quinta-feira, 31 de março de 2016

OBRA POÉTICA DO DEPUTADO JOSÉ BARBOSA


Por Francisco José dos Santos Braga




No dia 22 de setembro de 1992, publiquei, no Jornal de Brasília, “Odes e Poemas de Elevado Misticismo¹, uma crítica literária a um livro de poesias intitulado “Odes e Poemas” do conhecido Deputado José Barbosa, que é, além de poeta, jornalista de grande expressão e advogado pela Faculdade de Direito do Largo São Francisco, tendo assessorado o Presidente Getúlio Vargas e exercido diversas vezes o mandato de deputado federal por São Paulo.

No bojo daquele livro destacavam-se seis páginas destinadas à descrição do formidável fenômeno do estouro da boiada, em verso. O tema já fora abordado por dois dos mais consagrados escritores do País: Euclides da Cunha, em “Os Sertões” em 1902, e Rui Barbosa, em Conferência de Juiz de Fora, pronunciada em 17 de fevereiro de 1910, durante a Campanha Civilista.

É de se imaginar a dificuldade de se cantar em versos o que Euclides e Rui fizeram em prosa, em páginas que se tornaram clássicas na Literatura Brasileira. Mas José Barbosa não se intimidou com o brilho dos que o precederam e, lançando mãos à obra, com traços firmes e vigorosos, debuxou o quadro de reses em debandada, num tropel desabrido e louco, arrastando consigo tudo de roldão.

A narrativa do fenômeno é feita na primeira pessoa do singular por um boiadeiro (o autor?) que ativamente assiste à condução da manada, “criação do Zé Caetano, lá das Uberabas”. Sobrevindo a disparada, o rebanho, “num só corpo atomizado”, faz meia volta, arroja-se nas agitadas águas do Rio Grande e retorna ao sítio de onde saíra. Na recontagem das reses, dá-se pela falta de uma rês, “aquele boi pintado, o culatreiro cego das esquerdas”. Finalmente, faz-se a descrição da chegada do mesmo rebanho a seu destino, a fazenda Santa Fé, do Coronel Barreto, que, satisfeito com a chegada das reses, manda preparar festa a noite inteira, em homenagem àqueles peões valorosos.

O Estouro da Boiada”, de José Barbosa, ² vem de ser relançado pela Razão Cultural Editora, Rio de Janeiro, 1998, com ilustrações de Marta Süssekind. A obra traz os três textos sobre o estouro da boiada, com uma breve biografia de seus autores. Além disso, a apresentação do poeta é feita pelo jornalista e ex-parlamentar do Rio de Janeiro, Oscar Noronha Filho, ficando o prefácio a cargo de Esther de Figueiredo Ferraz, ex-Ministra da Educação e colega de José Barbosa na Faculdade de Direito.

Constam ainda do livro trechos do meu artigo supracitado e de uma carta do jornalista e historiador paulista Adriano Campanhole dirigida ao poeta em 1994.

Para deleite dos leitores deste prestigioso jornal ³, José Barbosa autorizou, em caráter excepcional, à Casa do Poeta Brasileiro-Seção de Brasília, a transcrição do seu poema, na íntegra, reproduzido a seguir para o deleite do leitor.

                                                                                               O ESTOURO DA BOIADA                                                            

À memória de Moisés Barbosa e Tonico Barbosa,
legendários boiadeiros...

José Barbosa

Nessas viajadas para compra de boi magro,
Nunca me esqueço, ao vivo, do estouro da boiada,
Por motivo fortuito ou às vezes provocado:
O trem de ferro apitando nas curvas,
A onça que num relance corta a estrada,
O repentino raio ao ribombo do trovão,
Caixa de marimbondo bravo despencada,
Tiroteios ou rojões improvisados,
Labaredas de fogo em queimadas de agosto,
Ou até mesmo fantasma nas encruzilhadas...

À frente da manada, guias na condução,
Alinham-se marruáses e marrucos,
Mestiços de gir e guzerá,
Criação do Zé Caetano, lá das Uberabas,
Rebeldes aos cabrestos, aos laços e às cangas...

Inopinadamente, estacam-se estes bois,
Erguem-se suas cabeças reluzentes,
Olhos exorbitantes, temerosos,
Eretas as orelhas, pêlos eriçados,
Reviram-se nas suas patas firmados,
As caudas levantando na altura das ancas,
Debandam-se em satânica abalada,
E vão rompendo tudo de roldão...

Invertem-se, num ímpeto, as posições,
Culatra transformando-se na ponta,
Esta em culatra então vai se tornando,
Até se retornar ao que antes era.

A rês, de boi, vira boiada,
Boiada inteira vira boi,
Os músculos e nervos retesados,
Os chifres se batendo entrelaçados,
Cascos riscando pedreiras,
Faíscas por todos os lados,
Cheiro de queimado no ar...

Disformes estruturas movediças,
Num só corpo atomizado,
Súbitas explosões de força reprimida,
Ao expandir-se em latentes energias...

Na desabrida e louca disparada,
Vai deslocando tudo de arrastão,
Cerca-de-arame e porteiras,
Mato-virgem e capoeiras,
Os currais e pontilhões.
Acamam-se os capinzais,
Moitas grandes de macegas,
Rangem-se os ressequidos carrascais,
Estalam-se os raquíticos cerrados,
Choram os verdes das roças de plantação,
Afugentam-se levas de animais,
Casas de passarinho rolam pelo chão,
Até cobras pisoteadas...

Envereda o rebanho em atropelo
Na direção das orlas do rio Grande,
Que os limites assenta com Minas Gerais,
Voltando para o pouso de onde saíra.

Arroja-se nas águas do agitado rio,
Nada o gado ao sabor das correntezas,
Serpenteia-se em sinuosa diagonal,
Descendo assim como se pesca de rodada,
Segue o rumo das margens do outro lado.

Como o piloto que do barco perde a rota,
Permanecem agora os destemidos peões,
Mas aparece o capataz na liderança,
Dirigem-se para o antigo e velho porto,
Numa balsa conseguem travessia.

Não podendo seguir mesmo destino,
Risquei de leve a mula nas esporas,
Convoquei no assobio o Leão e a Pantera,
Ajustei bem as traias e o cano das duas botas,
Do rio conhecia as manhas e os segredos,
E juntos adentramos nas suas águas...

Por leis da natureza sempre governados,
Os animais já nascem sabendo nadar,
Mas eu, simples criatura racional,
Idêntico a outro ser que é ser humano,
Marcado pelo fogo de artes e talentos,
Carrego o fardo do constante tirocínio,
No aprendizado de outras técnicas e ciências,
As coisas que ao nascer eu não sabia...

Mais ou menos iguais nestes embates,
Cada qual sua tarefa desempenha.
Nas laterais exercem os cães o controle,
A manada para outra margem empurrando,
Ruana, nos movimentos de vaivém,
Contrabalança a falta da peonada.
Meu berrante pranteava seus lamentos,
Guiava acalmando os rudes animais,
Ao evocar os plangentes aboios dos vaqueiros...

Nas tranquilas paisagens daqueles rincões,
Vencida a trabalhosa e árdua jornada,
Acomodou-se o gado numa várzea,
Do verde jaraguá toda forrada.

O condutor e os peões se aproximando,
Com outros camaradas para ajuda,
Cantando juntos seus aboios dolentes,
Berrantes acordavam ecos nas quebradas,
E assim comboiavam o rebanho ao mangueirão.

Na recontagem de cabeça por cabeça,
No desfile através de uma porteira,
Anotou o sempre atento capataz
A falta de uma rês, uma única arribada...

Concluíram que era aquele boi pintado,
O culatreiro cego das esquerdas,
Que nas viagens pendia para este lado.
Apesar dos vestígios e procura,
Durante muitos dias e até por noite escura,
Este boi nunca mais por ninguém foi encontrado...

Depois de duas marchas exaustivas,
Com saídas ao romper da madrugada,
Vai chegando, afinal, a grande boiada,
Aos verdes prados da fazenda Santa Fé,
Do conhecido Coronel Barreto,
Logo adiante do Sítio do Chão Preto.

