Por Francisco José dos Santos Braga
I. ENTREVISTA CONCEDIDA POR JIM JARMUSCH SOBRE "HOMEM MORTO" (em minha tradução)
Por que preto e branco?
"HOMEM MORTO" foi concebido como um filme em preto e branco desde o início. Há várias razões para essa decisão. A principal é que a história é sobre um homem que embarca em uma jornada que o leva para longe de tudo o que lhe é familiar. A cor, principalmente em paisagens, nos conecta com as coisas devido à nossa familiaridade com seus valores tonais, e isso teria prejudicado um elemento fundamental da narrativa.
Além disso, como HOMEM MORTO se passa no século XIX, a ausência de muita informação (fornecida pela cor) é uma forma de criar um certo distanciamento histórico, neutralizando, mais uma vez, a familiaridade com objetos e locais específicos.
Outro motivo para o preto e branco é que, desde o final da década de 1950 e início da de 1960, as histórias que usam o gênero "western" parecem ser filmadas repetidamente com a mesma paleta de cores empoeiradas. Seja em um filme de Leone ou Eastwood, ou mesmo em um episódio de TV de BONANZA, as cores sempre me parecem as mesmas. Se esses valores de cor operam em um nível subconsciente ou semiconsciente para o público, eu prefiro que o preto e branco de HOMEM MORTO remeta à atmosfera dos filmes americanos das décadas de 1940 e 1950, ou mesmo dos filmes históricos de Kurosawa ou Mizoguchi, do que à paleta excessivamente familiar dos "westerns" mais recentes.
Por último, mas não menos importante, eu queria trabalhar novamente em preto e branco com Robby Muller. Robby, como sempre, fez um trabalho incrível fotografando HOMEM MORTO e trabalhando com o negativo para incluir todos os tons de cinza possíveis, mantendo os pretos e brancos muito fortes, quase como se o filme colorido ainda não tivesse sido inventado.
Por que um western?
O gênero "western" é muito aberto à metáfora e tem raízes profundas em formas narrativas clássicas. Os "westerns" são, na maioria das vezes, histórias que envolvem jornadas por territórios desconhecidos e também costumam ser estruturadas em torno de temas muito tradicionais, como retribuição, redenção ou tragédia. A abertura da forma e sua conexão inseparável com a "América" no sentido mais amplo me atraíram. Devo admitir, porém, que HOMEM MORTO não é um "western" tradicional — o gênero foi usado apenas como ponto de partida.
Por que você decidiu fazer um filme sobre a morte?
A morte é a única certeza da vida e, ao mesmo tempo, seu maior mistério. Para “Bill” (apelido para William) Blake, a jornada de HOMEM MORTO representa a vida. Para “Nobody” (“NINGUÉM” em português), a jornada é uma cerimônia contínua cujo propósito é trazer Blake de volta ao plano espiritual do mundo. Para ele, o espírito de Blake foi extraviado e, de alguma forma, retornou ao reino físico. A perspectiva não-western de “Ninguém”, de que a vida é um ciclo interminável, é essencial para a história de HOMEM MORTO.
Por que William Blake, o poeta?
William Blake foi um poeta, pintor, impressor e inventor visionário inglês. Sua obra foi revolucionária e ele foi preso por suas ideias. Sinceramente, não consigo citar um motivo específico e concreto para a sua inclusão no meu roteiro, exceto pelo fato de que, enquanto lia livros de autores nativos americanos sobre o pensamento nativo americano, me ocorreu que muitas das ideias e escritos de Blake soavam como se pudessem ter vindo da alma de um nativo americano. Isso é particularmente verdadeiro em relação aos PROVÉRBIOS DO INFERNO de Blake, que, juntamente com outros fragmentos de sua poesia, são citados pelo personagem “Ninguém” ao longo do filme.
De qual tribo pertence Ninguém e qual idioma ele fala?
O personagem “Ninguém” é mestiço – ele é metade Sangue e metade Pé-Preto. Essas tribos são consideradas indígenas das Planícies, provenientes das Grandes Planícies das partes norte e central da metade oeste da América do Norte. "Ninguém", contudo, é um personagem diferente — ele é também um linguista que, no curso da história, fala Pé-Preto, Cree, Makah e inglês.
A música de Neil Young estava na sua cabeça mesmo durante a filmagem da película?
Tenho sido um fã de Neil Young por muitos anos, e eu estava constantemente ouvindo Neil Young e Crazy Horse, enquanto escrevia o roteiro para HOMEM MORTO. Durante a filmagem da película (e toda a mobilização que ela envolvia), nós estávamos também ouvindo a música de Neil. Crazy Horse até se apresentou em Sedona, Arizona durante nosso período das filmagens, e um grande contingente de nossa equipe assistiu ao concerto.
Desde o início do projeto havia esperança de Neil Young apresentar a música para o filme, mas eu nunca estive muito confiante de que isso realmente aconteceria. Quando Neil finalmente viu um corte inicial de HOMEM MORTO e então concordou em fazer a trilha sonora para o filme. Eu estava exultante. (Eu atribuiria isso também ao fato de que Jay Rabinowitz, o editor, ter cortado algumas sequências do filme para seções instrumentais de canções existentes de Neil como exemplos de como sua música poderia funcionar com a história).
No final das contas Neil tocou harmônio, piano desregulado e guitarra acústica, mas a maior percentagem da música é de sua guitarra elétrica. [O que ele trouxe ao filme eleva-o a outro nível, entrelaçando o espírito da história com a reação musicalmente emocional de Neil a ele — o garoto chegou ao fundo de algum lugar profundo de si mesmo para criar tal música forte para nosso filme.]
