segunda-feira, 15 de abril de 2013

A LÍNGUA DE HOMERO CONTINUA VIVA?


Por Francisco José dos Santos Braga




I. INTRODUÇÃO

O leitor do Blog do Braga deve ter percebido que, no dia 20 de março de 2013, inaugurei uma nova seção com artigos de minha autoria e/ou textos de minha tradução que privilegiem o aprendizado e contribuam para o ensino da língua grega nos países lusófonos, especificamente com o meu artigo “Implicações da Reforma Ortográfica da Língua Grega em 1976”, o qual teve outros atores opinando sobre acordos e reformas ortográficas aqui e noutros países. Claro que o foco ali era abordar as consequências da simplificação promovida na língua falada por todos os falantes nativos na Grécia e Chipre e pelos Gregos espalhados por todo o mundo, especialmente as grandes comunidades gregas na Austrália, nos Estados Unidos e no Canadá, depois das inúmeras migrações dos Gregos no século XX, fato que ficou conhecido como a diáspora grega.

O linguista espanhol e filólogo helenista Dr. Francisco Rodríguez Adrados, nascido em Salamanca em 1922, catedrático de grego na Universidade Complutense de Madri de 1952 a 1988 e professor honorário da Universidade do Peloponeso em Kalamata, autor da “História da Língua Grega (desde os primórdios aos nossos dias)” assim se expressa a respeito: “O grego e o chinês são as únicas línguas com contínua presença viva dos próprios povos e no mesmo lugar há 4.000 anos. Todas as línguas são consideradas cripto-helênicas (κρυφοελληνικές), com ricos aportes (empréstimos) da língua-mãe, o grego. 
  
De fato, línguas específicas como a grega e a chinesa, as únicas vivas há 4.000 anos, de acordo com o linguista espanhol, constituem matriz criadora de um complexo mais amplo de línguas que de forma nenhuma poderão substituir a língua materna. Afirma ainda que a língua grega marcou com indelével sinete todas as línguas da Europa Ocidental, as quais tacha de cripto-helênicas; segundo ele, não só estas, mas também as demais línguas do planeta hoje podem ser assim consideradas, fato que é confirmado pelos Departamentos de Estudos Helênicos por todo o mundo. 

Consequentemente, a ligação mais óbvia entre os Gregos antigos e modernos é a sua língua, fruto de uma tradição contínua e documentada desde pelo menos o século XIV a.C. até os dias atuais. Não houve uma interrupção como a que ocorreu entre o latim e as modernas línguas românicas. A única língua que também compartilha a mesma continuidade da língua grega é a chinesa.
No presente artigo, meu propósito é mostrar que o vínculo que permanence entre a língua grega moderna e a antiga, apesar dos muitos percalços neste trajeto, mostrando a fidelidade e tradição do povo grego, que considera a sua língua um símbolo nacional e seu principal cartão de visita. 

É bom relembrar aqui que as agruras por que passa o povo grego no momento não são exclusividade da nação grega, e sim fruto das contingências que fazem parte dos ciclos do capitalismo e das crises que são gestadas no seu interior. Já me convenci de que as crises migram de um país a outro, dependendo das grandes e globais conveniências.

Nossa linguista e filóloga, Dra. Guida Nedda Barata Parreiras Horta, professora titular da Faculdade de Letras da UFRJ, fez a seguinte consideração por ocasião do Sesquicentenário da Independência da Grécia, em 25/03/1971 [HORTA (1980, pp. 21-22)]: 
Contudo, ninguém exprimiu melhor o sentimento universal da presença espiritual da Hélade, em nossos dias, do que um de seus mais brilhantes poetas modernos — Kostís Palamás, falecido em plena conflagração mundial, na luta pela liberdade, contra o nazi-fascismo, em 1943 — num poema, do qual, tomando a Grécia por objeto, permitimo-nos roubar uma parte da beleza intrínseca, traduzindo-o: 

AMO-TE
Por Kostís Palamás¹

Amo-te na linguagem do pássaro, e na do rouxinol, e com palavras inexprimíveis, com tudo o que, em minha razão nebulosa, vive a meio, arrastando após si uma caótica multidão, e que, ansiosamente, busca a forma e a luz.
Amo-te, com todas as estrelas de meu céu profundo. Fica, meu amor criador, em meu pensamento obscuro!
Pois o enxame das sombras zumbe em teu redor, e como! 
Para extrair de ti a forma e a luz.” 

