sábado, 24 de janeiro de 2015

PADRE GODINHO NO FOLCLORE POLÍTICO


Por Francisco José dos Santos Braga *




I.  INTRODUÇÃO

Padre Godinho (☆ Carmo da Cachoeira, 1920 ✞ São Paulo, 1992)

Sebastião Nery talvez seja o autor que melhor se tenha especializado nos meandros do poder, além de bem humorado contador de histórias, tão boas que chegaram a ser adaptadas para o teatro. Nery já foi vereador, deputado estadual e percorreu o Brasil e o mundo, sempre cobrindo política e eleições.

Como jornalista veterano, ele conviveu com toda sorte de homens públicos, mormente os grandes e já lendários José Américo de Almeida, José Maria Alkmin e Juscelino Kubitscheck, bem como os generais da ditadura militar.

Sabe-se que, conhecedor como ninguém do lado B da política, Nery logo se interessou por contá-lo ao público. O início foi por necessidade. Ele próprio relata: 
"Médici, AI-5 e uma censura burra. Era 12 de setembro de 1971, aniversário de Juscelino. Escrevi sobre ele a minha coluna na Tribuna da Imprensa e entreguei ao censor, de plantão na redação. Leu, me chamou: 
– Escreva outra coisa, que isso não sai. Juscelino, nem a morte da mãe. 
– Então deixe o buraco em branco.
– Com sinal de censura o jornal não sai. 
Voltei para a máquina de escrever, escrevi: "Alkmin, Sete Histórias de Um Gênio da Raça". Uma delas tinha Juscelino no meio. Passou. No dia seguinte, meu saudoso amigo Abelardo Jurema me mostrou o caminho das pedras:
– Drible a censura contando o folclore político.
Estava ali o título. Toda vez que a censura engrossava, na Tribuna, no Politika, no Correio da Manhã, na Última Hora, no meu programa na TV Bandeirantes, eu contava histórias políticas e metia os cassados proibidos." Nery comentou: "Menino de fazenda, cedo aprendi que, quando a estrada não dá caminho, toma-se o atalho. É o jeito de dizer, pela boca dos outros, o tornado indizível. O humor é uma linguagem absolutamente séria, necessária, eterna."

Inicialmente foram quatro volumes, publicados de 1972 a 1984, constituindo sucesso absoluto, vendendo várias edições cada um. Depois, Nery entendeu que devia voltar a pesquisar, colecionando novas histórias para um quinto volume. Atualmente, o volume completo do "Folclore Político" de Nery coleciona 1.950 histórias ilustradas e contém os cinco volumes. E o próprio Nery conclui: "Agora, reúno os cinco em um livro só. 1.950 histórias. Cada Estado com seu capítulo, seus líderes e sabedorias. De cada um, todas as histórias juntas. Uma aquarela política do país, de norte a sul. Metade folclore, metade história."

De José Maria Alkmin: "Essas histórias do folclore político a gente nunca sabe quais são as verdadeiras e quais as inventadas. O povo vai contando e elas vão se modificando, se reproduzindo. Como os cogumelos. Quem é que sabe quem é a mãe do cogumelo?"

Escolhi as mais interessantes histórias de Nery a respeito de Pe. Godinho, em geral como assessor de Jânio da Silva Quadros e que foi, para este, "o amigo certo nas horas incertas".


II.  PADRE GODINHO NO "FOLCLORE POLÍTICO"


1) Na primeira história, que poderia chamar-se "Funeral da Muriçoca", ou simplesmente "Muriçoca" pela importância atribuída à personagem, o jornalista baiano Sebastião Nery, com formação mineira, responsável pelos melhores momentos de humor do jornalismo político no Brasil, em programa da TV Câmara, relatou ao vivo, de forma jocosa, fato protagonizado pelo ex-Presidente da República Jânio da Silva Quadros, quando em 1970, já cassado pela ditadura militar, residia em um casarão na capital paulista. O episódio narrado serve para ilustrar a estreita ligação afetiva entre o ser humano e seu animal de estimação.

História extraída do "Folclore Político" nº 454, p. 158:
Rio – Chegamos cedo, dez da manhã. José Aparecido de Oliveira, o poeta Gerardo Mello Mourão, eu. Era um belo domingo de sol em São Paulo, na Rua Santo Amaro, 5. Jânio Quadros veio abrir o portão, feliz, sorridente. Cortava a grama com um carrinho anavalhado.

Era 1970, a ditadura militar corria feroz. Todo mês, quando em São Paulo, Aparecido arrebanhava alguns amigos para almoçarmos com Jânio. Fomos para a varanda. Foram chegando o padre Godinho, Roberto Cardoso Alves, Luís Carlos Santos. Esperávamos Oscar Pedroso Horta. Tomávamos uísque ou vinho. Jânio contava coisas, escandia as sílabas:

– O Nery, que foi quase bispo, sabe que vinho é tinto. Não há vinho branco. É uma bebida dos homens. A bebida de Deus é o vinho tinto. Já viram missa com vinho branco? Os porres da Bíblia, de Noé, de Davi, foram todos com vinho tinto, sim. E o que Cristo bebeu na Última Ceia.

JÂNIO

Fomos para o almoço. A mesa, farta e colorida. Já estávamos no conhaque e no charuto, quando dona Eloá chega perto de Jânio e diz-lhe alguma coisa ao ouvido. Jânio crespa as mãos, revolve os olhos, passa os dedos retorcidos pelo cabelo e geme fundo:

– Não pode ser! Meu Deus, não pode ser!

As lágrimas desabam pelo rosto, ele se levanta e grita:

– Muriçoca! Muriçoca morreu!

Eu tinha pensado que era a filha Tutu. Perplexos, levantamo-nos todos. Ele andando na frente, nós atrás. No fim do jardim, deitada na grama, morta, uma cachorrinha branca, meio amarelada. Jânio senta-se no chão, pega-a nos braços, aperta contra o peito, beija-a em soluços, chorando convulsivamente.

A RAINHA

Dona Eloá tenta levantá-lo, a voz trêmula:

– Jânio, temos outros cães no jardim. Ela foi, os outros ficaram.

– Cães, Eloá! Cães! Cães há muitos, eu o sei. Mas a Muriçoca era única. E não porque a rainha Elizabeth me deu. Quando me cassaram, quando o algoz fardado caiu sobre mim, todos me abandonaram, todos Eloá, até tu. E tu também, Aparecido. Até tu. E só a Muriçoca me acompanhou, na solidão e na dor.

Dona Eloá olhou para nós, desolada:

– Não diga isso, Jânio. Você sabe que não é verdade. Aqui estão seus amigos. Aqui está o Aparecido.

– Amigos, Eloá, amigos. A Muriçoca era um pedaço da minha alma.

APARECIDO

Ele ali no chão, soluçando, a cachorrinha no colo, e nós abestalhados sem saber o que fazer. Ele revirava os olhos e arquejava:

– Deixem-me só. Deixem-me com minha dor.

Aparecido resolveu acabar com aquilo:

– Presidente, vamos para o gabinete conversar. Os empregados enterrarão a Muriçoca, aqui mesmo, debaixo das árvores.

Ele deu um salto, ficou de pé, a cachorrinha nos braços, com o pescoço caído, como uma boneca de Chaplin:

– Eles não, Zé. Eu. Sepultá-la-ei eu mesmo, com minhas mãos e minhas lágrimas. No vértice do jardim. Ficará eterna na minha saudade, sob uma lápide de bronze. Prometi-lhe, cumprirei.

A COVA

E saiu andando a passos largos, os olhos tortos, os cabelos desgrenhados, para o centro do jardim, beijando e apertando a cachorrinha contra o peito. E nós atrás. Uma tensa e ridícula procissão medieval, como em um filme de Buñuel na Catalunha. No meio do gramado, Jânio parou, olhou para os quatro cantos, deu um passo, bateu o pé no chão:

– Será aqui, no vértice. Ela sempre comigo, até meu último dia.

Um rapaz trouxe uma picareta, Jânio entregou a Muriçoca a dona Eloá e começou a cavar, aflito. Vermelho, em lágrimas, cavava e suava. Aparecido reclamou:

– Presidente, não faça isso. Acabou de almoçar. Dê-me, eu cavo.

Pegou a picareta e passou a cavar. Tinha posto safenas um mês antes. Sobrou para mim. Tomei a picareta da mão dele e fui cavando. Jânio, de pé, a cachorrinha de novo nos braços, dava ordens:

– Por favor, Nery, fundo, mais fundo, bem fundo!