Feliz, e riso franco o fazendeiro,
Ao ver e recontar aqueles bois,
Dezoito ou vinte arrobas estimados,
Mandou preparar festa a noite inteira.
Cateretês e violas são improvisados,
Rodeios e desafios de moda sertaneja,
Muita cerveja e a velha pinga com limão.
Reza cantada ao pé do rústico cruzeiro,
Rezaram juntos aquela mesma oração.
Nasce assim, ao calor de nossa terra,
A festa alegre do Peão,
Do Capataz, do Boiadeiro...                                                      


Fonte: O ESTOURO DA BOIADA, Rio de Janeiro: Razão Cultural Editora, 1998, p. 29 a 34.

 

                                                                                    NOTAS EXPLICATIVAS 



                                                                                             ¹  BARBOSA, José: ODES E POEMAS, Rio de Janeiro: State-of-the-Art Editora Ltda., 1992, 49 p., ilustrações de Márcia Süssekind. Cf. análise literária do livro in http://bragamusician.blogspot.com.br/2015/12/odes-e-poemas-de-elevado-misticismo.html
                                                                                                ²  BARBOSA, José: O ESTOURO DA BOIADA, Razão Cultural Editora, Rio de Janeiro, 1998, ilustrações de Marta Süssekind, 36 p. Cf. ampla discussão desse opúsculo in http://bragamusician.blogspot.com.br/2015/12/o-estouro-da-boiada-por-deputado-jose.html  
                                                                                                ³  Localizei esse trabalho num arquivo de meu computador sem anotação da data de sua produção. Presumo ter escrito essas linhas para o Jornal de Brasília, mas infelizmente não consegui localizar a edição em que foram publicadas (se é que o foram). Seguramente isso deve ter acontecido logo após a publicação do livro "O Estouro da Boiada", em outubro de 1998 ou pouco depois.

domingo, 27 de março de 2016

MAESTRO ASSIS REPUBLICANO EM SÃO PAULO


Por Francisco José dos Santos Braga



I.  INTRODUÇÃO

Com base em minhas pesquisas apenas no Acervo do Estadão, duas foram as vindas do Maestro Assis Republicano a São Paulo em missão oficial, a convite para reger obras de sua autoria. 

Inicialmente, com uma récita popular da sua ópera "O BANDEIRANTE", a companhia lyrica da Sociedade Theatral Sul-Americana, empresa de Walter Mocchi, encerrou a temporada lírica de 1925 no Teatro Municipal de São Paulo, na noite do dia 25 de outubro de 1925. O elenco que participou da primeira representação da ópera "O Bandeirante" em São Paulo era constituído de: sopranos Flora Revalles ¹ (no papel de Jahyra), Lydia Garinska e Agnes Porter; mezzo-soprano Fernanda Denti; tenores Salvador Paoli, Lamberto Bergamini e Carlo Giusti; barítono Gaetano Viviani (no papel de Antônio de Sá); e baixo Vincenzo Cassia. A regência da orquestra esteve a cargo do próprio compositor da ópera, Antônio de Assis Republicano, que veio do Rio de Janeiro para a apresentação.
O Estadão cobriu esse evento através de matérias anunciando a ópera (itens I e II abaixo), com uma crítica musical da representação da ópera (item III) e, finalmente, com uma crônica de uma ceia (item IV), que "os redactores da 'Folha da Manhã', offereceram ao distincto compositor riograndense, afim de render uma justa homenagem ao talento do maestro patricio e ao successo alcançado pela sua primeira partitura lyrica em S. Paulo".
Soprano suíça Flora Revalles
Barítono italiano Gaetano Viviani































Outra vinda do Maestro Assis Republicano a São Paulo foi a convite da Sociedade de Concertos Sinfônicos para reger no Teatro Santa Helena, às 16 horas do dia 19 de fevereiro de 1927, peças de sua autoria, entre outras composições de Beethoven, Tchaikovsky e Hector Berlioz. De sua autoria o Maestro apresentou 1ª Dança Brasileira, Improviso sobre tema brasileiro e Canção indígena da ópera "O Bandeirante". Tomamos conhecimento, através da crítica musical do evento, que "as composições do maestro Assis Republicano executadas pela orquestra contaram com o concurso do violoncelista (Armando) Belardi e da cantora Carmen Eiras e foram muito aplaudidas pelo auditório".
Igualmente, o Estadão deu bastante publicidade ao evento, noticiando-o desde o dia 14 de fevereiro (itens V, VI e VII), e fazendo a cobertura da apresentação com uma crítica musical na edição do dia 20 de fevereiro (item VIII). Nesta última, ficamos sabendo que o maestro partiria no dia seguinte para o Rio de Janeiro, onde faria os preparativos para sua viagem à Europa a fim de aperfeiçoar seus conhecimentos musicais e que aquele concerto do Maestro Assis Republicano era de despedida do público paulista. Lamentavelmente, essa viagem de aperfeiçoamento à Europa não se concretizou, para desgosto e frustração na vida do grande músico brasileiro, que poderia ter sido totalmente diferente, caso tivesse conseguido uma bolsa que pleiteava do poder público para se sustentar no exterior.

Quanto a uma possível terceira vinda do Maestro, a  fonte pesquisada (item IX) não menciona a sua presença, quando da apresentação de seu Concerto para violino e orquestra em 23 de abril de 1954, sob a regência de Eleazar de Carvalho à frente da Orquestra Sinfônica Brasileira; portanto, o certo é que, se veio, não foi para reger a sua obra, como das vezes anteriores.

Entendo que seria muito útil para a historiografia musical brasileira que algum pesquisador sediado no Rio de Janeiro, onde o Maestro residiu por longos anos e ali produziu suas grandes obras, trouxesse a lume a apresentação de suas obras no Teatro Municipal, no Teatro Lírico, etc., e da mesma forma em Belo Horizonte, possibilitando que tivéssemos uma visão perfeita da sua produção musical e consequente repercussão de seu trabalho. Outra sugestão é que alguma pesquisa confirmasse a amizade entre o Maestro e Villa-Lobos, o que demanda comprovação, já que a ligação entre o Maestro e seu professor Francisco Braga (1868-1945) me parece bastante evidente. Uma terceira proposta é que seja utilizada uma metodologia científica para a catalogação da obra musical do Maestro, pois, de acordo com seu filho Esaú de Assis Republicano: 
"Sua obra é vasta e digna de maior atenção dos cultores da música sinfônica, gênero em que se têm notabilizado poucos brasileiros. (...)  
Longa é a enumeração de suas obras. (...)  
Outras obras poderiam ser citadas, embora seja impossível apresentar uma lista exaustiva não só devido à extraordinária capacidade de trabalho de Assis Republicano, que escreveu consecutivamente durante mais de cinqüenta anos, como também pelas obras suas que se encontram extraviadas, como as que ele escreveu graciosamente para amigos." ²

Neste  trabalho será respeitada a grafia de época.


II.  PESQUISA SOBRE A PRESENÇA DO MAESTRO ASSIS REPUBLICANO EM SÃO PAULO NO ACERVO DO ESTADÃO


I. Na coluna PALCOS E CIRCOS: NOTICIAS THEATRAES 
"O BANDEIRANTE", DE ASSIS REPUBLICANO  O encerramento da actual temporada lyrica far-se-á, como já tivemos ensejo de noticiar, com outra novidade por que o nosso publico de ha muito anceava: "O Bandeirante", do maestro brasileiro Assis Republicano.
Cantada pela primeira vez na recente temporada do Rio de Janeiro, a opera do compositor nosso patricio deu opportunidade a que se reconhecesse, no seu autor, um grande e incontestavel talento musical.
A recita de amanhan será extraordinária e a preços populares, estando os principaes papeis confiados às sras. Flora Revalles, Lydia Garinska, Agnes Porter e Fernanda Denti e aos srs. Salvador Paoli, Gaetano Viviani, Cassia, Bergamini e Giusti.
A orchestra como da primeira vez em que a opera foi cantada, será regida pelo seu autor.


