domingo, 21 de junho de 2026

PYRAMIDEN, cidade-fantasma soviética congelada no tempo

Por Francisco José dos Santos Braga


I. INTRODUÇÃO 
 
O assunto do qual me ocuparei na presente matéria tem a ver com notícias que circulam na Internet dando conta de algumas cidades fantasmas de elevado interesse dos estudiosos e turistas interessados no porquê do abandono de assentamentos populacionais e nas causas determinantes dessa fuga de vilas e cidades que antes floresciam com certa pujança. No Brasil, as cidades fantasmas que atraem maior interesse são: Fordlândia no Pará, Airão Velho no Amazonas, Igatu na Bahia, Cococi no Ceará, Ararapira e Vila da Copel no Paraná, São João Marcos no Rio de Janeiro, etc. 

Assim como se deu em nosso país, a Rússia se caracteriza por ter abandonado muitos assentamentos populacionais ao longo da sua história. Consta que há cerca de 20.000 vilarejos abandonados na Rússia. A maioria foi esvaziada devido ao colapso da União Soviética e ao consequente declínio de indústrias estatais, à exaustão de minas de carvão em regiões inóspitas, ou a desastres ambientais e projetos de represamento de rios. 
 
Os principais exemplos de assentamentos abandonados com forte apelo histórico incluem: Kadykchan; Mologa; Pyramiden: uma antiga cidade de mineração de carvão administrada por uma empresa estatal russa, localizada no arquipélago de Svalbard (território norueguês); Skrunda-1, uma cidade militar secreta na Letônia; Ilha de Vozrozhdeniya. Além disso, há algumas "cidades russas" abandonadas na Alemanha que são antigas bases e quartéis do Exército Vermelho construídos durante a Guerra Fria no território da antiga Alemanha Oriental (RDA). Após a reunificação alemã e o fim da União Soviética, essas instalações foram evacuadas, transformando-se em cidades fantasmas em meio às florestas. São estas as mais importantes: Wünsdorf e Vogelsang. Há ainda uma base soviética na Polônia: Garnisonstadt Pstrąże. 
 
No caso em questão, vou analisar o abandono de um assentamento em uma ilha localizada no Círculo Polar Ártico denominada Pyramiden, assim chamada por ter formações montanhosas em formato de pirâmides. Na época do florescimento do assentamento, o local chegou a ter 1.000 habitantes, que gabavam da excelente experiência de viverem naquele local. Neste estudo, analisaremos as condições que levaram os habitantes a deixar sua estabilidade na ilha. Minha análise vai cobrir duas situações bem diferenciadas através de registros e filmes, ambas documentadas através de documentário: no primeiro caso, o destaque irá para um concerto que teve lugar no teatro abandonado e reativado para o evento único; no segundo caso, serão acompanhados os passos de um guia turístico armado, devido à presença de ursos polares no local, e roqueiro que se candidatou ao cargo de tomar conta das instalações lá existentes e lá residir colocando-se como guia à disposição de turistas que porventura viessem a procurar a ilha. Em ambos os casos, houve o cuidado do registro cinematográfico, de forma que nosso trabalho é relativamente simplificado.  
Pois bem. Vejamos então as principais informações que consegui coligir sobre Pyramiden, a cidade fantasma soviética que ainda apresenta condições de destaque devido a seu estado de relativa conservação, apesar de inundações e outras intempéries da natureza, possibilitando que turistas se interessem por conhecê-la nos dias atuais. Onde foi possível, forneço minha tradução do inglês e do russo. 
 
Crédito pela imgagem: Jan Erik Waider
  
 
II. Documentário 1: O CONCERTO (com minha tradução do inglês)
 
Preliminarmente devo dar crédito a uma matéria produzida pela CNNstyle intitulada Dentro da cidade mineradora abandonada de Pyramiden, sob a direção em Emma Tucker, em artigo de 26/03/2019, originalmente publicado por The Spaces, uma publicação digital que explorava novos modos de vida e trabalho, com fotos de Jan Erik Waider.
 
O fotógrafo Jan Erik Waider captou a cidade assustadoramente vazia de Pyramiden, no arquipélago de Svalbard (Noruega), que agora é habitada principalmente por ursos polares. 
 
Suas imagens envoltas em névoa focam nos edifícios desertos e na paisagem rochosa do antigo centro de mineração soviéticTho, que está inativo há 20 anos. Outrora lar de cerca de 1.000 pessoas, o local contava com piscina, campo de esportes e um rebanho de vacas.
 
Waider descobriu a cidade enquanto assistia a documentários sobre Svalbard e tirou suas fotografias em duas visitas à região. Ambas foram acompanhadas por um guia armado, que estava de prontidão para avistar os ursos polares que vagam por Pyramiden. Há relatos de ursos invadindo o hotel da cidade – um dos poucos edifícios ainda em uso – e saqueando o bar. 
 
