terça-feira, 11 de dezembro de 2012

É AINDA POSSÍVEL A POESIA?, discurso de Eugenio Montale, perante a Academia Sueca em 1975, quando foi agraciado com o Prêmio Nobel de Literatura


Por Francisco José dos Santos Braga

 

I - INTRODUÇÃO

No dia 12 de dezembro de 1975, o italiano Eugenio Montale (Gênova, 1896-Milão, 1981), poeta lírico, prosador, crítico literário, editor e tradutor, proferiu, perante a Academia Sueca, em Estocolmo, o seu discurso de agradecimento pelo Prêmio Nobel de Literatura que lhe foi atribuído. A justificativa, ao concedê-lo, foi "por sua poesia distintiva que, com grande sensitividade artística, tem interpretado os valores humanos sob o signo de uma perspectiva sobre a vida sem ilusões."

Em comemoração a esse famoso discurso proferido por ocasião da Cerimônia do Prêmio, ocorrido há exatamente 37 anos atrás, o Blog do Braga publica, a seu ver, em caráter inédito em língua portuguesa, esse célebre discurso que Eugenio Montale intitulou "É ainda possível a poesia?". Apesar de ter essa fala muitos trechos citados por diversos autores entre nós por considerá-lo em muitos aspectos atual, até hoje nenhum deles aceitou o desafio de oferecer a ela a tradução integral de sua lavra. ¹

Para MANDOLINI (2011?), o discurso em questão pode não possuir os caracteres da originalidade absoluta, nem, tampouco, ser considerado um exemplo fulgurante de visão do estado e do futuro da poesia. A singularidade e a atualidade do texto talvez residam no fato de que, já a partir do título, ele revela — indireta, mas claramente — a consciência de que a poesia, este "produto absolutamente inútil, mas quase nunca nocivo", tende a não oferecer resposta a tantas questões sobre a existência do homem que determinam o seu próprio manifestar-se e que, desde sempre, a animam. A poesia aspira explorar bem o que concerne ao nosso viver, mas também pode sobretudo nos colocar questões muitas vezes irrespondíveis.

Passam os anos e os decênios e as questões que Montale colocou sobre a poesia perante os Acadêmicos suecos foram e são ainda contingentes. Elas permanecem ainda, de fato, sem a perspectiva de receberem uma resposta ou interpretação inequívoca. O de que se pode mais provavelmente estar certo, porém, é que a poesia continuará a compartilhar o destino da humanidade: o seu mesmo fugaz e reiterado anseio. ²


II. Eugenio Montale:  É AINDA POSSÍVEL A POESIA?


O Prêmio Nobel foi concedido este ano pela 75ª vez, se eu não estiver mal informado. E se houver muitos cientistas e escritores que mereceram este prestigioso reconhecimento, bem menor é o número dos que estão vivendo e ainda trabalhando. Alguns deles estão presentes aqui, aos quais rendo minhas saudações e votos de boa sorte. De acordo com opinião generalizada, o trabalho dos adivinhos que não são sempre confiáveis, este ano ou nos anos podem ser considerados iminentes, o mundo inteiro (ou pelo menos aquela parte do mundo que pode ser tida como civilizada) experimentará uma virada histórica de proporções colossais. Não é obviamente uma questão de um retorno escatológico, do fim do próprio homem, mas do advento de uma nova harmonia social pressentida apenas nos vastos domínios da Utopia. Na data desse evento, o Prêmio Nobel terá uma centena de anos de idade e apenas então será possível fazer um completo balanço de quanto a Fundação Nobel e o prêmio a ela atrelada contribuíram para a formação de um novo sistema de vida comunitária, seja a do universal bem-estar ou mal-estar, mas em tal dimensão a por um fim, pelo menos por muitos séculos, à multi-secular diatribe sobre o significado da vida. Refiro-me à vida humana e não à aparição dos amino-ácidos que data de vários milhares de milhões de anos atrás, substâncias que tornaram possível a aparição do homem e talvez já continha o projeto dele. Neste caso, como é longo o passo do deus absconditus! ³ Porém, eu não pretendo desviar-me do meu assunto e me pergunto se se justifica a convicção sobre a qual se baseia o estatuto do Prêmio Nobel e essa é: que as ciências, nem todas no mesmo nível, e as obras literárias contribuíram para a disseminação e defesa de novos valores em sentido amplo "humanísticos". A resposta é certamente afirmativa. O registro dos nomes daqueles que, tendo dado algo à humanidade, receberam o cobiçado reconhecimento do Prêmio Nobel seria extenso. Mas infinitamente mais numerosa e praticamente impossível de identificar seria a legião, o exército daqueles que trabalham pela humanidade em infinitas maneiras, mesmo sem se darem conta disso e jamais pensaram em "fazer gemer os tornos", como reza um ditado italiano. Lá certamente existe um exército de almas puras, imaculadas, e eles são um obstáculo (certamente insuficiente) à difusão daquele espírito utilitário que em vários graus é impelido rumo a corrupção, crime e toda forma de violência e intolerância. Os acadêmicos de Estocolmo muitas vezes têm dito não à intolerância, ao fanatismo cruel e àquele espírito perseguidor que volta o forte contra o fraco, opressores contra os oprimidos. Isto é particularmente verdadeiro em sua escolha das obras literárias, trabalhos que podem às vezes ser odiosos, mas nunca como aquela bomba atômica que é o mais maduro fruto da eterna árvore do mal.

Não insistirei sobre esse ponto, porque não sou filósofo, nem sociólogo nem moralista.

Tenho escrito poemas e por esses me foi concedido um prêmio. Mas também tenho sido um bibliotecário, tradutor, crítico literário e musical e até desempregado por causa de reconhecida falta de lealdade a um regime que não podia amar. Alguns dias atrás uma jornalista estrangeira veio visitar-me e perguntou-me: "Como você distribuiu tantas atividades diferentes? Tantas horas à poesia, tantas horas à tradução, tantas à atividade empregatícia e tantas à vida?" Tentei explicar-lhe que se deve planejar o tempo de vida como se planeja um projeto industrial. No mundo há um grande espaço para o inútil, e realmente um dos perigos de nossa época é essa comercialização do inútil, à qual os muito jovens são particularmente sensíveis.

De qualquer forma, estou aqui porque tenho escrito poemas. Um produto completamente inútil, mas quase nunca nocivo e isto é uma das suas características de nobreza. Mas não é a única, uma vez que a poesia é uma criação ou uma doença que é absolutamente endêmica e incurável.

Estou aqui porque tenho escrito poemas: seis volumes, além de inúmeras traduções e ensaios críticos. Tem sido dito que é uma produção pequena, talvez supondo que o poeta é um produtor de mercadoria; as máquinas precisam ser utilizadas integralmente. Felizmente, poesia não é mercadoria. É um fenômeno de que sabemos muito pouco, tanto que dois filósofos tão diferentes quanto Croce, historiador e idealista, e Gilson, católico, concordam quanto à impossibilidade de se escrever uma história da poesia. De minha parte, se considero poesia como objeto, defendo que ela nasceu da necessidade de agregar um som vocal (palavra) ao martelar da primeira música tribal. Só muito mais tarde, palavra e música puderam ser escritas de alguma forma e diferenciadas. Aparece a poesia escrita, mas o parentesco comum com a música se faz sentir. A poesia tende a abrir-se em formas arquitetônicas, surgem os metros, as estrofes, as assim chamadas formas fixas. Já nas primeiras sagas dos nibelungos e depois em alguns romances, a verdadeira matéria da poesia é o som. Mas não tardará a surgir com os poetas provençais uma poesia que se dirige ao olho. Lentamente a poesia se torna visual porque pinta imagens, mas é também musical; ela reúne duas artes em uma. Naturalmente as estruturas formais constituíam uma grande parte da visibilidade poética. Depois da invenção da imprensa, a poesia fica vertical, não preenche completamente o espaço branco, é rico em novos parágrafos e repetições. Até certos vácuos têm um valor. Bem diversa é a prosa que ocupa o espaço todo e que não dá indicações de sua pronunciabilidade. E neste ponto as estruturas métricas podem ser um instrumento ideal para a arte da narrativa, isto é, para o romance. Este é o caso para aquele instrumento narrativo que é a estrofe de oito versos, forma que já é um fóssil no início do século XIX, apesar do sucesso de Don Juan, de Lord Byron (um poema que ficou semi-acabado). Mas, caminhando para o fim do século XIX, as formas fixas da poesia não mais satisfaziam o olho e o ouvido. Idêntica observação pode-se fazer para o blank verse inglês e para o endecasillabo sciolto italiano. Nesse ínterim, avança a desagregação do Naturalismo, tendo sido imediata a repercussão sobre a arte pictórica. Assim, com um longo processo, que exigiria tempo demais descrever aqui, chegou-se à conclusão de que era impossível reproduzir a realidade, os objetos reais, assim criando duplicatas inúteis; mas são expostos, in vitro ou mesmo ao natural, os objetos ou figuras dos quais Caravaggio ou Rembrandt teriam apresentado um fac-símile, uma obra de arte. Na grande mostra de Veneza, anos atrás, foi exposto o retrato de um mongolóide: era um argumento très dégoûtant, mas por que não? A arte pode justificar tudo. A expectativa era de que a gente, ao se aproximar dele, descobrisse que não se tratava de um retrato, mas de si mesmo, infeliz em carne e osso. O experimento foi interrompido manu militari, mas num contexto estritamente teórico ele era plenamente justificado. Por muitos anos, críticos que ocupam cátedras universitárias vinham pregando a necessidade absoluta da morte da arte, esperando por quem sabe qual palingênese ou ressurreição, cujos sinais não podiam ser vislumbrados.

Que conclusões podem ser tiradas de tais fatos? Evidentemente as artes, todas as artes visuais, estão ficando mais democráticas no pior sentido do termo. Arte é a produção de objetos para consumo, para serem usados e descartados à espera de um novo mundo no qual o homem seja bem sucedido em livrar-se de tudo, até da própria consciência. O exemplo que trouxe poderia ser estendido à música exclusivamente barulhenta e indiferenciada, ouvida naqueles locais onde milhões de jovens se reúnem para o horror de sua solidão. Mas por que, mais do que nunca, o homem civilizado chegou ao ponto de ter horror de si mesmo?