GODINHO

Robertão e Luís Carlos Santos tinham saído para buscar cal, chegaram. A cova estava pronta. Dona Eloá tinha pedido flores ao empregado. Jânio, depois de aflitos beijos lacrimejados, pôs Muriçoca na cova, disse uma série de coisas incompreensíveis, chamou padre Godinho:

– Padre, uma prece última, por favor. Ela era um ser humano. E dos poucos que conheci em minha vida. Faça-lhe a derradeira prece.

Padre Godinho, entre a liturgia e o amigo enlouquecido, olhou para mim e começou a recitar em seu latim perfeito um poema de Horácio. Jânio olhava para o céu, procurando a alma de Muriçoca na tarde fria que caía.

Voltei lá outro dia. No vértice do jardim, uma lápide de bronze cobria Muriçoca. Jânio enganou São Paulo e o Brasil. Não enganou Muriçoca.


2) História extraída da p. 134 do "Folclore Político" ¹:
Dia 13 de abril de 1964, o padre Godinho, deputado da UDN de São Paulo (depois cassado), foi à Rua Nascimento e Silva, Ipanema, no Rio, onde morava o general Castelo Branco, que acabava de ser indicado pelo Congresso para a Presidência da República. Ninguém podia entrar, e o padre Godinho ficou esperando na porta. De repente, descem algumas pessoas, o padre se aproxima:
– Como é? Cadê o homem? Esse homem não desce?
– Que homem?
– O Castelo.
– Sou eu.
Padre Godinho cumprimentou-o, foi saindo de fininho, pegou no braço de um amigo, apontou para o Castelo:
– Só isso?
Era. Imaginem se fosse mais.


3) O episódio a seguir, que bem poderia ser intitulado "Chamem o Lacerda!" para ensinar nossos políticos atuais a ter um comportamento ético, protagonizado por Carlos Lacerda, governador da Guanabara, em visita ao Líbano, ilustra bem a postura de um político sério, para o qual "à mulher de César não lhe basta ser honesta; tem que parecer honesta!"

História extraída do "Folclore Político" nº 683, p. 227: 
Em 65, Lacerda foi ao Japão, à Índia e ao Líbano, em visita oficial. No Líbano, esperando-o, os deputados Jorge Curi (UDN do Paraná, depois cassado) e padre Godinho (UDN de São Paulo, também cassado).
À noite, foram levados ao cassino Beirute, maravilhoso, show ao nível do Lido de Paris. Depois do show, a roleta. Padre Godinho ficou de fora da banca, não por virtude, porque sorte não é pecado, mas com medo da traição das fichas.
Lacerda e Jorge começaram a jogar. Jorge, também libanês, zangado com as fichas conterrâneas, não acertava uma. Lacerda, naquele audacioso rompante de sempre, pegava todas as fichas e arriscava numa parada só. Deu, recebeu, arriscou tudo de novo. Deu novamente. Reuniu tudo e fez a terceira parada total. Acertou na cabeça. Jorge e o padre estavam extasiados:
– Carlos, você fez três plenos. É uma coisa dificílima. Ganhou uma fortuna.
O crupiê recolheu as fichas todas numa bandeja enorme. Lacerda olhou aquele montão de fichas:
– Jorge, quanto será que vale isso?
– Cinquenta mil libras libanesas. Entre 25 e 30 mil dólares.
Lacerda parou um instante, chamou o crupiê:
– Tudo isso é seu. A gorjeta.
O crupiê segurou a bandeja, trêmulo, quase desmaiou. Jorge e o padre ficaram desesperados:
– Carlos, isso é uma loucura. Gorjeta de 30 mil dólares?
– Vamos embora. Esse tipo de sorte não existe. Isso é o do governo. Eles estão querendo é comprar o governador da Guanabara.
E voltou para o hotel.


4) História extraída do "Folclore Político" nº 404, p. 139:
Aimorés, Minas, 60, campanha de Jânio Quadros para a presidência da República. Grande comício na cidade: Jânio, Magalhães Pinto, deputado Florisvaldo Dias (UDN). Aimorés era terra do famoso coronel Bimbim, dr. Memeco (Américo Martins da Costa) e do deputado Álvaro Sales, todos chefes do PSD.
Tempo de eleição, as coisas esquentavam. Naquela tarde, esquentaram também. Começou o comício, José Aparecido de Oliveira e o padre Godinho desceram do palanque e foram procurar uma barbearia. Estavam fazendo a barba, do outro lado da praça, ouvem um tiroteio. A coisa começara. Padre Godinho levanta-se da cadeira do barbeiro. Aparecido segura-o:
– Não faça isso. Não vá, padre. Continuam atirando.
– Vou sim. É meu dever de sacerdote. Tenho que dar extrema-unção ao Jânio.
Não precisou.


III.  NOTAS EXPLICATIVAS


¹  Cf. in http://www.revistagestor.com.br/edicoes/revista_ed_29/files/assets/basic-html/page134.html



IV.  BIBLIOGRAFIA


NERY, Sebastião: FOLCLORE POLÍTICO: 1950 Histórias - 5 Volumes em 1, São Paulo: Geração Editorial, 2002, 659 p.




* O autor é escritor, compositor e pianista, membro do Instituto Histórico e Geográfico de São João del-Rei, onde ocupa a cadeira nº 22 patronímica do escritor e poeta são-joanense Lincoln de Souza, e da Academia de Letras de São João del-Rei, onde ocupa a cadeira 28 patronímica de Dr. Antônio de Andrade Reis. Outras instituições de que participa como membro: IHG de Campanha, Academia Valenciana de Letras e Instituto Cultural Visconde do Rio Preto (Valença-RJ), Academia Divinopolitana de Letras, IHG-DF, Academia Taguatinguense de Letras, Academia Barbacenense de Letras, Academia Formiguense de Letras e Colégio Brasileiro de Genealogia (Rio de Janeiro-RJ).

quinta-feira, 15 de janeiro de 2015

PADRE Antônio de Oliveira GODINHO (☆ Carmo da Cachoeira, 1920 ✞ São Paulo, 1992)


Por Francisco José dos Santos Braga *


I.  ANTECEDENTES


São Paulo, 1974: tendo sido admitido no Curso de Mestrado em Administração da EAESP-Fundação Getúlio Vargas, fui convidado por outro colega cujo nome era Paulo Roberto Maia Cortes, apelidado "Buda", a apresentar meus serviços a uma empresa de leasing (arrendamento mercantil), chamada Grupo Empresarial Mondelo, situada no Largo da Misericórdia, 23, no centro da cidade de São Paulo. Isso se deu porque Paulo tinha conseguido o cargo de assessor de marketing na referida empresa e trouxe a alguns colegas da FGV, conhecedores de Matemática, um enigma a ser decifrado.

Como empresa arrendadora (instituição financeira ou sociedade de arrendamento mercantil), o Grupo Empresarial Mondelo tinha diversos clientes (arrendatários). Explicando: o objeto do contrato é a aquisição, por parte do arrendador (Mondelo), do bem escolhido pelo cliente (arrendatário) para sua utilização. Esse(s) bem(bens) podia(m) ser móvel(is) ou imóvel(is) de fabricação nacional, ou produzido(s) no exterior e autorizado(s) pelo Conselho Monetário Nacional. No leasing (arrendamento mercantil), o cliente paga uma espécie de aluguel pelo bem com a opção de adquiri-lo ao final do contrato por um valor residual, o que constitui a principal diferença entre o leasing e o financiamento tradicional, já que neste último o bem é de propriedade do contratante, já no ato da compra. Na operação de leasing, existem ainda vantagens com referência ao imposto de renda por parte do contratante.

Conforme dizia, o colega Paulo trouxe então a alguns mestrandos da FGV, inclusive a mim, a seguinte questão: dado um determinado valor de um bem, a que taxa devia o Grupo Empresarial Mondelo cobrar do contratante as parcelas iguais de aluguel ou contraprestações mensais de modo a cobrir o custo do bem acrescido do lucro desejado para o negócio. Isso parece simples, mas de fato nenhum dos colegas conseguiu resolver a questão. Quanto a mim, consegui resolver o problema depois de muita reflexão, chegando a uma fórmula que desenvolvi (guardada "a sete chaves" por mim) e graças à qual obtive o cargo de assessor financeiro do Grupo Empresarial Mondelo.  De posse da fórmula, encaminhei-me para a empresa, ocasião em que fiquei conhecendo dois sócios diretores (Adair e Pe. Godinho) e o contador José Maria.

