sexta-feira, 31 de julho de 2026

NOVAS DESCOBERTAS SOBRE OS MAGOS DO FARAÓ


Por EHRO, Ted, KRUEGER, Frederic e HOFFMANN, Mathias
Traduzido do alemão por Francisco José dos Santos Braga

Alusões ao texto apócrifo “Janes e Jambres” aparecem em numerosos escritos judaicos e cristãos. Os irmãos magos que rivalizaram com Moisés e Aarão chegaram a ser retratados em uma adaptação cinematográfica da história do Êxodo. Novas descobertas textuais estão agora ampliando nosso conhecimento sobre essa narrativa apócrifa.

Moisés e Aarão transformam seus bastões em serpentes

 
Em uma passagem da Segunda Carta a Timóteo, o autor (Paulo) cita a conduta reprovável de Janes e Jambres como exemplo de como as pessoas se opõem a Deus: Assim como Janes e Jambres se opuseram a Moisés, também essa gente (inimiga dos bons) se opõem à verdade; suas mentes são corrompidas e sua fé não passa no teste. Contudo, não terão sucesso por muito tempo, pois sua insensatez se tornará evidente para todos, assim como aconteceu com aqueles outros dois. (2 Tim 3, 8-9). 
 
Para os leitores modernos, esse exemplo é um tanto obscuro, uma vez que essas figuras não são mencionadas em nenhum outro lugar da Bíblia. Para os leitores de então, no entanto, Janes e Jambres eram provavelmente tão familiares quanto os encrenqueiros estereotipados Max e Moritz são para nós, visto que o autor da carta não oferece nenhuma apresentação adicional sobre esses indivíduos. Além dessa referência bíblica, o conhecimento sobre Janes e Jambres é pressuposto em numerosos outros escritos cristãos e judaicos — e até mesmo em textos greco-pagãos —, o que indica a ampla difusão dessas tradições. 
 
Determinar a origem de todos esses relatos é difícil: várias narrativas orais sobre Janes e Jambres provavelmente circularam e acabaram sendo compiladas em um livro apócrifo intitulado Janes e Jambres durante os três primeiros séculos d.C. Paralelamente, histórias orais sobre essas figuras continuaram a ser transmitidas de forma independente, chegando a outros textos por meio da escrita. Assim, no que diz respeito a 2 Tim 3, 8 ou a várias outras passagens que mencionam Janes e Jambres, não está nada claro se elas contêm alusões ao texto apócrifo ou a tradições orais. 
 
Este livro apócrifo narra a história já conhecida dos eventos do Êxodo (Êxodo 7–9) sob a perspectiva dos irmãos Janes e Jambres, que atuam como magos chefes na corte do Faraó do Egito. Janes recusa-se a divulgar uma mensagem divina sobre a iminente ruína do Egito — um ato de desobediência que resulta em sua morte e no reconhecimento póstumo da supremacia absoluta de Deus. Por meio de suas declarações políticas e teológicas, o livro satiriza a impotência dos administradores greco-romanos da época, ao mesmo tempo em que afirma a soberania suprema de Deus sobre elites e governantes. 
 
O conhecimento sobre o conteúdo do livro Janes e Jambres perdeu-se com o tempo; somente em meados do século XIX é que um breve trecho em latim do texto (acompanhado de uma tradução para o inglês antigo) foi redescoberto. No último século, foram encontrados fragmentos adicionais — papiros em grego provenientes do Egito dos séculos III e IV. Embora estes confirmem certos aspectos do conteúdo da obra, a sequência narrativa permanece parcialmente incerta devido à natureza altamente fragmentária das descobertas. 
 
O estado precário de conservação do texto deixa muitas questões sobre seu conteúdo sem resposta, embora algumas possam agora ser esclarecidas graças à descoberta de manuscritos mais recentes. Surpreendentemente, essas novas descobertas estão redigidas em idiomas — copta e etíope antigo —, nos quais não se haviam encontrado anteriormente textos referentes a Janes e Jambres
 
 Legenda: Os nomes Janes e Jambres, nos fragmentos etíope e copta.
 
 
Novas Descobertas de Manuscritos 
Em 2014, fragmentos de pergaminho de uma versão em etíope antigo de Janes e Jambres foram identificados em Adis Abeba. Embora a tradução inicial do texto grego original tenha sido provavelmente produzida nos séculos V ou VI, esses fragmentos são de data posterior, possivelmente originários do período entre os séculos X e XIII. O primeiro fólio relata como Janes informa seu irmão sobre a iminente ruína do Egito e sua própria morte. Também detalha o casamento de Jambres com sua sobrinha, bem como a imitação, por parte de Janes, dos milagres realizados por Moisés e Aarão — e a doença que o acometeu como consequência. Grandes partes dessa versão coincidem com o extenso texto grego, permitindo inferências sobre a sequência narrativa correta nesta seção. Além disso, o texto em etíope antigo auxilia na reconstrução de partes do material de origem grega. 
 
 
Legenda: Esta parte do fragmento etíope afirma, entre outras coisas, que Janes luta contra Moisés e é, em seguida, acometido por uma doença.
 
O segundo fólio é ainda mais intrigante, visto que não se identificam paralelos gregos para o seu conteúdo: ele se concentra no lamento de Janes — expresso ao final do livro, após Jambres tê-lo invocado por meio de necromancia — sobre a ruína dos outrora poderosos habitantes da Terra. Um aspecto particularmente surpreendente nesta seção é a descrição de feitos realizados por gigantes antediluvianos — figuras mais conhecidas da literatura enoquiana. Alguns desses gigantes recebem nomes de heróis da mitologia grega, como Acamas e Ájax, representando uma fusão fascinante entre tradições helenísticas e judaicas primitivas. 
 
