Por Francisco José dos Santos Braga
Três amigos da classe média alta ficam se conhecendo em 1953 como alunos de piano em uma masterclass ministrada por Vladimir Horowitz na renomada academia de música de Salzburgo, o Mozarteum. Dos três protagonistas do romance O Náufrago, pelo menos um deles, Glenn Gould, é uma pessoa real. Glenn Gould foi um célebre pianista canadense que encantou o mundo com suas interpretações revolucionárias da música de Bach, especialmente por sua versão das Variações Goldberg ¹ do compositor alemão e que parou de se apresentar em público em 1964 e morreu em 1982. Porém, o personagem principal é Wertheimer, que estudou piano juntamente com Gould em Salzburgo sob a tutela de Horowitz durante um curso de verão na década de 1950. A partir da audição das Variações Goldberg, se inicia o naufrágio de Wertheimer, cujo nome está subentendido no título do romance, e do próprio narrador anônimo, apesar de este se colocar em uma posição superior à de Wertheimer. Diante do brilho de Gould, os outros dois parece não conseguirem conciliar — enquanto um, o narrador, abandona o piano completamente, o outro, Wertheimer, como eu disse, finalmente se suicida no mesmo ano em que Glenn falece de morte natural (1982). Wertheimer e o narrador, embora também virtuoses do piano, foram aniquilados pela genialidade de Glenn e se contentaram em escrever, após o ouvirem interpretar as famigeradas Variações Goldberg. Para eles, esse momento, na sua juventude, foi de abandono de um projeto de carreira de pianista. O narrador chegou à conclusão de que "a cabeça de Wertheimer era mais parecida com a minha que a de Glenn, pensei, que tinha de fato uma cabeça de virtuose, ao passo que nós, Wertheimer e eu tínhamos cabeças de intelectuais." (pág. 81) Quando desistiram do piano, enveredaram pelas ciências do espírito e pela filosofia, respectivamente Wertheimer e o narrador: "Wertheimer leiloou seu Bösendorfer no Dorotheum; eu, para não ser mais atormentado por ele, doei meu Steinway à filha de nove anos de um professor de Neukirchen, nas proximidades de Altmünster." (pág. 11) Foi o próprio Gould que enunciou pela primeira vez o apelido para Wertheimer, "o náufrago" (pág. 44), embora o narrador o alcunhasse "o ofendido" (pág. 45). Glenn via Wertheimer por dentro desde o primeiro instante, como via por dentro e de imediato todos que conhecia (pág. 60). Por exemplo, Glenn chamava o narrador de "filósofo", o que não o incomodava (pág. 26). Sobre Wertheimer, ficamos sabendo ser herdeiro de uma família judia vienense da classe média alta e recentemente ter cometido suicídio na Suíça, tendo-se enforcado logo após a morte de Glenn por causas naturais. Desde 1953, ou seja 28 anos atrás, ficou evidente para o narrador que se estabeleceu uma verdadeira oposição entre Glenn e Wertheimer a começar pelas marcas dos seus pianos prediletos: "O Bösendorfer de Wertheimer contra o Steinway de Glenn Gould, pensei; as Variações Goldberg de Glenn Gould contra a Arte da Fuga de Wertheimer, pensei." (pág. 213-4) Portanto, dos três amigos, apenas o narrador em 1ª pessoa está vivo; seu relato sobre a amizade que uniu os três protagonistas pelo resto de sua vida é a maneira que o narrador anônimo encontrou para enfrentar esse período de luto.
