segunda-feira, 21 de maio de 2012

Poder da Ópera de levar a um "sentir coletivo"


Por Francisco José dos Santos Braga


I — INTRODUÇÃO


Neste artigo, terei o prazer de recuperar alguns registros interessantes que fiz – ou faço – de algumas associações de amantes de ópera a que pertenci como associado, primeiro na cidade de São Paulo, de 1985 em diante, e, a partir de julho de 1988, em Brasília, ao todo por 15 anos ininterruptamente. 

Em São Paulo, participei de certa associação com o nome de Video Verdi Opera Club (ou Vídeo Verdi Ópera Clube), constituída de um grupo seleto de pessoas aficcionadas por ópera, que se reuniam aos domingos, sempre ao cair da noite, num salão térreo do Hotel Danúbio, localizado na Avenida Brigadeiro Luiz Antônio, 1099, no bairro Bela Vista, para ouvirem especialistas (críticos musicais, estudiosos, profissionais responsáveis por montagens de óperas, entre outros) e, depois, assistirem a vídeos legendados de óperas. ¹
  
Inicialmente as reuniões semanais do Video Verdi Opera Club realizavam-se num salão térreo do Hotel Danúbio, especialmente preparado para a projeção dos melhores vídeos de óperas. Ali, com outros membros entendidos e profundamente especializados no gênero operístico, vim a entrar em contato com o seu vocabulário específico: a história da ópera; a classificação das vozes; o que significa recitativo (pequeno trecho musical em que é permitido ao cantor privilegiar o ritmo da fala, e não o da música, sendo mais "recitado" do que cantado, podendo ser secco (com acompanhamento de um instrumento, em geral o cravo) ou accompagnato (com acompanhamento orquestral), sendo muito comum a utilização da dupla recitativo + ária pelos compositores nas suas óperas, oratórios e cantatas, desde os compositores do século XVI até Wagner); arioso (trecho musical que possui características tanto do recitativo quanto da ária, muito encontrado em solos vocais de óperas ou oratórios, desde o século XVI em diante); ária, "um solilóquio cantado, que interrompe a ação cênica, criando-se um momento de reflexão ou uma oportunidade para a personagem externar seus sentimentos, emoções ou projetos", podendo ser destinada a um(a) solista, a um dueto (ou duo), a um trio (ou terceto), a um quarteto e assim por diante; opera buffa (modalidade de ópera, distinta de opera seria ou grand opéra, devido ao tema, tipo de vozes e forma das árias: enquanto a opera seria trata com grande formalismo seus temas míticos, heróicos ou da realeza, a opera buffa retrata assuntos prosaicos, em tramas engenhosas, vivazes e humorísticas, desde Giovanni Battista Pergolesi (1710-1736), embora tanto os personagens cômicos quanto os personagens da opera seria já estivessem presentes na comédia clássica e na tradição da Commedia dell'arte; a opera buffa distingue-se ainda da opéra comique francesa e do Singspiel alemão pelo uso dos diálogos falados nestes, em vez dos recitativos cantados naquela); libretto (texto de uma opereta, ópera, cantata ou musical); récita (apresentação ou espetáculo de ópera); intermezzo (intervalo musical que serve de ponte entre duas cenas ou atos), gran finale, bem como muitas outras especificidades, o que me permitiu meu mergulho definitivo no mundo da ópera. ²

Embora a produção desse grupo fosse imensa, lamento, entretanto, não ter feito anotações desses maravilhosos espetáculos audiovisuais de que participei em São Paulo, nem dos nomes desses maravilhosos entendidos no gênero operístico. Lembro-me apenas que eram coordenadores o Sr. Raphael Cilento e D. Ana ³ e ainda do nome de um dos frequentadores habitués: o de um certo judeu Adolfo (que ironia!), cuja idade era compatível com a minha e que residia nas proximidades do cruzamento da Rua Estados Unidos com a Rua Augusta. Igualmente sinto não dispor de nenhum material porventura distribuído naquelas reuniões. Em compensação, lembro-me de que, em 1988, apreciei muito uma série de palestras pronunciadas pelo diretor de ópera Walter Neiva, que ilustrou a projeção das seguintes óperas, pelo menos: La Fanciulla del West, de Puccini; Hansel und Gretel, de Humperdinck; Os Contos de Hoffmann, de Offenbach; La Cenerentola, de Rossini; L' Orfeo, de Claudio Monteverdi; Mefistofele, de Arrigo Boito; Capriccio, de Richard Strauss; e Ifigenia in Tauride, de Glück.

Não sei que razões levaram o Video Verdi Opera Club a transferir suas reuniões, a certa altura, para uma sala do Colégio Nossa Senhora da Assunção na Alameda Lorena, 665. Senti certo desconforto, porque as instalações ali não eram tão adequadas para a projeção de vídeos quanto o salão do Hotel Danúbio.


II — CONTATO COM O GRUPO AMIGOS DA ÓPERA, DE BRASÍLIA 


Fui para Brasília, como disse, em julho de 1988, e o Coordenador do Video Verdi Opera Club sugeriu-me entrar em contato com os Amigos da Ópera, um grupo já constituído com os mesmos objetivos do de São Paulo, que fora fundado na Capital Federal, tendo me recomendado procurar o seu Coordenador, Sr. Armando de Andrade Pinto.

Em Brasília, de fato fui muito bem acolhido pela Coordenação dos Amigos da Ópera, que, além do referido Armando, contava com os trabalhos especializados de Asta-Rose Alcaide , viúva do grande tenor português Tomás Alcaide (1901, em Estremoz-1967, em Lisboa).

Devido a meu interesse de registrar a história e a evolução por que passava o Grupo em Brasília, deixaram a meu cargo levantar as informações para se produzir uma série de artigos com o objetivo de divulgar o trabalho que era ali desenvolvido e atrair novos associados. Foi assim que iniciei minha pesquisa, de que resultou o desenvolvimento de três trabalhos sobre os Amigos da Ópera, de Brasília: A doce música dos Amigos da Ópera, artigo publicado no Jornal de Brasília de 22/12/1992, em seu caderno denominado Pauta Livre; Amigos da Ópera querem popularizar o "bel canto", artigo publicado pelo Correio Braziliense, em 13/12/1993, em seu caderno denominado Correio Dois, na  seção destinada à Música; e, por fim, um meu trabalho inédito intitulado "Amigos da Ópera: sua arte, filosofia e história". Desde já, informo aos aficcionados do gênero "ópera" que pretendo disponibilizar todos os três trabalhos no espaço deste Blog, sendo que, hoje, vou transcrever apenas o primeiro deles. Ei-lo, tal como apareceu em 1992, respeitando não só o texto, mas também a imagem do artista plástico FCLopes, responsável pela bela ilustração do artigo no Jornal de Brasília.