Quando me apresentei, Pe. Godinho especialmente se interessou em saber a minha procedência. Contei-lhe que vinha de São João del-Rei, portanto mineiro como ele. Mantivemos longas conversas em que ficou manifesto seu imenso interesse pelas peças sacras existentes na paróquia de Nossa Senhora do Pilar de minha histórica cidade, onde percebi a sua intenção de adquirir algumas para constituir algum acervo público, como, aliás, ocorreu com relação a outros acervos quando assumiu a direção do Museu de Arte Sacra de São Paulo alguns anos depois.

Afeiçoei-me logo por ele que parecia ter certa complacência por minhas limitações e precariedades, ouvindo-me sempre e incentivando-me a falar de mim, dos meus embaraços e contingências. Nossas conversas nunca versaram sobre leasing e as operações contratadas pelo Grupo Empresarial Mondelo, nem sobre a minha "fórmula", embora eu hoje imagine que ele sabia de sua existência. Essas tarefas ficavam a cargo do seu sócio Adair. Pe. Godinho estava sempre refestelado em uma cadeira de espaldar alto e sobre sua mesa antiga não eram vistos contratos, despachos ou documentos usuais de uma empresa. Parecia um "deus ex machina", embora não dispensasse um crucifixo na parede de seu nobre aposento.


II.  DADOS BIOGRÁFICOS DE PADRE GODINHO


Padre Antônio de Oliveira Godinho nasceu em 23 de janeiro de 1920, em Carmo da Cachoeira, Minas Gerais, filho de José Godinho Chagas e Albertina de Oliveira Godinho. Sacerdote e professor universitário, doutor em Filosofia, Teologia e Direito pela Pontifícia Universidade Gregoriana de Roma. 

Iniciou sua vida pública em São Paulo, como deputado estadual, exercendo seu mandato de 1959 a 1963, pela UDN. Em seguida, foi eleito deputado federal para dois mandatos (1963 a 1967, e 1967 a 1971, sendo neste último eleito numa coligação da UDN com o PDC e o PRT). Como deputado federal destacou-se pela eloquência e erudição. Como parlamentar atuante que foi, desempenhou várias missões, cabendo ressaltar a sua missão de Observador Parlamentar à 45ª Conferência da Organização Internacional do Trabalho, em Genebra, em 1964. Não chegou a terminar seu terceiro mandato, pois no dia 7 de fevereiro de 1969, teve seu mandato cassado e os direitos políticos suspensos por 10 anos.

Ocupou a cadeira de nº 32 patroneada por Mário Antônio de Magalhães Gomes, da Academia Sul-Mineira de Letras, sediada em Campanha-MG.

Para sobreviver, Padre Godinho traduziu para o português, sob diversos pseudônimos, obras da literatura italiana, entre elas, de Pier Paolo Pasolini, Alberto Moravia e Giovanni Guareschi. Já havia traduzido do latim, em 1962, a Encíclica Mater et Magistra










































Recuperando seus direitos políticos em 1979, após a extinção do bipartidarismo, em 29 de novembro daquele ano, e consequente formulação partidária, filiou-se ao PTB. 

Nos anos 80 passa a ser mais conhecido pela opinião pública devido ao seu ingresso na equipe de comentaristas do telejornal vespertino Record em Notícias (1973-1990), chamado popularmente de "Jornal da Tosse".

De suas obras, cabe destacar um livro de memórias "Todas as Manhãs são Azuis" (1991), cobrindo os tempos da infância e da juventude, até os dias difíceis da II Guerra Mundial, que passou na Roma ocupada pelos nazistas alemães. Com exceção dos capítulos I (intitulado "Infância") e II ("Seminário Menor"), o capítulo III, intitulado "Roma", vai da página 69 à de nº 166 e é dedicado à sua vida na capital italiana (desde novembro de 1936 a novembro de 1945, época coincidente com a queda do Estado Novo), sendo o capítulo IV intitulado "O Padre" constituído de suas crenças particulares a respeito de seu múnus sacerdotal. Publicou também "Catolicismo, comunismo e outros assuntos" (1947).

Em 1979, recém-nomeado diretor do Museu de Arte Sacra de São Paulo, ficou responsável por integrar o edifício histórico e o acervo, eliminando paredes, liberando espaços e redistribuindo peças e obras. Aí estão representados grandes pintores, ourives e escultores brasileiros, tais como, na sala dos mestres beneditinos, os ceramistas freis Agostinho da Piedade (Santo Amaro) e Agostinho de Jesus (Nossa Senhora dos Prazeres e Nossa Senhora da Purificação), Aleijadinho (Nossa Senhora das Dores e Sant'Ana Mestra, ambas em madeira), Mestre Valentim (Anjo, em madeira). Há ainda espaços destinados à ourivesaria religiosa (jóias, cálices, adereços, etc.), aos textos históricos sobre a criação da diocese de São Paulo e ao mobiliário da sacristia convivem com as salas dedicadas aos santeiros populares, às "paulistinhas" — pequenas imagens populares de barro, típicas de São Paulo — e às imagens do Divino, versão local dos modelos eruditos. O acervo do museu conta ainda com pinturas do baiano Capinam (1791-1874) e de Benedito Calixto (1853-1927). Em 1983 publicou o livro "Museu de Arte Sacra de São Paulo".
Placa de comemoração do restauro total do Museu de Arte Sacra de São Paulo (18/12/1980) em homenagem à visita de Sua Santidade João Paulo II ao Brasil

Quando os santos dos altares da Capela da PUC acompanharam as freiras carmelitas que saíram de Perdizes e foram para o Jabaquara, Pe. Godinho convidou o artista José Tudon Puyeo, em 1958, a esculpir as imagens de São Tomás de Aquino e Santa Teresinha para o altar principal; o Sagrado Coração de Jesus e São José, para os altares laterais. ¹

Consta também que Pe. Godinho é o autor de um poema, em comemoração dos 100 anos da criação da Freguesia da Paróquia Nossa Senhora do Carmo (hoje Carmo da Cachoeira), hoje transformado em Hino do Sesquicentenário por adaptação feita por Jovâne, Jobinho e Tiãozinho.  ²

Faleceu em São Paulo, em 17 de outubro de 1992.

III.  TEXTO DE PE. GODINHO COMENTADO



De Pe. Godinho possuo um livro intitulado "Todas as Montanhas são Azuis", subtítulo Reminiscências, com prefácio do jornalista Luiz Fernando Mercadante e desenho de capa de Maria Luiza Campelo, editado em 1991 pela Editora Alhambra Ltda., em Brasília-DF. Esse livro cobre suas memórias desde sua infância e juventude até os dias difíceis da II Guerra Mundial, que passou na Roma ocupada pelos alemães. Ouso dizer que as páginas finais desse livro (constantes do capítulo IV, intitulado "O Padre") resumem o "Credo" ³  de Pe. Godinho. Aqui vou transcrever as três derradeiras páginas (p. 211 a 213), na íntegra: 

