quinta-feira, 19 de abril de 2018

APONTAMENTOS SOBRE A POÉTICA DE EUCLIDES DA CUNHA


Por Francisco José dos Santos Braga

Euclides da Cunha em seu escritório


É de lamentar que um autor canônico como Euclides (20/01/1866-15/8/1909), talvez o mais canônico da literatura brasileira, depois de um século de sua morte, tenha a sua obra poética editada apenas em 2009 (BERNUCCI, Leopoldo M. & HARDMAN, Francisco Foot (org.): Euclides da Cunha: poesia reunida, Editora UNESP, 2009, 496 p.). 

Depois de uma década de pesquisas, realizadas, especialmente, nos papéis da Biblioteca Nacional, da Academia Brasileira de Letras e do Grêmio Euclides da Cunha, os dois organizadores do livro são responsáveis pelo estabelecimento de textos, introduções, notas e índices do referido livro. Do levantamento realizado nos vários acervos consultados puderam apurar um total de 133 poemas, que podem ser desmembrados da seguinte maneira: 78 pertencentes ao caderno manuscrito “Ondas”; 20 poemas dispersos e 12 postais, além de 15 variantes principais e 8 secundárias.

O caderno de poesias “Ondas” é a prova de que os primeiros textos de autoria comprovada de Euclides são poemas, e na sua forma atual contém 78 poemas, mais 12 notas. No caderno, também é possível encontrar uma série de cálculos e exercícios matemáticos que o futuro engenheiro praticava. Além do caderno de poesias produzidas por Euclides no fim da adolescência e durante 100 anos praticamente desconhecidas do público leitor, há ainda poemas que seu autor publicou em jornais e revistas, e os que também foram deixados em manuscritos guardados em diversos arquivos do País, inclusive em uma coleção particular.

De forma dispersa, foram encontrados mais 55 poemas, dos quais 15 têm formas variantes principais e 8 secundárias. Tais variantes mostram a persistência de Euclides em lapidar sua literatura e provam que sua poesia não era apenas de inspiração; antes, evidencia que ele era um poeta romântico que também lapidava suas obras. É fato conhecido que ele era obsessivo com “Os Sertões”, corrigindo as três primeiras edições e fazendo correções substanciais. Por meio das correções e variantes, é possível também acompanhar o processo de escritura dos poemas, a forma como decidia mudar as frases e o próprio vocabulário. 

Após a conferência pronunciada no Itamarati em 19/08/1938 por Firmo Dutra, intitulada Euclydes da Cunha - Geógrafo e explorador, foi dada a palavra ao Ministro Osvaldo Aranha que iria presidir aos debates. Vou extrair apenas um pequeno trecho da longa exposição deste último:
"(...) Publicados Os Sertões, Euclides da Cunha, que se encontra em Lorena, vem ao Rio, a convite dos editores ver o livro. Abre um volume. Nota vírgulas, crases, pontos e vírgulas intruzos. Impacienta-se. Suspende o lançamento da obra e vai para as oficinas, na rua do Lavradio, armado de canivete e borracha. Passa noite e dia raspando oitenta êrros em cada exemplar, numa edição de dois mil volumes! Não se detém aí. Tempos depois, em carta a Francisco Escobar, seu amigo, diz: "Chamaste-me a atenção para vários descuidos dos meus "Sertões"; fui lê-lo com mais cuidado e fiquei apavorado! Já não tenho coragem de o abrir mais. Em cada página o meu olhar fisga um êrro, um acento importuno, uma vírgula vagabunda, um (;) impertinente — Um horror! Quem sabe se isto não irá destruir todo o valor daquele pobre e estremecido livro? Manda-me daí algo a respeito. Imagina que lá encontrei à facão, à pranchadas, braço à braço, tempos à tempos, etc. etc. — Não te posso dizer como fiquei. Por fim, abrindo, ao acaso, depois do jantar uma página, — encontrei isto: Não iludia à história..." Não te descrevo o que houve! Quer isto dizer que estou à mercê de quanto meninote erudito brune as esquinas; e passível de férula brutal dos terríveis gramatiqueiros que passam por aí os dias a remascar preposições e a disciplinar pronomes!"
Muitos anos depois escreve, de novo, ao amigo, referindo-se aos Sertões: "Hei de emendar isso tôda a minha vida"! Cada vez que relê o livro, encontra o que emendar. Emendas de estilo, certo, que não alteraram nunca o sentido das páginas. Preocupações de forma. No volume, que deixou para a edição definitiva, há duas mil e tantas emendas de estilo. Quando José Veríssimo lhe critica o emprêgo de têrmos técnicos, defende-se com veemência, dizendo que os vocábulos fornecidos pelas ciências eram os aristocratas da linguagem. Os elogios, que mais o comovem, são de natureza artística e literária. É com certa candura, por exemplo, que lê o artigo de Araripe Júnior sôbre Os Sertões. Em resposta aceita o título de escritor, não disfarçando o orgulho de recruta transmudado repentinamente em triunfar. Palavras suas. A frase do discurso de posse na Academia Brasileira escritor por acidente — não passou de repto imposto pela modéstia que sempre macula os discursos do gênero. Firmo Dutra entende que Euclides da Cunha foi, sobretudo, engenheiro. Ora, a engenharia, sim constituiu-lhe acidente na vida. Pelo menos sempre a considerou assim. Tinha-lhe quase horror. Praticava-a como quem se vê condenado aos trabalhos rudes de estiva. É na sua correspondência que recolhemos provas constantes dos enfados que a profissão lhe decreta. (...)"  
Emendas feitas por Euclydes da Cunha, conforme photogravuras das pp. 140 e 19 do ex. da 3ª edição (1905) de Os Sertões para a Editora Laemmert & Cia (reproduzidas nas pp. VI e VII da 15ª edição corrigida (1940) impressa pela Livraria Francisco Alves).
Não resta dúvida de que a poesia de Euclides está profundamente ligada ao romantismo. Entre os autores brasileiros que cita de forma obsessiva nas epígrafes de suas poesias estão Castro Alves, Fagundes Varella e Gonçalves Dias. O francês Victor Hugo também é uma referência obrigatória para ele (uma filiação que jamais abandonará ao longo da vida).

A rigor, os poemas do caderno “Ondas” foram escritos entre 1883 e 1884, quando Euclides tinha entre 17 e 18 anos, e não 14 anos de idade que ele próprio se dizia ter, evidenciando que os primeiros textos de autoria comprovada de Euclides são poemas. Provavelmente o fato de que não tenham sido publicados pelo autor tenha sido devido a seu severo juízo crítico em relação à própria obra. Vemos que no mesmo caderno há uma anotação em que ele indica ter apenas 14 anos (sic) e diz que esta é uma “observação fundamental para explicar a serie de absurdos que ha nestas paginas”.