II. MINHA TRADUÇÃO DE EXCELENTE ARTIGO QUE COMPROVA QUE VÁRIOS ELEMENTOS DO GREGO ANTIGO CONTINUA PRESENTE NA LÍNGUA GREGA MODERNA, INDEPENDENTE DE ACORDOS E REFORMAS ORTOGRÁFICAS 

 
Vocês sabem que hoje falamos a língua de Homero?
Por Sophia Kostara (Editora chefe do Blog InfoKids.gr)

Desde a época que falou Homero até hoje, falamos, respiramos e cantamos com a mesma língua.
Giorgos Seféris 

Qual palavra grega é antiga e qual é nova? Por que uma palavra homérica nos parece difícil e incompreensível?
Os Gregos hoje, independente da instrução, falamos homericamente, porém não o sabemos, porque ignoramos o significado das palavras que utilizamos.
Para comprovar a pertinência de nosso argumento, citaremos vários exemplos para verificarmos que a língua homérica não só não está morta, mas está completamente viva.
Αυδή é a voz [φωνή]. Hoje usamos o adjetivo άναυδος [sem fala, estupefato, atônito].
Αλέξω na época de Homero significa “impedir, dissuadir”. Agora usamos as palavras αλεξίπτωτο [pára-quedas], αλεξίσφαιρο [à prova de bala], αλεξικέραυνο [pára-raios],  αλεξήλιο [guarda-sol], Αλέξανδρος [aquele que repele os homens (machos adultos)], etc.
Com o advérbio τήλε em Homero subentendiam “longe”, usamos os vocábulos τηλέφωνο [telefone], τηλεόραση [televisão], τηλεπικοινωνία [telecomunicação], τηλεβόλο [canhão], τηλεπάθεια [telepatia], etc.
Λάας ou λας chamavam a pedra. Nós dizemos λατομείο [pedreira], λαξεύω [entalhar, gravar].
Πέδον em Homero significa solo; agora dizemos στρατόπεδο [quartel], πεδινός [plano, de planície].
A cama era chamada de λέχος, nós denominamos λεχώνα [parturiente] a mulher que recentemente pariu e fica na cama.
Πόρος chamavam a passagem, a travessia; hoje usamos o vocábulo πορεία. Também denominamos εύπορο [rico, opulento] alguém que tem dinheiro, porque possui facilidades (meios de atingir um objetivo), ou seja, pode passar onde quiser, e άπορο aquele que não tem meios de subsistência, o pobre.
Φρην é a lógica. Desse vocábulo provêm το φρενοκομείο [manicômio], ο φρενοβλαβής [demente], ο εξωφρενικός [extravagante], ο άφρων [insensato], etc.
Δόρπος chamavam o jantar[δείπνο]; hoje o vocábulo é επιδόρπιο [sobremesa].
Λώπος é, em Homero, roupa. Agora, chamamos aquele que nos furtou (despiu a nossa casa) λωποδύτη [ladrão].
Ύλη denominavam um lugar com árvores; nós dizemos lenhador [υλοτόμος].
Άρουρα era o terreno [χωράφι]; todos conhecemos a ratazana [αρουραίος].
Chamavam a ira [θυμός] de χόλο. Essa palavra deu origem à χολή [bílis], com o significado da amargura [πίκρα]. Dizemos também que alguém está aflito [χολωμένος].
Νόστος significa retorno à pátria. A palavra permaneceu como παλινόστηση [regresso à pátria] ou νοσταλγία [saudade].
Άλγος em Homero é o sofrimento corporal; dele provém o analgésico [αναλγητικό].
O peso [βάρος]  chamavam de άχθος, hoje dizemos αχθοφόρος [carregador].
Ρύπος [sujeira, porcaria] prossegue e se diz assim — ρύπανση [poluição].
Da palavra αιδώς [vergonha, hoje ντροπή] proveio o αναιδής [insolente, descarado].
Πέδη significa atadura, ligamento [δέσιμο] e agora dizemos πέδιλο [sandália]. Também usamos a palavra χειροπέδες [algemas].
De φάος, a luz [φως] provém a expressão φαεινές ιδέες [ideias luminosas].
Άγχω significa apertar o pescoço; hoje dizemos αγχόνη [forca, patíbulo]. Também é a ansiedade [άγχος] por algum aperto, ou por pressão.
Βρύχια em Homero são as águas profundas, donde o submarino [υποβρύχιο].
Φερνή chamavam o dote[προίκα]. Daí prevaleceu chamarmos a bem dotada de πολύφερνη νύφη [noiva bem dotada].
A refeição, à qual cada um que comparecia trazia consigo sua comida, chamava-se έρανος. A palavra permaneceu, com a diferença que hoje não contribuímos com comida, mas com dinheiro.
Há palavras, da época de Homero, que, enquanto a sua primeira forma mudou — χειρ ficou χέρι [mão], ύδωρ virou νερό [água], ναυς tornou-se πλοίο [navio], άστυ deu πόλη [cidade], sendo que na composição se manteve a primeira forma da palavra.
Assim, a partir da palavra χειρ temos: χειρουργός [cirurgião], χειριστής [operador], χειροτονία [relig. ordenação], χειραφέτηση [emancipação], χειρονομία [gesto], χειροδικώ [agir pela lei do mais forte], etc.
A partir de ύδωρ, temos as palavras: ύδρευση [abastecimento de água], υδραγωγείο [aqueduto], υδραυλικός [hidráulico], υδροφόρος [aquífero], υδρογόνο [hidrogênio], υδροκέφαλος [hidrocéfalo], αφυδάτωση [desidratação], ενυδρείο [aquário], etc.
A partir da palavra ναυς temos: ναυπηγός [engenheiro naval], ναύαρχος [almirante], ναυμαχία [batalha naval], ναυτικός [marinheiro], ναυαγός [náufrago], ναυτιλία [navegação], ναύσταθμος [estaleiro; porto naval], ναυτοδικείο [tribunal marítimo], ναυαγοσώστης [salva-vidas], ναυτία [náusea, enjoo], etc.
A partir do vocábulo άστυ temos: αστυνομία [polícia], αστυνομικός [agente policial], αστυφιλία [urbanismo], etc.