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| Glenn Gould, tocando e cantando simultaneamente, como de costume |
O Náufrago (1983) é o romance de Thomas Bernhard explicitamente dedicado à música. O Náufrago de Thomas Bernhard, publicado originalmente em 1983, é um retrato de três pianistas obsessivos e seus problemas de primeiro mundo, escrito como um monólogo em um único parágrafo extenso. É um romance parcialmente autobiográfico, uma espécie de entrelaçamento de ficção e realidade. Por exemplo, de acordo com Renate Langer, escritora e professora austríaca especialista em Bernhard, o Glenn Gould histórico (1932–1982) nunca estudou em Salzburgo; apenas tocou peças de Bach no Mozarteum em 1958 e 1959. Além disso, Thomas Bernhard estudou música e teatro na academia Mozarteum de Salzburgo de 1955 a 1957 (e não antes), mas nunca conheceu pessoalmente Glenn Gould, o modelo para o protagonista de "O Náufrago"; também ele nunca foi aluno de Horowitz, sequer o conheceu pessoalmente. Glenn assombrou o mundo, mas em 1964 abandonou os palcos, isolando-se numa fazenda próxima de Nova Iorque, onde manteve um estúdio (que o narrador chama de jaula), em que gravava seus concertos de forma obsessiva, por não suportar a presença de plateias. É provável que Bernhard tenha utilizado elementos da vida real amplamente divulgados sobre o "mito" Gould para a constituição de seu personagem. Por outro lado, não é coincidência que Wertheimer — como o narrador recorda — tenha querido apagar todos os vestígios do livro de sua própria lavra, uma espécie de autobiografia que também teria se intitulado "O Náufrago".
Quase todo o romance se desenrola na recepção de uma pousada, onde o narrador quer se hospedar, ou melhor, na sua cabeça, na forma de memórias, reminiscências circulares enquanto aguarda a dona da pousada. Aí, ele repassa toda a vida dos três amigos desde que se conheceram. O narrador não observa a sequência dos fatos, pois segue o fluxo de seu pensamento, dando a entender que a ordem cronológica dos acontecimentos não é o aspecto mais importante do enredo (se é que existe um), cuja essência não é prejudicada; pelo contrário, isso até o caracteriza. "Mais do que se apoiar em um enredo, constata-se que O Náufrago se sustenta numa situação exaustivamente examinada sob diversos ângulos".
É possível ver no romance "O Náufrago" uma semelhança com a forma musical das Variações Goldberg. Para [FRIZERO, 2013], a peça musical de Johann Sebastian Bach
“é composta por um tema musical que é reapresentado em diferentes variações, as quais não repetem a mesma melodia, mas antes são construídas sobre o mesmo desenvolvimento de acordes e a mesma linha de baixo da ária inicial; a novela é escrita em um estilo no qual se sobressaem as repetições vocabulares e sintáticas, bem como um contínuo revisitar de açoes e temas anteriormente apresentados. Como aquela obra de Bach (...), o texto de Bernhard gira em torno do tema inicial, apresentado nos três primeiros parágrafos: o retorno ao passado — marcado pela chegada do narrador a uma pousada austríaca frequentada por Wertheimer —, a dualidade entre a obsessão e a genialidade — sugerida pela constância de Gould em estudar apenas as Variações Goldberg — e a incapacidade de lidar com as limitações humanas — o suicídio de Wertheimer, cuja elucidação é a razão maior do narrador em retornar àquela pequena hospedaria no interior da Áustria.”
O livro é composto de apenas quatro parágrafos: três curtos na primeira página e um quarto parágrafo que se prolonga até o final do relato. A narração flui, sem pausas, sem sequência lógica, sem respiros. O primeiro parágrafo constitui a epígrafe do livro, fazendo menção ao suicídio do náufrago Wertheimer:
“Um suicídio calculado com grande antecedência, pensei, e não um ato espontâneo de desespero.”
Cabe observar aqui a referência recorrente ao verbo pensar, uma constante ao longo de todo o livro, com base em reflexões que o narrador anônimo faz em diferentes partes do livro numa sequência lógica: assim, complementa suas reflexões com a expressão "pensei ao entrar na pousada" até a página 32. A partir daí, suas reflexões sugerem que o narrador já está no interior da pousada, pois passa a utilizar o complemento "pensei na pousada".
O livro O Náufrago foi publicado originalmente pela Editora Suhrkamp Verlag, Frankfurt, 1983, e no Brasil, pela Companhia das Letras/Schwarcz, São Paulo, 1996 com tradução de Sérgio Tellaroli.
