O Náufrago de Thomas Bernhard/Ed. Companhia das Letras/Ed. Schwarcz, 1996, 235 p. 235 p.
Três amigos da classe média alta ficam se conhecendo em 1953 como alunos de piano em uma masterclass ministrada por Vladimir Horowitz na renomada academia de música de Salzburgo, o Mozarteum. Dos três protagonistas do romance O Náufrago, lançado em 1983, pelo menos um deles, Glenn Gould, é uma pessoa real. Glenn Gould foi um célebre pianista canadense que encantou o mundo com suas interpretações revolucionárias da música de Bach, especialmente por sua versão das Variações Goldberg ¹ do compositor alemão e que parou de se apresentar em público em 1964 e morreu em 1982. Porém, o personagem principal é Wertheimer — trazendo à nossa lembrança Werther, o herói romântico de Goethe, cujo nome prenuncia seu destino —, que estudou piano juntamente com Gould em Salzburgo sob a tutela de Horowitz durante um curso de verão na década de 1950. A partir da audição das Variações Goldberg, se inicia o naufrágio de Wertheimer, cujo nome está subentendido no título do romance, e do próprio narrador anônimo, apesar de este se colocar em uma posição superior à de Wertheimer. Diante do brilho de Gould, os outros dois parece não conseguirem conciliar — enquanto um, o narrador-protagonista, abandona o piano completamente, o outro, Wertheimer, finalmente se suicida no mesmo ano em que Glenn falece de morte natural (1982). Wertheimer e o narrador, embora também virtuoses do piano, foram aniquilados pela genialidade de Glenn e se contentaram em escrever, após o ouvirem interpretar as famigeradas Variações Goldberg. Para eles, esse momento, na sua juventude, foi de abandono de um projeto de carreira de pianista. O narrador chegou à conclusão de que "a cabeça de Wertheimer era mais parecida com a minha que a de Glenn, pensei, que tinha de fato uma cabeça de virtuose, ao passo que nós, Wertheimer e eu tínhamos cabeças de intelectuais." (pág. 81) Quando desistiram do piano, enveredaram pelas ciências do espírito e pela filosofia, respectivamente Wertheimer e o narrador: "Wertheimer leiloou seu Bösendorfer no Dorotheum; eu, para não ser mais atormentado por ele, doei meu Steinway à filha de nove anos de um professor de Neukirchen, nas proximidades de Altmünster." (pág. 11) Foi o próprio Gould que enunciou pela primeira vez o apelido para Wertheimer, "o náufrago" (pág. 44), embora o narrador o alcunhasse "o ofendido" (pág. 45). Glenn via Wertheimer por dentro desde o primeiro instante, como via por dentro e de imediato todos que conhecia (pág. 60). Por exemplo, Glenn chamava o narrador de "filósofo", o que não o incomodava (pág. 26). Sobre Wertheimer, ficamos sabendo ser herdeiro de uma família judia vienense da classe média alta e recentemente (1982) ter cometido suicídio na Suíça, tendo-se enforcado logo após a morte de Glenn por causas naturais. Desde 1953, ou seja 28 anos atrás, ficou evidente para o narrador que se estabeleceu uma verdadeira oposição entre Glenn e Wertheimer a começar pelas marcas dos seus pianos prediletos: "O Bösendorfer de Wertheimer contra o Steinway de Glenn Gould, pensei; as Variações Goldberg de Glenn Gould contra a Arte da Fuga de Wertheimer, pensei." (pág. 213-4) Portanto, dos três amigos, apenas o narrador em 1ª pessoa está vivo; seu relato sobre a amizade que uniu os três protagonistas pelo resto de sua vida é a maneira que ele encontrou para enfrentar esse período de luto.
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| Glenn Gould, tocando e cantando simultaneamente, como de costume |
“é composta por um tema musical que é reapresentado em diferentes variações, as quais não repetem a mesma melodia, mas antes são construídas sobre o mesmo desenvolvimento de acordes e a mesma linha de baixo da ária inicial; a novela é escrita em um estilo no qual se sobressaem as repetições vocabulares e sintáticas, bem como um contínuo revisitar de açoes e temas anteriormente apresentados. Como aquela obra de Bach (...), o texto de Bernhard gira em torno do tema inicial, apresentado nos três primeiros parágrafos: o retorno ao passado — marcado pela chegada do narrador a uma pousada austríaca frequentada por Wertheimer —, a dualidade entre a obsessão e a genialidade — sugerida pela constância de Gould em estudar apenas as Variações Goldberg — e a incapacidade de lidar com as limitações humanas — o suicídio de Wertheimer, cuja elucidação é a razão maior do narrador em retornar àquela pequena hospedaria no interior da Áustria.” (grifo nosso)
“Um suicídio calculado com grande antecedência, pensei, e não um ato espontâneo de desespero.”