De acordo com supracitados exemplos, resulta que: Não existem palavras gregas antigas e novas, mas apenas palavras gregas.

A língua grega é una e essencialmente indivisível ao longo do tempo. Desde a época de Homero até hoje, apenas poucas palavras foram acrescentadas à língua grega. (Pelo contrário, foi criado um grande número de palavras compostas, cujos componentes constituem palavras originais ou derivadas do grego antigo.)

O conhecimento da etimologia e dos significados das palavras nos ajudará a compreendermos que falamos a língua da poesia homérica, uma língua que Homero não descobriu,  preexistente a ele muitos milênios.


III. NOTA DO AUTOR 


¹ Kostís Palamás, poeta, prosador, teatrólogo, historiador e crítico literário, nasceu em Patras, em 13 de janeiro de 1859. Foi considerado o mais importante da sua época, morreu em Atenas no dia 27 de fevereiro de 1943. É de sua autoria a letra do seu “Hino Olímpico”, escrita em 1896 quando dos primeiros Jogos Olímpicos da Era Moderna, com música de Spýros Samáras. Foi um dos candidatos ao Prêmio Nobel da Literatura em 1939. Palamás, que foi também romancista, dramaturgo e crítico, deixou uma vasta e variada obra literária. Dentro do movimento demoticista, Palamás teve papel primordial e dominou a cena literária por várias décadas, com uma vasta produção de ensaios e artigos, tendo publicado sua melhor poesia entre 1900 e 1910. 
Em 1936 e 1937, numerosas manifestações foram organizadas, na Grécia e no estrangeiro, para comemorar o cinquentenário da publicação do seu primeiro livro, “Cantos da minha Pátria”, uma coletânea poética que veio a lume em 1886.
Em 1937, tornou-se Cavaleiro da Legião de Honra Francesa
Os últimos anos da sua vida foram marcados pela solidão e por doenças. Só recebia visitas de amigos, que o acompanharam até a hora da morte. O seu funeral foi pretexto para comoventes apelos à resistência, face à ocupação alemã, feitos pelo poeta Ángelos Sikelianós, pelo arcebispo de Atenas e pelo povo, que cantou em uníssono o hino nacional grego.



Σ' ΑΓΑΠΩ
Κωστής Παλαμάς

Σ' αγαπώ με τη γλώσσα
του πουλιού τ' αηδονιού
και με τ' άφραστα· μ' όσα
στο θαμπό μου το νού

μισοζούν, αργορεύουν,
από χάος λαός,
κ' εναγώνια γυρεύουν
τη μορφή και το φως.

Σ' αγαπώ μ' όλα τ' άστρα
τού βαθιού μου ουρανού.
Στήσου, αγάπη μου πλάστρα
στο θαμπό μου το νου,

και των ίσκιων το σμάρι
βουΐζει γύρω σου, ω πώς !
από σέ για να πάρη
τη μορφή και το φως.

