domingo, 9 de agosto de 2026

REPERCUSSÕES DA GUERRA DE CANUDOS EM SÃO JOÃO DEL-REI

Por Francisco José dos Santos Braga


I. INTRODUÇÃO 
 
Dando continuidade às minhas duas publicações  Flashes da Memória de um cabo do Exército na Guerra de Canudos e Logística no Sertão: Marechal Bittencourt , concluo aqui com a presente matéria uma trilogia ou ciclo dedicado a um dos mais graves episódios da história brasileira, que funcionou como um trauma fundador que expôs as contradições, a violência e a exclusão social do novo regime republicano. Como faltava apresentar uma pesquisa com coloração local, entendo necessário dar atenção à minha própria terra natal e verificar como esta acolheu as notícias da vitória das tropas governistas sobre os "fanáticos" conselheiristas em outubro de 1897.
 
5 de outubro de 1897, dia da vitória da violência militar  extrema contra uma comunidade de sertanejos pobres. Há pouco mais de cento e vinte e oito anos chegava ao fim o massacre de 25.000 "fanáticos" sertanejos que se uniram a um líder religioso, Antônio Vicente Mendes Maciel, popularmente conhecido como Antônio Conselheiro. Esse líder religioso nasceu em Quixeramobim, Ceará, onde passou a primeira metade de sua vida. Após desilusões pessoais e profissionais, ele iniciou uma longa peregrinação messiânica pelo sertão nordestino, deixando registros de sua passagem por duas províncias (Pernambuco e Sergipe), antes de se fixar definitivamente em solo baiano a partir de 1874, culminando mais tarde na fundação do histórico Arraial de Canudos em 1893. Uma característica central de seu movimento era o milenarismo (o fim dos tempos estava próximo), profundamente interligado ao seu perfil messiânico, dois fatores responsáveis por arrastar milhares de fiéis ao sertão nordestino no final do século XIX. Ele fazia profecias sobre o fim do mundo e o retorno de Dom Sebastião para destruir a República. Para ele, o casamento civil e o censo da República eram "leis do Cão". O povo o enxergava como um enviado de Deus, mas ele se considerava o mensageiro direto de Jesus Cristo para guiar os injustiçados. Conclamava seus liderados ao arrependimento imediato antes da punição divina. Prometia também uma vida melhor no céu para compensar a miséria da Terra. Fundou o Arraial de Canudos como uma terra prometida livre das leis da República. Aconselhava seus seguidores a construírem capelas, cemitérios e açudes. 
 
Apesar dessas características serem típicas de um católico fundamentalista e anti-republicano, a grande imprensa da capital federal, de São Paulo e especialmente de Salvador passou a fazer uma campanha contra a comunidade dos conselheiristas, acusando-os de ameaça à ordem pública local para, em seguida, passar a extrapolar, acusando-os de ameaça à própria República e de um agente da restauração monárquica. Igualmente passou a pressionar as forças federais a reprimir o movimento que gerava inquietação nos líderes políticos, nos latifundiários e no clero. 
 
A Guerra de Canudos, que teve a duração de um ano, consistiu de 4 expedições, que mobilizaram inicialmente um pequeno contingente de 100 soldados na primeira expedição, que foi se encorpando até atingir 10.000 soldados fortemente armados com artilharia pesada na última, culminando no massacre total da população de Canudos e destruição completa do arraial. Estima-se que cerca de 5.000 militares (forças do Exército e da polícia) morreram ao longo de toda a Guerra de Canudos (1896–1897). 
 
Consumada a vitória das forças federais, a imprensa festejou laureando os novos heróis da República, especialmente os seguintes: o Coronel Moreira César que tombou enquanto comandava a terceira expedição (março de 1897), o Coronel Thompson Flores enquanto comandava a 3ª Brigada de Infantaria durante a 4ª expedição militar contra Canudos, (junho de 1897) e o ministro da Guerra, Marechal Bittencourt, que estruturou a vitória militar em Canudos durante a 4ª expedição militar contra Canudos. 
 