A seguir, apresento o elenco do filme HOMEM MORTO, na sequência em que os respectivos personagens apareceram no filme:
William Blake - Johnny Depp
Crispin Glover - foguista do trem
John Dickinson - Robert Mitchum
Thel Russell - Mili Vital
Charlie Dickinson - Gabriel Byrne
Cole Wilson - Lance Henriksen
Conway Twill - Michael Wincott
Johnny "The Kid" Pickett - Eugene Byrd
Nobody - Gary Farmer
Primeiro jovem Nobody - Thomas Bettles
Segundo jovem Nobody - Daniel Chas Stacy
Salvatore "Sally" Jenko - Iggy Pop
Big George Drakoulos - Billy Bob Thornton
Benmont Tench - Jared Harris
Velho com posters de "procurado" - Mike Dawson
Lee (jovem xerife) - Mark Bringelson
Marvin (velho xerife) - Jimmie Ray Weeks
Namorada de Nobody - Michelle Thrush
Missionário do Posto Comercial - Alfred Molina
Primeiro homem do Posto Comercial - John Pattison
Segundo homem do Posto Comercial - Todd Pfeiffer
II. O FILME E O ROTEIRO DE JIM JARMUSCH
HOMEM MORTO (Dead Man) é um western teuto-nipo-estadunidense, dirigido e roteirizado por JIM JARMUSCH, rodado em preto e branco com trilha sonora de Neil Young. Estrelado por JOHNNY DEPP (William Blake ou Bill Blake), é um filme diferente de outros do gênero faroeste, sendo considerado um faroeste filosófico-espiritualístico. Foi indicado à Palma de Ouro do Festival do Cinema de Cannes (1995).
A história tem um começo interessante e exótico, com o personagem William Blake (vestindo paletó xadrez, colete, chapéu, gravata borboleta, portando uma mala de couro) em uma viagem de trem, rumo ao Oeste, para trabalhar como contador na única metalúrgica (Dickinson Metalworks) de Machine, ponto final da ferrovia. A exata localização de Machine é intencionalmente deixada ambígua no filme. Não há nada no roteiro que indique onde fica Machine, a não ser uma cidade a oeste de Ohio. Isso é um indicativo da abordagem costumeira surreal e alegórica de Jim Jarmusch ao gênero "western". Alguns consideram que Machine se referia à Califórnia, que na década de 1880 era uma cidadezinha, que se adapta ao tema do filme.
Esse início constitui uma tomada bem longa, onde podemos ver como, a cada estação, os passageiros que estão à frente do protagonista vão mudando, ao mesmo passo que vemos a mudança da paisagem, ficando cada vez mais desértica e selvagem.
Em certa altura da viagem de trem para o Oeste, senta-se em frente dele o foguista do trem que tem a pele do rosto macerado pela exposição demorada à fumaça e à fuligem, o qual lhe pede que olhe pela janela e pergunta se ele se reconhece na paisagem que vê, isto é, se ela o lembra de quando ele estava no barco e, mais tarde naquela noite, quando estava deitado olhando para o teto (céu) e com a água na cabeça, vendo uma paisagem que se movia, embora o barco estivesse parado — situação esta do final do filme —, demonstrando aqui que o foguista de fato era uma pessoa capaz de prever o futuro e que dominava o mundo espiritual.
Em seguida, ele pergunta de onde vinha. A resposta de Bill foi Lake Erie, Cleveland. Pergunta-lhe então se possui pais lá. Fica sabendo que eles tinham falecido recentemente. O foguista continuou com o inquérito, perguntando-lhe se tinha esposa em Erie. Não. Uma noiva? Bill sentiu-se embaraçado ao responder que tinha, mas que ela mudou de ideia. O inquiridor quer saber se ela arrumou outro. A resposta foi não, mas o inquiridor afirmou que ela arrumou outro, sim.
O inquiridor continua dizendo que isso não explica a razão de Bill ter vindo de tão longe, vindo de tão longe para o Inferno. Bill informa que tem um emprego na cidade de Machine. O inquiridor o fez saber que esse era o fim da linha. A seguir, quando Bill mostra a carta da Metalúrgica Dickinson contratando-o em Machine, o forasteiro lhe diz que ele não sabia ler, mas uma coisa ele podia garantir que ele não deveria acreditar num papel assinado especialmente por um tal Dickinson da cidade de Machine. E previu o pior: "Você só vai acabar achando sua própria cova."
A conversa é interrompida pelo estampido de tiros. "Olhe. Estão atirando nos búfalos", diz o foguista, ainda observando que "o governo diz que foram mortos um milhão deles só no ano passado." O jovem contador fica muito mal impressionado quando todos os passageiros tomam suas armas e se dirigem às janelas do vagão para abater búfalos que pastavam serenamente.
Após essa espécie de introdução no filme, é apresentado o elenco que colaborou com as filmagens, resumidamente apresentado na seção I.
O inicio da trama é pautado pelo desembarque do trem, quando o protagonista conhece ao vivo a cidade de destino e, detalhe importante, nós vemos no filme quão brilhante foi o trabalho de reconstrução de época, pois, desde o cenário até o figurino, tudo ficou perfeito, fazendo-nos retroceder no tempo. Na sua visita à Metalúrgica Dickinson, teve a decepção de descobrir que a promessa de emprego de contador não se concretizou.
Frustrado em sua expectativa do emprego, Bill se envolve com uma mulher (Thel Russel). Eles estão na cama de um hotel e Bill percebe debaixo do travesseiro um revólver. Ela lhe diz:
— Oh, cuidado! Está carregado.
— Por que você tem isso?
— Porque aqui é a América.
Pois bem, ambos são flagrados na mesma cama pelo ex-noivo dela (Charlie Dickinson), filho do dono da Metalúrgica Dickinson (sr. John Dickinson) dentro do quarto do hotel de seu pai. Desse incidente resultou que o ex-noivo atirou contra o casal, matando sua ex-noiva e alojando uma bala no peito de Blake, encontrando o próprio Charlie também a morte por três balas certeiras do oponente.
Bill é injustamente acusado pelo assassinato de uma mulher com quem se envolveu e do ex-noivo dela. Assim ele teve que fugir de Machine, montando no primeiro cavalo que encontrou, que coincidentemente era um malhado de estimação do sr. John Dickinson. Este, magoado e ofendido pela audácia de Bill, contrata três caçadores de aluguel para a captura do atrevido forasteiro que apareceu na cidade naquele dia. São eles: Cole Wilson, Conway Twill e o preto Johnny "The Kid" Pickett.
