quinta-feira, 23 de janeiro de 2020

A MÃE JUDIA: DA CANÇÃO GRAVADA POR SOPHIE TUCKER A PHILIP ROTH







Por Ushi Derman
Comentado e traduzido do inglês por Francisco José dos Santos Braga



Pouco tempo depois de perder sua amada mãe em 1928, a cantora judia-americana Sophie Tucker gravou a canção "A Yiddishe Momme", que a tornou famosa. Toda vez que ela apresentava a cancão, costumava contar à plateia sobre sua falecida mãe, “uma mulher com puro coração judaico, com olhos refletindo uma devoção sem fim”.

A canção "A Yiddishe Momme" é a trilha sonora definitiva da alma judaica, pelo menos se seus ancestrais vieram do leste do rio Vístula ¹. É como um túnel do tempo sentimental que nos lança de volta ao paraíso perdido da cidade judaica; até os dias em que as mães judias tinham muito menos direitos, mas muito mais força, que não hesitavam em assestar contra quem estava ameaçando prejudicar sua prole.

Vamos revisar o conteúdo da canção, para apenas alguns de nós que não falam iídiche: a canção é de fato uma carta, de um jovem soldado a sua mãe judia, retratada como uma leoa ousada, cheia de confiança e força interior, no entanto aspergindo calor e amor por toda a parte, especialmente sobre seu único filho.

MY YIDDISHE MOMME (versão inglesa)

Of things I should be thankful for I've had a goodly share
And as I sit here in the comfort of my cozy chair
My fancy takes me to a humble EastSide tenement
Three flights up in the rear to where my childhood days were spent
It wasn't much like Paradise but amid the dirt and all
There sat the sweetest angel, one that I fondly call

My yiddishe momme I need her more than ever now
My yiddishe momme I'd like to kiss that wrinkled brow
I long to hold her hands once more as in days gone by
And ask her to forgive me for things I did that made her cry

How few were her pleasures, she never cared for fashion's styles
Her jewels and treasures she found them in her baby's smiles
Oh I know that I owe what I am today
To that dear little lady so old and gray
To that wonderful yiddishe momme of mine


Transliteração: A YIDDISHE MAME  (outra versão em iídiche ² )

Ikh vil bay aykh a kashe fregen, zogt mir ver es ken
Mit velkhe tayere farmegen bentcht got alemen?
Men koyft dos nisht fir kayne gelt, dos git men nor umzist
Oon dokh az men ferlirt dos, oy vi treren men fargist
A Tzvayten git men kaynem nit, es helft nisht kayn gevayn
Oy, ver es hot farloyrn, der vays shoyn vos ikh mayn.

A Yiddishe Mame,
Es gibt nisht besser oif der velt
A Yiddish Mame,
Oy vey vi bitter ven zi felt
Vi shayn in likhtig iz in hoiz ven di mame iz do
Vi troyerig finster vert ven Got nemt ir oif Olam Haboh

In vasser in fayer volt zi gelofn far ihr kind
nisht halten ihr tayer, dos iz gevis di gresten zind
Oy, vi gliklekh un raykh iz der mentsh vos hot
Aza shayne matuneh geshenkt foon Got,
Nor ayn altichke Yiddishe Mame,
Oy, Mame Mayn!

https://www.youtube.com/watch?v=triCX77tl8s&list=RDtriCX77tl8s&start_radio=1&t=0

Agora vamos pular quatro décadas, para 1969. Um autor judeu-americano chamado Philip Roth publicou "O Complexo de Portnoy" ³, um best-seller com mais de 6 milhões de cópias, que era um monólogo de um homem solitário e frustrado na clínica do psiquiatra. Alexander Portnoy resolve seus negócios com todos e com tudo, especialmente com sua mãe judia, a quem culpa por todos os seus fracassos com as mulheres, suas más escolhas de carreira, sua obsessão pelo sexo e sua paixão desenfreada por "Shikses" . Na mente de Portnoy, a mãe judia é como o onipotente Demiurgo, que criou o mundo e nos deixou irremediavelmente neuróticos e maltratados. Desde muito jovem, seu relacionamento distorcido com sua mãe moldou sua atitude em relação às mulheres: "Ela ficou tão profundamente enraizada em minha consciência que, durante o primeiro ano de escola, parece ter eu acreditado que cada um de meus professores era minha mãe disfarçada".