A doce música dos Amigos da Ópera


Por Francisco José dos Santos Braga


"Mas principalmente: arte não consiste só em criar obras de arte. Arte não se resume a altares raros de criadores genialíssimos. Não o foi na Idade Média, não o foi na Índia, nem no Islam. Talvez não o seja, para maior felicidade nossa, na Idade Novíssima que se anuncia. A arte é muito mais larga, humana e generosa do que a idolatria dos gênios incondicionais. Ela é principalmente comum."
(Mário de Andrade: Música, Doce Música)


A citação acima foi extraída de uma conferência intitulada A Expressão Musical dos Estados Unidos que Mário de Andrade pronunciou no Rio de Janeiro, em 12/12/1940. Nesse importante trabalho, o nosso talvez maior ensaísta musical não poupa os mais efusivos encômios ao "instinto de associativismo e cooperativismo musical" norte-americano que estava — e está — produzindo os melhores resultados, constituindo-se marca profunda das suas iniciativas e da sua admirável floração musical dos nossos dias. Essa aquisição deveu-se basicamente à compreensão de que a música é uma força social que pode ser acionada para se obter diversas realizações, desde formação de pequenos grupos para variadas atividades musicais até à proliferação de orquestras sinfônicas por todo o país, contribuindo para infundir no norte-americano médio o amor às tradições nacionais e um sentir "como coletividade".

Associação — Acreditando na eficácia da força social da música e do sentir coletivo, criou-se o Grupo Amigos da Ópera, uma iniciativa feliz de associação entre pessoas radicadas em Brasília, com o objetivo não só de ouvir, mas também de sentir óperas. Nos seus seis anos de existência, mostrou enorme vigor, contando atualmente com 300 associados, sendo uma centena de sócios fundadores, entre os quais tenho a honra de figurar. Desde sua criação, não teve qualquer apoio oficial, dependendo, para sua sobrevivência, da cobrança de anuidades, cujo produto é integralmente revertido na manutenção de sua sede, na ampliação de seu acervo de videocassetes e videolasers importados e na realização de diversas atividades culturais e educacionais, como se verá a seguir.

Desde os seus primórdios, o Grupo orientou-se numa linha não-intelectualizante, não-elitista, desmistificando o encantador gênero operístico para todos quantos demonstraram curiosidade ou interesse. Centenas de vídeos de óperas já foram apresentadas em salões abertos à participação de toda a comunidade brasiliense e trimestralmente são realizados saraus nas residências dos próprios associados, havendo ainda diversas atividades culturais e educacionais que são desenvolvidas na própria sede.

O Grupo Amigos da Ópera, em seu sexto ano de existência, continua atuante e dinâmico, sob a coordenação de Armando de Andrade Pinto. Como a Temporada 1993 se aproxima, nada melhor do que descrever brevemente as atividades que serão desenvolvidas pelo Grupo.

a) Nova sede — A partir de fevereiro próximo, os associados passarão a desfrutar de um espaço mais amplo e confortável para suas reuniões, na CLN 310, Bloco F, Salas 217 e 218.

b) Placa dos fundadores — A solenidade de inauguração está prevista para o início de março, com um coquetel. Esta foi a forma encontrada para homenagear aqueles associados que, através de anuidades, durante cinco anos, contribuíram permanentemente para a manutenção das atividades do Grupo, possibilitando que a proposta de trabalho cultural fosse desenvolvida sem solução de continuidade.

c) Este Fantástico Mundo da Ópera — Este é o nome da atividade que foi projetada para atrair a participação dos associados em dois projetos distintos, denominados:

1. Projeto Novos Amigos, consistindo na apresentação, em vídeo, de cinco óperas durante a temporada, sempre antecedida por palestra explicativa para esclarecimentos aos principiantes, em datas prefixadas. As palestras são apresentadas em linguagem informal e acessível, permitindo-se perguntas, comentários e observações dos participantes. Os debates são apoiados pela descrição, em cartazes, dos personagens, de atos e de cenas, também acompanhados pelos trechos musicais mais significativos. Dessa forma, vai-se mapeando a ópera, debatendo-se um roteiro escrito e escutando-se as passagens musicais gravadas.

As palestras são elaboradas basicamente com dois objetivos: 1) dar atenção prioritária àqueles que tiveram seu interesse despertado pela ópera, mas não possuem conhecimentos mais aprofundados; e 2) seguir, como linha básica, a sequência de emoções que a união da música e do drama permite explicar, usando para isso todos os meios possíveis de ilustração.

Embora se evitem conceitos exclusivamente técnicos, não se pode omiti-los, quando necessários, como forma de familiarizar os iniciantes com a linguagem cênica (ato, cena, postura) e musical (abertura, concertantes, vozes, etc.).

2. Projeto Velha Amizade, onde serão debatidos com acompanhamento de um coordenador, em datas previamente marcadas, cinco temas emocionantes, a saber: A Morte na Ópera; Puccini e suas Mulheres; Gênios e Talentos; Verdi X Wagner; e, finalmente, a tentativa de compatibilização entre Música e Palavra nos 400 Anos de Ópera.

d) Os deliciosos saraus dos Amigos da Ópera — Trata-se de reuniões musicais e líricas em residências de associados, com o objetivo de estreitar o relacionamento entre artistas e público, bem como o de promover o intercâmbio entre todos os associados. São reuniões que propiciam momentos de encantamento, motivados pelo "bel canto" com acompanhamento de piano.

e) Videoclube dos Amigos da Ópera — O Grupo orgulha-se de possuir o mais completo e especializado acervo em ópera de Brasília, composto de videocassetes (cerca de 200 títulos) e de videolasers (cerca de 40 títulos), possuindo praticamente todas as obras no gênero operístico compostas por Puccini, Verdi, Wagner e Mozart.

Entre as preciosidades operísticas do videoclube, pode-se citar, entre outras, Orlando Furioso, de Vivaldi; A Coroação de Poppea, em duas versões, Orfeu, O Retorno de Ulysses à Pátria e Vésperas da Virgem, de Cláudio Monteverdi; Lo Frate 'Nnamorato, de Pergolesi; Il Re Pastore e La Clemenza de Tito, de Mozart; Os Troianos, de Berlioz; Tristão e Isolda e a Tetralogia, de Wagner; Mefistófeles, de Arrigo Boito; Khovanschina, de Mussorgsky; Salomé, Elektra, Arabella e O Cavaleiro da Rosa, de Richard Strauss; Wocczek, de Alban Berg; Peter Grimes e Albert Herring, de Britten; Candide e West Side Story, de Bernstein, etc.

Além dessas curiosidades, o videoclube oferece também, aos associados, vídeos com recitais e concertos dos maiores cantores deste século, entre outros: Kurt Moll, Renato Bruson, Pavarotti, Carreras, Plácido Domingo, Stratas, Callas, Montserrat Caballé, Birgit Nilsson e Renata Tebaldi.

f) Projeto Ópera para Crianças — Trata-se de projeto que objetiva desenvolver nas crianças de Brasília o gosto pela ópera. Tem características essencialmente didáticas mediante a projeção de ópera que possua enredo extraído de contos infantis.

g) Mini Ópera Shop — Consiste na produção de "kits" incluindo fita cassete e "libretto" bilíngue para comodidade dos associados que desejem conservar consigo os trechos de maior beleza lírica de sua ópera preferida.

Resta informar aos prezados leitores e potenciais Amigos da Ópera que é habitual, no mês de dezembro, realizar-se a cobrança da anuidade para o próximo ano. A todos, antigos membros e novos associados, é oferecido um valor promocional para tal anuidade, desde que se aproveite o prazo que expira em 30/12/1992, cujo pagamento lhes garantirá o direito de frequentar e participar de todas as atividades programadas para 1993.

