quarta-feira, 23 de setembro de 2026

Excerto de “O NOSSO PÁTIO”

Por Maria Iordanídou
Traduzido do grego por Francisco José dos Santos Braga

O trecho traduzido refere-se às páginas 24-27, 43-46 e 55 do livro.

Capa do livro "O nosso Pátio" de Maria Iordanídou, ed. Vivliopoleíon tis Estias, 1983.

Quando viemos para esta casa, a primeira coisa que me captou o olhar logo que saí para a sacada foi a sacadinha da frente, que tinham cercado com arame até em cima e parecia com um galinheiro ou jaula de uma fera selvagem. Dentro dessa jaula uma criança de cerca de três anos andava de um lado para o outro como animalzinho preso. Num canto da sacada brinquedos estavam amontoados pelo chão. Nossa Senhora! Quantos brinquedos: grandes carrinhos de plástico, bonecos enormes, elefantes, cavalos, todos inanimados. Porém, a criança não se vira para vê-los. Com suas duas mãos segura a grade e enfia a carinha através da fresta, tentando ver os gatos que andam de um lado para o outro embaixo no pátio. Ou tenta agarrar-se à grade, enganchar-se no arame e trepar mais alto. Certamente se tirarem o arame dessa sacada, a criancinha trepará na grade e cairá, porque lhe falta o sentido do perigo. 

Fora o drama da criança da frente, a minha sacada começou a me divertir. Tenho a impressão de que me encontro em camarote de teatro de marionetes. Marionete de verdade. Toda janela, ou antes, toda porta de sacada, é também um palco. Aqui a gente vê uma Giorgina ¹ adornar-se e mais ali vê o Punch ² bater em Judy

No terceiro andar do edifício fronteiriço, está de pé defronte à janela um homem robusto com maiô e dá socos em uma bola que pende do teto. Deve ser um pugilista e se exercita, parece. Na outra janela, está de pé uma dona de casa em frente a uma tábua de passar roupa e passa uma saia. 

No piso térreo do mesmo prédio um homem de meia idade empunha uma bengala e persegue um gato para matá-lo. 

 Agarre-o!  ponho-me a gritar. Mas a sra. Panagióta, que se achava junto de mim, me interrompe. 
 Sra. Panagióta, — grito , é preciso que algo seja feito com este sr. Evángelos. 
 Ele não se chama Evángelos,  me diz. 
 Não importa, nós o temos chamado assim, porque me lembra o farmacêutico que tínhamos por vizinho nos Ambelokípi ³
A sra. Panagióta era minha amiga fiel. Vinha toda manhã às 10 horas e tomava seu café. 
 Querida Panagióta, digo-lhe, sabe o que faremos? Achemos algum rato para o soltarmos na casa do sr. Evángelos. 
 E imagina que não o fiz? 
 Não diga! 
 Pois é! Tenho uma ratoeira que pega o rato vivo. Até hoje levei para ele três ratos. 
Não aguentei: levantei-me e beijei-a. (...) 

Sinto uma pena imensa daquela criança na sacada da frente. Não posso vê-la como um animalzinho atrás dos arames. Quando eu tinha a idade dela, moramos numa casa de três andares que tinha duas escadas verticais como essas de navio e, no entanto, não me despenquei delas. Muitas vezes ao dia subia e descia nelas. Ninguém me dizia para não fazê-lo. Nem me trancaram atrás dos arames para me protegerem. Circulava livre na casa, e quando ficava inquieta, minha avó me fazia sentar no chão e esvaziava diante de mim o saco com os botões. Os botões que eram juntados ano após ano de roupas velhas que eram para jogar fora. Com aqueles botões tinham brincado todas as crianças da família. Talvez até a minha própria avó. Que lindos botões eram aqueles! Botões de osso, botões de chifre de animal, botões de madre-pérola e de marfim. A madre-pérola, tinha-me dito minha avó, era de conchas. Os botões de marfim eram de dente de elefante. Horas inteiras passava brincando, com tal doçura que me dava água na boca. (...) 