Embora o livro O Náufrago se refira apenas às Variações Goldberg de Bach, pode parecer ao leitor desavisado que esta foi sua única gravação. Não nos esqueçamos de que a discografia de Gould é riquíssima, variada e universalmente apreciada. Abaixo seguem as gravações que foram publicadas pela Sony Classical:
- Bach: Concerto Italiano, Partitas, Tocatas
- Bach: A Arte da Fuga, Handel: Suítes para Cravo nº 1-4
- Bach: Concertos para Piano - (Edição Glenn Gould Vol. 1)
- Bach: Variações Goldberg de 1955 - (Edição Glenn Gould Vol. 1)
- Bach: Invenções a Duas e Três Vozes - (Edição Glenn Gould Vol. 2)
- Bach: Partitas BWV 825-830, Little Prelúdios, Pequenas Fugas - (Edição Glenn Gould Vol. 4)
- Bach: O Cravo Bem Temperado, Livro I - (Edição Glenn Gould Vol. 4)
- Bach: O Cravo Bem Temperado, Livro II - (Edição Glenn Gould Vol. 4)
- Bach: Suítes Inglesas, BWV 806-811 - (Edição Glenn Gould Vol. 6)
- Bach: Suítes Francesas, BWV 812-817, Abertura em Estilo Francês - (Edição Glenn Gould Vol. 6)
- Bach: Tocatas - (Edição Glenn Gould Vol. 5)
- Bach: Sonatas para violino e cravo, Sonatas para viola da gamba e cravo - (Edição Glenn Gould Vol. 6)
- Bach: Variações Goldberg (1981, Versão Digital) - (Edição Glenn Gould Vol. 2)
- Beethoven: Sonatas para Piano, Vol. I, nºs 1-3, 5-10, 12-14 - (Edição Glenn Gould Vol. 5)
- Beethoven: Sonatas para Piano, Vol. II, nºs 15-18, 23, 30-32 - (Edição Glenn Gould Vol. 5)
- Beethoven: Sonatas para Piano, nºs 24 e 29 - (Edição Glenn Gould Vol. 3)
- Beethoven: As três últimas sonatas para piano
- Beethoven: 32 Variações sobre o tema da "Eroica" Woo 80, 6, Variações Op. 34, Bagatelas Op. 33 e 126 - (Edição Glenn Gould Vol. 1)
- Beethoven: Concertos para piano e orquestra, nºs 1-5 - (Edição Glenn Gould Vol. 1)
- Beethoven: Concerto para piano no. 5; Strauss: Burlesco
- Byrd, Gibbons, Sweelinck: Consort Of Musicke - (Edição Glenn Gould Vol. 3)
- Wagner: transcrições para piano, Idílio de Siegfried (Glenn Gould Edition Vol. 5)
- Grieg: Sonata op. 7; Bizet: Premier Nocturne, Variações Cromáticas; Sibelius: Três Sonatinas Op. 67, 3 Peças Líricas Op. 41 - (Edição Glenn Gould Vol. 1)
- Strauss: Lieder de Ophelia Op. 67; Enoch Arden Op. 38, Sonata para Piano Op. 5, 5 peças para piano op. 3 - (Edição Glenn Gould Vol. 1)
- Berg/Krenek: Sonatas; Webern: Variações para piano; Debussy: Rapsódia nº 1 para clarinete e piano; Ravel: La Valse - (Edição Glenn Gould Vol. 7)
- Schönberg: Peças para piano, Concerto para piano e orquestra, Fantasia, Ode a Napoleão Bonaparte, Pierrot Lunaire - (Edição Glenn Gould Vol. 6)
- Schönberg: Lieder - (Edição Glenn Gould Vol. 7
- Bach: A Arte da Fuga, Handel: Suítes para Cravo nº 1-4
- Bach: Concertos para Piano - (Edição Glenn Gould Vol. 1)
- Bach: Variações Goldberg de 1955 - (Edição Glenn Gould Vol. 1)
- Bach: Invenções a Duas e Três Vozes - (Edição Glenn Gould Vol. 2)
- Bach: Partitas BWV 825-830, Little Prelúdios, Pequenas Fugas - (Edição Glenn Gould Vol. 4)
- Bach: O Cravo Bem Temperado, Livro I - (Edição Glenn Gould Vol. 4)
- Bach: O Cravo Bem Temperado, Livro II - (Edição Glenn Gould Vol. 4)
- Bach: Suítes Inglesas, BWV 806-811 - (Edição Glenn Gould Vol. 6)
- Bach: Suítes Francesas, BWV 812-817, Abertura em Estilo Francês - (Edição Glenn Gould Vol. 6)