FonteO ESTADO DE S. PAULO, Anno LI, nº 17.044, edição de 24 de outubro de 1925, p. 5.


II. Na coluna PALCOS E CIRCOS: NOTICIAS THEATRAES EM S. PAULO

TEMPORADA LYRICA OFFICIAL - OS DOIS ULTIMOS ESPECTACULOS ³ - A OPERA "O BANDEIRANTE"Em ultima vesperal de assignatura e da temporada lyrica official deste anno, no Theatro Municipal, se cantará hoje a delicada opera de Massenet "Thais", que os assignantes das dez recitas já tiveram opportunidade de ouvir.
Um dos attractivos da "Thais" que tivemos desta vez é o facto de ser o papel de protagonista desempenhado pela notavel soprano Ninon Vallin, que já nos outros annos tanto havia feito pelo renome de que hoje gosa em S. Paulo como nos mais cultos centros de arte do mundo.
São seus companheiros na interpretação da linda obra do grande compositor francez os srs. Armand Crabbé, que tem igualmente um papel magnifico e que é um dos elementos de maior destaque do conjunto que hoje se despede do nosso publico; e o sr. L. Bergamini, que nesta temporada conquistou aqui muitas sympathias.
A orchestra será regida pelo maestro Alceo Toni. 
________________________________________
É com uma opera nacional, ainda não conhecida de nossa platéa, que a empresa da Sociedade Theatral Sul Americana quiz encerrar a temporada de 1925, satisfazendo a anciedade do publico, que dessa obra já tinha noticia pelas elogiosas referencias com que a imprensa do Rio registou  a sua "primeira", na ultima estação carioca. O espectaculo, em que se cantará "O Bandeirante", do compositor riograndense Assis Republicano, será a preços populares, tendo havido, já ontem, grande procura de bilhetes. Para dar uma idéa do trabalho do nosso patricio que vamos hoje ouvir, damos a seguir o argumento do poema: 
Acto 1º —  Sala tosca, na habitação dos bandeirantes. Mobilia: mesa rustica, um tamborete, malas e caixas de madeira. Ao fundo, campos e floresta. Sol claro. Antonio Sá, o bandeirante, victorioso na luta contra uma tribu do Paranapanema, medita sobre o rapto de Jahyra, a bella indigena que trouxera da taba, sentindo-se apaixonado. A bandeira apresta-se para seguir em direção à Ciudad Real, no Guahyra, ouve-se o vozeirão alegre dos bandeirantes, que entram em scena com o sub-chefe d. Ruy Cordeiro. Após saudações e ordens recebidas pelos bandeirantes, apparece Jahyra, timida e appreensiva, dirige-se aos dois chefes, ainda na sala e, finalmente só, lamenta-se: tem deveres para com a taba e está apaixonada pelo chefe bandeirante. Entra Guará, irmão de Jahyra, que premedita uma cilada à bandeira, para vingar a tribu e a irman.
Ouve-se fora o coro dos bandeirantes. A índia reppele o irmão e é por elle considerada trahidora.
Acto 2º —  Clareira ao lado da estrada, proxima à habitação dos bandeirantes. Jahyra, Isabella e uma sertaneja colhem flores agrestes. A indigena e a mameluca fazem confidencias sobre Antonio Sá, o chefe bandeirante, que se destaca de um grupo e dirige-se a Jahyra, tendo-se retirado já, Isabella.
Os dois namorados cantam o duetto de amor.
Entram bandeirantes em companhia de Ruy Cordeiro, que declara ao chefe estar a bandeira a postos para seguir e recebe ordens para commandal-a. Um arieiro (sic) apressado vem communicar a aproximação de uma cavalgada paulista. É d. Branca, a esposa do chefe dos bandeirantes, que está a chegar.
Jahyra mostra-se afflicta e esquiva. O bandeirante diz-lhe sua paixão. Ouvem-se côros de bandeirantes e de indios.
Começa o crepusculo.
Os dois namorados resolvem a fuga, sendo o encontro à noite, na margem do Itararé.
Acto III —  Margem do Itararé. Manhan tempestuosa.
À beira do rio vêem-se as roupas de Jahyra. Antonio Sá, que fôra detido pela tempestade, apparece com um pagem, bradando pela india e comprehendendo que ella se suicidara, joga-se no rio, em desespero.
Amaina o temporal. D. Branca, seguida de damas e sertanejos, apresenta-se e amaldiçôa o rio, que desapparece, transformando-se numa gruta.
Intermezzo musical.
Cessou o temporal, clareia o sol e, ao longe, ouve-se o côro dos bandeirantes. Em lenta marcha funebre, um cortejo de camponios traz à scena o cadaver do bandeirante. Sob o assombro e timidez dos sertanejos sae da treva da gruta a sombra de Jahyra, por elles reconhecida —  a alma não morre, dizem, e dirige-se ao corpo do seu amado, cahindo de joelhos, em soluço.
De novo, ao longe, ouve-se o côro dos bandeirantes.
O desempenho do "O Bandeirante", cujo libreto é de autoria do sr. Silveira Netto, está a cargo das sras. Revalles, Garinska, Porter e Denti e dos srs. Paoli, Viviani, Cassia, Bergamini e Giusti.
A orchestra será regida pelo maestro Assis Republicano.


Fonte: O ESTADO DE S. PAULO, Anno LI, nº 17.045, edição de 25 de outubro de 1925, p. 6.

III. Na coluna PALCOS E CIRCOS: THEATRO MUNICIPAL

A companhia lyrica do Theatro Municipal despediu-se hontem do nosso publico com a opera —  "O Bandeirante"  do nosso joven compatriota Assis Republicano.
O compositor é um moço de modesta origem, que se fez pelo seu próprio esforço até conseguir matricular-se no Instituto Nacional de Musica, onde recebeu o seu diploma.
O "Bandeirante" é o seu primeiro trabalho para o theatro. Qualquer apreciação que se deva fazer dessa obra, não pode deixar de levar em conta a relatividade de todas estas circumstancias.
Como producção theatral "O Bandeirante" ressente-se da deficiencia do libreto, quasi sem movimento scenico. Ha grandes vacuos no desenvolvimento da acção, que mais evidentes se tornaram por uma absurda marcação e pela falta de ensaios.
Os defeitos do libreto não eximem completamente o compositor da responsabilidade, nas falhas da sua obra de estréa. Nem todos podem, como Wagner, escrever o poema das suas composições e nem a todos os musicos se depara, como a Gluck, um Calzabigi... Mas, ninguem é obrigado a escrever uma opera sobre um mau poema e uma das condições de quem compõe para o theatro é saber escolher o libreto.
Com esses elementos não poderia o sr. Assis Republicano produzir um drama lyrico à altura do progresso musical da nossa época.
Pode, porém, revelar bellas qualidades de symphonista, principalmente no terceiro acto.
Não ha na partitura muita unidade, nem aquellas rajadas de inspiração, como as tinha o nosso Carlos Gomes, e que fazem com que lhe perdoemos muitas das suas falhas.
Comtudo, o sr. Assis Republicano, não tendo triumphado completamente no theatro, pôde dar ao seu trabalho, refundindo-o, o caracter de um poema symphonico, no qual, parece-nos, elle se apresentará melhor.
Nem por isso deixamos de applaudir os seus esforços e os bellos resultados já conquistados, pois não é pouca coisa, para um moço pobre e sem protecção, que nunca sahiu do Brasil, o haver composto e orchestrado uma opera inteira em que ha paginas reveladoras de incontestavel talento.
O publico soube comprehender bem tudo isso. Ao empunhar a batuta para dirigir a execução do "Bandeirante", o maestro Assis Republicano recebeu uma vibrante manifestação da sala, que estava cheia, e os applausos se repetiram no fim de cada acto.
Dos interpretes, aos quaes não desejamos fazer censuras, porquanto não poderiam ter estudado as suas partes nas condições em que a opera foi dada, apenas a sra. Revalles (Jahyra) estava mais ou menos à vontade no seu papel. Sobre esta distincta artista, que só ante-hontem se pôde revelar à nossa platéa na "Monna Vanna" , e sobre o sr. Viviani (Antonio de Sá) repousava o exito da parte vocal e ambos se desempenharam bem da tarefa.
O maestro Assis Republicano mostrou dirigir a orchestra com autoridade, mantendo o equilibrio da representação, o que não era facil tarefa com os cantores incertos como estavam.
Uma nota desagradavel e absolutamente infeliz foi a execução, antes do 2º acto, da "Elegia", do sr. F. Mignone, escripta para a commemoração de Puccini, inteiramente deslocada, essa peça, que aliás não augmenta os louros do joven compositor, só poderia desnortear o publico desprevenido e prejudicar a unidade do espectaculo.
A empresa Mocchi, não contente de sacrificar o trabalho do sr. Republicano, numa edição atamancada, ainda commetteu a indelicadeza dessa interposição de um trecho musical estranho à peça, idéa tão despropositada que só poderia surgir num cerebro destituido inteiramente de criterio artistico ou mesmo de senso commum.
Neste anno fatidico era impossivel que o fim da temporada não ficasse assignalado por mais um erro lamentavel...

