Por Francisco José dos Santos Braga
I. INTRODUÇÃO
Lendo as crônicas de Machado de Assis, publicadas durante praticamente toda sua vida, de 1859 a 1897, em diversos periódicos da cidade carioca, entra-se em contato com inúmeros nomes e, às vezes, sobrenomes de cantores que estiveram em trânsito pelo Atlântico a favor do bel canto italiano. A presença de cantores e músicos italianos no Brasil durante o século XIX foi fundamental para a consolidação da ópera e da música erudita no país, especialmente no Rio de Janeiro, com o apoio do Imperador D. Pedro II. Esses artistas, chamados de i cantanti d'opera italiani, não apenas se apresentaram, mas influenciaram a cultura musical brasileira.
Outra observação importante para poder-se compreender a trajetória de Machado no universo literário e cultural da Corte é sua opção por cantoras que ali se apresentavam, normalmente italianas, mas não só. Dentre elas, pode-se citar: a soprano francesa Anne Arsène Charton Demeur (1824-1892) que rivalizava com a contralto italiana Annetta Casaloni (1826-1915); Emma La Grua (1831-1865), siciliana de Palermo; a contralto francesa Rosine Stoltz (1815-1903), a italiana Giuseppina Zecchini (1826-1915), a soprano coloratura francesa Anna de La Grange (1825-1905), além de algumas cantoras nacionais.
José Antônio Martino (com o pseudônimo Tim Marvim) escreve sobre essa época:
“Tornara-se muito comum escrever poesias e dedicá-las às cantoras de ópera. Era um tempo em que as mulheres de família quase não colocavam os pés nas ruas, de maneira que restavam aos rapazes apaixonados ou as prostitutas ou essas atrizes cobertas de glória. Na verdade, estas tinham incontáveis adoradores, que duelavam pelos jornais, cada qual defendendo em versos a sua musa. Houve mesmo uma verdadeira batalha nas gazetas entre as facções casalonistas e as chartonistas. Cada poeta tinha a sua dama para louvar, uma autêntica transposição moderna do amor cortês. Quando uma delas entrava no palco, os seus admiradores cobriam-na com pétalas de rosas, enquanto os adversários deitavam vaias e assobios.
Como todo rapaz sonhador, Machado não podia deixar de compor poesias românticas. Aos 16 anos, escreveu uma série de poemas de amor para alguma mocinha que ele não quis revelar e que os críticos batizaram de “ciclo de poesias dedicadas à primeira musa”. Ao todo, são 6 poemas oferecidos a uma cantora italiana, escondida sob o nome de Júlia. Sabe-se que, nessa época, não havia nenhuma atriz ou cantora italiana com esse nome atuando na cidade do Rio de Janeiro. Por causa deste mistério, aventaram-se diversos nomes de possíveis atrizes líricas que poderiam ter despertado tal paixão no peito do jovem Joaquim Maria. Alfredo Pujol sugere o nome de Annetta Casaloni, uma das rivais da Charton. Já o professor Jean-Michel Massa acredita que a mulher em questão seria Augusta Candiani.”
Na presente pesquisa na obra de Machado de Assis, identifiquei, não de forma exaustiva, mas pelo menos de modo exemplificativo, as ocasiões em que o autor manifestou entusiasticamente sua profunda admiração pela soprano lírica milanesa, Augusta Candiani (1820-1890), a "musa" por excelência de Machado, não só em diversas crônicas, mas ainda num conto, num romance e num poema. Embora esta pesquisa aborde apenas a produção de Machado de Assis, sabe-se que muitos outros escritores e poetas românticos teceram à musa do "Bruxo do Cosme Velho" os mais calorosos elogios. Foi o caso de Joaquim Manoel de Macedo em seu romance "O Moço Loiro", Martins Pena em seus "Folhetins" e os poetas Muniz Barreto e Maciel Monteiro, 2º Barão de Itamaracá.