Obviamente prevejo as contestações. Não é preciso confundir as moléstias sociais, que talvez sempre existiram, mas foram pouco conhecidas, por que os antigos meios de comunicação não permitiam conhecer e diagnosticar a moléstia. Mas impressiona o fato de que uma espécie de milenarismo geral seja acompanhado por um conforto sempre mais difundido, o fato de que o bem-estar (lá onde existe, isto é, em limitadas áreas do planeta) tenha as lívidas feições do desespero. Sob esse quadro tão triste da atual civilização do bem-estar, até as artes tendem a misturar-se e a perder sua identidade. A comunicaçao de massa, o rádio e sobretudo a televisão, tentaram, não sem sucesso, aniquilar toda possibilidade de solidão e de reflexão. O tempo se torna mais rápido, as obras compostas há poucos anos aparecem "datadas" e a carência que o artista tem de ser ouvido, mais cedo ou mais tarde, torna-se uma necessidade espasmódica do atual, do imediato. Daí, que a arte nova do nosso tempo é o espetáculo, uma exibição não necessariamente teatral, para a qual concorrem os rudimentos de toda arte e que opera uma espécie de massagem psíquica no espectador, ouvinte ou leitor, conforme o caso. O deus ex machina deste novo acervo é o diretor. Seu objetivo não é só coordenar arranjos cênicos, mas também dar intenções a peças que não tenham nenhuma ou que tenham outras. Há uma grande esterilidade em tudo isso, uma grande falta de confiança na vida. Em tal paisagem de exibicionismo histérico, qual pode ser o lugar da mais discreta das artes, a poesia? A assim chamada poesia lírica é obra, fruto de solidão e de acumulação. Isso é ainda hoje verdadeiro, mas em casos bastante limitados. Contudo, temos casos mais numerosos, nos quais o autoproclamado poeta se mantém atualizado. A poesia se faz então acústica e visual. As palavras respingam em todas as direções, como a explosão de uma granada, não havendo um verdadeiro significado, mas um terremoto verbal com muitos epicentros. Não sendo necessário decifrá-la, pode-se recorrer à ajuda do psicanalista em muitos casos. Prevalecendo o aspecto visual, a poesia é até traduzível, e isso é um novo fenômdno na história da estética. Isso não significa que os novos poetas sejam esquizóides. Alguns deles podem escrever prosa classicamente tradicional e pseudo-versos vazios de qualquer sentido. Há também poesia escrita para ser urrada numa praça diante de uma multidão entusiasta. Isso ocorre especialmente em países onde regimes autoritários estão em vigor. E tais atletas do vocalismo poético não são sempre destituídos de talento. Citarei um caso e me desculpo se é também um caso que me diz respeito pessoalmente. Mas o fato, se verdadeiro, demonstra que já coexistem dois tipos de poesia: uma, para consumo imediato e morre assim que é expressa, enquanto que a outra pode dormir tranquila, porque um dia despertará, se tiver força para fazê-lo.

A verdadeira poesia é semelhante a certos quadros cujo proprietário se ignora e que apenas alguns iniciados conhecem. Contudo, a poesia não vive somente em livros ou em antologias escolares. O poeta não conhece e muitas vezes nunca conhecerá seu verdadeiro receptor. Eu lhes darei meu pequeno exemplo pessoal. Nos arquivos dos jornais italianos se acham obituários de homens que ainda estão vivos e ativos. Esses artigos são chamados de "crocodilos". Há uns anos atrás, no Corriere della Sera, eu descobri meu "crocodilo", assinado por Taulero Zulberti, crítico, tradutor e poliglota. Ele afirma que Mayakovsky, tendo lido um ou mais de meus poemas traduzidos em russo, disse: "Eis um poeta de que gosto. Gostaria de poder lê-lo em italiano." O episódio não é improvável. Meus primeiros versos começaram a circular em 1925 e Mayakovsky (que viajou à América do Norte e a outros lugares) cometeu suicídio em 1930.

Mayakovsky era um poeta com um pantógrafo, com um megafone. Se ele pronunciou tais palavras, meus poemas tinham encontrado, por caminhos tortos e imprevisíveis, seu receptor.

Não se creia, contudo, que eu tenha uma ideia solipsística. A ideia de escrever para os assim chamados poucos felizes nunca foi minha. Na realidade, a arte é sempre para todos e para ninguém. Mas o que permanece imprevisível é seu verdadeiro produtor, o seu receptor. A arte-espetáculo, a arte de massa, a arte que quer produzir uma espécie de mensagem físico-psíquica sobre um usuário hipotético tem infinitas estradas diante de si, porque a população do mundo está em contínuo crescimento. Mas o seu limite é o vácuo absoluto. É possível moldar e exibir um par de chinelos (eu próprio vi os meus nesta condição); no entanto, uma paisagem, um lago ou qualquer espetáculo natural grandioso não pode ser exposto sob lente.

A poesia lírica certamente rompeu seus limites. Há poesia até na prosa, em toda a prosa grandiosa que não é meramente utilitária ou didática: existem poetas que escrevem em prosa ou pelo menos em prosa mais ou menos aparente; milhões de poetas escrevem versos que não têm ligação com a poesia. Mas isso significa pouco ou nada. O mundo está em crescimento, ninguém pode dizer o que o futuro será. Mas não é crível que a cultura de massa pelo seu caráter efêmero e frágil, não produzirá, através de necessárias repercussões, uma cultura que seja tanto defesa quanto reflexão. Que possamos  todos colaborar para este futuro. Mas a vida do homem é breve e a vida do mundo pode ser quase infinitamente longa.

Eu tinha pensado em dar este título a meu curto discurso: "Será a poesia capaz de sobreviver no universo de comunicação de massa?". É o que muitos se perguntam, mas, após refletir bem, a resposta não pode ser senão afirmativa. Se por poesia for entendida poesia beletrística, é claro que a produção do mundo continuará a crescer desmesuradamente. Se, ao invés, nos limitarmos àquela poesia que recusa com horror o término da produção, aquela que surge quase por milagre e parece estofar toda uma época e toda uma situação linguística e cultural, então é necessário dizer que não é possível nenhuma morte para a poesia.

Frequentemente tem sido observado que a repercussão da linguagem poética sobre a linguagem em prosa pode ser considerada um decisivo golpe de chicote. Estranhamente, a Divina Comédia de Dante não produziu uma prosa daquela altura criativa ou fez isso depois de séculos. Mas, caso se estude a prosa francesa antes e depois da escola de Ronsard, a Plêiade, será observado que a prosa francesa perdeu aquela suavidade pela qual era julgada tão inferior às línguas clássicas e consumou um verdadeiro salto de maturidade. O efeito foi curioso. A Plêiade não produz coleções de poemas homogêneos como os do dolce stil nuovo italiano (que é certamente uma de suas fontes), mas dá de vez em quando verdadeiras "peças de antiquário" que poderiam ser colocadas num possível museu imaginário da poesia. Trata-se de um gosto que poderia ser definido como neo-grego e que, séculos mais tarde, o Parnaso tentará em vão igualar. Isso prova que a grandiosa poesia lírica pode morrer, renascer, morrer de novo, mas sempre permanecerá uma das mais excelentes criações do espírito humano. Façamos juntos uma releitura de um poema de Joachim du Bellay . Este poeta, nascido em 1522 e que faleceu na idade de trinta e cinco anos, era o sobrinho de um cardeal com quem viveu em Roma por vários anos, reportando profundo desgosto pela corrupção da corte pontifícia. Du Bellay escreveu muito, imitando, mais ou menos felizmente, os poetas da tradição petrarquista. Mas a poesia dele (talvez escrita em Roma), inspirada pelos versos latinos de Navagero , que confirma sua fama, é fruto de uma dolorosa nostalgia pelo interior do doce Loire que ele tinha abandonado. De Sainte-Beuve até Walter Pater, que dedicou a Joachim uma memorável descrição, a breve Odelette des vanneurs de blé  entrou no repertório da poesia mundial. Tentemos fazer uma releitura, se isso for possível, porque se trata de um poema em que o olho tem seu papel.

A vous troppe legere,
qui d' aele passagere
par le monde volez,
et d' un sifflant murmure
l' ombrageuse verdure
doulcement esbranlez,

j' offre ces violettes,
ces lis et ces fleurettes,
et ces roses icy,
ces vermeillettes roses,
tout freschement écloses,
et ces oeilletz aussi.

De vostre doulce halaine
eventez ceste plaine,
eventez ce sejour:
ce pendant que j' ahanne
a mon blé, que je vanne
a la chaleur du jour.

Não sei se este poema Odelette foi escrito em Roma como interlúdio no despacho de incômodas práticas de ofício. Deve a Pater sua atual sobrevivência. À distância de séculos, uma poesia pode achar o seu intérprete.

Mas agora para concluir, devo responder à questão que deu um título a este breve discurso. Na atual civilização consumista que vê novas nações e novas línguas aparecerem na história, na civilização do homem-robô, qual pode ser o destino da poesia? Pode haver muitas respostas. Poesia é a arte que está tecnicamente ao alcance de todos: um pedaço de papel e um lápis e alguém está pronto. Apenas num segundo momento surgem os problemas de publicação e distribuição. 

O incêndio da biblioteca de Alexandria destruiu três quartos da literatura grega. Hoje nem mesmo um incêndio universal poderia fazer desaparecer a produção poética torrencial de nosso tempo. Mas é exatamente uma questão de produção, isto é, de produtos artesanais que estão sujeitos às leis do gosto e da moda. Mais do que provável, é certo que o jardim das Musas pode ser devastado por grandes tespestades. Mas me parece igualmente certo que muito papel impresso e muitos livros de poesia devem resistir ao tempo.

