sábado, 22 de agosto de 2026

RECUPERE SEU LATIM > > PARTE 23: CÍCERO: CARTAS

Tradução literal do latim, comentários e bibliografia sugerida por Francisco José dos Santos Braga 
Marco Túlio Cícero (✰ 106 a.C., Arpino ✞ 43 a.C., Fórmias)

I. INTRODUÇÃO: visão geral sobre as cartas, sua autoria e seus correspondentes 

Para introduzir o leitor no tema das Cartas de Cícero a Ático, julgo oportuno tomar emprestado o trecho inicial da Introdução das Cartas de Cícero I. Cartas a Ático I, livro publicado pelo Editorial Gredos, mencionado na bibliografia e traduzido por mim do espanhol:
“INTRODUÇÃO por Miguel Rodríguez-Pantoja Márquez 
Os 16 livros de Cartas a Ático contêm quase 50% da correspondência ciceroniana conservada que, se somarmos as respostas de outras pessoas (algo mais de 70), alcança a cifra total de 931 cartas. São, juntamente com as dirigidas a seu irmão Quinto, as mais "privadas" do corpus, tanto no conteúdo (Cícero se expressa muitas vezes com grande espontaneidade, deixando transparecer seus sentimentos mais íntimos ou suas opiniões mais discutíveis) quanto na forma: utiliza o sermo cotidianus das classes cultas de seu tempo, não dessa cadência rítmica das frases que tão zelosamente elabora em boa parte de suas obras (sem excluir não poucas das cartas dirigidas a muitos destinatários), concede amplo espaço à língua grega (não só nas citações e frases, mas também na redação de passagens inteiras como recurso  por sinal algo muito significativo do ponto de vista cultural  para ocultar  questões especialmente delicadas das leituras indiscretas dos entregadores). 
Nelas Marco Túlio "conversa" aberta e livremente com o que tem como seu melhor amigo (e conhecido é o valor que dava a esta palavra que, inclusive, foi autor de um tratado, Sobre a Amizade) e a ele confia, comenta e consulta sobre todo tipo de questões, políticas sem dúvida (...), mas também sociais e pessoais. Ao mesmo tempo, as cartas esporadicamente intercaladas de seus correspondentes permitem conhecer outros pontos de vista e outras formas de se expressar. 
A leitura atenta destas páginas, que abarcam cronologicamente 25 anos decisivos na história do Ocidente  de novembro de 68 a novembro de 44 —, proporciona um excelente posto de observação para contemplar o vaivém cotidiano de pessoas e instituições que integram (ou talvez melhor, desintegram) uma sociedade em crise. (...)

Complementarmente a essas informações, a Wikipédia acrescenta outros dados muito curiosos, que apresentamos aqui para apreciação do leitor:

A coleção Epistulae ad Atticum compreende 16 livros e foi publicada antes de 66 pelo editor e empresário romano Atticus, destinatário desta correspondência de Cícero, da qual era fiel amigo e confidente. “Mais do que todos os outros, Atticus era amado por Cícero, que não tinha um afeto mais intenso e próximo por seu irmão Quinto”, diz Cornelius Nepos, seu colaborador e biógrafo. Desta amizade quotidiana, restam 454 cartas a Atticus (das 813 cartas de Cícero que chegaram até nós) que se retiram do diário e dizem respeito às mais diversas questões. Cornelius Nepos afirmou que Atticus coletou a correspondência em 11 livros. 
Foi Francisco Petrarca quem deu a conhecer as Cartas de Cícero a Ático, preservadas em um manuscrito descoberto em 1345 na biblioteca do capítulo de Verona, do qual ele mandou fazer uma cópia. Esta cópia foi usada pelas edições importantes destas obras, como a de Paolo Manuzio, no século XVI.
A coleção das cartas de Cícero é indubitavelmente a parte mais valiosa e interessante de sua obra literária. Inclui cerca de 800 cartas escritas por ele e perto de 100 por ele recebidas de uma ampla variedade de correspondentes. As cartas cobrem um imenso leque de tópicos, mas acima de tudo fornecem um quadro vivo do próprio Cícero.

Tomando como referencial o pano de fundo acima citado, passemos a apreciar trechos de duas cartas a seu amigo Ático, cujo nome completo era Tito Pompônio Ático (em latim, Titus Pomponius Atticus).