"(...) Muitos estão invertendo as situações. Não é a Igreja que precisa de salvação. É o mundo. Mas a Igreja e o mundo, sob certos aspectos, se confundem. Os que gostariam de vê-la confinada à penumbra das sacristias não entenderam sua missão. Não há dicotomia entre o cristão e o cidadão. A mesma pessoa que persegue a felicidade temporal é sujeito de uma vocação eterna. O corpo perecível não subsiste sem a alma imortal. Ninguém salva aquele em detrimento desta e vice-versa. A obra da salvação não é uma obra solitária. Deus opera pelas mãos dos homens. Aqui na Terra o trabalho de Deus é o nosso próprio trabalho. Uma Democracia sem Deus seria como uma Teocracia sem homens, ou uma omelete sem ovos. Que bom, se os jovens padres entendessem isso! Temo que os Seminários, ao procurar renovar-se e adaptar-se às circunstâncias do tempo, estejam abrindo mão do que havia de positivo na formação que dispensavam, sem que a renovação intentada tenha produzido frutos. Perderam o que era bom e não conseguiram conquistar o melhor. É patente, por exemplo, em muitos jovens padres, uma penosa deficiência intelectual. Não aprenderam as ciências tidas como abstratas e não se apoderaram das outras. Julgam-se, hoje, mais sociólogos que teólogos. Se a Teologia já não era boa, a Sociologia é, quase sempre, suspeita. O sarampo da tecnocracia vai invadindo a Igreja com os mesmos prejuízos causados ao Estado. Nada impede — ao contrário, é sumamente desejável — que os padres alarguem horizontes no domínio das ciências profanas. Como seria desejável que os homens de Estado, ou de empresa, tivessem uma visão teológica do mundo! Isso foi desconhecido no passado. E significou uma séria carência. Não é compreensível a inversão das posições: os padres transformarem-se em sociólogos e os leigos em porta-vozes da Teologia. A Sociologia é uma exigência cristã, por isso não pode ser aplicada à revelia do Evangelho. O Padre-Nosso, bem interpretado, é um perfeito tratado de Sociologia. É provável que até ao fim do século muita água corra debaixo das pontes. É possível que as crises se agravem e a Igreja tenha de padecer feridas mais sangrentas, tanto dos que a combatem quanto dos que fingem defendê-la. Ela nunca desejou viver em estado de agonia. Preferiu sempre viver em paz. Mas o clima de padecimento jamais lhe foi estranho. O vaticínio do galho verde e do galho seco não se perdeu no tempo. Todo momento de crise profunda na Igreja foi seguido de períodos de expansão e fecundidade. Foi assim, por exemplo, após as migrações bárbaras; no século XVI, à época dos descobrimentos marítimos; agora, com a abertura de vias navegáveis nos mares do infinito. Todos foram momentos de tensão e, por isso, de renovação profunda. Após cada um, o mundo teve a fisionomia modificada.
É estranho como os homens gostam de substituir-se a Deus nos seus desígnios. Somo pobres formigas em comparação com as estrelas. E, se as estrelas pensassem, talvez se julgassem inquietos vagalumes comparadas a nós. Santo Agostinho disse: Deus est magnus in magnis et maximus in minimis. O átomo é, em proporção, maior que a Lua e, possivelmente, mais terrificante que os milhões de mundos perdidos nos silenciosos abismos do cosmo infinito. Latente no âmago da matéria, sua força é mais poderosa do que todos os coriscos desencadeados no céu. O átomo quedou-se oculto, durante milênios, embora os Gregos o tivessem pressentido simplesmente como o último elemento indivisível, constitutivo da matéria. Apenas, não era indivisível. Nem por isso, Demócrito deixou de chegar antes de Oppenheimer. Os Gregos chegaram antes de todo mundo. Mas Deus existe antes dos Gregos e dos seus deuses. O átomo é tão belo quanto a rosa que o Pequeno Príncipe abrigou no asteróide para que o carneiro não a devorasse. O mesmo carneiro que comia os pintainhos de minha estouvada galinha. Le mouton oui ou non a-t-il mangé la fleur?
Às vezes, fico assuntando e me espanto ao ver como Deus-Uno é pluralista! Antigamente, se falava em panteísmo. Quem sabe essa palavra tem uma conotação mais profunda do que imaginaram os seus criadores? Há uma centelha de Deus em cada coisa criada. No homem como na pedra; na estrela como no sapo dos brejos; na flor escondida nos campos; na mosca verde zumbindo ao sol do meio-dia; nos castelos de nuvens deslumbrantes que eu contemplei, sozinho, ao sobrevoar o Saara, a quinze mil metros de altitude, num límpido alvorecer; nos impalas dos cerrados africanos; nas neves indiferentes dos alcantis alpinos; nas mãos descarnadas do trôpego mendigo; nos sonhos das crianças que sorriem para os anjos notívagos. A tecnologia de Deus é mais antiga que a teologia dos homens. Deus não gosta de matéria-plástica. Mas gosta de contemplar, de noite, a Pietá e discutir, com Michelangelo, em turbulentos serões celestes, alguns detalhes do Juízo Universal, no qual, um dia, todos seremos julgados — os vivos e os mortos.
EXPLICIT LIBELLUS HIC
LAUS DEO "


Concordo com o jornalista Luiz Fernando Mercadante, que prefaciou "Todas as Manhãs são Azuis: Reminiscências" em 1988, sob o título Uma verdadeira Catedral
"Antônio de Oliveira Godinho — arquiteto da palavra — construiu, pedra a pedra, página a página, este belo livro, verdadeira catedral.  
Catedral barroca, penetrei este livro ainda na virgindade dos originais, em uma noite e madrugada sacramentais. (...)  
E o que fora meu privilégio por uma noite, dias, semanas e meses, torna-se, hoje, democraticamente, pintura, afresco, escultura, música ao alcance de todos.
Ninguém lerá esta preciosidade impunemente. Ao final da viagem, cada passageiro terá crescido como ser humano. (...)"


IV.  NOTAS EXPLICATIVAS DO AUTOR DESTA MATÉRIA


¹  Cf. http://www.capelapuc.org.br/capela/historia-da-paroquia

(vide comentário) 

³  "Um credo é um sistema de princípios ou crenças. Nas artes, há numerosos credos não escritos que seguimos querendo ou não. Não há ninguém que não siga um credo. Mas onde um credo termina no homem ou na arte e não em Deus e nas verdades de Deus, é um credo inferior. É um credo capaz apenas de satisfazer prazeres inferiores. Tais credos — tais sistemas de princípio e crença que eventualmente prezam a arte, ou a estética, ou a habilidade, ou o desempenho, ou o artista, ou qualquer outra coisa que não Deus como derradeiro prazer e objetivo dos prazeres que conhecemos na arte — são incapazes de produzir os plenos, mais satisfatórios e duradouros prazeres que se podem conhecer através da expressão artística." (HARMS, Jason: "O Credo de um Artista", in

  Video meliora proboque deteriora sequor. Vejo e aprovo as melhores coisas, mas sigo as piores. (OVÍDIO, Metamorfoses VII, 20) 

  Deus é grande nas grandes coisas e máximo nas mínimas. A sentença exata utilizada por Santo Agostinho foi: (Deus) magnus in magnis, nec parvus in minimis. Deus é grande nas grandes coisas, sem ser pequeno nas mínimas (coisas). (Sermo CCXIII chamado In Traditione Symboli, vol. V, p. 1061, MIGNE)

  O carneiro comeu ou não a flor?

  Acabou este livreto. Louvor a Deus. 
Com este desfecho, Pe. Godinho está sendo humilde, pois, de acordo com a ABNT, um livro deve conter pelo menos 50 páginas (NBR 6029, da ABNT). Assim, qualquer coisa abaixo disso não é um livro, mas um livreto. 





* O autor é escritor, compositor e pianista, membro do Instituto Histórico e Geográfico de São João del-Rei, onde ocupa a cadeira nº 22 patronímica do escritor e poeta são-joanense Lincoln de Souza, e da Academia de Letras de São João del-Rei, onde ocupa a cadeira 28 patronímica de Dr. Antônio de Andrade Reis. Outras instituições de que participa como membro: IHG de Campanha, Academia Valenciana de Letras e Instituto Cultural Visconde do Rio Preto (Valença-RJ), Academia Divinopolitana de Letras, IHG-DF, Academia Taguatinguense de Letras, Academia Barbacenense de Letras, Academia Formiguense de Letras e Colégio Brasileiro de Genealogia (Rio de Janeiro-RJ).

terça-feira, 6 de janeiro de 2015

Na Epifania os Gregos se saúdam dizendo: BOA ILUMINAÇÃO! Καλή φώτιση!


Por Francisco José dos Santos Braga



Fui agraciado com uma mensagem do professor de grego Aléxandros Orfanídis, diretamente de Atenas, que me externou votos de Boa Iluminação neste 6 de janeiro de 2015, ao mesmo tempo que observava,  dentro da melhor Ortodoxia grega, que nesta data os Gregos veneram e comemoram o batismo ¹  de Jesus Cristo. Chamam a esta festa Teofania, significando a manifestação/revelação de Deus, durante o Batismo de Jesus Cristo nas águas do rio Jordão, através de uma voz que foi ouvida: "Este é o meu Filho muito amado, em quem pus toda a minha complacência!" O abençoado professor ainda achava que é importante acrescentar  que a Teofania se refere também à revelação da Tríade Divina, já que na ocasião o Espírito Santo apareceu em forma de pomba.