Bill foge da cidade industrial inóspita. Enquanto tenta escapar às autoridades, tem um encontro casual com o enigmático guia espiritual, xamã e curandeiro nativo americano chamado “Nobody” (“Ninguém” em português), que acredita que Blake é a reencarnação do visionário poeta inglês William Blake. Ante a região americana deserta, os dois companheiros embarcam numa odisseia carregada de elementos de misticismo, transformação e espiritualidade, até que Bill consiga atravessar a fronteira do mundo espiritual.
III. CITAÇÕES MAIS RELEVANTES DA JORNADA DE WILLIAM BLAKE COM “NINGUÉM” PELO OESTE
1. O encontro
Logo após o encontro, “Ninguém” lhe pergunta:
— Você matou o homem branco que matou você?
— Eu não estou morto.
— Que nome lhe foi dado no seu nascimento, homem branco burro?
— Blake. William Blake.
“Ninguém” não acredita no que ouve. Ele corre alguns metros diante da resposta, estaca subitamente e de novo retoma o diálogo com a dúvida em mente:
— Isto é uma mentira? Ou um truque de homem branco?
— Não, eu sou William Blake.
— Então, você é um homem morto.
— Desculpe. Eu... eu não entendo.
“Ninguém” volta correndo, olhando nos olhos de Bill:
— Seu nome é mesmo William Blake?
— Sim.
Concentrando-se no poema que pretende declamar, “Ninguém” finalmente exclama:
Toda noite e toda manhã,
Alguns para o sofrimento nascem.
Toda manhã e toda noite,
Alguns nascem para o doce deleite.
Alguns nascem para o doce deleite,
Outros nascem para a noite infinita.
— Eu realmente não entendo, diz Bill.
— Mas eu entendo, William Blake. Você foi um poeta e um pintor. E agora, você é um matador de homens brancos. Você precisa descansar agora, William Blake.
“Ninguém” cobre seu amigo com um manto demonstrando a mais pura afeição, enquanto repete os últimos versos do poema como uma canção de ninar:
Alguns nascem para o doce deleite,
Outros nascem para a noite infinita.
2. A águia e o corvo
Dando continuidade à conversa noturna entre William Blake e Ninguém, no dia seguinte, ambos montados a cavalo, o índio vai à frente e Bill parece estar extenuado e sem disposição para continuar. O cenário é sinistro: vêem-se pelo chão carcaças de animais. De repente, o índio para, interrompendo a marcha.
Bill se aproxima dele e lhe pergunta:
— Onde nós estamos?
— Você está sendo seguido, William Blake.
— Você tem certeza? Quero dizer, como você sabe?
— Frequentemente o mau cheiro do homem branco o precede.
— Por que nós não... Talvez nós devêssemos... O que deveríamos fazer?, levando a mão esquerda ao peito ferido.
— A águia nunca perdeu tanto tempo como quando ela se sujeitou a aprender com o corvo.
3. A identidade do índio
Bill e Ninguém estão se aquecendo diante de uma fogueira. Bill saca o revólver e, sem querer, mira o rosto do índio, que com a mão esquerda afasta a arma de sua direção e estabelece o seguinte diálogo:
— William Blake, você sabe como usar esta arma?
— Na realidade, não.
— Esta arma irá substituir sua língua. Você aprenderá a falar através dela, e sua poesia então será escrita com sangue.
— Qual é seu nome?
— Meu nome é Ninguém.
— Como?
— Meu nome é Exaybachay: Aquele que fala alto, sem dizer nada.
— Aquele que fala... Pensei que tivesse dito que era Ninguém.
— Eu prefiro ser chamado de Ninguém.
Já ambos cavalgando, Bill perguntou:
Já ambos cavalgando, Bill perguntou:
— Ninguém, você não deveria estar com sua tribo e tal?
— Meu sangue é misturado. Minha mãe era Ohm gahpi phi gun ni. Meu pai é Abso Luka. Esta mistura não era respeitada. Ainda pequeno, eu era frequentemente abandonado. Então eu passei muitos meses perseguindo o povo alce para provar que eu logo me tornaria um bom caçador. Um dia, finalmente, meus amigos alces tiveram pena de mim, e um jovem alce deu sua vida por mim. Somente com minha faca, eu tirei sua vida. Eu estava me preparando para cortar a carne, quando homens brancos vieram até mim. Eles eram soldados ingleses. Eu cortei um com minha faca, mas eles me atingiram na cabeça com um rifle. Tudo ficou preto. Meu espírito pareceu me deixar. Eu fui levado para o Leste... numa jaula. Fui levado para Toronto, depois Filadélfia e então para Nova York. E a cada vez que eu chegava em outra cidade, de algum modo os homens brancos tinham ido junto... todo o povo deles lá, antes de mim. Cada nova cidade continha as mesmas pessoas brancas da última, e eu não podia entender como poderia uma cidade inteira ser movida tão rapidamente. Finalmente, eu fui levado num navio através do grande mar até a Inglaterra, e eu fui exposto diante deles como um animal capturado. Uma exibição. E então eu os copiei, imitando seus modos, esperando que eles pudessem perder seu interesse neste jovem selvagem, mas o interesse deles só cresceu. Então eles me colocaram nas escolas dos homens brancos. E foi lá que eu descobri, num livro, as palavras que você, William Blake, havia escrito. Eram palavras poderosas, e elas falaram comigo. Mas eu fiz planos cuidadosos e finalmente escapei. Mais uma vez, eu cruzei o grande oceano. Vi muitas coisas tristes, no caminho de volta para as terras de meu povo. Logo que eles perceberam quem eu era, as estórias de minhas aventuras os enfureceram. Eles me chamaram de mentiroso. Exaybachay = Aquele que fala alto, sem dizer nada. Me ridicularizou meu próprio povo. E eu fui deixado para vagar pela terra, sozinho. Eu sou Ninguém.
