“Tornara-se muito comum escrever poesias e dedicá-las às cantoras de ópera. Era um tempo em que as mulheres de família quase não colocavam os pés nas ruas, de maneira que restavam aos rapazes apaixonados ou as prostitutas ou essas atrizes cobertas de glória. Na verdade, estas tinham incontáveis adoradores, que duelavam pelos jornais, cada qual defendendo em versos a sua musa. Houve mesmo uma verdadeira batalha nas gazetas entre as facções casalonistas e as chartonistas. Cada poeta tinha a sua dama para louvar, uma autêntica transposição moderna do amor cortês. Quando uma delas entrava no palco, os seus admiradores cobriam-na com pétalas de rosas, enquanto os adversários deitavam vaias e assobios.
Como todo rapaz sonhador, Machado não podia deixar de compor poesias românticas. Aos 16 anos, escreveu uma série de poemas de amor para alguma mocinha que ele não quis revelar e que os críticos batizaram de “ciclo de poesias dedicadas à primeira musa”. Ao todo, são 6 poemas oferecidos a uma cantora italiana, escondida sob o nome de Júlia. Sabe-se que, nessa época, não havia nenhuma atriz ou cantora italiana com esse nome atuando na cidade do Rio de Janeiro. Por causa deste mistério, aventaram-se diversos nomes de possíveis atrizes líricas que poderiam ter despertado tal paixão no peito do jovem Joaquim Maria. Alfredo Pujol sugere o nome de Annetta Casaloni, uma das rivais da Charton. Já o professor Jean-Michel Massa acredita que a mulher em questão seria Augusta Candiani.”
Na presente pesquisa na obra de Machado de Assis, identifiquei, não de forma exaustiva, mas pelo menos de modo exemplificativo, as ocasiões em que o autor manifestou entusiasticamente sua profunda admiração pela soprano lírica milanesa, Augusta Candiani (1820-1890), a "musa" por excelência de Machado, não só em diversas crônicas, mas ainda num conto, num romance e num poema. Embora esta pesquisa aborde apenas a produção de Machado de Assis, sabe-se que muitos outros escritores e poetas românticos teceram à musa do "Bruxo do Cosme Velho" os mais calorosos elogios. Foi o caso de Joaquim Manoel de Macedo em seu romance "O Moço Loiro", Martins Pena em seus "Folhetins" e os poetas Muniz Barreto e Maciel Monteiro, 2º Barão de Itamaracá.
“depois de sua inesquecível interpretação de "Casta Diva", ária mais famosa da ópera Norma, dizer Candiani no Brasil significava dizer ópera lírica italiana e vice-versa.”
Cabe aqui uma observação: os escritores que cobriam as noites de gala nos teatros líricos e saraus, costumavam ter opinião divergente quanto a suas musas: enquanto Machado de Assis privilegiava Augusta Candiani ao longo do tempo, desde suas crônicas e poemas contemporâneos à cantora de forma relativamente constante até depois da morte de sua musa, José de Alencar teve idêntica empolgação (que se pode chamar de "fogo de palha" ou de curta duração) especialmente em relação a três outras cantoras: Charton, Emma La Grua e Anna de La Grange, para as quais escreveu poemas apaixonados, como se pode constatar na Bibliografia. Desse modo, o escritor de O Guarani teria também ficado vivamente impressionado com a atuação de Charton nas óperas Semiramide de Rossini, Os Puritanos de Bellini e O Trovador de Verdi; igualmente, com a primeira atuação de La Grange em Norma em 17/08/1858 (14 anos após a estreia de Candiani com sua Norma de Bellini) e ainda com a sua atuação como Gilda, no Rigoletto de Verdi em 15/10/1858; e com La Grua, por sua atuação como Desdêmona na ópera Otelo de Verdi, que ela escolheu para sua estreia no Brasil, o que aconteceu no dia 06/08/1855.
“Machado de Assis em suas crônicas traz Candiani como memória de uma época. Se no ano de 1844 o escritor tinha apenas cinco anos, o nome de Candiani soará como um eco no tempo. As noites no Teatro S. Pedro de Alcântara estiveram presentes em seu imaginário porque muito provavelmente fazem parte do imaginário de uma época e podem ter-se repetido, aproximando-se ainda mais de suas lembranças.”