Autógrafos de Euclides, tirados diretamente de um caderno de 1883 "Ondas", conforme jornal DOM CASMURRO, edição de maio de 1946, Ano X, nº 439-440, pp. 31-2, na qual se publicou essa seleção de poemas em fac símile
DOM CASMURRO, publicou em maio de 1946, Ano X, nº 439-440, pp. 31-2, em fac simile, essa seleção de poemas

Apesar dessa constatável autocrítica, Euclides nunca deixou de escrever poesia. Os poemas dispersos dele foram produzidos entre 1885, quando tinha 19 anos, até 1906.

Guilherme de Almeida Prado foi o primeiro a dizer que a estrutura de “Os Sertões” era eivada de poesia: o uso da poesia e de formas poéticas percorre toda a produção de Euclides. Recentemente, os irmãos Haroldo e Augusto de Campos empreenderam a transcrição de trechos da obra euclidiana para montar 13 poemas... Os versos estavam lá em “Os Sertões”, cabendo-nos apenas percebê-los e montá-los, como o exemplo, a seguir:

DODECASSÍLABOS

Estala na mudez universal das coisas
estrídulo tropel de cascos sobre pedras
e naquela assonância ilhada no silêncio
o cataclismo irrompe arrebatadamente.

O doer infernal das folhas urticantes
corta a região maninha das caatingas
fazendo vacilar a marcha dos exércitos
sob uma irradiação de golpes e de tiros.

Por fim tudo se esgota e a situação não muda,
lembrando um bracejar imenso, de tortura,
em longo apelo triste, que parece um choro.

Num prodigalizar inútil de bravura
desaparecem sob as formações calcáreas
as linhas essenciais do crime e da loucura.

Em Euclides da Cunha ganha nova biografia, Manya Millen de O Globo entrevista Leopoldo M. Bernucci, professor da Universidade da Califórnia, autor de uma elogiada edição anotada de “Os Sertões” (Ateliê Editorial) e supervisor editorial da nova biografia de Euclides intitulada Euclides da Cunha: uma odisseia nos trópicos, da autoria de Frederic Amory, professor da Universidade de São Francisco (Califórnia) falecido em 2009. Eis um trecho da entrevista de 17/08/2009, em que Bernucci fala da poética euclideana:
(...)
Manya Millen: O impacto de “Os sertões” nos meios literário e acadêmico eclipsou o que Euclides fez antes e depois. Existe uma produção mais “injustiçada”, sobre a qual deveria se falar mais? Ou acredita que o fundamental foi dito?
Bernucci: Penso que sua poesia ficou injustamente relegada durante muitos anos. Ele, que escreveu poemas desde a idade dos 17 anos, sem nunca ter deixado de cultivar esse gênero, foi também muito cauteloso com a divulgação de sua coletânea poética. Muitos de seus poemas nunca foram publicados e não porque a qualidade deixasse muito a desejar. Dos 133 poemas que conhecemos dele até hoje, um grande número ficou desconhecido de seus leitores. Esta lacuna acaba de ser preenchida por nós, eu e um colega, o professor Francisco Foot Hardman da Unicamp, que acabamos de preparar um volume, que está no prelo, de suas poesias intitulado “Euclides da Cunha: Poesia reunida” (Editora da Unesp). Tenho certeza que os leitores da poesia euclidiana se surpreenderão com a diversidade, desenvoltura e qualidade poética dessas peças, muitas delas excelentes e que nos ajudam a entender a trajetória intelectual do escritor. (...)

domingo, 15 de abril de 2018

MEU DISCURSO NA COMEMORAÇÃO DO CENTENÁRIO DO NASCIMENTO DE MEU PAI, ROQUE DA FONSECA BRAGA


Por Francisco José dos Santos Braga

Roque da Fonseca Braga (15/4/1918-26/9/1984)

Em nome da família de Roque da Fonseca Braga, gostaria de dizer que ela se sente muito confortada com a presença de tantos parentes, amigos e colegas de seu pai que aqui comparecem para comemorarmos juntos o primeiro centenário de seu nascimento, sempre gratos à bondade de Deus por ter-nos permitido conviver com um ser humano tão especial e amoroso, durante 66 anos.

Aqui faço um parêntese todo especial para agradecer à Diocese de São João del-Rei, representada aqui pelo Revmo. Pe. Ramiro Gregório, que nos acolhe tão bem em atitude de fé e unção nesta Capela do Divino Espírito Santo.

Convido a todos para fazer o seguinte exercício de imaginação: imaginemos com que alegria a esposa de Roque, Celina, estaria aqui neste dia participando desta comemoração em honra a seu esposo e como sua alma deveria rejubilar-se e aplaudir esse nosso gesto de carinho para com nosso pai, parente, amigo e colega!

O homenageado com esta Santa Missa, Roque da Fonseca Braga, nasceu no dia 15 de abril de 1918, portanto há 100 anos atrás. Veio ao mundo na zona rural do distrito são-joanense de São Sebastião da Vitória, sendo terceiro filho de José da Silva Braga e D. Josefina Fonseca Braga, cujo nome de solteira era Josefina Fonseca de Carvalho, natural de Madre de Deus.

Na solidão da zona rural onde nasceu, na Fazenda da Lagoa Verde, muitas vezes Roque deve ter ouvido o som plangente e longínquo de uma sanfona, razão por que, mais tarde e ao longo de toda a sua vida, foi um amante de acordeon, o instrumento preferido que infelizmente nunca dedilhou, e de música sertaneja, principalmente das duplas “Tião Carreiro & Pardinho”, “Tonico & Tinoco” e “Pedro Bento & Zé da Estrada”. Da primeira dupla lembro sua predileção por “Menino da Porteira” e “O Rio de Piracicaba”; da segunda dupla destaco “Cabocla Tereza”, “Tristeza do Jeca”, “Inhambu xintã e o Xororó”, “Piracicaba que eu adoro tanto” e “Chico Mineiro”; da terceira dupla lembro a sua preferência por “Mágoa de Boiadeiro”. Também apreciava a voz maravilhosa de Orlando Silva, o “cantor das multidões”, Inezita Barroso em “Lampião de Gás” e Teixeirinha em “Coração de Luto”, “Gaúcho de Passo Fundo”, “Passo Fundo do Coração” e outras faixas, possuindo deste último quase toda a sua discografia em discos LP, inclusive com a parceria da acordeonista Mary Terezinha e do Gaúcho da Fronteira.

Quando Roque e outros irmãos chegaram à idade escolar, sua avó paterna e seus pais decidiram mudar-se para São João del-Rei que possuía bons educandários e maiores recursos sanitários. Ingressou no Grupo Maria Teresa aí fazendo seu curso primário e em seguida deu continuidade a seus estudos no Ginásio Santo Antônio, que naquela época consistia de cinco anos letivos. Meu pai Roque sempre comentou que tinha especial predileção pelas matérias exatas, mencionando especialmente a ciência da matemática, a ponto de ser o aluno preferido de frei Norberto, professor que pretendia vê-lo com formação superior de engenharia. No Ginásio Santo Antônio, foi colega de Dr. Milton de Resende Viegas, Júlio Teixeira e Sebastião de Oliveira Cintra.