(Nesta altura, há um breve documentário sobre o concerto com o título: This Russian ghost town hosts a unique concert, que significa Esta cidade fantasma russa acolhe um concerto único.” Sugiro ao leitor que assista ao referido documentário, clicando no link: https://edition.cnn.com/style/article/the-spaces-pyramiden-mining-town/)
Legenda do documentário 
Por Ingvild Pettersen Högberg - coordenadora de projetos, RYK:
Não é todo dia que fazemos um concerto em um assentamento russo abandonado. Vivenciar a música e os artistas em um ambiente como esse é algo único. Você nunca mais verá esse artista dessa forma. (Pyramiden é uma mina de carvão no Círculo Polar Ártico que está abandonada há mais de 20 anos. É o lar de um dos concertos mais singulares do mundo.) A única maneira de chegar lá é em uma viagem de barco de uma hora e meia. Todos os equipamentos, todo o som, toda a iluminação: tudo é transportado de barco. (Artistas, dançarinos e mais de 50 convidados selecionados viajaram até lá em temperaturas abaixo de zero para participar de uma apresentação única de música do norte da Noruega.) Todas as casas e tudo mais ainda estão lá. Parece que as pessoas saíram do jantar, simplesmente atravessaram a porta e nunca mais voltaram. É possível encontrar ursos polares em quase todos os lugares, então você precisa ser acompanhado por guardas armados o tempo todo. 
Kjetil Holmstad-Solberg - Músico e vocalista da banda norueguesa de folk-rock Violet Road: 
Tocar em cenários como este mexe com você de um jeito difícil de explicar. É como ir para outro planeta, sabe? Tipo uma viagem no tempo. É louco e lindo ao mesmo tempo. 
Quando a gente está em Pyramiden, não há distrações. A gente tem que estar presente no momento e em nenhum outro lugar. 
Este lugar conquista a gente, é simples assim, conclui Kjetil.
Apresentações de
- Ánnásuolo
- Julie Alapnes
- Kartellet
- Mariann Torset
- Mork
- Violet Road
(crédito: CNNstyle) 
 
Suas imagens captam quão bem preservada está a arquitetura sobrevivente, destacando o enorme esforço que deve ter sido necessário para construir a cidade. Há painéis de madeira, e não há madeira em toda Svalbard, então eles tiveram que importá-la da Rússia, diz Waider. Dá para perceber que eles prestaram muita atenção aos detalhes.
 
As fotografias também focam em alguns dos danos causados ​​à cidade pelas frequentes enchentes da primavera, causando erosão aos edifícios e deixando atrás de si vastas áreas lamacentas. 
 
Gosto de captar a história dos edifícios, diz ele. É um lugar que foi simplesmente deixado para trás. Nada mudou, e a natureza encontrou seu caminho de volta.
 
*************** 
 
 Outras fotos de Waider tiradas nas suas duas viagens a Pyramiden:
 
Glória mineira

Complexo Esportivo "Gagarin" em Pyramiden


  


 





 

III. Documentário 2: PYRAMIDEN  (com minha tradução do inglês)

 
Pyramiden: população: 6 (pessoas). A cidade-fantasma soviética congelada no tempo, no coração do Ártico. 
Gênero: documentário 
Tema: tela grande: A Natureza 
Origem: Grã-Bretanha 
Direção, filmagem, produção e edição: David Beazley 
Website: Beazley films 
Designer de som: Jason Peacock
Colorista: Brendan Buckingham 
Música: Peter Broderick: A Snowflake (Erased Tapes Records), Sensible Soccers-Maria Rosa (Groovement Organic Series), Gde b ni skitalsya ya (Leonid Utesov & his Orchestra)
Agradecimentos a "Sasha" Aleksandr Romanovsky, Alexandr Naumkin, Markus Reher, Natalya Boyce, The Mill.
 
Localizada a apenas 1.287 quilômetros do Polo Norte, na ilha de Spitsbergen, a cidade- fantasma de Pyramiden, da era soviética, é um dos assentamentos permanentes mais setentrionais do mundo. O local foi desenvolvido inicialmente como uma vila mineradora em 1936, depois que os soviéticos adquiriram os direitos de exploração das jazidas de carvão locais. Embora Pyramiden tenha sido abandonada em 1998, permanece notavelmente bem preservada devido ao clima ártico gélido. 
 
Pyramiden foi outrora um próspero assentamento soviético fundado para a mineração de carvão, localizado muito acima do Círculo Polar Ártico, no arquipélago norueguês de Svalbard. Atualmente está quase completamente abandonado desde que foi desativado em 1998. Agora uma atração turística, a extensa cidade-fantasma abriga apenas seis moradores permanentes. 
 
O documentário homônimo narra a vida tranquila e em grande parte solitária de um desses moradores, Aleksandr Romanovsky, que gosta de ser chamado pelo apelido de "Sasha" de Pyramiden e que se considera "talvez o roqueiro mais setentrional no mundo". Ele trabalha como guia turístico no assentamento russo desde 2012, quando, segundo ele, foi o único candidato à vaga. O documentário é um curta-metragem impressionante e premiado que narra a vida solitária e tranquila de Aleksandr "Sasha" Romanovsky, um dos únicos seis residentes durante todo o ano da referida cidade-fantasma. Solitário por natureza, Romanovsky se sente em casa neste lugar incomum e de outro mundo, onde passa o tempo entre as visitas guiadas a raros turistas e a tarefa de espantar ursos polares, dedicando-se a hobbies, como tocar violão e aprender espanhol. 
 