Por fim, porém não menos importante: estudantes são preferencialmente agraciados com a cobrança de apenas 1/3 do valor promocional como forma de incentivo e estímulo para adentrarem este fantástico mundo da ópera. Informações adicionais poderão ser obtidas pelo telefone 273-0988, ou pessoalmente na CLN 108, Bloco B, Sala 207.


III. NOTAS DO AUTOR


¹  CASOY (2006) dá algumas pistas do Video Verdi Opera Club, ao tratar da Segunda Reforma do TMSP-Theatro Municipal de São Paulo, na p. 211, verbis:
"(...) Em fins de 1984, o TMSP se encontrava em estado precário de conservação. Soube-se depois que a abóbada da sala de espetáculos, de onde pende o grande lustre, estava internamente toda roída por cupins, pondo em risco a segurança do público, e esse era apenas um dos problemas. O ator Gianfrancesco Guarnieri, então secretário municipal da Cultura, ordenou seu fechamento para uma reforma de grandes proporções, que durou quatro anos.

Assim como havia acontecido durante a reforma do TMSP na década de 1950, outros espaços foram usados para a apresentação de óperas nos anos de 1985 (duas produções), 1986 (cinco produções) e em 1987 (quatro produções). Com exceção da Voz Humana de 1987, que foi encenada, todas as outras foram apresentadas em forma de concerto.

O TMSP foi reaberto em julho de 1988. Nesse retorno, como se se quisesse romper com o passado, o tradicional livro de assinaturas foi cancelado, e espectadores que passaram anos a fio sentando-se sempre no mesmo lugar, cercados pelos mesmos amigos, perderam repentinamente esse direito.

Durante o período da reforma, na falta do TMSP, ganharam importância em São Paulo os clubes de vídeo dedicados à ópera, com sessões semanais em que os apaixonados da lírica podiam assistir a produções gravadas nos mais conhecidos teatros do circuito internacional. Os nomes mais lembrados são os do Verdi Opera Clube (sic) e do Espaço Caruso. (...)"

Sobre as instalações do Hotel Danúbio, onde funcionou inicialmente o Video Verdi Opera Club, consta que o outrora imponente prédio hoje é mais um campus da FMU, inaugurado em 7/2/2011 e pintado com muito mau gosto (de preto, branco e vermelho). Antes dessa destinação, lá se via uma construção completamente abandonada e pichada, que, nas décadas de 70 e 80, abrigava um dos maiores e mais elegantes hotéis de São Paulo. Entre os inúmeros atrativos ofertados pelo Hotel Danúbio destacavam-se os apartamentos luxuosos para a época, um restaurante com cozinha de nível internacional e uma sauna gigantesca à disposição dos hóspedes. Lá se hospedaram Marlene Dietrich em 1959 e, durante décadas, delegações de equipes futebolísticas. Ali também funcionou a sede do PRONA, de Enéas Carneiro. Do final dos anos 90 até 2003, a sauna do hotel transformou-se numa boate chamada Club B.A.S.E. Diesel.

Quem conheceu o Hotel Danúbio nos seus tempos áureos só pode lamentar a sua situação atual e desejar a sua revitalização. Ali bem próximo, havia o Teatro Paramount, pertencente à antiga Record (hoje Teatro Abril). Um pouco mais acima, na Av. Brigadeiro, existia o Teatro Bandeirantes, prédio que hoje abriga uma igreja evangélica. C'est la vie!


²  Por exemplo, fiquei então sabendo que os libretti para óperas, oratórios e cantatas nos séculos XVII e XVIII eram geralmente escritos por algum poeta famoso. No século XVIII, com Mozart colaboraram Metastasio (1698-1782) e Lorenzo da Ponte (que produziu o libretto para as três maiores óperas de Mozart). No século XIX, Eugène Scribe, Ludovic Halévy e Arrigo Boito foram alguns dos mais prolíficos librettisti. Mas alguns compositores preferiram escrever seus próprios libretti: Wagner e Berlioz no século XIX e Alban Berg no século XX são os mais destacados exemplos disso. Igualmente, tomei conhecimento da complexidade no processo do desenvolvimento de libretti, além da elaboração dos dramas falados para o palco; a cargo do librettista estão ainda: selecionar ou sugerir o enredo e desenvolver o esboço da ação sob a forma de um cenário, fazer revisões quando o trabalho estiver em andamento ou fazer alterações visando a audiências específicas locais. Exemplificando como um bom librettista precisa não só entender do seu métier, mas também possuir as qualidades do respeito às convenções sociais e políticas, GUIMARÃES (1991) cita um trecho das memórias do parceiro literário de Mozart na opera buffa As Bodas de Fígaro, a saber: "(...) coube ao hábil Da Ponte a missão de conseguir o patrocínio e a permissão do imperador para o projeto, o que obteve com as seguintes palavras por ele transcritas em suas memórias: (…) para a transformação da comédia em libretto de ópera, suprimi cenas inteiras e a resumi mais ainda, esforçando-me sempre para evitar em meu texto tudo o que pudesse ferir a delicadeza e a decência em um espetáculo que está sob a proteção de Vossa Majestade. Quanto à música, pelo que posso julgar, ela me parece de maravilhosa beleza.(Cf. GUIMARÃES, A.M. : As Bodas de Fígaro: Mozart, Da Ponte, Beaumarchais (O libreto e a peça), 1991, p. XIV)

Cabe aqui tentar uma definição de ópera, e nada melhor do que recorrer ao texto explicativo dado pelo mesmo GUIMARÃES (1991) sobre o princípio fixado pelo napolitano Alessandro Scarlatti a ser observado por todos quantos queiram colaborar com o gênero operístico:
(...) a ação fica por conta do recitativo e os momentos de lirismo são reservados às árias. Com o recitativo secco – as vozes num parlando muito flexível e variado, acompanhadas por alguns acordes do cravo, avançam a ação e o diálogo. No recitativo accompagnato pela orquestra, que em geral precede as árias, 'sobe o tom dramático, a dicção tende à melodia.' (Hocquard, 1979:15) A ária, que é um solilóquio cantado, interrompe a ação cênica, criando-se um momento de reflexão ou uma oportunidade para a personagem externar seus sentimentos, emoções ou projetos. Nos ensembles, várias vozes se reúnem (do dueto ao septeto), o que permite ao ritmo da ação uma intensidade que o recitativo secco não comporta; belo exemplo são os finali do segundo e quarto atos de Le Nozze de Figaro, em que a sucessão ininterrupta de ensembles confere uma progressão vertiginosa e sempre surpreendente à ação." (Cf. GUIMARÃES, A.M. : op. cit., p. XIV)
Acho que ainda me cabe também citar alguns exemplos perfeitos de sextetos vocais nos finali de atos de ópera, que se constituem em ponto alto de diversas óperas do Classicismo e que exigem enorme perícia do compositor e librettista, a saber: o famoso sexteto finale do 2º ato de Lucia de Lammermoor, de Gaetano Donizetti; os finali do 1º ato e do 2º ato de O Barbeiro de Sevilha, de Giacomo Rossini; além dos já citados finali de As Bodas de Fígaro, de Mozart, lembro ainda o finale do 3º ato da mesma ópera (trecho em que Fígaro é reconhecido por seus pais); o finale da ópera Don Giovanni, de Mozart, intitulado Ah, dov'è il perfido e com o fragmento Questo è il fin. Observe-se ainda que os compositores românticos com frequência excluíram o sexteto de suas óperas.