(Τα παράκαιρα, 1919
'Απαντα, τομ. Ζ´, σελ. 188)



IV.  REFERÊNCIAS  BIBLIOGRÁFICAS 




HORTA, G.N.B.P. : "A Luz da Hélade" (Ensaios Literários nº 1). Rio de Janeiro: Editora J. di Giogio & Cia. Ltda., 1980, 248 p.


KOSTARA, S. : "Γνωρίζετε ότι σήμερα μιλάμε την ομηρική γλώσσα;", artigo publicado no Blog InfoKids.gr

sexta-feira, 12 de abril de 2013

O imortal LINCOLN DE SOUZA, um autêntico intelectual são-joanense


Por Francisco José dos Santos Braga


OBS.: Este artigo foi publicado na Revista EM VOGA, Ano I, nº 1, março 2013, p. 12. Por outro lado, este material constituiu base para uma palestra minha na Associação Médica de Barbacena, intitulada "O papel do escritor sob a ótica do são-joanense Lincoln de Souza", a convite do Centro de Memória Belisário Pena e da Academia Barbacenense de Letras, ocorrida no dia 15 de março de 2013.


Lincoln de Souza (1894-1969) é um dos mais célebres autores são-joanenses, tendo se destacado como escritor, jornalista, poeta, folclorista e indigenista. Como jornalista, foi especialmente admirado por suas reportagens sobre diversas cidades e regiões do mundo que visitou a serviço de grandes jornais cariocas, na década de 1940. Nessa época, encontramo-lo a fazer a cobertura da crise do Oriente Médio, sobre a qual produziu várias matérias; além disso, visitou, como repórter de grandes jornais e revistas cariocas, as cidades de Miami, Buenos Aires, Paris, Bordeaux, Lille, Le Havre, Vigo (Espanha), Bruges (Bélgica), Dakar, Lisboa, bem como Recife, Aracaju, Salvador, Santos, Florianópolis, Lambari, as cidades históricas mineiras e, é claro, São João del-Rei. Nós, cidadãos são-joanenses, muito devemos a LS (sigla que usarei nesta matéria para Lincoln de Souza) pela divulgação do patrimônio histórico-cultural de nosso povo e da nossa cidade, através de suas inúmeras reportagens, relatando "coisas e aspectos" curiosos, pitorescos e desconhecidos para os leitores de nosso País. Por exemplo, em reportagem publicada em 8/4/1941, em jornal não identificado, cunhou a inédita expressão “Cidade dos Sinos”, tão em voga hoje em dia, identificadora da cidade de São João del-Rei. Esses recortes foram meticulosamente selecionados pelo próprio LS  para constar de seu acervo na Biblioteca Batista Caetano de Almeida, achando-se excelentemente preservados no álbum Viagens pelo Brasil e ao Estrangeiro (Caderno de Viagem). Outros cinco álbuns encadernados por LS referem-se a seus livros, contendo correspondências recebidas e dedicatórias de livros que lhe foram oferecidos e autógrafos. Finalmente, dois álbuns relatam, através de matérias e fotografias, suas quatro viagens ao Brasil Central, o que ocorreu no início da década de 1950. Esse material se revela de importância ímpar para o pesquisador, porquanto foi encadernado e selecionado de acordo com a ótica muito particular do próprio LS.

Publicou 19 livros, sendo a maioria de poesias (entre os quais cabe mencionar Versos Tristes, Para os Teus Olhos, Lenita, Poemas e Cantigas do Meu Crepúsculo, este de trovas e quadras), um de crônicas, um de contos (1922) constituído por doze lendas são-joanenses (Contam que…), dois dedicados a suas aventuras entre os xavantes, um dedicado a Tobias Barreto, um (Vida Literária, 1961) composto de crônicas, ensaios, escritos diversos e anotações autobiográficas. Cabe aqui salientar que o seu livro “Entre os Xavantes do Roncador” (1952)  foi premiado pela ABL-Academia Brasileira de Letras, em 1953, com o Prêmio João Ribeiro, e reflete a aventura que se constituíram as suas quatro viagens ao "Hinterland" brasileiro, documentadas por sua câmera e com farto material de relevância antropológica.