- Bach: Tocatas - (Edição Glenn Gould Vol. 5)
- Bach: Sonatas para violino e cravo, Sonatas para viola da gamba e cravo - (Edição Glenn Gould Vol. 6)
- Bach: Variações Goldberg (1981, Versão Digital) - (Edição Glenn Gould Vol. 2)
- Beethoven: Sonatas para Piano, Vol. I, nºs 1-3, 5-10, 12-14 - (Edição Glenn Gould Vol. 5)
- Beethoven: Sonatas para Piano, Vol. II, nºs 15-18, 23, 30-32 - (Edição Glenn Gould Vol. 5)
- Beethoven: Sonatas para Piano, nºs 24 e 29 - (Edição Glenn Gould Vol. 3)
- Beethoven: As três últimas sonatas para piano
- Beethoven: 32 Variações sobre o tema da "Eroica" Woo 80, 6, Variações Op. 34, Bagatelas Op. 33 e 126 - (Edição Glenn Gould Vol. 1)
- Beethoven: Concertos para piano e orquestra, nºs 1-5 - (Edição Glenn Gould Vol. 1)
- Beethoven: Concerto para piano no. 5; Strauss: Burlesco
- Byrd, Gibbons, Sweelinck: Consort Of Musicke - (Edição Glenn Gould Vol. 3)
- Wagner: transcrições para piano, Idílio de Siegfried (Glenn Gould Edition Vol. 5)
- Grieg: Sonata op. 7; Bizet: Premier Nocturne, Variações Cromáticas; Sibelius: Três Sonatinas Op. 67, 3 Peças Líricas Op. 41 - (Edição Glenn Gould Vol. 1)
- Strauss: Lieder de Ophelia Op. 67; Enoch Arden Op. 38, Sonata para Piano Op. 5, 5 peças para piano op. 3 - (Edição Glenn Gould Vol. 1)
- Berg/Krenek: Sonatas; Webern: Variações para piano; Debussy: Rapsódia nº 1 para clarinete e piano; Ravel: La Valse - (Edição Glenn Gould Vol. 7)
- Schönberg: Peças para piano, Concerto para piano e orquestra, Fantasia, Ode a Napoleão Bonaparte, Pierrot Lunaire - (Edição Glenn Gould Vol. 6)
- Schönberg: Lieder - (Edição Glenn Gould Vol. 7
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Com o objetivo de ser mais abrangente, tomo a liberdade de oferecer uma segunda versão em língua alemã, trazendo ao leitor brasileiro a 1ª parte (de 5 ao todo) de um trabalho acadêmico por [LATINI, 2015, 137-140] em minha tradução, intitulado O Poder da Música. Sobre O Náufrago de Thomas Bernhard:
O Náufrago (1983) é o romance de Thomas Bernhard explicitamente dedicado à música, formando uma espécie de trilogia artística com Mestres Antigos (1985, dedicado às artes visuais) e Lenhadores (1984, dedicado ao teatro). É um romance parcialmente autobiográfico, uma espécie de entrelaçamento de ficção e realidade. Na realidade, Bernhard frequentou a renomada academia de música de Salzburgo, o Mozarteum, de 1955 a 1957, mas nunca conheceu pessoalmente Glenn Gould, o modelo para o protagonista de O Náufrago. De fato, o pianista canadense esteve em Salzburgo apenas para dois concertos, em 10 de agosto de 1958 e 25 de agosto de 1959 — ou seja, depois da visita de Bernhard e fora do período especificado na narrativa. Mas sua morte repentina deve ter fornecido o ímpeto para o romance. De fato, um retrato peculiar de Glenn Gould emerge das páginas de O Náufrago, retratado mais segundo a silhueta do famoso pianista — isto é, segundo a lenda, o mito — do que segundo a realidade de sua pessoa, e fortemente caracterizado por tonalidades tipicamente bernhardianas. Não é coincidência que o personagem fictício de Glenn na obra de Bernhard esteja ligado a uma única obra, sua interpretação das Variações Goldberg de Johann Sebastian Bach; ou seja, o romance destaca apenas um aspecto de sua música.