³ Sobre o casal Raphael e Ana Cilento, há uma crônica intitulada Os Ingressos para Samson e Dalila in http://operaeballet.blogspot.com.br/2012/01/cronicas-operisticas-os-ingressos-para.html, donde extraio a seguinte citação: "Raphael foi um grande conhecedor e colecionador de vídeos de óperas. Em VHS o homem era imbatível, tinha mais de duas mil óperas. Muitas dela (sic) no sistema PAL europeu, inacessível para a maioria dos brasileiros da época. Muitas das raridades de meu acervo devo a ele. Muito do que aprendi foi com ele. Seu Verdi Opera Club dos anos 80 foi um sucesso de público. (...)" Assina essa crônica Ali Hassan Ayache, no Portal Luis Nassif.


⁴ Asta-Rose Alcaide é considerada a "grande dama da ópera" em Brasília. De acordo com ela, só existe formalmente a Associação Ópera-Brasília (AOB), da qual é presidente, entidade cultural sem fins lucrativos desde 1977, reconhecida como de utilidade pública pelo Governo do Distrito Federal; o Grupo Amigos da Ópera se abrigou informalmente na AOB em 1986. "A Associação teve o privilégio de montar a primeira ópera em Brasília, que foi Amahl e os Visitantes da Noite, de Gian Carlo Menotti. Posteriormente, junto com a Fundação Cultural, fez várias montagens, onde se destacaram a cantata Carmina Burana e as óperas Flauta Mágica, Carmen, O Barbeiro de Sevilha, La Traviata e La Bohème. Merece especial destaque a encenação de A Vingança da Cigana, da autoria do português Leal Moreira com texto do brasileiro Caldas Barbosa, ambos do século XVIII, e de Porgy and Bess, de George Gerschwin, em primeira apresentação na América do Sul, realizada no Teatro Nacional." Asta-Rose se esqueceu de mencionar que a AOB montou ainda em 1986 a ópera L' enfant et les sortilèges, de Maurice Ravel, com direção cênica de Hugo Rodas e direção musical de Achille Picchi, com trecho de um ensaio disponível no YouTube no link http://youtu.be/gCEuqpVqPfw                                     A AOB desenvolveu projetos de apoio aos jovens cantores, — o seu projeto Ópera Jovem revelou vários cantores líricos, como o barítono Sandro Christopher e a soprano Maude Salazar — tendo a sua presidente proferido palestras sobre formação de plateia, durante 10 anos. De julho de 1999 a novembro de 2000, Asta-Rose foi diretora artística do TNCS-Teatro Nacional Cláudio Santoro, tendo acumulado o cargo de diretora administrativa, de agosto a novembro de 1999. Após a extinção da diretoria artística no TNCS, foi nomeada assessora da Secretária de Estado de Cultura. Desde janeiro de 2001 é coordenadora das montagens de ópera e autora dos textos dos programas da Orquestra Sinfônica do Teatro Nacional. Foi agraciada com muitos prêmios, medalhas e condecorações por todo o mundo. Traduziu o livro "Reconstrução do Passado: os Princípios da Pesquisa Histórica", de Jorn Rusen, editado em 2007 pela Editora da UnB.


  ANDRADE, M. : Música, Doce Música (edição comemorativa do 30º aniversário da morte de Mário de Andrade 1945/1975), co-edição da Livraria Martins Editora-SP em convênio com o INL-MEC-Brasília, 2ª edição, 1976,  p. 393-417.  A conferência intitulada "A Expressão Musical dos Estados Unidos", foi realizada a convite do Instituto Brasil-Estados Unidos, e consta por este ter sido publicada inicialmente como nº 3 da sua coleção Lições da Vida Americana, Rio de Janeiro, 1940 (apud ALVARENGA, O. :  Mário de Andrade, um Pouco, 1974, p. 67).


⁶ Cabe aqui citar pelo menos algumas pessoas de que me lembro e que deram grande impulso às atividades realizadas pelo grupo Amigos da Ópera, mesmo correndo o risco de cometer omissões imperdoáveis: Ana Tapajós, Eitor Brandão, Cristiano Paixão, Frederico Barbeitas, Prof. José Claver Filho, Profª Maria Luíza Roque, Theresa Catharina de Góes Campos e cantora lírica Eneida Luz Dantas.

No texto acima, menciona-se mudança do endereço da sede dos Amigos da Ópera. Além desses endereços, reuníamo-nos na FUNTEVÊ, no SRTVS-Setor de Rádio e Televisão Sul, Edifício Palácio do Rádio I, 6º andar e, eventualmente, na boate GROG no Gilbertinho do Lago Sul, SHIS, QI 11, Bloco F, Loja 46 ou na Sala Tapete Mágico no CLN 403, Bloco B, Loja 25. E, quando não, na residência do próprio Armando de Andrade Pinto na SQS 304, Bloco F, Apartamento 602. Era impressionante a nossa mobilidade! Éramos obrigados a nos locomover por todos os espaços disponíveis e parece que não éramos os únicos. Digno de registro é ainda o fato de que a cessão da boate era a partir das 18 horas aos domingos (horário nobre), o que evidencia ser o seu proprietário, Sr. César Serzedelo Corrêa, além de cavalheiro, um apreciador das artes.


Para se ter uma ideia da profundidade com que eram tratados esses diversos temas durante determinada temporada, vou exemplificar descrevendo o tipo de preocupação  com A Morte na Ópera, tema I da Temporada 1993:
O palestrante deveria oferecer respostas às seguintes indagações: Por que se morre na ópera? Como morrem os personagens? São as personagens femininas ou masculinas as vítimas em maior número? O tenor e a soprano morrem ao mesmo tempo? A morte tem sempre lógica? A morte da heroína ou do herói é descrita musicalmente pelo compositor? Tem algum tema musical ou "Leitmotiv" que prepara o acontecimento? Que compositor soube melhor expressar a morte? A morte é tema de ópera ou título de ópera? Quais são as mortes mais espetaculares?
Para responder às perguntas, o palestrante sobre o tema deveria abordar as seguintes figuras femininas que morrem nas óperas: Carmen, Cio-Cio-San (de Madama Butterfly), Isolde, Desdêmona, Mimi, Violetta, Gilda, Norma, Lakmé, Senta, Antonia, Mélisande, Lucia, Marie, Leonora (de Il Trovatore), Elektra, Tosca, Suor Angelica, Aida, Condessa (de A Dama de Espadas), Nedda (de I Pagliacci) e Manon. Sobre as figuras masculinas vitimadas nas óperas, deveria discorrer sobre: Tristan, Pélleas, Cavaradossi, Radamés, Scarpia, Ricardo (de Un Ballo in Maschera), Sêneca (de A Coroação de Poppea), Yocanaan, Ernani, Boccanegra, Manrico, Don Giovanni, Wozzeck, Billy Budd, Peter Grimes e Werther. E, finalmente, mencionar casais que morrem juntos: Aida e Radamés, Manon e Des Grieux, Romeu e Julieta, Andrea Chénier e Madeleine, Tannhäuser e Elizabeth.


