sábado, 17 de janeiro de 2026

MAIO: análise descritiva e interpretativa

Por Francisco José dos Santos Braga

Este texto tem o objetivo de analisar MAIO, crônica de Lima Barreto, realizando, de forma sucinta, sua análise descritiva e interpretativa.
Aos 7 anos, Afonso assistiu com o pai aos festejos da Abolição. A princesa Isabel assinara a Lei Áurea no dia do seu aniversário. João Henriques levou o filho ao Largo do Paço e à missa do Campo de São Cristóvão, para testemunhar o grande acontecimento. O menino ficou deslumbrado. Mais tarde, reconstituiu todas aquelas impressões que lhe ficaram, confusas e desordenadas, numa página de memória, que vale por um precioso testemunho. (BARBOSA, 2017, p. 55, grifo nosso)
Lima Barreto criança - Crédito: Blog Literatura é Bom pra Vista

 
I. ANÁLISE DESCRITIVA E INTERPRETATIVA DA CRÔNICA
 
O eu-lírico é um conceito que designa a voz que se manifesta num poema ou página literária, na pessoa do seu narrador ou enunciador, externando sentimentos, refletindo sobre memórias, experiências, ideias que podem ou não refletir o autor. Por isso mesmo, é um recurso essencial na poesia, embora também possa ser usado na prosa para dar profundidade emocional ao texto. Nos textos autobiográficos, como "Maio" de Lima Barreto, o eu-lírico foi utilizado pelo autor para dar um tom artístico e subjetivo à experiência, narrada em 1ª pessoa. 
Em "Maio", os trechos memorialísticos são narrados por um eu-lírico já mais amadurecido (o autor já conta 30 anos), posto que reflete sobre seu olhar de criança ao ver a Lei Áurea sendo assinada no Paço Imperial ao lado de seu pai, no Rio de Janeiro. Observa-se que o tom narrativo adotado é otimista e jubiloso quando o eu lírico se debruça sobre a experiência vivida naquele 13 de maio de 1888, na ocasião há 22 anos atrás: quando chega o mês sagrado de maio, junto com o seu aniversário, rememora um tempo de esperança em que assistiu àquele evento, onde presenciou "palmas, acenos com lenço, vivas", seguidos de dias de uma esfuziante alegria coletiva, durante os quais assistiu ainda a uma missa campal no Campo de São Cristóvão quatro dias depois, à qual compareceram seu pai e ele, onde juntos testemunharam o festejo com "bandas de música, bombas e girândolas; préstitos cívicos"; presenciaram ainda desfile de figurantes pelas ruas, montagem de "estrados para bailes populares, desfile de escolares e de soldados". Em suma, foram "dias de folgança e satisfação". 
Sem entender exatamente o porquê da alegria ambiente, o menino Lima Barreto percebeu o alcance da lei ou a significacão da coisa através de sua professora, mas, "com aquele feitio mental de criança", ou seja, do ensinamento só guardou o conceito do direito à liberdade. A professora, que tanto estimou e a quem afirma "muito dever o seu espírito" (i.é, sua veia crítica e sua atividade literária), mereceu uma posição destacada dentro da crônica. 
Por outro lado, quando o eu-lírico se volta para o presente e anos vindouros, o tom narrativo se modifica, passando a assumir um aspecto pessimista e melancólico, refletindo sobre o tempo, que tem o dom de ceifar aspirações e desfazer o que não passava de um castelo de areia ou promessas de um futuro livre e grandioso. Mas ele continua a viver esperando, esperando... o quê?, pergunta. A esperança é a última que morre: em sua fantasia, pode ocorrer o imprevisto amanhã ou depois, milagres, sorte grande... 
O eu-lírico durante todo o texto está carregado de diversos sentimentos que vão do início ao fim se misturando e se transformando, mas todos eles levam à conclusão da necessidade do devir, o processo contínuo de transformação e mudança constante, um fluxo perpétuo da realidade. E é tomado desta consciência que ao fim diz: "e maio volta", entendendo ser "o mês augusto e sagrado pela poesia e pela arte, jungido eternamente à marcha da Terra", aquele tempo de mudança e esperança em que "um forte flux de vida percorre e anima tudo", para, então desta vez, ir mais a fundo, embora reconheça que a vida é feita de contradições e paradoxos, sendo a única coisa certa "a doce morte, padroeira dos aflitos e desesperados", entre os quais se inclui. 
O autor comemorou ainda 10 meses de maio na sua curta vida de 41 anos. 
 
 
II. OUTRO OLHAR PARA A ANÁLISE DA CRÔNICA  
 
Nesta seção, gostaria de manifestar minha simpatia pelo estudo de Brenda Aryane Serdeira, intitulado A memória em Lima Barreto: Uma leitura da crônica "Maio" sob o viés da narração de fatos históricos, que, segundo a autora, tem um caráter bibliográfico, ao revisitar Walter Benjamin (1987) e Henri Bergson (1999), entre outros estrangeiros; e Francisco de Assis Barbosa (1997-2017) e Alfredo Bosi (2017), entre outros brasileiros.
 