Oficialmente, o Natal chega hoje a seu fim. Este dia adquire um significado especial para os Gregos. Neste dia se celebra uma cerimônia de bênção das águas e dos barcos que as singram. Todas as cidades costeiras ou banhadas por rio, organizam suas próprias cerimônias. A de Atenas se realiza no porto de Piréus, onde um sacerdote lança um grande crucifixo às águas do porto. Jovens valentes, que não temem o frio, competem entre si para recuperá-lo. Uma vez finalizada a cerimônia da cruz, os pescadores locais aproximam seus barcos do molhe, para serem benzidos pelo sacerdote.
Que é que tudo isso tem a ver com o Natal? Segundo as crenças ortodoxas, 6 de janeiro é o dia do batismo de Jesus. Daí a associação dessa data com a água.
Definitivamente esta é uma festa religiosa totalmente grega, celebrada para e por gregos ortodoxos, não para turistas. A Epifania também é chamada de festa das Luzes (gr. Fóta).

Inicialmente sugiro clicar no link abaixo para entrar no clima da festa da Teofania, conforme uma canção bizantina homenageando o batismo do Senhor, cantada por monges ortodoxos.

Link: https://youtu.be/cxXxtzF_KaE

A Canção ² das Luzes (bizantina)

Do deserto o Precursor veio para batizar o Senhor.
Erourém, erourém, érou, rérou, rerourém, salve Precursor!

O Precursor batizou no Jordão o Rei de todos.
Erourém, erourém, érou, rérou, rerourém, salve Precursor!

Terráqueos, saltai, desfrutai; classes dos anjos, diverti-vos!
Erourém, erourém, érou, rérou, rerourém, salve Precursor!

Recebe, Jordão, o teu Criador antes de conteres as águas!
Erourém, erourém, érou, rérou, rerourém, salve Precursor!

No Jordão é batizado por João o Senhor.
Erourém, erourém, érou, rérou, rerourém, salve Precursor!

Texto grego:

Bυζαντινά κάλαντα Φώτων

Από της ερήμου ο Πρόδρομος ήλθε του βαπτίσαι τον Κύριον.
Ερουρέμ, ερουρέμ, έρου,ρέρου, ρερουρέμ, χαίρε Πρόδρομε.


Βασιλέα πάντων εβάπτισε εις τον Ιορδάνην ο Πρόδρομος.
Ερουρέμ, ερουρέμ, έρου,ρέρου, ρερουρέμ, χαίρε Πρόδρομε.


Γηγενείς σκιρτάτε και χαίρεσθε, τάξεις των Αγγέλων ευφράινεσθε.
Ερουρέμ, ερουρέμ, έρου,ρέρου, ρερουρέμ, χαίρε Πρόδρομε.


Δέξου Ιορδάνη τον Κτίστην σου πριν αναχαιτίσεις τα ύδατα.
Ερουρέμ, ερουρέμ, έρου,ρέρου, ρερουρέμ, χαίρε Πρόδρομε.


Εις τον Ιορδάνην βαπτίζεται υπό Ιωάννου ο Κύριος.
Ερουρέμ, ερουρέμ, έρου,ρέρου, ρερουρέμ, χαίρε Πρόδρομε.

 
No Brasil,  em 6 de janeiro celebra-se o Dia dos Reis (Magos), diferentemente da Grécia. O povo brasileiro considera a Festa de Reis como o encerramento do ciclo natalino. É o dia de desmontar a árvore de Natal, o presépio e outras manifestações da religiosidade popular. Neste dia, as Folias de Reis, como as crianças na Grécia, levam suas preces cantadas às casas dos "foliões", porém sua função primária é precatória, ou seja, angariar fundos para a festa dos Santos Reis, em 6 de janeiro. Normalmente, essas folias fazem a sua aparição durante o período natalino.

Para exemplificar o costume grego de festejar a Epifania, o professor Orfanídis ainda juntou à mensagem um vídeo com o Canto das Luzes, canção folclórica entoada por crianças (geralmente meninos) e muito difundida por toda a Grécia. Para apreciação dos meus leitores, apresento a tradução portuguesa do texto grego dessa canção folclórica grega, conforme consta do vídeo in
http://youtu.be/9V1JG65GPbU:



Crianças gregas cantam na festa das Luzes ou Epifania (6 de janeiro), encerrando assim o tempo do Natal. Ouça também o canto das Luzes in



A canção das Luzes (do folclore grego)

Hoje as luzes e a iluminação, 
a grande alegria e a santificação 
Lá embaixo no rio Jordão 
está sentada a nossa Virgem Maria.

Ela segura um instrumento musical e uma vela 
e pede São João.

São João, mestre e batista,

Batiza-me também filho de Deus.
Quero subir ao céu
para rosas e incenso colher.

Bom dia, boa noite

Teu bom dia brilha com a Senhora. (refrão)
 


Após esse rico ensinamento do professor Orfanídis, resolvi instruir-me mais nos principais preceitos ortodoxos que estão por detrás dessa Festa das Luzes, quando localizei na Internet o seguinte texto explicativo para a festa da Epifania de 2015 da autoria do Papás Themistoklís Mourtzanós, disponibilizado em
http://themistoklismourtzanos.blogspot.gr/2015/01/blog-post_5.html.


A antiga e nova familiaridade da Epifania

Por Themistoclís Mourtzanós 


Nós em nossa vida temos necessidade de darmos o nosso coração a alguém ou àqueles que confiamos e amamos.  Esses são os que têm demonstrado o seu interesse por nós, têm compartilhado conosco não apenas os nossos sentimentos, mas também as alegrias e as tristezas, são aqueles que sentimos serem os nossos familiares, nossos parentes. Basicamente, porém, sentimos como nossos aqueles com os quais temos parentesco natural. Para com nossos pais e nossos filhos, sentimos eterna familiaridade, confiança, amor. Com todos os que nos conectaremos em nossa vida, dificilmente a familiaridade para com esses pode ser comparada com a familiaridade para com os nossos parentes naturais. Somente o amor pode criar novos vínculos, sem abolir, contudo, essencialmente os mais antigos.

O desejo e a vivência da familiaridade existem porque a gente foi criado à imagem e semelhança de Deus. A relação de amor que existe entre as Pessoas da Santa Trindade, a qual é descrita com a frase "Deus é amor" (I Jo. 4, 8), isto é, doa-se a nós. Certamente o amor das Pessoas da Santa Trindade é integral, inesgotável, perfeito e não brota da necessidade. É de fato entrelaçado com a liberdade, a qual nos foi doada pelo Deus Trino, igualmente dádiva preciosa. De nossa natureza, da nossa procedência divina, nós recebemos e fomos chamados para conduzir-nos em nossa vida vivendo este mistério do amor e da liberdade. Sejamos filhos de Deus e, simultaneamente, voltemo-nos para os outros a fim de experenciarmos a filialidade e a fraternidade como presentes abençoados do amor de Deus. Por isso, também o evangelista João nos ensina: "Vede  que grande amor nos tem concedido o Pai: que fôssemos chamados filhos de Deus; e nós o somos. Por isso o mundo não nos conhece; porque não conheceu a Ele. Amados, agora somos filhos de Deus, e ainda não é manifesto o que havemos de ser. Mas sabemos que, quando Ele se manifestar, seremos semelhantes a Ele; porque assim como é, O veremos. E todo o que n'Ele tem esta esperança, purifica-se a si mesmo, assim como Ele é puro." (I Jo. 3, 1-3). Vede com quanto amor nos amou o Pai! O Seu amor é tão grande, a ponto de sermos chamados filhos de Deus. Por isso, o mundo não nos compreende, porque não conhece Deus Pai. Agora somos filhos de Deus. O que estamos para nos tornar no futuro não foi ainda manifesto. Sabemos, porém, que, quando Cristo manifestar-se na Sua Segunda Parusia, tornar-nos-emos iguais a Ele, porque O veremos como realmente é. Quem, então, tiver essa esperança com confiança em Cristo, prepara-se. Purifica-se do pecado, tendo como modelo a pureza d'Ele.

A plenitude da glória divina vivenciaremos quando da Segunda Parusia de Nosso Senhor. Mas, em festividades como a Epifania, vemos, segundo o modo limitado dos nossos sentimentos, tanto somáticos quanto psíquicos, a forma dessa glória. Conscientizamo-nos de que Deus é trino. Cristo se deixa batizar no Jordão, tendo recebido a natureza humana. A despeito de ser Deus-homem, não recusa nada das coisas humanas, com exceção do pecado. O Espírito Santo, em forma de pomba, vem para Ele. E se ouve a voz de Deus Pai a dizer tanto ao Precursor, quanto aos presentes, mas também para toda a humanidade: "Este é o meu Filho amado, no qual pus toda a minha complacência." (Mt. 3, 17) Este é o meu Filho amado. Ele é o meu eleito, Ele me dá satisfação.

