sábado, 16 de abril de 2011

CRÔNICA DO OFÍCIO DE TREVAS DA QUINTA-FEIRA SANTA - Semana Santa de São João del-Rei



Por Francisco José dos Santos Braga



O saudoso musicólogo são-joanense José Maria Neves descreve a Festa dos Passos e a Semana Santa de São João del-Rei, da seguinte forma: “representam um conjunto de celebrações de particular importância musical, tanto pela ampliação e pelas características do repertório executado, como pela riqueza da relação entre os diferentes componentes dos atos litúrgicos. Nas Vias-Sacras, nas Procissões, nas Missas e no Setenário das Dores, obras específicas de compositores locais são executadas pela Orquestra Ribeiro Bastos, contribuindo para a criação de um clima de religiosidade que não teria as mesmas características sem as obras de Martiniano Ribeiro Bastos, Manoel Dias de Oliveira, Padre José Maria Xavier, João Francisco da Mata e outros, executadas na ocasião.
A Semana Santa apresenta maior densidade litúrgico-musical. Talvez não exista outra cidade no mundo que realize absolutamente todas as cerimônias litúrgicas do ritual católico, e sempre com o repertório polifônico a elas destinado. As primeiras notícias dos rituais da Festa dos Passos e Semana Santa de São João del-Rei remontam ao século 18 e à criação das Irmandades dos Passos e do Santíssimo Sacramento. Merece especial destaque o canto dos Ofícios de Trevas e os cantos solenes da Paixão (no Domingo de Ramos e na Sexta-feira Santa) que, em sua forma tradicional de alternância de canto gregoriano e polifonia, caíram em desuso no mundo inteiro." ¹

É muito interessante essa última característica do Ofício de Trevas são-joanense. O compositor sacro dos Ofícios de Trevas, Pe. José Maria Xavier, pertencente ao barroco mineiro tardio, basicamente compôs a música dos Responsórios para as Matinas em 1871 e a parte final dos Laudes (Antífona do dia, Cântico de Zacarias e Antífona Solene do dia) em 1860. Para acompanhamento da melodia que acompanha as Lições (ou Leituras) do 2º e 3º Noturnos foi aproveitada, de acordo com uma tradição dos músicos locais, a segunda parte do Miserere ² do compositor tiradentino Manoel Dias de Oliveira (c. 1738-1813). Por último, o compositor dos Ofícios de Trevas utilizou a orquestra barroca tradicional, ou seja: violinos I e II, viola, violoncelo dobrado com dois contrabaixos, clarinetas, flautas, bombardinos e trompas; no coro usou o quarteto vocal (soprano, contralto, tenor e baixo).

Todas as outras partes do Ofício de Trevas ficam a cargo de vozes masculinas que cantam em uníssono o gregoriano, às vezes individualmente como ocorre nas Lições (ou Leituras) e na maioria das vezes em coro como se dá quando da leitura dos Salmos. Essas vozes masculinas são de sacerdotes presentes ao Ofício e/ou de antigos coroinhas da Catedral Basílica de Nossa Senhora do Pilar ³.

Após essa breve introdução para maior esclarecimento da gênese e conservação de nossas tradições litúrgico-musicais, passo agora ao relato do Ofício de Trevas da Quinta-Feira Santa, celebrado na noite da Quarta-Feira Santa, das 19 às 21h40min em média, no interior da Catedral Basílica de Nossa Senhora do Pilar de São João del-Rei. É importante esclarecer que esse rito litúrgico corresponde à liturgia da Quinta-feira Santa. De fato, não faz muita diferença se ele se realiza na noite da quarta-feira ou na manhã da quinta-feira, já que nos mosteiros medievais as Matinas tinham início na primeira hora canônica, ao início da madrugada.

O Ofício de Trevas da Quinta-feira Santa, celebrado aqui na noite da Quarta-feira Santa , compreende as duas primeiras partes do antigo “Officium Divinum”, a saber: Matinas e Laudes, as duas primeiras Horas Canônicas.

Seguindo uma tradição dos primeiros cristãos, no Ofício de Trevas da Quinta-feira Santa em São João del-Rei, quinze velas são acesas no tenebrário (grande candelabro triangular), colocado ao lado direito do altar dedicado ao Ofício Divino, devendo ser apagadas sucessivamente pelo acólito no final de cada salmo, exceto a vela do vértice do triângulo, a décima quinta, que simboliza Jesus, Luz que ilumina todo homem. As outras quatorze representam os onze apóstolos e as três Marias.

Segundo vários autores medievais, apagar uma vela após cada salmo significa o abandono de Jesus por seus seguidores, principalmente no Horto das Oliveiras.

A liturgia antiga colocava a última vela acesa atrás do altar (para trazê-la de volta mais tarde talvez no amanhecer), simbolizando assim a morte e a ressurreição do Senhor.

Quando o coro canta a antífona da Quinta-feira Santa, seguida do Cântico de Zacarias (em que se alterna o canto gregoriano com a polifonia barroca) e da “Antífona Solene” Christus factus est (pro nobis oboediens usque ad mortem), o acólito esconde essa vela acesa atrás do altar sem apagá-la.

Com um mínimo ainda de luzes acesas, o oficiante reza: “Respice, quaesumus, Domine, super hanc familiam tuam, pro qua Dominus noster Jesus Christus non dubitavit manibus tradi nocentium, et crucis subire tormentum.” (Digna-te, pedimos, ó Senhor, lançar um olhar sobre esta tua família, pela qual Nosso Senhor Jesus Cristo não hesitou em entregar-se às mãos dos malfeitores e sofrer o tormento da cruz.)

Terminada essa oração, apagam-se todas as luzes e ouve-se um ruído provocado pelo tropel de toda a assembleia, rememorando o abalo sísmico que ocorreu logo após a Paixão do Senhor. Então, o acólito aparece com a vela acesa (Cristo), que havia sido escondida atrás do altar, e a coloca no seu primeiro lugar e imediatamente se acendem todas as luzes da igreja. Em linhas gerais, este é o rito litúrgico do Ofício de Trevas, passado de geração a geração em São João del-Rei e conservado pela Irmandade do Santíssimo Sacramento , sempre presidido pelo Reverendíssimo Bispo Diocesano.

MATINAS

As Matinas são constituídas por três Noturnos, cada um deles contendo três Salmos, três Lições (ou Leituras) e três Responsórios. Consequentemente as Matinas são regidas pela simbologia do número 3.

As Matinas deste primeiro Ofício de Trevas , o da Quinta-Feira Santa, objeto da minha análise, compreende os Salmos nº 68 a 76, ou seja, nove salmos. Importante lembrar que cada Salmo é precedido por uma sua Antífona, que é repetida sempre ao seu final.

Antes de passarmos à análise do Ofício de Trevas como se verifica em São João del-Rei, vejamos a explicação abalizada de Prof. Abgar Campos Tirado, insigne professor, historiador e comentarista sacro da Semana Santa da Catedral Basílica de Nossa Senhora do Pilar há 18 anos, sobre a estrutura dos Ofícios de Trevas, ou seja, sobre os elementos que os constituem:
1- Antífona: uma melodia própria, independente dos Salmos, mas da mesma modalidade, cantada antes e depois de cada um deles.
2- Salmos: poemas religiosos bíblicos, a maioria de autoria do profeta Davi, primitivamente escritos em hebraico.
3- Leituras: Lamentações de Jeremias e textos de Santo Agostinho e de São Paulo. São precedidas do canto dos versículos e de suas respostas.
4- Responsórios: textos cantados, intimamente ligados à leitura que os precede. São eles ora queixas na boca do Salvador, ora gemidos da Igreja, que lamenta o sofrimento de Jesus. Estruturalmente, o responsório se divide em responsório propriamente dito, presa (em nossa música não-gregoriana caracterizada pelo andamento rápido) e verso.
As Matinas se constituem de nove Salmos com suas respectivas antífonas, nove leituras e nove responsórios.
As Laudes contêm cinco Salmos com suas antífonas, o Cântico de Zacarias (Benedictus Dominus, Deus Israel) e a oração final.
Naturalmente, os textos de cada ofício diferem entre si de acordo com o desenrolar do drama da Paixão. São comuns aos três dias (isto é, Quinta-Feira Santa, Sexta-Feira Santa e Sábado Santo), mas variando as antífonas: o Salmo 50 (Miserere mei Deus), o Cântico de Zacarias (Benedictus) e as orações. O Salmo 75 consta do 1º e 3º ofícios; e os Salmos 26, 53 e 87 constam do 2º e 3º ofícios, mas todos com antífonas diferentes.”