A questão é diferente se se referir à reabilitação de um antigo texto poético, sua restauração contemporânea, sua abertura a novas interpretações. E, finalmente, sempre se pode perguntar dentro de quais limites alguém se move ao falar de poesia. Muito da poesia atual é expressa em prosa. Muitos dos versos de hoje são prosa e prosa ruim. A arte narrativa, o romance, de Murasaki a Proust, produziu grandes obras de poesia. E o teatro? Muitas histórias literárias nem mesmo o discutem, também extrapolando alguns gênios que formam um capítulo à parte. Além disso, como se pode explicar o fato de que a antiga poesia chinesa sobreviva a todas as traduções, enquanto a poesia europeia está acorrentada à sua língua original? Talvez o fenômeno possa ser explicado pelo fato de que acreditamos que estejamos lendo Po Chü-i e, em vez disso, estamos lendo o maravilhoso falsificador Arthur Waley? Seria possível multiplicar as questões com o único resultado que, não apenas a poesia, mas todo o mundo da expressão artística ou o que se autoproclama como tal, entrou em uma crise que está estreitamente vinculada à condição humana, à nossa existência como seres humanos, à nossa certeza ou ilusão de acreditarmos que somos seres privilegiados, os únicos que acreditam que são os mestres de seu destino e os depositários de um destino que nenhuma outra criatura pode reivindicar. É inútil então perguntar-se qual será o destino das artes. É como perguntar-se alguém se o homem de amanhã, talvez de um amanhã muito distante, será capaz de resolver as trágicas contradições nas quais tem estado se debatendo desde o primeiro dia da Criação (e se ainda for possível falar de tal dia, que pode ser uma época exterminada).



III. NOTAS  DO TRADUTOR


¹  Eu mesmo já citei trechos do célebre discurso de Eugenio Montale em, pelo menos, duas matérias postadas neste Blog do Braga, cujo endereço eletrônico é o seguinte:

http://bragamusician.blogspot.com.br/2012/05/homenagem-ao-poeta-polones-janusz.html


²  MANDOLINI, D. : http://www.arcipelagoitaca.it/Download/Arcipelago_Itaca_6.pdf
Nesse mesmo endereço eletrônico, encontra-se o discurso de Montale na língua italiana.

Igualmente, o discurso pode ser encontrado em italiano e na sua versão inglesa, no seguinte endereço:
http://www.nobelprize.org/nobel_prizes/literature/laureates/1975/montale-lecture.html?print=1
Também descobri na Internet uma versão do discurso de Montale em holandês, a saber: http://krabat.menneske.dk/_forfatter/Er_digtningen_stadig_mulig.html
Ainda existe uma tradução para o tcheco, disponível no seguinte endereço eletrônico:
http://www.advojka.cz/archiv/2006/28/je-poezie-jeste-mozna

³ O conceito teológico do "deus escondido", utilizado por Tomás de Aquino (1225-1274), refere-se a uma divindade cuja existência não é prontamente conhecível pelos humanos, a não ser por contemplação e através do exame das ações divinas. Ele sugere um deus que conscientemente  deixou este mundo para se esconder em outro lugar.  
Por sua vez, há outro conceito teológico, do "deus ocioso" (deus otiosus), usado para descrever um "deus criador", que principalmente se retira do mundo e não se envolve mais com a sua operação do dia a dia, sugerindo que deus se cansou do envolvimento neste mundo.

Joachim du Bellay nasceu no castelo da Termelière, na paróquia de Liré. Sua família era da pequena nobreza. Órfão cedo, educado por um irmão que negligenciou sua instrução, de modo que Du Bellay não possuía a erudição de Pierre de Ronsard. Segundo a lenda, esses dois poetas se encontraram numa hotelaria perto de Poitiers. Eles se tornaram alunos de Jean Dorat, humanista e professor no colégio de Coqueret, em Paris. Por volta da Páscoa de 1549, Du Bellay lançou o manifesto da Pléiade, sua "Deffence e illustration de la langue françoyse" dedicado a seu tio, cardeal Du Bellay, e publicou, ao mesmo tempo, sua primeira coleção poética de Cinquante sonnetz à la louange de l' Olive. Em 1550, saiu a segunda edição da Olive, com mais 65 sonetos. Depois eguiu seu parente na Itália, o cardeal Jean du Bellay, encarregado de missão junto à Santa Sé. Logo, seu entusiasmo de humanista se transformou em desilusão e em nostalgia da França. São estes sentimentos pessoais que lhe inspiraram suas coleções italianas: Antiquitez de RomeJeux RustiquesRegrets, todas publicadas em 1558. De volta a Paris em 1557, acabrunhado por preocupações familiares e contestações judiciais. Sua surdez se agravou e ele morreu de um ataque presumivelmente aos 37 anos. Data de 1559 seu Le Poëte Courtisan, espécie de testamento poético onde satiriza aqueles para quem a literatura só é um jogo frívolo ou um meio de se dar bem.

Os Lusus de Andrea Navagero (em latim Andreas Naugerius) (Veneza, 1483-França, 1529), coleção em latim publicada pela primeira vez em Veneza (1530), foram coletados postumamente por amigos admiradores, vindo a constituir um nicho na literatura europeia e encontrando lugar privilegiado nas antologias neolatinas. Os Lusus foram parcialmente traduzidos para o francês vernacular por Du Bellay em Jeux Rustiques (1558). O Lusus nº II de Andrea Navagero deu origem a D' un Vanneur de Blé aux Vents de Du Bellay, conforme abaixo:

Vota ad auras

Por Andrea Navagero

Auræ, quæ levibus percurritis æra pennis,
Et strepitis blando per nemora alta sono,
Serta dat hæc vobis, vobis hæc rusticus Idmon
Spargit odorato plena canistra croco.
Vos lenite æstum et paleas seiungite inanes,
Dum medio fruges ventilat ille die.

O nome verdadeiro do poema de Du Bellay é D' un vanneur de blé aux vents e faz parte de sua coletânea "italiana" chamada Jeux Rustiques, publicada em 1558. Os estudiosos de nomes próprios reportam o termo francês Odelette à sua origem grega, no sentido de "pequena cantora", usado para nome de bebês do sexo feminino. Consta que em francês o nome Odelette utilizado para bebês femininos significa "pequena primavera".
Posso citar a Odelette XXIV (1554), de Pierre Ronsard, explorando o tema da primavera envolto com o do amor:

Cependant que ce beau mois dure,
Mignonne, allon sur la verdure,
Ne laisson perdre en vain le temps;
L' age glissant qui ne s' arreste,
Mesland le poil de notre teste,
S' enfuit ainsi que le printemps.


Donq, cependant que nostre vie
Et le temps d' aimer nos convie,
Aimon, moissonnon nos desirs,
Passon l' amour de veine en veine;
Incontinent la mort prochaine
Viendra desrober nos plaisirs. 

A seguir, ofereço minha tradução literal para o belo poema de Du Bellay:

De um Peneirador de Trigo aos Ventos

Por Du Bellay

A ti, tropa ligeira
Com asa passageira
Pelo mundo esvoaças,
E com murmúrio doce
A folhagem umbrosa
Docemente agitas,

Of'reço essas violetas,
Lírios e florezinhas,
E aqui estas rosas,
Rosas avermelhadas,
Muito recém-floridas,
E também estes cravos.

Com o teu suave sopro
Ventilas esta planície,
Ao redor desta casa:
Enquanto eu me canso,
Vou peneirando o trigo
Sob o calor do dia.

O mais conhecido arranjo musical para esse célebre poema de Du Bellay foi composto por um inglês, talvez o mais francófilo dos compositores ingleses: Sir Lennox Randal Francis Berkeley (1903-1989), que em 1926, ocasião em que atendeu a uma recomendação de Ravel de ir a Paris para estudar com Nadia Boulanger até 1932, publicou um ciclo de canções francesas intitulado 3 Early Songs, aí incluída a sua versão musical do referido poema, em arranjo para tenor e piano. As canções de Lennox Berkeley inspiradas pela sua estada na França demonstram o gosto típico dos franceses e uma intensidade espiritual ditada por sua devoção ao Catolicismo. A performance do tenor James Gilchrist, acompanhado pela pianista Anna Tilbrook, pode ser parcialmente ouvida, clicando o seguinte link: http://www.prestoclassical.co.uk/r/Chandos/CHAN10528#listen

Outros compositores fizeram outros arranjos para o mesmo poema, tais como: Robert Herberigs (1886-1974): arranjo para coro misto a cappella; Rudolf Leopold Koumans (1929-), em arranjo para soprano, clarineta e piano; Emanuel Moór (1863-1931), em arranjo para voz e piano; e Raymond Moulaert (1875-1962), em arranjo para voz média desacompanhada.

quarta-feira, 7 de novembro de 2012

Discurso proferido por ocasião do lançamento do livro "Anita – uma vida a serviço do amor" (à guisa de prefácio)


Por Francisco José dos Santos Braga


Estamos reunidos, nesta linda noite de 3 de novembro de 2012, para brindar o lançamento do segundo livro da autoria da escritora são-joanense Maria do Carmo Lopes de Oliveira Braga, intitulado “Anita – uma vida a serviço do amor”, dedicado à vida de sua querida mãe, Ana Braga Lopes, carinhosamente conhecida por "Anita" pelos são-joanenses. A autora, minha prima e cunhada, faz elogio das virtudes de sua mãe, rememorando os doces momentos vividos a seu lado e trazendo a lume inúmeros testemunhos da própria Anita e de pessoas amigas que a conheceram, enriquecendo desta forma o seu trabalho.


Convidado para saudar a autora neste encontro, quero dizer que ela, que hoje nos brinda com a biografia de sua mãe, com seu olhar profundo e terno das etapas vividas e vencidas por essa grande mulher, já se impôs no campo literário com outro livro da sua autoria: “Dona Delfina, uma pérola em Águas Santas”, de 2010. 

Essa singela homenagem que a filha presta à memória de sua mãe ocorre no momento em que todos comemoramos o centenário do nascimento de Anita (nascida em 30/10/1912), que, de 1932 a 1952, teve 11 filhos: “Eduardinho”, Maurício, Álvaro Bosco, Eduardo, Ana Maria (primeira), Celso, Ana Maria (segunda), Francisco, Laura, Maria do Carmo e Fernando.  Embora seja visível, em nossos olhares, o pesar pela ausência de Anita, consola-nos a lembrança amiga, alegre e confortante dessa mulher, que dignificou a condição feminina, honrando a sua família e contribuindo com sua laboriosa existência para a sociedade das cidades que escolheu para viver. Se aqui entre nós estivessem, não apenas a saudosa biografada Anita, mas também outras pessoas saudosas, tais como seu marido Miguel, seus sogros Eduardo e “Donana”, seus pais “Nhonhô” e “Zefina”, seus filhos Ana Maria (primeira), Maurício, Eduardinho, Álvaro Bosco e tantos outros que já se foram, certamente todos eles se encheriam de orgulho pelo trabalho de recuperação histórica feita por sua parenta Maria do Carmo, o qual oferece ao leitor um excelente quadro da vida privada brasileira ao longo do século XX.