Cicero e seus dois Amigos, Ático and Quinto, em sua Villa em Arpinum (1769-70), pelo pintor Richard Wilson - Ashmolean Museum
 
II. TEXTO, TRADUÇÃO E COMENTÁRIOS
 
1) Cartas de Cícero ao amigo Ático 

a) Livro III, carta XXVI 
Scr. Dyrrachi m. Ianuario a. 697 ¹ (57 A.C.).
CICERO ATTICO SAL.  ²
Litterae ³ mihi a Quinto fratre cum senatus consulto quod de me est factum adlatae sunt. Mihi in animo est legum lationem exspectare et, si obtrectabitur, utar auctoritate senatus et potius vita quam patria carebo. Tu, quaeso, festina ad nos venire.
 
Comentário: Para tradução desse texto, proponho alterar a ordem de certas palavras para maior simplificação no nosso trabalho para a seguinte construção:
Adlatae sunt mihi litterae a fratre Quinto cum consulto senatus quod factum est de me.
Recebi uma carta do (meu) irmão Quinto juntamente com um decreto aprovado no senado, sobre mim.
Est mihi in animo expectare lationem legum, et, si obtrectabitur, utar auctoritate senatus, et carebo potius vita quam patria
É minha intenção esperar que as leis sejam votadas, e, se se houver oposição, usarei da autoridade do senado, e terei antes privação da vida do que da pátria.
Tu, quaeso, festina venire ad nos.
Quanto a ti, peço, apressa-te em vir até mim (nós).  
 
¹ (Litterae) scriptae Dirrachi  mense Ianuario anno 697 (57 A.C.)
Ab urbe condita 697 ou anno urbis conditae 697: no ano 697 da fundação de Roma ou 57 A.C. no nosso calendário.

² A abertura combinava o nome de quem escrevia (no caso nominativo), o nome de quem recebia (no caso dativo) e a saudação. Exemplo: 
Cicero Attico salutem. 
Tradução: "Cícero [deseja] saúde a Ático" ou "Cícero (envia) saudações a Ático" ou ainda "Cícero (envia) cumprimentos a Ático".
Observe que a palavra latina salus assume diversas acepções, dependendo do contexto em que for usada. Pode significar saúde (física e mental), saudação ou cumprimento, ou ainda salvação/segurança/bem-estar. Neste último caso, não nos esqueçamos do célebre aforismo de Cícero: Que o bem-estar do povo seja a lei suprema (em latim: Salus populi suprema lex esto), mencionado em sua obra jurídica e política De Legibus (Das Leis), especificamente no Livro III.

³ Pluralia tantum são palavras que só existem ou só se usam no plural.
Como em português, também no latim alguns substantivos só registram o número plural e se referem a um único objeto e só possuem essa forma. É o caso de castra (acampamento), insidiae (emboscada), etc. 
Litterae (carta) não é um exemplo estrito de pluralia tantum em latim, porque a palavra existe também no singular (littera), com o significado de letra.
 
 
⁴ O antigo Dyrrachium, situado na Illyria, hoje Durrës, estava localizado na costa da Albânia, às margens do Mar Adriático, o terminal ocidental da Via Egnácia, a grande estrada romana que cortava os Bálcans até Bizâncio (atual Istambul). Era por ali que Cícero recebia de forma mais rápida as cartas, boatos e notícias políticas vindas da capital durante este seu exílio. 
Nas cartas de Cícero, essa cidade portuária ganha enorme relevância porque foi o seu principal refúgio durante o exílio em 58 a.C., além de ter sido um ponto estratégico fundamental de comunicações e logística na República Romana. 
 
b) Livro III, carta XXVII
Scr. Dyrrachi ex. m. Ian. a. 697 (57 A.C.).
CICERO ATTICO SAL.

ex tuis litteris et ex re ipsa nos funditus perisse video. te oro ut quibus in rebus tui mei indigebunt nostris miseriis ne desis. ego te, ut scribis, cito videbo.

Da tua carta e pela própria situação, vejo que estou completamente arruinado. Nos assuntos em que os meus (minha família) precisam de tua ajuda, suplico-te que não nos desampares em nossa miséria. Conforme tua carta, ver-te-ei em breve. 
 
2) Carta de Cícero a sua esposa Terência
 
c) Livro LXIV, carta 22 
Scr. Brundisii  an. 707 (47 A.C.) 
TULLIUS S. D. TERENTIAE SUAE 
 
S. v. b. e.; e. v.  Nos cotidie tabellarios nostros exspectamus; qui si venerint, fortasse erimus certiores quid nobis faciendum sit, faciemusque te certiorem statim. Valetudinem tuam cura diligenter. Vale. 
K. Septemb.
 