Sobre a música, a sua maior especialidade a meu ver, Prof. Tirado tece os seguintes comentários: “Os ofícios realizados nos mosteiros, conventos e seminários eram totalmente cantados em gregoriano, inclusive os responsórios. Mas, naqueles templos abertos para os fiéis em geral, desenvolveu-se o costume de, ao lado do canto gregoriano, haver a participação da música coral-orquestral. Nos ofícios celebrados na Catedral Basílica de Nossa Senhora do Pilar, de São João del-Rei, cabe ao coro e orquestra o canto da antífona inicial e final, dos responsórios e da parte alternada do Cântico de Zacarias (Benedictus). As cordas e flautas da orquestra acompanham também o solista nas lições do segundo e terceiro noturnos.” ¹⁰

1º NOTURNO

A 1ª Antífona do Salmo 68, composta para orquestra e coro, introduz o tom trágico e solene que vigorará por todas as Matinas da Quinta-Feira Santa, cujo texto diz: Zelus domus tuae comedit me, et opprobria exprobantium tibi ceciderunt super me, extraído de um versículo do próprio Salmo 68. (O zelo por tua casa me devorou e os ultrajes dos que te insultavam caíram sobre mim.)
Em seguida, fica a cargo do coro de antigos coroinhas o canto gregoriano do Salmo 68, que se inicia assim: Salvum me fac, Deus: quoniam venerunt aquae usque ad guttur meum. (Salva-me, ó Deus: porque as águas chegaram até o meu pescoço.) ¹¹
Ao final do Salmo 68 ouve-se novamente a sua Antífona, executada pela orquestra e coro.

A 2ª Antífona do Salmo 69 é cantada em gregoriano, como também o próprio salmo, e tem o seguinte texto: Avertantur retrorsum et erubescant, qui cogitant mihi mala. (Retrocedam e envergonhem-se os que me desejam o mal.)
O texto do Salmo 69 se inicia com o conhecido versículo: Deus, in adjutorium meum intende: Domine, ad adjuvandum me festina. (Ó Deus, vinde em meu auxílio: apressa-te, Senhor, em me socorrer.)

Da mesma forma, a 3ª Antífona do Salmo 70 (Deus meus, eripe me de manu peccatoris. Ó meu Deus, tira-me da mão do pecador.) é cantada em gregoriano, como também o próprio salmo que se inicia assim: In te, Domine, speravi, non confundar in aeternum: in justitia tua libera me, et eripe me. (Em ti, Senhor, esperei, não serei confundido para sempre: livra-me por tua justiça e liberta-me.)

Ao final dos três salmos do 1º Noturno com suas respectivas Antífonas, ouve-se ainda o Versículo em gregoriano: Avertantur retrorsum et erubescant, ao qual é dada a Resposta: qui cogitant mihi mala.

Ainda fazem parte do 1º Noturno as três Lições ou Leituras (1ª, 2ª e 3ª) atribuídas ao Profeta Jeremias e chamadas de Lamentações. Todas as três Lições em questão são poemas acrósticos, cada versículo iniciando-se com uma letra do alfabeto hebraico, que também serve de numeração. O canto, nesse caso, é individual, executado por um sacerdote ou coroinha. Ao final de cada Lição há uma fórmula recorrente utilizada por Jeremias, a saber: Jerusalem, Jerusalem, convertere ad Dominum Deum tuum. (Jerusalém, Jerusalém, converte-te ao Senhor teu Deus.)
A seguir vem o Responsório e respectivo Versículo relativo a cada uma das Lições, ambos compostos por Padre José Maria Xavier.

Reproduzimos em seguida a descrição do Prof. Tirado para essa parte do ofício: “As Lamentações são cantadas por um solista, sem acompanhamento, em gregoriano puro. O cantor se coloca próximo ao altar-mor, voltado para a assembleia, ladeado por dois acólitos, com velas acesas.” ¹²

Após a primeira Lição de Jeremias, vem o 1º Responsório para orquestra e coro, em que o compositor sacro utiliza um andamento lento para sua primeira parte (In monte Oliveti oravit ad Patrem: Pater, si fieri potest, transeat a me calix iste (No monte das Oliveiras orou a seu Pai: Pai, se possível, passe longe de mim este cálice), seguido de um andamento rápido com destaque para sopros na sua segunda parte (Spiritus quidem promptus est, caro autem infirma. O espírito em verdade está pronto, mas a carne é fraca.).
O Versículo relativo a esse Responsório diz: Vigilate, et orate, ut non intretis in tentationem. (Vigilai e orai para não cairdes em tentação.) A música agora tem andamento lento, com solo de baixo.
O ritornello é sempre feito do movimento rápido, presente no Responsório, que, nesse caso, é a sua segunda parte.

Terminada a segunda Lição de Jeremias, ouve-se o 2º Responsório, em cuja primeira parte o compositor usa um andamento lento para orquestra e coro. O coro canta: Tristis est anima mea usque ad mortem: sustinete hic, et vigilate mecum: nunc videbitis turbam, quae circumdabit me. (Minha alma está triste até a morte; ficai aqui e velai comigo: agora vereis a turba que me rodeará.) O compositor escolheu a terceira sílaba de “sustinete” para o clímax da peça. A melodia de todo o texto está a cargo das flautas. ¹³
A segunda parte, rápida, do Responsório diz: Vos fugam capietis, et ego vadam immolari pro vobis. Fugireis, e eu vou ser imolado por vós.
O Versículo relativo a esse Responsório é para orquestra com solo de soprano, nos seguintes termos: Ecce appropinquat hora, et Filius hominis tradetur in manus peccatorum. (Eis que se aproxima a hora em que o Filho do homem será entregue às mãos dos pecadores.)
Retorna-se ao andamento rápido do Responsório.

Terminada a terceira Lição do profeta Jeremias, ouve-se o 3º Responsório que consiste inicialmente de um andamento lento a cargo de um tenor solista, acompanhado pela orquestra: Ecce vidimus eum non habentem speciem, neque decorem: aspectus ejus in eo non est. (Eis que o vimos sem brilho nem beleza: não há fisionomia nele.)
Segue-se a segunda parte do Responsório no mesmo andamento, só que agora para orquestra e coro: Hic peccata nostra portavit, et pro nobis dolet: ipse autem vulneratus est propter iniquitates nostras. (Ele tomou sobre si nossos pecados e por nós sofre: cobriu-se de feridas por causa de nossas iniquidades.) Finalizando o Responsório, ouve-se um andamento rápido, com destaque para trompete, clarinetas e flautas (Cujus livore sanati sumus. Por suas dores fomos curados.)
O Versículo desse Responsório é em andamento lento e cantado pelo coro a capella: Vere languores nostros ipse tulit, et dolores nostros ipse portavit. (Verdadeiramente tomou sobre si nossas fraquezas e carregou as nossas dores.).
O ritornello agora é de todo o Responsório, encerrando, desta forma, o 1º Noturno.

2º NOTURNO

Este Noturno é constituído inicialmente por três Salmos, a saber: 71, 72 e 73, todos a cargo do coro dos coroinhas.