Fonte: O ESTADO DE S. PAULO, Anno LI, nº 17.046, edição de 26 de outubro de 1925, p. 2.


IV. Na coluna SOCIEDADE: HOMENAGEM 

Após o espetáculo anteontem realizado no Municipal, onde se cantou, em despedida da companhia lyrica da Sociedade Theatral Sul-Americana, a ópera brasileira "O bandeirante", de Assis Republicano, os redactores da "Folha da Manhã", offereceram ao distincto compositor riograndense uma ceia, afim de render uma justa homenagem ao talento do maestro patricio e ao successo alcançado pela sua primeira partitura lyrica em S. Paulo. 
A ceia, servida no Restaurante Palacio, decorreu sob a atmosphera da melhor alegria, tendo nela tomado parte varios jornalistas dos matutinos desta capital. Sentaram-se à mesa, na cabeceira: o maestro Assis Republicano; à esquerda: os srs. Nestor Rangel Pestana, Paulo Gonçalves, dr. Vicente Ancona, Silveira Bueno, Edmundo Barreto, dr. Epitecto Fontes e Sylvio Sanguigni Damiani; à direita: Gastão Barroso, Aristides Avila, maestro Villa-Lobos, José Augusto Corrêa Junior, Pedro Cunha e Waldomiro Fleury.
Foram trocados varios brindes. 

Fonte: O ESTADO DE S. PAULO, Anno LI, nº 17.047, edição de 27 de outubro de 1925, p. 6. 

V.  Na coluna ARTES E ARTISTAS: SOCIEDADE DE CONCERTOS SYMPHONICOS


Veiu do Rio de Janeiro o maestro Assis Republicano, que, a convite da Sociedade de Concertos Symphonicos daqui, regerá o concerto a realizar-se no próximo sabbado no Theatro Santa Helena, às 16 horas.
Iniciará o distincto compositor patricio, desde logo, os ensaios de apuro do programma organizado, com o qual se apresentará ao nosso publico.
Contém esse programma duas composições do nosso talentoso patricio, a segunda symphonia de Beethoven, a ouverture de Tchaikovsky intitulada "1812", para orchestra e banda e a ouverture de "Benvenuto Cellini", de Hector Berlioz.
Despertará, pois, vivo interesse entre os amadores de musica o concerto symphonico da tarde de 19 proximo. (...)

Fonte: O ESTADO DE S. PAULO, Anno III, nº 17.518, edição de 14 de fevereiro de 1927, p. 2.


VI.  Na coluna ARTES E ARTISTAS: SOCIEDADE DE CONCERTOS SYMPHONICOS

Realiza-se amanhan, às 16 horas, no Theatro Santa Helena, o concerto da Sociedade de Concertos Symphonicos correspondente ao mez de Fevereiro, e que será dado para os socios do primeiro e do segundo turnos.
Obedecerá o concerto a attrahente programma, estando a regencia a cargo do compositor patricio sr. Assis Republicano, de quem o nosso publico já teve occasião de applaudir a opera "O Bandeirante".
Prestará tambem o seu concurso a esse concerto a cantora patricia sra. Carmen Eiras, que interpretará uma pagina do maestro Assis Republicano.
Contém o programa duas composições do nosso talentoso patricio, a segunda symphonia de Beethoven, a "ouverture" intitulada "1812", de Tchaikovsky, para orchestra e banda, e a "ouverture" de "Benvenuto Cellini", de Hector Berlioz. (...)

Fonte: O ESTADO DE S. PAULO, Anno LIII, nº 17.522, edição de 18 de fevereiro de 1927, p. 5.

VII.  Na coluna ARTES E ARTISTAS: SOCIEDADE DE CONCERTOS SYMPHONICOS

Realisa-se hoje, às 14 horas, no Theatro Santa Helena, o concerto correspondente ao mez de Fevereiro da Sociedade de Concertos Symphonicos de S. Paulo e para os socios do primeiro e segundo turno conjuntamente.
A orchestra estará sob a regencia do talentoso compositor brasileiro Assis Republicano, que dentro em breve segue para a Europa, onde vae concluir os seus estudos de aperfeiçoamento.
Prestará tambem o seu concurso à reunião de hoje a distinta cantora patricia sra. Carmen Eiras, que cantará a canção indigena da opera "Bandeirantes" (sic), de Assis Republicano, e "Mia piccirella", da opera "Salvador Rosa", de Carlos Gomes.
O programa é o seguinte:
H. Berlioz  Benevenuto Cellini (Ouverture)
L. van Beethoven  2ª Symphonia
A. Republicano  1ª Dansa Brasileira 
 Improviso sobre thema brasileiro 
 Canção indigena da opera "Bandeirantes"
Carlos Gomes  "Mia piccirella", da opera "Salvador Rosa"
R. Wagner  "Walkyria" (Cavalgada). (...)

Fonte: O ESTADO DE S. PAULO, Anno LIII, nº 17.523, edição de 19 de fevereiro de 1927, p. 3.

VIII.  Na coluna ARTES E ARTISTAS: SOCIEDADE DE CONCERTOS SYMPHONICOS

Apesar do tempo chuvoso, grande foi a assistencia que teve o Theatro Santa Helena para ouvir o concerto organisado pela esforçada Sociedade de Concertos Symphonicos, a qual confiou a direcção da orchestra ao compositor patricio sr. Assis Republicano.
Abriu o programma a "ouverture" de "Benvenuto Cellini", bella pagina de Berlioz, que foi ouvida attentamente pela platéa curiosa por conhecer a maneira de reger do autor de "O Bandeirante".
Seguiu-se a Segunda Symphonia, de Beethoven, que poderia ter tido mais segura execução. O trabalho orchestral se sentia um tanto prejudicado talvez por se tratar do primeiro encontro do distincto regente com a orchestra em audição publica.
As composições do maestro Assis Republicano executadas pela orchestra, com o concurso do violoncelista Belardi e da cantora sra. Carmen Eiras foram muito applaudidas pelo auditorio.
Fechou o programma a consagrada "Walkyria", de Wagner.
O maestro Assis Republicano, que nos deu ontem o prazer de sua visita, parte para o Rio amanhan e logo depois seguirá para a Europa.

Fonte: O ESTADO DE S. PAULO, Anno LIII, nº 17.524, edição de 20 de fevereiro de 1927, p. 2.