Mas partamos de um ponto central: no coração de O Náufrago está a música, a arte por excelência dedicada ao absoluto e separada das trivialidades da vida, pelo menos segundo o clichê que se desenvolveu na literatura europeia do século XIX. Nesse cenário literário, a figura do músico ocupa uma posição de destaque porque representa a renúncia à vida mundana em prol da arte. É precisamente isso que acontece na trama do romance de Bernhard com o músico Glenn Gould, mas também, de forma diferente e apenas temporária, com os outros dois protagonistas: Wertheimer, o marginalizado, e o narrador. Os três colegas se conhecem na aula de Vladimir Horowitz em Salzburgo e criam um laço através de uma espécie de amizade intelectual, dedicando-se de corpo e alma à dimensão artística. Trata-se de uma prática implacável e incessante ao piano, repleta de autodisciplina, inflexível, em consonância com seu radicalismo pianístico. Nessa disciplina, porém, eles próprios são as vítimas. Para os três jovens músicos, essa atividade absorvente se traduz em uma clara separação do mundo, em uma forma extrema de idiossincrasia e isolamento. Mas apenas Glenn se esforça verdadeiramente para mergulhar completamente na música. Ele é o único dos três que se destaca imediatamente como um gênio, um prodígio capaz não só de superar os outros dois, mas também o professor (Vladimir Horowitz). E isso porque, em palavras que aludem à Crítica do Juízo de Kant (1790), seu gênio estético não precisa de conceito, não está sujeito a regras, mas as cria. O narrador explica da seguinte maneira:
'A natureza de Wertheimer era completamente oposta à de Glenn [...] ele tinha uma concepção de arte, Glenn Gould não precisava de uma.' (p. 120-1)
Durante aqueles meses em Salzburgo,
"Glenn é que fez de Horowitz o professor ideal para seu gênio por meio de seu próprio gênio, e não Horowitz (fez) de Glenn por fim um gênio, pensei." (p. 116)
É claro que Bernhard retrata Glenn Gould não apenas por meio de sua personalidade, mas também em perfeita afinidade com os protagonistas de seus romances, que se esforçam para remover elementos externos de sua obra, para conquistar um espaço diferente, esse reino utópico da arte, em contraste com a dimensão da vida. O narrador descreve Glenn com as seguintes palavras:
"Ele era a pessoa mais implacável consigo mesmo. Não se permitia imprecisões. Desenvolvia sua fala unicamente a partir do pensamento. Detestava pessoas que falavam sem terminar seus pensamentos, por isso detestava quase toda a humanidade [...] Comprou a casa na floresta [...] Ele e Bach viveram nessa casa na América até sua morte. Ele era um perfeccionista em relação à ordem." (p. 35)
Por essa razão, Glenn se recolhe ao isolamento voluntário, uma autoconcentração que também se expressa em sua postura caracteristicamente curvada ao piano. Em relação ao isolamento autoimposto de Glenn, lemos em O Náufrago:
"Ele (Glenn) se entrincheirou em sua casa. Para sempre. O desejo de nos entrincheirarmos sempre foi algo que nós três tivemos ao longo da vida. Todos nós nascemos fanáticos por barricadas; Glenn levou seu fanatismo por barricadas ao extremo." (p. 27)
Dos três fanáticos por barricadas, no entanto, Glenn será o único que realmente romperá todo contato com o mundo, enquanto Wertheimer e Horowitz, embora de maneiras diferentes, estão condenados a permanecer presos e enredados na teia da realidade.
