiração keynesiana, uma vez que essas medidas ajudaram e continuam a ajudar a economia mundial a sair da crise. Acrescentemos também que as poderosas economias europeias se permitem seguir políticas econômicas expansionistas, ignorando assim, por tão longo tempo que elas o considerem útil, as exigências do neoliberalismo extremo. Recordemos que este tipo de discriminação em relação aos países fracos da Europa era já há muito tempo costumeiro no domínio da aplicação do Pacto de Estabilidade

2. O Pacto de Estabilidade, imposto durante décadas, é, sem dúvida, o grande responsável pelos atuais sofrimentos da Grécia, acumulados por longo tempo e que agora está em erupção. Esta avaliação diz respeito certamente à Europa como um todo, mas no caso da Grécia as consequências negativas são acentuadas, devido a suas inúmeras fragilidades estruturais . Por outro lado, este Pacto foi igualmente fatal para o Sul da Europa e a Irlanda, que durante várias décadas exibia os no mínimo maravilhosos resultados da política macroeconômica europeia. Verifica-se, uma vez mais, o perigo de impor uma política macroeconômica comum a economias que passam por diferentes estágios de desenvolvimento

3. Dito isso, é evidente que a Grécia deve absolutamente colocar suas finanças em ordem e, como membro da zona do euro, deve cumprir seus compromissos. Entretanto, realmente não faria mal se, em vez de reduzir seu déficit orçamentário para menos de 3% de seu PNB, em 3 anos como ela agora está muito pressionada a fazer ela cumprisse essa tarefa em 6 ou 7 anos, desde que a cada ano consiga comprovar os avanços exigidos nesta área ¹⁰. Impõe-se uma prorrogação do prazo pois, do contrário, e apesar dos sacrifícios exorbitantes, sobretudo por parte dos mais desfavorecidos, a realização deste projeto se revelará impossível. Este fracasso, que infelizmente parece inevitável nas condições atuais, vai prendê-la em um círculo vicioso, agravando sua falta de credibilidade no plano internacional e intensificando as tendências especulativas contra ela. Trata-se certamente dum cenário altamente indesejável, não só para a Grécia, mas igualmente para a UE, e que é imperativo evitar a todo custo. 

É certo que a Grécia deveria ter-se engajado em sérias reformas estruturais há décadas atrás. No entanto, essas reformas não só não estão em vias de serem realizadas como, além disso, as modificações empreendidas neste domínio vão agravar gravemente a situação, pois elas estão no oposto do que é indicado. Estou a pensar sobretudo nesta gama de medidas, no mercado de trabalho grego e não apenas ¹¹, destinadas a torná-lo mais flexível ¹². Essas medidas, se continuam nessa direção, vão mergulhar o país no caos, uma vez que, no final das contas, elas se traduzirão em uma sangria muito maior de salários pelos lucros; ou seja, agravamento das desigualdades do modo de distribuição de renda, desorientação da demanda efetiva, intensificação do emagrecimento da economia real em favor da economia financeira, da especulação e da corrupção. 

As reformas estruturais precisam de tempo e também, para serem racionais, devem obedecer a uma hierarquia. A título de exemplo, vou recordar aqui que numa economia como a grega com baixa participação dos assalariados do setor privado no emprego total ¹³, qualquer crítica ao número excessivo de funcionários públicos deveria levar em conta o quadro que lhe é próprio, para que as soluções mais eficazes sejam adotadas. Com efeito, e é precisamente este o caso da Grécia, pode ser que o número excessivo de empregos no setor público seja a única forma de evitar uma taxa de desemprego desproporcionada, quando o setor privado não é capaz de criar empregos suficientes. Por conseguinte, expresso sérias reservas quanto às medidas que a UE pretende aplicar à Grécia, a saber, proceder a uma redução radical do número de funcionários públicos; pois é claro que tal diminuição em seu número deveria ocorrer e não preceder o aumento da capacidade de sua absorção pelo setor privado. 