A Antífona do Salmo 71 diz: Liberavit Dominus pauperem a potente, et inopem, cui non erat adjutor. (O Senhor livrou o pobre das mãos do poderoso, e o carente que não possui quem o ajude.)

O Salmo 71 inicia-se com: Deus, judicium tuum regi da: et justitiam tuam filio regis. Ó Deus, dá ao rei teu cetro e ao filho (do rei) a tua justiça.

A Antífona do Salmo 72 diz: Cogitaverunt impii, et locuti sunt nequitiam: iniquitatem in excelso locuti sunt. (Os ímpios pensaram e falaram maldade: o que falaram subiu ao céu.)

O Salmo 72 inicia-se com: Quam bonus Israel Deus, his qui recto sunt corde. (Como é bom o Deus de Israel para os de coração reto.)

A Antífona do Salmo 73 diz: Exsurge, Domine, et judica causam meam. (Levanta, ó Senhor, e defende a minha causa.)

E finalmente o Salmo 73 inicia-se com: Ut quid, Deus, repulisti in finem: iratus est furor tuus super oves pascuae tuae? (Por que, Deus, (nos) rejeitaste para sempre: a tua ira se inflamou contra (nós,) as ovelhas de teu pasto?)

Canta-se finalmente o versículo: Deus meus, eripe me de manu peccatoris (Deus meu, livra-me da mão do pecador), ao qual se responde: Et de manu contra legem agentis ei iniqui (E da mão do transgressor da lei e do perverso).

Também fazem parte do 2º Noturno três Lições ou Leituras (4ª, 5ª e 6ª) extraídas do Tratado de Santo Agostinho sobre os Salmos, cantadas por um sacerdote ou coroinha. Não se trata de canto gregoriano puro, pois embora o cantor inicie ortodoxamente o seu canto, logo ele busca uma sílaba tônica no texto para cantar uma melodia em uníssono com a orquestra, desvencilhando-se em seguida da orquestra e seguindo na ortodoxia do seu canto, agora independente da orquestra, que agora o acompanha em ritmo que lembra um “samba”, até que o cantor atinja uma nova sílaba tônica no texto, quando então todo o procedimento se repete. Destaque especial é dado à flauta e ao contrabaixo que têm liberdade para improvisar, especialmente no momento do “samba”. Conforme foi dito acima, a melodia que acompanha as Lições deste 2º Noturno foi retirada da 2ª parte do Miserere do compositor tiradentino Manoel Dias de Oliveira (c. 1738-1813). Todas essas observações valem também para a 4ª, 5ª e 6ª Leituras do referido Tratado de Santo Agostinho que constam do 2º Noturno das Matinas¹⁴.

Prof. Tirado assim se refere ao 2º Noturno: “No Segundo noturno, as três leituras (lições) são tiradas do Tratado do Bispo Santo Agostinho sobre os salmos. Essas lições são cantadas por um solista, posicionado na mesma forma descrita para o canto das Lamentações. Entretanto, a melodia não é gregoriana, mas típica de nossa região, atribuída a Manoel Dias de Oliveira. O cantor é acompanhado pelas cordas e flautas da orquestra.” ¹⁵

Terminado o canto da 4ª Leitura do Tratado de Santo Agostinho na forma descrita acima, vem o 4º Responsório, no qual se observa o mesmo padrão já visto nos responsórios anteriores, com pequenas alterações. Inicia-se a primeira parte com o andamento lento. Acompanhado pelas cordas vem o solo a cargo do baixo: Amicus meus osculi me tradidit signo: quem osculatus fuero, ipse est, tenete eum. (Meu amigo me traiu com um beijo: aquele que eu beijar é esse; prendei-o.) Em seguida, entram a orquestra e coro, ainda no mesmo andamento e com a parte melódica a cargo do trompete, finalizando a primeira parte do 4º Responsório: Hoc malum fecit signum, qui per osculum adimplevit homicidium. (Esse sinal pérfido deu aquele que por um beijo cometeu um homicídio.)
A segunda parte do 4º Responsório é executada em ritmo rápido: Infelix praetermisit pretium sanguinis et in fine laqueo se suspendit. (O infeliz jogou fora o preço do sangue e por fim se enforcou.) Quando a orquestra atinge o trecho “se suspendit” (se enforcou), toca cinco notas individuais formadoras de um acorde de V7 com uma VI abaixada interveniente, decrescendo da nota mais aguda para a mais grave (do tipo fá-ré-si-láb-sol), obtendo os intervalos de três terças menores e uma segunda menor, de um efeito muito impressionante, expressando a queda de um corpo, da seguinte forma:

se   s u s  -  p e n   -   d i t
fá4 ré4      si3 láb3   sol3

Cabe agora ao contralto solar o Versículo: Bonum erat ei, si natus non fuisset homo ille. (Teria sido melhor àquele homem não ter nascido.)
Repete-se finalmente o andamento rápido.

Após o canto da 5ª Leitura do Tratado de Santo Agostinho, ouve-se o 5º Responsório com movimento lento para orquestra e coro, com o seguinte texto: Judas mercator pessimus osculo petiit Dominum; ille ut agnus innocens non negavit Judae osculum. (Judas, muito mau mercenário, aproximou-se do Senhor com um beijo; ele, como cordeiro inocente, não recusou o beijo de Judas.)
A segunda parte do referido Responsório é executada em andamento rápido, com destaque para as cordas, em especial os contrabaixos: Denariorum numero Christum Judaeis tradidit. (Por certa quantidade de denários entregou o Cristo aos judeus.) O solista tenor canta o Versículo:
Melius illi erat, si natus non fuisset. (Melhor lhe fôra se não tivesse nascido.)
O ritornello é, como sempre, do andamento rápido do Responsório.

O 2º Noturno conclui-se com o 6º Responsório, no qual há a queixa de Jesus: Unus ex discipulis meis tradet me hodie (Um dos meus discípulos me trairá hoje), executado em andamento lento pela orquestra acompanhando um dueto de baixo e tenor. Em continuação, ouve-se, a cargo da orquestra e coro: Vae illi per quem tradar ego (Ai daquele por quem eu for traído). A segunda parte do Responsório é em andamento rápido, para orquestra e coro, com destaque para as cordas, em especial os contrabaixos, com a letra do Versículo do Responsório anterior.
O Versículo desse Responsório “Qui intingit mecum manum in paropside, hic me traditurus est in manus peccatorum (O que comigo puser a mão no molho do prato, esse me entregará às mãos dos pecadores) transcorre em tom dramático e lento, a cargo do coro a capella.
Ouve-se ainda o ritornello do andamento rápido.

E por fim, a título de conclusão da conclusão, ouve-se novamente o Responsório. Dessa forma se conclui o 2º Noturno.

3º NOTURNO

Inicialmente, observe-se que o 3º Noturno é constituído por três Salmos (74, 75 e 76) precedidos e concluídos por sua respectiva Antífona, ou seja:
Dixi iniquis: Nolite loqui adversus Deum iniquitatem (Disse aos maus: Não profirais blasfêmia contra Deus) para o Salmo 74, Terra tremuit et quievit, dum exsurgeret in judicio Deus (A terra tremeu e se aquietou, quando Deus se levantar para julgar) para o Salmo 75 e In die tribulationis meae Deum exquisivi manibus meis (No dia de minha tribulação procurei Deus com minhas mãos) para o Salmo 76.

Todos os Salmos, como vimos, são cantados pelo coro dos coroinhas em canto gregoriano.

Para finalizar a 1ª parte do 3º Noturno, canta-se ainda o Versículo Exsurge, Domine (Levanta-te, Senhor), a que se responde: Et judica causam meam (E julga minha causa).