Destaco aqui algumas referências citadas no livro “Anita – uma vida a serviço do amor”, que também fizeram parte de minha experiência. Lembro-me de ter visto Francisco e Ana Maria (segunda) na Procissão do Enterro como figurantes por volta de 1954, representando Adão e Eva, respectivamente, e de ter constatado o capricho com que foram trajados por sua prestimosa mãe. Guardo ainda em minha memória a figueira que ornamentava o quintal da casa de Miguel e Anita, em frente à igreja de Nossa Senhora do Carmo, hoje pertencente a Dolores Olívia Ferraz, viúva do Eduardinho. O sabor de seus figos era algo indescritível e tia Anita fazia questão de que saboreássemos alguns, quando passávamos por sua casa, cuja entrada dava para a Rua Direita. Eu próprio presenciei o que é relatado pela autora: “quanto mais Anita os presenteava, mais a figueira se enchia de figos verdes e maduros.” São doces recordações.

Mas não só de boas recordações é feita a vida. Anita sofreu muito também, especialmente com úlcera varicosa em suas pernas pelo espaço de aproximadamente 40 anos. Sua filha relata um fato que se passou em 1951: quando Anita foi acometida por uma inflamação da pleura, Dr. Ivan de Andrade Reis (1910-1982), constatada a enfermidade, medicou-a adequadamente, restabelecendo-lhe a saúde. Também relatou outro fato envolvendo Dr. Ivan, que foi uma hemorragia interna que acometeu sua mãe, após o parto de Fernando em julho de 1952. A autora relata ainda que, em 1965, Dr. João Braz de Carvalho (1926-2005), natural do distrito de São Miguel do Cajuru e amigo do Eduardinho, residindo na cidade de Colônia, na Alemanha, ao visitar São João, encontrou Anita se restabelecendo da operação de varizes a que se submetera em Belo Horizonte, “se interessou pela sua enfermidade e iniciou alguns procedimentos que amenizaram, por um bom tempo, esse sofrimento de Anita.”  Finalmente, a autora relembra a acolhida que seus pais davam anualmente à Nossa Senhora Visitadora em sua casa. Numa dessas ocasiões, contou-me tia Olga Braga Teixeira que a imagem saiu da residência de Dr. Antônio de Andrade Reis (1882-1947) e D. "Bielinha" e veio em procissão até à residência de Miguel e Anita. Segundo Olga, ambos os casais eram católicos fervorosos e observavam com escrúpulo o que recomendava a Igreja.

Outras singelas recordações guardo só em meu coração. Lembro-me de ter ido ao Rio das Mortes acompanhado por tia Anita para conhecer a casa que pertenceu à sua mestra, profª D. Ernestina Pacheco de Barros. Lembro-me também de tê-la levado a Belo Horizonte para privar de sua afável companhia. Doce recordação é ainda o carinho com que era recebido em sua casa, tanto aqui em São João del-Rei, quanto nos bairros de Anchieta e Serra em Belo Horizonte. Finalmente, lembro-me de que ela jamais deixou de cumprimentar-me por determinada vitória particular e pelo transcurso de meu aniversário ou do Natal.

Mesmo conhecendo os malfeitos de nós sobrinhos enquanto crianças, não há nenhum que ela tenha censurado, porque entendia ser inadequada uma interferência na educação de nossos pais. Antes, esse seu modo de proceder evitou atritos entre as famílias individuais, aumentando ainda mais o respeito de todos por sua sabedoria e habilidade no trato das relações humanas.

De um fato lembro-me com saudade, que mostra a elevada consideração que Anita tinha por mim, seu sobrinho, e pela minha querida Rute, por quem ela tinha uma queda toda especial, admirando sua voz e tratando-a carinhosamente por Rutinha.  Certa feita, no dia 8 de novembro de 2002, apresentou-se no Teatro Dom Silvério em Belo Horizonte o coral Trovadores da Mantiqueira, dirigido por Frei Joel Postma o.f.m., cantando e encenando a cantata “Legenda de Santa Clara”, composta pelo regente. Tínhamos sido convidados para dela participar, eu para acompanhá-lo ao piano e Rute para representar a mãe de Santa Clara. Nossa agenda era fazer uma pequena "tournée", abrangendo três cidades: Belo Horizonte, Divinópolis e Juiz de Fora, em três dias consecutivos. Só convidei duas pessoas de Belo Horizonte para assistir à cantata: Cristina Charbel e tia Anita. A primeira justificou a sua ausência por achar-se doente na ocasião. Entretanto, Anita lá esteve, acompanhada por seus queridos filhos Celso e Laura. Não posso deixar de mencionar que fiquei surpreso, pois não esperava que ela pudesse superar os inconvenientes de comparecer àquele evento, à noite, num dia de semana. O curioso é que eles chegaram antes de todo o mundo e o teatro ainda estava vazio. Anita foi a primeira pessoa a entrar, em sua cadeira de roda, conduzida pelos dois filhos e pôde apreciar todos os exercícios de aquecimento feitos pelo coral. Foi escolhido o lugar mais conveniente para ela assistir à apresentação: ao fundo, em frente ao comprido corredor que dava para o palco. Naquela noite, sobreveio uma grande tempestade em Belo Horizonte, provocando engarrafamentos, colisões de veículos e alagamentos, enquanto era encenada a cantata. Anita, impassível, aguardou o final do espetáculo, cumprimentou todos os figurantes (em especial a Rute que tinha sido a personagem Hortulana), o regente Frei Joel e a mim. Com isso, quero mostrar a extrema cortesia de Anita para com todos, especialmente para comigo e Rute. Foi uma consideração enorme pelo nosso esforço e trabalho, inesquecível para nós, que guardamos em nosso coração os seus gestos carinhosos e incentivadores. Somos eternamente gratos aos três por isso. Dormimos num hotel em Belo Horizonte e na manhã seguinte seguimos para Divinópolis e um dia depois para Juiz de Fora.

Abro aqui um parêntese, para, aproveitando essa oportunidade, fazer uma reflexão sobre um traço da personalidade de Anita que pretendo ressaltar. Quando eu estava nos meus ímpetos da juventude, fui à Faculdade Dom Bosco buscar meu diploma de graduação em Letras, achando que, de posse dessa vara de condão, iria conquistar São Paulo. Os diplomas estavam na sala do eterno Vice-Diretor, Pe. Luiz Zver, que me recebeu de braços abertos e com ar paternal me convidou a sentar-me diante de sua mesa. Então, falou-me com seu vozeirão, mas com doçura, sobre duas dimensões da vida que o Homem devia sempre buscar. A primeira dimensão correspondia a um desejo de comunicação, de envolver-se com o outro e de estabelecer novas relações e vínculos humanos, — numa direção muito horizontal, mais relacionada com as coisas do mundo, — enquanto a outra dimensão era ascensional, ou seja, chamava os corações humanos para o alto (Sursum corda!), convidava o Homem para uma autêntica espiritualidade. Hoje acho que ele estava me dizendo aquelas coisas, insinuando que eu, durante os quatro anos de Faculdade, tinha desenvolvido bem — especialmente minha aptidão de relacionar-me com o outro, mas, de certa forma, esse ganho de comunicação com as pessoas me obnubilara a visão de que havia valores espirituais, os quais precisava agregar à minha formação, tendo me recomendado que eu procurasse desenvolver, além da  horizontal, a dimensão vertical, lembrando o formato de uma cruz. Como não me lembro exatamente das palavras que ele usou para dar-me aquela última lição na Faculdade Dom Bosco, vou, neste momento de reflexão amorosa, repetir palavras muito parecidas de Leonardo Boff sobre o mesmo tema, exposto no seu livro “Tempo de transcendência”. 

No dizer deste, nós “somos seres de enraizamento” (isto é, somos dotados de imanência) “e seres de abertura” (neste caso, dotados de transcendência).

A raiz nos limita porque nascemos numa determinada família, numa língua específica, com um capital limitado de inteligência, de afetividade, de amorosidade”. (Esta é nossa dimensão de imanência.) 

“Mas somos simultaneamente seres de abertura”, pois ninguém segura os nossos pensamentos, ninguém amarra as nossas emoções,  ninguém é capaz de aprisionar-nos totalmente.

“Creio”, continua Boff, “que a transcendência é talvez o desafio mais secreto e escondido do ser humano. Ele se recusa a  aceitar a realidade na qual está mergulhado porque se sente maior do que tudo o que o cerca.” 

“Com seu pensamento, ele habita as estrelas e rompe todos os espaços. Essa capacidade é o que nós chamamos de transcendência, isto é, transcende, rompe, vai para além daquilo que é dado.”

“Numa palavra, eu diria que o ser humano é um projeto infinito.”

E conclui sua reflexão com o seguinte mote: “Quem conhece a sua alma conhece é o seu Senhor.” (Antiga tradição oriental)

Por que eu estou a falar sobre tais coisas? Porque Anita era uma mulher que transitava em ambas essas direções ou dimensões, citadas por Pe. Luiz Zver e Leonardo Boff. Alguns traços marcantes estavam presentes em sua personalidade. Excelente esposa e mãe, nas palavras do saudoso Gil Furtado, Anita teve “convivência saudável” com seus sogros, sempre “aprendendo muito, inclusive a confeccionar as até hoje famosas broinhas da Esperança¹ e em 1944, junto com a sua sogra, abriu uma pensão no Segredo, onde acolhiam jovens convocados para prestar o serviço militar, antes de eles seguirem para a Guerra na Europa. Ele ainda afirmou que, “sempre atenciosa, Anita foi grande Amiga de seus parentes e tinha por eles muita estima, tanto do lado de seus familiares, como da família de seu marido”, o que é confirmado pela autora, dizendo que Anita morou  durante dezessete anos com seus sogros em perfeita harmonia. Em largas pinceladas, Furtado citou as principais facetas do caráter de Anita: “Mulher corajosa. (…) Bondade, humildade, tranquilidade, resignação, compreensão, amizade, calma, discrição, simplicidade e paciência. De todos esses traços, o que mais impressiona em Dª Anita é a paciência aliada a uma fé inabalável e uma religiosidade convicta. Católica praticante, devota de Nossa Senhora do Carmo, ela dá o testemunho sobre tudo pelo exemplo.” 