Com essa manifestação se revela o Mistério do Amor e da Liberdade do Deus trino. A liberdade se revela na existência das três Pessoas com atributos comuns e diversos, os quais se unem e ocorrem conjuntamente. O Pai tem Filho. Há entre eles a relação da Paternidade e da Filialidade. O Espírito Santo é outra pessoa em relação com o Pai e o Filho. Renova e ilumina a criação, satisfazendo a Vontade do Pai e mostrando o Filho à gente. O Filho se torna homem, a fim de dar-nos o amor de Deus na sua plenitude, que é o resgate da existência humana da corrupção e da morte. E as três Pessoas se revelam ao mundo, mostrando a unidade, que brota da liberdade e do amor entre Elas. E simultaneamente, na nova humanidade, no novo universo participa toda a criação. Por isso também, o Filho entra no rio Jordão. Toca-o o último e principal dos profetas, um homem, João, o Precursor, em cuja pessoa se manifesta a bênção que recebe toda a humanidade, a fim de poder tocar o Deus Salvador.  Para santificar-se por meio da comunhão com Ele, porque nós, no mistério da Eucaristia, não tocamos simplesmente Cristo, mas tornamo-nos familiares d'Ele, uma vez que Ele habita dentro da nossa existência. E simultaneamente, queremos receber o amor d'Ele como doação máxima. E as águas, o céu, tudo ilumina tomando parte na alegria da nova alvorada.

Não há mais segredos entre Deus e a gente. Para Deus somos todos Seus filhos. E simultaneamente somos convidados a correspondermo-nos a esse movimento da familiaridade que Deus nos oferece. Vencendo a corrupção e a morte. Como se refere usualmente São João Crisóstomo, o rio Jordão brota de duas fontes, a Iór e a Dan, donde o nome "Jordan" e desemboca no Mar Negro. Esse rio é um tipo do gênero humano mortal, o qual, como o Jordão, possui duas fontes de que procede: Adão e Eva, que com a escolha deles de usar a sua liberdade, recusando o amor a Deus e seguindo o caminho da autodeificação, acabaram na morte, no abismo do Hades, na mortalidade. Cristo entra nesse Jordão a fim de inverter a rota para a necrose, a rota para o Mar Negro. Por isso também o Jordão "fluiu para trás". Assim também  o gênero humano, se for batizado na água no Espírito Santo e for introduzido na Igreja, retornando livremente ao amor e à comunhão com Deus, inverte a rota para a morte. Dirige-se à ressurreição e à nova vida que Cristo dá.

Se acreditarmos no Deus Trino, inicia-se para nós uma familiaridade, antiga e nova. A antiga tem a ver com a aceitação, no nosso interior, de que somos filhos de Deus, como fomos criados desde o começo. A nova tem a ver com a vitória contra a morte, na qual tudo toma parte, na Luz da Igreja no tempo presente e na Luz da comunhão eterna com a Pessoa do Cristo, O Qual veremos como precisamente é na Segunda Parusia. A antiga familiaridade tem a ver com o amor para com aqueles aos quais nos ligamos pela natureza ou porque escolhemos amá-los. A nova familiaridade tem a ver com a abertura do nosso coração e da nossa vida para com todas as pessoas, inimigas e amigas. É isso que o mundo nunca pôde e talvez não poderá nunca entender, porque permanece na situação do antigo Jordão. Caminha sem Deus na sua vida.  É possível que nós também não queiramos confiar, familiarizar-nos, amar todas as pessoas,  permanecendo prisioneiros do antigo homem. Mas toda a vida da Igreja, que parte do santo batismo e termina na participação no mistério da Divina Eucaristia, é um escopo contínuo de vivermos o mistério do amor e da liberdade, que nos foi doado.

Esses sejam a nossa bênção e o nosso objetivo na grande festa da Epifania do Senhor.

Korfú, 6 de janeiro de 2015



 NOTA EXPLICATIVA



¹  Para os cristãos ortodoxos, o sacramento do batismo também é conhecido por sacramento da iluminação. Segundo a crença ortodoxa, a criança batizada passa das trevas do pecado para a luz da graça. Por isso, faz-se uso de um simbolismo: o sacerdote manda acender as velas que os presentes ao batismo da criança seguram na mão e proclama: "Bendito seja Deus que ilumina e santifica todo homem que vem a este mundo." Cf. https://ortodoxogrego.wordpress.com/tag/batizado/



²  Esta canção natalina ( gr. κάλαντα ) é classificada como tradicional (tanto na letra quanto na música) e pan-helênica quanto ao período. Não nos esqueçamos de que a festa da Teofania encerra as as festividades natalinas na Grécia, tanto que a referida palavra grega ― κάλαντα ― é traduzida para outras línguas com a seguinte acepção: ingl. Christmas carol, fr. chant de Noël, esp. canción de Navidad, it. canto di Natale, etc. A letra do vídeo no YouTube difere um pouco da versão mais tradicional apresentada acima em português e que, em grego, assim se apresenta:


Τα κάλαντα των Φώτων
 
Σήμερα τα φώτα κι ο φωτισμός
η χαρά μεγάλη κι ο αγιασμός
Κάτω στον Ιορδάνη τον ποταμό
κάθετ' η κυρά μας, η Παναγιά.

'Οργανo βαστάει, κερί κρατεί
και τον Αϊ-Γιάννη παρακαλεί.
'Αϊ-Γιάννη αφέντη και βαπτιστή
βάπτισε κι εμένα Θεού παιδί,
Ν' ανεβώ στον ουρανό
να μαζέψω ρόδα και λίβανο.


Καλην μέρα, κάλην σπερά
Κάλη σου μέρα φεγγεί με την κυρά.  (bis)

sexta-feira, 2 de janeiro de 2015

DISCURSO "SOBRE A REALEZA" DE SINÉSIO DE CIRENE AO IMPERADOR ARCÁDIO


Por Francisco José dos Santos Braga


I.  INTRODUÇÃO


No último domingo do ano de 2014, em visita à Feira do Bixiga, em São Paulo, deparei-me com certos livros do acervo que pertenceu ao saudoso Prof. Linneu de Camargo Schützer e que o vendedor adquiriu de parentes do professor em Juquitiba. Entre esses célebres pertences do extinto professor, encontrei basicamente obras da literatura francesa que me cativaram a atenção: 4 edições da Revue des Deux Mondes (20º, 29º, 31º e 33º tomos, datados de 1877 a 1879), o primeiro volume da obra completa de Aristóteles publicada em Paris pelos Editores Firmin-Didot datado de 1927, o tomo III da obra de Eurípedes publicada pela editora Les Belles Lettres datado de 1950, e, finalmente, o tomo I de um curioso estudo de documentos medievais intitulado "A Europa na Idade Média: período de 395 a 888", publicado pela Livraria Armand Colin em 1969.

O que se lerá neste artigo é minha tradução portuguesa para trecho do primeiro documento histórico do referido livro (versão francesa do original grego, ambos disponibilizados), que trata da criação dos reinos bárbaros.

Pela atualidade do tema das imigrações intensas para dentro do continente europeu e do temor da desnacionalização de muitos Estados europeus, acredito que seja bom rever a intensidade desse problema já visto no passado e como ele foi levado em devida conta na ocasião. Os especialistas citam um vasto leque de problemas que ultrapassa a questão do "medo do outro/diferente". Os temores mais conscientes, constantes das declarações dos principais movimentos contra os imigrantes, incluem: o medo da desnacionalização, do abaixamento do nível de vida, das máfias, dos muçulmanos e da imigração ilegal ou clandestina, gerando nos habitantes nacionais uma nem sempre patente xenofobia. Pelo lado dos imigrantes estrangeiros são citados a perda de sua identidade e os sentimentos de separatismo, alheamento da terra natal e deslocamento no país de acolhimento. Assim, observa-se um conflito entre duas dimensões da imigração: por um lado, nos países que acolhem os imigrantes, há a necessidade do Estado de controlar o fluxo migratório, a fim de impedir o aumento das taxas de desemprego e da tensão social gerada por questões de identidade nacional, xenofobia, etc.; por outro lado, existem as necessidades dos imigrantes que se acham no direito de utilizar-se da mobilidade para buscar melhor qualidade de vida. Há casos gritantes como o dos argelinos na França (considerada hoje uma sociedade multiétnica), o dos muçulmanos na Alemanha e, mais recentemente, dos africanos nos países mediterrâneos, etc. Essa situação tem provocado inúmeros debates envolvendo soberania do Estado, Nação e nacionalidade, identidade nacional, territorialidade, globalização e outros.