Além desses românticos, o crítico musical Ayres de Andrade, em Francisco Manuel da Silva e seu tempo, observa que "daria para encher um volume de bom tamanho do que sobre ela então se escreveu em prosa e verso" no século XIX. Finalmente, Escragnolle Dória, em artigo intitulado "O Álbum de Candiani", publicado na Revista da Semana, edição de 9/12/1922, chamou a atenção para uma das relíquias da atriz, que seria seu álbum recheado de versos, textos em prosa e enriquecido com iluminuras e desenhos de páassaros, de autoria do arquiteto Joaquim Cândido Guillobel, álbum que então pertencia a Jorge G. Vieira.
Ou seja, restam da voz de outrora apenas palavras sobre Augusta Candiani, mas escritores e poetas da época são unânimes em reconhecer o grande talento de uma moça italiana de 23 anos de idade, que, diante do acolhimento geral da cidade do Rio de Janeiro, resolveu adotar o Brasil como sua pátria, aqui ficando por 46 anos de intensa atividade operística, teatral e valorizando as modinhas brasileiras, ao introduzi-las nos intermezzi de seus concertos, vindo a falecer esquecida no bairro de Santa Cruz do Rio de Janeiro. Quanto a Machado de Assis, são notórias várias de suas produções dedicadas a Augusta Candiani: crônicas na revista Illustração Brasileira e na coluna "A Semana" do jornal Gazeta de Notícias, o conto "Verba Testamentária", capítulos do romance "Memórias Póstumas de Brás Cubas”, sendo talvez até mesmo uma de suas primeiras poesias dedicada à cantora — “A Augusta”, de 1859.
O mérito principal de Candiani foi ter introduzido o bom gosto pela ópera na Corte em janeiro de 1944, especialmente com a Norma de Bellini. [CORVISIERI, 2013, 12, apud SATIN] comenta que, "depois de sua inesquecível interpretação de "Casta Diva", ária mais famosa da ópera Norma, dizer Candiani no Brasil significava dizer ópera lírica italiana e vice-versa".
Cabe aqui uma observação: os escritores que cobriam as noites de gala nos teatros líricos e saraus, costumavam ter opinião divergente quanto a suas musas: enquanto Machado de Assis privilegiava Augusta Candiani ao longo do tempo, desde suas crônicas e poemas contemporâneos à cantora de forma relativamente constante até depois da morte de sua musa, José de Alencar teve idêntica empolgação (que de pode chamar de "fogo de palha" ou de curta duração) especialmente em relação a três outras cantoras: Charton, Emma La Grua e Anna de La Grange, para as quais escreveu poemas apaixonados, como se pode constatar na Bibliografia. Desse modo, o escritor de O Guarani teria também ficado vivamente impressionado com a atuação de Charton nas óperas Semiramide de Rossini, Os Puritanos de Bellini e O Trovador de Verdi; igualmente, com a primeira atuação de La Grange em Norma em 17/08/1858 (14 anos após a estreia de Candiani com sua Norma de Bellini) e ainda com a sua atuação como Gilda, no Rigoletto de Verdi em 15/10/1858; e com La Grua, por sua atuação como Desdêmona na ópera Otelo de Verdi.
II. CANDIANI NAS CRÔNICAS, CONTO E POEMA DE MACHADO DE ASSIS
Apresento-lhe três crônicas sobre a musa por excelência de Machado de Assis: a primeira quando do retorno de Augusta Candiani aos palcos da Corte, dando-lhe as boas vindas, após ela ter fixado residência e encantado as cidades de Rio Grande, Porto Alegre e Pelotas na província do Rio Grande do Sul; quanto às outras duas, são crônicas de reminiscências machadianas, pois na época em que as escreveu a musa já tinha falecido. A respeito dessas reminiscências machadianas, [SATIN, 2018, 144-162] escreve:
“Machado de Assis em suas crônicas traz Candiani como memória de uma época. Se no ano de 1844 o escritor tinha apenas cinco anos, o nome de Candiani soará como um eco no tempo. As noites no Teatro S. Pedro de Alcântara estiveram presentes em seu imaginário porque muito provavelmente fazem parte do imaginário de uma época e podem ter-se repetido, aproximando-se ainda mais de suas lembranças.”