Ainda do 3º Noturno constam três Leituras ou Lições (7ª, 8ª e 9ª) extraídas da primeira Epístola do Apóstolo São Paulo aos Coríntios ¹⁶, cantadas por um sacerdote ou coroinha, com acompanhamento da orquestra, em forma idêntica à descrita para o 2º Noturno.

Observe-se que o mesmo esquema adotado até então é reiterado aqui: após cada Leitura, ouve-se o respectivo Responsório executado ora pela orquestra e coro, ora por um solista, um grupo de solistas ou o coro a capella. Vejamos, portanto, cada um dos três Responsórios.

O 7º Responsório inicia-se com andamento lento para orquestra e coro com melodia nas flautas e clarinetas: Eram quasi agnus innocens; ductus sum ad immolandum et nesciebam: consilium fecerunt inimici mei adversum me, dicentes: (Eu era como um cordeiro inocente; fui levado ao sacrifício, sem o saber: os meus inimigos conspiraram contra mim, dizendo: ).
A segunda parte desse Responsório ganha novo matiz com um andamento rápido com destaque para as cordas, em que o coro canta: Venite, mittamus lignum in panem ejus, et eradamus eum de terra viventium (Vinde, coloquemos madeira no pão dele e eliminemo-lo da terra dos vivos).
Segue-se Versículo desse Responsório para contralto solista acompanhado pelas cordas em andamento lento: Omnes inimici mei adversum me, cogitabant mala mihi: verbum iniquum mandaverunt adversum me, dicentes: (Todos os meus inimigos conjuravam contra mim: encarregaram de comunicar injúria contra mim, dizendo:), após o que se repete a segunda parte do Responsório bem mais viva.

O 8º Responsório inicia-se com uma melodia em dueto para baixo e tenor (Una hora non potuistis vigilare mecum,...), em seguida retomada por todo o coro, sempre acompanhada pela orquestra (qui exhortabamini mori pro me?) (Não pudestes velar uma hora comigo, vós que estáveis animados a morrer por mim?)
Segue-se um andamento rápido para orquestra e coro, com destaque para as cordas, trompas e bombardinos: Vel Judam non videtis, quomodo non dormit, sed festinat tradere me Judaeis? (Ou não vedes Judas, como não dorme, mas se apressa a me entregar aos Judeus?).
A seguir, ouve-se o Versículo desse Reponsório, em andamento menos vivo, para contralto solista e acompanhamento das cordas: Quid dormitis? Surgite et orate, ne intretis in tentationem (Por que dormis? Levantai-vos e orai, para cairdes em tentação).
Esse Responsório conclui-se com a segunda parte rápida do Responsório.

O 9º Responsório, muito parecido com o anterior, abre-se com uma introdução em que se destacam as trompas e bombardinos, seguida por uma melodia para baixo (Seniores populi consilium fecerunt, ...), em seguida retomada por todo o coro e orquestra, com destaque na primeira frase para os contrabaixos e violoncelo em pizzicatto e na segunda frase para as flautas (ut Jesum dolo tenerent, et occiderent). (Os anciãos do povo fizeram uma assembleia para prenderem Jesus mediante trapaça e matarem-no:). 
Pe. José Maria, agora na segunda parte do Responsório, vai procurar, através da música, realçar o disparate de se armarem os soldados com espadas e porretes para prender alguém inofensivo como o Cristo, de enorme efeito estético: consegue isso através de dois ataques precisos e fortes das cordas e coro nas últimas sílabas tônicas das palavras “gladiīs” e “fustibūs”. Portanto, o texto fica: Cum gladiis et fustibus exierunt tamquam ad latronem (Saíram com espadas e porretes como se fora para enfrentar um ladrão).
O Versículo desse Responsório é para coro a capella: Collegerunt pontifices et pharisaei consilium (Os pontífices e fariseus se reuniram em assembleia).
Orquestra e coro retomam, agora de forma inédita, a segunda frase da primeira parte do Responsório (Para prenderem Jesus...) até a sua conclusão.
O ritornello se faz para todo o Responsório (sem Versículo).

Assim se conclui a primeira parte (Matinas) do Ofício de Trevas da Quinta-feira Santa.

LAUDES

Desta forma, chegamos à segunda parte do Ofício de Trevas da Quinta-feira Santa, isto é, às Laudes. Pe. José Maria em sua orquestração dispensa as clarinetas e as flautas.

À complexidade das Matinas segue a simplicidade das Laudes. O coro de coroinhas cantam nesta ordem:
1. três salmos com sua respectiva antífona ¹⁷. Ao final de cada salmo, quando o coro de seminaristas retoma a antífona, é apagada uma vela do candelabro;
2. o Cântico de Moisés (Ex. 15, 1-18), que se inicia com Cantemus Domino: gloriose enim magnificatus est, equum et ascensorem dejecit in mare (Cantemos ao Senhor, pois foi solenemente glorificado: precipitou no mar o cavalo e o cavaleiro), bem como sua antífona Exhortatus es in virtute tua, et in refectione sancta tua, Domine (Encorajaste, Senhor, com o teu vigor, e também com o teu santo repouso);
3. o Salmo 146 (que se inicia com Laudate Dominum quoniam bonus est psalmus: Deo nostro sit jucunda decoraque laudatio. Louvai o Senhor, porque é bom cantar-Lhe hinos, porque merece um alegre e belo louvor), bem como sua antífona Oblatus est, quia ipse voluit, et peccata nostra ipse portavit (Foi imolado, porque Ele mesmo o quis, e tomou sobre Si os nossos pecados).

Após o canto desses 5 salmos, ouve-se o Versículo, cantado pelo celebrante: Homo pacis meæ, in quo speravi (Meu amigo, em quem eu confiava). Como Resposta, o coro de coroinhas canta: Qui edebat panes meos, ampliavit adversum me supplantationem (Aquele que comia do meu pão urdiu contra mim a minha queda).

A seguir, ouve-se a Antífona específica da Quinta-feira Santa que corresponde à Paixão do Senhor e que diz: Traditor autem dedit eis signum dicens: Quem osculatus fuero, ipse est, tenete eum. (O traidor lhes deu um sinal, dizendo: Aquele que eu beijar, é Esse; prendei-o.). Orquestra e coro interpretam-na em andamento lento, com destaque para as trompas. Da parte do coro, ouve-se inicialmente um dueto para baixo e tenor que soa triste, já que trata da traição de Judas através dum sinal de amor: o beijo. A orquestra e coro conclui essa antífona.

No momento que se inicia o CÂNTICO DE ZACARIAS (Lc, 1, 68-79), ainda restam seis velas do altar a serem apagadas. As luzes da igreja são paulatinamente apagadas durante os próximos minutos, ficando finalmente a igreja imersa em trevas.

O esquema utilizado pelo compositor Pe. José Maria Xavier consistiu em alternar um versículo em canto gregoriano entoado pelo coro de coroinhas e sacerdotes, com o próximo versículo cantado pelo coro acompanhado pela orquestra, obtendo um efeito musical de rara beleza. Vejamos abaixo como isso foi obtido, podendo o resultado final ser conferido no vídeo que acompanha este texto:

Cântico de Zacarias (Lc., 1, 68-79)

Canto gregoriano (C.G.): Benedictus Dominus, Deus Israel
Orquestra e Coro (O+C): Quia visitavit, et fecit redemptionem plebis suae.
C.G.: Et erexit cornu salutis nobis: in domo David, pueri sui.
O+C: Sicut locutus est per os sanctorum, qui a sæculo sunt, prophetarum ejus:
C.G.: Salutem ex inimicis nostris, et de manu omnium qui oderunt nos:
O+C: Ad faciendam misericordiam cum patribus nostris: et memorari testamenti sancti.
C.G.: Jusjurandum, quod juravit ad Abraham, patrem nostrum, daturum se nobis:
O+C: Ut sine timore, de manu inimicorum nostrorum liberati, serviamus illi.
C.G.: In sanctitate, et justitia coram ipso, omnibus diebus nostris.
O+C: Et tu, puer, Propheta Altissimi vocaberis: præibis enim ante faciem Domini parare vias ejus,
C.G.: Ad dandam scientiam salutis plebi ejus, in remissionem peccatorum eorum:
O+C: Per viscera misericordiæ Dei nostri, in quibus visitavit nos, oriens ex alto:
C.G.: Illuminare his, qui in tenebris, et in umbra mortis sedent:
O+C: Ad dirigendos pedes nostros in viam pacis.