[SERDEIRA, 2024, 80], depois de passar em revista Lima Barreto na literatura e na crônica brasileira, observa, no seu enfoque sobre literatura e história, que
o artista é um ser social que habita determinado tempo e espaço, o que pode influenciar a sua produção  caso, justamente de Afonso Henriques de Lima Barreto, autor da crônica analisada neste trabalho. Como já dissemos, Lima Barreto se preocupava com a produção de uma literatura engajada com os problemas de seu tempo e, nesse sentido, era um observador e crítico do meio em que viveu. Portanto, tendo em vista a relação existente entre literatura e história, observamos que a literatura contribui para a reconstrução de um passado; por outro lado, não podemos confundi-la com um discurso 'qualquer', ou seja, precisamos reforçar o seu caráter artístico. (...) Dessa forma, tendo em vista o discurso literário, frisamos que a palavra literária difere, sim, do discurso histórico, na medida em que, por mais que tenhamos um fato ou acontecimento que condiciona os escritos, há também a subjetividade e o arranjo estético, aspectos que serão contemplados na análise da crônica.
E continua:
Sobre a memória, por meio dos estudos de [BERGSON, 1999, 247], afirmamos que, através dela, é possível compreender o presente, pois ela 'prolonga o passado no presente', ou seja, evoca as percepções passadas, partindo de algo que está no presente: '[...] é do presente que parte o apelo ao qual a lembrança responde, e é dos elementos sensório-motores da ação presente que a lembrança retira o calor que lhe confere a vida' [BERGSON, 1999, 179].
E acrescenta:
Outra questão importante quanto ao estudo da memória diz respeito à escolha, à subjetividade daquele que narra as reminiscências, selecionando, portanto, aquilo que interessa. Portanto, entendemos que primeiro as lembranças surgem, suscitadas por algo presente; são evocadas, recordadas; e, finalmente, selecionadas e interpretadas. (...)
Nesta altura [Idem, ibidem, 81] introduz o conceito de testemunho,
na medida em que diremos, e lemos em vários estudos, que Lima Barreto escreve um testemunho com a crônica 'Maio'. Destacamos que a questão do testemunho envolve a subjetividade daquele que vivenciou os fatos e tem uma liberdade de escolha sobre aquilo que deseja narrar, contar e externar, através das palavras, mas envolve também o compromisso com aquilo que é colocado. (...) É importante frisarmos que, quando pensamos em testemunho, algumas vezes pensamos que tais fatos foram traumáticos, o que não é o caso do texto de Lima Barreto aqui estudado. A escravidão no Brasil, esta sim foi um evento traumático, que também deixou escritos e testemunhos. Naquele dia, entretanto, o escritor festeja o acontecimento, ressaltando que, até então, não conhecera uma pessoa escrava; ou seja, ele é testemunha daquela data, da assinatura da Lei, mas não do fato que a lei abolira.
Como a credibilidade do que é narrado também é uma questão central para todo estudioso do fenômeno literário, importa muito, segundo [Idem, ibidem, 82], que
o texto barretiano narre um evento que seja verdadeiro, que tenha credibilidade e já seja amplamente estudado. O que o texto do autor faz é evocar as suas memórias do dia treze de maio de 1888, em uma tentativa de tentar organizá-las e compreendê-las, quase três décadas depois. Especialmente no que diz respeito à liberdade, é fundamental pensarmos que, no momento em que aconteceu a assinatura da Lei, o sentimento coletivo de liberdade tomou conta da população, inclusive do então menino Lima Barreto. Anos depois, ao refletir sobre o que seria essa liberdade e sobre como a ideia aparentemente está distante da realidade (...), o que o autor faz é uma tentativa de entender as credibilidades daquelas narrativas que circularam no século XIX.
Para [Idem, ibidem, 83], outra dimensão a ser levada em conta é a da memória:
Lima Barreto não recorda a assinatura da Lei Áurea em si, mas aquilo que ele sentiu, o que lembra daquilo, as suas impressões. Nesse sentido, 'sua subjetividade é parte integral do evento e de qualquer descrição satisfatória dele”. [TROUILLOT, 2016, 54]
Quando [Idem, ibidem, 83] trata da memória na escrita de Lima Barreto,
destaca que, muitas vezes, Lima Barreto foi diminuído pela crítica literária, tido como memorialista, ou com escritos demasiado carregados de impressões pessoais, características tidas como defeitos graves, como afirmado por José Veríssimo após a publicação do primeiro romance. ¹
Em seguida, esclarece, no que se refere à memória na escrita de Lima Barreto, que
não é objetivo deste trabalho, especificamente, tratar da escrita memorialística do autor, especialmente de seus romances, mas, sim, realizar a leitura de uma de suas crônicas, valendo-se da memória dos fatos que vivenciou quando criança e posicionando-se sobre um dos momentos mais importantes da história do Brasil, ocorrido no fim do século XIX e anos depois reconstituído através da memória e da literatura.
Leitura da crônica "Maio": o viés literário e histórico 
 