De todos os seus livros, “Contam que...”, a coletânea de lendas são-joanenses, caiu no gosto do público, tendo merecido diversas edições. Esse livro granjeou-lhe termos elogiosos do folclorista e antropólogo Luis da Câmara Cascudo. Segundo este, “Contam que...” lhe agradou pela “linguagem lépida e nítida”, pela “precisão vocabular fixando definitivamente o tema”, pelo “encanto das escolhas dos assuntos”, pelas “soluções terminais”, enfim, pela “maneira de comunicação ao leitor na mesma intensidade emocional como sentia o mineiro cheio de recordações e de lembranças de sua terra”.

LS viveu no Rio de Janeiro durante quase 50 anos, de 1921 a 1969. O fato que o levou a abandonar Belo Horizonte (onde trabalhava na E.F.O.M.) em meado de 1921 e a mudar-se precipitadamente para o Rio foi que ficou noivo da poetisa Cecília Meireles, que ele chamava de “formosa morena, de uns grandes e sugestivos olhos de zíngara”. Infelizmente, não concretizou o sonho de casar-se com a autora de “Romanceiro da Inconfidência” e essa relação amorosa se desfez em fevereiro de 1922. Relatou Gentil Palhares que LS costumava dizer: “Não quis o destino que eu me unisse à fascinante criatura dos olhos verdes...”. Esse incidente, nunca completamente superado, causou profunda impressão no jovem Lincoln e teve funestas consequências para a sua vida emocional, marcando de profunda melancolia e desilusão quase toda a sua produção poética.

LS orgulhava-se de não ser um intelectual esquecido. Também não lamentava que a crítica não lhe tivesse sido favorável. Viveu admirado pelos intelectuais brasileiros e pela imprensa em geral. Em suas palavras, "sem que partisse dele a mais leve insinuação", foi homenageado  por inúmeras instituições de comunicações. Na sua cidade natal, o C.A.C.- Centro Artístico e Cultural de São João del-Rei, sob a Presidência do esloveno Pe. Luiz Zver, homenageou-o em três ocasiões entre 1960 e 1961. Também, no transcurso do 70º aniversário de LS, Monsenhor Sebastião Raimundo de Paiva organizou uma singela festa em homenagem a seu amigo no salão paroquial, o que o deixou profundamente sensibilizado.

Com justo merecimento, a sua memória é homenageada na sua terra natal, primeiro no Instituto Histórico e Geográfico, onde sua figura resplandece na Galeria de Patronos, emprestando seu nome à cadeira nº 22, que tenho a honra de ocupar. Depois, a Academia de Letras destinou a cadeira nº 18 a esse notável são-joanense. Também, em 2008, a UFSJ prestou sua homenagem ao autor de "Contam que...", publicando a Agenda UFSJ 2008, tendo adotado como tema de cada mês daquele ano um conto desse livro, obedecendo à sequência dada pelo autor. Finalmente, com quase seis anos de atuação (2007-2013), o passeio cultural “LENDAS SÃO-JOANENSES” (curiosamente, também com a sigla LS), em espetáculo noturno, contribui para a divulgação dos casos de "Contam que..." a grupos de turistas que visitam a nossa região e para a divulgação turística de nossa cidade.

Do rico acervo de obras de arte, doado por LS em 1965 ao Conservatório Estadual de Música Pe. José Maria Xavier para compor a Sala Lincoln de Souza, constituído de 144 itens, incluindo pinacoteca, livros, teares, baús, busto de LS, desenhos de crayon e souvenirs de países por onde ele passou e de suas viagens aos indígenas do Brasil Central, além de uma mesa originária de Beirut, em madeira com madrepérola, lamentavelmente pouca coisa resta para se ver. Tendo esse precioso acervo sido cedido em 1979 à Secretaria Municipal de Turismo, representada pelo Museu Tomé Portes del Rei, sediado na Casa de Bárbara Eliodora, o seu desaparecimento se deu quando da última reforma do Museu Tomé Portes del Rei, sendo hoje ignorado o seu paradeiro. Tristemente, a Sala Lincoln de Souza fica apenas em nossa memória e nas fotografias preservadas pelos pesquisadores são-joanenses.











Na qualidade de espírita convicto, ao longo de sua vida deu provas de elevação espiritual, situando-se num patamar acima das dissensões religiosas. Sentindo a proximidade de sua morte, legou no seu testamento uma quitinete no Rio de Janeiro e uma pequena casa de morada na Rua Santa Teresa em São João del-Rei em favor das Obras Sociais da Paróquia de Nossa Senhora do Pilar. Para obras eminentemente espíritas, legou em testamento uma casa para sede da A.M.E.-Aliança Municipal Espírita de São João del-Rei e uma casa para funcionamento da "Sopa Vovô Faleiro", dentre muitas outras doações.