IX. Na coluna MÚSICA: ORQUESTRA SINFÔNICA BRASILEIRA

A Orquestra Sinfônica Brasileira realizou anteontem, no grande auditório do Teatro Cultura Artística o primeiro concerto da série de 1954 em São Paulo. (...)
Eleazar de Carvalho apresentou a Segunda Sinfonia, de Borodin; Concerto para violino e orquestra, de Assis Republicano (1ª audição O.S.B.), do qual foi solista o violinista Oscar Borghert , e Petrushka, de Strawinsky.
Assinalamos de início, o Concerto de Assis Republicano, obra ampla, de grandes proporções, desenvolvida numa linguagem musical de moderado modernismo, e que se distingue pela variedade temática, inegável fantasia criadora e uma orquestração reveladora dos conhecimentos do autor. Como resultado de uma única audição, ao lado das impressões acima, ficou-nos também a da existência, talvez, de alguma desigualdade entre o espírito do primeiro movimento e o dos seguintes. Assis Republicano demonstra gosto pela grandiosidade, pela magnificência, preenchendo por vezes a parte do solista com uma escrita de grande dificuldade mas de conteúdo simplesmente ornamental, o que, de resto, parece opor-se ao tipo de musicalidade do solista. Oscar Borghert desempenhou-se com brilho da sua incumbência. Embora a sua sonoridade não possua a amplitude desejada pela obra, nem seu temperamento seja tão transbordante quanto o espírito daquela, sua atuação foi digna de calorosos aplausos. (...)

Fonte: O ESTADO DE S. PAULO, Ano LXXV, nº 24.221, edição de 25 de abril de 1954, p. 10.



III.  NOTAS EXPLICATIVAS


¹  Flore (ou Flora) Revalles (25/01/1889-29/08/1966) foi uma "entertainer" suíça, ativa durante as primeiras décadas do século XX. Revalles começou como cantora na Suíça, dançou nos Balés Russos na Europa e Estados Unidos e figurou nas produções da Broadway e Hollywood (estrelou como Messalina no melodrama romântico de Maurice Tourneur, "Woman", de 1918) antes de retomar sua carreira de cantora na Europa. É também lembrada por ser tia do ator francês Guy Tréjan (1921-2001).

² Cf. http://saojoaodel-rei.blogspot.com.br/2016/03/maestro-assis-republicano.html

Também acredito ser possível, através de uma pesquisa mais extensiva, confirmar a minha hipótese sobre a composição da Sinfonia de São Paulo, do Maestro Assis Republicano (nota explicativa nº 9 no post acima), que reproduzo a seguir: 
"Embora não tenha elementos para afirmar que o Maestro Assis Republicano, com a sua 'Sinfonia de São Paulo', tenha participado do concurso promovido pela Comissão do IV Centenário da Fundação de São Paulo, há uma grande possibilidade de que a sua obra tenha sido composta para o certame, concluída, portanto, até 30/06/1953, data-limite para entrega da sinfonia. Saiu-se vitorioso Camargo Guarnieri, agraciado com o 'Prêmio Carlos Gomes', tendo feito jus a Cr$ 200.000,00. Vencedora do concurso do IV Centenário de São Paulo, em 1954, a 'Sinfonia de São Paulo' de Camargo Guarnieri (Sinfonia nº 3, de 1952) é  considerada por alguns o ponto mais alto da música orquestral do compositor já maduro artisticamente e em plena posse de todos os meios de composição e foi executada com pleno êxito pela Orquestra Sinfônica Brasileira, sob a regência do maestro Eleazar de Carvalho. O ESTADÃO de 12/10/1954, na coluna 'A Sociedade', na matéria intitulada 'Homenagens', noticia as providências tomadas pela comissão organizadora para homenagear o agraciado com o prêmio. A título de informação, a comissão organizadora das homenagens a Camargo Guarnieri era constituída pelas sras. Antonieta Rudge, Magdalena Tagliaferro, Dinorah de Carvalho, Esther Mesquita, Yara Bernette, Arícia Araújo Cintra, Mina Waschawehik, Nenê Medici, Lilly Wolff, Lídia Kliass, Felicia Blumental, Madalena Lebeis, Alay da Silva Martins e Odette de Freitas. "
Cf. O ESTADO DE S. PAULO, Anno LXXV, nº 24.366, edição de 12 de outubro de 1954, p. 6 

³  O dia 25 de outubro de 1925 encerrou a temporada lírica paulistana de 1925, com "Thais", em "matinée", e, à noite, "O Bandeirante", ópera de Assis Republicano, pela primeira vez representada em São Paulo, em récita popular.  

  Na coluna PALCOS E CIRCOS: NOTICIAS THEATRAES "A PRIMEIRA AUDIÇÃO DE MONNA VANNA EM S. PAULO" — "Monna Vanna", que a empresa Walter Mocchi escolheu para encerramento da assignatura da temporada lyrica official do corrente anno, e que será cantada esta noite (sic) no Municipal, figura no repertorio da Opera de Paris e constitue uma novidade que muito interessa à nossa sociedade.
Musica de Février, discipulo de Massenet, seu libreto foi extrahido pelo próprio Maeterlinck de seu original poema. De autoria de seu autor são varias producções de musica de camara e de caros e numerosas melodias, além de um hymno "Aux mortes pour la patrie" (talvez a mais notável composição patriótica alusiva à guerra). São tambem de sua lavra as "tres orações" sobre poemas de Francis Jammes, bem como uma peça em dois actos "Le roi aveugle", cantada na Opera-Comique, em 1906. O libreto de Monna Vanna resume-se no seguinte:
"A cidade de Pisa está sitiada pelas tropas da Republica de Florença, commandadas pelo aventureiro Prinzivalle. Na cidade ha a desolação da fome. Prinzivalle offerece-se para abastecel-a secretamente, mas impõe uma condição para sua trahição: Vanna, a virtuosa esposa de Guido Colonna, irá ter com elle, à noite, nua, sob um manto. Vanna acceita o sacrificio para salvar Pisa, não obstante o desespero de Guido.
Eil-a, pois, na tenda de Prinzivalle, vendo a seus pés, não o veterano que imaginava, mas um homem que lhe traz recordações da infância, que ella esquecera, e lhe confessa o seu amor e a sua submissão. Tornou a vel-a:  eis realizado o seu sonho  e apenas lhe pede um beijo na fronte, porque o seu amor é muito puro. Prinzivalle, porém, é ameaçado pela Republica de Florença, que lhe teme a ditadura. Vanna, commovida por tanto amor desinteressado, offerece-lhe um recurso em Pisa, que ella acaba de salvar.
Voltando a Pisa trazendo em sua companhia Prinzivalle, Vanna é recebida com aclamações pelo povo. Diz a Guido que vem pura como partira. Seu esposo recusa-se a acreditar nisso, porque, se Prinzivalle trahiu Florença por um simples beijo na fronte, é que os dois se entendem. Deixando-se levar pelo odio, elle entrega Prinzivalle à multidão, quando Vanna, para o salvar, resolve mentir. Sim! Prinzivalle a possuiu, mas só a ella cabe a vingança. Manda fechal-o num calabouço, do qual tem a chave.
Como o marido não compreendesse o que lhe dizia a esposa, surdo aos protestos de fidelidade, obstinando-se em julgal-a polluida, quando ella, volta intacta, então Vanna se transforma e inventa a mentira para castigal-o, reconhecendo-o indigno della.
Marco, pae de Guido, velho humanista que applaudira a ida de Vanna ao acampamento inimigo, applaude agora tambem a sua conducta, porque tudo comprehendeu. A obstinação do filho parece-lhe de tal sorte condemnavel, que elle approva a fuga de Monna Vanna com Prinzivalle o seu verdadeiro esposo.
Essa transformação da mulher já conquistada pela abnegação do Prinzivalle e aos braços delle arremessada pela colera de Guido, é palpitante e commovedora. Fogem ambos. Foi um mau sonho que se dissipou:  a felicidade ia começar."
A parte de protagonista será interpretada pela soprano Flora Revalles; a de Prinzivalle pelo tenor Sullivan; a de Guido Colonna pelo barítono Crabbé; e a de Marco Colonna pelo baixo Cirino.
"Monna Vanna" será dirigida, na sua primeira audição, pelo maestro Alceo Toni. (...)

FonteO ESTADO DE S. PAULO, Anno LI, nº 17.044, edição de 24 de outubro de 1925, p. 5.