Um dos saraus mais badalados e aguardados por todos os sócios, que geralmente ocorria no mês de dezembro todo ano, era o oferecido pelo maior empresário do setor educacional brasileiro residente no SMPW-Setor de Mansões Park Way, Prof. João Carlos Di Genio, proprietário do Colégio Integrado Objetivo (1971), Faculdades Objetivo (1972) e, em seguida, de um conglomerado educacional espalhado por todo o País (rede Objetivo e UNIP-Universidade Paulista). Di Genio é ainda proprietário de rádios, de uma emissora de TV e investidor em pecuária de elite.

Digno de ser lembrado foi também certo encontro do Grupo com o contratenor Paulo Abel do Nascimento no Restaurante Gaf no Gilberto Salomão, na mesma época que ele veio a Brasília apresentar, como sempre com o maior brilhantismo, uma cantata de Mozart na Sala Martins Pena do Teatro Nacional e no Memorial JK.

Finalmente, cabe aqui lembrar o nome dos vários artistas estabelecidos em Brasília, que abrilhantavam os nossos saraus: a soprano Eneida Luz Dantas, o barítono Valter Contessoto, os tenores Paulo Mandarino e Antônio Diniz, a mezzo soprano Valdenora Pereira, todos com acompanhamento pianístico de Ana Amélia Gomide e Vânia Marise de Campos e Silva.
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Por tudo o que foi apresentado, fica evidente a importância dos recursos metodológicos utilizados pelo Grupo Amigos da Ópera para a maior sensibilização no contato com a ópera e, consequentemente, para a inclusão cultural das pessoas interessadas no mundo da ópera. Com seu projeto de formação de plateia, foi possível atuar diretamente junto à comunidade e romper o preconceito existente contra a ópera, desmistificando-a de sua auréola de arte de elite e inacessível às pessoas comuns. Acho que é possível imaginar a emoção e o encantamento despertados com essa forma de espetáculo, bem como a desmistificação do caráter elitista da ópera, com a utilização da metodologia apresentada no meu artigo. A mídia impressa brasiliense em geral, neste caso particular o Jornal de Brasília, contribuiu para a divulgação dos notáveis recursos que aquele Grupo utilizava no início dos anos 90.

A ópera, por ser um espetáculo que reúne música instrumental, canto lírico, literatura, teatro, dança e artes plásticas, é um gênero bem peculiar: requer a colaboração total entre artes-irmãs para se chegar a uma arte unificada: a arte da Ópera. O termo Gesamtkunstwerk (obra de arte total) foi utilizado por Wagner para descrever uma apresentação de ópera dentro das suas concepções artísticas, que incluía uma perfeita integração de múltiplas expressões artísticas diferentes, e não a supremacia da música, com ausência de um drama de qualidade. É isso que faz com que certas óperas sejam verdadeiras obras-primas.


IV. OBRAS CONSULTADAS


ALVARENGA, O. : Mário de Andrade, um Pouco, Rio de Janeiro: Livraria José Olympio Editora, 1974, 136 p.

ANDRADE, M. : Música, Doce Música (edição comemorativa do 30º aniversário da morte de Mário de Andrade 1945/1975), co-edição da Livraria Martins Editora-SP em convênio com o INL-MEC-Brasília, 2ª edição, 1976,  420 p.

CASOY, S. : Ópera em São Paulo: 1952-2005, São Paulo: EDUSP-Editora da Universidade de São Paulo, 2006, 608 p. (disponível na Internet in books.google.com.br/books?isbn=8531409748


GUIMARÃES, A.M. : As Bodas de Fígaro: Mozart, Da Ponte, Beaumarchais (O libreto e a peça), Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor, 1991, 242 p.
 

quinta-feira, 10 de maio de 2012

HOMENAGEM AO POETA POLONÊS JANUSZ SZUBER

Por Francisco José dos Santos Braga



Artigo publicado na Revista Polonicus - Revista de reflexão Brasil-Polônia, Ano III, nº 1, jan/jun 2012, Curitiba, p. 149-162, disponível na Internet como volume nº 5 no endereço eletrônico 
--> http://www.polonicus.com.br/site/edicoes.php


I - INTRODUÇÃO

 

Hoje meu homenageado é um dos mais distintos poetas polacos contemporâneos. Janusz Szuber nasceu em 10 de dezembro de 1947 em Sanok, na região da Galícia, situada no canto sudeste da Polônia, encruzilhada de influências culturais polonesas, ucranianas, judias e austro-húngaras. Estudou filologia polaca na Universidade de Varsóvia. Szuber já escreveu 18 livros de poesia na Polônia, tendo sido traduzido para 14 línguas. Foi agraciado com vários prêmios literários importantes, incluindo o Prêmio Literário da Cidade de Sanok, o Prêmio Barbara Sadowska, o Prêmio Kazimiera Iłłakowiczówna, o Prêmio de Topo da Fundação Polaca de Cultura e o Prêmio da Fundação Władysław and Nelly Turzański de Toronto por realizações marcantes no campo da cultura polaca. Além de poeta, Szuber é também ensaísta e colunista.

II. POETA JANUSZ SZUBER NA VISÃO DOS CRÍTICOS NORTE-AMERICANOS

Quando fez seu primeiro aparecimento nos Estados Unidos o livro de poemas selecionados de Janusz Szuber, traduzido por Ewa Hryniewicz-Yarbrough e  publicado por Alfred A. Knopf, de New York, em maio de 2009, denominado “They Carry a Promise: Selected Poems” (Eles cumprem uma promessa: poemas selecionados), desde então os poemas ali constantes têm sido muito bem acolhidos e seu autor, considerado revelação pela crítica especializada. 

A seguir, em minha tradução apresento uma crítica das mais autorizadas: o crítico Patrick Kurp (2009), estabelecido em Houston, Texas, possui um blog chamado "Anecdotal Evidence" e é um desses que se debruçaram detidamente sobre a obra poética de Janusz Szuber. Ele vê inúmeras similitudes entre este e os mestres da poesia polonesa que o antecederam no século XX, Czesław Miłosz (Prêmio Nobel de Literatura em 1980) e Zbigniew Herbert, afirmando que "Szuber repetidamente se volta para os exemplos fixados por esses grandes poetas poloneses", embora reconheça que "ouve mais Miłosz do que Herbert nas linhas de Szuber, mais de uma religiosa sensibilidade." Em 'Forja' (pol. Kuźnia), escrito aos 80 anos de idade, Miłosz escreve: 'Parece que fui convocado para isso: glorificar coisas apenas porque elas existem.' (pol. Do tego byłem wezwany: Do pochwalania rzeczy, dlatego że są.) Tanto esse poema de Miłosz, quanto o de Szuber 'Sobre um rapaz mexendo compota', tratam de uma banalidade relembrada da infância. Szuber, por sua vez, escreve: 'Há salvação no detalhe lembrado.' Observe a afeição pela linguagem religiosamente sugestiva, que faz de Szuber uma anomalia entre os poetas, mas aparentado com Miłosz. Na maioria dos poemas daquele, existe um escritor maduro escrevendo para leitores maduros.
(...)
Eu ouço ecos múltiplos de Herbert, o menor dos quais é a colagem de referências culturais. 
(...) 
Para Herbert e Szuber, pedras e outros objetos são inteiramente eles próprios, auto-suficientes, de uma forma que os humanos nunca poderão ser. Seu silêncio é eloquente e admirável."

