segunda-feira, 15 de junho de 2026

Relendo o livro PASTORAL DE MINAS

Por Francisco José dos Santos Braga

Montanhas de Minas

 
I. INTRODUÇÃO 
 
O poemário de Geraldo Reis intitulado PASTORAL DE MINAS (1981) foi um marco na literatura mineira contemporânea, tendo sido agraciado com o Prêmio Cidade de Belo Horizonte, dado, unanimemente pela comissão julgadora constituída dos poetas Anderson Braga Horta, Henry Correia de Araújo e Márcio Almeida em reconhecimento de sua opulenta recriação literária. De fato, o livro representou um canto inusitado, um alento e uma promessa de melhores dias para a Poesia, num tempo do consumismo diluidor e massacrante. 
 
Segundo Pascoal Motta, prefaciador de Pastoral de Minas, este é
um livro que veio contribuir de forma decisiva para o enriquecimento cultural e da Literatura Brasileira. O livro subdivide-se em duas partes: Pastoral de Minas e Retratos no Vento. Na primeira parte, anuncia-se a vocação mineira do autor, num processo de criação a um só tempo lúdico e lírico. (...)   
Pastoral de Minas é um raro livro de poemas, em que se pode constatar, além da intensa sensibilidade, aflorada em cada sequência poética, o poder mágico de seu autor em transfigurar e multirradiar esteticamente a linguagem de apoio de que dispõe. 
A sua reserva de vocabulário específico, de sintaxe e semântica poéticos vão no afastamento, portanto, da mera linearidade linguística. 
Além disso, é obra em que se configura uma abertura para o mais íntimo e eterno do ser humano, não só pela revitalização de assuntos e temas percucientes à Inconfidência Mineira, mas também no conjunto harmonioso de suas dissonâncias gritantes e na originalidade de expressão. Aqui um papel de Poeta, aqui um compromisso com a Poesia e a Vida. Aqui também sua modernidade, revelada nos arcaísmos renovados, na insólita carnavalização das abordagens históricas. É o que se pode classificar de social/histórico trazido às derradeiras consequências e inconsequências. (...)
 
II. AS EPÍGRAFES 
 
A primeira epígrafe foi extraída da abertura de um texto de João Guimarães Rosa, intitulado Minas Gerais, constante do livro "ave, palavra", a saber:
Minas é a montanha, montanhas, o espaço erguido, a constante emergência, a verticalidade esconsa, o esforço estático, a suspensa região - que se escala.
A segunda epígrafe foi extraída do poemário "Romanceiro da Inconfidência" de Cecília Meireles. Trata-se de uma das estrofes extraída do Romance XX ou Do País da Arcádia que põe em relevo a crispada onda de sublevação, de fundas e sombrias memórias:
“O país da Arcádia, /súbito, escurece /em nuvens de lágrimas. /Acabou-se a alegre /pastoral dourada: /pelas nuvens baixas, /a tormenta cresce.
O livro Romanceiro da Inconfidência de Cecília Meireles reporta-se a um momento da história brasileira bastante conhecido, o qual esteve relacionado à primeira escola literária eminentemente brasileira, o Arcadismo, que foi retomado, no poema, pela palavra "arcádia". O termo "arcádia" refere-se a uma sociedade literária vigente no período colonial nacional, quando a descoberta de ouro na província das Minas Gerais levou a um aumento significativo da sociedade mineira, intensificado pela ida de uma série de indivíduos àquela região mineradora. Efetivamente, o movimento árcade se desenvolveu no Brasil com a fundação, em Vila Rica, no ano de 1768, da “Arcádia Ultramarina”, tendo como referência a publicação, por Cláudio Manuel da Costa, de suas “Obras Poéticas”, constituindo o embrião de uma geração literária brasileira. Além de Claudio Manuel, vários escritores se destacaram no Arcadismo brasileiro, como Tomás Antônio Gonzaga, Frei José de Santa Rita Durão, Inácio de Alvarenga Peixoto, José Basílio da Gama e Manuel Inácio da Silva Alvarenga, quase todos envolvidos com a Inconfidência Mineira e naturais de Vila Rica. 
 
A terceira epígrafe foi extraída da mesma obra de Cecília Meireles e resumidamente aborda o Romance XXXV ou Do Suspiroso Alferes, em que, na sexta esfrofe, propõe Minas intransponível pelas "altas montanhas" e de grande extensão até à Corte pelas "infinitas campinas", acompanhado do reiterado refrão de Tiradentes: "Ah! se eu me apanhasse em Minas!", acreditando que lá em Minas tudo seria diferente: tudo iria se arranjar. Esse refrão expressa o desejo de retornar a Minas, terra dos Inconfidentes. Entretanto, o administrador de uma fazenda, em um depoimento nos Autos da Devassa, menciona que estava combinado entre ele e Tiradentes que ele arranjaria uma canoa, na qual o Alferes fugiria. Os planos de fuga acontecem, embora não concretizados, porque Tiradentes ainda ignora que não tinha mais jeito, já havia sido traído e estava totalmente desamparado.
 
III. SIMBOLOGIA DO PASTOR 
 
[CHEVALIER & GHEERBRANT, 1989, 591-2], no verbete PASTOR, discorre sobre o termo:
(...) o simbolismo do pastor comporta também um sentido de sabedoria intuitiva e experimental. O pastor simboliza a vigilância; sua função é um constante exercício de vigilância: ele está desperto e lê. Por isso é comparado ao sol, que tudo vê, e ao rei. Além disso, o pastor, ao simbolizar o nômade, como já foi dito, está privado de raízes; representa a alma que, no mundo, jamais é sedentária - está sempre de passagem. No que concerne ao seu rebanho, o pastor exerce uma proteção ligada a um conhecimento. Sabe qual o alimento que convém aos animais sob seus cuidados. É um observador do céu, do Sol, da Lua, das estrelas; é capaz de prever o tempo. Por causa das diferentes funções que exerce, o pastor aparece como um sábio, cuja ação deriva da contemplação e da visão interior. (...)