4. Primeiro contato com o seu pôster de "procurado"
É de manhã, eles cavalgam. “Ninguém” começa a cantarolar. De repente, Bill para ao se deparar com o pôster de "procurado" com a sua fotografia pregado ao tronco de uma árvore oferecendo a recompensa de US$500 por sua captura.
— Este sou eu.
Ele apeia do cavalo e aproxima-se do anúncio onde lê:
“Procurado William Blake pelo brutal assassinato de Thel Russell e de Charles Ludlow Dickinson - Recompensa $500”
Vira-se para Ninguém e diz, enquanto retira o pôster:
— Eu não matei Thel. Eu não matei Thel.
Em seguida, rasga aquele pôster e dirige-se a outra árvore com o mesmo pôster.
“Ninguém” o repreende:
— As suas ações são inúteis.
— Isto é uma completa armação. Não pode ser..., fala desesperado.
Revolta-se ainda mais ao ouvir a lição de moral dada por Ninguém:
— Você não pode parar as nuvens com a construção de um barco.
— O quê? O que você disse?
E levantando a mão direita até o pescoço:
— Sabe, eu já estou por aqui desta baboseira indígena. Eu não entendi nenhuma palavra sua, desde que eu o conheci.
“Ninguém” sorri diante de sua exasperação e lhe indaga de forma brincalhona:
— Você tem certeza de que não tem nenhum fumo?
— Eu já lhe disse que não fumo. E se eu não fumo, há uma boa chance de eu não ter nenhum tabaco.
Ninguém fala algo no seu dialeto tribal terminando com William Blake e, em seguida, segue seu caminho, enquanto Bill fica pensativo, agachado sobre uma pedra.
— Este sou eu.
Ele apeia do cavalo e aproxima-se do anúncio onde lê:
“Procurado William Blake pelo brutal assassinato de Thel Russell e de Charles Ludlow Dickinson - Recompensa $500”
Vira-se para Ninguém e diz, enquanto retira o pôster:
— Eu não matei Thel. Eu não matei Thel.
Em seguida, rasga aquele pôster e dirige-se a outra árvore com o mesmo pôster.
“Ninguém” o repreende:
— As suas ações são inúteis.
— Isto é uma completa armação. Não pode ser..., fala desesperado.
Revolta-se ainda mais ao ouvir a lição de moral dada por Ninguém:
— Você não pode parar as nuvens com a construção de um barco.
— O quê? O que você disse?
E levantando a mão direita até o pescoço:
— Sabe, eu já estou por aqui desta baboseira indígena. Eu não entendi nenhuma palavra sua, desde que eu o conheci.
“Ninguém” sorri diante de sua exasperação e lhe indaga de forma brincalhona:
— Você tem certeza de que não tem nenhum fumo?
— Eu já lhe disse que não fumo. E se eu não fumo, há uma boa chance de eu não ter nenhum tabaco.
Ninguém fala algo no seu dialeto tribal terminando com William Blake e, em seguida, segue seu caminho, enquanto Bill fica pensativo, agachado sobre uma pedra.
5. O Grande Espírito
Em nova cena, Bill é acordado por muitas palavras de dialeto indígena pronunciadas em certa magia praticada por Ninguém, que, saindo de seu transe, observa que Bill o olha com desconfiança. Então comenta:
— Eu acabei de ingerir a comida do Grande Espírito e do Pai Peyote ¹.
— Eu poderia dar uma mordidinha?
— Não é para ser usado nem por William Blake. Flores da medicina lhe dão visões sagradas que não são para você neste momento. Meus irmãos do sul foram proibidos de usá-lo pelos demônios espanhóis. Mas, agora, até mesmo os Notoemne e os Dene sabem de seus modos amáveis.
E “Ninguém” põe-se a cantar supostamente em louvor ao Grande Espírito.
E entreolhando-se depois do canto, Ninguém percebe em vez da face de Bill uma caveira.
E “Ninguém” põe-se a cantar supostamente em louvor ao Grande Espírito.
E entreolhando-se depois do canto, Ninguém percebe em vez da face de Bill uma caveira.
— Que foi? O que você está vendo?
“Ninguém” se mantém calado, mas toma nas mãos uma espécie de unguento e escreve um sinal em cada bochecha de Bill, como se dissesse que ele estava marcado para morrer.
Ninguém, em seguida, toma um pó e o esfrega com as palmas de suas mãos. Então, fala diretamente ao amigo:
“Ninguém” se mantém calado, mas toma nas mãos uma espécie de unguento e escreve um sinal em cada bochecha de Bill, como se dissesse que ele estava marcado para morrer.
Ninguém, em seguida, toma um pó e o esfrega com as palmas de suas mãos. Então, fala diretamente ao amigo:
— William Blake, é tão estranho você não lembrar nada de sua poesia.
— Eu não sei nada sobre poesia.
— Oh, você é tão modesto.
— Escute... Eu me sinto muito fraco. Tenho fome.
— A busca por visões é uma grande bênção, William Blake. Para alcançá-la, deve-se seguir sem comida e água. Todos os espíritos sagrados reconhecem aqueles que jejuam. É bom se preparar para uma jornada deste modo.
Enquanto Bill procurar aquecer-se com agasalhos, Ninguém observa:
Enquanto Bill procurar aquecer-se com agasalhos, Ninguém observa:
— Acho que perdi meus óculos.
— Não consigo enxergar com clareza, diz Bill.
— Talvez você enxergue mais claramente sem eles.
— Você é um homem muito estranho. Muito estranho.
“Ninguém” recolhe sua toalha de couro onde tinha depositado os materiais necessários à sua prática mágica. Em seguida, monta em seu cavalo e, a título de despedida, fala, virando-se para Bill:
“Ninguém” recolhe sua toalha de couro onde tinha depositado os materiais necessários à sua prática mágica. Em seguida, monta em seu cavalo e, a título de despedida, fala, virando-se para Bill:
— Que o Grande Espírito cuide de você, William Blake.