[Idem, ibidem, 83-4] inicia sua leitura da crônica, com a seguinte observação metodológica:
A crônica 'Maio', escrita em quatro de maio de 1911, remete a um acontecimento de 22 anos antes: a Abolição da Escravidão no Brasil, ocorrida em treze de maio de 1888. O escritor, nascido no mesmo dia, sete anos antes (1881), comemorou os dois fatos, o aniversário e a assinatura da lei.
A seguir, [Idem, ibidem, 84] dá início propriamente dito à sua leitura da crônica "Maio" de Lima Barreto:
No início do texto, observamos aquilo que oferece motivação para a escrita e é o provável motivo para evocação das lembranças, presente no título à narrativa: o mês de maio.
Após essa introdução, [Idem, ibidem, 84-5] destaca
a primeira espacialização, ou seja, Lima Barreto situa para o leitor que ele estava no centro do Rio de Janeiro; e, observador, faz questão de ressaltar as mudanças ocorridas no decorrer de mais de duas décadas, além de destacar a presença de um homem. ²
Segundo [Idem, ibidem, 85],
o parágrafo que se segue é importante na medida em que percebemos, através do relato, que Lima não se lembra, com precisão, de todos os acontecimentos que vivenciou, ou seja, as memórias são fragmentadas, incertas, como costuma acontecer quando narramos um fato histórico, pois o autor tenta organizar os eventos através da rememoração daquilo que sentiu.
Logo depois, [Idem, ibidem, 86] destaca uma segunda espacialização, com uma chamada de atenção para a presença do pai, de cuja companhia o filho se valeu para assistir à assinatura da Lei Áurea, bem como à missa campal, quatro dias depois:
João Henriques se fez presente na vida do filho e, em certa medida, ensinou-o a observar a realidade, a participar de acontecimentos importantes e decisivos do país. O escritor explicita que suas recordações não são muitas, mas a lembrança que fica é significativa, na medida em que faz referência a outros momentos históricos fundamentais do país: a 'descoberta', de 22 de abril de 1500; e a 'primeira missa', celebrada em 26 de abril de 1500. Na crônica, a lembrança é em especial desse segundo acontecimento, evocado pela pintura de Vitor Meireles, seguida da analogia com a descoberta. O momento era, para o menino Afonso, uma redescoberta da própria nação, momento emblemático e significativo.
No trecho da crônica sobre a escravidão, fica evidente para [Idem, ibidem, 87] que, por mais que o momento fosse importante e significativo para o menino, ele não tinha a consciência do escritor da crônica, adulto e vítima de preconceito racial, ao longo dos anos que seguem à assinatura da Lei. Na crônica, percebemos as palavras que são usadas, como “cativeiro”, “horror” “injustiça” e “vexatória instituição”, que denunciam as mazelas da escravidão do país. As escolhas vocabulares de Lima Barreto aproximam sua visão da escravidão da de Abdias [NASCIMENTO, 2016, 57], que a define como “o maior de todos os escândalos, aquele que ultrapassa qualquer outro da história da humanidade”. As reflexões que seguem o trecho demonstram o otimismo do menino Afonso, que acreditava em uma consciência coletiva e que o clima de festa evidenciado por ele era de toda a população; porém, sabemos que, infelizmente, tal consciência coletiva não fez parte do sentimento nacional. 
[Idem, ibidem, 88] interpreta que
as alegrias do momento se estendem e o menino vai à escola, onde o sentimento era o mesmo: as crianças acreditavam na liberdade, ainda que não entendessem por completo o que a lei significava ou o que ela alcançaria em termos de direitos (...). Aqui, mais uma vez, a rememoração de Lima Barreto, que evoca coletivamente a (alegria) dos colegas de classe, provavelmente da mesma faixa etária dele, demonstra o sentimento feliz, de expectativas de mudança que rodeava a população, sem saber, entretanto, que pouco mudaria na estrutura social do país, décadas depois.

 

III. NOTAS EXPLICATIVAS
 
¹  Recordações do escrivão Isaías Caminha (1909)
 
² Trata-se do jornalista, escritor e abolicionista brasileiro José do Patrocínio (1853-1905). Foi uma das vozes mais potentes na luta contra a escravidão, tendo fundado o jornal "A Cidade do Rio" e organizado manifestações, defendendo a causa até a assinatura da Lei Áurea em 1888. Consta que Patrocínio, ali diante da multidão reunida, aproximou-se de Isabel, ficou de joelhos e beijou-lhe as mãos, sendo seguido nesse gesto por outros abolicionistas. Patrocínio, na direção do jornal, passou a ser rotulado como um "isabelista", agora que as atenções da opinião pública se voltavam para a campanha republicana. Na época da proclamação da República já era vereador da Câmara Municipal do Rio de Janeiro. Foi ele quem tomou a iniciativa de proclamar a República através de uma moção pública abolindo a Monarquia, preparada por seu jornal e lida, por volta das 18h, perante um grupo reunido na Câmara Municipal do Rio de Janeiro. Após a proclamação da República (1889), entrou em conflito em 1892 com o governo do marechal Floriano Peixoto ao apoiar a Revolta da Armada contra o regime republicano recém-estabelecido, tendo sido detido e deportado para Cucuí, no alto rio Negro, no estado do Amazonas, e seu jornal "A cidade do Rio" suspenso. Retornou discretamente ao Rio de Janeiro em 1893, mas, com o estado de sítio ainda em vigor, a publicação do jornal continuou suspensa. Sem fonte de renda, Patrocínio foi residir no subúrbio, em Inhaúma, onde sua participação política foi inexpressiva, concentrando sua atenção no moderno invento da aviação. Numa homenagem a Santos Dumont, realizada no Teatro Lírico, enquanto discursava saudando o inventor, foi acometido de uma hemoptise, sintoma da tuberculose que o vitimou. Faleceu pouco depois, aos 51 anos de idade, aquele que é considerado, por seus biógrafos, o maior de todos os jornalistas da abolição. (resumo de texto biográfico da Wikipedia)


IV. BIBLIOGRAFIA

BARBOSA, Francisco de Assis: A Vida de Lima Barreto: 1881-1922. 11ª ed. Belo Horizonte: Autêntica Editora, 2017.
 