O livro ainda registra, com muita propriedade, que “o mais encantador em Anita não era só a aparência física, mas simpatia com todas as pessoas” e “não fazia distinção entre pessoas: ricos ou pobres, todos eram bem tratados por ela.” Essas suas qualidades  emolduram sua família — modelo de simpatia, amabilidade, acolhimento e amor não só a conhecidos e parentes, mas até a estranhos. O Presidente Tancredo Neves, se entre nós estivesse, diria que Anita fora desenvolvendo um “caráter de férrea resistência, estruturado pelos mais rígidos princípios morais” ².

Assim foi a existência de tia Anita, completamente lúcida até o momento de sua morte, aos 92 anos de idade: sábia e contemplativa por um lado, profícua e produtiva, por outro. Soube  grangear amigos em todos os ambientes que frequentou, por suas ações dignas e amistosas, desinteressadas e abnegadas, conquistando a admiração geral de todos os seus conhecidos, independente da sua formação, credo ou raça, e, por todas essas razões, tornando-se merecedora desta justa homenagem que lhe presta sua filha Maria do Carmo Lopes de Oliveira Braga.


NOTAS DO AUTOR

¹ Furtado esclareceu a forma como ficou conhecida a famosa guloseima. Sua fama adveio, além do seu excepcional sabor, do fato de ter sido originalmente comercializada nas imediações da Caixa d'Água da Esperança, localidade em que residia o casal com seus primeiros filhos e por "onde passava a 'Maria Fumaça', o trenzinho da RMV, que ia para Sítio (hoje Antônio Carlos). Enquanto o trem parava, as Broinhas da Esperança eram vendidas aos passageiros e tripulantes." Entretanto, esqueceu-se Furtado de comentar sobre os inesquecíveis pães de queijo confeccionados por Anita, que tinham um sabor todo especial e cuja receita foi repassada a suas filhas, irmãs e cunhadas.

² Discurso do então Deputado Tancredo Neves na tribuna da Assembleia Mineira em 25 de agosto de 1947, registrando um voto de pesar pelo falecimento de Dr. Antônio de Andrade Reis, disponibilizado na íntegra por este blog no seguinte endereço eletrônico:
http://bragamusician.blogspot.com.br/2012/10/meu-discurso-de-defesa-do-patrono-da.html


BIBLIOGRAFIA

BRAGA, M.C.L.O. : Anita - Uma vida a serviço do amor, Belo Horizonte: Bellas Artes Gráfica e Editora Ltda., 2012, 210 p.
Dona Delfina, uma pérola em Águas Santas, Belo Horizonte: editora não mencionada, 2010, 110 p.

BOFF, L. : Tempo de Transcendência. Fonte: http://www.nuep.org.br/art001.php?art=2

FURTADO, G. : Dª Anna Braga Lopes / Dª Annita (Autêntica mulher brasileira, mineira e sanjoanense). Filha/irmã/mãe/avó/bisavó/tia. A todos trata com a mesma atenção, delicadeza e caridade., São João del-Rei: Tribuna Sanjoanense, edição de 16/07/2002, seção Personalidades Proeminentes de nossa História local, p. 5.

NEVES, T. A. : Voto de Pesar reproduzido in http://bragamusician.blogspot.com.br/2012/10/meu-discurso-de-defesa-do-patrono-da.html (Fonte: Anais da Assembleia Legislativa de Minas Gerais - 1947, Volume 1, p. 292-293).


Fotos:
1) Ana Braga Lopes, quando moça (BRAGA, 2012, capa)
2) Ana Braga Lopes, mulher madura (BRAGA, 2012, p. 108)
3) Ana Braga Lopes, idosa (BRAGA, 2012, p. 6)

domingo, 28 de outubro de 2012

Meu discurso de Defesa do Patrono da cadeira nº 28, patronímica de Dr. Antônio de Andrade Reis, na Academia de Letras de São João del-Rei


Por Francisco José dos Santos Braga



Orador: Francisco José dos Santos Braga
Cadeira nº 28 - Patrono Dr. Antônio de Andrade Reis
Academia de Letras de São João del-Rei

Ilmo. Sr. Antônio Carlos Galvão Del Mônaco, D.D. Presidente em exercício da Academia de Letras de São João del-Rei, em cuja pessoa cumprimento todos os integrantes da Diretoria;
Prezados Amigos, Confrades e Confreiras desta egrégia Academia de Letras;
Prezados Familiares, aqui presentes;
Prezados Amigos que atenderam ao nosso convite, aqui presentes;
Prezadas Sras. D. Marina de Resende de Andrade Reis, nora do Dr. Antônio de Andrade Reis, e D. Ruth Mourão de Araújo Rangel, viúva do Dr. Cid de Souza Rangel;
Senhores e Senhoras,

No dia 26 de junho de 2011, tive a oportunidade de proferir meu discurso ao tomar posse como Membro Efetivo desta Casa da Cultura, ocupando desde então a Cadeira nº 28, patronímica do médico e administrador público Dr. Antônio de Andrade Reis (1882-1947). Na ocasião, tive a subida honra de ser saudado pelos eminentes Presidente José Cláudio Henriques e Dr. Euclides Garcia de Lima Filho.

Como o tema da medicina constituirá, como há de se ver, o fulcro de minha preleção nesta data de 28 de outubro de 2012, gostaria preliminarmente de lembrar o padroeiro dos médicos, São Lucas Evangelista, autor de um dos quatro evangelhos canônicos e do livro dos Atos dos Apóstolos, a quem os médicos, independente de sua especialidade, prestam homenagem todo dia 18 de outubro, por ter aquele exercido a medicina, segundo a tradição. Lucas, como se sabe, tornou-se discípulo fiel e amigo do "apóstolo" Paulo de Tarso, que o chamava de "colaborador" e "médico amado", a quem acompanhou em duas viagens missionárias, inclusive estando presente na prisão do apóstolo e mestre em Cesaréia e tendo-o seguido até Roma para a sua execução, ocorrida em 67 D.C. 

Tendo, desde minha posse como Membro desta Academia, assumido inúmeros compromissos com atividades culturais e artísticas em nossa cidade, fui obrigado a protelar este meu Discurso de Defesa do Patrono até a presente data. Agora, ao proferi-lo, inicio por evocar o colega Acadêmico que me precedeu nesta Cadeira nº 28, Dr. Sílvio Romero Ávila de Almeida Magalhães, o qual passou a residir em Lavras e, ciente de seu improvável retorno ao nosso convívio a médio prazo, com muita consciência solicitou a mudança de categoria de Sócio Efetivo para Sócio Licenciado, deixando-a vaga e possibilitando que eu então pudesse pleiteá-la, o que me foi concedido democraticamente por nosso preclaro Presidente José Cláudio Henriques.

Mas, neste instante, gostaria de relembrar, por sua militância na mesma profissão do meu Patrono, o primeiro Acadêmico a ocupar cronologicamente a atual Cadeira nº 28 desta Academia. Refiro-me ao saudoso Dr. Cid de Souza Rangel, que, além de Membro emérito desta Arcádia, foi seu Conselheiro e 5º Presidente (mandato de 1979-1980). Por sua sugestão, Dr. Andrade Reis foi investido na condição de Patrono da Cadeira nº 30, àquela época, tendo sido Dr. Cid Rangel seu primeiro ocupante. Nascido em 17 de julho de 1912, foi casado com Ruth Mourão de Araújo Rangel, com quem teve os seguintes filhos: Dr. Paulo César de Araújo Rangel, Dr. Marco Antônio, Márcio, já falecido, Suzana Maria, já falecida, João Luiz e Maria Carmen. Referência ética para todos os são-joanenses, pela sua seriedade, profissionalismo e amor ao ser humano, trabalhou em várias frentes, a saber: na área das ciências médicas (provedor e médico da Santa Casa da Misericórdia de São João del-Rei), no âmbito da política (chefe político da antiga UDN, vereador por vários mandatos e Vice-Prefeito Municipal na gestão do Prefeito Nelson José Lombardi), no campo do setor social e cultural (membro da Academia de Letras e do Instituto Histórico e Geográfico são-joanenses, bem como diretor e conselheiro do Athletic Club) e no setor educacional (primeiro, como Vice-Presidente do Conselho Curador da Fundação Municipal de Ensino Superior de São João del-Rei, nomeado pelo Prefeito Dr. Milton Resende Viegas; depois, como ocupante da Presidência do Conselho Curador, durante a enfermidade do Presidente Marechal Cyro do Espírito Santo Cardoso e após o seu falecimento, até dezembro de 1983, quando então foi substituído pelo Dr. Milton Resende Viegas, tendo este último sido nomeado pelo Prefeito Dr. Cid Valério). No dia 21 de julho do corrente ano, houve uma merecida homenagem em comemoração ao centenário de nascimento do Dr. Cid Rangel, tendo sido inaugurado seu busto na área externa do Centro de Imagens, nas dependências da Santa Casa, entidade que foi o seu segundo lar. Na mesma ocasião, em que o provedor Dr. Marco Antônio de Araújo Rangel, filho do saudoso Dr. Cid Rangel, depois de quatro mandatos à frente da entidade são-joanense, despediu-se do cargo de provedor, foram inaugurados ainda, defronte ao referido busto, o Centro de Imagens "Dr. Diomedes Garcia de Lima" e a Alameda Dr. Roosevelt de Andrade, todos três devotados médicos que prestaram relevantes serviços à Casa de Saúde são-joanense. A Câmara Municipal prestou ao caro e devotado Dr. Cid de Souza Rangel a merecida homenagem ao dar a uma das ruas de nossa urbe o seu nome.