Para fazer frente a seus problemas estruturais, que são certamente muito agudos, nosso país deveria ter um plano adequado às características específicas e às necessidades particulares de sua economia. Mas, acima de tudo, o país precisa de tempo. Três anos são inegavelmente insuficientes; são necessários pelo menos 6 ou 7 anos. Por outro lado, o real dilema da economia grega quanto às medidas desejáveis a tomar não se situa entre medidas duras ou medidas mais brandas, mas, pelo contrário, entre medidas ineficazes ou medidas eficazes. No que se refere ao caso grego, estou convicta de que deve ser feita a escolha que favoreça uma política expansionista e certamente não a favor de uma política restritiva. O que significa que os déficits devem ser considerados desde o início, com o auxílio de déficits ainda maiores, sem, obviamente, excluir, ao mesmo tempo, medidas restritivas complementares, se necessário. Muito brevemente: 

 a) Estou convencida ¹⁴ de que restringir salários e pensões rapidamente se mostrará um erro criminoso. Infelizmente, parece que o governo grego não pôde deixar de se curvar à pressão da comissão administrativa da UE e de determinados especuladores, anunciando sua intenção de tomar medidas duras ¹⁵. Lembremos simplesmente que a restrição dos salários reais na Grécia desde os anos 1980 é estimada em 13 unidades do PNB, e que é atribuída à extensão progressiva do trabalho elástico, ao sistema tributário extremamente injusto onde a fraude culmina, ao desemprego constantemente elevado, à pressão para a redução do nível dos salários, nomeadamente devido aos emigrantes ilegais, às deslocalizações mas também às ameaças de deslocalização de empresas, bem como à defasagem quase ininterrupta entre o nível salarial e a produtividade dos trabalhadores ¹⁶. Assim, o salário médio grego é de 65% do seu equivalente na UE dos 15, enquanto o nível de preços é praticamente o mesmo em ambos os casos. E no que diz respeito aos salários, na Grécia cerca de 70% dos aposentados recebem menos de 600 euros por mês. Portanto, esta medida totalmente inadequada acalmará as preocupações dentro da UE e provavelmente atenuará o interesse criminoso dos especuladores pelos títulos do Tesouro grego, mas vai, certamente, dar em resultados diametralmente opostos aos esperados: ou seja, uma queda acentuada dos recursos fiscais, devido ao agravamento da recessão e ao aumento excessivo do desemprego ¹⁷. Obviamente, eu deveria também mencionar o perigo, aliás óbvio, das agitações sociais, com o risco de ficarem fora de controle. Deveria estar claro que a economia grega, especialmente nos tempos atuais, precisa atingir um ritmo de crescimento superior ao de suas dívidas e déficits e que certamente não precisa de uma política restritiva. Uma tal evolução se mostra, de fato, como sua única chance de salvação. É por isso que é de vital importância intensificar a demanda interna, a produção nacional e as exportações. Nem é preciso dizer que, em meio a uma crise, um tal objetivo é difícil de alcançar, mas a Grécia não tem alternativa. A persecução deste objetivo exige naturalmente a realização de investimentos públicos, na maior escala possível, e que devem representar uma porcentagem suficientemente elevada do PNB. Por outro lado, se levarmos em conta as peculiaridades estruturais da Grécia, à realização desses investimentos públicos deve ser adicionada uma generosa redistribuição do capital ao trabalho, dos mais ricos aos mais pobres, a fim de restabelecer o equilíbrio perturbado pelas desigualdades acumuladas por tanto tempo. Graças a esse tipo de dispêndios, pode-se explicar o desenvolvimento extremamente rápido da China, apesar da crise, mas também a recuperação relativamente rápida dos EUA ¹⁸

