terça-feira, 4 de agosto de 2026

FLASHES DA MEMÓRIA DE UM CABO DO EXÉRCITO NA GUERRA DE CANUDOS

Por Francisco José dos Santos Braga

Utopia com fanatismo ou civilização com injustiça? O dilema é esboçado e reformulado em várias páginas do livro, que vai adotando uma estrutura bastante teatral de exposição. 
O acesso de ira de um marechal diante da teimosia de seus prisioneiros; a minuciosa descrição de um banho em plena seca nordestina; a aparição da cabeça de Antônio Conselheiro, como um troféu de guerra, entre litros e litros de aguardente; a evocação da noite, do silêncio fatal no campo de batalha são momentos em que "Veredicto em Canudos" adquire grande densidade estética 
Marcelo Coelho (jornalista)

Crianças e mulheres aprisionadas pelo Exército em Canudos, 1897-Foto: Flávio de Barros, Museu da República

 
I. INTRODUÇÃO
 
Vou começar esta matéria pela nota ¹ do autor Sándor Márai no fim do livro "Veredicto em Canudos". (pp. 151-152) Ali ele confessa ter lido o livro de Euclides da Cunha ("Os Sertões"), "aos trancos e barrancos", através de sua tradução para o inglês (com o título "Rebellions in the Backlands”, obra em que o tradutor Samuel Putnam é levado a introduzir inúmeras notas explicativas, explicitando aspectos glotológicos da flora e fauna brasileiras, termos incompreensíveis para o leitor de língua inglesa. Da versão em inglês do livro euclidiano Sándor Márai construiu seu romance ² no final dos anos 1960 na Itália, publicado originalmente em húngaro no Canadá em 1970.) 
A nota ainda expressa que sua leitura do livro de Euclides foi inquietadora, complementando com três expressões "como se", a saber: 
 "como se tivesse estado no Brasil", sendo que nunca esteve no Brasil 
 "como se existisse alguma coisa que tivesse de ser dita", supondo que Euclides foi impedido de revelar algo muito subjetivo que teria se passado durante a sua cobertura da campanha de Canudos para O Estado de São Paulo e, depois, quando da publicação de Os Sertões. Ou como disse mais extensamente na mesma nota o escritor húngaro Sándor Márai: “Um dia comecei a escrever sobre o que acreditava ter ficado de ‘fora’ do livro de Euclides da Cunha  ficara de fora, mas, poderia ter sido assim.”
 "como se, com a história de Canudos, Euclides da Cunha (morto há apenas setenta anos) intentasse (com Os Sertões), mais do que narrar os acontecimentos da explosão anárquica que se deu na orla da Região Nordeste no final do século passado". 
A nota de Márai ainda levanta a hipótese de Canudos não ter sido anacrônica e sim de conter um significado paradigmático para outras rebeliões em relação ao sistema, em muitas outras partes do globo. Quer dizer, com isso, que "a anarquia entrou na moda" após Canudos. Destaca entre as mais importantes, a manifestação de estudantes universitários em Paris em 1968 que resultou numa greve generalizada, sem causa econômica ou social premente. Ou seja, "um país culto, civilizado, paralisou-se durante alguns dias, e o povo francês teve de encarar o pesadelo da anarquia". Mencionou inclusive uma das palavras de ordem da greve: "Sejam realistas, exijam o impossível.
Isso o tranquilizou, e animado continuou a escrever o livro. Para informar o leitor, concluiu que "da obra de Euclides só tomou emprestado dados topográficos, datas e os nomes de alguns personagens ³." "Todo o resto é invenção" finalizou a nota. 
 
¹  A "nota" de Sándor Márai, como um posfácio ao seu livro, é muito informativa. Diz ele que, após a leitura penosa do livro em tradução inglesa, chegou à conclusão de que algo não foi dito por Euclides da Cunha e que "tivesse de ser dito...".
 
² O romance psicológico e filosófico de base histórica Veredicto em Canudos, do escritor húngaro Sándor Márai, é um claro exemplo de intertextualidade. Essa obra dialoga diretamente com o clássico brasileiro Os Sertões, de Euclides da Cunha. 
Apesar disso, as duas obras divergem profundamente em suas lentes narrativas sobre a Guerra de Canudos. O texto de Euclides da Cunha adota uma postura científica e jornalística, enquanto Sándor Márai mergulha na ficção filosófica e psicológica.
Em Os Sertões, o olhar é determinista, analisando o conflito sob as teorias científicas do século XIX (raça, meio e momento histórico); o narrador é observador, posicionando-se como uma testemunha factual, combinando o rigor técnico da engenharia com a crônica jornalística e seu foco é coletivo, isto é, retrata o embate trágico entre duas civilizações (o Brasil litorâneo e republicano contra o sertão isolado). Em suma, o cientificismo acompanha a escrita de Os Sertões.
Por outro lado, o romance de Márai é uma ficção filosófica, onde o autor explora as motivações internas, o misticismo e o absurdo da condição humana diante da violência; o narrador é descentralizado, ao criar personagens fictícios (como um médico, por exemplo) para costurar reflexões existenciais e o choque cultural europeu perante o sertão e seu foco é individual, isto é, prioriza os dramas psicológicos e a busca por sentido moral no massacre, transformando o evento histórico em uma metáfora sobre a intolerância universal.
 
³ Da leitura do livro concluo que foram fictícios pelo menos os seguintes personagens: Oliver O'Connel, a inglesa e seu marido.
Vejamos, a respeito desses três personagens, o que [GODOY, 2025] escreveu in Consultor Jurídico:
Márai construiu o romance a partir de imaginárias memórias de um soldado que lutara em Canudos, presenciando os momentos finais da carnificina propiciada por um ódio inexplicado. O autor precisa dar luzes de verdade à narrativa. Um autor erudito (Márai) precisava se expressar na linguagem de um soldado. Ou, o grande problema, como um soldado convenceria o leitor expressando-se em linguagem de um autor erudito? 
Márai resolve o problema apresentando um soldado que era filho de um irlandês (que veio para o Brasil no tempo da grande fome irlandesa) e de uma cabocla. Consegue, assim, justificar que, por falar inglês (que aprendeu com o pai), o soldado se destacava. Na imaginação de Márai o narrador era o escriba da expedição que destruiu Canudos. 
É na narrativa desse soldado improvável que Márai também registrou a barbárie. O gancho, em forma de salto de registro, é o mais problemático na narrativa. Esse ponto foi resolvido. (...)  
Márai inseriu na narrativa uma inglesa que veio para o Brasil, e que foi até Canudos à procura do marido, que era médico. Na expectativa de estudar as relações entre loucura e desespero o médico misturou-se aos místicos. Desapareceu.
 