Mas isso nunca se concretizou, porque, quando tinha 12 anos, seu pai perdeu tudo, fazenda, gado e utensílios, num investimento fracassado no comércio desta cidade, sendo obrigado a cobrir a dívida contraída, com a venda de seus bens. Conseguiu reter apenas uma casa de moradia na rua Santo Antônio com extenso lote que chegava até a rua das Flores. Profundamente chocado com o incidente, Roque teve que procurar emprego para quitar as despesas da família, junto a uma oficina de conserto de sapatos dirigida por certo Sr. Bernardo, que conheci na minha infância, ainda funcionando bem ali no Largo Tamandaré, atualmente Praça Severiano de Resende, onde teve a oportunidade de aprender o ofício de sapateiro. A seguir, foi admitido no Açougue do Bibi Rios, onde atualmente funciona a Padaria Pio XII, onde aprendeu tudo sobre cortes de carne bovina e suína. Apesar de todas as inconveniências, meu pai guardava boas recordações dessa época dura e difícil.

Em resumo: Roque teve que se contentar com seus estudos de 2º grau, porque não quis sacrificar sua família com seus estudos superiores. Contudo, ficou viva no seu coração a grata lembrança de seus mestres de então: freis Zacarias, Pedro, Norberto, Optato, Godoberto, Bertrando, Rufino, Beno, Osmundo, Herardo, Flaviano, Clemenciano, Lourenço...

Após seu curso ginasial, Roque foi convocado para se alistar no Tiro de Guerra de Lavras, que tinha sido criado em 1916.

Em seguida, para complicar as coisas, em 20 de dezembro de 1937, morreu seu irmão José (“Zezé”) com 24 anos, vítima de tuberculose e febre tifóide, e Roque teve que ser seu acompanhante e enfermeiro durante a moléstia galopante do irmão, que só durou três meses. O processo infeccioso de seu irmão o impressionou tanto que, mais tarde, cobria de cuidados seus filhos pequenos, proibindo o consumo de picolés e obrigando-os ao recolhimento noturno às 20 horas por medo da ação maléfica do sereno.

Prestou concurso no Banco de Crédito Real em São João del-Rei, sendo classificado e nele ingressando em 15/12/1941, aos 23 anos de idade. Ao ser classificado, apresentou-se na agência local, quando foi informado que o seu destino era a agência de Uberlândia, de onde retornou em 30/08/1943, para não mais sair nem ser transferido durante os seguintes 25 anos de serviço, embora tenha sido “ameaçado” de ser promovido a gerente de agência nas cidades de Ouro Branco, Oliveira e Muzambinho. Mas o seu destino era mesmo continuar na agência de São João del-Rei, onde exerceu as funções de caixa, tesoureiro e contador durante esse período, sem nunca faltar a nenhum dia de serviço.

Minha mãe era normalista e, enquanto namorava meu pai durante uns dois anos, era professora na escola rural de César de Pina, localizada nas Águas Santas, distrito de Tiradentes.

Em 15/02/1947, realizou-se o seu casamento religioso na Matriz de Nossa Senhora do Pilar às 6 horas da manhã ou uns vinte minutos depois, porque, devido a um mal entendido, o taxista Patativa, em vez de buscar meu pai, conforme era esperado, achou que tinha sido contratado para levar minha mãe à igreja. A solução para meu pai foi caminhar às pressas até a igreja, porque a noiva já estava bem ansiosa no altar. O casal passou sua lua de mel em Juiz de Fora.

O nascimento do primeiro filho Roque César em 07/12/1947 foi muito festejado, com o auxílio de uma parteira, embora o casal estivesse mal instalado, numa casa alugada no Pau d’Angá.

Eu nasci no dia 16/02/1949 numa casa então recém-construída nos fundos do lote de meu avô paterno que dava para a rua das Flores.

A primeira filha, muito aguardada, Celina Maria, veio ao mundo em 2/06/1950.

O quarto filho, Carlos Fernando, completou o primeiro quarteto em 29/03/1952.

Luiz Antônio foi o quinto filho nascido em 24/02/1956, tendo sido também o último a nascer com o auxílio de uma parteira.

Os últimos três filhos nasceram em hospital com assistência de médico ou enfermeiras. A próxima filha foi Luzia Rachel, nascida 31/08/1957. Em seguida, Rafael nasceu em 31/01/1965. Por fim, Elizabeth, nascida em 11/06/1967, completou o conjunto de 8 filhos que aqui se encontram comemorando o centenário de nascimento de seu pai.

Roque Braga era exageradamente responsável, trabalhando muito e organizando o próprio serviço e o dos outros funcionários do banco, razão por que sempre foi o último a deixar a agência bancária. Muitas vezes, mamãe me pedia para ir ao banco buscar meu pai, quando ele estava demorando demais a retornar para casa, não sem antes passar na “Gruta Mineira” e encomendar alguns salgados ao Sr. Queiroz, que era um dos poucos restaurantes abertos àquela hora. (Era justificada a preocupação de mamãe, já que meu pai jamais almoçava em dias úteis, preferindo ingerir cápsulas de vitaminas e fortificantes durante o dia. Para complicar, fumava com frequência.) Eu batia no vidro da porta e ele me fazia entrar, pedindo-me que o esperasse por uns 15 minutos, durante os quais ele, fumando, ainda arrumava as últimas mesas dos colegas e colocava em ordem alguns documentos. Quando saíamos, as ruas já estavam desertas, pelo adiantado da hora. Ao chegarmos à casa, mamãe o esperava com a comida quente e saborosa, embora trivial, à qual juntava os salgados que eu tinha comprado, esperando agradar a seu marido.

Roque tinha também o dom de ensinar. Como era craque em matemática e contabilidade bancária, distribuía gratuitamente seus conhecimentos aos candidatos a bancário. Alguns futuros colegas dele desfrutaram desses seus dons para professor, comparecendo à sua casa nesta rua das Flores e, sentados em bancos improvisados na copa, aprenderam ambas as disciplinas que meu pai ensinava, preparando-os para concurso que a agência bancária promovia.

De 1950 em diante, meu pai fez questão de acompanhar as copas do mundo em transmissão radiofônica. O mesmo se dava com as partidas envolvendo o Flamengo, seu time preferido do Rio. Quanto ao Minas Futebol Clube, “O Glorioso” Leão da Biquinha, nesta cidade, lembro-me de que comparecíamos aos jogos e nos juntávamos aos fanáticos torcedores. Lembro-me que ele torcia com muita empolgação e gritava a plenos pulmões, nas partidas com o arqui-rival Athletic, em coro com a torcida, a trova inventada pelo veterano Paulo Alvarenga, para comandar os meninos de seu batalhão de torcedores:
Eu virei tico-tico,
Eu virei sabiá,
Eu virei o Athletic
De pernas pro ar.