BENJAMIN, Walter. Sobre o conceito da História. In:  Magia e técnica, arte e política: ensaios sobre literatura e história da cultura. 3ª ed. Trad. Sérgio Paulo Rouanet. São Paulo: Brasiliense, 1987, pp. 222-232.

BERGSON, Henri. Matéria e memória: ensaio sobre a relação do corpo com o espírito. 2ª ed. Trad. Paulo Neves. São Paulo: Martins Fontes, 1999. (Coleção tópicos).

BOSI, Alfredo. (1995). A escrita do testemunho em Memórias do Cárcere. Estudos Avançados, 9(23), pp. 309-322. Disponível em: https://www.revistas.usp.br/eav/article/ view/8862. Acesso em 28 dez. 2025.
 
NASCIMENTO, Abdias. O genocídio do negro brasileiro: processo de um racismo mascarado. São Paulo: Perspectiva, 2016.

SERDEIRA, Brenda Aryane: A memória em Lima Barreto: Uma leitura da crônica "Maio" sob o viés da narração de fatos históricos, Rio de Janeiro: revista Metamorfoses, 2024, vol. 21, nº 2, pp. 73-92 
 
TROUILLOT, Michel-Rolph. Silenciando o passado: poder e a produção da história. Tradução de Sebastião Nascimento. Curitiba: Huya, 1ª ed., 2016. 

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Blog Literatura é Bom pra Vista: Maio: Mês de Aniversário de Lima Barreto, post de 11/06/2021

WIKIPEDIA: verbete "José do Patrocínio"

domingo, 4 de janeiro de 2026

SENADOR FREITAS VALLE E SUA VILLA KYRIAL


Por Francisco José dos Santos Braga
 
Freitas Valle, o singular animador da Villa Kyrial, 1912 - Fonte: CAMARGOS, Márcia: Villa Kyrial..., 2001, p. 36.
 
I. BREVE BIOGRAFIA
 
José de Freitas Valle, também conhecido por Senador Freitas Valle (Alegrete, 1870-São Paulo, 1958) era filho de migrantes que deixaram Ilha Bela com destino aos pampas em 1838 e lá fizeram fortuna. No início de 1886, mudou-se para São Paulo e ingressou neste mesmo ano na Faculdade de Direito de São Paulo. Antes de terminar o curso, com apenas 18 anos, casou-se com Antonieta Egídio de Souza Aranha, pertencente a uma família dos maiores produtores de café na região de Campinas. 
[CAMARGOS, 2004, 51-2] sintetiza a sua atuação pública a serviço da modernização e do desenvolvimento paulista:
Múltiplo de político, mecenas, literato, educador e gourmet, membro da maçonaria e do restrito círculo da elite paulista, (...) Valle foi o que se pode chamar de um legítimo legislador da República Velha. Como deputado de 1904 a 1924 e, depois, senador da bancada do Partido Republicano Paulista-PRP até a Revolução de 30, quando saiu do cenário e abandonou a vida pública, ele desenvolveu uma atuação parlamentar focada na educação e nas artes.
Em 1895 foi nomeado subprocurador do Estado de São Paulo, cargo que exerceu até 1937, ano em que se aposentou como subprocurador-geral e, neste mesmo ano, prestou concurso para a cadeira de Francês e Literatura Francesa no Ginásio do Estado, onde lecionou até 1936. Em 1903 iniciou-se na política, sendo eleito deputado pelo PRP-Partido Republicano Paulista para a Câmara Estadual de São Paulo na 6ª Legislatura (1904-6) sendo sucessivamente reeleito até a 12ª Legislatura. Em 1922 se candidatou e foi eleito para preencher uma vaga aberta no Senado Estadual, tendo sido reeleito para o mesmo cargo até a extinção deste pelos revolucionários de 1930. Foi especialmente fiel ao PRP e a seus amigos e correligionários, Washington Luís Pereira de Sousa e Júlio Prestes, igualmente alijados do poder. 
Em 1904 o Senador Freitas Valle adquiriu de alemães uma chácara com 7.000 m quadrados, chamada Villa Gerda. Na ocasião, a cidade contava com 240.000 habitantes, com apenas 83 automóveis circulando pela cidade, não podendo ultrapassar 30 km/h de velocidade. A propriedade se localizava na rua Domingos de Morais nº 10, próxima à Av. Paulista, na Vila Mariana. Mais tarde, esse espaço foi rebatizado com o nome de Villa Kyrial pelo amigo do senador, o poeta Alphonsus de Guimaraens, colega de Freitas Valle e um de seus mais ilustres frequentadores, que utilizava a terminologia greco-latina para compor os seus versos. Entendendo que o nome original não soava muito bem nem combinava com o espírito do lugar, decidiu alterar o seu nome para Villa kyrial, segundo ele, uma villa para os eleitos do kyrios (dono, mestre ou senhor), onde o senhor era o senador José de Freitas Valle. Logo, a Villa Kyrial transformou-se em um salão artístico literário, inspirado na moda dos "salões europeus". Durante as primeiras décadas do século XX, a Villa Kyrial, passou a ser o point paulistano para encontro de artistas, poetas e declamadoras, como também de políticos, que se reuniam em magníficos saraus lembrando os da "Belle Époque" parisiense.
Convidados no terraço de Villa Kyrial, durante um almoço de domingo, em 1916. Fonte: CAMARGOS, Márcia: Leis & Letras..., 2004, p. 61.