Depois de discorrer sobre algo que Eugenio Montale se referiu em seu discurso, ao ser-lhe concedido o Prêmio Nobel de Literatura em 1975, a saber, que a poesia podia ser descrita como um produto completamente inútil, mas dificilmente ser acusada de nociva, o que considerava uma de suas características de nobreza, Kurp cita Shakespeare e Milton em tempos passados e Zbigniew Herbert mais recentemente como modelos de nobreza poética, tendo o cuidado de se justificar pela escolha de Herbert: "Através de dom inato, vasta erudição, dedicação e uma variada sorte de opressão política, Herbert, com alguma relutância, tornou-se um poeta nacional, a voz da consciência da Polônia, sem sacrificar o valor puramente poético de seu trabalho."

Szuber é apreciado por Kurp sob outro prisma, não o da nobreza, mas de "uma qualidade que o redime: seu respeito saudável e interesse pelo mundo cotidiano dos pássaros, bosques, livros e casos de amor. É estranho notar isso como uma virtude. Devia ser óbvio, um dado para todos nós, poetas ou não, mas muito verso contemporâneo se situa numa visão infantil da terra de Cockaigne. Quando Szuber renuncia a gracejos e a um iluminismo barato, ele nos pousa numa terra estrangeira que todos nós reconhecemos." E continua: "Szuber é mais bem sucedido quando sua voz se parece mais com o tom de distanciamento do Olimpo de Herbert — provavelmente ele não gostaria de ouvir nenhuma apreciação. Seus poemas fazem poucas referências claras ao passado recente da Polônia — Nazismo, Comunismo, confusão pós-comunista. Nada sobre Katyn, Gomułka ou Gdańsk. O inimigo já era, e a Polônia é uma nação entre nações. Szuber foi deixado, como muitos outros poetas, com uma realidade mundana, uma que menos aponta para a nobreza." ¹

Outro crítico, Piotr Florczyk (2009), tradutor do polonês e poeta, natural de Cracóvia, professor na Universidade de Delaware, analisa a obra do poeta polonês sob um prisma um tanto diferente, em minha tradução. "Estabelecido na cidade de Sanok no sudeste da Polônia, uma região que é tão rica em história e beleza natural quanto pobre em condições econômicas, Szuber é um poeta da reflexão e da busca pela transcendência. O mundo de Szuber pode ser fisicamente diminuto, mas suas buscas espirituais e intelectuais estão além disso. No poema 'Sobre um rapaz mexendo compota', o narrador expressa o desejo humano de apreender a essência integral do seu ser, antes de perceber afinal que mais importante do que a soma são os átomos individuais: 'Para alguém que não pode abraçar a totalidade, / Há salvação no detalhe lembrado.' Esse poema termina com o narrador lembrando-se do papel que desempenha no fazer e desfazer dos seus arredores:  'Agora sei / Que a distração é um pecado imperdoável / E cada partícula do tempo tem uma dimensão definitiva.'

Como um grande cronista, Szuber gastou uma considerável quantidade de tinta invocando seus antepassados, e o fez, — é importante destacar — sem transpor os domínios da mistificação superficial.  
(...) 
Evidentemente, alguns podem ponderar que há algo barroco sobre essas linhas e Szuber em geral, mas o que é digno de elogio é como ele renega fogos de artifício linguísticos e estilísticos em prol do retorno às mesmas verdades universais que nos impelem a continuarmos procurando e explorando quem somos. De fato, preso a uma cadeira de rodas desde seus dias de universidade, a história pessoal de Szuber poderia municiá-lo com razões infindáveis para escrever sobre si mesmo, entretanto, quando ele o faz, sempre une sua própria experiência a um todo mais amplo, do jeito que apenas o melhor dos poetas sabem fazê-lo. 
 (...) 
Cheios de sabedoria, inteligência, beleza e graça, os poemas de Janusz Suzber aprofundam e reforçam nossos liames conosco mesmos e o mundo em geral." ²
 
-->
A descrição do livro "They Carry a Promise: Selected Poems" traz as seguintes observações sobre seu autor, em minha tradução: "Esta coletânea estimulante marca a primeira aparição em língua inglesa do poeta polonês Janusz Szuber, aplaudido como a grande descoberta na poesia polonesa em fins do século XX, quando, com a idade de quase 50 anos, começou a publicar a obra que estivera produzindo por quase 30 anos. A poetisa laureada com o Prêmio Nobel, Wisława Szymborska, o tem chamado de 'poeta excelente', enquanto Zbigniew Herbert disse que 'sua poesia fala à parte dura do espírito'.
Janusz Szuber é um escritor intensamente elegante cujos poemas são curtos e acessíveis; sua obra está equilibrada entre os rigores de fazer poesia e a vida mesma em toda a sua glória desordenada, entre as devastações da história e o ato calmo de observar nosso lugar nisso tudo. De um extremo ao outro, há uma intensa calma e modéstia no verso de Szuber, quer esteja observando a garça em luta, a espuma de macieiras florescentes ou as imagens humanas num velho álbum de fotos." ³

Publishers Weekly o saudou com as seguintes palavras (em minha tradução): “Cuidadoso, profundo e muito celebrado na Polônia, Szuber parece o herdeiro lógico, a certos respeitos, de Czesław Miłosz... (representando) não a nova voz da Polônia pós-comunista, mas o último florescimento dos dons líricos de nível internacional – alegóricos, pios, cuidadosos, auto-alienados, – que cresceram à sombra da Cortina de Ferro.

III. MINHA TRADUÇÃO PARA POEMAS SELECIONADOS DE JANUSZ SZUBER

Tenho em mãos o livro, em polonês, de poemas selecionados de Janusz Szuber, intitulado “Pianie kogutów: wiersze wybrane” (O cantar dos galos: poemas selecionados), em sete partes, publicado pela Editora Znak, de Cracóvia, em 2008.
A denominação do livro rouba o título de um poema célebre dedicado a Czesław Miłosz, estampado na p. 60 da referida edição, a saber:

               Pianie kogutów

                                    Czesławowi Miłoszowi

Pianie kogutów na zmianę pogody:
Pod siną chmurą sine jądra śliwek
Z popielatym nalotem i lepką szczeliną –
Tam słodkie strupy brudnego bursztynu.

Język próbuje wygładzić chropowatość pestki
I lata mijają. A ona dalej rani podniebienie
Obiecując, że dotknę sedna – dna tamtego dnia
Kiedy koguty piały na zmianę pogody.
 