IV. Contribuição para o documentário PYRAMIDEN
 
Na seção final do documentário, como roqueiro que é, Romanovsky dá uma canja para o espectador, cabendo aqui destacar sua última peça ao violão, acompanhando sua própria voz. A canção é muito conhecida: Noites de Moscou, uma canção soviética patriótica, popular durante décadas tanto na URSS quanto na Rússia moderna, escrita no período pós-guerra pelo compositor soviético Vasily Solovyov-Sedoy, com letra do poeta Mikhail Matusovsky, para trilha sonora de uma cena do documentário sobre a competição atlética Espartaquíada dos Povos da URSS em 1956, nome de um grande evento esportivo criado como uma alternativa e contraponto aos Jogos Olímpicos.

A canção foi interpretada por Vladímir Troshin, ator e cantor da época, e alcançou uma popularidade surpreendente em 1957, quando cantada na abertura do Festival da Juventude e dos Estudantes de Moscou, onde Troshin recebeu o Primeiro Prêmio e a Grande Medalha de Ouro por sua apresentação.

Seu conteúdo lírico está ligado à nostalgia, paz e contemplação. A letra descreve uma noite de verão serena e tranquila em uma dacha (casa de campo) nos arredores de Moscou, celebrando um momento especial e romântico antes do amanhecer.
 
Abaixo apresento o texto da canção Noites de Moscou em russo, acompanhada de minha tradução em português:

Подмосковные вечера *

Не слышны в саду даже шорохи,

Всё здесь замерло до утра.

Eсли б знали вы, как мне дороги

Подмосковные вечера.

Eсли б знали вы, как мне дороги

Подмосковные вечера.


 
Речка движется и не движется,

Вся из лунного серебра.

Песня слышится и не слышится

В эти тихие вечера.

Песня слышится и не слышится

В эти тихие вечера.


 
Что ж бы, милая, смотришь искоса,

Низко голову наклоня?

Трудно высказать и не высказать

Всё, что на сердце у меня.

Трудно высказать и не высказать

Всё, что на сердце у меня.


 
А рассвет уже всё заметнее.

Так, пожалуйста, будь добра.

Не забудь и ты эти летние

Подмосковные вечера.

Не забудь и ты эти летние

Подмосковные вечера.

* A bem da verdade, a melhor tradução para Подмосковные вечера deve ser Noites da Moscou suburbana, uma vez que o poeta se refere aos arredores ou subúrbios da capital Moscou.
 
Minha tradução:

NOITES DE MOSCOU

Nem um sussurro se ouve no jardim,
Tudo aqui permanece imóvel até o amanhecer.
Se você soubesse como me são caras
As noites de Moscou.

O rio se move e não se move,
Todo prateado sob a luz da lua.
Uma canção é ouvida e não ouvida
Nestas noites tranquilas.

Por que, minha querida, você olha de lado, *
Com a cabeça baixa?
É difícil expressar e não expressar
Tudo o que está em meu coração.

E o amanhecer já se torna mais visível...
Então, por favor, seja gentil,
Não se esqueça destas estivais
Noites de Moscou!
 
* Neste ponto o roqueiro Aleksandr "Sasha" Romanovsky se esquece da letra dos versos seguintes.  Caso o leitor queira desfrutar a peça até o fim, recomendamos clicar no seguinte link: https://www.youtube.com/watch?v=dFh1hIhmzk 
 

Um comentário:

Francisco José dos Santos Braga disse...

Francisco José dos Santos Braga (compositor, pianista, escritor, tradutor, gerente do Blog do Braga e do Blog de São João del-Rei) disse...

Prezad@,
O post de hoje será dedicado a um tema deveras curioso: o de cidades-fantasmas abandonadas pelas mais diversas razões. Meu foco vai para uma cidade mineradora soviética chamada PYRAMIDEN, situada no arquipélago de Svalbard no Círculo Polar Ártico norueguês, adquirida pelos soviéticos em 1927. Ali se instalou a empresa Trust Arktikugol para a exploração de minério de carvão, para onde enviou trabalhadores russos e ucranianos. No seu auge chegou a ter mais de 1.000 habitantes. Os últimos moradores foram retirados do local em outubro de 1998, quando a Rússia encerrou a mineração na ilha. O motivo para tal foi a decisão do governo russo de não mais investir da forma como havia feito na época da União Soviética.
Hoje consta haver ainda 6 ou 7 pessoas fixas na localidade, basicamente cuidadores e um guia turístico para acolher os visitantes durante o verão.
Funcionando hoje como um museu vivo, a cidade-fantasma soviética ainda mantém intactos prédios residenciais, lojas, bem como o busto do revolucionário comunista Vladímir Lênin.

Link: https://bragamusician.blogspot.com/2026/06/pyramiden-cidade-fantasma-sovietica.html

Cordial abraço,
Francisco Braga