 
É verdade que havia outros salões sociais de grandes figuras da oligarquia cafeeira paulista, além do pertencente ao Senador Freitas Valle, como os de Veridiana da Silva Prado, Paulo da Silva Prado e de Olívia Guedes Penteado, todos mecenas comprometidos em maior ou menor escala com a modernização de São Paulo e do país. Vê-se, em todos esses casos, a articulação entre os interesses econômicos e políticos, bem como a cópia de modelos oriundos da capital do país e internacionais, evidenciando a abertura e receptividade de São Paulo a modelos externos. 
 
Do Arquivo Freitas Valle: senador Freitas Valle, ladeado pelo presidente de Estado Washington Luís e deputado federal Júlio Prestes, todos pelo PRP, em 1925. Fonte: CAMARGOS, Márcia: Leis & Letras..., 2004, p. 54.

 
Em 1911 o então deputado Freitas Valle participou da comissão organizadora da 1ª Exposição Brasileira de Belas Artes. Nesse ano passou a integrar as equipes e bancas de seleção do então criado Pensionato Artístico do Estado de São Paulo (1912), que concedia bolsas de estudos gratuitas de cinco anos em instituições europeias a jovens que demonstrassem reconhecida vocação para as artes plásticas, música instrumental e canto. Dessas bolsas valeram-se, dentre outros, João de Souza Lima, Estelinha Epstein, Leonor Aguiar, Francisco Mignone, Victor Brecheret, Anita Malfatti, Helena Pereira da Silva Ohashi, Guiomar Novaes, Lúcia Branco, Mário Camerini, Mário Barbosa, Raul Larangeira, Bráulio Martins, Pureza Marcondes, os irmãos Romeu e Artur Pereira, Alonso Aníbal da Fonseca, Ernesto De Marco, José Wasth Rodrigues, Paulo Vergueiro Lopes de Leão, Túlio Mugnaini, Paulo do Valle Júnior, José Joaquim Monteiro França, Diógenes de Campos Ayres, Alípio Dutra, Gastão Worms e Mozart Camargo Guarnieri. O Pensionato tinha por finalidade promover o desenvolvimento da produção artística no Estado, uma vez que São Paulo não tinha nenhum instituto de ensino superior na área de artes plásticas, de música instrumental ou de canto. Para esse fim concedia bolsas de estudo a serem cumpridas na Europa (Roma ou Paris) aos estudantes que a requeressem e fossem julgados merecedores do benefício. 
Além do Pensionato Artístico, onde lhe era dado o poder da escolha do pretendente à bolsa na Europa, Freitas Valle foi figura influente no Liceu de Artes e Ofícios (1873), o qual pretendia formar mão de obra especializada para a lavoura, a indústria e o comércio, de acordo com os ideais positivistas que pregavam a "dignificação do homem através do trabalho". 
[CAMARGOS, ibidem, 52] ilustra a sua brilhante influência sobre o governo de Washington Luís como educador:
Para divulgar os métodos pioneiros de ensino, popularizados pelo governo de Washington Luís, Freitas Valle publicou dois livros condensando seu discurso na Câmara, a lei e a regulamentação do ensino público, que inspiraria iniciativas semelhantes Brasil afora. Presidente da Comissão de Instrução Pública por muitos anos, Valle apresentou projetos de lei criando escolas operárias e agrícolas para menores, reformulando os cursos da Escola Politécnica e da Escola Superior de Agricultura Luiz de Queiroz e fundando a Escola Normal do Brás. (...) Sempre pelo Partido Republicano Paulista-PRP, elegeu-se senador estadual em 1924 na vaga aberta com a morte de Gustavo de Oliveira Godoy, com 90.470 votos. Seria reconfirmado no cargo em 25 de abril de 1925, levando para o Senado o mesmo estilo, voltado para os problemas educacionais de São Paulo.
Capa do livro O Ensino Público no Governo Washington Luís, publicado pela Editora Garraux, em 1924. Fonte: CAMARGOS, Márcia: Leis & Letras..., 2004, p. 52.
 
Após seu falecimento em 1958, seus herdeiros venderam a Villa Kyrial à Joelma S.A. Importadora Comercial e Construtora. No ano seguinte, a mansão foi demolida, dando lugar a um edifício de apartamentos, no trecho da Av. Domingos de Morais na esquina com a rua Dr. Eduardo Martinelli. 
Essas são as breves notas biográficas do maior mecenas paulistano de todos os tempos. 
 
II.  RESENHA do capítulo Villa Kyrial do livro autobiográfico de Souza Lima ¹

O primeiro dos bolsistas mencionados, João de Souza Lima, o consagrado príncipe dos pianistas brasileiros, deixou páginas memoráveis sobre seu benfeitor Freitas Valle. O seu livro autobiográfico dedica um capítulo à Villa Kyrial (pp. 43-51), à qual deve o impulso definitivo que determinou a sua carreira e vida futura. [SOUZA LIMA, 1982, 44-5] retrata seu ídolo com as qualidades de um artista integral:
Vou me referir agora a outro ambiente, onde fui recebido muito simpaticamente e onde a minha carreira artística teve o impulso definitivo que me levou à situação que desfruto agora. (...) Esse local foi a famosa Villa Kyrial, mansão de propriedade do Dr. José de Freitas Valle, advogado, político, que ocupou altíssimos cargos no nosso governo. Este homem, de uma cultura excepcional, além de desempenhar com grande brilho e competência as atividades na vida pública de nossa cidade, era um autêntico artista: poeta, escritor, músico, perfumista, conhecedor perfeito de vinhos (possuidor de uma riquíssima adega) e organizador de lindíssimas recepções quando da visita de importantes personalidades a São Paulo. Sua Villa Kyrial se tornou célebre e única por ter sido o centro mais famoso de artistas.
Recepção ao grupo modernista, logo após o lançamento da Semana de Arte Moderna. O último à direita, no primeiro plano, é Mário de Andrade. Fonte: CAMARGOS, Márcia: Villa Kyrial..., 2001, p. 193.