Não foram apenas os órgãos de imprensa a festejarem a vitória. A destruição total do Arraial de Canudos (novembro de 1897) deu uma demonstração de força do primeiro presidente civil da República, Prudente de Morais, enfraquecendo os rumores espalhados pelos "jacobinos" (republicanos radicais e florianistas) de que ele seria fraco ou monarquista. O júbilo oficial contaminou muitos municípios brasileiros, através de seus representantes eleitos, que aclamaram os vitoriosos na campanha militar contra Canudos e até mesmo suas populações fizeram manifestações de júbilo, exaltação e triunfo patriótico. Em meio à comoção nacional provocada pelas baixas governistas no conflito, as Câmaras Municipais nomearam seus logradouros públicos (ruas, praças, avenidas, pontes e viadutos) com o nome de alguns militares que tombaram em combate, além de fazerem indicações de apoiamento contra Canudos. Viva a República... O fato de o Marechal Bittencourt ter sofrido morte heróica na capital federal ao proteger o presidente Prudente de Morais de um atentado covarde, exatamente um mês depois do massacre de Canudos, comoveu intensamente o imaginário popular da época e funcionou como um abafador das críticas que o Exército vinha sofrendo pela violência excessiva no sertão baiano. Cinco anos mais tarde, Os Sertões, de Euclides da Cunha, desconstruiria esse triunfalismo ao expor o drama social e a violência desmedida do Estado contra os sertanejos. Nessa obra, o autor revelaria a existência de "dois Brasis": o Brasil do litoral civilizado que ignorava completamente a realidade, a miséria e a cultura do Brasil do sertão interiorano. Concluiu seu livro denunciando que a campanha militar contra Canudos foi, na verdade, um crime e uma loucura do Estado.
 
II.  SÃO JOÃO DEL-REI APLAUDIU OS VENCEDORES
 
Em uma pesquisa feita em periódico em circulação em 1897, livros de historiadores e indicação feita por edis, todos são-joanenses, podemos ter uma visão do pensamento que prevalecia na época sobre os fatos ocorridos em Canudos e a imagem reinante sobre seu líder. 
 
1. Fato noticiado pelo semanário O RESISTENTE, ano III, edição nº 111, São João d'El-Rey, quinta-feira, de 07/10/1897, pág. 2
 
Sucesso de Canudos
Nos dias decorridos deste as últimas notícias que inserimos na folha de quinta-feira passada, pouco ou quase nada se adiantou sobre conhecimento dos fatos do sítio e ataque decisivo de Canudos.
Houve até certa falta de comunicações, que deu lugar novamente a boatos de algum modo alarmantes, mas que logo foram destruídos pela afirmação positiva das vantagens de nossas forças no derradeiro ímpeto patriótico e valoroso contra os miseráveis fanáticos acuados no último recanto de seu quase vencido reduto.
Constou também, mas não é crível, que Antônio Conselheiro, tendo fugido, não se acha mais em Canudos, e sim na Várzea da Ema.
Damos em seguida o telegrama recebido por último pelo sr. presidente da República, e que representa as mais recentes notícias chegadas do centro das operações.
Ei-lo:
Monte Santo, 4 de Outubro - (Recebido às 12 horas e 25 minutos da noite)  Exmo. sr. Presidente da República  Ainda não recebi parte do general Arthur Oscar, mas feridos aqui chegados hoje informam que nossas forças no dia 1º do corrente atacaram o inimigo com intrepidez e tomaram a igreja nova; que o inimigo ainda se conserva em um grupo de casas com seteiras e furnas, defendendo-se de nossas forças, que com grande valor sustentam cerrado tiroteio desde aquele dia; que tem havido prejuízos de parte a parte, tendo nós vários oficiais fora de combate; que grande número de mulheres, crianças e alguns homens têm-se apresentado às nossas forças, confessando estarem os jagunços sofrendo muita fome e sede; de que se deve concluir o próximo desenlace desta luta.  Cordiais saudações  M. Bittencourt.
Já estava composto e paginando-se o que se lê aí acima, quando à última hora recebemos ontem à tarde a esperada notícia da vitória completa de nosso exército contra os jagunços de Canudos, sendo arrasado esse terrível reduto e feito prisioneiro o chefe dos fanáticos, o célebre Antônio Conselheiro, na Várzea da Ema.
Não temos espaço para comentar como devíamos o grande acontecimento, que vem restituir a paz e a tranquilidade à Pátria Brasileira, consolidando outrossim com mais uma sanguinolenta vitória as belas instituições republicanas.
Glória excelsa ao brioso e denodado Exército Brasileiro!
Glória ao bravo e patriótico General Arthur Oscar!
Viva a memória do imortal, do grande patriota Marechal Floriano Peixoto!
Viva a República!
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A grata nova foi acolhida nesta cidade com as mais entusiásticas demonstrações de regozijo público, embandeirando-se logo os edifícios oficiais e muitos particulares, havendo à noite iluminação e subindo ao ar festivas girândolas, traduzindo tudo, com vibrante eloquência, as expansões patrióticas da alma popular.
 
