Por Alkyóni Papadáki
Traduzido do grego por Francisco José dos Santos Braga
Traduzido do grego por Francisco José dos Santos Braga
I. INTRODUÇÃO: apresentação da obra
Lançado
originalmente em 1991 e reeditado por editoras
importantes na Grécia (como a Kaléntis), o livro é considerado um dos
maiores sucessos da carreira da escritora grega Alkyóni Papadáki, considerado um verdadeiro fenômeno cultural e de vendas na Grécia. A obra fez tanto sucesso no país que acabou sendo adaptada para uma série de televisão de grande audiência em 1996 pelo canal grego Antenna (ANT 1), consolidando ainda mais o título no imaginário popular do país. Também foi laureada na Grécia com o 1º prêmio da Sociedade de Literatos Gregos.
A história é conhecida por seu tom poético, alegórico e profundamente sensível, misturando reflexões sobre os sonhos (que ela descreve como "cor de crepúsculo"), a solidão (representada na cor violeta) e o amor (que tem "a cor da lua cheia"). Embora tenha sido traduzido para idiomas como o espanhol (El color de la luna), o inglês (The Colour of the Moon) e o alemão (Die Farbe des Mondes), "A Cor da Lua" foi e permanece emocionante obra literária infanto-juvenil grega e um aclamado romance social da renomada autora grega Alkyóni Papadáki.
Estilo e Temática
A obra destaca-se por sua escrita altamente lírica, metafórica e alegórica, característica marcante da prosa de Papadáki. No livro, a autora utiliza personificações e diálogos poéticos profundos entre elementos da natureza (como uma estrela, uma árvore ou uma cerejeira) para refletir sobre os sentimentos humanos e grandes questões existenciais.
Os diálogos exploram as "cores" abstratas das emoções e das fases da vida:
• A tristeza: tem a cor do mar agitado quando o sol se põe (um azul profundo e selvagem).
• Os sonhos: têm a cor do crepúsculo.
• A solidão: tem a cor da violeta.
• O amor apaixonado (Érotas): tem a cor da lua cheia.
O estilo da autora é frequentemente definido como um realismo lírico.
Metáforas Sensoriais
Papadáki usa a natureza, os elementos do cotidiano e a própria luz (ou a falta dela, como a "cor da lua") para externalizar sentimentos internos. A lua, o mar e o vento frequentemente ganham contornos antropomórficos, agindo como espelhos da solidão, do amor ou da busca de identidade dos personagens.
Papadáki usa a natureza, os elementos do cotidiano e a própria luz (ou a falta dela, como a "cor da lua") para externalizar sentimentos internos. A lua, o mar e o vento frequentemente ganham contornos antropomórficos, agindo como espelhos da solidão, do amor ou da busca de identidade dos personagens.
O Legado da Obra
O livro "A Cor da Lua" serve como uma jornada filosófica de autoconhecimento e amadurecimento emocional, repleto de aforismos e lições de vida sobre a raridade dos momentos felizes e a importância de manter os "olhos do coração" abertos para o mundo. É muito apreciado no cenário da literatura grega contemporânea pela delicadeza com que constrói seus personagens e transmite sua mensagem social e romântica.
Finalmente, uma das características mais marcantes da obra da autora é o uso de uma linguagem cotidiana que ecoa o falar natural do povo grego. Ao trazer expressões idiomáticas nativas, metáforas, provérbios e ditos populares e nuances culturais para o texto, Papadáki aproxima o leitor da psicologia e da alma de seus personagens, conferindo autenticidade e calor à narrativa. Essas expressões não servem apenas como decoração; elas revelam a bagagem psicológica, a origem social e a visão de mundo dos personagens. Mais do que isso, ela consegue transformar a oralidade grega em alta literatura, evidenciando sua habilidade de unir o popular ao poético.
Resumindo, pode-se dizer que a união desses elementos permite à autora alcançar uma universalidade — embora a linguagem seja profundamente grega e as dores e amores descritos sejam puramente humanos.
II. TEXTO TRADUZIDO
Frequentemente aos domingos, Fótis tomava o atalho da colina, e subia até o sopé da montanha. Ia à casinha do velho-Gideão.
O velho amava muito o menino. Emprestava-lhe livros, conversava com ele sobre o ser humano, sobre a vida, sobre as grandes cidades.
Fótis era o seu único amigo. Certamente também o eram os quatro pintassilgos na gaiola, bem como os pássaros dos campos, para os quais jogava farelos no pátio e cujas canecas enchia com água. Mas o menino tinha um encanto diferente.
O velho-Gideão! Com aqueles seus olhos azuis escuros. Dois mares bravios que esperavam, dançando, o amanhecer.
— Mas como você ficou tão sozinho? — o menino se perguntava intrigado.
— Como assim? Tenho meus pensamentos. Tenho as roseiras. Os pintassilgos! Tenho você, meu mais caro amigo... Através de uma frestinha passa todo o amor do mundo, rapaz. Assim como a linha pelo buraco da agulha. Por conta própria (você sabe) quem é? Aquele que armazena dentro de si a solidão. Você não se cansa de ficar sozinho... O pior é resmungar. Permitir que escorra fel dos seus lábios. Saboreia a sua porção com alegria, sem sujar o lugar onde moras. Toma tua bebida com moderação, e diz (de onde sabes?): são tantas coisas boas que podem me acontecer a todo momento!
— Mas existem algumas pessoas que têm muitos sofrimentos.
Vejo minha mãe, minha avó.