  Notável violinista brasileiro, radicado no Rio de Janeiro, professor catedrático da Escola Nacional de Música da Universidade do Brasil e recitalista de grandes qualidades.

segunda-feira, 14 de março de 2016

CRÔNICA DO "TROFÉU ORFEU 2016" PROMOVIDO PELA ACADEMIA DIVINOPOLITANA DE LETRAS


Por Francisco José dos Santos Braga


Esta crônica é dedicada "in memoriam" à ProfªAdriane Lúcia Santana, cantora, grande mestra de violão e diretora da Escola "Sementes do Amanhã", e que por primeiro anunciou o agraciado do Troféu Orfeu 2016 em 11/03/2016 (segunda noite do evento)
Troféu Orfeu 2016, obra do artista Vicente Tarcísio Batista


Uma boa iniciativa tem sempre a perspectiva de uma vida longa. É com estes votos que inicio a crônica que se propõe a relatar o TROFÉU ORFEU, uma iniciativa da ADL-Academia Divinopolitana de Letras, promotora do evento com esse nome, desde quando o seu presidente era o poeta Augusto Ambrosio Fidelis, em 2015, ano em que ocorreu a 1ª edição do evento. Naquele ano, após cinco gestões à frente da ADL, Augusto Fidelis entendeu conveniente dizer "muito obrigado" a todos que o ajudaram, de forma visível. Para tanto, encarregou o artista plástico Vicente Tarcísio Batista, residente em Carmo do Cajuru, patrocinado pela Gerdau, para confeccionar o referido troféu, feito que se repetiu em 2016. A repetição do Troféu Orfeu em 2016 era esperada, já pela enorme repercussão da 1ª edição, já pela expectativa dos candidatos a agraciados em número crescente. É, portanto, a segunda vez que Augusto Fidelis ocupa o cargo de Gerente de Cerimonial do evento. Também é conhecida a sua habilidade de idealizar projetos importantes para o Município de Divinópolis, tal como o "Cidade Amiga", sendo igualmente inesquecível a sua atuação à frente da Comissão Organizadora das Festividades de Divinópolis por ocasião do 102º Aniversário do Município de Divinópolis ¹.
Acadêmico AUGUSTO FIDELIS, idealizador e expoente máximo do TROFÉU ORFEU

Na sua primeira edição, denominada "Troféu Orfeu da Comunicação", a comenda entregue pela ADL ocorreu em 11 de fevereiro de 2015 no plenário da Câmara Municipal e homenageou 25 órgãos de imprensa falada e escrita de Divinópolis. Todos os agraciados foram unânimes em reconhecer que o prêmio aumentou a visibilidade de seu trabalho de comunicação, que, em princípio, deve não só estar a serviço do bem da comunidade, como também informar com imparcialidade e responsabilidade. 

Na atual segunda edição, denominada TROFÉU ORFEU 2016, Augusto Fidelis foi indicado pelo presidente da ADL, o poeta João Carlos Ramos, para permanecer à frente da organização do evento, agora ampliado para duas noites festivas no plenário da Câmara Municipal, desta vez homenageando os expoentes da comunicação em Divinópolis e demais colaboradores da ADL no primeiro dia (10/03/2016) e as pessoas que se destacaram em meio à comunidade artística e cultural no segundo dia (11/03/2016).

EVENTO DO DIA 10/03/2016: FESTA DOS ÓRGÃOS DE COMUNICAÇÃO E DEMAIS COLABORADORES DA ADL

Sob o comando do mestre de cerimônias Sílvio França, foi dado início ao evento, com agradecimentos de praxe, seguidos de breve discurso do presidente da ADL, Acadêmico João Carlos Ramos.

Pela sua importância histórica dessa peça literária e por ser seu autor testemunha ocular das principais lutas para a idealização e concretização do Troféu Orfeu, acredito que seja relevante reproduzir aqui o discurso do Acadêmico João Carlos Ramos "ad perpetuam rei memoriam":
Digníssimas autoridades presentes.
Confrades e confreiras.
Ilustres representantes da imprensa a serem agraciados.
Senhoras e Senhores!  
Agradeço primeiramente a Deus que me permitiu viver para contemplar as estrelas desta noite memorável. O TROFÉU ORFEU é fruto da genialidade do imortal escritor Acadêmico Augusto Fidelis, quando ocupava o honroso cargo de Presidente da Academia Divinopolitana de Letras. 
Oriundo de uma necessidade de agradecimento a todos aqueles que apoiaram a causa acadêmica, hoje Divinópolis pede Bis e aqui estamos mais belos e fortes. No raiar de 2016, nomeamos o idealizador do TROFÉU ORFEU, Augusto Fidelis, como Presidente da COMISSÃO ORGANIZADORA e o Dr. Fernando Teixeira, Secretário-Geral da ADL, como membro, este que vos fala como Supervisor Geral, com o apoio total do plenário da Instituição.  
Entre esperanças e flores, agradeço a toda a imprensa divinopolitana aqui representada. Agradeço aos nobres colegas da ADL pelo apoio irrestrito. Agradeço ao Presidente da Academia Formiguense de Letras, Paulo José de Oliveira pela presença. De forma especial agradeço ao Acadêmico Dr. Francisco Braga, pianista e maestro de renome, e à sua esposa, a cantora lírica Rute Pardini, que adiaram viagens internacionais para abrilhantarem nossa noite. Muito obrigado ao Presidente da Câmara Municipal, Rodrigo Kaboja, e ao Chefe do Executivo Vladimir de Faria Azevedo, aqui representado pelo Vice-Prefeito, Rodrigo Resende, pelo apoio indispensável. Agradeço ao povo divinopolitano, amante da cultura, e a todos aqueles que direta ou indiretamente contribuíram para a organização do evento. Meu abraço ao Agente Cultural Sérgio Resende e demais colegas de trabalho da Biblioteca "Ataliba Lago" pelo apoio.  
As estrelas são testemunhas do meu amor a todas as mulheres presentes e aproveito o momento para também homenageá-las, estendendo um pouco mais o dia 08 de Março, pois, sem elas, não estaríamos aqui. Sejam todos bem-vindos!  
Declaro aberta a solenidade de ouro da Academia Divinopolitana de Letras, ORFEU/2016.  
Obrigado!  
João Carlos Ramos - Presidente da Academia Divinopolitana de Letras 
A seguir, falou, em nome do Prefeito Municipal Vladimir de Faria Azevedo, o seu Vice-Prefeito Rodrigo Rezende.

Como primeira performance da noite, foi convidada a contadora de histórias de Pará de Minas, Júlia Oliveira Cruz, de 7 anos, declamando o poema "Bendito", da Acadêmica Conceição Cruz, tendo sido muito aplaudida.

Em seguida, Sílvio França anunciou que recebia com carinho a cantora lírica Rute Pardini, divinopolitana residente em São João del-Rei e Brasília. Informou ser Rute bacharel em Música, com habilitação em Canto Lírico pela UnB. Lembrou que, quando ainda residia em Divinópolis, Rute tomou aulas de técnica vocal com o Prof. Sebastião Bispo dos Santos, tendo pertencido ao Coral Nossa Senhora de Fátima, do Maestro Licurgo Leão Silveira, e ao coral Divinópolis, da Maestrina Djanira Luíza dos Santos, ressalvando que esses eram pequenos detalhes de seu extenso currículo. Conforme Sílvio França, "Rute é 'prata da casa' e nesta noite homenageará o Troféu Orfeu 2016 com uma ária da ópera 'Orfeu e Eurídice', de Gluck: Ato III, Cena 1, intitulada 'Che fiero momento'. Com vocês, Rute Pardini, acompanhada em todo o recital por seu esposo, o 'Maestro' Francisco Braga."

Dando início ao recital preparado especialmente para aquela noite, Rute Pardini cantou inicialmente "As Pombas", com música de Chiquinha Gonzaga e versos de Raimundo Correia,  tendo sido muito aplaudida, razão por que disse algumas palavras enaltecendo o trabalho de Chiquinha Gonzaga à frente da SBAT-Sociedade Brasileira de Autores Teatrais, como grande pioneira na defesa dos direitos autorais. Lembrou que a compositora brasileira era tão responsável nesta missão que chegou a viajar à Alemanha para reivindicar direitos autorais não reconhecidos pelas editoras alemãs àquela época. Sem mais delongas, acenou a Francisco Braga para iniciar a introdução instrumental  da segunda peça, do compositor Gluck: "Che fiero momento!" ².





