2. Registros em livros são-joanenses 
 
No seu livro intitulado "Ruas de São João del-Rei", [GUIMARÃES, 1994, 24-25] discorre sobre a exaltação da memória dos soldados governistas mortos durante a refrega, reafirmando a simpatia pela República,  pasmem!  vinda da "briosa e fiel Vila de São João del-Rei" (alcunha dada por D. Pedro I à nossa municipalidade devido à adesão imediata às decisões dele sobre o processo de emancipação política do Brasil entre 1821 e 1822 e ao compromisso inabalável da nossa vila com o regente e, depois, imperador em 12/10/1822), a saber:
Os acontecimentos desenrolados durante o governo de Prudente de Morais ecoaram fundo junto ao civismo da Câmara, em época de sedimentação sinérgica da realidade republicana. Outrossim, conforme revela Euclides da Cunha em sua obra magna, o 16º Batalhão, que permanecia na cidade de São João del-Rei, empunhou armas em Canudos, para onde rumou chefiado pelo coronel Sousa Menezes, com 28 oficiais e 290 praças. E, em 3 de março de 1897, faleceram de maneira trágica o coronel Moreira César, o coronel Pedro Nunes Tamarindo e o capitão Joaquim Quirino Vilarim, recebendo os mesmos denominações em ruas são-joanenses através da resolução nº 116, de 22 de abril daquele ano. As ruas Municipal, do Fogo, do Barro e a praça do Colégio passaram a ser conhecidas com os epítetos de Coronel Moreira César, Capitão Vilarim, Coronel Tamarindo e Praça da República, sucessivamente, sob indicação do Padre João Pereira Pimentel, depois vigário paroquiano. Também complementando fatos decorrentes da primeira administração civil republicana, a resolução nº 139, de 9 de fevereiro de 1898, muda o cognome da rua do Comércio para Marechal Bittencourt, morto pouco mais de 3 meses antes, isto é, em 5 de novembro de 1897.
Outro autor são-joanense, [GAIO SOBRINHO, 2016, 161], em seu livro São João del-Rei através de Documentos - 2º volume, faz referência à efeméride são-joanense do dia 20/04/1897 a respeito da notícia do fracasso da 3ª expedição militar contra Canudos com a morte de seu comandante Moreira César em 4 de março de 1897, o que provocou o apoiamento de uma moção a ser dirigida aos governos estadual e federal:
INDICAÇÃO: Indicamos que a Câmara Municipal dirija ao Governo Estadual e Federal em ofício a seguinte moção: A Câmara Municipal de São João del-Rei-Rei, a primeira vez que se reúne em sessão ordinária, após o desastre de Canudos, onde tão distintos  brasileiros baquearam sacrificados à sanha dos restauradores servidos pelos bandidos de Antônio Conselheiro, envia sinceros pesares à República pela perda de tão valentes soldados e assegura ao Governo da Nação o seu inteiro e decidido apoio e toda a sua leal dedicação na defesa das instituições democráticas, interpretando assim os sentimentos patrióticos do Município de São João del-Rei. Ainda a Câmara declara que confia na energia e na ação eficaz das armas legais para que triunfe o princípio da autoridade e da lei e sejam restabelecidas a ordem e a paz pública e severamente punidos os baixos exploradores que tanto concorrem para o descrédito do Brasil com tão insólito e reprovado procedimento. Sala das sessões da Câmara Municipal de São João del-Rei, 20 de abril de 1897. Ass. Paulo dos Passos Teixeira, Pe. João Pereira Pimentel, Jerônimo Ribeiro das Dores, Dr. Ciro Teixeira Peçanha, Francisco Honório Moreira, Felipe Marchetti, J. Augusto Pinto P. Guadalupe, Antônio Augusto Gomes França, João Batista Teixeira, Bento José Pereira Portela, Francisco Leopoldo das Chagas. 
Nota do transcritor: No referido desastre morreu Antônio Moreira César, que ganhou nome de rua em São João del-Rei, denominação depois substituída pela de Artur Bernardes. Também ganharam ruas nesta cidade os militares, igualmente mortos na inglória e covarde campanha de Canudos, Capitão Joaquim Quirino Vilarim e Coronel Pedro Nunes Tamarindo, que ainda permanecem, até que algum vereador desavisado e néscio de nossa história invente de mudar mais esses nomes.
Lembro ainda que a atual rua Marechal Bittencourt é a antiga via conhecida popularmente como rua da Cachaça. No século XX ficou também conhecida informalmente por "rua da Zona" ou "rua dos Boêmios" devido à intensa vida noturna e prostíbulos. Ao longo do tempo, também foi chamada de rua da Alegria (1859), rua Tiradentes (1883) e rua João Jacó (1923). No começo do século XX, a rua Marechal Bittencourt estava localizada na atual rua Marechal Deodoro. Em 1939, ocorreram as seguintes mudanças: a rua Marechal Bittencourt foi substituída pelo nome de rua Marechal Deodoro e a rua João Jacó teve sua denominação alterada para o nome oficial de rua Marechal Bittencourt. Hoje é uma rua de tavernas, botequins e também de residências, além de sediar a sede da Fundação CEREM-Centro de Referência Musicológica José Maria Neves no nº 24 e CCF-Centro Cultural Feminino no nº 42. 
 