E “Ninguém” se afasta, seguindo seu caminho e deixando Bill sozinho.
E “Ninguém” se afasta, seguindo seu caminho e deixando Bill sozinho.
6. Xerifes são recrutados para procurar William Blake
No dia seguinte, enquanto Bill se afasta do acampamento, chegam dois xerifes, um velho, Marvin, e outro jovem, Lee, ambos carecas, atraídos pelo pôster do "procurado" de US$500 e se deparam com acampamento dele abandonado, bem como os dois cavalos que ficaram na retaguarda. (...)
Bill ausente, Marvin investiga os itens do acampamento. Marvin pega seu rifle quando reconhece Bill à distância:
— Lee! É ele!
Bill desce em direção a eles, agora mascarado em ambas as bochechas.
— Você é William Blake?, pergunta Marvin.
— Sim, sou eu. Você conhece minha poesia?
A resposta nem bem veio e Bill já alveja primeiro Marvin e depois Lee.
Depois, Bill, percebendo que Marvin ainda estrebucha, repete o verso final de “seu” poema:
— Alguns nascem para a noite infinita.
Após, dá-lhe o tiro de misericórdia. Marvin tomba no chão e coincidentemente cai de tal forma que sua cabeça fica no centro de uma série de gravetos como se formassem a auréola de um ícone religioso.
Bill desce em direção a eles, agora mascarado em ambas as bochechas.
— Você é William Blake?, pergunta Marvin.
— Sim, sou eu. Você conhece minha poesia?
A resposta nem bem veio e Bill já alveja primeiro Marvin e depois Lee.
Depois, Bill, percebendo que Marvin ainda estrebucha, repete o verso final de “seu” poema:
— Alguns nascem para a noite infinita.
Após, dá-lhe o tiro de misericórdia. Marvin tomba no chão e coincidentemente cai de tal forma que sua cabeça fica no centro de uma série de gravetos como se formassem a auréola de um ícone religioso.
7. Visões de William Blake
Bill continua na sua marcha, é noite e ele parece alucinado, pois ensaia sua fala com o sr. Dickinson, dirigindo-se assim ao seu secretário:
— Eu gostaria de falar com o Sr. Dickinson, por favor. Eu insisto em falar com o sr. Dickinson.
Nisto, ele tem a visão de um fantasma entre a folhagem. É uma figura impressionante de um cacique imenso e sério. Bill saca sua arma, mas logo a visão desaparece, deixando em seu lugar um inocente gambá que se esgueirou por entre as folhagens. Ele fica pensativo imaginando se aquela visão não teria a ver com o prenúncio de seu próprio destino. Ouve ruídos estranhos como o relinchar de um cavalo.
Nisto, ele tem a visão de um fantasma entre a folhagem. É uma figura impressionante de um cacique imenso e sério. Bill saca sua arma, mas logo a visão desaparece, deixando em seu lugar um inocente gambá que se esgueirou por entre as folhagens. Ele fica pensativo imaginando se aquela visão não teria a ver com o prenúncio de seu próprio destino. Ouve ruídos estranhos como o relinchar de um cavalo.
8. Reverência de William Blake por um filhote de cervo morto
Continuando a sua marcha, Bill caminha dirigindo seus dois cavalos num ambiente agreste e desabitado. Ouvem-se gritos ao longe e seu cavalo responde ao ruído, relinchando. Vê um filhote de cervo atingido por um tiro no pescoço, espichado no chão ao pé de uma árvore. Passa o dedo pelo ferimento do jovem cervo com compaixão e, em seguida, leva um pouco deste sangue ao seu ferimento no peito e sobre sua testa, nariz e queixo. Sua compaixão é tão grande pelo cervo sacrificado que ele retira o chapéu como reverência e deita-se a seu lado. Depois, olhando para cima, para os galhos da árvore, parece estar possuído por algum tipo de alucinação, pois o cenário não estava imóvel, mas circulava aos seus olhos.
9. Anúncio da morte de William Blake
Bill e Ninguém se reencontram e seguem em frente, cada um em sua montaria. Neste instante, Ninguém comunica a Bill sua intenção:
— Eu vou levá-lo até a ponte feita de água. O espelho. Então você será levado para o próximo nível do mundo. O lugar de onde William Blake é e ao qual pertence o seu espírito. Eu preciso ter certeza de que você atravesse o espelho no lugar onde o mar encontra o céu.
— Eu vou levá-lo até a ponte feita de água. O espelho. Então você será levado para o próximo nível do mundo. O lugar de onde William Blake é e ao qual pertence o seu espírito. Eu preciso ter certeza de que você atravesse o espelho no lugar onde o mar encontra o céu.
10. A verdade sobre o posto comercial
Logo, os dois amigos chegam a uma fronteira. A uma certa distância e de uma posição superior observam o local. Ninguém diz:
— Posto comercial do homem branco. Índios pegam doenças ali.
— Como assim?
— Varíola, tuberculose. Os cobertores estão infectados. Isto se espalha pelas aldeias. Vejo que você adquiriu uma nova arma.
— Humm? Oh, sim. Uma Winchester. Tome. Fique com ela.
— Não.
— De verdade. Fique com ela. Eu a tirei de um homem branco morto.
— Como assim?
— Varíola, tuberculose. Os cobertores estão infectados. Isto se espalha pelas aldeias. Vejo que você adquiriu uma nova arma.
— Humm? Oh, sim. Uma Winchester. Tome. Fique com ela.
— Não.
— De verdade. Fique com ela. Eu a tirei de um homem branco morto.
— Foi William Blake quem matou este homem branco?
— Sim. William Blake matou o homem branco.
Em sinal de aprovação pelo que ouviu de Bill, aceitou de bom grado o presente.
— Sim. William Blake matou o homem branco.
Em sinal de aprovação pelo que ouviu de Bill, aceitou de bom grado o presente.