Apresentação de "As Pombas" obteve aplausos efusivos da plateia, de pé. 
À frente, a contadora de histórias Júlia Oliveira Cruz, de 7 anos de idade.

Após essa apresentação inicial, o cerimonialista passou às homenagens dedicadas aos colaboradores oriundos da mídia e autoridades municipais, pedindo ao Presidente da ADL para se posicionar para receber os convidados.

Para anunciar os agraciados pelo Troféu Orfeu neste ano de 2016 foram convidados neste primeiro dia: a radialista Ana Paula Silva, do programa "Panorama Geral", da rádio Divinópolis; Antônio Carlos Lima, repórter fotográfico da Diretoria de Comunicação da Prefeitura; Antônio Carlos Silva, Diretor-proprietário da Escala Turismo; Clay Abreu, Diretor-presidente da Agência Capp Publicidade e Propaganda; Welber Skaull Tonhá e Silva (diretor do Museu Histórico de Divinópolis); a Acadêmica Conceição Cruz; Evandro Pereira Araújo, Diretor de Comunicação da Prefeitura de Divinópolis; Flávio Ramos, Secretário-Geral da Câmara Municipal; o Acadêmico Márcio Zacarias Lara; Marco Túlio Fontes de Castro (Relações Públicas da Prefeitura de Divinópolis). 

Os homenageados da mídia com a entrega do Troféu Orfeu 2016 neste primeiro dia foram: Jornal Agora (representado por Sônia Terra); Gazeta do Oeste (representada pela editora-chefe Carina Lelles); Divinews (representado pelo diretor Geraldo Passos); Sistema MPA-Rádio Minas, Castelo e Nova (representado por Sílvio França); rádio Divinópolis/Candidés (representadas por Adriano Silva); Rádio Sucesso (representada por Tiago Malta e Pedro Magalhães de Faria Júnior); TV Integração (representada por Ana Tereza Arruda); TV Alterosa (representada por Naiara Azevedo); TV Candidés (representada por Flaviano Cunha); Paulo José de Oliveira (presidente da Academia Formiguense de Letras); Nelson Porto; Marco Aurélio Braga; Zélia Brandão Vieira; Gisele Souto; Juliano Vilela; Dirlene Magalhães; Vereador Rodrigo Vasconcelos de Almeida Camboja; e Prefeito Vladimir de Faria Azevedo (representado pelo Vice-Prefeito Rodrigo Resende).

Anunciando um breve intervalo musical, convidou mais uma vez a cantora lírica Rute Pardini acompanhada pelo "Maestro" Francisco Braga. Nesta segunda parte do recital, foram apresentadas duas outras peças: "Ombra mai fu" (recitativo e ária), de Haendel ³, e "O mio babbino caro", de Giacomo Puccini .



















Rute Pardini agradecendo os aplausos...



















Por último, cabe observar que fui surpreendido pela presença da Sra. Laurinda Ferreira de Souza na plateia, que compareceu à entrega dos troféus e prestigiou o recital da cantora Rute Pardini. Ao apresentar-se, manifestou seu desejo de que eu conhecesse um seu trabalho de pesquisa em que aparece como coautora ao lado de Helena Alvim Ameno, intitulado "A herança teatral em Divinópolis", parte integrante de um livro chamado "Divinópolis: História e Memória - volume 3: Economia e Cultura", organizado por Leandro Pena Catão, João Ricardo Ferreira Pires e Batistina de Souza Corgozinho e editado em 2015 pela Crisálida Editora de Belo Horizonte. A Sra. Laurinda decidiu conhecer-me pessoalmente, após saber do meu profundo interesse de analisar a produção intelectual de sua saudosa irmã Batistina de Souza Corgozinho (2013) e do meu respeito por esta grande historiadora e socióloga, professora e coordenadora do Centro de Memória da Funedi/Uemg durante 36 anos. Além desse livro, em que Batistina figura como organizadora, a Sra. Laurinda doou-me outros livros da autoria de sua saudosa irmã sobre a história e a memória do Centro-Oeste Mineiro.
Escritora Laurinda Ferreira de Souza e cantora Rute Pardini

EVENTO DO DIA 11/03/2016: FESTA DA COMUNIDADE ARTÍSTICA E CULTURAL

Sob o comando do mestre de cerimônias Sílvio França, deu-se continuidade ao evento, com agradecimentos de praxe, destacando a presença ilustre do Secretário de Estado da Cultura, Dr. Ângelo Oswaldo de Araújo Santos, no recinto, o qual se fazia acompanhar pelo Vereador Edmilson João de Andrade.

Sendo-lhe franqueada a palavra para cumprimentar a seleta plateia presente ao plenário da Câmara Municipal de Divinópolis, Dr. Ângelo Oswaldo proferiu discurso em que fez uma revisão histórica das Academias de Letras no mundo e deu uma visão panorâmica da Academia Mineira de Letras, da qual é membro efetivo, destacando seus principais projetos que procuram aproximar essa Casa de Cultura literária ao povo, nos moldes do projeto da ADL que estava vendo em plena execução, digno dos seus mais sinceros elogios: o TROFÉU ORFEU. 
 
Para anunciar os agraciados pelo Troféu Orfeu neste ano de 2016 que obtiveram especial destaque em meio à comunidade artística e cultural, foram convidados: Adriane Lúcia Santana (diretora da Escola de Violão Sementes do Amanhã); Maiher Menezes (professor na Escola de Dança Maiher Menezes); Acadêmica Aparecida Camargos; Acadêmico Augusto Ambrosio Fidelis; Carlos Eduardo Moreira e Suzi Moreira (casal diretor do Trio de Cordas Minueto); Acadêmica honorária e teatrólogo Cidah Viana; professora de piano Érika Lauar; Acadêmico Fernando de Oliveira Teixeira; Acadêmico Joaquim Medeiros de Oliveira; Acadêmico Francisco José dos Santos Braga; João Batista da Silva (representando a Secretaria Municipal de Esporte e Juventude); e, finalmente, José Carlos Gonçalves e Sânia Gonçalves (respectivamente, maestro e soprano do Coral Municipal de Divinópolis). 

Os homenageados da comunidade artística e cultural com a entrega do Troféu Orfeu 2016 neste segundo dia foram: Gerdau (representada por Conceição Maciel), Maria de Lourdes Martins; Foricultura Saito (representada por Derci Maria de Freitas); Telma Alves; Tenente-Coronel Marcelo Carlos da Silva; Centro Franciscano de Formação e Cultura (representado pelo Acadêmico Fernando de Oliveira Teixeira); Maria Cristina Marçal e Daniela Cristina Marçal; Elmo de Azevedo Fernandes; Cláudio Gonçalves Guadalupe; Geisa Aparecida Grego; Gustavo Mendes Martins (Secretaria Municipal de Cultura); Maria Cecília Guimarães Santos; Rute Pardini; Samira Santos Cunha; Andreia Martins Amaro; Marco Antônio Pinto Silva (Sintram); Marcelle Alessandra Sousa Costa (ex-estagiária que prestou serviço à ADL); Rafael Mesquita (Grupo Seresteiro do Amor); Welder Henrique Miranda (Banda de um homem só); e Welber Skaull Tonhá e Silva (diretor do Museu Histórico de Divinópolis).
Presidente João Carlos Ramos, cantora Rute Pardini e seu padrinho Maiher Menezes, professor de dança e diretor-proprietário da Escola de Dança que leva o seu nome



Durante a entrega dos troféus aos agraciados acima citados, o mestre de cerimônias anunciou dois intervalos musicais e, para tanto, convidou primeiramente o Coral Municipal de Divinópolis, sob a regência de José Carlos Gonçalves, que brindou a plateia com três peças corais na seguinte ordem de apresentação: Hallelujah, de Leonard Cohen; We are the champions, de Fred Mercury; e Oh Happy Day, de Edwin Hawkins.