3. Batalhões de Infantaria que participaram da Guerra de Canudos 
 
O 31º Batalhão de Infantaria (31º BI), que estava sediado em São João del-Rei no início da década de 1890, foi um dos corpos do Exército Brasileiro mobilizados para combater no sertão da Bahia, sob o comando do General Carlos Maria da Silva Telles. Durante a campanha contra Canudos, este foi promovido a comandante da 4ª Brigada, que englobava, ao lado de outros BI's, o próprio 31º BI, atuando diretamente na violenta quarta e última expedição militar do conflito, em 1897, participando de missões de alto risco nas regiões de Colônia do Patrimônio e Canudos para evitar emboscadas dos conselheiristas. 
 
Outro historiador são-joanense, [CINTRA, 1982, 52] nos dá ideia da movimentação de tropas por nossa cidade no seu livro "Efemérides de São João del-Rei - volume I", através da efeméride do dia 31/01/1897:
Deixa S. João del-Rei com destino a Canudos, na Bahia, o 16º Batalhão de Infantaria, sob o Comando do Cel. Agostinho de Souza Menezes. A tropa deveria lutar contra os jagunços de Antônio Conselheiro. A referida unidade militar viera em junho de 1896 da cidade gaúcha de Pelotas, onde permaneceu um ano. (...) 
Ainda outra efeméride são-joanense do mesmo autor, desta feita a de 20/12/1897 no volume II, trata da chegada de outro batalhão à nossa cidade:
Chega a S. João del-Rei-Rei o 28º Batalhão de Infantaria, que foi formado no Rio Grande do Sul. Vieram 175 praças e a oficialidade seguinte: Comandante Cap. Luiz Manoel da Silva Daltro, Cap. Fiscal Joaquim Gonzaga Marques Porto, Alf. Secretº Vicente de Souza Brasil, Alf. Quartel-Mestre Firmino Gomes Jardim, Alf. ajudante José da Costa Vasconcelos, Cap. Com. de Comp. Luiz Acácio Leyrand, Alf. Feliciano Ribeiro Carneiro Monteiro, Alf. Rosemiro Francisco Guerreiro e os Médicos Cap. Villaboim e Ten. José Teles de Moraes Barbosa, ajudante. O 28º BI tinha parado no Rio Grande do Sul e ali foi por duas vezes reorganizado durante a última campanha em que tomou parte, chegando a ser, uma vez completamente dizimado. Na expedição de Canudos recebeu a missão de proteger os comboios que passavam pela estrada de Monte Santo, não tendo, por isso, entrado em fogo na cidadela de Antônio Conselheiro. O 28º trouxe Banda de Música. A 28/08/1898 chegou a S. João del-Rei o Cel. Pedro Paulo da Fonseca Galvão, nomeado Com. da Unidade Militar pelo Presidente da República; exerceu o posto até 17/02/1903, granjeando a estima dos Sanjoanenses.

Finalizo esta minha contribuição para o debate público e a discussão do episódio de Canudos que está sendo permanentemente revisitado, rediscutido e reavaliado pela historiografia moderna, mesmo após 128 anos da euforia inicial que acompanhou a notícia da vitória das forças legalistas por defenderem a ordem constitucional da recém-proclamada República contra os "jagunços de Antônio Conselheiro".

 

III. BIBLIOGRAFIA

 

BRAGA, F.J.S.: Flashes da memória de um cabo do Exército na Guerra de Canudos, publicado no Blog do Braga em 04/08/2026  

____________: Logística no sertão: Marechal Bittencourt, publicado no Blog de São João del-Rei em 06/08/2026

Link: https://saojoaodel-rei.blogspot.com/2026/08/logistica-no-sertao-marechal-bittencourt.html

CINTRA, S.O.: Efemérides de São João del-Rei - volumes I e II, Belo Horizonte: Imprensa Oficial, 1982, 622 p. 

____________: Nomenclatura de Ruas de São João del-Rei, separata da Revista do Instituto Histórico e Geográfico de São João del-Rei, vol. VI, 1988, pp. 5-24

COELHO, E.A.:  Informações sobre o nome dos logradouros de São João del-Rei - MG, Barbacena: Gráfica e Editora Cidade de Barbacena, 2022, 70 p. 

GAIO SOBRINHO, A.: São João del-Rei através de Documentos - 2º volume, 2026, 244 p. 

GUIMARÃES, F.N.: Ruas de São João del-Rei, edição patrocinada pela FAPEC, 55 p.