(Carta) escrita em Brundisi no ano 707 (47 A.C.)
Túlio envia saudações a sua (esposa) Terência
 
Se vais bem, alegro-me; eu vou bem. Todos os dias espero nossos mensageiros. Se eles vierem, talvez ficarei ciente do que devo fazer, e te mantenha informada imediatamente. Cuida diligentemente de tua saúde. Passa bem!
Nas calendas de setembro.
 
 Brundisium (conhecida hoje como Brindisi) ficava localizada na região da Apúlia (Puglia), no sudeste da Itália. A cidade está situada exatamente no "salto da bota" da península italiana, banhada pelas águas do Mar Adriático. Na época, a cidade era o destino final da famosa Via Ápia, a estrada monumental que ligava Roma ao sul do país.
 
 Si vales, bene est; ego valeo. Era comum, na época de Cícero, o uso de diversas fórmulas abreviadas em latim e usadas no cabeçalho para saudar o destinatário.
Nesta carta, há dois tipos dessas fórmulas: S. D. (Salutem Dicit, significando "diz saudações" ou "envia saudações") e S. v. b. e.; e. v. (Si vales, bene est; ego valeo.)
 
3) Carta de Cícero a Curião
 
d) Livro II Ad familiares, carta 4 

Scr. Romae an. 701 (53 A.C.) 
CICERO S. D. C.  CURIONI 

Epistularum genera multa esse non ignoras sed unum illud certissimum, cuius causa inventa res ipsa est, ut certiores faceremus absentis si quid esset quod eos scire aut nostra aut ipsorum interesset. (...)

Carta escrita em Roma no ano 701 (53 A.C.)
Cícero envia saudações a Curião e aos demais 

Você bem sabe que existem muitos gêneros de cartas, mas um por excelência, por causa do qual a coisa mesma foi inventada, para que mantivéssemos os ausentes informados do que acontece, que importaria ou a nós ou a eles próprios saber. (...)
 
 Nas cartas de Cícero, a sigla S.D.C. significa Salutem Dicit Ceterisque (ou variantes como Salutem Dicit Ceteris). Esta é outra fórmula utilizada na abertura (cabeçalho) da correspondência quando o remetente desejava saudar o destinatário principal e também as demais pessoas ligadas a ele, como familiares, amigos próximos ou membros de uma mesma comitiva, sem precisar listar o nome de cada um individualmente.
 
⁸ O nome completo de Curião, o famoso amigo e correspondente de Cícero, é Caio Escribônio Curião (em latim, Gaius Escribonius Curio). Foi tribuno da plebe em 50 a.C. e amigo íntimo de Marco Antônio. Apesar de sua juventude rebelde e cheia de escândalos, Cícero gostava muito dele, tentou atuar como seu mentor político e lhe enviou várias cartas que sobreviveram na coletânea Epistulae ad Familiares. Mais tarde, Curião mudou de lado e morreu lutando por Júlio César na Guerra Civil. 
 
III. BIBLIOGRAFIA 
 
BRAGA, F. J. S.: RECUPERE O SEU LATIM > > PARTE 3, matéria publicada em 16/12/2017 pelo Blog do Braga
 
______________: CONSPIRAÇÃO CONTRA A REPÚBLICA ROMANA (65-63 a.C.), matéria publicada em 11/04/2016 pelo Blog do Braga
 
______________: RECUPERE SEU LATIM > > PARTE 19, matéria publicada em 15/03/2024 pelo Blog do Braga
 
______________:  RECUPERE SEU LATIM > > PARTE 21: SOBRE IDADE AVANÇADA, POR CÍCERO, matéria publica em 02/06/2025 pelo Blog do Braga
 
CÍCERO, Marco Túlio: Cartas I. Cartas a Ático I. Madri: Editorial Gredos, 1996, introdução, tradução e notas por Miguel Rodríguez-Pantoja Márquez
Link: https://archive.org/details/ciceron-marco-tulio.-cartas-i.-cartas-a-atico-i-g-1996_202202/page/n1/mode/2up 
 
COSTA, Rafaela Manha da: Cícero e sua relação de amicitia com Ático: dinâmicas financeiras (IAEC), dissertação apresentada à Faculdade de Ciências Humanas e Sociais, Universidade Estadual Paulista “Júlio de Mesquita Filho”, como pré-requisito para obtenção do Título de Mestre em História, 2025, 209 p.
 
WIKIPÉDIA: verbete "Lettres à Atticus"