quinta-feira, 8 de dezembro de 2022

É PRA RIR E PRA CHORAR...

Por Dimítrios Natsiós *

Traduzido do grego e comentado por Francisco José dos Santos Braga


Com raciocínio e com sonho (capa da Antologia da 5ª à 6ª série)
 

Li na Antologia da 5ª à 6ª classe, nas páginas 85-7: "Uma noite minha avó estava fumando seu charuto preto, enquanto eu estava meio adormecido feliz em seu abraço caloroso." ¹ Claro, aqueles de nós que temos pelo menos mais de 40-50 anos e "pegamos" aquelas idosas vestidas de preto por toda a vida, as mães ou avós da maioria de nós, que incansáveis acendiam as lamparinas a óleo nas humildes capelas e mosteiros desertos da Grécia, temos guardada em nossa memória esta imagem: Queremos que nos embalem, fumando charutos pretos, porque elas não aceitavam os de classe inferior... 
Estou lendo na Antologia do nonsense
 
Nas página  133-5 está hospedado... um texto intitulado "Os calos de Clara", de um certo Dimiter Inkióv, que nasceu na Bulgária, mora na Alemanha e tem cidadania americana (o homem tinha procedência franco-levantina. ² Tem sangue de três nações e a alma de nenhuma). Texto deprimente, de mau gosto, nocivo. Uma idosa morreu no prédio e uma família vizinha quer ir ao enterro com seus dois filhos. O texto segue um estilo inaceitável, desleixado, inapropriado para a seriedade do mistério da morte. As crianças discutem: 
Pode ser que a velha que morreu tenha ido para o Inferno.
Tu achas? Clara acenou afirmativamente com a cabeça. 
Sem dúvida iria para o inferno, porque brigava com todas as crianças do prédio. E porque ela deve ir para o inferno, todas as suas amigas estão chorando. Assim será. 
E eu acho isso muito correto. E quando perguntei se os demônios vão assar a velha no Inferno, o pai disse em voz baixa: 
Silêncio! Vocês falam muito!" 
No final, foram ao enterro e Clara chora copiosamente. E quando eles tentam confortá-la, ela responde: "Não estou chorando por ela. Estou chorando porque meus horríveis sapatos novos me apertam os pés. Eles estavam cheios de calos. E aqui, o funeral não tem fim." 
Nem mesmo o "mistério espantoso" da morte é respeitado pela mesquinha burocracia que decide o que será ensinado aos filhos de nosso povo traído. 
E supõe-se que na "Antologia", como diz a palavra ³, você coloca as flores da literatura, o melhor que escreveu a pena dos mestres da fala, τό ἀκροθίνιον . Avós com charutos, que ardem no inferno, "diabos e triabos", bruxarias e demonologias, o que eles têm a ver com crianças de 11 anos?
 
"Antologia"

 
Na velha Antologia excelente pré-2006 e de fato um buquê de textos, ensinamos textos com cidadania e um perfume de fragrância espiritual. Kóntoglou (Rei macedônio), Natalía Melá (para a águia da Macedônia, Paulo), Venézis, Petsális (sobre Rígas), Valaorítis, Móntis, Penelópe Délta ("os segredos do pântano"), Elytis, Myrivílis, Psathás, "para o irmão morto", "o hermafrodita", "da ponte de Arta". Jogaram tudo fora, porque as coisas ocultas nos porões da nossa casa ancestral, guloseimas da tradição romana, deliciosas e abundantes, controlam os janízaros da Educação. 
 
Continuo com outro texto-cadáver inchado, intitulado "O Natal de Ta Ki Ko": “Os olhos de Cristo eram doces. Os olhos do gato eram doces. Cristo e o dragão" (nas páginas 164-8). 
Um menino chinês, Ta Ki Ko, "comemora" o Natal na Europa (provavelmente na Grécia). No dia da festa, porque "o venerável Senhor Cristo não estava à vista em lugar nenhum", deram-lhe uma pintura de Cristo. Ele a levou para seu quarto, desenhou um dragão chinês, pegou um gato, que estava em sua janela e começa a comparação blasfema: os olhos do "venerável Senhor Cristo" com "os olhos do gato". E outra coisa para fazer sorrirem os nossos lábios em meio à escuridão palpável que nos rodeia. 
 