Diante da realidade de ações terroristas contra o território de muitos países, considera-se que o ataque às Torres Gêmeas em 11 de setembro de 2001 tenha inaugurado uma nova era desse fenômeno. Na década que se seguiu a esse pavoroso atentado, assistiu-se a uma proliferação de casos no Afeganistão e no Iraque e a outros focos de atividades dessa natureza, como a insurgência chechena na Rússia, os movimentos separatistas na China, o bombardeamento de Bali, o bombardeamento dos trens de Madri, o ataque ao Superferry 14, os ataques aos trens do metrô de Londres, o bombardeamento da cidade de Sadr em Bagdá, o ataque à estrada de ferro suburbana de Mumbai, etc., apenas nos primeiros quinze anos do Terceiro Milênio. Evidentemente, diante das ameaças de atos terroristas, os Estados que acolhem imigrantes tendem a rechaçar cada vez mais os fluxos migratórios para dentro de seu território para preservarem a sua soberania e a sua população.

Embora não seja objeto desse estudo o problema da construção da nacionalidade na Antiguidade, não se pode deixar de constatar como foi relevante para o Império Romano do Oriente a apropriação do nacionalismo no início do século V.

Foi na condição de filósofo que Sinésio compôs e dirigiu ao imperador Arcádio um discurso intitulado Perí Vasileías (lat. De Regno, ingl. On Kingship, fr. Sur la Royauté), aqui traduzido por "Sobre a Realeza", tratando das virtudes e deveres do rei ideal. Nele é manifesta a frustração de Sinésio com a política da corte de Arcádio. A parte mais marcantemente concreta do discurso é aquela que critica a dependência dos Citas praticada pelo Estado romano. Inúmeras passagens deixam claro que Sinésio estava advertindo o imperador contra um desastre que ainda estava para acontecer, à época de sua escrita.

[BARNS, 1986] resume da seguinte forma todo o discurso de Sinésio: 
"(...) Tomando essas coisas como pano de fundo, a combinação de filosofia e xenofobia em 'Sobre a Realeza' fica mais compreensível. Sinésio se apresenta como embaixador de Cirene, uma antiga e famosa cidade que passa tempos difíceis e precisa da ajuda imperial. Ele coroará a cabeça do imperador com ouro e sua alma com filosofia (2C-2D): como filósofo, Sinésio tem o dever de proclamar a verdade, não obstante impalatável possa parecer à sua audiência (2A-2B, 3A-3D).
A tese central de 'Sobre a Realeza' é que Arcádio necessita da filosofia para tornar-se um bom imperador e salvar o Império Romano − especialmente as cidades dos perigos que o cerca. Sinésio demora diante do jovem (Arcádio) a quem ele pretende dirigir não só os ideais tradicionais de conduta imperial, mas também os exemplos específicos do seu pai Teodósio (4D-5B, 25C) e três imperadores pagãos do último terceiro século (17D-20A). Insistentemente adverte Arcádio para não confiar nos seus atuais ministros e áulicos, que o bajulam excessivamente (3D-4C, 12A-12B, 14B-15D). E ele lhe pede para mudar seu comportamento, do de um tirano para o digno de um bom rei (5D-6D). Arcádio deveria sair do seu atual torpor (5C), comandar seu exército pessoalmente (12B-14B) e emular os generais e imperadores que trouxeram sucesso ao Estado romano (15D-21C). Sobretudo, deveria considerar cuidadosamente que raça de soldados necessita (21D). Bárbaros são desleais por natureza; por isso, Arcádio deve parar de confiar nos Citas e inscrever um exército de camponeses confiáveis (22B-22C). O elemento bárbaro deve ser expulso de todas as posições de poder, e a remoção deve envolver não só o alto comando mas também o Senado, uma vez que os bárbaros se infiltraram mesmo naquela augusta assembleia (23B-23C); a alternativa será a escravização por eles (26B).
"O imperador precisa purificar sua corte" (24D). Uma vez que isso estiver feito, o Império Romano poderá recuperar grandeza e prosperidade, e os assuntos do imperador poderão ser bem governados de novo, livres da opressão e da excessiva taxação − desde que os homens sejam escolhidos para governar "por suas virtudes, não por causa de sua riqueza, como agora" (26D-31C, especialmente 30B). Tais são os potenciais benefícios da filosofia e da verdadeira educação (31C). Este "manifesto anti-germânico do partido de Aureliano" anseia por uma época em que os amigos de Sinésio vão deslocar seus inimigos como os ministros do imperador e levarão em conta os interesses das cidades do império. De fato, o autor de 'Sobre a Realeza' não precisou esperar muito tempo para que seu patrono assumisse o poder. (...)" 

II.  MINHA TRADUÇÃO DO TEXTO EM VERSÃO FRANCESA



Documento I − O Império romano nas mãos dos Visigodos

Discurso de Sinésio de Cirene sobre a Realeza
Sinésio (373-414), o "bispo filósofo". Na foto aparece como discípulo da filósofa neoplatônica Hipátia, em Alexandria.


Explicação da equipe chefiada por Ch.-M. de LA RONCIÈRE:  
"Entre a primavera e o verão de 399 ¹, Sinésio de Cirene pronuncia um discurso oficial diante do imperador Arcádio em Constantinopla. Ele lhe mostra que os Visigodos ² desde a sua entrada no Império, depois de sua vitória de Adrianópolis ³ em 378 são os governantes: formam oficialmente o exército imperial, ocupam as mais elevadas magistraturas e constituem ao mesmo tempo a mão de obra escrava de particulares. É preciso então formar um exército nacional romano para expulsá-los antes que se apoderem do Império.
Este sentimento anti-germânico ⁴ resultou em 400 numa revolta popular . Os Visigodos foram expulsos da cidade." 
Busto do Imperador Arcádio (375-408) no Museu de Arqueologia de Istambul

Tradução de trecho do discurso "Sobre a Realeza"

(...) O legislador (do Império Romano do Oriente) evitará dar armas aos que não nasceram nem foram educados sob suas leis. Da parte desses (Citas), não há nenhum penhor de lealdade. Apenas um espírito temerário ou um sonhador pode ver uma juventude numerosa, educada diferentemente da nossa e regida por seus próprios costumes, sem ser tomado de temor. (...) Pois eles vão atacar-nos tão logo pensem que a tentativa será bem sucedida. Para dizer a verdade, as primeiras hostilidades já começaram. Uma certa efervescência se manifesta aqui e acolá no Império. Dir-se-ia tratar-se de um organismo (social) reunindo elementos estrangeiros rebeldes a esta assimilação que assegure o equilíbrio físico. Que seja necessário excluir esses elementos estrangeiros, tanto dos organismos quanto das cidades, médicos e governantes concordariam. Ao contrário, se recusar a lhes opor uma força capaz de vencê-los, e, na medida que disponhamos dessa força, concordar com a dispensa do serviço militar a todos os que a peçam, não é esta a conduta de um povo que aspira à sua ruína?

Ao invés de permitir aos Citas portar armas em nosso meio, seria necessário ir buscar nos nossos campos seus defensores naturais e transformá-los em soldados. Em seguida, iremos buscar o filósofo no seu gabinete e o artista no seu atelier. Os comerciantes no seu estabelecimento, a multidão dos ociosos e dos desocupados que passam sua vida nos teatros serão igualmente convocados a assumir suas responsabilidades, se não quiserem passar logo dos risos aos gemidos. Nenhum falso pretexto, nenhum escrúpulo poderá opor-se à constituição dum exército romano verdadeiramente nacional. (...)

XX. É preciso então, primeiro, expulsá-los das magistraturas e fechar-lhes o acesso à dignidade senatorial. Tanto é assim que eles não têm senão desprezo por esse título venerável que foi e que continua sendo em Roma o mais prestigioso. Atualmente, não há dúvida, a deusa que preside aos conselhos, a própria Têmis , bem como o deus dos exércitos devem cobrir a face: o soldado comanda os guerreiros com o manto, pois, após haver baixado a pele que cobria seus ombros, se veste com a toga, e com os magistrados romanos delibera sobre os problemas do dia. Ele está no lugar de honra ao lado do cônsul e sobrepõe-se aos dignitários oficiais. Ainda esses miseráveis, mal passaram a porta do conselho, ei-los mais uma vez nas suas peles e que, no meio de seus congêneres, transformam em zombaria esta toga que não permite, dizem eles, desembainhar facilmente (a espada).