1) Crônica de M.A. para a revista Illustração Brasileira, edição de 15/07/1877
“(...) Outro fato de algum interesse é a ressurreição da Candiani ¹. A Candiani não é conhecida da geração presente. Mas os velhos, como eu, ainda se lembram do que ela fez, porque eu fui (me, me adsum), eu fui um dos cavalos temporários do carro da prima-dona, nas noites da bela Norma. Ó tempos! Ó saudades! Tinha eu 20 anos, um bigode em flor, muito sangue nas veias e um entusiasmo, um entusiasmo capaz de puxar todos os carros, desde o carro do estado até o carro do sol — duas metáforas, que envelheceram como eu. Bom tempo! — continua Machado. A Candiani não cantava, punha o céu na boca, e a boca no mundo. Quando ela suspirava a Norma, era de pôr a gente fora de si. O público fluminense, que morre por melodia como macaco por banana, estava então nas suas auroras líricas. Ouvia a Candiani e perdia a noção de realidade. Qualquer badameco era um Píndaro. E hoje volta a Candiani, depois de tão largo silêncio, a acordar os ecos daqueles dias. Os velhos como eu irão recordar um pouco da mocidade: a melhor coisa da vida, talvez a única. (...)”
“(...) Outro fato de algum interesse é a ressurreição da Candiani ¹. A Candiani não é conhecida da geração presente. Mas os velhos, como eu, ainda se lembram do que ela fez, porque eu fui (me, me adsum), eu fui um dos cavalos temporários do carro da prima-dona, nas noites da bela Norma. Ó tempos! Ó saudades! Tinha eu 20 anos, um bigode em flor, muito sangue nas veias e um entusiasmo, um entusiasmo capaz de puxar todos os carros, desde o carro do estado até o carro do sol — duas metáforas, que envelheceram como eu. Bom tempo! — continua Machado. A Candiani não cantava, punha o céu na boca, e a boca no mundo. Quando ela suspirava a Norma, era de pôr a gente fora de si. O público fluminense, que morre por melodia como macaco por banana, estava então nas suas auroras líricas. Ouvia a Candiani e perdia a noção de realidade. Qualquer badameco era um Píndaro. E hoje volta a Candiani, depois de tão largo silêncio, a acordar os ecos daqueles dias. Os velhos como eu irão recordar um pouco da mocidade: a melhor coisa da vida, talvez a única. (...)”
Obs.: Há
aqui um exagero evidente por parte de Machado ao se considerar "um dos
cavalos temporários do carro da prima-dona", pois tinha na ocasião
(1844) apenas 5 anos. É plausível admitir que tal evento, certamente, fazia parte de suas memórias.
Na
altura em que Machado escreveu essa crônica (1877), tinha 38 anos de
idade e dedica esta crônica à sua cantora preferida e a seu retorno aos
palcos cariocas. O recital da cantora marcava o retorno ao Rio em
novembro de 1876, depois de uma permanência de 6 anos com residência
fixa na província do Rio Grande do Sul, tendo lá chegado em 11/06/1868 e onde
atuara como cantora lírica e atriz dramática junto à Companhia
Lírico-Dramática Cabral (ou Empresa Cabral) e professora de canto,
especialmente nas cidades de Porto Alegre, Pelotas e Rio Grande.