(Minha tradução para o Cântico de Zacarias: Bendito seja o Senhor Deus de Israel,/ porque visitou o seu povo e fez sua redenção./ E fez surgir a nossa salvação na casa de Davi, seu servo./ Como falara pela boca dos seus santos profetas, desde os tempos antigos:/ que nos salvaria de nossos inimigos e da mão de todos quantos nos odiavam:/ para usar de misericórdia com nossos pais, em memória da sua santa aliança;/ que cumpriria o juramento, que fizera a Abraão, nosso pai, de que nos concederia/ que, libertos das mãos dos nossos inimigos, a Ele servíssemos sem temor,/ em santidade e justiça, diante d’ Ele, por todos os nossos dias./ E você, servo, será chamado Profeta do Altíssimo, pois irá à frente do Senhor para preparar-Lhe os caminhos:/ para dar a conhecer a salvação a seu povo, para remissão de seus pecados./ Pela misericórdia de nosso Deus, que nos visitou, vindo do alto:/ para iluminar aqueles que jazem nas trevas e na sombra da morte:/ para dirigir os nossos passos no caminho da paz./)

Ao final do Cântico de Zacarias, ouve-se mais uma vez a antífona da Quinta-feira Santa.

Segue-se a Antífona Solene executada pelo coro e orquestra, que diz: Christus factus est pro nobis obœdiens usque ad mortem (Cristo fez-se por nós obediente até a morte). Esse texto foi extraído da Epístola de São Paulo aos Filipenses que, completo, incluiria uma conclusão: “e morte de cruz” (mortem autem crucis), ficando portanto: Cristo fez-se por nós obediente até a morte, e morte de cruz (Fl 2, 8-9), que, afinal, é o texto da Antífona Solene da Sexta-feira Santa. Quer-me parecer que a exclusão da expressão final deve-se ao fato de que a antífona da Quinta-feira Santa se ocupa da Paixão do Senhor, deixando para a Sexta-feira Santa tudo o que se refira à sua Morte.
O compositor optou por dar a essa Antífona Solene um caráter trágico, em modo menor, pondo em destaque os contrabaixos e as trompas na orquestra e utilizando a dissonância, que é aliviada a partir do vocábulo “obœdiens” até o seu final.

As Laudes concluem-se com uma oração feita pelo Bispo: Respice, quaesumus, Domine, super hanc familiam tuam, pro qua Dominus noster Jesus Christus non dubitavit manibus tradi nocentium, et crucis subire tormentum. (Digna-te, Senhor, lançar um olhar sobre a tua família, pela qual Nosso Senhor Jesus Cristo não hesitou em se entregar às mãos dos criminosos e sofrer o tormento da cruz.)

Neste instante, todos os presentes batem o pé no chão imitando o abalo sísmico que se seguiu à morte de Cristo.

Gostaria de finalizar esta crônica da ofício noturno da Quinta-feira Santa da Semana Santa de São João del-Rei, dando crédito a algumas pessoas que abrilhantaram essa solene comemoração:

1) o Reverendíssimo Bispo Diocesano de São João del-Rei, Dom Frei Célio de Oliveira Goulart, Bispo Diocesano de São João del-Rei, por toda a comemoração litúrgica;
2) o Reverendíssimo Pároco e Cura da Catedral Basílica Nossa Senhora do Pilar, Padre Geraldo Magela da Silva;
3) a Irmandade do Santíssimo Sacramento, patrocinadora de todas as solenidades da Semana Santa na Catedral Basílica e que neste ano de 2011 está completando o seu 300º aniversário de fundação;
4) a Orquestra Ribeiro Bastos, sob a direção da maestrina Maria Stella Neves Valle, pela execução orquestral e coral;
5) o comentarista sacro Prof. Abgar Campos Tirado;
6) a Rádio São João del-Rei, pela impecável transmissão radiofônica de todas as solenidades da Semana Santa, a cargo do competente radialista José Mário de Araújo;
7) a TV Campos de Minas, pela transmissão televisiva de todas as solenidades da Semana Santa.

NOTAS DO AUTOR

Obs.: Para escrever esta crônica, não tive acesso às partituras dos compositores aqui mencionados. Sobretudo por isso, adotei a perspectiva de um espectador comum, em visita à cidade para participar das solenidades festivas que se realizam anualmente, o qual se maravilha com a celebração desse ofício litúrgico. As impressões que o marcam durante cerca de três horas — tal é a duração desse ofício — são aqui registradas em forma de breves anotações como uma espécie de ajuda-memória. Com essa ressalva, penitencio-me antecipadamente por usar terminologia leiga, não condizente com trabalho acadêmico-científico, especialmente no campo da Música.
Principalmente para o texto latino aqui comentado, o autor utilizou o livro "Piedosas e Solenes Tradições de Nossa Terra", trabalho desenvolvido pela Equipe de Liturgia da Paróquia da Catedral Basílica de Nossa Senhora do Pilar coordenada pelo Monsenhor Sebastião Raimundo de Paiva, I Volume com o subtítulo A Quaresma e a Semana Santa em São João del-Rei, Juiz de Fora: Esdeva Empresa Gráfica Ltda., 1ª edição, 1982.

¹ NEVES, J.M.: “A música em São João del-Rei”, in http://www.saojoaodelreitransparente.com.br/projects/view/156

² Salmo 50, penitencial, que se inicia com as célebres palavras: “Miserere mei, Deus, secundum magnam misericordiam tuam…”.

³ O referido coro de coroinhas foi fundado em 1972 pelo Padre José Teixeira e é preparado, para as celebrações da Semana Santa, pela organista Irene Sacramento e pelo Prof. Abgar Campos Tirado.

Em São João del-Rei, nas solenidades promovidas pela Irmandade do Santíssimo Sacramento, a manhã da Quinta-Feira Santa é dedicada à solene Missa do Crisma, concelebrada com todos os Padres da Diocese numa clara manifestação da comunhão dos presbíteros com o seu Bispo, consagrando os Santos Óleos dos enfermos, do sacro Crisma e dos Catecúmenos. Por isso, foi reservada a noite da Quarta-Feira para a celebração do Ofício de Trevas da Quinta-Feira Santa.


O Ofício Divino é dividido em oito Horas (Canônicas), em conformidade com o hábito de se louvar a Deus continuamente ao longo das horas do dia. Seguindo os tempos antigos, as Matinas e Laudes são rezadas respectivamente à meia-noite e às 3h da madrugada, portanto antes do nascer do sol. Depois do nascer do sol, vêm as seguintes Horas: primeira, terceira, sexta e nona hora do dia, correspondentes às 7, 9, 12 e 15 horas em que há luz do dia. As Vésperas ocorrem com o por-do-sol (18h), enquanto as Completas (Completorium, em latim), às 21h, completam o dia com o seu ciclo de horas. Entretanto, as Horas podem ser rezadas a qualquer tempo, de acordo com a própria conveniência.
O Ofício Divino propriamente dito é composto dos 150 salmos do Antigo Testamento, então divididos ao longo dos sete dias da semana, de modo que todos os salmos sejam recitados na duração de uma semana. Além dos salmos, há leituras das Sagradas Escrituras, comentários sobre elas feitos pelos Padres e Doutores da Igreja e curtos relatos das vidas dos santos.