II. Caracterização dos Personagens do romance histórico Veredicto em Canudos por Sándor Márai
 
OLIVER O'CONNEL é o narrador da história, bibliotecário que reconta o que viu e ouviu durante quatro horas em 5 de outubro de 1897. Ele é um ex-cabo do Exército na função de escrivão do ministro da Guerra e o protagonista cujas memórias constituem a espinha dorsal do romance. 
Essa perspectiva de um dos personagens assumir a função de narrador se insere no conceito de diegese, um conceito que, introduzido por Platão e divulgado pelos estruturalistas franceses, hoje é utilizado em narratologia, nos estudos literários, dramatúrgicos e de cinema que diz respeito à dimensão ficcional de uma narrativa numa determinada dimensão espaço-temporal. No caso de  um personagem ser simultaneamente o narrador da obra, tal narrador é considerado homodiegético e, em se tratando de Veredicto em Canudos, este narrador em primeira pessoa cria um tom confessional, gerando grande empatia e uma sensação de intimidade, como se estivesse conversando com o leitor.
Seu avô e seu pai nasceram na Irlanda e imigraram para o Brasil. Sua mãe tinha sangue índio. Logo, o narrador era mestiço. Principalmente seu pai foi o responsável pela sua proficiência em inglês:
Comigo ele era mais severo: na minha infância me fez engolir a escrita, a leitura e a língua inglesa. Por essa insistência sou grato, pois foi o que me levou a ser o escrivão em Canudos naquela tarde. E também me propiciou o emprego aqui na biblioteca. Esta é a minha ocupação: sou um auxiliar na biblioteca municipal de São Paulo. Cuido dos livros de história. (...) neste lugar, onde ensaio estas linhas, tenho sossego (...). (p. 10)
Na abertura dessas suas memórias, escreveu:
Vou contar agora o que vi e ouvi em 1897, no dia 5 de outubro, entre as cinco horas da tarde e as nove horas da noite. Nesse intervalo de tempo, o marechal Carlos Machado de Bittencourt, ministro da Guerra do Brasil, (...) na latada  de um lugarejo chamado Rancho do Vigário, improvisou um comunicado à imprensa. (p. 7)
Sobre aquela tarde, fez a seguinte declaração:
Nesses cinquenta anos, nunca esqueci daquelas quatro horas. Naquele tempo eu era um rapazola. (...) Hoje, com os anos, penso à vezes que somente aquelas horas foram verdadeiramente significativas em minha vida  quando fui escrivão do marechal Bittencourt na edificação em ruínas do Rancho do Vigário. Tudo o que me aconteceu depois não teve importância. (p. 8) 
Não sei ao certo por que coube justo a mim o papel de escrivão durante o comunicado do marechal à imprensa. (p. 15)
Parece que a resposta parece óbvia: O'Connel era letrado, falava inglês, fato que justifica mais tarde ser tradutor do inquérito conduzido pelo marechal que visa extrair da prisioneira investigada (ré inglesa) a confissão de supostos crimes na tentativa de coletar informações para compreender comportamentos, perfis ou opiniões que incriminem o Conselheiro e os conselheiristas. Por isso, foi escolhido como escrivão.
O narrador ainda confidenciou ao leitor que "num gesto furtivo enfiou no bolso o caderno de notas do Conselheiro(p. 31), objeto que surripiou e o ajudou a compilar e redigir a narrativa abrangendo as quatro horas, que é o espaço de tempo que se propõe a relatar, de memória.
A respeito desses cadernos de notas amarfanhados e engordurados do Conselheiro morto, explica que eles foram achados pelos soldados quando encontraram o corpo cuja túnica imunda vasculharam.
Neles [nos cadernos], ele [o Conselheiro] escrevia de próprio punho o texto que pregava depois da oração da noite. (...) Essas provas estavam dispersas pela mesa repleta de troféus de guerra, entre os facões curvos e os bacamartes. Num instante em que ninguém atentava, enfiei rapidamente no bolso um desses cadernos rançosos, sujos. (pp. 29-30)
E continua a sua narração:
Mais tarde, sempre que relembrava Canudos  e quando depois ouvi e li aqui e acolá sobre o que aconteceu no meio século que passou , ocorriam-me as profecias desvairadas do Conselheiro. Nessas horas procurava o caderno de anotações e não conseguia fazer troça de verdade do louco que naquela época, havia muito tempo  num canto desconhecido do Nordeste brasileiro, no sertão , acreditava ser também um ungido de Deus (...).” (pp. 30-31)
 
 Significa caramanchão ou abrigo improvisado, referindo-se a uma cobertura rústica feita com folhas. 
 