 
A partir dessas observações sobre si mesmo e seu mecenas, [Idem, ibidem, 44-5] descreve com muita objetividade e rigor como o seu ídolo se sentia tocado "pela atmosfera de estetização da vida que ali reinava, centro que marcava desenvolvimentos e superava esferas convencionais e profissionais inserindo-os numa compreensão integral da arte e da vida", na feliz expressão de [BISPO, 2016:02]:
Para fazer-se uma ideia do quanto nosso anfitrião prezava os artistas e cultivava o seu convívio, basta dizer que em todos os dias da semana, sem exceção, reunia um grupo para jantar ao seu lado. Assim, nas segundas-feiras recebia pintores, nas terças-feiras escultores, nas quartas-feiras músicos (aos quais chamava o "Pessoal da Lira" ², nas quintas-feiras poetas, nas sextas-feiras escritores, aos sábados políticos e amigos e aos domingos, em almoços magistrais, realizados no grande terraço de sua bela vivenda, todos os que estiveram durante a semana, em quantidade fácil de se imaginar. Nesses domingos passávamos o dia. Depois do lauto almoço, passeávamos no parque que rodeava a casa, divertindo-nos, completamente à vontade até a tarde, quando então, já à noitinha, éramos reunidos na 'Galeria', grande salão onde se apreciava a imensa coleção de valiosíssimos quadros (para os quais havia iluminação própria e adequada), esculturas e objetos de arte. Ali tínhamos, então, alguns momentos de cultura, quando se exibiam músicos, poetas, declamadoras, etc. Nessas tardes tinha-se oportunidade de ouvir o que havia de melhor; por vezes, até obras em primeira audição, leitura de obras literárias, que iam ser lançadas, pequenas palestras sobre os assuntos do momento, enfim, era um prazer espiritual com plena vivência.
[Idem, ibidem, 47] fala da predileção que gozava o "Pessoal da Lira" da estima do anfitrião nos seguintes termos:
era o grupo que mais gozava a camaradagem do nosso chefe e amigo. Nos dias do nosso jantar em sua companhia, fazia questão que chegássemos em sua residência com uma hora de antecedência, para permanecermos em sua maravilhosa biblioteca, lendo e aproveitando para nos instruir. Por aí se vê o interesse que nos dispensava, desejando nos tornar mais cultos.
Depreende-se desse depoimento de Souza Lima que a intenção de Freitas Valle era elevar o nível cultural dos músicos que participavam das reuniões reservadas aos músicos. Significativo também foi o fato de Freitas Valle ter pedido aos compositores a composição de uma paráfrase sobre seu hino com letra e música do próprio punho:
Freitas Valle dotou sua Villa Kyrial de um hino de sua lavra, não só na música como na letra e sempre com aquela intenção de estimular os seus amigos músicos, fez questão que os compositores escrevessem uma paráfrase sobre o hino. Assim, depois de pouco tempo, apareceram trabalhos do professor Cantú, de Mignone, de João Gomes Jr., todos para piano. Apenas o meu foi escrito para piano a quatro mãos. Todas essas composições apresentaram interesse de concepção, muito bem elaboradas e escritas com entusiasmo pelos seus autores; (...)
Sob a batuta do Jefe, o hino era entoado de pé pelos fiéis cavalheiros (ou melhor, cavaleiros). Fonte: CARMARGOS,  Márcia: Villa Kyrial..., 2001, p. 126.

 

Não deixa de causar espécie no leitor das memórias do notável pianista [Idem, ibidem, 48] que
A Villa Kyrial (...) era uma espécie de 'Ordem Cavaleiresca' , e todos os comensais dos domingos tinham um título, uns sendo 'Cavaleiros', outros, menos graduados, 'Aspirantes'. Todos ostentavam na lapela o distintivo de seus graus. O Chefe Supremo, Freitas Valle, tinha como seu heraldo, o professor Félix Otero; a língua oficial nas reuniões era o espanhol (...)
Muitas composições de valor surgiram naquela Villa de Arte, principalmente em obras para canto e piano, que eram escritas sobre versos, em francês, de Jacques D'Avray, pseudônimo de Freitas Valle (professor e profundo conhecedor da língua). (...) De Freitas Valle são de grande valor os 'Tragipoèmes', obras literárias e filosóficas penetrando profundamente a alma humana em todos os seus aspectos. Desses poemas foram impressos poucos exemplares (não vendáveis) em edição de luxo, numerados, que eram presenteados somente a pessoas da maior intimidade. Alguns foram postos em música por Alberto Nepomuceno, João Gomes Jr. e Carlos Pagliuchi. Este teve o seu trabalho apresentado em público pelo famoso baixo francês Marcel Journet, que o cantou com acompanhamento de orquestra em concerto no Teatro Municipal. (...)
Tive a felicidade de também musicar algumas de suas poesias, entre as quais: 'Amour Avide', que encerra uma letra muito forte e 'La belle aux fleurs', muito feliz na sua ideia, cuja poesia é em forma de 'rondel'. Esses dois trabalhos desencadearam definitivamente o meu futuro e a realização de minha carreira musical. Numa das magníficas recepções na vivenda de Freitas Valle, quando foi recebido e homenageado o grande músico francês Xavier Leroux, este ouviu essas duas composições cantadas pelo tenor Santino Giannattasio. Foram acompanhadas por mim e Leroux aplaudiu-as com entusiasmo, tendo admirado suas harmonizações, que achou de muito bom gosto, cada qual com a sua concepção própria, denotando a verdadeira veia de criação de seu autor. Imediatamente interpelou Freitas Valle, dizendo: 'É preciso mandar este jovem para Paris, estudar no Conservatório, na minha classe de composição, sem perda de tempo.' Daí resultou a atribuição a mim de uma bolsa de estudos na Europa.” (grifos nossos)