Tive a grata satisfação de ser o "padrinho" de Geisa Aparecida Grego, bibliotecária da Biblioteca Pública Municipal Ataliba Lago.  Comentei que Geisa era pessoa muito merecedora do troféu, porque sempre prestou inestimável apoio à Academia Divinopolitana, quer durante o período em que foi Chefe do Setor de Biblioteca, quer atualmente mesmo sem o cargo de chefia. Também, na sua pessoa, cumprimentei todos os bibliotecários pelo Dia do Bibliotecário, que, no Brasil, é comemorado no dia seguinte à entrega do troféu (12 de março) em todo o território nacional.
À esq. no fundo, Augusto Fidelis; à frente, João Carlos Ramos, Geisa Aparecida Grego e o autor

Em seguida, foi convidado para subir ao palco o grupo coral e instrumental "Os Seresteiros do Amor", cuja diretora, Maria Augusto de Carvalho Mesquita, estando em viagem, foi representada por seu marido, o odontólogo Rafael Mesquita. O referido grupo brindou a plateia com três peças: Além do arco-íris, música de Harold Arlen e letra de Judy Garland; Luar do Sertão, de Catulo da Paixão Cearense; e Sabiá, de Luiz Gonzaga.
Da esq. p/ dir.: Ten Cel Marcelo, Rute Pardini e o autor, Comandante 
do 23º Batalhão PM
Ten Cel Marcelo Carlos da Silva e sua esposa Sidelme
 
Rute Pardini e o Secretário-Geral da ADL, Prof. Fernando Teixeira
Cerimonialista Sílvio França, Rute Pardini, seu troféu e Francisco Braga
Acadêmico Mercemiro Oliveira e Rute Pardini
Diploma de Honra ao Mérito concedido a Rute Pardini em 11/03/2016, "em reconhecimento e gratidão ao apoio dispensado ao Sodalício (ADL), durante o ano de 2015".






NOTAS EXPLICATIVAS


¹  Tive a honra de participar da programação oficial de tais comemorações, no dia 23 de maio de 2014, na qualidade de comentarista ou analista musical de dois quartetos, da autoria dos grandes compositores Smetana e Ravel, executados pelo Quarteto Libertas, de Belo Horizonte, numa promoção conjunta da ADL e das instituições  CREA-MG, CREA-Cultural e Comissão OAB Cultural, o que pode ser conferido in  http://www.sistemampa.com.br/radiominas/confira-a-programacao-de-aniversario-da-cidade/

²  Apesar das consagradas versões de Monteverdi e Peri, Gluck recorre novamente ao roteiro de como Orfeu, filho de Apolo e da musa Calíope, traz de volta Eurídice para o mundo dos vivos. Orfeu enfrenta os mundos ínferos para recuperar a amada, com a imprescindível ajuda da música apaziguadora de almas atormentadas.
A estreia de "Orfeu e Eurídice" se deu com enorme sucesso em 5 de outubro de 1762, mas ficou sem representação, do ano seguinte até 1769. Esse fato levou Gluck, em 1769, a uma primeira revisão em Parma: apresenta-a sem um único intervalo e com a parte destinada ao castrato contralto transposta para um castrato soprano. Por fim, em 1774, Gluck submete ainda a partitura a uma revisão para ser encenada pela Academia Real de Música de Paris: transpõe e adapta o papel de Orfeu para a voz de "haute-contre" (um tipo raro de voz tenor, cultivada na França desde o barroco, principalmente para a interpretação de papéis de solo masculino, habitualmente os heróicos); altera a orquestração para torná-la mais grandiosa; inclui novas peças, vocais e instrumentais; e encomenda um novo libretto para ser cantado em francês. Com essas modificações, logrou torná-la a sua obra mais popular.
A ária "Che fiero momento" é um dueto para os intérpretes de Orfeu e Eurídice, portanto modernamente para soprano e mezzo (ou tenor), mas sopranos em geral preferem interpretá-la solo, por sua intensidade psicológica, de modo a realçar todo o conteúdo musical dessa peça que traz grandes gradações de interpretação para a personalidade feminina, variando do dramático ao lírico meditativo. Normalmente, também, a soprano dispensa o recitativo para essa ária, cuja letra se inicia com a seguinte reflexão:
Recitativo: Qual vita è questa mai
che a vivere incomincio!
E qual funesto, terribile secreto Orfeo m'asconde!
Perchè piange e s'affligge?
Ah, non ancora troppo avvezza agli affanni,
che soffrono i viventi,
a sì gran colpo manca la mia constanza;
agli occhi miei si smarrisce la luce,
oppresso in seno mi diventa 
affannoso il respirar.
Tremo, vacillo, e sento fra l'angoscia e il terrore
da un palpito crudel vibrarmi il core.
Sugiro ao leitor ouvir esse célebre recitativo na voz de Gundula Janowitz:
Link: https://youtu.be/eJIOY9BVWgo
Trad. Que vida é esta agora
que começo a viver!
(...)
O cenário é a estrada do Hades para o mundo dos vivos, Orfeu conduzindo Eurídice normalmente através de uma caverna escura e labiríntica. Eurídice estava morta e Orfeu decidira recorrer aos deuses imortais para recuperar a sua amada. Os deuses permitiram que Orfeu a recuperasse do Hades, desde que não olhasse para a sua face, até que eles estivessem de novo na terra. Contudo, ele foi proibido de contar porque ele a estava ignorando e ela imaginou que ele não olhava para ela porque não a amava mais. Num ímpeto, ela declara que preferiria morrer a perder o amor dele.
Gluck consegue perfeitamente refletir a dúvida que se instalou no espírito de Eurídice, que segue Orfeu a caminho do mundo dos vivos: o que é preferível para ela? Continuar na condição de morta ou ingressar no mundo dos vivos? Para ela, essa segunda opção seria um retorno à dor, pois só percebia indiferença nos gestos de Orfeu. Até então ela ignorava que ele fizera um pacto com os deuses, os quais exigiram de Orfeu, em troca do retorno dela à vida terrena, que os amantes não trocassem qualquer olhar no caminho de volta...
Gluck utiliza, para tanto, a tradicional forma musical estruturada em três seções, denominada ABA', sendo a terceira uma repetição com variações da primeira, em contraste com a seção intermediária.
Letra de Che fiero momento
Che fiero momento,
Che barbara sorte,
Passar dalla morte 
A tanto dolor!

Avvezzo al contento
D'un placido obblio,
Fra queste tempeste
Si perde il mio cor.
Io vacillo, io tremo...

Che fiero momento,
Che barbara sorte,
Passar dalla morte
A tanto dolor!

Trad. Que momento terrível,
Que destino cruel,
Passar da morte
A tanto sofrimento!

Eu estava acostumada à paz
De um tranquilo esquecimento;
porém nessas tempestades
meu coração se perde.

Que momento terrível,
Que destino cruel,
Passar da morte
A tanto sofrimento!


³  "Ombra mai fu" é a ária de abertura da ópera "Xerxes", de Haendel, datada de 1738. Originalmente composta para ser cantada por um castrato soprano, tem sido frequentemente arranjada para outros tipos de voz e instrumentos, sob o título "Largo de Xerxes" ou "Largo de Haendel",  apesar de no movimento original estar assinalado larghetto. Na ópera, a ária é precedida por um curto recitativo accompagnato de 9 compassos correspondendo a 6 versos, preparando a cena que vem a seguir, a saber: 
Letra de Ombra mai fu
Recitativo: Frondi tenere e belle 
del mio platano amato 
per voi risplenda il fato.
Tuoni, lampi, e procelle
non v'oltraggino mai la cara pace,
né giunga a profanarvi austro rapace.
Ombra mai fu...
Trad. do Recitativo: Ramos tenros e belos
do meu amado plátano,
para vós brilhe o destino.
Trovões, raios e tempestades
não irão nunca ultrajar a vossa querida paz,
nem o austro voraz  possa profanar-vos.

⁴  "O mio babbino caro" (Oh, meu papai querido) é uma ária para soprano da ópera "Gianni Schicchi" (1918), de Giacomo Puccini, e uma de suas composições mais conhecidas.