ANTÔNIO CONSELHEIRO foi o líder religioso de Canudos, cuja figura paira sobre as reflexões sobre civilização e barbárie presentes no texto do Veredicto.
O escrivão-narrador assim se refere sobre Antônio Conselheiro, logo na abertura do romance:
O líder da guerra de Canudos era invisível – chamava-se Antônio, o Conselheiro. Creio que em outros países poucos ouviram falar dele. Não era comandante militar nem chefe de estado. Talvez fosse um louco. Apesar disso, fez com que há cinqüenta anos atrás, no Sertão do Nordeste do Brasil, homens lutassem, matassem e morressem – matassem e morressem com paixão e convicção, como se o banho de sangue que denominavam guerra tivesse alguma finalidade. (p. 8)
O pensamento do Conselheiro pode ser deduzido por várias menções sobre as determinações  dele para a sua comunidade de Canudos:
O que se encontrou no covil de lama não era raridade etnográfica. Como em Canudos a propriedade e o conforto eram proibidos  a proximidade do Armageddon anunciada pelo seu líder, Antônio Conselheiro, impunha que a comunidade vivesse conforme regras que lembravam a primeira experiência católica comunista , a gente de Canudos, no arraial onde morava, o qual construíra às pressas com as próprias mãos, dispensara também o uso da cama e da mesa. Esse "cristianismo", que existia em meio ao sangue e ao mau cheiro, na ausência de posses e numa demência descontrolada, não admitia nada que segundo a concepção genérica de outras civilizações facilitasse ou simplesmente tornasse a vida mais bela. Nem tolerava o que nas sociedades primitivas se denominava "arte". (p. 28) 
Nas caixas de cedro os soldados acharam escritos sobre pedaços amarrotados de papel amarelecido, profecias e textos apopléticos cheios de erros de grafia  trechos das previsões obscuras e dos pronunciamentos incoerentes do Conselheiro. Os crentes mandavam os alfabetizados do arraial copiar esses fragmentos de papel e os carregavam a todos os lugares, como fetiches. A maior parte não sabia ler nem escrever, mas intuía o poder mágico das letras nas profecias aturdidas. (p. 29)
Segue a menção da personalidade e do caráter dos seguidores do Conselheiro:
Os pedacinhos de papel revelavam que esses seres desgraçados que se arrastavam como animais na mata primitiva tinham fé  mesmo em meio à lama e aos dejetos  na Escritura, na verdade da Palavra dada, na força bíblica que proclamava que no princípio existira o Verbo, mais poderoso do que o Corpo. Acreditavam que a Palavra era uma coisa importante a ser guardada  importante ainda que não a compreendessem e não se pudesse explicá-la com a razão. Aqueles que em Canudos tinham alguma noção de leitura e escrita reproduziam esses fragmentos balbuciantes dos cadernos de notas amarfanhados e engordurados do Conselheiro. (...)” (p. 29)
Nas páginas amarelecidas ainda se podem ler algumas linhas desbotadas escritas a lápis. São trechos em português tosco, numa formulação confusa. Lêem-se coisas assim:
É, por isso, que digo que quando um povo extermina outro... Então, vindo do oceano chega d. Sebastião com todos os seus exércitos...” (p. 30)
Outra passagem:
Esta guerra vai terminar quando a espada de d. Sebastião libertar o povo do jugo da República...” (p. 30)
Terceira linha:
Em 1899 a água vai se transformar em sangue, e a Terra vai subir aos Céus..." São Paulo teria tido razão em dizer que Deus escolhera os desajuizados do mundo para si?”  (p. 30) 
 
 1 Coríntios 1:18-29
 
O narrador descreve uma cena de muita tensão em que o jornalista correspondente d'O Estado de S. Paulo questiona o ministro da Guerra, marechal Bittencourt, sobre o destino do corpo do Conselheiro. Trata-se do jornalista EUCLIDES DA CUNHA, que entrara na latada com os repórteres, um
homenzinho (...) que podia ter uns quarenta anos, era um tipo magro e acanhado. Seu cabelo engordurado, negro, caía sobre a testa, e os ossos largos, proeminentes, do rosto evocavam uma ascendência índia. Era uma figura excêntrica, errante, mais um vagabundo que um "jornalista... que num momento de descuido se imiscuíra furtivo na sociedade urbana. (p. 53)
O questionamento veio após a fala do marechal Bittencourt, de que "Canudos não foi mais que a revolta dos incultos" e "esses incultos são herança da monarquia", o qual, após dizer esses impropérios contra os conselheiristas, fez uma pausa para indagar em seguida se os jornalistas correspondentes ainda tinham alguma pergunta. Foi quando Euclides indagou de surpresa o que houve com o Conselheiro
Noutra cena que retrata o destemor de Euclides diante da autoridade pública de plantão, o marechal Bittencourt
com a extremidade da bengala apontou pela janela aberta as trevas, o sertão na direção de Canudos. Perguntou: 
 Sabe o que é aquilo na escuridão? 
O correspondente de guerra deu de ombros: 
 Sei,  disse em voz baixa.  O Brasil. 
Respondeu com a palavra que tinha sido usada pela cabeça (do Conselheiro) e pelo marechal   mas num sentido diferente. Deu meia-volta, preparando-se para partir. Antes que ele alcançasse a soleira, a voz do marechal o deteve: 
 Seu nome, senhor! 
A resposta veio em tom imparcial, cortês: 
 Euclides da Cunha. 
Dirigiu-se para a saída a passos arrastados, negligentes. Para o marechal o nome não dizia nada. No entanto os jornalistas lhe abriam caminho solícitos, como se soubessem de uma e outra coisa sobre o repórter d'O Estado de S. Paulo e o respeitassem. Bittencourt acompanhou boquiaberto a figura que se distanciava. Antes que ele pudesse dizer alguma coisa, o homenzinho deixou a latada e desapareceu na noite.(p. 68) 
 
 Este assunto será tratado mais embaixo, quando da descrição do "personagem" intitulado A cabeça do Conselheiro.
 