Sobre Machado ser um cavalo temporário do carro de Candiani, HELLER-LOPES, encenador e especialista em óperas, duas vezes Diretor Artístico do Municipal do Rio e professor da Escola de Música da UFRJ, leva a sério e não acha nada demais no gesto de rapaz apaixonado por sua musa:
“O grande escritor Machado de Assis, um “cavalo temporário”? Sim, pois era costume que os jovens diletantes, os melômanos das décadas entre 1840 a 1870, desamarrassem os cavalos da carruagem das primas donas e puxassem o veículo, com a cantora, até sua casa ou hotel, como se fossem os cavalos. E sua paixão era, então, a cantora italiana mais famosa da época, o soprano Augusta Candiani, que chegou ao Brasil em 1843 e por aqui ficou. A imaginação de toda uma geração de artistas e intelectuais ficou marcada pela aura de sua voz. Outras primas donas apareceram, cantaram e foram cobertas de elogios, jóias e puxadas por "cavalos temporários" mais ou menos célebres que Machado... mas arrisco a dizer que nenhuma marcou toda uma geração de jovens artistas românticos como "a Candiani". Depois de retirada dos palcos líricos, foi atriz e professora de música, indo morar em Santa Cruz - onde hoje um grupo de moradores tenta resgatar a casa onde teria vivido e desta fazer um centro cultural. A italiana Candiani é, de muitas maneiras, uma das primeiras 'vozes brasileiras' - e, assim como Paula Brito, tem seu papel na formação da identidade cultural brasileira pouco conhecido. Por sorte da literatura mundial, não falta reconhecimento a Machado de Assis.”
“O grande escritor Machado de Assis, um “cavalo temporário”? Sim, pois era costume que os jovens diletantes, os melômanos das décadas entre 1840 a 1870, desamarrassem os cavalos da carruagem das primas donas e puxassem o veículo, com a cantora, até sua casa ou hotel, como se fossem os cavalos. E sua paixão era, então, a cantora italiana mais famosa da época, o soprano Augusta Candiani, que chegou ao Brasil em 1843 e por aqui ficou. A imaginação de toda uma geração de artistas e intelectuais ficou marcada pela aura de sua voz. Outras primas donas apareceram, cantaram e foram cobertas de elogios, jóias e puxadas por "cavalos temporários" mais ou menos célebres que Machado... mas arrisco a dizer que nenhuma marcou toda uma geração de jovens artistas românticos como "a Candiani". Depois de retirada dos palcos líricos, foi atriz e professora de música, indo morar em Santa Cruz - onde hoje um grupo de moradores tenta resgatar a casa onde teria vivido e desta fazer um centro cultural. A italiana Candiani é, de muitas maneiras, uma das primeiras 'vozes brasileiras' - e, assim como Paula Brito, tem seu papel na formação da identidade cultural brasileira pouco conhecido. Por sorte da literatura mundial, não falta reconhecimento a Machado de Assis.”
¹ Extraído de "me, me adsum qui feci"(Virgílio, Eneida, IX, 426): trad. fui eu, eu mesmo que o fiz.
2) Crônica de M.A. para a coluna "A Semana" do jornal Gazeta de Notícias, edição de 08/07/1894
“(...) Quem quiser escrever a história do canto entre nós, há de ter diante dos olhos os efeitos políticos desta arte. Sem isso, fará uma crônica, não uma história. Pela minha parte, não conhecendo a crônica, não poderia tentar a história. Pouco sei dos fatos. Não remontando a um soprano que aqui viveu e morreu, homem alto, gordo e italiano, que cantava somente nas igrejas, sei que a ópera lírica, propriamente dita, começou a luzir de 1840 a 1850, com outro soprano, desta vez mulher, a célebre Candiani. Quem não a haverá citado? Netos dos que se babaram de gosto nas cadeiras e camarotes do teatro de S. Pedro, também vós a conheceis de nome, sem a terdes visto, nem provavelmente vossos pais. Já é alguma coisa viver durante meio século na memória de uma cidade, não tendo feito outra cousa mais que cantar o melancólico Bellini.
Ao que parece, o canto era tal que arrebatava as almas e os corpos, elas para o céu, eles para o carro da diva, cujos cavalos eram substituídos por homens de boa vontade. Não mofeis disto; para a cantora foi a glória, para os seus aclamadores foi o entusiasmo, e o entusiasmo não é tão mesquinha coisa que se despreze. Invejai antes esses cavalos de uma hora...