 

III. OS TRAGIPOEMAS

 
Sobre os Tragipoemas do poeta simbolista Freitas Valle, sob o heterônimo de Jacques d'Avray, [CAMARGOS, 2004, 53-4] observa que
contagiado por Rimbaud, Mallarmé, Verlaine e Leconte de Lisle, D'Avray criava, em verso livre, soneto ou rondel, uma atmosfera penumbrista por onde desfilavam figuras melancólicas como o cego, o louco, o leproso, o náufrago ou o palhaço. Guiado por esse Leitmotiv, publicou seus tragipoemas em requintadas plaquetas  com poucas páginas e aspecto gráfico apurado. Dedicados a um amigo ou parente, dividiam-se em duas séries, editadas entre 1916 e 1917. Um terceiro álbum (...) foi anunciado em 1920, mas não se efetivou. Impressos sob a forma de folhetos e partituras, a maioria deles chegou a um público restrito apenas a saraus literários. Da primeira série dos tragipoemas, elaborada entre 1892 e 1906, constam sete peças”,
quatro das quais foram musicadas por nomes como Carlos Pagliuchi, Félix de Otero e Alberto Nepomuceno. [CAMARGOS, idem, ibidem] continua:
A série seguinte, escrita entre 1902 e 1917, inclui 'Le miracle de la semence', em cantata para barítono e orquestra pelo maestro Alberto Nepomuceno e levada ao palco do Municipal do Rio de Janeiro em 1917; 'Hosanna', com melodia de Francisco Braga; 'L’Enseigne', musicado por Henrique Oswald e com recital em Buenos Aires em 1919, sob regência de Armand Crabbé; 'Guignol', por Xavier Leroux”,
além de três poemas não musicados. E [CAMARGOS, idem, ibidem] conclui:
As tiragens, em geral, iam de 5 a 8 de cada um em papel Whatman, 25 em Polaire ou Kaschmir e 50 em Japon ou Hollande, nunca ultrapassando um total de 81 exemplares.
Com tipologia, cor e vinhetas diferentes umas das outras, essas plaquetes, acondicionadas em caixas de papel marmorizado com título gravado em dourado, contribuíam para firmar o conceito de livro inaugurado pelos simbolistas. Considerado um espaço de significação, ele passou a ser concebido conforme normas de requinte e da busca de novos efeitos, contrastando com as obras parnasianas e realistas pelo tamanho, formato, número de páginas, pelo luxo e pequena tiragem. Confeccionados em papéis especiais, exploravam com sensibilidade artística o desenho das letras, o emprego de cores, ilustrações dentro do texto e apropriação das margens em branco. Valorizados, os recursos gráficos associavam-se ao tema abordado no poema, estabelecendo um diálogo sinestésico entre forma, conteúdo e sonoridade das palavras, tornando-se parte integrante da própria obra.
Alphonsus de Guimaraens sintomaticamente o chamava de Prince royal du symbole et grand poète inconnu (Trad.: Príncipe real do símbolo e grande poeta desconhecido), pois diferentemente dos parnasianos, pressurosos em escrever sob encomenda, Valle rejeitava comercializar seus versos.
Vendê-los significava aviltar seu valor intrínseco, conspurcar sua nobreza, trair sua essência. Mas também implicava expor sua arte ao julgamento dos críticos e da opinião pública, sujeitando-a a apreciação dos eventuais leitores de fora do anel dos amigos simpáticos, de pareceres afáveis e aplausos garantidos”,
alega [CAMARGOS, ibidem, 55], considerando que
já o uso da língua francesa por alguns simbolistas seria, no entender de Brito Broca, menos para estabelecer uma identificação mais perfeita com os modelos externos do que para acentuar a diferença entre os meios de expressão do poeta e os da massa popular e ignorante”,
enquanto José de Oiticica, militante anarquista, crítico literário e poeta, entendia que os Tragipoemas constituíam pequenas obras-primas, prodígios de sugestão, suavidade e emoção. Considerava que o fato de Freitas Valle escrever em francês não lhe retirava a brasilidade nem diminuía seu patriotismo. [CAMARGOS, ibidem, 56] menciona ainda que
Pouco conhecido fora dos círculos literários, Jacques D’Avray teve poemas publicados em revistas e jornais estrangeiros. Em 1917 e 1920 foi citado no Mercure de France, no qual trabalhou seu amigo José Severiano de Resende. Vetor do simbolismo mundial, esse quinzenário francês dera início, em 1901, a “Lettres Brésiliennes”, uma seção a cargo de Figueiredo Pimentel que procurava traçar um panorama da literatura nacional, abrangendo desde José de Alencar até Alphonsus de Guimaraens.
 