A CABEÇA DO CONSELHEIRO, que desempenha importante papel no romance, é dotada de enorme simbolismo, levando os presentes a imaginarem que falava em nome do seu dono, o Conselheiro, sendo até certo ponto a sua personificação. No romance, o corpo do Conselheiro tinha sido exumado pelas tropas republicanas e sua cabeça degolada para ser exposta como troféu. Para o escrivão-narrador, o destino grotesco dessa cabeça curtida em cachaça para exibição é retratado como o auge da incompreensão do governo republicano em relação aos ideais messiânicos e comunitários do Conselheiro, o qual contrasta a figura do marechal Bittencourt com os ideais humanísticos de Canudos, possibilitando que se debata se a utopia igualitária de Canudos não era, afinal, uma resposta desesperada contra as mazelas da civilização. Vejamos o que nos traz o romance:
A cabeça, ou o que quer que fosse aquilo, era pequena como os crânios contraídos, como as cabeças encolhidas, carbonizadas, em miniatura, dos sacrifícios dos índios andinos. E como as cabeças reduzidas por defumação, [aquela] tinha uma vivacidade horripilante, como se do caldeirão emergisse um rosto com toda a expressividade de um pequeno ser vivo. Com a mão direita o cabra empunhava num gesto viscoso os cachos grisalhos do troféu que pingava aguardente: exibia e lentamente balançava, pendurada, a cabeça humana. 
A cabeça de múmia curtida no líquido também lembrava os fetos nos vidros de álcool dos laboratórios. Contudo havia mais. O semblante larval e a fisionomia de uma intensidade espectral  os ohos fechados, a boca fina, cerrada, emoldurada pela barba branco-acinzentada (...) A pelugem  a cabeleira abundante que se derramava sobre um ombro invisível, a barba cinza que um dia tocara a cintura e cujo dono, o Conselheiro, cultivara durante cinquenta anos e nunca havia aparado  envolvia o que restava da cabeça como uma coroa tecida de pelos. (p. 58)
Sobre a cabeça do Conselheiro há ainda uma passagem reveladora no romance:
(...) Bittencourt não dava mostras de que a entrevista terminara. Fitava a cabeça alheio aos demais. Como se a cabeça o hipnotizasse: os olhos fechados, a boca fina, cerrada no estertor da morte...
A esse respeito, o escrivão-narrador registrou:
Eu sei, o que vou relatar pode parecer absurdo: nem então nem mais tarde consegui me livrar da suspeita de que naqueles instantes a cabeça falou ao marechal. Sim, não só a Bittencourt, mas a todos na latada   como falam os espíritos, sem voz porém inteligíveis. (...) 
O que aconteceu? Tenho o dever de contar  embora possa causar riso. Naquele momento aconteceu de a cabeça nos falar  a todos no recinto... Não com palavras ou sons, mas de outro modo. 
O que disse?... Estranhamente, na quietude repentina, na imobilidade torporosa, entendemos a fala muda. Não só o marechal espantado, de olhos arregalados, vítreos, mas os correspondentes desconfiados, cínicos, os homens cultos da cidade grande, também ouviram, na hora terminal da tragédia de Canudos, a cabeça  aquele fetiche de pelos e ossos nas mãos do negro  bradar sem voz, dirigindo-se a todos. E o marechal, a fronte suada, enunciou gaguejante o que a cabeça gritava. Deu um passo para trás, endireitou-se e rouco  como quem a um tempo perguntava e respondia  berrou: 
 Brasil!... 
Naquele instante compreendemos a resposta do Conselheiro. Fez-se grande silêncio no recinto.” (pp. 62-63)
 
MARECHAL Carlos Machado de BITTENCOURT, ou apenas Marechal Bittencourt, ministro da Guerra do Brasil.
Naquela ocasião o marechal Carlos Machado de Bittencourt devia ter cinquenta ou cinquenta e seis anos  em algum ponto a meio caminho entre a maturidade e o começo da velhice. (...) Não era gordo, mas sob o paletó de alpaca, de brilho sedoso, que lembrava pelo de camelo, despontava uma barriga. (...) Debaixo do paletó apontava a barriga do homem que envelhecia: a barriga da cidade, sim, essa saliência civil do corpo que no Rio, no escritório, talvez nem chamasse a atenção. Mas em Canudos  naquela hora, no fim do inverno, entre os oficiais e praças reduzidos a ossos pelas carências e sofrimentos da batalha  a barriga que entrou na latada evocou para a maioria dos companheiros de infortúnio (mais tarde o confessaram), e também para mim, uma imagem: "Eis o burguês!"...” (p. 37) 
A seguir, o escrivão-narrador passa a discorrer sobre o conceito de burguês que, no final da primeira década da nossa jovem República, não tinha no Brasil o mesmo significado que em outros lugares do Ocidente, primeiro esclarecendo o que não significava essa palavra no Brasil, para só então no final decidir-se à possibilidade de qualificar, entre nós, o burguês como alguém que "tinha mais a ver com suas raízes do que com a sociedade circundante", "como o oligarca, o senhor feudal, o rei das pequenas pastagens, o latifundiário, (...) porque os limites humanos, sociais também eram imprecisos". (p. 38)
Depois de citar o que o marechal não era (nem um índio autêntico, nem um branco aventureiro e também não um aristocrata), só então o narrador indaga:
"Quem era ele então?" Responde então de forma definitiva:
Um cidadão, um funcionário  um fenômeno social novo por aqueles lados. Era marechal, embora não fosse militar; não portava arma, e sim bengala de passeio e paletó. E vencera porque conseguira organizar  com a ajuda de mil jumentos e mulas  uma linha de suprimentos no sertão. Quedava-se estático, barrigudo. Nós o contemplávamos boquiabertos." (...) Além do lendário paletó e da barriga jovial de burguês "a marca registrada do marechal incluía também a bengala  de bambu curtido, a ponta reforçada com uma proteção de borracha , que ele levava a todo lugar e jamais entregava a ninguém.)” (p. 39)
Por fim, o marechal deu a primeira entrevista coletiva "aos correspondentes que o cercavam acotovelando-se impacientes com o bloco de notas e o lápis nas mãos". Efetivamente não fez um discurso, mas apenas lera
um relatório cheio de números oficiais, nada mais. Além disso, exigira que se lavrasse em ata suas palavras para depois guardá-la em algum lugar  num arquivo ou na história do Brasil. 

 Assim disse: 

Meus senhores!... Há um ano, em dezembro de 1896, no estado da Bahia, uma gentalha fanática, que negava as leis, insurgiu-se contra a nação e a ordem social... sim, contra todas as convenções civilizadas da convivência pacífica. (...) Após dez meses de luta heróica as Forças Armadas da República sufocaram a rebelião. A anarquia acabou.” (pp. 46-7) 
Foi exatamente este ser arrogante, abjeto, insensível e cruel que comandou um "massacre", em que há desigualdade de forças e vítimas incapazes de reagir à agressão — e não uma guerra, pois nesta existe uma capacidade ofensiva e defensiva dos beligerantes relativamente equiparável, o que não foi o caso — genocida e bárbara de 25.000 sertanejos, caluniados de "jagunços", "fanáticos" e "rebeldes", o que só seria factível caso se afirmasse a irracionalidade e a criminalidade do inimigo mais fraco, a fim de mobilizar a tropa e convencer a opinião pública de que tal massacre era necessário para o avanço da civilização e da modernidade nos sertões. (Cf. [ZILLY, 1997, 61])
 