11. William Blake, no pôster de "procurado" por brutais assassinatos
“Ninguém” desce do ponto de observação e Bill o segue com os seus dois cavalos. Chegando ao posto comercial, desce do ponto de observação e Bill o segue com os seus dois cavalos. Chegando ao posto comercial, “Ninguém” diz:
— Água (referindo-se a um rio próximo).
E virando-se para Bill, “Ninguém” percebe a mão direita dele sobre o peito esquerdo, pois o ferimento o incomodava.
Bill se adianta e vê seu nome em pôsters como "procurado". São três os pôsters: de US$500, US$1.000 e US$2.000. No último de maior valor, lê-se: "pelos brutais assassinatos de Charles Dickinson e noiva, Thel Russell; também pelos seguintes assassinatos: xerife M(arvin) Thornberry, delegado L(ee) Hazelwood, Big Jorge Drakoulios, Benmont Tench e Salvatore "Sally" Jenko".
— Água (referindo-se a um rio próximo).
E virando-se para Bill, “Ninguém” percebe a mão direita dele sobre o peito esquerdo, pois o ferimento o incomodava.
Bill se adianta e vê seu nome em pôsters como "procurado". São três os pôsters: de US$500, US$1.000 e US$2.000. No último de maior valor, lê-se: "pelos brutais assassinatos de Charles Dickinson e noiva, Thel Russell; também pelos seguintes assassinatos: xerife M(arvin) Thornberry, delegado L(ee) Hazelwood, Big Jorge Drakoulios, Benmont Tench e Salvatore "Sally" Jenko".
“Ninguém” avalia:
— Nada mal.
— Ahn?
— Não é uma má ilustração sua, William Blake. ²
Bill quer presentear o amigo com a ilustração de maior valor:
— Ahn?
— Não é uma má ilustração sua, William Blake. ²
Bill quer presentear o amigo com a ilustração de maior valor:
— Bem, eu quero que fique com ela.
— É um presente.
— Aho! ³
12. Dentro do posto comercial
Bill entra no Posto comercial, aguardando ser atendido. Aparece um funcionário que também é um missionário:
— Bom dia! Que você sirva o Senhor e que o Seu Santo Domínio o guie pela sua vida sombria. Como posso ajudá-lo, meu pobre homem?, disse o missionário do Posto comercial.
Bill procura não deixar o seu rosto visível ao homem do Posto com medo de que ele o reconheça como o criminoso "procurado". Por isso, fica de costas para o missionário que o saudou. Bill, nesta posição, acha uma munição e a observa. O homem continua:
— Toda nossa munição é garantida. Este último lote, de fato, foi pessoalmente abençoado pelo Arcebispo de Detroit.
Neste instante, entra “Ninguém” e cumprimenta o homem:
— Bom dia!
Neste instante, entra “Ninguém” e cumprimenta o homem:
— Bom dia!
Foi imediatamente saudado pelo missionário do Posto com a seguinte prece:
— Que nosso Senhor Jesus Cristo lave esta terra com Sua luz sagrada e livre seus lugares mais sombrios dos ateus e filisteus.
— A visão de Cristo que você diz ter é a maior inimiga de minha visão. ⁴
— Que nosso Senhor Jesus Cristo lave esta terra com Sua luz sagrada e livre seus lugares mais sombrios dos ateus e filisteus.
— A visão de Cristo que você diz ter é a maior inimiga de minha visão. ⁴
Dizendo isso, “Ninguém” se aproxima do balcão e, apoiando-se no cano da Winchester, indaga:
— Você tem fumo?
— Certamente não.
— Não são latas de fumo ali atrás de você?
— Sim, são, mas aquelas latas estão vazias. Não há tabaco dentro delas. Talvez você esteja interessado em algumas miçangas ou possivelmente um cobertor.
— Cobertor.
Bill se vira para o missionário do Posto que agora o encara de frente e diz:
— Sim, meu grande amigo, munição.
— Eu queria um pouco de fumo, por favor.
— Bem, eu devo ter um ou dois rolos sobrando. Do meu suprimento especial, entende?
E mostrando os dois rolos de fumo, diz:
— Para bons amigos apenas.
Bill cheira os rolos de fumo. Apenas agora o vendedor reconhece em Bill o William Blake "procurado" do pôster:
— Santo Deus! Você é William Blake.
— Sim, eu sou.
— Pela graça de Deus Todo Poderoso... Senhor, seria muita presunção da minha parte lhe pedir um autógrafo? Por favor, gentil senhor. Seria uma grande honra.
— Certamente não.
— Não são latas de fumo ali atrás de você?
— Sim, são, mas aquelas latas estão vazias. Não há tabaco dentro delas. Talvez você esteja interessado em algumas miçangas ou possivelmente um cobertor.
— Cobertor.
Bill se vira para o missionário do Posto que agora o encara de frente e diz:
— Sim, meu grande amigo, munição.
— Eu queria um pouco de fumo, por favor.
— Bem, eu devo ter um ou dois rolos sobrando. Do meu suprimento especial, entende?
E mostrando os dois rolos de fumo, diz:
— Para bons amigos apenas.
Bill cheira os rolos de fumo. Apenas agora o vendedor reconhece em Bill o William Blake "procurado" do pôster:
— Santo Deus! Você é William Blake.
— Sim, eu sou.
— Pela graça de Deus Todo Poderoso... Senhor, seria muita presunção da minha parte lhe pedir um autógrafo? Por favor, gentil senhor. Seria uma grande honra.
O missionário passa o pôster de "procurado" às mãos de William Blake para ele apor ali o seu autógrafo.
Bill finge não conhecer o índio e lhe pede licença para dar o autógrafo. Ao pegar a caneta, o missionário do Posto saca o revólver para matá-lo. Bill imediatamente baixa a mão do missionário e fura sua mão com a caneta, dizendo:
— Aqui está o meu autógrafo.
E saca sua arma apontando-a para o rosto do missionário, enquanto este diz:
— Que Deus amaldiçoe sua alma com o fogo do inferno.
— Ele já o fez.
E atira no peito do missionário.