b) A repressão à evasão fiscal e repressão à corrupção, pelo menos em parte, representam alvos extremamente importantes que, no entanto, não foram alcançados nas últimas décadas. É sem dúvida decepcionante que, de momento, o atual governo tal como os anteriores continue a dirigir os seus esforços para as vítimas habituais, isto é, para aqueles que não podem dissimular os seus rendimentos, a saber, os assalariados, os aposentados e os proprietários de imóveis. Mas agora está no limite uma drenagem suplementar desses mesmos contribuintes, achando-se, portanto, incapazes de oferecer soluções nesta área. É por isso que é essencial pegar os verdadeiros fraudadores, o mais rápido possível. A evasão fiscal na Grécia é de fato incompreensível, pois, fora a corrupção geral, é também consequência de uma distribuição problemática de empregos, pelo menos para um país suficientemente desenvolvido. Ouço dizer que a percentagem dos não assalariados no emprego total, na Grécia, é quase três vezes superior à média das restantes economias da UE dos 15. É, além disso, a razão pela qual a porcentagem de impostos diretos no PNB grego está entre os mais baixos nas economias da OCDE. Claro, existem maneiras de impedir a fraude e os fraudadores ¹⁹. Mas, para isso, é preciso ousadia, perseverança e força para resistir a pressões extremas, qualidades de que os ministros das finanças, por várias décadas, dificilmente pareciam serem dotados. Enfrentar a fraude tão arraigada na Grécia requer também nervos de aço para resistir às reações pérfidas e astutas daqueles que vivem no luxo, declarando uma renda de apenas... 800 euros por mês ²⁰

c) A limitação do desperdício no setor público é uma necessidade de primeira ordem e deveria ser seguida de medidas particularmente severas, mas ao mesmo tempo de difícil aplicação. Isso porque, durante décadas, os gregos nomeados para cargos importantes ou até menos importantes raramente pareciam capazes de discernir os limites entre sua missão e sua pessoa, deles se servindo para se afirmar. Este “modelo” é repetido por quase todos os funcionários do setor público. E, neste ponto, quero enfatizar que me parece que o problema com o setor público grego não é seu tamanho percebido como grande demais, mas antes sua ineficácia. É por isso que não acredito que apenas reduzir o número de funcionários públicos irá resolver o problema. 

d) O conjunto da carga tributária deve, sem dúvida, aumentar, pois, caso contrário, a Grécia não conseguirá sair do impasse. No entanto, o que importa é, primeiro, uma distribuição justa entre os diferentes grupos socioeconômicos, e, depois, o alargamento da base tributária, ou seja, a referência a um PNB crescente a um ritmo rápido. 

É muito lamentável que as relações da Grécia com a comissão de administração da UE tenham sofrido um golpe tão duro e que as duas partes continuem a ferir-se diariamente. De fato, a coesão entre os membros da UE deveria ser considerada um fator essencial, e sua comissão de administração deveria proteger seus membros, a tempo e a todo custo, contra os rumores infundados e as invasões especulativas ²¹. Nesse caso, seria inconcebível qualquer boato vindo do BCE sobre a não aceitação de títulos do Tesouro grego, justificado, digamos, pelo fato de que Moody's subestimou a capacidade dos gregos de tomarem empréstimos. Da mesma forma, qualquer discussão que sugira a expulsão da Grécia da UE deveria ser evitada, independentemente de, por uma série de razões no mínimo óbvias, tal probabilidade corre o risco de criar problemas insolúveis no contexto da UE. 

Assim sendo, é evidente que, sendo a Grécia membro da UE e da zona do euro, todo esforço para por fim à difamação internacional de que é alvo e à sucção por parte dos especuladores passa, forçosamente, pela comissão de administração da UE. Já não mais se pode contentar, à guisa de apoio e sobretudo depois do que vem de acontecer, com adotar medidas às cegas, que parecem completamente ortodoxas à primeira vista, mas que são altamente inadequadas no caso de Grécia. Por outro lado, a ajuda da UE à Grécia deveria, antes de tudo, poder garantir a ela um programa de recuperação eficaz e exequível. 

María Negrepónti-Delivánis

Doutora em Ciências Econômicas pela Sorbonne

Ex-Reitora e Professora da Universidade Macedônia de Thessalônica                                                       01.02.2010 




III. NOTAS EXPLICATIVAS

 

¹  Entrevista ao jornal grego Eleftherotypia, 23/11/2009 

²  Entre eles, grandes casas financeiras como Goldman Sachs, que no passado... 

*  Nota do Gerente do Blog: A classificação financeira da dívida ou "rating" é a avaliação do risco de solvência financeira duma empresa, dum Estado, duma coletividade ou ainda duma operação (empréstimo, operação de financiamento, etc.). Essa avaliação do risco se materializa pela atribuição de uma nota correspondente às perspectivas de reembolso para com os credores. A classificação financeira constitui então para esses últimos um critério preponderante da avaliação do risco que um investimento comporta. A atribuição de notas é geralmente confiada à Standard & Poors ou Moody's nos Estados Unidos. 