TRÊS PRISIONEIROS DE GUERRA
que  com a corda no pescoço e as mãos amarradas às costas  os soldados conduziram à latada, trouxeram ao recinto abafado o espectro da seca. (...) Os três trajavam o mesmo hábito: o saco bendito, a túnica de tecido amarelo com uma cruz na frente e outra atrás, com demônios e línguas de fogo, usada pelos que no passado a Inquisição condenava à fogueira. No acampamento sabíamos que em Canudos (...) só os "pobres" podiam usá-la, ou seja, os que não contribuíam para a comunidade. E corria o rumor de que o Conselheiro (...) era muito bondoso com esses miseráveis: alimentava-os.” (pp. 79-80) A um aceno do marechal o soldado soltou a corda do pescoço e das mãos dos prisioneiros. (...) os três se agacharam e aconchegaram as mãos em cruz sobre o peito. Havia uma graça na pressa que se sentaram sobre os calcanhares. O da direita era mestiço, os ossos da face largos, a fronte baixa, mais velho. (...) O cabelo engordurado do mestiço era aparado e penteado em círculo sobre a testa  como o dos monges mendicantes. (...) O olhar denunciava um homem que detrás da máscara ressecada ainda sabia alguma coisa sobre si próprio, sua condição e seu destino. (pp. 80-81)O preso da esquerda era um preto retinto  não mulato, e sim negro como nanquim, descendente dos escravos arrastados para o país, cujos ancestrais não se misturaram nem ao índio nem ao branco. Não era um espantalho esquálido como o mestiço (...). Não era "gordo", mas de algum modo tinha conservado os tecidos do corpo  o rosto negro era arredondado como o de uma boneca de pano. Faltava-lhe um dos olhos  arrancado por uma bala; em seu lugar havia um buraco cheio de sangue coagulado. Porém o outro olho não fora atingido e observava tudo  ágil, brilhante, inteligente. A cabeça, o corpo e os braços exibiam cicatrizes de ferimentos graves que portava e expunha como mendigos os membros feridos. Os cabelos lanosos, em cachos curtos, os lábios proeminentes injetados, o corpo musculoso, despertavam nessa massa de epiderme negra uma impressão "humana" (...). Mesmo assim, esse negro  já ou ainda  era humano (...), continuava sendo gente. Era um remanescente da comunidade de Palmares (...). (p. 81) 
O mestiço e o quilombola (...), agachados, acolheram entre eles a terceira pessoa  a que supostamente se contava como mulher. Entretanto, quem havia de reconhecer uma mulher naquele esqueleto e naquela cabeça cadavérica? Ainda assim, o sorriso que aquele semblante trazia não era o mesmo que o do negro e o do mestiço: o olhar era fixo e maquinal como o de uma boneca pintada (...), o sorriso impregnava o rosto cativo seco e enrijecido como a casca do cacto; aderia como o pigmento à tez negra ou marrom-café. (...) A pessoa que seria a mulher vestia uma aparência larval que não denunciava nenhum sentimento: era inerme como se fosse de cerâmica queimada. As linhas imóveis, os olhos semicerrados, a severidade e a loucura que comprimiam os lábios finos de belos traços, tudo parecia indiferente como numa máscara. (...) E, singular, essa criatura não tinha "gênero", como os mortos  que não são do "sexo masculino" nem "feminino", apenas mortos. Assim era essa figura. (pp. 82-83)  
O marechal examinava os prisioneiros com a cabeça inclinada como o caçador no final da empreitada, a presa sobre a mesa posta. E como se julgasse indigno de sua condição dirigir-se diretamente a seres inferiores, voltou-se para mim por sobre os ombros:  
Pergunte qual é a mulher... 
A honra me pegou de surpresa. Contudo, antes que eu pudesse fazer a pergunta, o vulto de camisola amarela no meio do grupo falou. Rouca, numa voz grave, com o acento do lugar  mas também como um animal que rosnasse — disse: 
A mulher sou eu. Você é o marechal?..." (pp. 83-84) 

 

III. COMENTÁRIO
 
Esta mulher que foi inserida na narrativa é uma INGLESA que veio para o Brasil, cruzando o Oceano Atlântico em navio a vapor, desembarcando no porto do Rio ou de Santos, indo em seguida até Canudos à procura do marido que era médico. Ela, por sua vez, foi atrás dele porque desejava descobrir não só o que acontecera nele que o levou um dia a abandoná-la e à bela casa tão silenciosamente..."(p. 132) Ela descobriu que seu marido se convencera de que deveria abandonar o mundo civilizado, "o mundo inteligente, organizado, sem uma palavra, porque teve notícia de Canudos..." (p. 131-132)  com o objetivo de estudar as relações entre loucura e desespero, alistando-se entre os místicos conselheiristas. Quando ele chegou a Canudos, ficou conhecendo que "às vezes o impossível é a única coisa em que vale a pena acreditar". (p. 127) Do dia para a noite, o médico abandonou o lar e a profissão rentável e segura e misturou-se aos místicos canudenses, cujas peculiaridades se tornaram internacionalmente conhecidas após o uso do telégrafo na transmissão das mensagens diretamente do teatro de operações, propiciando o surgimento do conceito de "aldeia global", o que se deu principalmente através de agências noticiosas de Londres.  
A inserção do MÉDICO e de sua esposa,  ambos fictícios, pelo romancista húngaro Márai, representa o interesse do europeu pelo Brasil, assim como o interesse do próprio Márai pelo nosso país, que infelizmente não chegou a conhecer. Foi absolutamente segura de si que esta (esposa) se deu a conhecer, acusando o Marechal Bittencourt de ser ele que faltava à verdade quando afirmava que o Conselheiro morreu, quando ele tinha escapado ao massacre, e disse inclusive que tinha um recado da parte do líder canudense para o Marechal: "Mandou dizer que está vivo. Não há nada que você possa fazer. É inútil ter canhões. Amanhã haverá dez Canudos no Brasil. E depois de amanhã, cem." (p. 85) O Marechal desafiou a mulher a trazê-lo à sua presença. "O que você dá em troca?" (p. 85) foi a sua resposta. "O que você quer?" (p. 87), perguntou-lhe o Marechal. A sua resposta foi que queria tomar um banho. (p. 88) Antes de ser interpelada numa paródia do tribunal do júri, a inglesa exigiu banhar-se com o fim de aprestar-se devidamente para o longo interrogatório que viria a seguir (pp. 90-141).  
O escrivão-narrador constatou e relatou a metamorfose por que passou a mulher após o banho, verdadeira catarse das emoções reprimidas, antes do interrogatório: "A pessoa que havia tomado banho e parecia ter vestido outra roupa quedava-se em paz diante de nós. Seu rosto passava a serenidade e o alívio de quem chegara ao fim de alguma coisa. De quem tivera um grande desejo e o realizara: vivenciara Canudos. E depois tomara um banho." (p. 95) E constatou em seguida: Essa foi a hora da metamorfose em que não só a mulher se transformoou, mas também nós, que a vivemos naquele cenário. (...) O ser que emergiu de Canudos e da banheira do marechal era uma mulher "de verdade". (p. 96)
 