— As amarguras são mais numerosas. Mas posso dizer-te uma coisa? Existem milhares de conchas nas praias. É preciso buscá-las para as encontrares. Eu tenho setenta anos. Talvez até mais. Que importância tem isso? Não penses que sei muitas coisas sobre o cosmo ¹. E ainda menos sei sobre mim mesmo. Busco, porém. Não me basta uma vida para a busca saciar-me...
— Tiveste sorte por viveres tantos anos.
— E quem te disse como os anos contam, amigo? As horas contam. Os momentos. Tudo que vives em cada momento, tudo que vivemos.
— Não temes que morrerás?
— Hoje, pelo menos, estou vivo. Sabes quão importante é isso? Agora estamos juntos!Aperto as tuas mãos, te olho nos olhos. Nunca permitas que o hoje se murche. Não deixes a vida esvair-se como a areia por entre teus dedos. Entendeste? Vive! Não dês o Hoje como penhor daquilo que alguns bolorentos entendem por Amanhã ². O Hoje é só teu, amigo. Ama-o!
Era assim que falavam frequentemente. Depois, saíam ao jardim para regar as roseiras, para limpar as gaiolas, para encher as canecas de água para os pássaros dos campos. E quando terminavam esses serviços, retornavam à cozinha e bebiam tsípouro ³.
— Ei! Tu. Não queiras competir comigo na bebida. És menino. Traz um pouco de grão-de-bico torrado do armário. Lembra-me de te dar, quando fores embora, umas balas para as meninas.
E velho-Gideão "entornava" o tsípouro como se fosse água e sorria.
E as meninas dos olhos dele faziam uma ondinha e dançavam. Dois mares escuros tempestuosos que esperavam sempre algum amanhecer.
— À tua saúde, menino...
Há certas pessoas, bem sabes, que ficam sentadas completamente sós, à beira-mar e ficam à espera. Dias, meses, anos... Sentam-se num rochedo e esperam das profundezas do horizonte aparecer o navio. Aquele navio, cuja chaminé foi decorada com a Primavera e cujo leme é guiado pelas aves marinhas. Sabem que ele não virá. Não aches, jamais penses que essas pessoas são tolas. Fica descansado! Sabem muito bem aonde vão os navios, porque vão, quais pessoas controlam os lemes deles. Mas continuam à espera... Estão completamente solitárias ali à beira-mar. A fronte delas está salgada. As mãos delas estão queimadas pelo sol. Os olhos delas, duas canecas que dão de beber água às aves do campo. E ficam à espera... Às vezes, ali mesmo onde estão sentadas em seu rochedo, piscam o olho para Deus. "Beleza, parceiro. Nós nos conhecemos bem. Tudo bem!" E depois se sentam de novo no seu posto e contemplam o mar aberto. [Vamos lá, à tua saúde! Tens ainda muito caminho pela frente.]" ⁴ Agora o teu coração está cheio de pólvora. Ai de ti se não a fizeres explodir algumas vezes. [Traz um pouco de tsípouro ainda. Vamos lá, dá-me essa alegria!]
Certo dia, o velho-Gideão olhava no seu jardim para uma rosa cor-de-rosa que lacrimejou. ⁵
— Parece o sorriso de Melpo ⁶ —, murmurou.
A seguir, pegou o seu olhar e o lançou para o fim do horizonte, como um pequeno seixo.
— Vês as nuvens, Fótis? Vai chover. O tempo piorou; que o diabo o leve! Vamos lá, entremos na gaiola.
III. NOTAS EXPLICATIVAS
¹ Esta frase é uma belíssima demonstração de humildade do velho-Gideão, que, apesar de toda a sua sabedoria, confessa as suas limitações ao menino Fótis.
² A expressão "o hoje como penhor do amanhã" significa usar o presente (as ações, escolhas e atitudes de agora) como uma garantia, promessa ou segurança de um futuro melhor.
³ Aguardente feita a partir do bagaço de uva, muito forte e transparente, semelhante à grappa italiana ou ao bagaço português.
⁴ Indicação de que alguém é jovem e tem toda uma vida para viver e descobrir.
⁵ A rosa cor-de-rosa cobriu-se de lágrimas (ou seja, de orvalho).
⁶No livro de Alkyóni Papadáki, a personagem fictícia Melpo desempenha um papel profundamente simbólico, atuando como uma espécie de ancoragem emocional e ideal de beleza ou pureza para as memórias dos personagens. O nome dela é evocado sempre que os personagens precisam descrever algo de extrema doçura, beleza ou leveza, como uma rosa cor-de-rosa coberta de orvalho. O sorriso de Melpo simboliza a inocência, a alegria genuína e a esperança em meio às amarguras cotidianas que o velho-Gideão tanto debate com Fótis.
Melpo funciona exatamente como essa lembrança viva de alguém que passou pela vida do velho-Gideão (ou de Fótis) e deixou uma marca de tamanha leveza que o seu simples sorriso virou sinônimo de beleza para eles.
O nome Melpo é o diminutivo de Melpómene, que ironicamente na mitologia grega clássica é a Musa de Tragédia. No entanto, na escrita de Papadáki, o nome ganha contornos de ternura humana, representando aquela pessoa cuja simples lembrança ou presença consegue suavizar o "fel" e o peso da solidão do mundo.
Melpo funciona exatamente como essa lembrança viva de alguém que passou pela vida do velho-Gideão (ou de Fótis) e deixou uma marca de tamanha leveza que o seu simples sorriso virou sinônimo de beleza para eles.
O nome Melpo é o diminutivo de Melpómene, que ironicamente na mitologia grega clássica é a Musa de Tragédia. No entanto, na escrita de Papadáki, o nome ganha contornos de ternura humana, representando aquela pessoa cuja simples lembrança ou presença consegue suavizar o "fel" e o peso da solidão do mundo.