Na década de 50, a convite do presidente do Minas, o saudoso João Hallak, Roque aceitou o cargo de primeiro tesoureiro e convidou seu colega de banco José Rodrigues Filho a ocupar o cargo de segundo tesoureiro. Lembro-me dos dois trabalhando, madrugada a dentro dos sábados, fazendo escrita do Minas na copa de nossa casa. Foi uma época de muito trabalho para meu pai, pois ele, além do banco, estava assumindo nova missão, agora de cunho social: era preciso controlar a entrada do Estádio “João Lombardi”, autorizando os sócios adimplentes e impedindo a entrada de sócios inadimplentes. O mesmo valia para a entrada nos bailes e festas na sede social do clube, no famoso “Salão dos Espelhos”. Dentro do conceito de justiça social de meu pai, todos os sócios, sem exceção, deviam regularizar a sua situação financeira junto ao Clube. Em ambos os casos, fazia-se acompanhar de “Sô Nhozinho”, homem truculento e forte, de meias palavras, que se fazia entender perfeitamente pelos empurrões que distribuía a torto e a direito, se necessário. O resultado dessa parceria foi compensador, pois melhorou as finanças do clube e atraiu as atenções para a organização e o controle exemplares que eram pela primeira vez observados nas relações do Clube com os seus sócios.

O ex-Ministro do Trabalho, Sr. Fernando Nóbrega, em visita à sede social do Minas, assim deixou consignado:
O Minas Futebol Clube é um modêlo de organização. Tudo aqui é bonito. Encanta e entusiasma. Honraria qualquer Capital Brasileira.
Ass. Fernando Nóbrega”.

Inesquecível foi a equipe administrativa que comandava o Minas naquela época: João Hallak, Jamil Tuffy Resgalla, Dr. Jaci de Castro, Francisco de Almeida Neves, Paulo Cristófaro, Gentil Palhares, Raimundo Rodrigues Rocha (“Mundico”) e Roque Braga. Dois foram os técnicos que, na ocasião, deram ao Minas o tri e o tetracampeonato: Tuffy Hallak e Raimundo Rodrigues Rocha (“Mundico”).

Antevendo que os esportistas seriam muito bem remunerados em nosso País e no mundo, Roque matriculou, assim que atingimos uma idade adequada, três de seus filhos (Roque, Fernando e eu) no Time Infantil do Minas Futebol Clube, aos cuidados do técnico e jogador Pavão. Também nos incentivou a frequentar diariamente os vestiários e a piscina “Francisco de Paula Neves”, aos cuidados do Sr. Walter Lopes da Silva, plantando em nós a semente dos esportes que deveria frutificar em nossos corações e de toda a sociedade são-joanense.

O tempo disponível de Roque não era só feito de festa e empolgação. Lembro-me de acompanhá-lo, nas manhãs de domingo, às reuniões da Conferência da Associação de São Vicente de Paulo, do Tijuco, nas instalações do Oratório Festivo São Caetano, que foi a primeira escola para meninos de rua de São João del-Rei. Lembro-me ainda de alguns membros: presidente Sebastião, que só tinha um dos braços, Sr. Pereira, irmão da saudosa vizinha Nica, Sr. Lindolfo Carvalho e Élcio, do supermercado tijucano. Após as reuniões, costumávamos ir a pé até às Águas Férreas e visitar os assistidos pela Conferência, sendo a maioria velhos e famílias sem ganha-pão, desassistidos pelo poder público.

Quando foi inesperada e sumariamente despedido do banco, junto com seu cunhado e gerente Júlio Teixeira, ambos no mesmo dia, - com o que ficaram muito magoados, diga-se de passagem -, Roque foi contratado pela Prefeitura Municipal para fazer parte da equipe administrativa de seu colega de Ginásio Santo Antônio, o então Pref. Dr. Milton de Resende Viegas, para quem prestou serviço por uns 3 anos.

Após esse período, foi convidado pela MIBRA-Companhia de Estanho Minas Brasil, dirigida pelos engenheiros romenos Dr. Pierre Cartianu (diretor) e Dr. Martin (presidente), para gerir o seu escritório, sediado em Nazareno. Na ocasião, toda semana Roque retornava à casa nos sábados à tarde e passava com a família até 2ª feira à tarde, quando concluía o expediente do primeiro dia útil, nas suas relações com agências bancárias e o comércio são-joanenses. Mais tarde, esse escritório foi transferido para São João del-Rei, quando ele pôde aproveitar um pouco melhor a infância de seus filhos Rafael e Elizabeth, ainda menores. Nessa fase, o chileno Dr. Diego Hernandez Cabrera tinha substituído os romenos na direção da MIBRA e com quem Roque se dava muito bem. Essa foi uma ocasião que eles puderam beneficiar inúmeros funcionários de sua confiança na MIBRA, prestando-lhes e às suas famílias uma verdadeira assistência digna de países desenvolvidos. Nessa firma ele trabalhou diligentemente durante uns 10 anos.

Depois de desligar-se da MIBRA, afastou-se definitivamente do convívio social, recolhendo-se à sua residência, onde recebia amigos para um divertido bate-papo. Combalido pela doença pulmonar que o acometeu nos últimos anos, ainda viveu uns quatro anos assistido por minha mãe Celina e acompanhado pelos dois filhos menores.

Meu pai faleceu em 26 de setembro de 1984 no Hospital Mater Dei, de Belo Horizonte, para onde tinha sido levado em busca de socorro médico. Foi inútil esse último recurso. Seu corpo foi velado em São João del-Rei na residência de seu querido cunhado e colega Júlio Teixeira.

Seu corpo foi enterrado no cemitério das Mercês com a bandeira do “Leão da Biquinha”, ao som do elogio fúnebre pronunciado pelo tenente Gentil Palhares, velho torcedor e historiador do Minas Futebol Clube.

Finalmente, queremos agradecer a todos quantos colaboraram para que a existência de Roque da Fonseca Braga fosse a mais leve possível, dentro das suas condições físicas e de trabalho. A essas pessoas, nossa eterna gratidão.

O sentimento dos familiares de Roque da Fonseca Braga é também de gratidão por sua vida reta, seu exemplo de homem de caráter e honesto, seu comportamento sempre ético em todas as suas ações em prol da família e da comunidade são-joanense.

Portanto, nada mais justo do que solicitar, nesta data de hoje que comemoramos o Centenário de Nascimento de Roque da Fonseca Braga, uma salva de palmas, pedindo a Deus o descanso eterno de sua alma.


 São João del-Rei, 15 de abril de 2018.