Fazendo um breve parêntese, acredito que se apresenta aqui o ensejo de enaltecer o trabalho do corpo médico dessa Casa de Saúde são-joanense, que neste ano completa 229 anos de serviços prestados (1783-2012). Teve a Santa Casa da Misericórdia de São João del-Rei o mérito de ter sido um celeiro muito fértil de homens e mulheres inteligentes que dedicaram a sua vida em prol das pessoas, que lutaram pela saúde e qualidade de vida das famílias, solidários com a humanidade, tendo durante suas existências buscado fazer o bem, promover a humanidade e trazer benefício a todos, especialmente às famílias são-joanenses. A Santa Casa da Misericórdia de São João del-Rei foi fundada em 1783 e, desde então, não fechou suas portas, atendendo a todos os que dela precisam. O seu fundador, irmão Manuel de Jesus Fortes, dedicou-se a angariar recursos financeiros, como pedinte, para manter a Casa de Caridade, nome da época de sua fundação. Como é originária da época do Brasil-colônia, sofre as influências dos diversos regimes políticos a que o Brasil foi submetido, conseguindo sobreviver até a presente data. Dr. Antônio Andrade Reis foi um dos responsáveis por torná-la referência no Município e na região. Então, neste momento, gostaria de homenagear essa Casa de Saúde e de Solidariedade Cristã nas pessoas de funcionários e médicos aqui presentes: em primeiro lugar, nosso colega Acadêmico Dr. Euclides Garcia de Lima Filho, que foi seu Vice-Provedor e a ela prestou memoráveis serviços como pediatra, além de ter-se distinguido em outras missões. Além dele, homenageio a Santa Casa na pessoa dos filhos de Dr. Cid de Souza Rangel, Drs. Marco Antônio e Paulo César de Araújo Rangel, o primeiro, além de renomado pneumologista e anestesiologista, por ter sido provedor da Santa Casa durante quatro mandatos, e o segundo, além de cardiologista competente, por ter sido igualmente provedor e diretor clínico da Santa Casa. Quanto aos funcionários dessa Casa de Saúde são-joanense, cabe-me lembrar os nomes de Agostinho Bolognani e da decana Ruth Silva. Permito-me ainda citar os inesquecíveis nomes dos Drs. Euclides Garcia de Lima, Francisco Diomedes Garcia de Lima, Roosevelt de Andrade e Cid de Souza Rangel, a cujos serviços minha família recorreu algumas vezes e os quais tive a honra de conhecer pessoalmente, mesmo ciente de estar cometendo graves omissões e injustiça para com centenas de outros médicos, por absoluta falta de espaço nesta minha preleção. Aqui então apresento minhas excusas pelas inevitáveis omissões, não podendo, entretanto, passar ao largo de apenas citar, por exemplo, entre os esculápios esquecidos nesta preleção, célebres todos eles, o nome de um facultativo que fez parte do quadro de médicos de nossa Santa Casa: Gabriel André Maria de Ploesquellec ¹, formado pela Universidade de Paris e contratado em 1829. Sabe-se que morou na Rua da Prata, nesta cidade, e que a Câmara Municipal, na mesma época, o contratou para dar aulas de obstetrícia, não só para médicos, como para enfermeiras, o que levou ALVARENGA (2009, p. 44) a considerar tal fato como a instituição da primeira escola de enfermagem em São João del-Rei, em 1829.

Não tive a sorte de conhecer meu patrono pessoalmente, por ter ele falecido dois anos antes de eu lograr a dádiva de ver a luz do dia. Quando tomei posse neste egrégio Sodalício, devo confessar que não ignorava a importância do meu patrono como cirurgião e obstetra famoso, um verdadeiro prócer da Medicina para o nosso Município e região vizinha, por ter eu frequentado desde cedo páginas de Oliveira Cintra e Augusto Viegas. Mas não imaginava, àquela época, a dimensão que essa figura admirável de Dr. Andrade Reis iria assumir para mim, após período de ingente pesquisa em antigos periódicos são-joanenses, nos anais da Assembleia Mineira e, sobretudo, na obra monumental de Luiz de Melo Alvarenga sobre a Santa Casa da Misericórdia de São João del-Rei, trabalho que veio a público em 2009, por patrocínio do BDMG Cultural.

Se por mera casualidade, se devido à atribuição de causalidade por minha motivação intrínseca ou por outra razão qualquer, confesso que ainda não atinei com o porquê da ocorrência de dois fatos objetivamente observáveis, a saber: viveu Dr. Andrade (1882-1947) 65 anos bem vividos entre nós e, exatamente neste ano, outros 65 anos nos separam de sua partida deste mundo. Estamos então a comemorar o 65º aniversário de seu falecimento, coroando sua existência profícua e caridosa, sendo merecedor de receber "a auréola que cinge a fronte dos benfeitores da humanidade", segundo as corretíssimas palavras de Oliveira Cintra.

Caros Confrades,
Este ano de 2012 dá-me, então, a oportunidade ímpar de trazer a lume o resultado dessas pesquisas que conduzi interruptamente desde a minha posse neste egrégio Sodalício. Cumpre-me o dever de esclarecer aos Confrades que o farei, contrariando desejo expresso do meu patrono, o qual "mostrava aversão à divulgação popular de seus triunfos profissionais", tais como as técnicas pioneiras que ele, no exercício de sua profissão, desenvolveu para o alívio da dor de seus pacientes e o alto valor dos seus trabalhos médicos publicados, em razão dos quais foi eleito Membro da Academia Nacional de Medicina, o mais importante sodalício para glorificar um médico em nosso País.

ORIGEM E FORMAÇÃO

Dr. Antônio de Andrade Reis nasceu no então distrito, hoje cidade de São Tiago, em 16 de novembro de 1882 ². Era filho de José Pedro de Andrade Reis e de Ana Jesuína de Andrade. Tendo feito o curso secundário no conceituado Colégio Grambery de Juiz de Fora, em 1905 se matriculou na Faculdade de Medicina do Rio de Janeiro, a segunda do País e a única então existente na Região Sudeste. Depois de esmerado curso, bacharelou-se no ano de 1910, com especialização em cirurgia.

Em 18/01/1910, na Capital Federal, casou-se com Gabriela Martins de Andrade Reis, conhecida carinhosamente pelo pseudônimo de Dª Bielinha, filha de Gabriel Martins Ferreira e de Maria Gabriela de Andrade Martins Ferreira. São filhos do casal Andrade Reis: Dr. Ivan de Andrade Reis, médico cirurgião de renome, falecido em 1982, deixando viúva Nilza Guimarães de Andrade Reis, já falecida, e quatro filhos; Niva de Andrade Reis, nascida aos 05/11/1917 e casada em 1ªs núpcias com Dr. Saulo Paulo Villa, já falecido, com quem teve quatro filhos, e casada em 2ªs núpcias com Eustáquio Galles Jones Prieto, sem geração; e Dr. Antônio Andrade Reis Filho, conceituado médico cirurgião, falecido em 1992, deixando viúva Marina de Resende de Andrade Reis e sete filhos: Raquel, Carlos, Nelson, Inês, Antônio, Gisele e Eduardo.

Dr. Andrade Reis era um autêntico são-joanense adotivo. REIS (2002, p. 22) relembra a decisão do casal Andrade Reis de mudar-se para São João del-Rei: "Depois de se casarem no Rio, foram morar em São João del-Rei, num dos casarões do Largo do Rosário, com sacadas de ferro. Metade do casarão era habitada por Eduardo de Almeida Magalhães, provedor da Santa Casa de Misericórdia, construída no lugar do hospital antigo, demolido em 1911. Na Santa Casa, papai trabalharia durante todo o resto de sua vida. Eduardo era tio de Alberto de Almeida Magalhães, diretor do Banco Almeida Magalhães S/A, o banco mais antigo de Minas Gerais, em São João del-Rei.
No largo, com a Igreja do Rosário, morava também a família Neves, de quem nos tornaríamos amigos. Aliás, era uma cidadezinha onde todo mundo se conhecia, pelo menos de vista, ou de chapéu, como diria Machado de Assis. (...)
Na casa do Largo do Rosário nasceu o primeiro filho, Ivan, que diria ter os defeitos de filho único, porque ele foi filho único durante sete anos, até eu nascer, em 5 de novembro de 1917. Estávamos então morando numa outra casa, na Rua Padre José Maria Xavier, também chamada Rua da Prata. Essa casa é hoje o Memorial Tancredo Neves, uma casa sóbria aquecida por frases soltas de Tancredo, identificando seu papel na História do Brasil.
Meu nome foi escolhido como um anagrama de Ivan. Em russo Niva significa 'a brisa que sacode os trigais'. Um ano e meio depois de mim nasceu meu segundo irmão, Antônio."


MUDANÇA PARA SÃO JOÃO DEL-REI  E  EXERCÍCIO DA MEDICINA


Instalando seu consultório nesta cidade, dentro em pouco se revelou competente profissional nas áreas clínica e cirúrgica, tendo grande clientela e granjeando imediata reputação de médico competente e caridoso.  Tendo ocupado o cargo de Diretor do serviço hospitalar da Santa Casa por mais de 30 anos, desde 1916 até seu falecimento em 1947, graças a Andrade Reis, a Santa Casa da Misericórdia de São João del-Rei notabilizou-se como centro cirúrgico que ele aí criou, inclusive com o concurso de seus dois filhos: Dr. Ivan de Andrade Reis e Dr. Antônio de Andrade Reis Filho. REIS (2002, p. 26) informa que Andrade Reis, na nova casa próxima à Praça dos Andradas (hoje Praça dos Expedicionários), além do consultório médico instalado no pavimento térreo, consistindo de uma sala de espera e, ao lado uma sala maior, reservara o segundo pavimento da casa para sua própria moradia. Além do serviço no seu consultório particular, havia ainda o atendimento na Santa Casa e na Rede Mineira de Viação. O atendimento aos funcionários da Rede era feito mediante o transporte do médico em um trólei, até onde morava o doente, que em geral era ao longo da ferrovia.

REIS (2002, p. 26) faz ainda curiosa referência ao hospício existente dentro da Santa Casa. Assim ela registrou suas impressões como moradora da vizinhança da Santa Casa por volta de 1922, quando contava então com aproximadamente 4 anos de idade: "O que me assustava eram os gritos dos loucos de um anexo da Santa Casa. Do meu quarto dava para ver o hospício e ouvir os gritos."