Outra observação curiosa é que as Laudes são constituídas de 5 Salmos.
Por sua vez, as Matinas compreendem 9 Salmos, já que cada um de seus 3 Noturnos têm 3 Salmos. Portanto, ao todo perfazem 14 Salmos no Ofício de Trevas, que correspondem a 14 velas do grande candelabro triangular. A 15ª vela, a que não se apaga e que se assenta no vértice do triângulo, simboliza Cristo que venceu a morte e o sepulcro.

⁷ Neste ano de 2011, a Venerável Irmandade do Santíssimo Sacramento, à qual tenho a honra de pertencer, está comemorando 300 anos de sua fundação canônica e de fecunda existência em prol da comunidade católica são-joanense.

São três os Ofícios de Trevas celebrados na Catedral Basílica de Nossa Senhora do Pilar, de São João del-Rei: o da Quinta-feira Santa, objeto de nossa análise, com início previsto para as 19h; o da Sexta-feira Santa, às 8h da manhã, e o do Sábado Santo, às 8h30min.

TIRADO, A.C.: “Os Ofícios de Trevas na Catedral Basílica de Nossa Senhora do Pilar”, em publicação intitulada “Semana Santa 2010 em São João del-Rei”, publicada pela LM Eventos em parceria com o Editor José Mário de Araújo, p. 8-9.

¹⁰ TIRADO, A.C.: ibidem, p. 9.

¹¹ Não só este — Salmo 68 —, mas inúmeros Salmos ou são diretamente messiânicos (referentes ao Messias) ou referem-se a Davi e indiretamente ao Messias por ser seu descendente direto.

Quanto ao texto para acompanhamento das cerimônias pelo público, informo que a Equipe de Liturgia da Paróquia da Catedral Basílica de Nossa Senhora do Pilar publicou: Piedosas e Solenes Tradições de nossa Terra, 1º volume intitulado "A Quaresma e a Semana Santa em São João del-Rei", impresso na SEGRAC, 1997, 2ª edição, p. 134. Nesta edição, o texto para os Salmos segue as reformas e modificações feitas pela CNBB-Conferência Nacional dos Bispos do Brasil e aprovadas pela Santa Sé nos livros litúrgicos.
Por outro lado, no texto da 1ª edição de 1982, por exemplo, a referida antífona inicial correspondia à tradução de São Jerônimo: Salvum me fac, Deus: quoniam intraverunt aquae usque ad animam meam. (Salva-me, ó Deus: porque as águas entraram até na minha alma.) Também a 1ª edição trazia também o texto integral dos salmos, ao passo que a nova edição traz apenas os versos que efetivamente são cantados pelo coro dos coroinhas.

¹² TIRADO, A.C.: idem, p. 8.

¹³ Isso dá ensejo a uma observação sobre uma característica importante do compositor são-joanense Pe. José Maria Xavier: o coro quase nunca tem função melódica preponderante na composição de suas peças, cabendo-lhe o papel de acompanhamento para uma melodia que fica a cargo ou dos violinos ou de um ou mais instrumentos de sopro. Esse “fundo” ou bloco harmônico vocal dá um matiz característico e especial a suas peças sacras.

¹⁴ A título de exemplo, o cantor iniciará ortodoxamente a 4ª Leitura com o seguinte texto: Ex Tractatu sancti Augustini Episcopi super Psalmos. Até atingir a primeira sílaba forte da palavra “Psalmos”, canta independente da orquestra, que segue um ritmo que convencionamos chamar de “samba”. Na sílaba tônica “psa” faz uma parada mais demorada, com o objetivo de exercer um poder de atração sobre toda a orquestra, com a qual passa a entoar, em uníssono e sem abandonar a sílaba tônica selecionada, a melodia da 2ª parte do Miserere de Manoel Dias de Oliveira. Continuando, o cantor segue a linha melódica gregoriana até uma nova sílaba tônica previamente selecionada, quando então todo o procedimento visto se repete.
Idênticas observações cabem para a 7ª, 8ª e 9ª Leituras da Primeira Carta de São Paulo aos Coríntios que constam do 3º Noturno das Matinas.

¹⁵ TIRADO, A.C.: idem, p. 8.

¹⁶ Respectivamente, Cap. 11, versículos 17-22, 23-26 e 27-34.

¹⁷ Correspondem aos Salmos 50, 89 e 35.
O Salmo penitencial nº 50 (que se inicia com Miserere mei, Deus, secundum magnam misericordiam tuam, isto é: Ó Deus, tem piedade de mim, segundo a tua grande misericórdia) tem como antífona: Justificeris, Domine, in sermonibus tuis, et vincas cum judicaris (Serás justo em tuas sentenças, ó Senhor, e vencerás quando condenares).
O Salmo 89 (que se inicia com Domine, refugium factus es nobis a generatione in generationem, isto é: Senhor, tornaste nosso refúgio, de geração em geração) tem como antífona: Dominus tamquam ovis ad victimam ductus est, et non aperuit os suum (O Senhor foi levado ao sacrifício como cordeiro, sem ter aberto a boca).
O Salmo 35 (que se inicia com Dixit injustus ut delinquat in semetipso: non est timor Dei ante oculos ejus, isto é: O injusto disse para si mesmo que pecará: não há temor de Deus ante seus olhos.) tem como antífona: Contritum est cor meum in medio mei, contremuerunt omnia ossa mea. (Meu coração está apertado no meu peito; todos os meus ossos tremeram.)








* Francisco José dos Santos Braga, cidadão são-joanense, tem Bacharelado em Letras (Faculdade Dom Bosco de Filosofia, Ciências e Letras, atual UFSJ) e Composição Musical (UnB), bem como Mestrado em Administração (EAESP-FGV). Além de escrever artigos para revistas e jornais, é autor de dois livros e traduziu vários livros na área de Administração Financeira. Participa ativamente de instituições no País e no exterior, como Membro, cabendo destacar as seguintes: Académie Internationale de Lutèce (Paris), Familia Sancti Hieronymi (Clearwater, Flórida), SBME-Sociedade Brasileira de Música Eletroacústica (2º Tesoureiro), CBG-Colégio Brasileiro de Genealogia (Rio de Janeiro), Academia de Letras e Instituto Histórico e Geográfico de São João del-Rei-MG, Instituto Histórico e Geográfico de Campanha-MG, Academia Valenciana de Letras e Instituto Cultural Visconde do Rio Preto de Valença-RJ e Fundação Oscar Araripe em Tiradentes-MG. Possui o Blog do Braga (www.bragamusician.blogspot.com), um locus de abordagem de temas musicais, literários, literomusicais, históricos e genealógicos, dedicado, entre outras coisas, ao resgate da memória e à defesa do nosso patrimônio histórico.Mais...

quinta-feira, 14 de abril de 2011

Tradução de poemas poloneses > > Parte 1


Por Francisco José dos Santos Braga

Pelo presente, venho trazer ao público lusófono algumas traduções de minha lavra para poemas poloneses, que o Blog do Braga publicou em 18 de março de 2010 como apêndice à Parte 6 da série de matérias e ensaios dedicados a comemorar condignamente o bicentenário do nascimento do compositor polonês Franciszek Fryderyk Chopin (Żelazowa Wola, 1810 - Paris, 1849), sob a denominação "2010-Ano Chopin". O motivo dessa transposição para esta página se deve à sugestão de minha irmã Elizabeth, que me recomendou dar o devido destaque a esses poemas de fino labor intelectual e que são uma expressão viva da cultura polonesa.

Consta que o celebrado poeta italiano Eugenio Montale, ao ser-lhe concedido o Prêmio Nobel de Literatura em 1975, proferiu importante discurso intitulado "É ainda possível a poesia?", onde se pergunta sobre o lugar que ainda pode ocupar "a mais discreta das artes" num mundo em que "o homem civilizado chegou ao ponto de ter horror de si". A resposta continha ainda alguma esperança: para a poesia "que surge quase por milagre e parece condensar toda uma época, para essa poesia não há morte possível..."