- Bach: A Arte da Fuga, Handel: Suítes para Cravo nº 1-4
- Bach: Concertos para Piano - (Edição Glenn Gould Vol. 1)
- Bach: Variações Goldberg de 1955 - (Edição Glenn Gould Vol. 1)
- Bach: Invenções a Duas e Três Vozes - (Edição Glenn Gould Vol. 2)
- Bach: Partitas BWV 825-830, Little Prelúdios, Pequenas Fugas - (Edição Glenn Gould Vol. 4)
- Bach: O Cravo Bem Temperado, Livro I - (Edição Glenn Gould Vol. 4)
- Bach: O Cravo Bem Temperado, Livro II - (Edição Glenn Gould Vol. 4)
- Bach: Suítes Inglesas, BWV 806-811 - (Edição Glenn Gould Vol. 6)
- Bach: Suítes Francesas, BWV 812-817, Abertura em Estilo Francês - (Edição Glenn Gould Vol. 6)
- Bach: Tocatas - (Edição Glenn Gould Vol. 5)
- Bach: Sonatas para violino e cravo, Sonatas para viola da gamba e cravo - (Edição Glenn Gould Vol. 6)
- Bach: Variações Goldberg (1981, Versão Digital) - (Edição Glenn Gould Vol. 2)
- Beethoven: Sonatas para Piano, Vol. I, nºs 1-3, 5-10, 12-14 - (Edição Glenn Gould Vol. 5)
- Beethoven: Sonatas para Piano, Vol. II, nºs 15-18, 23, 30-32 - (Edição Glenn Gould Vol. 5)
- Beethoven: Sonatas para Piano, nºs 24 e 29 - (Edição Glenn Gould Vol. 3)
- Beethoven: As três últimas sonatas para piano
- Beethoven: 32 Variações sobre o tema da "Eroica" Woo 80, 6, Variações Op. 34, Bagatelas Op. 33 e 126 - (Edição Glenn Gould Vol. 1)
- Beethoven: Concertos para piano e orquestra, nºs 1-5 - (Edição Glenn Gould Vol. 1)
- Beethoven: Concerto para piano no. 5; Strauss: Burlesco
- Byrd, Gibbons, Sweelinck: Consort Of Musicke - (Edição Glenn Gould Vol. 3)
- Wagner: transcrições para piano, Idílio de Siegfried - (Glenn Gould Edition Vol. 5)
- Grieg: Sonata op. 7; Bizet: Premier Nocturne, Variações Cromáticas; Sibelius: Três Sonatinas Op. 67, 3 Peças Líricas Op. 41 - (Edição Glenn Gould Vol. 1)
- Strauss: Lieder de Ophelia Op. 67; Enoch Arden Op. 38, Sonata para Piano Op. 5, 5 peças para piano op. 3 - (Edição Glenn Gould Vol. 1)
- Berg/Krenek: Sonatas; Webern: Variações para piano; Debussy: Rapsódia nº 1 para clarinete e piano; Ravel: La Valse - (Edição Glenn Gould Vol. 7)
- Schönberg: Peças para piano, Concerto para piano e orquestra, Fantasia, Ode a Napoleão Bonaparte, Pierrot Lunaire - (Edição Glenn Gould Vol. 6)
- Schönberg: Lieder - (Edição Glenn Gould Vol. 7
O Náufrago (1983) é o romance de Thomas Bernhard explicitamente dedicado à música, formando uma espécie de trilogia artística com Mestres Antigos (1985, dedicado às artes visuais) e Lenhadores (1984, dedicado ao teatro). É um romance parcialmente autobiográfico, uma espécie de entrelaçamento de ficção e realidade. Na realidade, Bernhard frequentou a renomada academia de música de Salzburgo, o Mozarteum, de 1955 a 1957, mas nunca conheceu pessoalmente Glenn Gould, o modelo para o protagonista de O Náufrago. De fato, o pianista canadense esteve em Salzburgo apenas para dois concertos, em 10 de agosto de 1958 e 25 de agosto de 1959 — ou seja, depois da visita de Bernhard e fora do período especificado na narrativa. Mas sua morte repentina deve ter fornecido o ímpeto para o romance. De fato, um retrato peculiar de Glenn Gould emerge das páginas de O Náufrago, retratado mais segundo a silhueta do famoso pianista — isto é, segundo a lenda, o mito — do que segundo a realidade de sua pessoa, e fortemente caracterizado por tonalidades tipicamente bernhardianas. Não é coincidência que o personagem fictício de Glenn na obra de Bernhard esteja ligado a uma única obra, sua interpretação das Variações Goldberg de Johann Sebastian Bach; ou seja, o romance destaca apenas um aspecto de sua música.