Cópia da 1ª edição de "Portnoy's Complaint", 1969. Exposto no "Deixe gargalhar - o humor judeu ao redor do mundo" no Museu do Povo Judeu em Beit Hatfutsot


Por que o estereótipo da mãe judia foi tão extremamente transformado em apenas uma geração? De uma entidade que nada espalha além de amor e bondade em "A Yiddishe Momme", a uma mulher demoníaca, dominadora e ansiosa, causando culpa, conforme descrito em "O Complexo de Portnoy"?

Uma sugestão para essa rotatividade vem do domínio da psicologia evolucionária. Na verdade, é bastante simples: assim como os dedos humanos podem ser usados para colher ou coletar frutas ou nozes, bem como para mensagens de texto, da mesma maneira que certas características ou mutações usadas para um propósito podem ser usadas para um propósito diferente ao longo da evolução. Certas características que antes eram essenciais podem às vezes se tornar redundantes de acordo com a mudança da realidade.

Na virada de gerações na América, a mãe judia passou por um processo semelhante. Perseguições constantes, existência frágil e incerteza financeira vivenciadas pelas primeiras gerações de imigrantes da Europa obrigaram a mãe a desenvolver diligência, devoção e auto-sacrifício, o que a tornou uma figura mítica digna de admiração e gratidão por parte da família (como expresso na música "A Yiddishe Momme", por exemplo). Mas, após o sucesso sem precedentes dos judeus americanos, as coisas mudaram. As condições financeiras se estabilizaram, as perseguições e o anti-semitismo não existiram mais, e o sonho americano não era mais apenas uma fantasia. O rápido avanço social em apenas uma geração foi um material de pesquisa popular em estudos de sociologia e cultura. Milhares de judeus deixavam a pobre e superlotada parte baixa do East Side diariamente, em direção aos confortáveis subúrbios de classe média da América.

A mãe judia, no entanto, ainda viveu sob ameaça. Fisicamente, ela morava na América, mas sua mente ainda estava no “shtetl, cercada por brutais manifestantes ucranianos, desejosos de caçá-la. Assim, os imputados carinho, compaixão e auto-sacrifício se transformaram nessa figura superprotetora, sufocante, dominadora e castradora, que não perderá a oportunidade de fazer seu filho se sentir culpado. "Tire-me desse papel que interpreto do filho sufocado na piada judaica!", Portnoy grita para o terapeuta. Mais tarde, ficamos sabendo que a comédia é de fato uma piada trágico-cômica às custas de Alexander Portnoy - e do próprio Philip Roth.

Outros 40 anos se passaram, e Philip Roth lançou seu grande livro "O Complô contra a América", que pode ser visto como uma espécie de reconciliação com a severa figura materna retratada em "A Queixa de Portnoy". "O Complô contra a América" é apresentado do ponto de vista de Roth como criança em uma América alternativa onde Charles Lindbergh, o piloto pró-nazismo, tornou-se presidente dos Estados Unidos, comprometendo assim o bem-estar dos judeus no condado dele. Neste livro, o Roth mais velho não está mais furioso com sua mãe como em sua juventude. Pelo contrário, o autor premiado desenha um retrato nostálgico afetuoso de sua mãe, um pouco como o personagem desenhado em "A Yiddishe Momme".