“(...) Quem quiser escrever a história do canto entre nós, há de ter diante dos olhos os efeitos políticos desta arte. Sem isso, fará uma crônica, não uma história. Pela minha parte, não conhecendo a crônica, não poderia tentar a história. Pouco sei dos fatos. Não remontando a um soprano que aqui viveu e morreu, homem alto, gordo e italiano, que cantava somente nas igrejas, sei que a ópera lírica, propriamente dita, começou a luzir de 1840 a 1850, com outro soprano, desta vez mulher, a célebre Candiani. Quem não a haverá citado? Netos dos que se babaram de gosto nas cadeiras e camarotes do teatro de S. Pedro, também vós a conheceis de nome, sem a terdes visto, nem provavelmente vossos pais. Já é alguma coisa viver durante meio século na memória de uma cidade, não tendo feito outra cousa mais que cantar o melancólico Bellini.
Ao que parece, o canto era tal que arrebatava as almas e os corpos, elas para o céu, eles para o carro da diva, cujos cavalos eram substituídos por homens de boa vontade. Não mofeis disto; para a cantora foi a glória, para os seus aclamadores foi o entusiasmo, e o entusiasmo não é tão mesquinha coisa que se despreze. Invejai antes esses cavalos de uma hora...
A raça acabou. Hoje os homens ficam homens, aplaudem sem transpirar, muitos com as palmas, alguns com a ponta dos dedos, mas sentem e basta. A ingenuidade é menor? a expressão comedida? Não importa, contanto que vingue a arte. Onde ela principia, cessam as canseiras deste mundo. Partidos irreconciliáveis, partidários que se detestam, conciliam-se e amam-se por um minuto ao menos. Grande minuto, meus caros amigos, um minuto grandíssimo, que vale por um dia inteiro.
Vivam os povos cantarinos, as almas entoadas e particularmente a terra da modinha e da viola. A viola foi-se da capital com os cavalos, recolheu-se ao interior, onde os peregrinismos são menos aceitos. As peregrinas pode ser que sim; mas novas cantoras já se não deixam ir dos braços de Polião ou de Manrico aos de um senhor da platéia, como a La-Grua, e antes dela a Candiani. (...)”
Vivam os povos cantarinos, as almas entoadas e particularmente a terra da modinha e da viola. A viola foi-se da capital com os cavalos, recolheu-se ao interior, onde os peregrinismos são menos aceitos. As peregrinas pode ser que sim; mas novas cantoras já se não deixam ir dos braços de Polião ou de Manrico aos de um senhor da platéia, como a La-Grua, e antes dela a Candiani. (...)”
3) Crônica de M.A. para a coluna "A Semana" do jornal Gazeta de Notícias, edição de 20/09/1896
“(...) Aí estou eu a repetir coisas que sabeis — uns por as haverdes lido, outros por vos lembrardes delas; mas é que há certas memórias que são como pedaços da gente, em que não podemos tocar sem algum gozo e dor, mistura de que se fazem saudades. Aquela noite acabou por uma aurora, que foi dar em outro dia, claro como o da véspera, ou mais claro talvez; e porque esse dia se fechou em noite, novamente se abriu em madrugada e sol, tudo com uma uniformidade de pasmar. Afinal tudo passa, e só a terra é firme: é um velho estribilho do Eclesiastes, de que os rapazes mofam, com muita razão, pois ninguém é rapaz senão para ler e viver o Cântico dos Cânticos, em que tudo é eterno. Também nós ríamos muito dos que então recordavam o tempo em que foram cavalos da Candiani, e riam então dos que falavam de outras festas do tempo de Pedro I. É assim que se vão soldando os anéis de um século.”
“(...) Aí estou eu a repetir coisas que sabeis — uns por as haverdes lido, outros por vos lembrardes delas; mas é que há certas memórias que são como pedaços da gente, em que não podemos tocar sem algum gozo e dor, mistura de que se fazem saudades. Aquela noite acabou por uma aurora, que foi dar em outro dia, claro como o da véspera, ou mais claro talvez; e porque esse dia se fechou em noite, novamente se abriu em madrugada e sol, tudo com uma uniformidade de pasmar. Afinal tudo passa, e só a terra é firme: é um velho estribilho do Eclesiastes, de que os rapazes mofam, com muita razão, pois ninguém é rapaz senão para ler e viver o Cântico dos Cânticos, em que tudo é eterno. Também nós ríamos muito dos que então recordavam o tempo em que foram cavalos da Candiani, e riam então dos que falavam de outras festas do tempo de Pedro I. É assim que se vão soldando os anéis de um século.”