Verdadeiramente, entre outros assuntos espantosos, nossa inconsequência não é a mínima. Não existe nenhuma família, mesmo de uma riqueza modesta, que não possua um escravo cita. Mordomos, confeiteiros, copeiros, tantos empregos reservados aos Citas. Quanto a esses escravos que transportam pelas ruas sobre os ombros essas liteiras longas, alugáveis, nas quais seus senhores sentam, não são outros senão Citas, raça desde sempre qualificada, honestamente falando, para ser submissa aos Romanos. Mas, que esses homens louros, cabeludos como Eubeus, sejam, no mesmo povo, os escravos de particulares e os governantes, eis o mais absurdo, o mais extravagante dos espetáculos. Se aí não há um enigma, eu não sei como classificá-lo.

Fonte do texto grego: Synesii Cyrenensis Opuscula, coll. "Scriptores graeci et latini", Consilio Academiae Lynceorum editi, Roma, editado por N. Terzaghi, 1944, pp. 43 e ss.


III.  NOTAS EXPLICATIVAS


¹  Cameron & Long consideram que a data mais provável para Sinésio ter proferido o seu discurso foi durante o primeiro meado de 398, citando fatos previstos no discurso e que aconteceram logo em seguida.

²  Ao longo deste discurso, a palavra "Citas" refere-se aos Germanos Tervingianos (que mais tarde seriam conhecidos como Visigodos). A longa seção (22A-26C) critica a dependência que o Estado romano tinha dos Citas. Esses tinham sido identificados como liderados por Tribigild na rebelião na Frígia de 399-400, quando os escravos se juntaram aos rebeldes contra os Romanos. Muitos acreditam que toda a passagem foi dirigida contra Gaïnas, a quem se atribui deslealdade.

A Wikipedia relata, na biografia deste último, que ele era natural do norte do Danúbio e foi um general godo ambicioso a serviço do Império Romano do Oriente sob os impérios de Teodósio I e Arcádio. Tendo começado sua carreira como soldado de infantaria, esteve entre os comandantes das tropas bárbaras que travaram batalha contra o usurpador Eugênio em 394. No ano seguinte, combinou forças com Estilicão e Eutrópio para derrubar Rufino, conseguindo como recompensa sua nomeação como comes rei militaris. Em 399, após sua nomeação como mestre dos soldados da Trácia (magister militum per Thracias), ficou encarregado de proteger a Trácia e o Helesponto e marchar, juntamente com o comandante Leão, contra o comandante godo Tribigild que havia se rebelado na Ásia Menor. Tendo claramente se envolvido com Tribigild, Gaïnas arquitetou um encontro do imperador Arcádio com o rebelde na Calcedônia, onde conseguiu ser nomeado mestre dos dois exércitos. Nesta posição provocou o exílio de vários oficiais do partido pró-romano (Aureliano, Saturnino e João), porém foi impedido por João Crisóstomo de concretizar a execução deles. Em seguida, Gaïnas tentou tomar o controle de Constantinopla para si, porém suas tropas foram massacradas pelas multidões da cidade em 12 de julho de 400. Temeroso por sua vida, reuniu o restante de suas tropas e tentou fugir em direção à Ásia, mas foi impedido por Fravita, outro godo a serviço imperial. Assim, marchou em direção ao Danúbio na tentativa de fugir, porém foi preso e morto pelos hunos de Uldes e sua cabeça foi enviada a Arcádio como um tributo diplomático. Um ano após sua morte, o imperador Arcádio comemorou a derrota do general godo fazendo erigir uma coluna triunfal em Constantinopla, a "Coluna de Arcádio". Essa media 50 metros e era adornada com frisos espirais com baixos-relevos mostrando os triunfos imperiais sobre os bárbaros, tendo sua decoração sido inspirada nas colunas de Trajano e de Marco Aurélio.

³  Essa batalha (ocorrida em 9 de agosto de 378 em Adrianópolis, atualmente Edirne na Turquia) foi uma das mais importantes na história romana, cujo resultado foi uma vitória decisiva para os Godos. Uma importante fraqueza na posição romana, após essa derrota, foi a política diplomática com os Godos, isto é, o recrutamento de bárbaros para combaterem outros bárbaros recentemente estabelecidos no Império. Isso causou muitas dificuldades na guerra contra os bárbaros, pois os novos soldados recrutados tinham pouca ou nenhuma lealdade a Teodósio. Após a derrota romana na Guerra Gótica, os Godos conservaram para si a província romana de Ilíria, que acabou sendo dividida em Panônia, no norte, e Dalmácia, no sul. Teodósio teve que fazer concessão aos Godos, reservando-lhes, dentro dos limites do Império, o sul do Danúbio para seu estabelecimento. Embora o embate tenha ocorrido no Império Romano do Oriente, curiosamente, este sobreviveu à sua contraparte ocidental até 1453. Contudo, essa derrota romana em Adrianópolis prenunciou o colapso final do Império Romano do Ocidente, tendo os bárbaros acumulado tanto poder a ponto de saquearem Roma em 410.

Sobre Teodósio I, que governou de 379 a 395, é importante observar que foi o último imperador a reinar sobre todo o Império. Após sua morte em 395, seus dois filhos Arcádio e Honório herdaram as duas metades: Arcádio ficou com a parte Oriental, com a capital em Constantinopla, e Honório tronou-se governante da seção ocidental, com a capital em Mediolano (atual Milão), e mais tarde em Ravena.

  O trecho escolhido do discurso reflete a censura do orador pelo fato de as defesas das fronteiras terem sido confiadas a Germanos (ou Visigodos), que Sinésio considerava bárbaros. Bury entende que o célebre discurso incorporou o que ele chama de "manifesto anti-germânico do partido de Aureliano".

Cameron & Long sugerem que "o ano de 399, ao qual o discurso até aqui tem sido geralmente atribuído, viu a revolta de Tribigild e a queda de Eutrópio." Chegam a propor uma de duas conclusões, a saber: "Ou Sinésio efetivamente estava escrevendo antes que ocorresse qualquer embate bárbaro sério ou ele estava escrevendo depois e fingindo tê-lo previsto. Isso tornaria todo o discurso uma ficção dramática e a seção anti-germânica uma profecia post eventum."

  Sinésio defendeu, no seu discurso "Sobre a Realeza", que os estrangeiros fossem expulsos dos exércitos romanos. Essa defesa foi certamente relevante, pois, em 400, o líder germânico Gaïnas, que tinha obtido poder em Constantinopla, foi expulso por uma revolta popular. Devido a esse resultado, existe a possibilidade de o filósofo Sinésio ter sido usado para impressionar o imperador por cortesãos como Aureliano, o prefeito pretoriano e líder do partido nacionalista, cujo objetivo confesso se acredita ter sido libertar do poder dos bárbaros o Império Romano do Oriente.

  Têmis ou Thémis era a deusa grega guardiã dos juramentos e da lei, sendo prática comum invocá-la nos julgamentos perante os magistrados. Filha de Urano e Gaia, em seu currículo exibe o título de ter sido uma das esposas de Zeus. Consta que, além de esposa, servia de mentora do todo-poderoso senhor do Olimpo, contribuindo para tornar as suas decisões menos severas.


IV.  BIBLIOGRAFIA


BARNS, Timothy David: Synesius in Constantinople 1986. Cf. in http://grbs.library.duke.edu/article/view/5111

CAMERON, Alan & LONG, Jacqueline: Barbarians and Politics at the Court of Arcadius, Berkeley: University of California Press, 1993. (Cf. in http://ark.cdlib.org/ark:/13030/ft729007zj/)

LACOMBRADE, Christian: Le Discours sur la Rayauté de Synésios de Cyrène à l'empereur Arcadios, Paris: Les Belles Lettres, 1951, 160 p.

PETAVIUS, Dionysius: Synesii episcopi Cyrenensis opera quae extant omnia, graece et latine, interprete Dionysio Petavio, et cum ejus notis, Paris, 1612 (nova edição: 1633).

RONCIÈRE, DELORT & ROUCHE: L' Europe au Moyen Âge: documents expliqués, Paris: Librairie Armand Colin, 1969, 325 p.

TERZAGHI, Nicolaus: Synesii Cyrenensis Hymni et Opuscula, Roma: 1939.