 De acordo com [ZILLY, 1997, 60], "a "aldeia global" não foi inventada por nossa época; sob certos aspectos, ela já nascera no século XIX com a expansão internacional do telégrafo que acelerou vertiginosamente a integração econômica, financeira, cultural do mundo. Graças aos cabos submarinos, informações textuais de todos os tipos, fossem elas públicas, particulares ou secretas — eventos políticos, catástrofes, boatos, cotações nas bolsas de valores, apostas de turfe —, corriam pelo mundo em poucos instantes. (...)  A mídia da época deve ter considerado a Guerra de Canudos tão importante que a transformou em notícia internacional, durante pelo menos oito meses, de março a outubro de 1897." Noutro trecho do mesmo artigo, [Idem, ibidem, 59] afirma que "a Guerra de Canudos foi provavelmente o primeiro conflito interno do Brasil a tornar-se 'evento de mídia' internacional, havendo uma estreita relação entre a sua modernidade e a sua internacionalidade", por terem os conselheiristas se tornado um flagrante empecilho ao progresso e à modernização, os quais interessavam à República promover para se aproximar dos padrões europeus.
 
 
IV. O INQUÉRITO 
 
O ministro da Guerra, Marechal Bittencourt, deu início ao inquérito, indagando pelo nome dela. "Como se ela emergisse subitamente de um estado que talvez fosse loucura e obsessão mas era ao mesmo tempo a sua realidade. Por ela pagara o mais alto preço. Por ela entregaria tudo, tudo o que tinha  e conservara apenas o próprio nome  dela, somente dela. E esse último resto de realidade, o nome, não entregaria a ninguém." Disse apenas: "Nunca." O juiz retrucou: "Bem, fique com ele." E ela redarguiu: "Obrigada." (p. 100) 
Particularmente interessado no destino e nas intenções do médico estava o juiz e ministro da Guerra, Marechal Bittencourt, que submeteu a ré inglesa ao interrogatório conduzido em inglês e presidido pelo mesmo para finalmente exarar o seu veredicto.  No ofício de escrivão do interrogatório estava Oliver O'Connell, que era falante do inglês, portanto alguém que não tinha o problema de entender mal o que a depoente dizia. Grande parte do interrogatório conduzido pelo Marechal versou sobre a intencionalidade do médico, que o incomodava particularmente, e quais  tinham sido as verdadeiras motivações da mulher para vir ao Brasil misturar-se aos jagunços. Sobre a decisão de seu marido de abandonar tudo para se unir aos conselheiristas, ela informou que ele "não lutava", apenas "foi a Canudos porque lá queria ver alguma coisa que antes... no consultório, na clínica... não tinha visto" (p. 103) e "tinha de ir porque o chamava alguma coisa mais forte que tudo o que na casa o rodeava... Seu ofício, seu lar, eu... Ele queria descobrir o que poderia ser mais forte que as invenções dos homens, o modo como vivem, que pensam ser o único possível... Eu era incapaz de imaginar o que seria. Um dia parti" também. De onde?, indaga o juiz. "De lá... Bem, do outro mundo..." (p. 118) Possivelmente o juiz quisesse extrair dela a confissão de que o movimento do Conselheiro estava sendo apoiado pelas grandes potências. Vã esperança! O Marechal só conseguiu ouvir louvores a respeito da comunidade de Canudos como um locus de cristianismo primitivo, sem burocracia, sem clero, sem crime. A certa altura do interrogatório, a ré manifesta pena do juiz por não saber que "um dia todos terão de ir a Canudos". (p. 106) 
Noutro trecho, interpelada pelo juiz se podia voltar à civilização ou sair da comunidade dos conselheiristas, ela respondeu-lhe que "todos eram livres, saíam ou ficavam... Quem chegava se dava conta de que tinha sido aceito... Não queria mais sair porque estava em casa." O juiz a interpelou: "Em casa em Canudos?..." Ao que ela responde: "Sim, e não havia mais para onde ir. Canudos ficava no fim... do caminho. De todos os caminhos." (p. 109) Ela ainda repete muitas vezes que, em Canudos, tudo era diferente. (pp. 109 e 120) Segundo ela, "em nenhum lugar, em nenhuma cidade as pessoas contam com a segurança e a proteção que lá existia." (p. 122) Continuando seus elogios a Canudos e ao Conselheiro, ela informa que "... o Conselheiro mantinha uma grande ordem... Essa era a outra diferença, a grande ordem na desordem... Não era comunismo. No caos havia uma ordem rigorosa, pois quem vinha a Canudos logo compreendia que não chegava a uma nova sociedade, e sim a uma nova vida... Em Canudos havia ordem, mas não havia Estado... Havia pessoas, mas não havia instituições... em Canudos não havia casamento..." (p. 123-124); "em Canudos, para alguém ser padre, não tinha de frequentar o seminário. Nem precisava ser ordenado. Bastava ser padre de verdade." (p. 127) Ao mesmo tempo, ela reconhecia que havia muito ouro e prata no porão do santuário. Segundo ela, "havia medalhões E completou: "Essa era diferença em Canudos... O ouro não tinha mais utilidade... O juiz pediu dela uma definição para Canudos.  Ela não hesitou em dizer: "Foi realidade." (p. 117) O juiz ainda lhe perguntou sobre as leituras de seu marido, citando Nietzsche, Bakunin, Kropotkin, Zeno, Marx, Nicolitas ou os dukhobors e os anarquistas. Ela respondeu-lhe que ele só lia livros médicos e que nunca ouvira falar de qualquer um dos nomes mencionados.