Apenas dois dias após o anúncio da descoberta na Etiópia, em 25 de fevereiro de 2015, o fragmento de Papiro copta P.Lips.Inv. 2299 — integrante da Coleção de Papiros e Óstracos da Biblioteca da Universidade de Leipzig — foi identificado como parte da mesma tradição; escrito em copta, ele foi, sem dúvida, traduzido do grego no Egito. Diversos indicadores linguísticos e paleográficos sugerem que o papiro de Leipzig — cuja procedência é, infelizmente, desconhecida — remonta aproximadamente aos séculos IV ou V, situando-o muito próximo das testemunhas textuais gregas, tanto em termos temporais quanto geográficos. No entanto, seu conteúdo é de difícil conciliação com a sequência narrativa conhecida, sugerindo que esse texto pode relatar uma versão diferente da história:  no anverso da folha é descrita a contagem de dezenas de milhares de pessoas ou mais (provavelmente os hebreus), seguida por uma profecia dirigida ao Faraó de que um menino (Moisés?) faria algo contra nós (isto é, contra os egípcios). Isso pode estar relacionado a uma versão da narrativa do Êxodo (encontrada no Targum aramaico Pseudo-Jônatas) na qual o Faraó tem um sonho que Janes e Jambres interpretam como o prenúncio do nascimento de uma criança (Moisés) destinada a causar a ruína do Egito. É também possível que o termo menino traduza as palavras gregas pais ou paidion, que também podem significar escravo. Em nossa história, o Faraó também se alarma, mas só então convoca Janes e Jambres — os sacerdotes de Heliópolis — para sua corte em Mênfis. 
 
 
Legenda: No anverso da folha do Papiro copta P.Lips.Inv. 2299, pode-se ler como o Faraó convoca Janes e Jambres à sua corte após uma profecia chocante.
 
No verso da folha, após uma lacuna de cerca de meia página de texto, é descrita uma grande força militar egípcia (de forma análoga a Êxodo 14:7); finalmente, Janes e Jambres reaparecem e dão a ordem para perseguir este he... O fragmento é interrompido nesse ponto; presume-se que se deva completar a frase como este hebreu, referindo-se — como deve ser — apenas a Moisés. 
 
As variantes de texto (ou diferentes versões) recém-descobertas permitem inferências de grande alcance sobre o conteúdo e, até certo ponto, sobre a organização do material narrativo em Janes e Jambres. Os fragmentos revelam uma estrutura narrativa de três partes particularmente notável (embora a relação entre a versão copta e as outras variantes  de texto permaneça incerta). A primeira parte da narrativa, juntamente com informações genealógicas sobre Janes e Jambres, concentra-se principalmente em uma visão vivenciada por Janes: ele toma conhecimento da destruição do Egito ao longo de três períodos distintos, mas recusa-se a compartilhar essa visão e, consequentemente, é informado por mensageiros divinos de sua própria ruína iminente. O significado da visão é explicado à mãe de Janes e Jambres, e elementos da visão também se concretizam — por meio de alusões — à medida que os dois irmãos partem para Mênfis a fim de encontrar o Faraó. A segunda parte da narrativa — após um salto temporal para o fatídico terceiro ano de reinado do Faraó — relata como Janes deixa o serviço do Faraó para comparecer a um banquete de casamento. Posteriormente, ele e seu irmão Jambres são chamados de volta à corte real para confrontar Moisés e Aarão. Enquanto Jambres se recusa a participar da ação contra Moisés e Aarão, Janes une-se à luta contra os hebreus e é acometido por uma doença fatal. Uma mensagem astrológica sobre gerações corrompidas prenuncia, então, a traição do Faraó por parte de Janes e Jambres. Após a partida dos hebreus do Egito, o Faraó é instado por seus cortesãos a persegui-los. Janes e Jambres são convocados de volta a Mênfis e acabam persuadindo o Faraó a perseguir os hebreus, apesar de conhecerem as consequências de tal ação. Assim como no relato do Êxodo, o Faraó e seu exército morrem afogados. Após sua morte, Janes envia um aviso urgente ao irmão, Jambres, a partir do mundo dos mortos — aconselhando-o a não se opor a Deus nem praticar magia — e descreve detalhadamente os tormentos que sofre como punição. 
 
 
II. AGRADECIMENTO 
 
Agradeço à minha amada esposa Rute Pardini Braga pela formatação e edição das fotos aqui transcritas.
 
 
III. Bibliografia 
 
 
ERHO, Ted; KRUEGER, Frederic & HOFFMANN, Matthias (2016). «Neues von Pharaos Zauberern». Welt und Umwelt der Bibel, nº 2: pp. 70-72, coluna PANORAMA. Consultado em 29 de julho de 2026. 

Um comentário:

Francisco José dos Santos Braga disse...

Francisco José dos Santos Braga (compositor, pianista, escritor, tradutor, gerente do Blog do Braga e do Blog de São João del-Rei) disse...

Prezad@,
O Blog do Braga tem o prazer de postar a tradução de um texto de pesquisadores alemães dando conta de que estão conseguindo desvendar, através de texto etíope e copta após sua descoberta em Adis Abeba, Etiópia, a saga de dois irmãos magos egípcios que foram convocados pelo Faraó para se confrontarem com Moisés e Aarão. Tais descobertas foram apresentadas à Livraria da Universidade de Leipzig em 25/01/2019.

Link: https://bragamusician.blogspot.com/2026/07/novas-descobertas-sobre-os-magos-do.html

Cordial abraço,
Francisco Braga