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Além das crônicas acima, Candiani ainda foi citada no conto Verba Testamentária, originalmente publicado na Gazeta de Notícias em 8/10/1882, assinado por M.A.
Nesse conto, o protagonista Nicolau padecia de uma moléstia do baço, em que determinado verme se nutria de uma secreção especial, produzida pela vista de alguns fatos, situações ou pessoas.
“A doença apoderara-se definitivamente do organismo. Nicolau ia, a pouco e pouco, recuando na solidão. Não podia fazer certas visitas, frequentar certas casas. O teatro mal chegava a distraí-lo. Era tão melindroso o estado dos seus órgãos auditivos, que o ruído dos aplausos causava-lhe dores atrozes. O entusiasmo da população fluminense para com a famosa Candiani e a Meréa, mas a Candiani principalmente, cujo carro puxaram alguns braços humanos, obséquio tanto mais insigne quanto que o não fariam ao próprio Platão, esse entusiasmo foi uma das maiores mortificações do Nicolau. Ele chegou ao ponto de não ir mais ao teatro, de achar a Candiani insuportável, e preferir a Norma dos realejos à da prima-dona.”
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Parece dirigir-se à Candiani o poema intitulado A Augusta, composto por M.A. em 1859. Veio a público em O Binóculo, nº 1, em 23/09/1862.
Em teu caminho tropeçaste — agora!
Cala esse pranto, minha pobre flor.
Caída mesmo — tropeçando embora,
Conserva a alma um último pudor.
Deve ser grande esse martírio lento...
Já nos espinhos a minha alma pus;
Sou como um Cireneu do sofrimento;
Deixa-me ao menos carregar-te a cruz.
Eu sei medir as lágrimas vertidas
Na sombra e só sem uma mão sequer!
Vês tu as minhas pálpebras doridas?
Têm chorado talvez por ti, mulher!
É fraqueza chorar? chorei contigo;
Que a mesma nos banhou de luz
Como em mim um pesar profundo e antigo
No falar dessa fronte se traduz!
Sei como custa desfolhar um riso
Em face às turbas, que o senti por mim,
Ver o inferno e falar do paraíso,
Sentir os golpes e abraçar Caim!
Chorei, que prantos! Prometeu atado
Ao rochedo da vida e sem porvir!
Poeta neste século infamado
Que mata as almas e condena a rir.
Cansei, perdi aquela fé robusta
Que como a ti, nos sonhos me sorriu;
Na identidade do calvário, Augusta,
Bem vês como o destino nos mentiu!
Ergue-te pois! A redenção agora
Dá-te mais viço, minha pobre flor!
Se tropeçaste no caminho embora!
Na tua queda é-te bordão — o amor!
III. BIBLIOGRAFIA
AMPARO, Flávia: As musas de Machado de Assis. Revista O eixo e a roda, v. 22, nº 2, 2013, pp. 87-104
MARQUES, Wilson José: O poeta José de Alencar, a ópera e as prima-donas. Campinas: Revista Remate de Males, v. 42, nº 1, pp. 192-205, jan/jun 2022
MARTINO, José Antonio: A primeira musa de Machado de Assis, matéria de 23/07/2009 no Blog Memorial do Bruxo: Conhecendo Machado de Assis
Link: https://machadodeassis-memorialdobruxo.blogspot.com/2009/07/primeira-musa-de-machado-de-assis.html
SATIN, Ionara: Machado de Assis e I Cantanti d'opera italiani: transferências culturais. Revista Olho d'água, São José do Rio Preto, v. 10, nº 2, pp. 144-162, 2018.
____________: Augusta Candiani: a soprano italiana musa de Machado de Assis. In Literatura Italiana Traduzida, v. 1, nº 6, junho de 2020. Disponível em https://repositorio.ufsc.br/handle/123456789/209674