Imagens: 11 fotografias, pertencentes ao acervo do historiador Silvério Parada, das obras artísticas então permanentemente expostas no Museu Tomé Portes del Rei, sediado na Casa de Bárbara Eliodora, antes da última reforma, incluindo as que emolduravam a "Sala Lincoln de Souza". 

sábado, 6 de abril de 2013

"A CIZÂNIA" E ASTERIX


Por Francisco José dos Santos Braga



Dedico este artigo a Caio Bastone, que me deu a ideia de escrever sobre A Cizânia neste espaço, tendo-me sugerido que fizesse a abordagem ao 8º volume da série "As Aventuras de Asterix" e recomendado a sua leitura compenetrada.


I. INTRODUÇÃO



O vocábulo "cizânia" é um tanto rebuscado para nós brasileiros, embora esteja rigorosamente alicerçado na melhor etimologia greco-latina. Em vez de cizânia, preferimos usar a expressão "ervas daninhas" ou o termo "joio", neste caso provavelmente devido à tradução dada a uma célebre Parábola de Jesus Cristo, que foi denominada "O joio e o trigo" ou, melhor ainda, "O joio no meio do trigo". A tradução para "joio" foi feita a partir do vocábulo grego ζιζάνια (neutro), plural de ζιζάνιον, que nos chegou através do latim tardio como "zizanĭa" (neutro plural). Em francês, "zizanie" (feminino singular) ficou mais próxima da raiz greco-latina.

O Evangelho de Mateus é o único dos quatro canônicos que apresenta essa parábola, por demais conhecida, no capítulo 13, versículos 24 a 30, sendo que a sua interpretação escatológica nos é dada pelo próprio Jesus nos versículos 36 a 43 do mesmo capítulo. 

Uma versão abreviada dessa parábola também aparece no gnóstico Evangelho de Tomé, evangelho apócrifo constituído de uma coleção de 114 λόγιαΛόγιον, na língua grega antiga, significa "palavra", mas, no caso da utilização desse termo nas Sagradas Escrituras, há uma conotação muito mais ampla, significando "palavras originais" atribuídas ao próprio Jesus ou breves oráculos ou declarações divinas. A referida parábola encontra-se descrita no λόγιον 57, ou seja, exatamente na metade da quantidade de "λόγια" contidos no Evangelho de Tomé. Por ser mais desconhecido do público, vou reproduzir aqui o texto traduzido do grego para o francês por MÉNARD (1975, p. 65-66), em minha tradução para o português:

Λόγιον 57
Jesus disse:
O Reino do Pai é semelhante a um homem que tinha uma boa semente. De noite, veio seu inimigo e semeou joio por cima da semente boa. O homem não permitiu que (os servos) arrancassem o joio. Disse ele: "Com medo de vocês arrancarem o joio e, junto com ele, o trigo. Com efeito, no dia da ceifa, o joio há de aparecer. Então, será arrancado e queimado." ¹

Embora esse assunto seja por si só imensamente cativante, merecendo um ensaio deste autor num futuro post, não gostaria de me desviar muito do propósito de abordar "A Cizânia" (La Zizanie, em francês), o 15º volume da série sobre o herói gaulês Asterix, editado em 1970 na França, e o 8º volume publicado no Brasil da série "As Aventuras de Asterix". Essas histórias em quadrinhos foram criadas em 1959 na França pelos franceses René Goscinny (textos) ² e Albert Uderzo (desenhos).

Os bons dicionários, como o de Houaiss e o de Caldas Aulete, trazem a acepção de joio para "cizânia", explicando a seguir que se trata de espécie de gramínea nociva (nome científico de lolium temulentum) que brota no meio do trigo. Em sentido figurado, ambos chamam de cizânia o desentendimento entre pessoas, a discórdia, a desavença, a rixa.


II. "A CIZÂNIA"



Certamente todas as pessoas maduras ainda se recordam da expectativa com que eram aguardadas "As Aventuras de Asterix", com textos de René Goscinny (1926-1977) e desenhos de Albert Uderzo (1927), autores de uma série francesa de revistas em quadrinhos que contava a história de uma aldeia de gauleses (antepassados dos franceses) que teimavam em resistir ao invasor romano, embora toda a Gália já tivesse se rendido. A aldeia de Asterix continuava resistindo graças a poderes especiais conferidos por certa poção mágica. Essas aventuras se passavam 50 anos antes de Cristo.