Vista interna da capela (ala direita) - Crédito: Elizabeth dos Santos Braga
Vista interna da capela (ala direita) - Crédito Elizabeth dos Santos Braga
Fiéis na Capela do Divino Espírito Santo -
Crédito: historiador José Antônio de Ávila Sacramento

Carlos Fernando fazendo 1ª leitura, Salmo Responsarial e 2ª leitura - Crédito: Rute Pardini Braga
Beatriz Braga Coelho conduzindo as Oferendas - Crédito: Elizabeth dos Santos Braga

Elizabeth dos Santos Braga lendo as Orações dos Fiéis - Crédito: Pedro Constant Braga

Orador Francisco José dos Santos Braga - Crédito: Rute Pardini Braga
Fiéis após a Missa - Crédito: Rute Pardini Braga
Luíza Guimarães e Rute Pardini - Crédito: Rute Pardini Braga
Roque César, José Alvim Rezende e Celso Lopes de Oliveira - Crédito: Rute Pardini Braga
Luiz Cláudio Braga Lovatto, atual presidente do Minas Futebol Clube, Francisco Braga e Celina Maria Braga Campos - Crédito: Rute Pardini Braga
Valéria, Marta Teixeira Vale e Rute Pardini - Crédito: Rute Pardini Braga
Lourdes Inácio Lima, Maria de Fátima Teixeira e Rute Pardini Braga - Crédito: Rute Pardini Braga
Edison de Assis Coelho, amigo leal até o último adeus de Roque Braga - Crédito: Rute Pardini Braga
Jair Vicente de Andrade e Ilda Andrade - Crédito: Rute Pardini Braga
Emma Lana e Rute Pardini, Fernando e Maria do Carmo - Crédito: Rute Pardini Braga 


Vista externa da fachada da capela - Crédito: Beatriz Braga Coelho
Orador Francisco Braga - Crédito: Rute Pardini Braga



quarta-feira, 4 de abril de 2018

STÉLIOS RÁMFOS: "NUMA PERSPECTIVA HISTÓRICA, A ESQUERDA NAUFRAGOU, PORQUE EXATAMENTE VESTIA COM O UNIFORME DA SALVAÇÃO NACIONAL OS INTERESSES ABSOLUTOS"


Por Stélios Rámfos
(em entrevista a Thanássis Lálas da Real News, edição de 10/04/2016)
Texto traduzido do grego e comentado por Francisco José dos Santos Braga 

Stélios Rámfos fala com Thanássis Lálas e explica porque os Gregos são propensos a mentiras políticas (Entrevista a Real News, domingo 10-4-2016).
Filósofo Stélios Rámfos concede entrevista a Thanássis Lálas da Real News


Thanássis Lálas: O que mais te preocupa nessa situação que vivemos agora?
Stélios Rámfos: Em primeiro lugar, eu me divirto. A diversão é uma forma de evitar a depressão.
Thanássis Lálas: O que é que pode tornar as coisas ainda mais difíceis para alguém que as vê sem adoecer?
Stélios Rámfos: Ficando de fora. Isso não significa que ele seja insensível, mas que mantém o direito de viver e, ao mesmo tempo, de julgar as coisas. É preciso ter o jeito da distância.
Thanássis Lálas: Mas o que é que faz as pessoas ficarem dentro das coisas? Já que é tão mais terapêutico a gente manter uma distância...
Stélios Rámfos: Não está em tuas mãos seres saudável.
Thanássis Lálas: Ou seja, primeiro adoeces, depois participas.
Stélios Rámfos: Claro.