³  Vide M. Negreponti-Delivanis (2005), “Os Impasses da economia grega”, O Econômico, Atenas (em grego) 

A título de exemplo, lembro que na reunião de Davos do ano passado, a participação dos banqueiros, assustados pela sua responsabilidade nesta crise, era pouco numerosa, enquanto que, neste ano, ela foi muito numerosa. 

Como, aliás, da de 1929-32 

Vide Jeremy Cliff (2009): “Profiles psychologist Daniel Kahneman”, Finance and Development, September 

Vide M. Negreponti-Delivanis (2004): “A sorte do euro em seguida ao enterro do Pacto de Estabilidade”. Edições da Fundação Delivanis e de Kornilia Sfakianaki, Thessalôanica (em grego) 

Ibidem 

O fato de ter imposto outrora uma política macroeconômica comum a todos os membros da URSS é hoje reconhecido como uma das causas principais de sua dissolução. 

¹⁰ Eu me refiro aqui ao que Herbert Stein escreveu a propósito dos déficits públicos. Vide “Tax Policy in the Twenty First Century” (1998), editado por Herbert Stein, John Wiley & Sons, New York, p. 290: “Em muitos países os déficits são tão elevados que eles aumentam o quociente da dívida pública como porcentagem do PNB. Os economistas gostam de sustentar que isso não pode continuar indefinidamente. E como tenho dito - e não se trata da primeira lei de Stein, - se alguma coisa não pode continuar indefinidamente, ela vai parar. Entretanto, isso não significa que ela não possa prosseguir durante todo o século XXI”. 

¹¹ Vide N. Burgi (2009), “Des managers agressifs, des travailleurs en défense”. Eleftherotypia de Dimanche-Monde Diplomatique, 3.5 

¹² Vide M. Negreponti-Delivanis (2007), “Reformas: O holocausto dos trabalhadores na Europa”, Edições de Fundação Delivanis e de Livanis, Atenas (em grego) 

¹³ O que se explica pelo processo inacabado de industrialização na Grécia 

¹⁴ Com base em minhas pesquisas e publicações de longa data a respeito das especificidades da economia grega. Neste momento tenho simplesmente a esclarecer que no caso de uma economia como a Grécia, onde a parte dos assalariados no emprego total é muito baixa e, por outro lado, a dos trabalhadores por conta própria particularmente elevada e onde ainda a porcentagem da tributação no PNB está entre as mais fracas dos países da OCDE, as políticas restritivas não só não têm nenhuma chance de sucesso, mas, além disso, elas afundam a economia numa recessão de longa duração. 

¹⁵ Vide jornal Kathimeriní, 30-31.01.2010 01.2010 

¹⁶ Vide M. Negreponti-Delivanis (2010): “A crise criminal” (no prelo, em grego) 

¹⁷ E infelizmente os recursos públicos foram diminuídos em 3,4% durante o ano de 2009. Vide K. Pantazi: “Os recursos públicos são minimizados, os pagamentos são congelados” (2010), Jornal grego do Domingo-Proto Thema, 3.1 

¹⁸Obama lays out new spending despite fears over rising debt” (2009), The Associated Press-International Herald Tribune 9.12 

¹⁹ Vide M. Negreponti-Delivanis e colaboradores: “A indústria problemática grega e algumas de suas soluções” (1983) Edições Paratiritis, Thessalônica (en grego) 

²⁰ Este caso se anuncia de fato quase intransponível, se o julgarmos pelo que se passou, contra a lei referente à regulação das dívidas bancárias dos emprestadores em dificuldade (uma lei, aliás, preconizada a 100%)

²¹ Vide J. Stiglitz (2010): “A principled Europe would not leave Greece to bleed”, The Guardian, 26.01 

Fonte https://www.academia.edu/39699374/LA_CRISE_D_ENDETTEMENT_DE_LA_GRECE_ET_DU_SUD_EUROPEEN_Pittesti_01_02

quarta-feira, 12 de agosto de 2020

Colaboradora: MARÍA NEGREPÓNTI-DELIVÁNIS


 