Bill finge não conhecer o índio e lhe pede licença para dar o autógrafo. Ao pegar a caneta, o missionário do Posto saca o revólver para matá-lo. Bill imediatamente baixa a mão do missionário e fura sua mão com a caneta, dizendo:
— Aqui está o meu autógrafo.
E saca sua arma apontando-a para o rosto do missionário, enquanto este diz:
— Que Deus amaldiçoe sua alma com o fogo do inferno.
— Ele já o fez.
E atira no peito do missionário.
13. 1ª etapa: no rio
De repente, abre a porta um outro funcionário do posto que tinha ouvido o estampido do tiro, com uma arma em punho. Faz um primeiro disparo, do qual Bill se desvia e dispara quatro vezes contra o funcionário.
— Parabéns, diz o índio.
— Estou cansado, responde Bill.
O índio entrega-lhe a Winchester, dizendo que vai descarregar os cavalos. Enquanto o índio vai se ocupar dos cavalos, Bill se dirige a uma canoa que estava ali para transporte de pessoas.
De repente ouve-se um tiro disparado à distância e Bill é atingido, pois sente a dor que o aflige. Vira-se e dispara um tiro certeiro contra outro funcionário do Posto.
Logo em seguida, chega o índio que presenciara à distância o ocorrido e que voltava com o equipamento que os cavalos carregavam e vai logo dizendo:
— Vejo que você coletou mais um pouco de metal de homem branco.
— Sim. Parece que sou um ímã para isso.
O índio busca apoiá-lo para se levantar e entrar na canoa. Bill geme:
— Ai!
— Belo dia para um passeio de canoa, diz o índio, colocando o carregamento dos cavalos na canoa e deitando Bill numa das pontas da canoa. Depois, arrasta a canoa até o rio.
De repente, abre a porta um outro funcionário do posto que tinha ouvido o estampido do tiro, com uma arma em punho. Faz um primeiro disparo, do qual Bill se desvia e dispara quatro vezes contra o funcionário.
— Parabéns, diz o índio.
— Estou cansado, responde Bill.
O índio entrega-lhe a Winchester, dizendo que vai descarregar os cavalos. Enquanto o índio vai se ocupar dos cavalos, Bill se dirige a uma canoa que estava ali para transporte de pessoas.
De repente ouve-se um tiro disparado à distância e Bill é atingido, pois sente a dor que o aflige. Vira-se e dispara um tiro certeiro contra outro funcionário do Posto.
Logo em seguida, chega o índio que presenciara à distância o ocorrido e que voltava com o equipamento que os cavalos carregavam e vai logo dizendo:
— Vejo que você coletou mais um pouco de metal de homem branco.
— Sim. Parece que sou um ímã para isso.
O índio busca apoiá-lo para se levantar e entrar na canoa. Bill geme:
— Ai!
— Belo dia para um passeio de canoa, diz o índio, colocando o carregamento dos cavalos na canoa e deitando Bill numa das pontas da canoa. Depois, arrasta a canoa até o rio.
14. Na aldeia indígena
“Ninguém” está numa ponta remando o barco, enquanto Bill continua na mesma posição que ocupava no barco: na outra ponta do barco e deitado de costas, olhando diretamente nos olhos do índio.
— Ninguém? Este é o barco que vai me levar através do espelho d'água?
— Não. Este barco não é forte o bastante, William Blake.
E o índio põe-se a cantar no seu dialeto "Ele é um grande amigo meu".
No trajeto rio abaixo, atravessam por uma região indígena incendiada. (...)
— Não. Este barco não é forte o bastante, William Blake.
E o índio põe-se a cantar no seu dialeto "Ele é um grande amigo meu".
No trajeto rio abaixo, atravessam por uma região indígena incendiada. (...)
“Ninguém” admira um alce majestoso nas margens do rio, enquanto Bill está imerso numa sonolência.
“Ninguém” volta a cantar.
“Ninguém” volta a cantar.
De repente, eles interrompem a viagem e são recepcionados por uma comunidade indígena, ajudando “Ninguém” a desembarcar. Há uma breve comunicação entre eles em sua língua nativa. “Ninguém” diz ao amigo:
— Levante-se, William Blake.
Ao sair do barco, apoiado por “Ninguém” e outro índio, ele cai no chão.
Ao tombar uma segunda vez no solo, “Ninguém” lhe diz:
— Ande com orgulho, William Blake.
Bill sai cambaleando por toda a aldeia, observando cada detalhe no seu caminho.
Chegaram a uma praça, em cujo centro havia três caciques.
“Ninguém” coloca Bill recostado numa espécie de grande tacho de madeira em posição vertical.
— Vê aquele homem ali? Eu o conheço. Ele é um grande construtor de canoas para o mar.
“Ninguém” se afasta e vai falar com os três homens, seguido por toda a população adulta da aldeia.
Atrás deles há um monumento de madeira encimado por um rosto esculpido. Após a conversa, os três convidam Ninguém a entrar no monumento que se abre para admitir a sua entrada, após o que, se fecha. O que aconteceu lá dentro é que “Ninguém” parece ter conseguido uma autorização dos líderes para fazer um ritual de passagem para o Além para o seu amigo William Blake. Bill fica do lado de fora admirando com um olhar delirante os circundantes e várias figuras e objetos da aldeia.
— Levante-se, William Blake.
Ao sair do barco, apoiado por “Ninguém” e outro índio, ele cai no chão.
Ao tombar uma segunda vez no solo, “Ninguém” lhe diz:
— Ande com orgulho, William Blake.
Bill sai cambaleando por toda a aldeia, observando cada detalhe no seu caminho.
Chegaram a uma praça, em cujo centro havia três caciques.
“Ninguém” coloca Bill recostado numa espécie de grande tacho de madeira em posição vertical.
— Vê aquele homem ali? Eu o conheço. Ele é um grande construtor de canoas para o mar.
“Ninguém” se afasta e vai falar com os três homens, seguido por toda a população adulta da aldeia.