Thanássis Lálas: Isso obviamente contém uma contradição.
Stélios Rámfos: Mas estamos falando de fenômenos extremamente contraditórios. As pessoas que não se suportam tendem a entrar dentro das coisas; uma pessoa que possui boa relação consigo mesma sabe manter distâncias. É parte do problema aquele que psicologicamente se identifica com os acontecimentos.
Thanássis Lálas: Isto é, tu acreditas que todas essas pessoas estejam doentes antes de entrarem no recinto do poder ou fiquem doentes depois de entrarem?
Stélios Rámfos: Não é forçoso que elas estejam doentes; é possível que sejam pessoas com boas ideias e intenções, mas será preciso olhar também a sua relação consigo mesmas, em que grau essa relação dá espaço também à relação com o outro. Em caso afirmativo, então pode acontecer algo: se não dá espaço, senão apenas aparentemente, há um problema. Quando não há limites, quando um é confundido com o outro, então adoecemos. Por que? Porque a lógica não tem espaço e sem lógica não distinguimos o “aqui” do “lá”, o “dentro” do “fora, sempre que ficamos doentes.
Thanássios Lálas: Consequentemente, é bom não perder a distinção no espaço do poder?
Stélios Rámfos: O poder coloca ordem nas coisas da vida social. Não é para os ocupantes tirarem proveito. Há patologia quando se identifica com a imagem de si mesmo. Se não colocaste ordem em tua mente, se tu nunca trabalhaste, a única coisa que te oferecerá o poder é te sentires que és importante, mas terás perdido tudo. Por isso precisamos de pessoas no poder que...
Thanássis Lálas: ... tenham uma auto-realização.
Stélios Rámfos: E uma lógica elementar.
Thanássis Lálas: Assim, o predomínio do interesse próprio no recinto do poder é o que essencialmente te faz adoecer.
Stélios Rámfos: A combinação de incoerência com egoísmo, é que constitui um grande problema.
Thanássis Lálas: Aliás, estamos vivendo isso.
Stélios Rámfos: Sim, e o vivemos no superlativo.
Thanássis Lálas: Podes me dar um exemplo de egoísmo em combinação com a incoerência?
Stélios Rámfos: Quando governo um lugar e, em vez de diluir a mim mesmo, tiro proveito e "engordo". A incoerência reside na alienação do indivíduo do bem coletivo. Numa perspectiva histórica, a esquerda naufragou porque exatamente vestia com o uniforme da salvação social os interesses absolutos.
Thanássis Lálas: Parece que estamos assistindo nos últimos anos à mesma peça repetidas vezes. Na realidade, aquilo que acabaste de dizer está separando esta situação, da de outrora. Achas que não é válido o mesmo também para a situação antes da “esquerda”? Sofreram de outra doença?
Stélios Rámfos: Esta doença tem uma natureza diacrônica, mas o paroxismo dela está ligado com a “esquerda”. Explico-me: Enquanto venceram com promessas de mudança do lugar e da Europa, entraram na absoluta inatividade e passividade, as burocracias permanecem, vamos fazer algo e não dá certo, vamos de compromissos em compromissos, gradualmente tudo desmorona. Considero cultural o problema, em grande medida: na Grécia, como também em outro lugar, estamos vivendo em uma cultura de ritual.
Thanássis Lálas: O que queres dizer exatamente?
Stélios Rámfos: Quanto mais atrasados forem os povos, tanto mais as práticas rituais substituem a ação. Em nossas próprias culturas, as cristãs, quando a Igreja, de perseguida, tornou-se Estado, começou a compreender diferentemente a sua contribuição. Seu papel salvífico começou a deslocar-se para um transcendente ritualístico, deixando os campos da ação para os Chefes dos Estados, aos exércitos, etc. Lentamente o elemento ritual começou a assimilar a experiência primitiva da Ressurreição, ou seja, da mudança do homem. Quando dizemos "ressurreição", queremos dizer que um novo tempo penetra nas nossas vidas, começa uma vida nova.
Thanássis Lálas: Um novo homem!
Stélios Rámfos: Em todos os territórios do Cristianismo, onde foi conservado um pouco melhor o campo de ação, o ritual conservou fortes elementos, mas também a ação ficou em algum lugar. Digo isso porque a autoridade papal no Ocidente católico foi organizada com base nos padrões do Estado romano. No Oriente, contudo, onde havia uma autonomia de Igrejas, começou a desenvolver-se forte o elemento ritual em torno do século XIV, combinado, ainda por cima, com uma desvalorização doutrinária da lógica e da ação em nome da Graça, o que deu imensa importância ao ritual. Ou seja, a salvação do povo passava pela participação na vida mística da Igreja Ortodoxa, voltando as costas à ação. Todos os países ortodoxos têm terríveis burocracias, todos, sem exceção, não suportam a ideia do fazer, uma ideia que Roma abraçou, dizendo que alguém se salva com as obras, enquanto nós nos salvamos pela derrota das paixões, pela fé e, principalmente, pela oração. Com o tempo, este rito começou a influenciar as mentalidades e as sociedades. Em grande medida, as nossas sociedades e povos funcionam ritualmente.
Thanássis Lálas: Isto é, com doutrina a fé, e não com doutrina a ação.
Stélios Rámfos: Definitivamente com medo da ação. A forma histórica que tomou a distorção em ritual da passagem de ano foi apenas simbólica, por isso temos necessidade de grandes ritos, mas também de burocracias. Toda a estruturada sociedade grega é baseada no ritual da Igreja, no ritual da família, no ritual da localidade, nas hierarquias estabelecidas, isto é, rituais tão poderosos a ponto de nenhum poder entrar no sistema, a menos que seja profundamente antigo. Daí também o ritual ser a absoluta complacência.
Thanássis Lálas: O teu pensamento me parece um impasse. Uma vez que o pensamento de um povo se nutre do rito e não da ação, e isto continua por anos, como pode alguém superá-lo?
Stélios Rámfos: Isso vinha acontecendo há anos sem que ninguém percebesse. Quando começarmos a compreender algo, é hora de mudá-lo.
Thanássis Lálas: E por que agora o compreendemos?
Stélios Rámfos: Porque agora a situação se tornou insuportável. A crise que estamos passando, no fim das contas, é uma crise de ritual. As milhares de assinaturas para se licenciar o resort Costa Navarino, as nomeações partidárias, o que são? A recusa de se reduzirem os gastos públicos? O Estado hipertrófico e a ideia da salvação dentro de conjuntos mais gerais, o que é tudo isso? Apenas uma liberdade do homem em relação a si mesmo forma Estados com pequenas burocracias. Onde existem formas e rituais imensos, a burocracia está presente. A Rússia comunista sucumbiu por burocracias e gulags. Onde as culturas são enlameadas e as pessoas não têm uma relação livre consigo mesmas, dominam as formalidades e os espectros. As pessoas pedem algo mais, mas porque elas não sabem nomear com boa vontade, por isso não avançamos como é preciso. É preciso que a esperança esteja combinada com o conhecimento; sozinha, a esperança pode ser ilusória, um perigo fatal.
Thanássis Lálas: Então, é preciso escaparmos do ritual com os seus simbolismos e colocarmos na nossa vida um ponto de referência: a própria ação.
Stélios Rámfos: Ou seja, a percepção do real, porque, onde domina o simbólico, não temos contato com as coisas e é beneficiado o ritual. O crítico terapeuticamente é sairmos do medo do real, quando o rito ganha significado e papel. Inesperadamente a prestação de juramento do presidente americano é ritualística, mas a formalidade do ritual não engole a realidade, como ocorre com os ritos que colocam no lugar do tempo (com duração de duas horas) uma eternidade e santidade simbólica. Estranho clericalismo! Então, assim como toda semana vamos à igreja para esquecermos a realidade por duas horas, assim também aqui vivemos dentro de uma sociedade para a realidade de poucos e refugiamo-nos nas ideias.
Thanássis Lálas: Não é muitíssimo natural, se alguém te ouvir dizendo essas coisas, indagar: “Bem, Sr. Rámfos, suas constatações estão corretas, mas como mudar as coisas? Como pode uma sociedade tomar um retorno, quando está tão tranquila no ritual?”
Stélios Rámfos: Mas, por isso, pretendemos ficar na Europa, cuja cultura reconhece o elemento ritualístico, sem dar-lhe a realidade. Quanto mais longe te encontrares da realidade, tanto mais perto chegas da hipocondria paranóica. O que é uma pessoa hipocondríaca? Alguém que entende sua vida apenas ritualisticamente, cujos copos precisam estar lado a lado, para não serem postos desordenadamente... A pessoa com transtorno obsessivo-compulsivo pode suportar a realidade só moldada à sua própria fantasia. O peso psicopatológico que possui o elemento ritualístico na vida social é tremendo. Não serás uma pessoa se não fores batizado, nem podes ser enterrado se não encomendarem o teu corpo. Para entendermos o problema de hoje precisamos entrar em esferas, onde a nossa mitologia ocupou o lugar da realidade; isto é, os políticos atuais precisam ter formação antropológica.
Thanássis Lálas: Há pouco tu disseste que o “recinto”, o poder torna o egoísta ainda mais egoísta; então, o que acontece?
Stélios Rámfos: A confirmação do ego egoísta pode ser também reconhecimento da responsabilidade. Já que toda a nossa vida é representada com afirmação pessoal e com responsabilidade social, devemos aceitar como desafio o equilíbrio no nosso talento para a ambição com a responsabilidade. O egoísta se redime quando se torna responsável.
Thanássis Lálas: “Responsável”, no sentido de que faço algo também pelo outro.
Stélios Rámfos: Não faço apenas algo pelo outro: principalmente me coloco na posição do outro. Quando Elefthérios Venizélos chegou ao ponto de dividir a Grécia, porque “sabia” que as forças navais iriam prevalecer, sua teimosia egoísta se transmutou, naquele momento, em responsabilidade. O grande segredo não é termos pessoas santas; é termos pessoas que colocam o seu egoísmo a serviço da responsabilidade. Assim também a política pode fazer sentido.
Thanássis Lálas: Antes te referiste ao talento. O que significa talento político?
Stélios Rámfos: Talento político é saber o que o momento está pedindo e não simplesmente o casual agora. Contudo o agora, o momento em que estamos fazendo a entrevista, é o que conta, porque estamos decidindo o curso do presente que é o momento.