Já se passaram quase 36 anos depois do célebre questionamento. Por acaso, não há agora maiores motivos para se ficar inquieto quanto ao futuro da poesia? Os condicionalismos que se faziam sentir na década de 70 do século passado não se agravaram, com o triunfo da mediocracia? No século XXI a poesia ainda é possível?

Em Mensagem homenageando o Dia Mundial da Poesia, em 21 de março de 2010, o poeta português António Osório deu a seguinte resposta à minha indagação:

"A defesa da poesia cabe aos poetas. Muito têm resistido, têm que resistir mais ainda.

A experiência diz-me que as leituras de poesias nas escolas e nas universidades, pelos próprios poetas, o diálogo que têm que estabelecer com os alunos seus ouvintes é uma das melhores formas de humanizar o poeta e chamar o interesse para a poesia que faz. E não se devem limitar essas leituras ao próprio país... (...) Não basta o esforço isolado do poeta. O confinamento ao seu próprio país lhe é nefasto. (...)

Sem dúvida, a poesia terá que ser um 'refúgio' contra a voragem tecnocrática, contra o desrespeito pela beleza do mundo, contra a destruição da paisagem. Os seus são os valores da vida, a poesia é, como Croce sempre defendeu, a 'palavra cósmica', uma forma de não se submeter, mas de se indignar, de estar ao lado dos humilhados, uma afirmação humanista.

Retenhamos essas palavras de Rainer Maria Rilke, nas suas Cartas a um jovem Poeta: 'ser artista é amanhecer como as árvores, que não duvidam da própria seiva e que enfrentam tranquilas as tempestades da Primavera, sem recear que o Verão não chegue.'

Teremos de ser como elas, que não põem em causa a própria seiva e que resistem às tempestades da Primavera."

Nesta matéria veremos alguns defensores da causa poética na Polônia.




A escritora Wisława Szymborska nasceu em Kórnik, em 2 de julho de 1923.
Destacou-se como poetisa com uma obra que tem como tema as vicissitudes da Polônia moderna. Emprega uma linguagem simples e coloquial, herança do realismo social que dominou a Europa oriental, mas sua modernidade se revela no tom irônico e na complexidade formal de muitas de suas poesias.

Recebeu o Prêmio Nobel de Literatura de 1996.

Prof. Dr. Henryk Siewierski, professor do Departamento de Teoria Literária e Literaturas da UnB, escreve a respeito de Szymborska : " (...) No centro desta poesia reside uma concepção trágica do mundo e da existência humana, mas a poetisa é uma fingidora que sabe controlar e disfarçar as suas emoções. Ela finge que escreve apenas sobre as questões cotidianas, que não se preocupa com a arte poética, que escreve com facilidade e que tudo é mais simples e mais leve do que parece ser. (...)" (História da Literatura Polonesa, p. 210-211, Ed. UnB, 2000)



VIETNAM

Wisława Szymborska

Mulher, como te chamas? — Não sei.
Quando nasceste, donde vens? — Não sei.
Para que cavaste uma toca na terra? — Não sei.
Desde quando aqui te escondes? — Não sei.
Por que mordeste meu dedo anular? — Não sei.
Sabes que nada te fizemos de mal? — Não sei.
De que lado estás? — Não sei.
Agora é guerra, precisas escolher. — Não sei.
Tua aldeia ainda existe? — Não sei.
Estes são os teus filhos? — Sim.

Wietnam

Kobieto, jak się nazywasz? - Nie wiem.

Kiedy się urodziłaś, skąd pochodzisz? - Nie wiem.

Dlaczego wykopałaś sobie norę w ziemi? – Nie wiem.
Odkąd się tu ukrywasz? - Nie wiem.

Czemu ugryzłaś mnie w serdeczny palec? - Nie wiem.

Czy wiesz, że nie zrobimy ci nic złego? - Nie wiem.

Po czyjej jesteś stronie? - Nie wiem.

Teraz jest wojna musisz wybrać. - Nie wiem.

Czy twoja wieś jeszcze istnieje? - Nie wiem.

Czy to są twoje dzieci? - Tak.


ELOGIO DA IRMÃ
Wisława Szymborska

Minha irmã não escreve poemas
e é improvável que vá começar de repente a escrever poemas.
Puxou isso à mãe, que não escrevia poemas,
ou ao pai, o qual também não escrevia poemas.
Sob o teto de minha irmã me sinto segura:
por nada neste mundo, o marido dela escreveria poemas.
E apesar de isso soar como uma obra de Adam Macedoński,
nenhum dos parentes se ocupa de escrever poemas.

Nas gavetas de minha irmã não há antigos poemas
nem na bolsa os escritos recentemente.
E quando minha irmã me convida para almoçar,
sei que não pretende ler para mim seus poemas.
Suas sopas são excelentes sem premeditação,
e o café não se derrama nos manuscritos.

Em muitas famílias ninguém escreve poemas,
mas nas que isso se faz — raro é só uma pessoa.
Às vezes a poesia flui em cascatas de gerações,
nos sentimentos mútuos criando redemoinhos sérios.

Minha irmã cultiva boa prosa,
e toda a sua obra escrita são cartões postais de férias,
com um texto prometendo a mesma coisa, todo ano:
que ao retornar
tudo
tudo
tudo vai contar.

Pochwała siostry

Moja siostra nie pisze wierszy

i chyba już nie zacznie nagle pisać wierszy.

Ma to po matce, która nie pisała wierszy,

oraz po ojcu, który też nie pisał wierszy.

Pod dachem mojej siostry czuję się bezpieczna:

mąż siostry za nic w świecie nie pisałby wierszy.

I choć to brzmi jak utwór Adama Macedońskiego,
nikt z krewnych nie zajmuje się pisaniem wierszy.



W szufladach mojej siostry nie ma dawnych wierszy
ani w torebce napisanych świeżo.

A kiedy siostra zaprasza na obiad,

to wiem, że nie w zamiarze czytania mi wierszy.

Jej zupy są wyborne bez premedytacji,

a kawa nie rozlewa się na rękopisy.



W wielu rodzinach nikt nie pisze wierszy,

ale jak już - to rzadko jedna tylko osoba.

Czasem poezja spływa kaskadami pokoleń,

co stwarza groźne wiry w uczuciach wzajemnych.



Moja siostra uprawia niezłą prozę mówioną,

a całe jej pisarstwo to widokówki z urlopu,

z tekstem obiecującym to samo każdego roku:

że jak wróci,

to wszystko
wszystko
wszystko opowie.





Sobre o escritor Leopold Staff, deixo as notícias a cargo da visão autorizada do Prof. Dr. Henryk Siewierski: "Leopold Staff (1878-1957) nasceu em Lvov numa família de austríacos polonizados, estudou filologia românica e filosofia, foi editor da importante série de obras filosóficas Sympozjon. Em 1918 muda-se para Varsóvia, onde participa da organização da Academia Polonesa de Literatura. Durante a Segunda Guerra permanece em Varsóvia, traduzindo autores latinos e publicando os seus poemas na imprensa clandestina. Depois da guerra vive na Polônia. Aclamado como o maior poeta contemporâneo, premiado e condecorado, continua fiel a si mesmo, buscando novas formas de expressão. Staff é também considerado um dos maiores tradutores poloneses das literaturas clássicas e modernas." (Ibidem, p. 133)


AMAR E PERDER
Leopold Staff

Amar e perder, desejar e lamentar,
Cair doridamente e de novo erguer-se,
Gritar com saudade "Fora!" e implorar "Guie!"
Eis uma vida: nada, e contudo bastante...