Atrás deles há um monumento de madeira encimado por um rosto esculpido. Após a conversa, os três convidam Ninguém a entrar no monumento que se abre para admitir a sua entrada, após o que, se fecha. O que aconteceu lá dentro é que “Ninguém” parece ter conseguido uma autorização dos líderes para fazer um ritual de passagem para o Além para o seu amigo William Blake. Bill fica do lado de fora admirando com um olhar delirante os circundantes e várias figuras e objetos da aldeia.
O povo da aldeia parece compassiva e empática com o seu estado.
15. 2ª etapa: no mar
Bill jaz ao lado da canoa numa espécie de praia de mar, quando acorda. Está usando uma espécie de cocar e na canoa são colocadas inúmeras ornamentações da cultura indígena, indispensáveis para o seu descanso eterno. Desta forma, sua canoa está preparada para uma grande viagem pelo mar.
— Olá, diz ele a “Ninguém” que o repousa no interior da canoa.
— Eu preparei sua canoa com ramos de cedro.
Em seguida, informa:
— É hora de você partir, William Blake. Hora de você partir para o lugar de onde você veio.
— Você fala de Cleveland?
— De volta para o lugar do qual todos os espíritos vieram e para onde todos os espíritos retornam. Este mundo não vai mais lhe interessar.
Neste momento passa um rolo de fumo a “Ninguém”, dizendo:
— Achei um pouco de fumo.
— O fumo é para sua viagem, William Blake.
Foram estas as últimas palavras de “Ninguém”, encorajando-o a viajar através do espelho d'água.
A seguir, empurra a canoa transportando seu amigo.
Bill ainda diz:
— “Ninguém”, eu não fumo.
Enquanto “Ninguém” fica em terra e com a mão direita aberta o abençoa pela última vez.
— Aho, William Blake.
Bill ainda vê o amigo na praia, no sopé de uma montanha, enquanto a canoa se afasta lentamente, não sem antes presenciar um duelo entre Cole Wilson e “Ninguém”, em que ambos foram alvejados, tombando mortos.
A canoa lentamente desaparece no horizonte...
— Olá, diz ele a “Ninguém” que o repousa no interior da canoa.
— Eu preparei sua canoa com ramos de cedro.
Em seguida, informa:
— É hora de você partir, William Blake. Hora de você partir para o lugar de onde você veio.
— Você fala de Cleveland?
— De volta para o lugar do qual todos os espíritos vieram e para onde todos os espíritos retornam. Este mundo não vai mais lhe interessar.
Neste momento passa um rolo de fumo a “Ninguém”, dizendo:
— Achei um pouco de fumo.
— O fumo é para sua viagem, William Blake.
Foram estas as últimas palavras de “Ninguém”, encorajando-o a viajar através do espelho d'água.
A seguir, empurra a canoa transportando seu amigo.
Bill ainda diz:
— “Ninguém”, eu não fumo.
Enquanto “Ninguém” fica em terra e com a mão direita aberta o abençoa pela última vez.
— Aho, William Blake.
Bill ainda vê o amigo na praia, no sopé de uma montanha, enquanto a canoa se afasta lentamente, não sem antes presenciar um duelo entre Cole Wilson e “Ninguém”, em que ambos foram alvejados, tombando mortos.
A canoa lentamente desaparece no horizonte...
Link: https://www.youtube.com/watch?v=ffAw1UercM8 (filme completo e legendado)
IV. NOTAS EXPLICATIVAS
¹ O Peyote é uma planta nativa do Norte da América Central. É um cacto, que era utilizado pelos índios do México em rituais religiosos. O caroço da planta é chamado de botão. Utilizado em rituais, o botão era mascado ou misturado com bebidas e seus efeitos duravam de dois a três dias.
Nos rituais xamânicos — como é o caso de “Ninguém” — cada pessoa consome de 6 a 8 cactos, de 3 anos de idade cada. Quanto mais velho for o cacto, mais Mescalina (alucinógeno natural e princípio ativo mais importante encontrado no cacto Peyote) ele possui. Nos rituais a maneira mais fácil de consumir o cacto é comendo-o.
O Peyote era considerado um protetor espiritual, pois fazia com que os índios não sentissem medo, fome ou sede. Era utilizado como amuleto sagrado, panacéia (remédio para todos os males) e para provocar visões, que permitiam fazer profecias. Também era utilizado pelos índios para a comunicação com Deus: eles acreditavam que o Peyote era um intermediário que fazia o papel de um padre, que por isso não era necessário.
Quando os colonizadores espanhóis chegaram na América Central, o hábito de usar o Peyote nos rituais religiosos já era muito comum e foi por eles denominado “artifício satânico”, já que acreditavam que evocava espíritos malignos. Além de provocar grande controvérsia, o hábito foi fortemente condenado pelo governo local e por diversos grupos religiosos.
O Peyote era considerado um protetor espiritual, pois fazia com que os índios não sentissem medo, fome ou sede. Era utilizado como amuleto sagrado, panacéia (remédio para todos os males) e para provocar visões, que permitiam fazer profecias. Também era utilizado pelos índios para a comunicação com Deus: eles acreditavam que o Peyote era um intermediário que fazia o papel de um padre, que por isso não era necessário.
Quando os colonizadores espanhóis chegaram na América Central, o hábito de usar o Peyote nos rituais religiosos já era muito comum e foi por eles denominado “artifício satânico”, já que acreditavam que evocava espíritos malignos. Além de provocar grande controvérsia, o hábito foi fortemente condenado pelo governo local e por diversos grupos religiosos.
² Aqui finalmente William Blake aceita o que realmente ele é. Ele se aceita como é, na sua integridade. Nem tudo é verdadeiro, mas ele não pode construir um navio para parar as nuvens.
³ Expressão sagrada de origem indígena norte-americana, usada para significar “assim seja” ou “gratidão”.
⁴ Citação dos dois primeiros versos do poema Everlasting Gospel do poeta inglês William Blake:
The vision of Christ that thou dost see
Is my vision’s greatest enemy. (...)
Is my vision’s greatest enemy. (...)