Thanássis Lálas: Então não é um agora “difuso”...
Stélios Rámfos: Mas o particular deste momento é a decisão que tomaremos agora para o tempo tomar uma determinada direção.
Thanássis Lálas: A maneira como abordamos a questão explica porque as pessoas são propensas à mentira política, à promessa que ouvem ao longo de anos e a seguem como cegas.
Stélios Rámfos: Têm uma grande necessidade de não penetrarem nos dilemas do pensamento.
Thanássis Lálas: Da realidade, você quer dizer.
Stélios Rámfos: Elas querem ter a esperança de não pensarem. E disso se aproveita o mau político, que te diz “vou rasgar todos os memorandos ¹ e te libera do drama de pensares. A maioria dos eleitores são movidos por um déficit de si mesmo. No mito deles não encontram as necessárias mudanças. Não acontecem mudanças sem tocares no mito de um povo, não para o quebrares, mas para acompanhares a sua alma ao pretendido.
Thanássis Lálas: Qual elemento do nosso mito um político deve tocar hoje, para seguir em frente?
Stélios Rámfos: A Ressurreição insiste no novo tempo e no novo homem. Ao contrário, o ritual não quer mudar nada, já que é repetido eternamente. As almas que absorvem esta mensagem, fazem dela um clima de existência. Elas não compreendem diferentemente a realidade. O ritualístico nos torna inimigos do real, porque o real possui um movimento temporal, enquanto o ritualístico só conhece a repetição. Toma a cultura do Grego: por que não modifica ideias? Por que as pessoas estão presas? Evidentemente porque não somos livres em relação a nós mesmos. O rito veta o outro tempo, proíbe a mudança.
Thanássis Lálas: Por ventura, porém, enquanto essencialmente o ritual não é a base sobre a qual caminham os povos da Europa...?
Stélios Rámfos: Os Nórdicos.
Thanássis Lálas: ... os Nórdicos na Europa, não achas que eles também têm uma parte de participação em nossa incapacidade de sairmos do ritual? Talvez lhes agrade que continuemos assim? Por razões que... Não podes excluir da vida os interesses, não podes excluir da vida que alguns jogos são jogados...
Stélios Rámfos: A importância da separação do ritual é que finalmente assumes a responsabilidade por ti mesmo e é isso que as culturas deles realmente querem. O ponto é que paralisamos o ritual e não podemos conceber nada além de arranjos. A vida e a história deles mostram que possuem, junto com a sabedoria, também um forte sentimento de liberdade. Aliás, a grande tradição de liberdade que dispõem, difere da liberdade do Oriente, em um ponto muito crítico. Dizemos que no Oriente há a liberdade da vontade, e não as heterodeterminações ² . Mas a liberdade da vontade na tradição oriental teve a ver com a pessoa comunitária, não com a pessoa responsável. A liberdade da vontade individual tem grande importância, porque lhe dá a responsabilidade de ser correta, tanto comunitária quanto socialmente. Nós nunca tivemos a liberdade da vontade para lidar com escolhas individuais. Não havia direito de diferenciar crenças ou distanciamentos. Nós ainda não podemos internalizar. O mecanismo ritual, do qual falamos antes, proíbe a interioridade. Por isso, a música, o modo musical, por exemplo, o modo plagal do Tritus ou o modo plagal do Tetrardus ³ , que ouvimos na igreja, ordena determinado sentimento, enquanto, na polifonia, o sentimento tem maior liberdade para expressar-se e, na canção individual, tem liberdade ainda maior.
Thanássis Lálas: É expressão emocional nossa atitude em relação aos imigrantes, em relação aos refugiados?
Stélios Rámfos: A humanidade manifestada por muitos compatriotas encerra fortes memórias de refúgio e compaixão. Porém, existem também outros parâmetros, não com idêntica intensidade, mas existem. Constantemente quero parecer bom perante quem sofre injustamente para esquecer minha dor. Isso também pode acontecer. Ou seja, queres de forma indireta escapar da tua infelicidade... Evidentemente há também a realidade negativa, por exemplo, fenômenos de exploração selvagem de muitos refugiados; tenho ouvido que lhes cobram o custo de carga do celular por 20 euros, as tarifas dos taxis e outras coisas.
Thanássis Lálas: Podes me dizer, Sr. Rámfos, o que se passa com os atuais deslocamentos de populações? Porventura, fugindo da guerra e das adversidades dela, essas pessoas provocam novos impasses?
Stélios Rámfos: Entendo o atual problema migratório e de refugiados como uma tentativa inconsciente do Islam de superar o tempo histórico perdido. Mas ele está fazendo-o como num processo judicial e por isso está atuando por meio de organizações bélicas e terroristas. A dependência da Xaria não faz outras concessões.
Thanássis Lálas: Queres dizer os talibãs, a Al Qaeda, o ISIS, etc.?
Stélios Rámfos: Até o século XII o Islam era uma civilização muito forte, com descobertas científicas, com várias traduções clássicas, com elementos assimilados da cultura clássica grega. No entanto, no século XII, foi colocado um grande problema pelos Ulemás, os intérpretes da aplicação do Corão no dia a dia, que trouxeram aos sábios um dilema. Disseram-lhes: o mundo é este desconhecido que buscais, ou é o que diz o Corão que Deus o criou? Os sábios não podiam opor-se ao Corão, ocasião em que começou a decadência com a ajuda dos Sufis, os quais, por causa dos estados de espírito místicos, apoiaram os Ulemás.
Thanássis Lálas: Ou seja, esse dilema abriu a porta ao colapso.
Stélios Rámfos: Sim, ele destruiu a próspera civilização árabe.
Thanássis Lálas: Uma pergunta pode fazer tanto mal?
Stélios Rámfos: Mas, porque esta questão afetava o modo que viviam. E hoje os Islamitas se põem em colisão com o Ocidente, porque querem mudar nosso modo de vida. Mas o interessante é que depois de dois séculos aconteceu o mesmo em Bizâncio. Porque então ficou decidido doutrinariamente que não participamos do divino com a lógica, ocasião em que permaneceram a vida mística e a oração. Não foi por acaso que ambas as culturas tenham como ponto comum de referência a ruptura com a lógica e com a realidade externa. Então eles (os Islamitas) também vão ganhar o tempo, da mesma forma que foram os comunistas na Rússia superar o tempo perdido e com rios de sangue a guiá-los à modernização. Contudo, a modernização deles foi ritual. Não esqueçamos que também hoje reverenciam Lênin no Mausoléu, como as relíquias dos santos.
Thanássis Lálas: Por acaso os Nórdicos da Europa ou os Norte-americanos entenderam que essa é a razão pela qual o Islam assim reage?
Stélios Rámfos: Não sei o que os serviços secretos estão pensando; sei que eles cometeram enormes erros. Lembremo-nos da celebração da Primavera Árabe ou da dissolução da Líbia e do Iraque, da exportação da democracia e tudo o mais. Os analistas sérios seguramente o sabem.
Thanássis Lálas: Tu achas que a democracia pode ser exportada?
Stélios Rámfos: Um pré-requisito da democracia é uma cultura de lógica. A única arma de que tem necessidade o democrata é avaliar e julgar. Uma democracia delirante é desastrosa.
Thanássis Lálas: Então, foi um grande erro ter importado democracias.
Stélios Rámfos: Melhorias tiveram que ser promovidas na mais institucional e mais humanitária das situações. Um, os reflexos americanos do ato, e o outro, a civilização de longa data do Afeganistão com os seus segredos.
Thanássis Lálas: O esforço de impor-se violentamente algo que estava tão fora de sua cultura também cria esses fenômenos?
Stélios Rámfos: Estamos experimentando uma combinação de privação de humilhação e de necessidade de cobrir-se o tempo perdido. Por isso, o jihadismo morre com a maior facilidade. Em sua morte, ele encontra a esperança metafísica de que estão esperando por ele...
Thanássis Lálas: Em outro lugar, outra coisa... Por acaso é um erro da Europa a forma com a qual tenta nos impor reformas? Por acaso é preciso serem feitas mudanças de outro tipo?
Stélios Rámfos: Tenho dito isso há anos: temos que distinguir civilização e cultura. A civilização contém valores comuns mais amplos, como a ciência, a técnica, os direitos humanos, etc. A cultura impacta a identidade e a cidadania. Deverão ser feitos arranjos especiais de forma a combinarem-se fertilmente a cultura, a identidade com os valores universais. A coisa não é simples. Basta pensar que a recente reforma do Sudão pela primeira vez foi reconhecido que a mulher não é mais objeto, mas foi “promovida” a animal.
Thanássis Lálas: Consequentemente, o que chamamos de União Europeia deveria levar muito a sério a combinação da cultura de cada seu país-membro com os princípios fundadores que a governam, e não apenas a união econômica.
Stélios Rámfos: Mas a teoria da distinção entre cultura e civilização é a teoria de um grande romântico alemão, Herder. Os Europeus conhecem essas coisas muito bem. Não esqueçamos de que em 2006 os povos rejeitaram a Constituição europeia. Seja como for, o sistema de valores da cultura não pode invalidar os valores da civilização, mesmo em nome dos direitos individuais.
Thanássis Lálas: Tu achas que há uma pessoa lá fora que possa nos tirar da castração do ritual?
Stélios Rámfos: Sempre que entendemos um problema, imediatamente se apresentam aqueles que o resolverão. Cada época tem também suas pessoas, já que possui objetivo vivo. Se o que estamos dizendo agora virar um objetivo, aparecerão muitos. A questão é que está faltando a energia do objetivo.
Thanássis Lálas: Isso é muito interessante. Tu sustentas que é um erro dizermos que não existem líderes nos nossos dias. Não há um objetivo claro nos nossos dias, de modo a que apareçam ou de que resultem líderes.
Stélios Rámfos: Ou o objetivo da mudança não é formulado com a reatividade que possa gerar líderes. Não é preciso uma ideia que seja teoricamente correta, ela deve emitir também a energia de uma mudança. É uma necessidade absoluta sair da crise, ou seja, encará-la como uma oportunidade histórica de mudarmos. Deixemos o atoleiro da eternidade para nos abrirmos para uma ação responsável.