Na página 22 da Antologia da 3ª à 4ª classe, encontra-se um exercício em que os pré-escolares são convidados para compor uma “canção de embalar polvos”. Não, não é... brincadeira. É verdade. Aqui vamos além do nonsense e tocamos os limites da esquizofrenia. 
Questão: Por que não se pediu aos alunos indefesos que encontrassem uma canção de embalar tradicional, dos melhores exemplos da nossa poesia popular "o mais eficaz instrumento de educação étnica, aquele que alimenta e preserva o espírito nacional", como nosso grande folclorista Nikólaos Polítis no prefácio de seu livro "Canções Municipais"? 
A resposta é simples: se cortares as raízes (a Tradição), os ramos murcham e os frutos apodrecem e as cidades tornam-se “tocas dos imundos e entrincheiramento dos canalhas”. (Palamás). 
Um pai desesperado, procurando em todos os lugares e na literatura estrangeira, não encontrou uma canção de ninar para polvos. Nenhum habitante do nosso planeta, escritor ou não, ficou acordado a noite inteira para se inspirar no sono dos polvos. Tampouco foram registrados fenômenos de insônia em massa dos simpáticos e deliciosos moluscos. Obedecendo à mulher e ela ao filho, o sofredor “pai A”, na terminologia corrente dos paranóicos legítimos, escreveu uma canção de embalar polvos. (Quando perguntaram a Péricles, o ateniense, quem governa o mundo, ele respondeu: meu filho. E ele explicou. Meu filho governa minha esposa, minha esposa governa a mim, eu governo Atenas, Atenas o mundo inteiro). 
Estou citando o poema inteligente. É a única canção universal de ninar polvos e, claro, outros moluscos e artrópodes.... 
 
Dorme, meu polvinho, 
polvo, náni náni 
Eu também te preparei 
a maior frigideira. 
 
Dorme e eu pedi 
teu sal e pimenta, 
teus óleos, teus vinagres 
e tuas ervas odoríferas. 
 
As correntes marítimas 
te venham embalar 
docemente dentro do teu quarto 
e te fazer adormecer. 
 
Como adormeceram 
as grandes mentes, 
aonde trouxeram nossa educação.
Nisso vejo a bagunça... 
 
Nas antologias antigas havia canção de ninar, havia orações à Virgem Maria e ao Cristo Mestre, que diziam nossas avós, as idosas, "as atrasadas" e não as falsificadas, os palimpsestos progressistas de nossos dias, que querem tratá-las com seus nomes curtos que a morte não se lembra delas... 
 
"Dorme, meu bebê, em um berço de noz 
Em roupinhas bordadas de pérolas 
Venha, Cristo e Virgem Maria, e apesar disso nos 
[jardins 
E encheu os seios dele com flores violetas. 
Dorme, meu filho, e o destino conspira a teu favor 
E tua boa sorte, te carrega e te traz 
Dorme novo, dorme novo, dorme lua nova 
Meu bebê está dormindo no travesseiro branco. 
O sono nutre as crianças e a saúde as faz crescer 
E a Senhora Virgem Maria as saúda para o novo dia." 
 
Os "gregos de hoje" deixariam de lado uma canção de ninar que falasse de Cristo e da Virgem Maria? 
 
* Professor da rede pública de
 Kilkís (Macedônica Central)

 
 
 
 
II. NOTAS EXPLICATIVAS PELO TRADUTOR/GERENTE DO BLOG DO BRAGA
 
 
¹   "O coração de um rato", por Roald Dahl (✰ Llandaff, País de Gales,1916 - ✞ Oxford, Inglaterra, 199O), filho de noruegueses. 
 
²  Diz-se de alguém que tendo nascido na Europa Ocidental, vive em um país do Oriente Próximo.

³  Etimologicamente, antologia consiste da junção de duas palavras: ánthos + lógia: coleção de flores.

Os gregos costumavam selecionar a parte mais alta de um monte de colheitas ou saque para oferta aos deuses. 
 
 
III. AGRADECIMENTO
 
Agradeço à minha amada Rute Pardini Braga a formatação e edição das fotos utilizadas neste artigo.
 
 
IV. REFERÊNCIA  BIBLIOGRÁFICA


MINISTÉRIO DA EDUCAÇÃO, DA PESQUISA E DAS RELIGIÕES-INSTITUTO DA POLÍTICA EDUCACIONAL-Instituto da Tecnologia de Computadores e Edições "Diofantos": COM RACIOCÍNIO E COM SONHO: Antologia de textos literários (da 5ª à 6ª classe da escola primária), 2022, 302 p.