“(...) Outro fato de algum interesse é a ressurreição da Candiani. A Candiani não é conhecida da geração presente. Mas os velhos, como eu, ainda se lembram do que ela fez, porque eu fui (me, me adsum ¹), eu fui um dos cavalos temporários do carro da prima-dona, nas noites da bela Norma. Ó tempos! Ó saudades! Tinha eu 20 anos, um bigode em flor, muito sangue nas veias e um entusiasmo, um entusiasmo capaz de puxar todos os carros, desde o carro do estado até o carro do sol — duas metáforas, que envelheceram como eu. Bom tempo! — continua Machado. A Candiani não cantava, punha o céu na boca, e a boca no mundo. Quando ela suspirava a Norma, era de pôr a gente fora de si. O público fluminense, que morre por melodia como macaco por banana, estava então nas suas auroras líricas. Ouvia a Candiani e perdia a noção de realidade. Qualquer badameco era um Píndaro. E hoje volta a Candiani, depois de tão largo silêncio, a acordar os ecos daqueles dias. Os velhos como eu irão recordar um pouco da mocidade: a melhor coisa da vida, talvez a única. (...)”
“O grande escritor Machado de Assis, um “cavalo temporário”? Sim, pois era costume que os jovens diletantes, os melômanos das décadas entre 1840 a 1870, desamarrassem os cavalos da carruagem das primas donas e puxassem o veículo, com a cantora, até sua casa ou hotel, como se fossem os cavalos. E sua paixão era, então, a cantora italiana mais famosa da época, o soprano Augusta Candiani, que chegou ao Brasil em 1843 e por aqui ficou. A imaginação de toda uma geração de artistas e intelectuais ficou marcada pela aura de sua voz. Outras primas donas apareceram, cantaram e foram cobertas de elogios, jóias e puxadas por "cavalos temporários" mais ou menos célebres que Machado... mas arrisco a dizer que nenhuma marcou toda uma geração de jovens artistas românticos como "a Candiani". Depois de retirada dos palcos líricos, foi atriz e professora de música, indo morar em Santa Cruz — onde hoje um grupo de moradores tenta resgatar a casa onde teria vivido e desta fazer um centro cultural. A italiana Candiani é, de muitas maneiras, uma das primeiras 'vozes brasileiras' — e, assim como Paula Brito, tem seu papel na formação da identidade cultural brasileira pouco conhecido. Por sorte da literatura mundial, não falta reconhecimento a Machado de Assis.”
Link: https://vejario.abril.com.br/coluna/andre-heller-lopes/machado-e-seus-fantasmas-da-opera/
“(...) Quem quiser escrever a história do canto entre nós, há de ter diante dos olhos os efeitos políticos desta arte. Sem isso, fará uma crônica, não uma história. Pela minha parte, não conhecendo a crônica, não poderia tentar a história. Pouco sei dos fatos. Não remontando a um soprano que aqui viveu e morreu, homem alto, gordo e italiano, que cantava somente nas igrejas, sei que a ópera lírica, propriamente dita, começou a luzir de 1840 a 1850, com outro soprano, desta vez mulher, a célebre Candiani. Quem não a haverá citado? Netos dos que se babaram de gosto nas cadeiras e camarotes do teatro de S. Pedro, também vós a conheceis de nome, sem a terdes visto, nem provavelmente vossos pais. Já é alguma coisa viver durante meio século na memória de uma cidade, não tendo feito outra cousa mais que cantar o melancólico Bellini.
Ao que parece, o canto era tal que arrebatava as almas e os corpos, elas para o céu, eles para o carro da diva, cujos cavalos eram substituídos por homens de boa vontade. Não mofeis disto; para a cantora foi a glória, para os seus aclamadores foi o entusiasmo, e o entusiasmo não é tão mesquinha coisa que se despreze. Invejai antes esses cavalos de uma hora...
Vivam os povos cantarinos, as almas entoadas e particularmente a terra da modinha e da viola. A viola foi-se da capital com os cavalos, recolheu-se ao interior, onde os peregrinismos são menos aceitos. As peregrinas pode ser que sim; mas novas cantoras já se não deixam ir dos braços de Polião ou de Manrico aos de um senhor da platéia, como a La-Grua, e antes dela a Candiani. (...)”
“(...) Aí estou eu a repetir coisas que sabeis — uns por as haverdes lido, outros por vos lembrardes delas; mas é que há certas memórias que são como pedaços da gente, em que não podemos tocar sem algum gozo e dor, mistura de que se fazem saudades. Aquela noite acabou por uma aurora, que foi dar em outro dia, claro como o da véspera, ou mais claro talvez; e porque esse dia se fechou em noite, novamente se abriu em madrugada e sol, tudo com uma uniformidade de pasmar. Afinal tudo passa, e só a terra é firme: é um velho estribilho do Eclesiastes, de que os rapazes mofam, com muita razão, pois ninguém é rapaz senão para ler e viver o Cântico dos Cânticos, em que tudo é eterno. Também nós ríamos muito dos que então recordavam o tempo em que foram cavalos da Candiani, e riam então dos que falavam de outras festas do tempo de Pedro I. É assim que se vão soldando os anéis de um século.”