A sinopse de "A Cizânia" pode ser resumida da seguinte forma: O Senado romano recusa a César verba para novas conquistas, da qual ele dependia para estender seu poder a toda a Gália. Então, ele decide dar cabo, de uma vez por todas, de uma pequena aldeia gaulesa que lhe resiste bravamente. Júlio César, cansado de ver suas tropas serem derrotadas pela poção mágica gaulesa, delibera fazer uso de uma arma secreta. Após uma reunião com seus conselheiros, decide César enviar à Gália, na esperança de semear a cizânia, TULLIUS DETRITUS ³, um estrategista ou agente romano que possui um dom incrível de instalar a discórdia. A tática de César tem fundamento: se os gauleses se ocupassem mais com seus atritos do que com a proteção da aldeia, certamente ficaria mais fácil para o exército romano dominá-los. 

O primeiro gesto de Detritus é chegar à aldeia gaulesa com o propósito de entregar, no dia do aniversário de Abracurcix, um caro presente "ao homem mais importante da aldeia", ninguém menos que Asterix. Ou seja, o primeiro passo do cúmplice de César era justamente atingir o orgulho próprio do chefe da tribo gaulesa, dando a entender que Asterix era mais importante do que ele. Ao valorizar Asterix em detrimento de Abracurcix, consegue o romano semear o ressentimento no coração deste último. Ao  jogar o chefe da tribo gaulesa (Abracurcix) contra o herói Asterix, consegue instalar a cizânia entre os gauleses. Com o propósito de dividir para melhor governar, Detritus a mando de César procura exatamente romper a amizade dos gauleses dissidentes. É interessante que na história essa pequena intriga  teve uma repercussão enorme, a ponto de jogar um gaulês contra o outro naquela aldeia; e ficou pior quando Abracurcix viu Detritus saindo da casa de Asterix num clima — totalmente forjado pelo romano — de "amizade íntima". 

A próxima estratégia de Detritus consiste em convencer os gauleses de que o herói Asterix vendeu a poção mágica aos romanos. E efetivamente, após uma guerra psicológica, finamente conduzida, Detritus consegue semear a discórdia na pequena aldeia gaulesa, onde todos desconfiam de todo o mundo. 

A aldeia corre perigo! Em suma, a intriga e a desconfiança começam a minar a unidade da aldeia, levando a que Asterix, Obelix e o druida Panoramix a abandonem (aparentemente). Aqui, Detritus prova do seu próprio veneno, pois acredita que os três realmente estão de partida e, portanto, o caminho está livre para Roma invadir a aldeia, uma vez que, com o druida Panoramix bem longe, não haverá poção mágica suficiente para os gauleses vencerem os romanos. Assim, os legionários romanos partem para o ataque à aldeia gaulesa e, inadvertidamente, caem no plano de Asterix, de Obelix e do druida Panoramix que, por sua vez, retornam à aldeia antes que o inimigo lá chegue. Esse plano dos três gauleses consiste em desmascarar Detritus e reforçar a unidade da aldeia, se materializado. Depois de várias peripécias, assiste-se a um grande combate de quatro frentes romanas contra os gauleses, do qual estes sairão vitoriosos, recuperando a unidade da aldeia. Felizmente, apesar da credulidade dos habitantes da aldeia, a sabedoria de Asterix, de Obelix e de Panoramix fará voltar a calúnia contra seu autor, depois que fingiram uma retirada estratégica da aldeia.


III. NOTAS DO AUTOR


¹  MÉNARD,  Jacques-E.: L' Évangile Selon Thomas, disponível na Internet no seguinte endereço eletrônico: http://books.google.com.br/books?id=3rUfAAAAIAAJ&printsec=frontcover&source=gbs_ge_summary_r&cad=0#v=onepage&q&f=false

A tradução de Ménard para o λόγιον 57, da língua grega para o francês, é a seguinte:
Jésus a dit: Le Royaume du Père est comparable à un homme qui avait une [bonne] semence. Son ennemi vint de nuit, sema de l' ivraie (ζιζάνιον) par dessus la bonne semence. L' homme ne les laissa pas arracher l' ivraie (ζιζάνιον). Il leur dit: De peur que vous ne veniez arracher l' ivraie (ζιζάνιον) (et) que vous n' arrachiez le blé avec elle; en effet, au jour de la moisson, les ivraies (ζιζάνια) apparaîtront: on les arrachera et on les brûlera.