Correr desertos por uma jóia só,
Ir às profundezas atrás de uma pérola pela beleza do prodígio,
Para que atrás de nós ficassem apenas eles —
Rastros na areia e círculos na água.

Kochać i tracić

Kochać i tracić, pragnąc i żałować,
Padać boleśnie i znów się podnosić,
Krzyczeć tęsknocie "precz!" i błagać "prowadź!"
Oto jest życie: nic, a jakże dosyć...

Zbiegać za jednym klejnotem pustynie,
Iść w toń za perłą o cudu urodzie,
Ażeby po nas zostały jedynie
Siady na piasku i kręgi na wodzi.




Jan Brzechwa (1898-1966) nasceu em Żmerynka, Podolia (hoje Ucrânia), de uma família polonesa de descendência judaica, foi um poeta e autor, principalmente conhecido por sua contribuição para a literatura infantil.
Após mudar-se para a cidade de Varsóvia, graduou-se em Direito pela Universidade de Varsóvia. Durante a Guerra Polaco-Soviética, serviu no 36º Regimento da Legião Acadêmica e sua estréia formal como escritor aconteceu em 1920 através de várias revistas de humor.
Brzechwa morreu em Varsóvia em 1966.

O PREGUIÇOSO
Jan Brzechwa

No sofá-cama está sentado o preguiçoso,
Não faz nada o dia inteiro.

— Oh! rejeito isso para mim!
Como assim? Eu não faço nada?
E quem está sentado no sofá-cama?
E quem tomou o café da manhã?
E quem hoje cuspia e pegava?
E quem se coçou na cabeça?
E quem hoje perdeu as galochas?
Ah! Por favor!

No sofá-cama está sentado o preguiçoso,
Não faz nada o dia inteiro.

— Com licença! E eu não tomava emulsão de Scott?
E hoje não lavava as orelhas?
E não arranquei botão?
E não mostrei língua?
E não estava indo para tosquiar-me?
Isso tudo se chama nada?

No sofá-cama está sentado o preguiçoso,
Não faz nada o dia inteiro.

Ele não foi à escola, porque não lhe apeteceu.
Não fez o dever de casa, porque teve pouco tempo demais,
Não amarrou os cadarços, porque não estava a fim,
Não disse "bom dia", porque isso daria trabalho demais,
Não deu de beber a Totó, porque a água fica longe demais.
Não alimentou o canário, porque teve dó do tempo;
Ia jantar — apenas mascou com a boca,
Ia deitar-se — não teve tempo — adormeceu.
Sonhou que se incomodava enormemente com algo,
Ficou tão cansado desse sonho que acordou.

Leń

Na tapczanie siedzi leń,
nic nie robi cały dzień.

"O, wypraszam to sobie!
Jak to ja nic nie robię?
A kto siedzi na tapczanie?
A kto zjadł pierwsze śniadanie?
A kto dzisiaj pluł i łapał?
A kto się w głowę podrapał?
A kto dziś zgubił kalosze?
O - o! Proszę!"

Na tapczanie siedzi leń,
nic nie robi cały dzień.

"Przepraszam! A tranu nie piłem?
A uszu dzisiaj nie myłem?
A nie urwałem guzika?
A nie pokazałem języka?
A nie chodziłem się strzyc?
To wszystko nazywa się nic?"

Na tapczanie siedzi leń,
nic nie robi cały dzień.

Nie poszedł do szkoły, bo mu się nie chciało,
nie odrobił lekcji, bo czasu miał za mało.
Nie zasznurował trzewików, bo nie miał ochoty,
nie powiedział "dzień dobry", bo z tym za dużo roboty,
nie napoił Azorka, bo za daleko jest woda,
nie nakarmił kanarka, bo czasu mu było szkoda.
Miał zjeść kolację - tylko ustami mlasnął,
miał położyć się spać - nie zdążył - zasnął.
Śniło mu się, że nad czymś ogromnie się trudził.
Tak zmęczył się tym snem, że się obudził.




Também sobre Julian Tuwim, ouçamos o que o Prof. Dr. Siewierski tem a nos dizer:
"Julian Tuwim (1894-1953) passou a infância e a juventude em Łódź, uma grande cidade industrial. Em 1916 muda-se para Varsóvia onde estuda Direito e Filosofia, escreve para a revista de jovens Pro Arte et Studio e apresenta-se no cabaré "Pod Pikadorem". (...) Seus poemas dinâmicos captam cenas da cidade grande, focalizam a situação do homem comum, expressando na linguagem da rua os encantos da vida cotidiana. Com o tempo, a afirmação da realidade dá cada vez mais lugar à crítica social. (...) Fascinado pela língua, pesquisa e explora seus vários registros, desde a língua de Jan Kochanowski até o jargão dos bêbados (é autor de um Dicionário Polonês de Bêbados). Interessa-se pela poesia de Walt Whitman e pelo Futurismo russo. É também autor de inigualáveis poemas para crianças. Exilado durante a Segunda Guerra, passa dois anos no Brasil..." (Ibidem, p. 146-147)


ÓCULOS
Julian Tuwim

Sr. Hilário corre, grita:
"Onde estão meus óculos?"

Procura na calça e no casaco,
No sapato direito, no sapato esquerdo.

Revirou tudo nos guarda-roupas,
Apalpa o roupão, o sobretudo tateia.

"Um escândalo! — grita — é incrível!
Alguém me furtou os óculos."

Sob o sofá, no sofá,

Em toda a parte busca, bufa, arfa!

Procura no forno e na chaminé,
Na toca do rato, do piano entre as teclas.


Já quer arrancar o piso,
Já começou a chamar a polícia.

De repente — olhou para o espelho...
Não quer acreditar... De novo olha.

Eureka!... Cá estão! O que se passou
É que ele os traz no próprio nariz.

Okulary

Biega, krzyczy pan Hilary:

"Gdzie są moje okulary?"



Szuka w spodniach i w surducie,

W prawym bucie, w lewym bucie.



Wszystko w szafach poprzewracał,

Maca szlafrok, palto maca.



"Skandal! - krzyczy - nie do wiary!

Ktoś mi ukradł okulary!"



Pod kanapą, na kanapie,

Wszędzie szuka, parska, sapie!



Szuka w piecu i w kominie,

W mysiej dziurze i w pianinie.



Już podłogę chce odrywać,

Już policję zaczął wzywać.



Nagle zerknął do lusterka...

Nie chce wierzyć... Znowu zerka.



Znalazł! Są! Okazało się,

Że je ma na własnym nosie.





* Francisco José dos Santos Braga, cidadão são-joanense, tem Bacharelado em Letras (Faculdade Dom Bosco de Filosofia, Ciências e Letras, atual UFSJ) e Composição Musical (UnB), bem como Mestrado em Administração (EAESP-FGV). Além de escrever artigos para revistas e jornais, é autor de dois livros e traduziu vários livros na área de Administração Financeira. Participa ativamente de instituições no País e no exterior, como Membro, cabendo destacar as seguintes: Académie Internationale de Lutèce (Paris), Familia Sancti Hieronymi (Clearwater, Flórida), SBME-Sociedade Brasileira de Música Eletroacústica (2º Tesoureiro), CBG-Colégio Brasileiro de Genealogia (Rio de Janeiro), Academia de Letras e Instituto Histórico e Geográfico de São João del-Rei-MG, Instituto Histórico e Geográfico de Campanha-MG, Academia Valenciana de Letras e Instituto Cultural Visconde do Rio Preto de Valença-RJ e Fundação Oscar Araripe em Tiradentes-MG. Possui o Blog do Braga (www.bragamusician.blogspot.com), um locus de abordagem de temas musicais, literários, literomusicais, históricos e genealógicos, dedicado, entre outras coisas, ao resgate da memória e à defesa do nosso patrimônio histórico.Mais...