Mas partamos de um ponto central: no coração de O Náufrago está a música, a arte por excelência dedicada ao absoluto e separada das trivialidades da vida, pelo menos segundo o clichê que se desenvolveu na literatura europeia do século XIX. Nesse cenário literário, a figura do músico ocupa uma posição de destaque porque representa a renúncia à vida mundana em prol da arte. É precisamente isso que acontece na trama do romance de Bernhard com o músico Glenn Gould, mas também, de forma diferente e apenas temporária, com os outros dois protagonistas: Wertheimer, o marginalizado, e o narrador. Os três colegas se conhecem na aula de Vladimir Horowitz em Salzburgo e criam um laço através de uma espécie de amizade intelectual, dedicando-se de corpo e alma à dimensão artística. Trata-se de uma prática implacável e incessante ao piano, repleta de autodisciplina, inflexível, em consonância com seu radicalismo pianístico. Nessa disciplina, porém, eles próprios são as vítimas. Para os três jovens músicos, essa atividade absorvente se traduz em uma clara separação do mundo, em uma forma extrema de idiossincrasia e isolamento. Mas apenas Glenn se esforça verdadeiramente para mergulhar completamente na música. Ele é o único dos três que se destaca imediatamente como um gênio, um prodígio capaz não só de superar os outros dois, mas também o professor (Vladimir Horowitz). E isso porque, em palavras que aludem à Crítica do Juízo de Kant (1790), seu gênio estético não precisa de conceito, não está sujeito a regras, mas as cria. O narrador explica da seguinte maneira:
'A natureza de Wertheimer era completamente oposta à de Glenn [...] ele tinha uma concepção de arte, Glenn Gould não precisava de uma.' (p. 120-1)
Durante aqueles meses em Salzburgo,
"Glenn é que fez de Horowitz o professor ideal para seu gênio por meio de seu próprio gênio, e não Horowitz (fez) de Glenn por fim um gênio, pensei." (p. 116)
É claro que Bernhard retrata Glenn Gould não apenas por meio de sua personalidade, mas também em perfeita afinidade com os protagonistas de seus romances, que se esforçam para remover elementos externos de sua obra, para conquistar um espaço diferente, esse reino utópico da arte, em contraste com a dimensão da vida. O narrador descreve Glenn com as seguintes palavras:
"Ele era a pessoa mais implacável consigo mesmo. Não se permitia imprecisões. Desenvolvia sua fala unicamente a partir do pensamento. Detestava pessoas que falavam sem terminar seus pensamentos, por isso detestava quase toda a humanidade [...] Comprou a casa na floresta [...] Ele e Bach viveram nessa casa na América até sua morte. Ele era um perfeccionista em relação à ordem." (p. 35)
Por essa razão, Glenn se recolhe ao isolamento voluntário, uma autoconcentração que também se expressa em sua postura caracteristicamente curvada ao piano. Em relação ao isolamento autoimposto de Glenn, lemos em O Náufrago:
"Ele (Glenn) se entrincheirou em sua casa. Para sempre. O desejo de nos entrincheirarmos sempre foi algo que nós três tivemos ao longo da vida. Todos nós nascemos fanáticos por barricadas; Glenn levou seu fanatismo por barricadas ao extremo." (p. 27)
Dos três fanáticos por barricadas, no entanto, Glenn será o único que realmente romperá todo contato com o mundo, enquanto Wertheimer e Horowitz, embora de maneiras diferentes, estão condenados a permanecer presos e enredados na teia da realidade.
NOTA EXPLICATIVA
Cf. https://pt.postposmo.com/varia%C3%A7%C3%B5es-de-goldberg/