IV. NOTAS EXPLICATIVAS
 
¹ Para a leitura de excelente biografia sucinta do pianista e Maestro Souza Lima, recomendo a consulta à Enciclopédia Itaú Cultural.
 
² Segundo [SOUZA LIMA, ibidem, 44 e 49], integravam esse grupo musical: João Gomes Júnior (pianista), Carlos Pagliuchi (autor de tangos e flautista), Osório César (no violino), o próprio Souza Lima (pasmem!, no violoncelo), o senhor Palmieri (um alto funcionário bancário, na clarineta) e o Dr. Carlos de Campos ³, no contrabaixo, além dos cantores Ernesto de Marco e Santino Giannattasio. Ainda informa que
com todos esses elementos, organizávamos vários tipos de apresentação: ora quarteto, ora quinteto, sonatas para duos e trios de variadas conformações. Tocamos inúmeras vezes um trio (piano, violino e violoncelo) de composição de Carlos de Campos, que fazia grande efeito, obra muito bem arquitetada e que alcançava sempre muito aplauso. Além desse conjunto, fizemos muitos revelação de repertório interessantíssimo através de música a quatro mãos que tocávamos, meu irmão e eu. Assim foi ouvido pela primeira vez: ' La Mer' e 'Ibéria' de Debussy  dois poemas sinfônicos transcritos para quatro mãos.
³ Eis breves notas biográficas de Dr. Carlos de Campos, postadas pelo Conservatório de Tatuí-SP que leva o seu nome: 
Estadista, parlamentar, jornalista, político e músico. Este foi Carlos de Campos, que dá nome ao Conservatório Dramático e Musical de Tatuí. Nasceu a 6 de agosto de 1866 em Campinas e faleceu em 27 de abril de 1927 em São Paulo, antes de concluir seu mandato como presidente do Estado de São Paulo. Formado em direito, Carlos de Campos era compositor e estudioso da música. Foi fundador e membro da Academia Paulista de Letras, assumindo a cadeira número 16. Jornalista desde muito jovem, dirigiu, por várias vezes, o Correio Paulistano, jornal de São Paulo. Como músico, compôs peças líricas, destacando-se “A Bela Adormecida” e “Um Caso Singular”. Algumas de suas músicas avulsas basearam-se nas poesias das “Pedras Preciosas”, de Luis Guimarães Junior. Sua memória é reverenciada no Conservatório Dramático e Musical "Dr. Carlos de Campos" de Tatuí. Dedicou-se intensamente à vida política: foi membro do Conselho de Intendência Municipal de Amparo; deputado estadual, Secretário de Estado da Justiça e senador estadual. Na área federal, foi deputado e se tornou líder da maioria no governo do Presidente Epitácio Pessoa. Iniciou seu mandato como presidente do Estado de São Paulo no dia 7 em maio de 1924. Em seu governo, eclodiu a Revolução dos Tenentes, obrigando-o a se refugiar em Guaiaúna, onde estavam concentradas as forças legalistas. Em sua administração, criou a Guarda Civil e a Força Pública. Antes de falecer, criou, dentro da Força Pública, uma das mais importantes bandas do estado: a Banda da Força Pública que, em 1935, viria buscar músicos tatuianos para sua especialização.” 
 
Cavalaria medieval refere-se à instituição feudal dos cavaleiros nobres e aos ideais que lhe eram associados ou que lhe foram associados pela literatura, nomeadamente a coragem, a lealdade e a generosidade, bem como a noção de amor cortês. 
 
V. AGRADECIMENTO

À minha amada esposa Rute Pardini Braga pela formatação de todos os registros fotográficos utilizados neste trabalho.
 
VI. BIBLIOGRAFIA 
 
 
BISPO, A.A.: “A Villa Kyrial e a Trialogia da Noite. Simbolismo nas relações do Brasil com a Europa da elite republicana paulista no exemplo de elaboração para coro de vozes femininas do poema lírico de José de Freitas Valle (1870-1958)“. Revista Brasil-Europa: Correspondência Euro-Brasileira 160/11 (2016:02). 
 
CAMARGOS, Marcia. Villa Kyrial: Crônica da Belle Époque paulistana, São Paulo: Editora Senac SP, 2001, 256 pp. 
___________________  Leis & letras: Freitas Valle e Jacques D'Avray: o senador-poeta, São Paulo: Revista Acervo Histórico, nº 2, 2004, pp. 51-64.
 
GONÇALVES, Adelto: Marcia Camargos Vila Kyrial Crônica da Belle Époque Paulistana, publicado na revista Colóquio/Letras, de Lisboa, nº 161-162, de jul-dez de 2002, pp. 483-485. 
 
MONTEIRO, Maurício: SOUZA LIMA: um brasileiro em Paris, 1ª edição, São Paulo: Alameda Casa Editorial, 2023, 316 p. 
 
OLIVEIRA, Abrahão: A Villa Kyrial e sua relação com o desenvolvimento artístico de São Paulo, artigo in São Paulo in Foco de 17/08/2018.
 
PINHEIRO, V.C. & DUARTE, L.C.: Quatro tragipoemas de Jacques d'Avray (Freitas Valle): tradução e comentários 
 
SOUZA LIMA, João: MOTO PERPETUO: a visão poética da vida através da música, autobiografia do maestro Souza Lima, São Paulo: IBRASA 1982, 221 p. 
 
ZAVAGLIA, Adriana. Vida e obra de Freitas Valle e Jacques d'Avray: O Mecenas e o Poeta sem História. Dissertação de Mestrado, UNESP, 1994.