 IV. POEMAS SELECIONADOS  

Da segunda parte do livro Pastoral de Minas (1981), Retratos no Vento, selecionamos para transcrição os poemas de Geraldo Reis dedicados à memória de seu avô e de seu pai, aliada a uma visão poética de um cavalo branco fictício, de elevada simbologia. 

a) Com dísticos

I.
As botas do meu avô
eram pesadas de sono

a cabeleira dele
vaidosa de morrer.

As aventuras do meu avô
eram rios afogados

por sobre morros e vales
meu avô se desgastava.

Venho de seus erros e cangalhas
de seus burros e ravinas
de seus anseios e falhas.

II.
segunda-feira levanto
mas quase sempre deitado

como o sinistro perante
meu pai de olhos cerrados

durmo acordado com tanto
silêncio que tem me dado

há nesses pés de agapanto
meu pai de olhos cerrados

como quem na vida tanto
come o pão do desagrado

silenciosa pelos cantos
minha mãe tem desandado

no coração desabando
pesadelos acordados

e espanta o sinistro quando
meu pai acorda tocando
seus decotes arriados. 
 

b) Quase só com sextetos 

V. ária 

Eu vi um cavalo branco *
à hora da ave-maria
eu vi um cavalo branco
além da sinestesia
da metáfora, do canto
que ele cantava e morria.

Eu vi um cavalo baio
ao som da ave-maria
com relinchos e lacaios
de elegante simetria
era um cavalo encantado
que soluçava e morria.

Era um cavalo encantado 
era um potro de alegria
se revelava no prado
se revelava no dia
na canção de um copo d'água
que ele tomava e morria.

Era um cavalo encantado
subitamente se abria
eram pétalas de fado
com barulhos de alegria
era um cavalo encantado
que gargalhava e morria.

Desse cavalo, onze avos
era o que me competia
por isso desencantá-lo,
cavalgá-lo; quem queria
esse cavalo enviado
que me acordava e morria?

Por isso vê-lo, tocá-lo 
necessário se fazia
a canção desse cavalo
era mansa e me sabia,
por isso desencantá-lo,
cavalgá-lo. Quem seria

Um cavalo sem remédio
sem amarras e arreio
me recomenda no tédio
me revigora no freio
esse cavalo encantado
não era belo, era feio.

O que sabia calava
o que calava hoje leio
era um cavalo de fava
feito de grama - e no meio
desse cavalo ficava
meu mundo de devaneio.

Por isso vê-lo, tocá-lo
necessário se fazia
a canção desse cavalo
era mansa e me sabia
por isso desencantá-lo,
depená-lo. Quem seria?

Era negro, era branco esse cavalo
soterrado em suspiros e recantos
pra reavê-lo um dia fui rimá-lo
minha fábula de clínica e de canto.

Era negro, era baio e erradio
sem roteiro qualquer e sem repasto
era bilíngue em canto ao fim do dia
uma babel difusa além do pasto.

Havia nele a fala indecifrável
da libido de amor que nele havia
não reavê-lo havia além do fado
que me acordava enquanto ele morria.

Nem mesmo Pégaso o noticiara
ou lhe emprestara enfim dispositivo
com que tivesse ele nova tara
e fosse morto ao mesmo tempo e vivo.

Nem mesmo Pégaso ou qualquer vivente
dele soubera ou mesmo conotara
o que dele restava dissidente.

E era um cavalo brando e era negro
e era humano e divino e nunca fora:
seu desencanto, meu desassossego.


* A visão do céu aberto em que há a aparição de um cavalo branco nos remete ao livro do Apocalipse 19:11. 

Fonte: REIS, Geraldo: seções de nº 1, 2 e 5. In Pastoral de Minas. Prefácio de Pascoal Motta. Belo Horizonte: Editora Comunicação & Secretaria Municipal de Cultura, Turismo e Esportes, da Prefeitura de Belo Horizonte, 1981. Seção 1: p. 67; seção 2: p. 68 e seção 5: pp. 74-77. 

Um comentário:

Francisco José dos Santos Braga disse...

Francisco José dos Santos Braga (compositor, pianista, escritor, tradutor, gerente do Blog do Braga e do Blog de São João del-Rei) disse...

Prezad@,
Foi em Belo Horizonte que surgiu um dos movimentos mais influentes da música brasileira, o chamado Clube da Esquina que se eternizou no disco homônimo de 1972, gravado por Milton Nascimento e seu parceiro de primeira hora, Lô Borges.
Também foi na capital mineira que o poemário de GERALDO REIS, intitulado PASTORAL DE MINAS, nove anos depois, representou um marco na poesia mineira, quando retomou temas caros ao Arcadismo e à Inconfidência Mineira, utilizando assuntos e temas clássicos em feitio de modernidade, "revelada nos arcaísmos renovados". Desta forma, o poeta agradou ao público leitor e conquistou o imaginário cultural e social essencialmente aberto à inovação, em sincronia com o seu tempo e servindo-se da ampliação do horizonte estético da representação.

Link: https://bragamusician.blogspot.com/2026/06/relendo-o-livro-pastoral-de-minas.html

Cordial abraço,
Francisco Braga