0s integrantes de Canudos, aos quais a interpelada se reuniu, se compunha de umas cem pessoas que se juntaram aos conselheiristas, "entregaram tudo o que traziam, inclusive todo o dinheiro" (pp. 107-108), quando foram recepcionadas por um "velho, de nome Macambira, que lhe disse que Canudos era a ante-sala do Paraíso. Os que queriam se salvar iam para lá porque a República tinha contaminado todos os outros lugares." Ela informou ainda que mais tarde ouviu o mesmo diagnóstico do próprio Conselheiro. (p. 107)  
A certa altura, o juiz pede-lhe para definir Canudos, já que ela não concordava que fosse como uma doença; antes, "era possibilidade" (p. 126), ressaltando que seu marido "sabia o que todos em Canudos sabiam. Sabia que às vezes o impossível é a única coisa em que vale a pena acreditar." (p. 127)  Por sua vez, "ela foi atrás dele porque desejava descobrir não só o que acontecia a seu marido, mas o que acontecera nele que o levou um dia a abandoná-la e a bela casa tão silenciosamente... Queria descobrir o que havia acontecido em seu marido quando um dia, sem dizer nada, deixou aquele mundo maravilhoso, ordenado, onde tudo tinha finalidade e razão... Por isso ela veio a Canudos." (p. 132). Em continuidade, o juiz indaga:  "Descobriu?" — "Sim." — "Por que seu marido foi embora?" — "Porque um dia começou a ter medo." — "Medo de quê?" — "Daquilo que lá... No mundo dos senhores... chamam de ordem. Mas não é isso. É apenas um sistema." — "Em Canudos?..." — Não havia sistema. Havia uma ordem viva." (p. 132) 
Em seguida, o juiz defende o sistema contra a loucura: "O mundo faz troça de nós que nos defendemos contra a loucura com um sistema?" E continua a zombar da crença da mulher na suposta vida de Antônio Conselheiro: "O Conselheiro está vivo e hoje de noite o sino de prata vai tocar? Essa é a sua mentira?... Por que se cala?..." E voltando-se para o Major Sampaio, ordena-lhe: "Sampaio! As fotografias!..." (pp. 132-133)
O Major encontrou duas fotografias — a cabeça cortada, de perfil e de frente e estendeu-as ao Marechal. Porém Bittencourt apontou: — Mostre à senhora.
Quando o Major lhe traz as fotografias, o juiz mostrou-as à mulher, dizendo-lhe: — "Então?..."  "A fotografia é uma mentira. O Conselheiro está vivo." — "Quando o viu pela última vez?" — "Hoje de manhã."  (p. 137) Depois de falar bastante sobre o Conselheiro, repetiu sua mensagem: "Vai partir esta noite. O sino de prata vai tocar, será o sinal... E ele vai fazer novas Canudos no Brasil. Não uma, cem..." (p. 138)
A sobrevivente de Canudos diz que, no arraial do Conselheiro, "ninguém tem medo da morte". O Marechal retruca:  "Não, lá temiam a vida". E aqui cita como exemplo o marido dela de forma ofensiva:  "Por que seu marido tinha tanto medo da vida? (...) Não fosse isso, não a teria abandonado e a tudo... (...) Em Canudos seu marido ganhou algo melhor do que aquilo que abandonou? Melhor que o mundo civilizado?... Melhor que a senhora?" E então continua perguntando se haveria em Canudos algo de superior ao mundo civilizado: "Ci-vi-li-za-do, sim... Não repudie a palavra. É possível que também seja uma mentira... Mas podemos viver nela. Tire as mãos do rosto!..." (pp. 138-139)
A seguir, há ainda um curto diálogo iniciado por uma observação do Marechal: — "Se sabe, diga por que odiavam a democracia..." — "Porque tinham medo dela."— "Do que tinham medo? De que construíssemos pontes, estradas?... De que haveria hospitais, escolas?..." — "(...) Começaram a ter medo porque na mata apareceu um país. Sentiam que tinham caído numa armadilha... Tudo o que os cabos eleitorais prometiam... As eleições... Achavam que era tudo uma cilada. Começaram a ter medo de perder alguma coisa... A individualidade, o que cada um era... Tinham medo porque acreditavam que a nova ordem seria um grande perigo... Nessa ordem o homem seca por dentro, deixa de ser quem é... Tem de se parecer com os demais.. Esse é o grande perigo." (p. 139)
A resposta do Marechal é uma verdadeira apologia da democracia:  "Não pense que nós democratas acreditamos em milagres. Não existe milagre democrático. Como não existe milagre religioso... É tudo lenda. Sabemos que não há redenção... Não existe ordem que modifique as pessoas. Se o seu marido pensava que o Mal poderia remediar os homens, ele viu em Canudos que nem o Mal resolve. Só os padres e os profetas prometem redenção... Essa nova ordem, a nossa... não é pior que a antiga. O imperador e sua gangue, os senhores pretensiosos, inchados, também eram podres... O mundo nunca será melhor, mas... muito lentamente... será outro. Há pouco a senhora disse alguma coisa sobre o sino de prata. Será o sinal de que o Conselheiro ainda vive. E vai partir, continuar a insurreição... Foi o que disse. Porém não ouço sino algum." — "Não, eu também não." (p. 140)
Não satisfeito ainda com as informações que ela lhe dera sobre o marido, perguntou: —"Seu marido era conhecido no arraial? Sabiam dele?..."
Ela então respondeu-lhe: "Ele era conhecido. Era o médico... (...) Já disse, não sobrou nada, roupa, escrito, nada... Só a maleta de médico cheia de material de curativo, medicamentos... A maleta ficava sempre a meu lado, a meu alcance. Se estavam doentes ou feridos, vinham a mim, mesmo à noite. Como se fosse eu a médica... E às vezes eu acreditava nisso... Eu mesma não entendo, mas... Distribuía os remédios ao acaso, o que me caía nas mãos... E confiavam em mim, tomavam o remédio... Para eles era indiferente. O curioso era que ainda assim se curavam... Como não existia em Canudos o padre ordenado, e sim aquele que acreditavam ser padre... O médico também não era quem tinha diploma, e sim aquele que sabia curar e em quem acreditavam... Disso eu antes não sabia." (p. 140-141)