COELHO (1973, p. 7-8) considera esse hospício na Santa Casa o primeiro do País. Comentando os resultados de seu trabalho, o mesmo pesquisador faz as seguintes observações em relação à sua pesquisa :
"O presente estudo mostra o bom conhecimento dos médicos do século passado em relação à psiquiatria. Formados na Europa, trouxeram consigo dados atualizados, conforme mostram a variedade diagnóstica, o grande número de altas e o pequeno período de permanência hospitalar. Infelizmente, as papeletas relativas aos doentes da Santa Casa foram destruídas e por isso não sabemos que orientação terapêutica era utilizada. Temos retratos das grades que restaram das partes demolidas do hospital, assim como ferragens que ali encontravam, ignorando se pertenciam à prisão do hospital, aos escravos ou ao hospício. Podemos supor, porém, que praticassem a medicina aconselhada nos livros médicos da época, muitos dos quais estão bem conservados na Biblioteca Municipal Batista Caetano de Almeida, a qual funcionou inicialmente dentro da própria Santa Casa. (...) De qualquer modo, havia um critério de cura, atestado pelo elevado número de altas, com registro de que saíram sãos."

Gostaria apenas de frisar a discrepância existente entre o testemunho de Niva de Andrade Reis, confirmando a existência do hospício, algum tempo depois de 1918, e a citação por Ronaldo Simões Coelho como sendo 1918 o derradeiro ano do hospício, "quando se desmancharam as últimas celas para loucos, na ocasião da construção do Pavilhão Almeida Magalhães". Teriam sido os loucos transferidos para algum anexo da Santa Casa até a completa extinção do referido hospício?

Já que estou a falar da utilização de determinados prédios da Santa Casa para suas elevadas finalidades, não posso deixar de citar os prédios que um visitante vai encontrar hoje nessa Casa de Saúde que conta 229 anos de existência. Esses prédios/centros de serviços que encontrei quando de minha visita eram:
● Pavilhão Almeida Magalhães, constando de dois “pavilhões”, III-cirúrgico (composto de apartamento 1 a 11) e IV-clínico (apartamentos 13 a 27)
● Hospital Geral com o busto do Dr. Antônio de Andrade Reis, em frente ao quadro do fundador da Santa Casa, o ermitão Manuel de Jesus Fortes, à entrada do Hospital Geral
● Hospital Infantil “D. Sinhá Neves” (pseudônimo de Antonina de Almeida Neves)
● Centro de Imagens “Dr. Diomedes Garcia de Lima”, composto de instalações para Medicina Nuclear, Tomografia, Ressonância, Raios X, Densitometria, Ultrassom e Mamografia, construído quando o provedor era Marco Antônio Rangel e vice-provedor Dr. Euclides Garcia de Lima Filho
● Alameda Dr. Roosevelt de Andrade
● CTI “Cid de Souza Rangel” com o busto do Dr. Cid de Souza Rangel, inaugurado em 21/07/2012, quando se comemorava o centenário de seu nascimento
● Centro Cirúrgico “Ivan de Andrade Reis”
● UTI Neonatal e Pediátrica “Risoleta Tolentino Neves”
● Berçário Menino Jesus
● C.T.O. (Centro de Tratamento Oncológico)
● Centro de Radioterapia (ainda não funcionando)

REIS (2002, p. 27) esclarece que "havia em Minas Gerais dois pólos de clínica médica: em Belo Horizonte, com os doutores Hugo Werneck e Borges da Costa, e em Juiz de Fora, com Hermenegildo Villaça e Edgard Quinet. Esses quatro eram considerados os luminares da ciência cirúrgica no Estado. Papai decidiu criar em São João del-Rei um terceiro pólo. (...)
Papai criou uma maternidade na Santa Casa, mas seu sonho era que houvesse ali um pavilhão só para cirurgia, com equipamentos modernos. Eduardo de Almeida Magalhães aprovou a ideia e decidiu construir um prédio anexo com esta finalidade. O provedor também apoiou papai numa viagem à Europa (Alemanha e França), a fim de fazer especialização em cirurgia e adquirir todos os equipamentos necessários ao funcionamento do futuro centro cirúrgico — aparelhos de raios X e demais instrumentos.
Para custear as despesas da viagem e se manter durante sua permanência na Europa, papai vendeu tudo o que tinha, menos a casa. O provedor deu-lhe dinheiro para comprar os equipamentos." Com o fim de se especializar, Dr. Andrade Reis passou dois anos no exterior, tendo aprendido a falar alemão e frequentado várias clínicas.

TÍTULOS CONQUISTADOS:
1) Patrono da Cadeira nº 6 da Academia Mineira de Medicina, cujo primeiro ocupante foi outro são-joanense, o Dr. Antônio de Melo Alvarenga (1900-1981)
2) Membro Correspondente Nacional da Academia Nacional de Medicina (posse em 05/11/1925), tendo sido saudado pelo Professor Miguel Couto (1865-1934)
3) Patrono da atual Cadeira nº 28 da Academia de Letras de São João del-Rei, tendo sido indicado por Dr. Cid de Souza Rangel, que foi, por sua vez, primeiro ocupante da cadeira patronímica de Dr. Andrade Reis (então Cadeira nº 30)

CARGOS EXERCIDOS:
1) Vice-Presidente da Sociedade de Medicina e Cirurgia de São João del-Rei (1912)
2) Diretor da Maternidade da Santa Casa e da clínica médico-cirúrgica do aparelho gênito-urinário da mulher (1911-1947)
3) Médico comissionado pela Câmara Municipal de São João del-Rei para dirigir a campanha de vacinação que abrangeu toda a população, quando se viu abalada pela epidemia de Gripe Espanhola (1918), segundo DIAS (2002, p. 21)
4) Diretor do Serviço Cirúrgico do "Pavilhão Almeida Magalhães" da Santa Casa (1924-1947)
5) Presidente da Câmara Municipal de São João del-Rei (1927-1929)
6) Fundador, organizador e Diretor da Escola de Enfermagem da Cruz Vermelha Sanjoanense (1941 até junho de 1943)
7) Criador e Diretor do Curso de Enfermagem Obstétrica da Santa Casa (setembro de 1946 em diante)


ALGUMAS EFEMÉRIDES DA SANTA CASA NA ÉPOCA DO DR. ANTÔNIO DE ANDRADE REIS, segundo Luís de Melo Alvarenga, nas quais se destaca o ilustre médico:

6/9/1903 – A Santa Casa passava por séria crise financeira e resolveu, em sessão desse dia, oficiar aos médicos, dando-lhes conhecimento da situação e pedindo que continuassem a trabalhar no Hospital gratuitamente, “até que melhorassem as condições do mesmo estabelecimento”. (...)                       Obs.: Havendo melhorado as condições, a mesma Mesa, quase toda reeleita, só mudando uns poucos Mordomos, resolveu, em sessão de 7/8/1904, que fosse estabelecida uma gratificação ao corpo médico, por serviços prestados, durante o ano compromissório de 1904/1905.

12/9/1909 – Foi resolvido pela Mesa Administrativa dar início à construção do novo Hospital. O provedor foi autorizado a mandar fazer o orçamento das obras e mandar submeter a planta ao exame de profissionais.

17/10/1909 – O Irmão Procurador apresentou o projeto de unificação dos regulamentos do Recolhimento de Órfãs e do Asilo Maria Teresa, conforme foi aprovado em sessão anterior.

13/8/1911 – Lido um ofício do Dr. Antônio de Andrade Reis sobre a criação de uma Maternidade, oferecendo para essa enfermaria seus serviços gratuitos. O Provedor foi autorizado a aceitar a oferta e, desde já, mandar preparar, no novo Hospital, uma Maternidade, com seus leitos.                          Foi instalada e posta em funcionamento, no dia 1º de setembro de 1913, conforme comunicação constante em ata do dia 15/9/1913.                                            
No relatório da gestão 1913/1914, apresentado em 2/7/1914, assim se expressa o Dr. Andrade Reis, dirigindo-se ao Provedor e dando conta dos serviços a seu cargo: “Fundada ainda por V. Exª a Maternidade, há 10 meses, cujo fim é a assistência às gestantes pobres, como a clínica médico-cirúrgica do aparelho gênito-urinário da mulher, já essa seção tem dado provas inúmeras de sua utilidade.”

1º/9/1913 – Instalado, nesse dia, o serviço da Maternidade da Santa Casa, a cargo do Dr. Antônio de Andrade Reis.

10/3/1918 – Na reunião da Mesa Administrativa, foi exposto o seguinte assunto: Dr. Andrade Reis fez diversas considerações sobre a má regulamentação atual dos serviços médicos e cirúrgicos da Santa Casa. Depois de bem discutido o assunto, ficou resolvido que se estudasse um projeto nesse sentido e que os dois médicos que faziam parte da Mesa Administrativa (Dr. Andrade Reis e Fausto das Neves) se encarregassem de redigi-lo.

24/3/1918
– Em reunião extraordinária, a Mesa Administrativa aprovou o Regulamento dos Serviços Médicos da Santa Casa da Misericórdia, constante de oito artigos, e que dividiu o serviço da Santa Casa em nove seções: 1ª, 2ª e 3ª - Clínica Médica ; 4ª - Clínica Cirúrgica (cirurgia geral); 5ª - Clínica medico-cirúrgica dos olhos, nariz, garganta e ouvidos; 6ª - Clínica pediátrica; 7ª - Clínica nervosa e psiquiátrica; 8ª - Raios X e laboratório; 9ª - Maternidade (partos e moléstias do aparelho gênito-urinário da mulher).                     
O último artigo, o 9º, estipulava que “o corpo clínico da Santa Casa não receberá nenhuma remuneração.” Depois de aprovado esse Regulamento, passou a fazer as nomeações de acordo com o Art. 3º. Foram nomeados os seguintes médicos: - Dr Antônio das Chagas Viegas para a 1ª seção; Dr. Fausto Carneiro das Neves para a 2ª e Dr. Francisco Mourão Filho para a 3ª, todos de Clínica Médica. Para a 4ª e 9ª seções Dr. Antônio de Andrade Reis e, finalmente, para a 5ª seção o Dr. Joaquim Martins Ferreira.                                                             
Obs.: Diante da aprovação do Regulamento do Serviço Médico, o Dr. Antonio F. Ribeiro da Silva pediu fosse transcrito em ata seu ofício datado de 18/3/1918, em que declarou o seu desinteresse, por completo, da reforma em projeto, considerando “de todo o ponto plausível essa medida, uma vez que a Santa Casa dispõe de facultativos prontos a arcarem com o serviço hospitalar sob tal condição.”
Consta ainda que "foi enviado um ofício ao Dr. Ribeiro da Silva, agradecendo os serviços prestados durante o tempo em que foi médico da Casa", ou seja, desde 8 de setembro de 1907.
Obs.: O anterior regulamento do serviço médico do hospital tinha sido aprovado em 29/6/1909.