NOTA EXPLICATIVA
¹ Quando as Variações Goldberg foram publicadas em 1741, contidas no Livro IV do Clavier Übung, foram simplesmente referidas como uma "ária Goldberg com 30 variações para cravo com dois manuais". O tema principal da obra desdobra-se na extensão de 30 variações alinhadas ao baixo ostinato da ária, que é uma figura que se repete muitas vezes em uma peça musical deste tipo.
As Variações Goldberg, BWV 988, é o nome dado a uma composição destinada ao cravo de dois teclados, composta pelo compositor barroco de origem alemã Johann Sebastian Bach no ano de 1741.
Em seus primórdios foi chamado pelo autor de ária com diferentes variações para cravo com dois teclados, a saber: Aria mit verschiedenen Verænderungen vors Clavicimbal mit 2 Manualen (para um cravo com 2 teclados), a obra musical foi arranjada nos tempos em que Bach atuava como cantor na Igreja de Santo Tomás de Leipzig.
O nome dessa obra-prima de Bach vem do cravista e estudante de Bach, Johann Gottlieb Goldberg, que se imagina ter sido o primeiro a interpretá-la.
Conta-se que, naquela época, Goldberg trabalhava a serviço do conde Kayserling, embaixador russo, grande admirador e, de certa forma, defensor de Bach. Então, como o conde era um homem que sofria de insônia, costumava pedir a presença de seu cravista, para que, de seu quarto próximo ao dele, pudesse ouvi-lo e se deliciasse com sua música durante a noite.
BIBLIOGRAFIA
BERNHARD, Thomas: O Náufrago, São Paulo: Ed. Companhia das Letras/Ed. Schwarcz, 1996, 235 p.
BIOGRAFIA: Glenn Gould
FRIZERO, Robertson: Ouse Saber!: Wertheimer e o peso da genialidade,
LANGER, Renate: Der Untergeher. Roman von Thomas Bernhard, erschienen 1983 im Suhrkamp Verlag (Frankfurt/Main).
_______________: Band 6: Der Untergeher: Inhalt
LATINI, Micaela: Die Gewalt der Musik. Zu Thomas Bernhards "Der Untergeher", in Raul Calzoni / Peter Kofler / Valentina Savietto (a c. di) Intermedialität – Multimedialität Literatur und Musik in Deutschland von 1900 bis heute, V&R, Goettingen, 2015, pp. 137-150.
POSTPOSMO: Variações Goldberg: Forma, Variações, Interpretação e Mais
Cf. https://pt.postposmo.com/varia%C3%A7%C3%B5es-de-goldberg/
Cf. https://pt.postposmo.com/varia%C3%A7%C3%B5es-de-goldberg/


Um comentário:
Francisco José dos Santos Braga (compositor, pianista, escritor, tradutor, gerente do Blog do Braga e do Blog de São João del-Rei) disse...
Prezad@,
Pianista, compositor, regente, escritor, documentarista e apresentador de rádio — fazia verdadeiros podcasts décadas antes de estes surgirem —, foi sobretudo ao piano que se dedicou o gênio e excêntrico GLENN GOULD, um dos maiores virtuoses do piano do século XX.
Em meio a outros dois virtuoses, Gould figura como protagonista do livro O NÁUFRAGO, por THOMAS BERNHARD, autor austríaco, nascido na Holanda, dono de um estilo incomparável e controvertido.
No presente trabalho de análise literária, tenho o prazer de apresentar-lhe minha resenha do livro com enfoque principalmente na música, que ocupa grande parte do livro. A interpretação genial das Variações Goldberg de Bach é o fio condutor que leva os outros dois protagonistas, também virtuoses do piano, a abandonarem o seu instrumento e a carreira de concertistas.
Link: https://bragamusician.blogspot.com/2026/02/resenha-do-romance-o-naufrago-do.html
Cordial abraço,
Francisco Braga
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