Talvez tenha sido seu próprio amadurecimento que o fez se identificar com sua mãe e fazer as pazes com ela, ou poderia ter sido sua consciência pesada pela mancha literária de personalidade dela décadas antes - a mesma culpa que ela própria imprimiu duradouramente dentro da mente dele. De qualquer forma, parece que, nos últimos anos, Roth abrandou um pouco e estava disposto a abraçar a visão de Sophie Tucker da mãe como uma coisa amorosa mitológica crucial.

Então, descanse em paz, Philip Roth. Temos apenas um último pedido. Vista algo quente, para não pegar um resfriado naquele lugar para onde está indo.

Philip Roth em 1973


https://www.bh.org.il/blog-items/the-jewish-mother-from-a-yiddishe-momme-to-philip-roth/

(Traduzido do hebraico para o inglês por Danna Paz Prins)
 


COMENTÁRIOS


¹  O mais longo rio da Polônia, cuja bacia hidrográfica banha cerca de 192.000 km2, ou quase 2/3 do território polaco; nasce na alta Silésia e desemboca no golfo de Gdansk, uma reentrância do Mar Báltico.

²  Esta canção é difícil de ser traduzida e perde algo de seu significado quando traduzida, mas eu vou tentar fazer isso de qualquer forma. Há muitas gravações clássicas dessa canção, sendo a minha preferida a do grande cantor Yossele Rosenblatt, no álbum "Best Yiddish Songs", disponível na Internet. Link para matar a curiosidade de ouvir a versão em iídiche na voz de Yossele Rosenblatt: 

Assim sendo, apresento ao leitor a minha tradução livre da versão em iídiche, conforme cantada por Sophie Tucker e Yossele Rosenblatt, para o português:

Quero fazer-te uma difícil pergunta, responde-me se puderes:
Com quantos bens caros Deus abençoa todo o mundo?
O que não pode ser comprado com dinheiro, só é dado de graça
E, quando se perde, quantas lágrimas são derramadas?
Uma segunda (mãe) não é dada a ninguém, não adianta chorar,
Ó Deus, quem a perdeu, já sabe o que quero dizer.

Uma mãe judia
Não há nada melhor na terra
Uma mãe judia
É aquela que, se falta, tudo fica amargo
E tudo fica tão claro e belo quando ela está em casa
Como tudo fica triste e escuro quando Deus a leva p'r' o Céu!

Na água, através do fogo, ela correria para sua criança
O pior pecado é não ter consideração por ela
Quão sortudo e rico é aquele que possui
Essa maravilhosa graça – presente de Deus:
Ter uma velha mãe judia
Como minha mãe judia!

³  Literalmente, A Queixa de Portnoy teria sido o título mais fiel ao pensamento do autor.  Mas no Brasil, como geralmente acontece, por motivos mercadológicos, o livro foi lançado com um título levemente diferente: O Complexo de Portnoy e logo se tornou um best-seller.

  Shiksa (substantivo iídiche): mulher gentia (não judia). Nem todas as mulheres gentias não-judias são referidas como shikses, apenas aquelas que estão interagindo com o Judaísmo de alguma forma, como por exemplo, se encontrando com homens judeus, casando-se com um judeu, etc. Normalmente, embora não exclusivamente, "shiksa" refere-se a uma mulher atraente, o tipo que mais facilmente pode seduzir os homens e os meninos judeus a desviarem-se de mulheres de sua própria fé. Entre os judeus ortodoxos, o termo pode ser usado para descrever jovens mulheres judias que não seguem preceitos religiosos ortodoxos.

  Shtetl (substantivo iídiche): pequena aldeia situada na Rússia czarista e na Europa Oriental, com predominância da população judaica. O shtetl surgiu como o resultado de dois processos intimamente ligados: a exclusão social dos judeus da sociedade na Rússia czarista e na Europa Oriental, e a colocação desses em uma região (Zona de Residência Judaica), restringindo seus direitos de circulação em certos territórios da Rússia e de posse de campos de cultivo.