NOTAS EXPLICATIVAS por Francisco José dos Santos Braga


¹  Subentende-se por memorando o "Memorando de Entendimento" assinado pelo governo grego com a famigerada troika (constituída pelo FMI, Comissão Europeia e Banco Central Europeu), que possibilita um programa de apoio à estabilidade, mas impõe ao primeiro o cumprimento de rígidas medidas de austeridade, submetendo novas liberações de empréstimos a reformas estruturais a serem feitas pelo tomador, principalmente aumento nos impostos, reforma no mercado de trabalho (cortes nos salários, congelamento de salários no serviço público, corte de 10% nas horas extras, etc.) e criação de um fundo de privatizações, dentre outras medidas impopulares. O governo grego já assinou quatro desses memorandos, tendo sido o último deles assinado em 13/07/2015 pelo primeiro-ministro Alexis Tsipras (acusado de traidor, por ter assinado um “pacto de colonização” com os credores) da coligação SYRIZA-ANEL e aprovado pelo parlamento grego em 15/07/2015, mesmo após a divulgação do referendo em que uma ampla maioria do povo grego votou NÃO à troika. Mais recentemente, em 15/01/2018, o governo da coligação SYRIZA-ANEL chegou a um acordo político com o Eurogrupo (que reúne os ministros de Finanças da zona do euro) concordando com a 3ª revisão do programa de ajuda financeira firmado em 2015, aprovando mais um conjunto de medidas de austeridade, especialmente a privatização de empresas públicas, impostas pelas instituições europeias (CE/BCE) e FMI. Abaixo-assinados, representando um vasto leque de partidos e organizações de esquerda, rejeitam esses memorandos, apelam para a sua anulação e propõem uma nova orientação progressista, contestando a perpetuação do regime de tutela imposto ao país.

²   Por heterodeterminação entende-se:
• quando uma ação ou teoria política ou qualquer atividade não é determinada de acordo com os princípios pessoais do sujeito, mas conforme ou em reação contrária aos movimentos e às opiniões de alguns outros. Ex.: situação em que nossos colegas partidários devem decidir sobre uma greve baseada em nossos princípios, que não é declarada simplesmente porque nossos oponentes partidários são contra aquela greve.

Por outro lado, não se trata de heterodeterminação, e sim de um ato de escolha:
• quando uma moça sai com um namorado porque lhe agrada, e não em reação contrária aos pais dela, que não aprovam o namoro.

Finalmente, caracteriza-se “heterodeterminação imposta” quando um adulto força um menor ou uma pessoa que não tenha uma consciência plena e legalmente reconhecida a fazer algo contrário a seus interesses.

O contrário de “heterodeterminação” é autodeterminação (self-determination, em inglês).


³  Como a lira original era de quatro cordas, os modos gregos originalmente eram formados por apenas quatro notas. Essa é a razão por que o tetracorde é a base da escala grega (sempre descendente), que mais tarde ficou constituída de dois tetracordes, ambos em graus conjuntos e formando uma oitava.
Uma segunda observação é que são quatro as famílias modais: Protus ou primeira escala modal em RÉ; Deuterus ou segunda escala modal em MI; Tritus ou terceira escala modal em FÁ; e Tetrardus ou quarta escala modal em SOL. (Os graus LÁ, SI e DÓ não são mencionados, pois reproduzem, na quinta superior, os intervalos encontrados a partir das notas graves RÉ, MI e FÁ.) Todas as escalas citadas acima são a base dos modos autênticos.
Eventualmente o primeiro tetracorde (descendente) de um modo autêntico é transportado uma oitava abaixo, situação em que é a parte GRAVE (βαρύς) a preferida; neste caso, costuma-se denominar o modo assim formado como “plagal” (πλάγιος), mantendo o novo modo as mesmas características do seu modo relativo “autêntico”.
No texto, Stélios Rámfos refere-se aos modos plagais do Tritus e do Tetrardus.