Com o intuito de evidenciar que o questionário já se concluíra, o Marechal foi finalmente mais incisivo: — "Peça alguma coisa. Rápido." — "Obrigada pelo banho, prezado senhor." — "O que mais deseja?..." — "Que permita... Gostaria agora mesmo... Ainda esta noite... Voltar a Canudos." — "Primeiro cumpra o que prometeu." — "O quê?" — "Se o Conselheiro vive... Os soldados vão acompanhá-la. Está escuro. Traga-o aqui." — "Vivo?" — "Ou morto. Depois poderão ir. Os três." (p. 141)
Neste exato instante, os oficiais, os soldados e os dois presos, além do próprio Marechal e da ré, perceberam que "pela janela chegava um som estranho (...), uma ressonânia que repicava excitante, fantasmagórica. Somente o marechal olhava para a mulher, sombrio: a mulher, que havia cruzado os braços sobre o peito e contemplava o teto como se fora o céu, sorria como as figuras humanas primitivas nos primeiros quadros religiosos (...) como os santos baratos de feira ao ouvirem a voz celestial, a boa nova." (p. 142)
A seguir, "Bittencourt  esperou que o sino silenciasse. (p. 142) Olhou em redor distraído e (...) então "encarou-me [o escrivão-narrador], como se me visse pela primeira vez com os olhos vermelhos como de um bêbado." E o escrivão continua, por ter presenciado um acesso de ira do Marechal diante da teimosia de seus prisioneiros: "A seguir  como se percebesse sua impotência — ergueu a bengala desajeitado como se desejasse golpear sem saber exatamente quem. Esse foi o único momento em que o marechal perdeu o autocontrole. Partiu na direção da mulher, do mestiço e do negro brandindo a bengala. (...) Súbito estacou." (pp. 142-143) Nesse instante, ele "compreendeu que nas pessoas existe algo mais forte do que o Poder." (p. 144)
Ato contínuo, acenou para o capitão Sampaio e o major Gonçalves que compreenderam o gesto de Bittencourt que acrescentou: — "Às cinco." Sampaio assentiu mudo. Bittencourt continuou:— "Esses podem ir", referindo-se aos prisioneiros. Ao que Gonçalves rosnou zombeteiro:  "Não irão longe." (p. 143)
O narrador-personagem observa: "Com a partida do marechal, tudo o que tínhamos vivido naquela meia hora — o banho da mulher, a cena incompreensível e o diálogo em língua estrangeira —, aos olhos dos soldados, representava apenas o prelúdio um pouco rebuscado à execução dos presos. É possível que eles também pensassem assim, porque a placidez pétrea em que se achavam  sem dirigir um olhar sequer aos oficiais, aos soldados, nem uns aos outros — não era espera, e sim a indiferença da completa resignação." (p. 145)
O narrador-personagem continua: "Sampaio (...)  num tom áspero ordenou que os três se pusessem em fila. O major e o capitão se aproximaram e confabularam. A ordem do marechal  — de soltar os três presos, levá-los de volta a Canudos, de onde não poderiam fugir, e, de madrugada, executá-los também sumariamente, sem alarido — desagradou não só a soldadesca, mas os oficiais", que queriam a eliminação sumária dos presos diante de um pelotão de fuzilamento ao som de tambores.
Mesmo contrariado, o major Gonçalves — erguendo de súbito, irado — limpou a garganta e começou a gritar: "Podem ir! O caminho está livre..." — e apontava Canudos, a noite, pela janela aberta. "A República é triunfante e generosa! A Democracia é piedosa! Podem voltar a Canudos, seus animais!" E continuou: "Podem ir! Mas antes gritem longa vida à liberdade. Igualdade e fraternidade!... " E, voltando-se para o mestiço, provocou: "Grite!... Viva, viva!..." (p. 147) Como não houve resposta do mestiço, um soldado atirou o laço sobre o pescoço do mestiço e o levou para fora com pressa.
O major, então, voltou-se para a mulher: "Por gentileza, madame!... Por gratidão, madame!... Um pequeno viva à República!...". Ao invés de Viva, viva!, "ela se virou de súbito para o negro. Com os dois braços, num gesto brusco, abraçou a cabeça lanosa e, sorridente, beijou-o na altura do olho, sobre a órbita cheia de sangue coagulado." E não esperando que a laçassem, dirigiu-se à saída a passos ligeiros.
Por sua vez, o negro pigarreou, limpou a garganta, inclinou-se na direção do major e num sussurro educado, em tom de confidência, disse: — "Cago montes para a República." (p. 148)
Finalmente o narrador-personagem anotou: "Ao longe, da barraca do comando um clarim ecoou na noite. Compreendemos que Canudos acabara, chegara a hora de arrumar nossas coisas e voltar para casa  (...) — deixar o sertão para um outro mundo, belo, onde havia liberdade, igualdade e fraternidade." (p. 149)
 
 
V. BIBLIOGRAFIA
 
 
COELHO, Marcelo: Veredicto em Canudos: Húngaro reaclimata conflito brasileiro, in Folha de S. Paulo ilustrada, edição de 04/05/2002 
 
GODOY, Arnaldo Sampaio de Moraes: 'Veredicto em Canudos', de Sándor Márai, in Consultor Jurídico,  edição de 1º/06/2025.
 
JENNY, Laurent: A Estratégia da Forma, Coimbra: Livraria Almedina, INTERTEXTUALIDADES, «POÉTIQUE», nº 27, texto traduzido do francês por Clara Crabbé Rocha, 1979, 232 p.
 
MÁRAI, Sándor: Veredicto em Canudos, Companhia das Letras, tradutor do húngaro: Paulo Schiller, 2002, 159 p.
 
ZILLY, Berthold:   A guerra do sertão como "evento de mídia" na Europa de 1897. In Anos 90, revista do Programa de Pós-Graduação em História, v. 5 nº 7, jul 1997, Porto Alegre: UFRGS, pp. 59-87.
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