FORMAÇÃO  ACADÊMICA

Depois de estudar na Escola de Direito e Economia da Universidade Aristotélica de Thessalônica, onde se formou com louvor, MARÍA NEGREPÓNTI-DELIVÁNIS (nasc. junho 1933) foi admitida na correspondente Escola da Sorbonne com uma bolsa do governo francês. Lá ela recebeu dois diplomas superiores em Economia, bem como seu doutorado com honras e elogios. O presidente da banca que analisou sua tese de doutoramento foi o conhecido economista, professor e acadêmico Emile James, e sua tese foi publicada às custas do Centro Nacional de Pesquisa Francês (CNRS) e publicada em francês na série SEDES. Ela completou seus estudos de Economia na London School of Economics, enquanto conduzia pesquisas na University of Berkeley e no Instituto Universitário Europeu de Florença. É presidente da Fundação Dimitris & Maria Delivani. Além do grego nativo, ela é extremamente fluente em inglês e francês. 

DISTINÇÕES  HONORÍFICAS

· Bolsa da OTAN, Universidade de Berkeley, para escrever um estudo com o título: The Pressure on the Dollar, Sijthoff - Leyden, "Atlantic Series" (1964) 

· Primeira Reitora grega e foi eleita três vezes na Universidade Macedônia de Thessalônica (1974, 1984 e 1985) 

· Convidada pelo Departamento de Estado para uma visita oficial aos EUA (1979) 

· Primeiro Prêmio da Academia de Atenas por seu estudo "O desenvolvimento regional da Grécia na Comunidade Econômica Europeia" (1984) 

· Homenageada com cinco doutorados honorários, das Universidades de Demócrito (Trácia), Valahia (Romênia), Kainar (Almaty - Cazaquistão), Barnaoul - Altai na Sibéria russa e Annaba (Argélia). 

· Homenageada com quatro medalhas de ouro da Santa Metrópole de Thessalônica, por sua ação social (1985-88). 

· Selecionada como Jean Monnet Fellow, para pesquisa e ensino, no Instituto Universitário Europeu de Florença (1983-84). 

· Em 11.12.2006, em cerimônia solene, a Universidade Macedônia de Thessalônica a presenteou com dois volumes de estudos científicos escritos em sua homenagem. 

· Por decreto do Presidente da França Nicolas Sarcozy de 17 de julho de 2008, ela foi premiada com a Grande Medalha Francesa do Cavaleiro da Legião de Honra por sua cooperação científica com a França.

· Em 2010 foi eleita membro honorário da Academia de Ciências da Romênia.

· Foi convidada para palestras, cursos e pesquisas pelas Universidades de Washington, New York, Paris, Roma, Bonn, Marselha, Florença, Trieste, Sofia, Bratislava, Varsóvia, Cracóvia, Melbourne, Buenos Aires, Córdova, Rio de Janeiro, Coreia do Sul, Port-au-Prince, Yaoude, Almaty (Cazaquistão), Rijeka (Croácia), Fribourg (Suíça), Targoviste (Romênia) e Praga (República Tcheca). 

· Participou como palestrante, organizadora e presidente em inúmeras conferências internacionais na Grécia e em todo o mundo. 

PROJETOS DE PESQUISA, PUBLICAÇÕES E LIVROS

Seu trabalho publicado soma 53 livros, estudos, monografias e pesquisas e mais de 750 artigos científicos em grego, francês, inglês, espanhol, romeno e russo, e foi homenageada com primeiros prêmios, elogios e grandes quantidades de resenhas de livros e relatórios. Mais precisamente, seus 658 artigos em grego e 119 em línguas estrangeiras contribuíram ativamente para a formação da opinião pública sobre atuais questões econômicas na Grécia e ao redor do mundo.  Os milhares de estudantes e inúmeros doutores que ela ajudou a treinar e formar são membros de universidades gregas e estrangeiras, ou funcionários no setor privado e público.

Fonte: https://el.wikipedia.org/wiki/%CE%9C%CE%B1%CF%81%CE%AF%CE%B1_%CE%9D%CE%B5%CE%B3%CF%81%CE%B5%CF%80%CF%8C%CE%BD%CF%84%CE%B7-%CE%94%CE%B5%CE%BB%CE%B9%CE%B2%CE%AC%CE%BD%CE%B7