Traduzido do grego por Francisco José dos Santos Braga
O trecho traduzido refere-se às páginas 24-27, 43-46 e 55 do livro.
Capa do livro "O nosso Pátio" de Maria Iordanídou, ed. Vivliopoleíon tis Estias, 1983.
Quando viemos para esta casa, a primeira coisa que me captou o olhar logo que saí para a sacada foi a sacadinha da frente, que tinham cercado com arame até em cima e parecia com um galinheiro ou jaula de uma fera selvagem. Dentro dessa jaula uma criança de cerca de três anos andava de um lado para o outro como animalzinho preso. Num canto da sacada brinquedos estavam amontoados pelo chão. Nossa Senhora! Quantos brinquedos: grandes carrinhos de plástico, bonecos enormes, elefantes, cavalos, todos inanimados. Porém, a criança não se vira para vê-los. Com suas duas mãos segura a grade e enfia a carinha através da fresta, tentando ver os gatos que andam de um lado para o outro embaixo no pátio. Ou tenta agarrar-se à grade, enganchar-se no arame e trepar mais alto. Certamente se tirarem o arame dessa sacada, a criancinha trepará na grade e cairá, porque lhe falta o sentido do perigo.
Fora o drama da criança da frente, a minha sacada começou a me divertir. Tenho a impressão de que me encontro em camarote de teatro de marionetes. Marionete de verdade. Toda janela, ou antes, toda porta de sacada, é também um palco. Aqui a gente vê uma Giorgina ¹ adornar-se e mais ali vê o Punch ² bater em Judy.
No terceiro andar do edifício fronteiriço, está de pé defronte à janela um homem robusto com maiô e dá socos em uma bola que pende do teto. Deve ser um pugilista e se exercita, parece. Na outra janela, está de pé uma dona de casa em frente a uma tábua de passar roupa e passa uma saia.
No piso térreo do mesmo prédio um homem de meia idade empunha uma bengala e persegue um gato para matá-lo.
Sinto uma pena imensa daquela criança na sacada da frente. Não posso vê-la como um animalzinho atrás dos arames. Quando eu tinha a idade dela, moramos numa casa de três andares que tinha duas escadas verticais como essas de navio e, no entanto, não me despenquei delas. Muitas vezes ao dia subia e descia nelas. Ninguém me dizia para não fazê-lo. Nem me trancaram atrás dos arames para me protegerem. Circulava livre na casa, e quando ficava inquieta, minha avó me fazia sentar no chão e esvaziava diante de mim o saco com os botões. Os botões que eram juntados ano após ano de roupas velhas que eram para jogar fora. Com aqueles botões tinham brincado todas as crianças da família. Talvez até a minha própria avó. Que lindos botões eram aqueles! Botões de osso, botões de chifre de animal, botões de madre-pérola e de marfim. A madre-pérola, tinha-me dito minha avó, era de conchas. Os botões de marfim eram de dente de elefante. Horas inteiras passava brincando, com tal doçura que me dava água na boca. (...)
Possivelmente faltassem muitas coisas às crianças da minha época, mas tinham espaço para moverem-se dentro da casa. E a mais pobre casinha daquela época tinha mais espaço interior do que o apartamento de dois cômodos dos atuais edifícios. Depois, tínhamos a rua. Em Istambul, bandos de crianças, na maioria rapazes, transpunham muitas vezes as fronteiras do seu bairro e desapareciam horas a fio. Muitas vezes, nas fronteiras de dois subúrbios, eram misturadas duas nacionalidades, e você escutava os meninos falarem um incrível esperanto feito de grego moderno, turco, hebraico, armênio. Em 1960, quando tínhamos ido Nelly e eu para Istambul, quando encontramos um capitão turco dentro dum barquinho a vapor que ia para as Ilhas dos Príncipes, espantamo-nos com a sua bela língua grega. Perguntamos-lhe onde a aprendeu. Ele sorriu.
— Aprendi-a brincando com filhos de gregos na rua, disse-nos. A nossa casa fazia fronteira com um bairro grego e meu primeiro amor era grega. Ela não deu bola para mim, mas a amo até os dias de hoje.
Com certeza as crianças daquela época em Istambul eram mais felizes do que as de hoje. Mais felizes eram também os idosos. 'Por falar nisso, o que se tornaram todos aqueles idosos? Dentro das casas a gente via então avós, avôs, tias.' Você ficou doente e teve uma pessoa para dar-lhe um copo d'água.
Agora os idosos estão com os idosos nos asilos, os jovens com os jovens nos estádios e nas discotecas, os bebês nas creches, as crianças pequenas nos jardins de infância e os adultos, homens e mulheres, todos juntos atirando de cabeça no trabalho. (...)
Não, não posso dizer como as crianças daquela época eram infelizes. Por isso também me dá pena quando assisto hoje a crianças enclausuradas dentro do nosso pátio.
II. NOTAS EXPLICATIVAS
² Punch e Judy são fantoches de luva tipicamente associados à cultura popular do Reino Unido e pertencem a uma tradição britânica muito antiga de teatro de fantoches, cujas origens remontam à Commedia dell'Arte italiana do século XVI (baseado no personagem Pulcinella).
Há um paralelo cultural da Grécia, que possui o seu próprio e famosíssimo teatro de sombras folclórico chamado Karagiózis. Assim como Mr. Punch, o personagem Karagiózis é corcunda, tem um nariz grande e um braço direito longo que serve para representar a malandragem do personagem, e representa uma figura rebelde do povo, servindo frequentemente como o equivalente grego de Punch e Judy em estudos sobre a história mundial dos fantoches.