Como se vê, Ménard prefere utilizar a sucedânea "ivraie" para "zizanie", acompanhando o provérbio tradicional: séparer le bon grain de l' ivraie (correspondente ao nosso "separar o joio do trigo").  
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²  Cabe a esta série de livros para a juventude da dupla famosa (Goscinny e Uderzo) o que Georges Dumézil comentou sobre a série Les Quatre As e Le Petit Nicolas (esta, com textos de Goscinny e desenhos de Sempé). Segundo ele, seus autores repartem seus heróis segundo uma trifuncionalidade (três funções), como constitutivas da organização social, da mitologia e, por consequência, da literatura primitiva dos povos indo-europeus, a saber: 
soberania mágica e/ou intelectual
poder guerreiro
- organização da subsistência, trabalho produtivo, fecundidade, amor. (Apud CORBELLARI, Alain: "Bande dessinée et trifonctionnalité".)
Neste trabalho, Corbellari declara: 
"(...) le nom de Goscinny reste attaché à une série qui l'un des plus illustres fleurons du genre — représente à mon sens le plus bel exemple de construction trifonctionnelle en bande dessinée, en dehors des Quatre As: je veux parler d' Astérix. (...) Il faut d' abord s' assurer que l' on peut, sans réduction abusive, considérer que les aventures d' Astérix reposent sur la collaboration indispensable et suffisante de trois personnages représentant chacun l' une des trois fonctions. Or, il semble bien que c'est le cas: Astérix représente l' un de très rares exemples d' une série qui s' enracine dans une authentique société indo-européenne archaïque. (...) Astérix, guerrier par excellence (il porte l' épée et, contrairement à la plupart des autres personnages, on ne lui connaît pas de "métier") est certes le héros, mais il n'est rien sans la potion magique du druide, représentant totalement canonique de la première fonction sous son aspect sombre (que l' on songe à sa grotte dans le premier album de la série) et, évidemment, magique, l' aspect même que Dumézil définissait par l' évocation de Varuna. Cherche-t-on l' aspect Mithra (solaire) de la fonction de souveraineté qu' on le rencontre sans plus de difficulté en la personne du chef Abracurcix."

Ou, em minha tradução: "(...) o nome de Goscinny permanece ligado a uma série que — um dos mais ilustres florões do gênero — representa, em meu juízo, o mais belo exemplo de construção trifuncional em quadrinhos, afora Les Quatre As: quero falar de Asterix. Primeiro, é preciso certificar-se de que é possível, sem redução abusiva, considerar que as aventuras de Asterix repousam sobre a colaboração indispensável e suficiente de três personagens representando cada um uma das três funções. Ora, parece bem ser o caso: Asterix representa um dos muito raros exemplos de uma série que se enraíza numa autêntica sociedade indo-europeia arcaica. (...) Asterix, guerreiro por excelência (porta a espada e, contrariamente à maior parte dos outros personagens, não se conhece a sua profissão) é certamente o herói, mas é nada sem a poção mágica do druida [Panoramix], representante totalmente canônico da primeira função sob seu aspecto sombrio (a gente sonha com sua gruta no primeiro álbum da série) e, evidentemente, mágico, ainda o aspecto que Dumézil definia pela evocação de Varuna. Se a gente procurar o aspecto Mithra (solar) da função de soberania, ele é encontrado sem mais dificuldade na pessoa do chefe Abracurcix."

³  No Brasil, o agente romano ficou conhecido por Tullius Detritus, lembrando "detrito" ou matéria fecal. Em espanhol, ficou conhecido apenas por Detritus. De fato, ele foi designado por Júlio César (100 a.C.-44 a.C.) para prestar um "serviço sujo". Em Portugal, ficou conhecido pelo nome de Tullius Venenus; na Alemanha, por Tullius Destructivus, e na Holanda, por Cassius Catastrofus. 



IV. REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS 


CORBELLARI, Alain: "Bande dessinée et trifonctionnalité", no seguinte endereço eletrônico: http://etc.dal.ca/belphegor/vol4_no1/articles/04_01_Corbel_trifon_fr.html

GOSCINNY, R. & UDERZO, A.: "La Zizanie", nº 15 da série, Paris: Éditions Dargaud, 2º trimestre de 1970, nº 522, 48 p. 
— "A Cizânia", nº 8 da série, Rio de Janeiro: Editora Record, 1986, 48 p.

MÉNARD, Jacques-E.: L' Évangile Selon Thomas, Leiden: E. J. Brill, 1975, 252 p.