Possivelmente faltassem muitas coisas às crianças da minha época, mas tinham espaço para moverem-se dentro da casa. E a mais pobre casinha daquela época tinha mais espaço interior do que o apartamento de dois cômodos dos atuais edifícios. Depois, tínhamos a rua. Em Istambul, bandos de crianças, na maioria rapazes, transpunham muitas vezes as fronteiras do seu bairro e desapareciam horas a fio. Muitas vezes, nas fronteiras de dois subúrbios, eram misturadas duas nacionalidades, e você escutava os meninos falarem um incrível esperanto feito de grego moderno, turco, hebraico, armênio. Em 1960, quando tínhamos ido Nelly e eu para Istambul, quando encontramos um capitão turco dentro dum barquinho a vapor que ia para as Ilhas dos Príncipes, espantamo-nos com a sua bela língua grega. Perguntamos-lhe onde a aprendeu. Ele sorriu. 

 Aprendi-a brincando com filhos de gregos na rua, disse-nos. A nossa casa fazia fronteira com um bairro grego e meu primeiro amor era grega. Ela não deu bola para mim, mas a amo até os dias de hoje. 

Com certeza as crianças daquela época em Istambul eram mais felizes do que as de hoje. Mais felizes eram também os idosos. 'Por falar nisso, o que se tornaram todos aqueles idosos? Dentro das casas a gente via então avós, avôs, tias.' Você ficou doente e teve uma pessoa para dar-lhe um copo d'água. 

Agora os idosos estão com os idosos nos asilos, os jovens com os jovens nos estádios e nas discotecas, os bebês nas creches, as crianças pequenas nos jardins de infância e os adultos, homens e mulheres, todos juntos atirando de cabeça no trabalho. (...) 

Não, não posso dizer como as crianças daquela época eram infelizes. Por isso também me dá pena quando assisto hoje a crianças enclausuradas dentro do nosso pátio.

 

II. NOTAS EXPLICATIVAS

 
¹  Tzortzína Karacháliou, nome de famosa cantora grega que participou de programas de grande audiência na televisão, como o The Voice of Greece e as seletivas nacionais gregas para o festival Eurovision.

²  Punch e Judy são fantoches de luva tipicamente associados à cultura popular do Reino Unido e pertencem a uma tradição britânica muito antiga de teatro de fantoches, cujas origens remontam à Commedia dell'Arte italiana do século XVI (baseado no personagem Pulcinella).
Há um paralelo cultural da Grécia, que possui o seu próprio e famosíssimo teatro de sombras folclórico chamado Karagiózis. Assim como Mr. Punch, o personagem Karagiózis é corcunda, tem um nariz grande e um braço direito longo que serve para representar a malandragem do personagem, e representa uma figura rebelde do povo, servindo frequentemente como o equivalente grego de Punch e Judy em estudos sobre a história mundial dos fantoches.

³ Ambelokípi (literalmente, "Jardins de Vinhedos") é o nome de um grande distrito central de Atenas, fazendo fronteira com bairros conhecidos como Zográfou, Goudí e Psychikó. Antigamente a região era uma pacata vila rural repleta de plantações de uva e campos verdes. Antes de se transformar no coração financeiro e residencial que é hoje, a área fornecia vinho e produtos agrícolas para a Atenas histórica. A área é historicamente famosa por abrigar o tradicional estádio do Panathinaikós desde a sua inauguração em 1922. 
A grande transformação do bairro aconteceu em duas fases principais no século XX:
1) A chegada de refugiados (Década de 1920): Após o conflito entre a Grécia e a Turquia em 1922, milhares de refugiados gregos vindos da Ásia Menor se estabeleceram ali. Os antigos campos e vinhedos começaram a dar lugar aos primeiros complexos de habitação popular e edifícios planejado
2) O "boom" do concreto (Décadas de 1960 e 1970): Durante esse período, Atenas passou por uma urbanização acelerada. Os últimos resquícios verdes de Ambelokípi foram substituídos por grandes avenidas e pelos primeiros arranha-céus da Grécia, como a famosa Torre de Atenas.
 
 
III. BIBLIOGRAFIA sugerida pelo tradutor
 
 
IORDANÍDOU, Maria: O NOSSO PÁTIO, primeiro excerto do livro traduzido por Francisco Braga, consistindo das páginas 11 a 18, publicado pelo Blog do Braga em 17/02/2019