Cantar dos galos
A Czesław Miłosz

Cantar dos galos por mudança do tempo:
Sob uma nuvem roxa os roxos testículos de ameixas
Com uma capa cinzenta e viscosa fenda –
Lá há doces crostas de âmbar sujo.

A língua tenta aplanar a aspereza do caroço
E os anos passam. Mas ela continua a ferir o palato,
Com a promessa de que vou tocar a essência – o âmago daquele dia
Quando os galos cantavam por mudança do tempo.

Na p. 41 da mesma edição polaca se encontra o poema abaixo, cujo título também é nome de um dos livros de Szuber:

                O chłopcu mieszającym powidła

                                             Staszkowi Dłuskiemu

Łyżka drewniana do mieszania powideł,
Ociekająca słodką smołą kiedy w rondlu
Bełkoce bąblami śliwkowa magma,
I dla kogoś, kto nie może objąć całości,
Jaki taki ratunek w zapamiętanym szczególe.
Bo, ostatecznie, cóż o nich wiedziałem?
Prawdziwe, o twardości diamentu, miało się
Przecież dopiero wydarzyć w nieokreślonej bliżej
Przyszłości i, jak mi się wydawało, wszystko dotychczasowe
Było jedynie zapowiedzią tamtego. Naiwny. Teraz wiem,
Że nieuwaga jest grzechem nie do wybaczenia
A każda drobina czasu ma wymiar ostateczny.

Sobre um rapaz mexendo compota

A Staszek Dłuski

Uma colher de pau p'ra mexer compota,
Pingando melaço mole, enquanto no tacho
Balbuciam bolhas dum magma de ameixas.
Para alguém que não pode abraçar a totalidade,
Há salvação no detalhe lembrado.
Pois, afinal de contas, eu sabia algo sobre essas coisas?
O real, como a dureza do diamante, estava
Para acontecer apenas num futuro próximo,
Vago e, como me parecia, tudo até agora
Foi apenas tal prenúncio. Ingênuo! Agora sei
Que a distração é um pecado imperdoável
E cada partícula do tempo tem uma dimensão definitiva. 

                       Pokorny 

Pokorny? Nie pokorny.
Szukam dla siebie formy.
Diabłu zapalam świecę
I w potępienie lecę. 

Gdzie tortur czarcia wanna, 
Bez "gloria" i "hosanna" —
Tam wygładzany heblem
Tekst wiersza szczelnym kneblem.

Humilde

Humilde? Nem um pouco.
Busco uma forma p'ra mim.
Acendo uma vela ao diabo
E caio na condenação.

Onde está a banheira satânica das torturas
Lá não há "glória" nem "hosanna" —
O texto de um poema será aplainado
Com uma mordaça hermética.  

                           Lektury

Kiedy mój zegar dobiegał południa
Pośród znajomych znalazłem się lasów
Po lewej stąpał wielki Aligherus
Pantera oswojona biegła jego śladem
Po prawej krztusił się ze śmiechu
Przechodzień lasu ardeńskiego
Widząc na korze głupawe wierszyki.

Byłem wpół drogi. Oni odchodzili.
Trzaskały suche gałązki borówek.

Może zbyt cielesny jestem zbyt wrośnięty w ciało
Żeby się miała spełnić obietnica
Tu gdzie nad dębem rośnie zimny obłok —
Myślałem idąc brzegami parowu
W którym mamrotał strumień Heraklita.

Podniosłem kamyk. Był dokładnie w sobie.

Leituras

Quando meu relógio se aproximava do meio-dia,
Eu me encontrei no meio de florestas conhecidas
À esquerda pisava o grande Aligherus
Uma pantera domesticada corria na sua pegada
À direita engasgou-se com um riso
Um transeunte da floresta de Arden
Ao ver estúpidos poemetos em casca de árvore.

Estava eu a caminho. Eles partiram.
Estalavam galhinhos secos de morangos.

Talvez eu seja carnal demais, corpóreo demais,
Para que a promessa possa ser cumprida
Aqui onde sobre um carvalho cresce uma nuvem fria —  
Pensei, enquanto ia pelas margens dum córrego
No qual murmurava o riacho de Heráclito.
 
Peguei uma pedra. Ela era exatamente em si mesma.  

                              Filologia

Gąszcze trochejów, jambów, anapestów
Jakby to był agrest, leszczyna i rdest. Nad nimi
Jej ptasie rh, rh, rh. Mamy już za sobą
Niejeden podział Galii, i kości dawno zostały rzucone.

Ktoś dziś idzie ulicą Bolivara czy Chile
I może być szczęśliwym, lub nim nie by.
Któż może sprawić, abym był tym kimś.

A nasza łacinniczka, Wanda K.,
Emigrantka ze Lwowa, w letnim kapeluszu i sukni
Z nakładanym białym kołnierzykiem,
Wraca właśnie od franciszkanów, z dziewiątówki
Przed świętym Antonim.

Kwitnie mięta, pachną papierówki, są teraz,
Kiedy to piszę, mieszkaniec nowego eonu,
Zamieniając w zdania tamto coś, co na pozór
Z filologią niewiele miało wspólnego.

Filologia

Selvas de troqueus, jâmbicos, anapestos
Como se fossem groselha, avelã e sempre-noiva. Sobre elas
Seus rrr, rrr, rrr de ave. Temos já atrás de nós
Várias divisões da Gália, e a sorte há tempos foi lançada.

Alguém anda hoje pela rua Bolívar ou Chile
E pode ser feliz, ou não.
Alguém pode fazer com que eu fosse aquele.

E nossa professora de Latim, Wanda K.,
Emigrante de Lvov , em chapéu de verão e vestido
Com colarinho branco, destacável,
Está justo voltando dos franciscanos, da missa das nove,
Na igreja de Santo Antônio.

Florirá hortelã, maçãzinhas cheirarão, elas existem agora
Quando escrevo isso, habitante de um novo éon,
Transformando em orações aquele algo que
Aparentemente tinha pouco a ver com filologia. 


NOTAS DO AUTOR
 

¹  KURP, P.: They carry a promise by Janusz Szuber in The Quarterly Conversation, 9 dez. 2009, ou no link
--> http://quarterlyconversation.com/they-carry-a-promise-by-janusz-szuber   

²  FLORCZYK, P.: Janusz Szuber. They Carry a Promise: Selected Poems in The Free Library, 1º set. 2009, ou no link http://www.thefreelibrary.com/Janusz+Szuber.+They+Carry+a+Promise%3A+Selected+Poems.-a0215865236   

³  SZUBER, J.: They Carry a Promise: Selected Poems (trans. Ewa Hryniewicz-Yarbrough), Knopf, New York, 2009, 112 p. 

SZUBER, J.: Pianie kogutów: wiersze wybrane, Wydawnictwo Znak, Cracóvia, 2008, 145 p. 
  
Aligherus ou Alighieri. Trata-se do poeta Dante, autor da Divina Comédia.

Em seu poema Leituras, Szuber faz questão de demonstrar seu conhecimento da obra shakespeareana, especialmente da comédia do grande poeta inglês intitulada As You Like It.

A citada Floresta de Arden está localizada no condado de Warwickshire, Inglaterra, e não fica muito distante da cidade onde nasceu William Shakespeare, Stratford-Upon-Avon, ao sul de Birmingham. Toda essa região, cruzada por rios e canais, é hoje chamada de “terra de Shakespeare”. Embora ele tenha passado grande parte da sua vida de trabalho em Londres, as referências presentes na obra do poeta inglês indicam uma contínua afinidade com a natureza e o campo.

Em Ulisses, Joyce coloca na boca de seu personagem Stephen que o nome “floresta de Arden” em As You Like It vem do nome da mãe de Shakespeare, que se chamava Mary Arden Shakespeare, filha de Robert Arden, dono de uma propriedade herdada que ele próprio explorava ou alugava a outros fazendeiros. Cabe aqui a citação de Joyce: "As for his family, said Stephen, his mother' s name lives in the forest of Arden."(U9.879)   Mas o que importa aqui é que, de fato, nessa comédia Shakespeare criou uma floresta que porta o nome de sua mãe, que ele certamente quis homenagear.

Retornando à comédia de Shakespeare intitulada As You Like It (que em português é conhecida pelos mais variados títulos, desde Como Vos Aprouver até Do Jeito Que Você Gosta), a ação de desenrola na França, numa época em que estava dividida em províncias (ou ducados, como Ihes chamavam), reinando em uma delas Frederick, um usurpador que depusera e banira seu irmão mais velho, o duque legítimo.

Shakespeare, na referida comédia, faz pulsar forte paixão entre Rosalind e Orlando no interior dessa floresta, ambiente de instabilidade política, punição e exílio, já que o pai dela, Duke Senior, o duque proscrito, para ali se retirou com alguns poucos que lhe permaneceram fiéis, enquanto sua terra e rendimentos enriqueciam o seu irmão usurpador. O costume logo lhes tornou a vida simples e modesta, mais doce do que a pompa e o esplendor da Corte. Viviam como o velho Robin Hood, da Inglaterra. E diariamente recebiam, na floresta, jovens fidalgos que se retiravam da Corte para ali passarem o tempo despreocupadamente, como se vivessem na Idade de Ouro.

A filha de Duke Senior, Rosalind, permanece na Corte em companhia do tio usurpador e de sua prima Celia. Ambas são unidas por tão estreita amizade que nem as desavenças paternas conseguem interromper. Certo dia, as duas estão a falar de Orlando, por quem Rosalind se apaixonara, quando Frederick penetra no quarto e, irritado por ouvir o nome do filho de seu desafeto Rowland de Boys, ordena que Rosalind deixe imediatamente o palácio e vá fazer companhia a seu pai no exílio. Não conseguindo demover seu pai da sentença contra Rosalind, Celia decide acompanhar a sua prima em direção à Floresta de Arden, onde já se encontrava o duque deposto. Para disfarçarem sua elevada posição, resolvem trocar seus vestidos da corte por trajes de camponesas e, para o disfarce ficar ainda mais completo, decidem que Rosalind usaria trajes masculinos, assumindo o pseudônimo de Ganymede, enquanto Celia, com o pseudônimo de Aliena, ficaria sendo irmã do rústico e corajoso pastor Ganymede.

Furioso com a fuga de sua filha Celia e sabendo que diariamente homens de grande mérito vão à floresta juntar-se ao duque legítimo, Frederick sente inveja de ver o irmão tão respeitado na adversidade.

Certo dia, chega àquela paragem um fidalgo que se diz chamar Orlando, acompanhado de seu velho criado. O duque indaga quem é Orlando e, quando fica sabendo que se trata do filho de seu fiel vassalo e velho amigo Rowland de Boys, toma-o sob sua proteção. Assim, Orlando e o velho criado ficam morando com o duque na floresta.
  
Já no interior da floresta, o pastor Ganymede e sua irmã Aliena (na realidade, Rosalind e Celia) compram a cabana de certo pastor e, logo nos primeiros dias, ficam surpresos por encontrarem o nome de Rosalind gravado nas árvores e sonetos de amor pregados nelas, com dedicatória. Esforçam-se por descobrir como podia ser aquilo, quando encontram Orlando, o homem que Rosalind ama, e percebem-lhe, no pescoço, o colar que ela lhe deu, quando se encontraram pela primeira vez na Corte.

Com malícia e humor, o pastor Ganymede decide permanecer no disfarce para testar os sentimentos de Orlando por Rosalind, contando a Orlando sobre certo namorado "que – diz Ganymede – frequenta nossa floresta e estraga as árvores, gravando nelas o nome Rosalind e pendurando odes nos espinheiros e elegias nas macegas, tudo em louvor dessa mesma Rosalind. Ah, se eu pudesse achar o tal namorado, lhe daria uns bons conselhos para curá-lo desse amor". Orlando confessa ser ele o referido namorado e pede a Ganymede o bom conselho de que falara. O remédio que Ganymede prescreve é que Orlando apareça todos os dias na cabana onde moram ele e a sua irmã Aliena, de modo a ensinar-lhe como seduzir uma mulher, acrescentando ainda: 
Então, fingirei que sou Rosalind e tu fingirás cortejar-me da mesma maneira como farias se eu fosse Rosalind. Depois, imitarei as divertidas momices das damas para com seus namorados, até que te envergonhes do teu amor. Este é o modo pelo qual pretendo curar-te da tua febre do amor”.

É quando Ganymede descobre que essa mentira pode colocar sua relação amorosa em risco.
  
Embora haja outras peripécias que não cabe referir aqui, o desfecho da comédia é - comme il faut - o de um final feliz, tendo Rosalind se casado com Orlando, enquanto sua prima Celia se unia ao irmão mais velho de Orlando, Oliver, que tinha ido à floresta em busca de seu irmão.


⁷ Panta rhei os potamós ("πάντα ῥεῖ ὡς ποταμός") foi a expressão utilizada pelo filósofo grego pré-socrático Heráclito (544-484 A.C.) de Éfeso, cidade da Jônia (atual Turquia). Ele a empregou na acepção de que tudo muda, tudo flui como um rio, nada persiste. A metáfora surgiu de sua constatação de que não é possível banhar-se no mesmo rio duas vezes, ou, dito de outra forma, aquele rio, um milésimo de segundo depois do primeiro banho, já não era mais feito da mesma água. Segundo o pensador grego, tudo é móvel, transitório, passageiro.Tudo flui como um rio” é o célebre "motto" no qual a tradição filosófica subsequente relacionou sinteticamente o pensamento de Heráclito com o tema do devir,  pelo qual todas as coisas são sujeitas ao tempo e estão em contínua transformação, chegando mesmo a identificar a forma do Ser com o Devir


Em polonês, Lwów, hoje cidade ucraniana (desde 1939). Até a II Guerra Mundial, chamava-se Wilno e foi território polonês de 1340 até 1772, quando passou a ser possessão austríaca, e de 1919 até 1939, quando então foi ocupada por tropas soviéticas e depois pelos alemães (1941-1944). Em 1945 foi cedida pelos Aliados à URSS, passando a fazer parte da República Socialista Soviética da Ucrânia. Nessa ocasião, sua população, quase na sua totalidade polaca, foi expulsa, sendo a maioria deportada para Wrocław (que até 1945 tinha sido alemã, com o nome de Breslau).