1º/9/1918 – Foi realizada a sessão inaugural do Grêmio dos Médicos da Santa Casa da Misericórdia, em uma de suas salas. Essa agremiação foi criada com a finalidade de proporcionar aos profissionais, que trabalham nessa casa de caridade, um centro de reunião e organizar palestras científicas em torno de casos clínicos e cirúrgicos mais interessantes que cada um observar. As observações apresentadas, em uma sessão, serão discutidas na sessão seguinte, realizando-se, para este fim, duas sessões de 3 em 3 meses, com intervalo de 15 dias uma da outra. Na sessão inaugural, compareceram todos os médicos da Santa Casa, o Dr. Godofredo de Carvalho, em visita à cidade e o Dr. Francisco Mourão Sênior, decano dos médicos da cidade. Na sessão inaugural, foram apresentadas três observações pelo Dr. Andrade Reis; duas pelo Dr. F. Mourão Filho; Dr. Antônio Viegas relatou três de sua clínica e o Dr. Martins Ferreira apresentou um caso de sua especialidade (oftalmologia).

24/11/1919
– Lavrou, nesta data, o Revmo. Sr. Dom Silvério Gomes Pimenta , Arcebispo de Mariana, de próprio punho em pergaminho, uma resumida ata escrita em Latim para ser encerrada na urna encaixada na Mesa do altar da Capela de N. Sra. das Dores de São João del-Rei. Esteve presente a esta cerimônia o corpo mídico do Hospital, representado pelos Drs. Antônio de Andrade Reis, Fausto Carneiro das Neves e Elói dos Reis e Silva.

6/7/1922 – Em reunião da Mesa, foi autorizado o Dr. Antônio de Andrade Reis, que estava em viagem de estudos na Europa, para comprar “os aparelhos da sala de operações e cirurgia para o novo pavilhão, podendo dispor até a quantia de 30:000$000 (trinta contos de réis).”

1º/7/1923 – Foi proposto e aprovado que o Mordomo Dr. Antônio de Andrade Reis fosse homenageado pela Casa, pelos relevantes e inestimáveis serviços prestados “na compra que fez na Alemanha de toda a instalação ou arsenal de aparelhos cirúrgicos para operações, e de mobiliário, em excelentes condições para o Pavilhão, preste a inaugurar-se” e, também, pelos serviços de administração na construção do mesmo Pavilhão.                                                          
A homenagem de reconhecimento seria a colocação de seu retrato no salão nobre da Santa Casa, retrato que lhe foi oferecido pelo corpo clínico do hospital. Foi pelo Irmão Dr. Antônio de Andrade Reis, proposto que “fosse denominado Pavilhão Almeida Magalhães como prova de reconhecimento perpétuo e profunda gratidão” de todos os relevantes serviços prestados à Santa Casa e construção deste Pavilhão, aos dois Irmãos Beneméritos Dr. Eduardo de Almeida Magalhães Sobrinho e Alberto Custódio de Almeida Magalhães, Provedor e Tesoureiro, respectivamente.
Obs.: O Correio, Anno I, nº 35, de 07/05/1927, informava que no próximo dia 16 ocorreria a inauguração do Dispensário de Profilaxia da sífilis e das moléstias venéreas, dirigido pelo Dr. J. Martins Ferreira e que o referido posto de profilaxia funcionaria no andar térreo do Pavilhão Almeida Magalhães, uma das dependências da Santa Casa.

15/3/1924 – A uma hora da tarde, foi inaugurado o Pavilhão de cirurgia “Almeida Magalhães”, com a presença do Exmo. Sr. Dr. Carlos Chagas, Diretor da Saúde Federal, do Presidente da Câmara Municipal, Vereadores, Juiz de Direito, Promotor Público, o Corpo Médico da cidade e delegação de médicos de cidades vizinhas, Comandante e Oficiais do 11º Regimento de Infantaria, Vigário Monsenhor Gustavo Ernesto Coelho e seu coadjutor, Frei Cândido Vroomans. Depois do ato inaugural, foi o edifício franqueado à visitação pública; a população havia sido convidada por um boletim distribuído em avulso.             
Em sessão extraordinária da Mesa Administrativa, foi nomeado o Dr. Antônio de Andrade Reis, Médico Diretor do Pavilhão “Almeida Magalhães”, sendo logo empossado.                                     Sobre essa inauguração, assim se expressou a Imprensa local:
“No dia 16 de março de 1924, foi inaugurado solenemente o Pavilhão de cirurgia ‘Almeida Magalhães’.                                                                                                                                   
A sessão solene, às 13 horas, realizou-se no salão de festas do Colégio Nossa Senhora das Dores, educandário que pertencia à Santa Casa da Misericórdia.        
A solenidade foi presidida pelo Dr. Eduardo de Almeida Magalhães Sobrinho, como Provedor da Santa Casa. Expôs os esforços empregados pela Mesa para dotar a Santa Casa desse melhoramento, que ia inaugurar, e participou a nomeação do Diretor do Serviço Medico, que recaiu no Dr. Antônio de Andrade Reis. (...)                                                                                                                            Falou o Dr. Andrade Reis, agradecendo sua escolha e evocou, em sua fala, o passado da instituição, citando grande numero de beneméritos para, finalmente, dizer do muito que a Santa Casa devia à Família Almeida Magalhães. (...)”

2/7/1924 – Inauguração da placa comemorativa dos serviços prestados à Santa Casa da Misericórdia de São João del-Rei pelos beneméritos Irmãos Provedor e Tesoureiro, Dr. Eduardo de Almeida Magalhães Sobrinho e Cel. Alberto Custódio de Almeida Magalhães. ³                                                                  A placa foi adquirida com recursos angariados por meio de subscrição promovida pela Mesa, tendo como tesoureiro o Irmão Cristino Pereira da Silva.  O custo da placa ficou em 2:716$700 e a subscrição atingiu mais de quatro contos de réis, tendo a comissão resolvido entregar o restante ao Dr. Andrade Reis para aquisição de material necessário ao Pavilhão. (...)

10/8/1930 – O Irmão Escrivão, Dr. José Maria Pereira da Silva, pedindo a palavra, comunicou o falecimento, no Rio de Janeiro, do D.D. Provedor da Santa Casa da Misericórdia, Dr. Eduardo de Almeida Magalhães Sobrinho, ocorrido na véspera. (...)                                                                       Os Drs. Andrade Reis, Antônio das Chagas Viegas e Fausto Neves, em nome do corpo médico da Santa Casa, se associaram a todas as manifestações de pesar. A Irmã Superiora comunicou que ela e as Irmãs de Caridade se solidarizavam com todas as manifestações de pesar e que havia suspendido as aulas do Colégio N. Sra. Das Dores e Asilo, por três dias, assim como, também, tomavam luto, pelo mesmo tempo.

11/2/1941 – A filial da Cruz Vermelha de São João del-Rei, tendo como Presidente o Sr. Fidelis Guimarães, fez inaugurar, na Santa Casa, a Escola de Enfermagem da Cruz Vermelha Sanjoanense, com a presença do Cel. Herculano Teixeira de Assunção, Presidente da Cruz Vermelha de Minas Gerais, e autoridades civis, religiosas e militares.                                                                  
Falaram diversos oradores. Deu a aula inaugural seu Diretor (ex-organizador) Dr. Antônio Andrade Reis, focalizando os deveres das enfermeiras e pondo em relevo as finalidades humanitárias e patrióticas da Escola.                    
Inscreveram-se 41 Samaritanas-socorristas.

19/7/1942 – Os Drs. Antônio de Andrade Reis e Ivan de Andrade Reis, nesse ano, tiveram a iniciativa de abrir uma subscrição que alcançou a quantia de sessenta contos de réis. Quantia essa para obras no Pavilhão Almeida Neves e aquisição de aparelhos para o mesmo.                                                           O corpo médico da Santa Casa promoveu festas e outros meios para angariar recursos, para ser aumentado o Pavilhão Almeida Magalhães. (...)                            
O Sr. Antônio de Paula Afonso concorreu com mais de cem contos de réis para a construção de uma Maternidade e uma Enfermaria de Isolamento na Santa Casa. (...)
Lavrado voto de pesar pelo falecimento do Mordomo Belisário Leite de Andrade, cujo passamento se deu no dia 14/2/1942.

14/6/1943 – Pediu demissão do cargo de Diretor da Escola de Enfermagem da Cruz Vermelha Brasileira, filial de São João Del-Rei, o Dr. Antônio de Andrade Reis. Este pedido foi escrito no livro de atas e, de início, diz: “Cumpre-me o dever de deixar aqui em ata os meus agradecimentos a todos aqueles que me auxiliaram na difícil missão de conseguir uma turma cheia de competência e patriotismo, honrando o nome de São João del-Rei.                                                  
Cito, em primeiro lugar, o nome do Presidente da Cruz Vermelha Cel. Fidelis Guimarães, que muito concorreu para o desenvolvimento da Escola, ao tesoureiro Luis Alvarenga e à Secretária da Escola Irmã Vicência, em seguida à Srta. Cecília Bolognani que muito encorajou as futuras alunas que se enfileiraram no rol dessas valentes combatentes pelo bem e pela humanidade; em seguida, aos professores: Drs. Martins Ferreira, Garcia de Lima, Mário Monteiro, José Reis, Cid Rangel, Ivan de Andrade Reis, Cap. Luís Cunha, Oliveira Sales, Delamare e Dra. Iracema Baccarini e a Irmã Gabriela que dirigiu os trabalhos práticos. A Escola de Enfermagem Socorristas da Cruz Vermelha teve 44 alunas matriculadas, entre elas, quatro Irmãs de Caridade: Irmã Filomena Trombert, Irmã Teresa Cursino, Irmã Suzana Lemos e Irmã Matilde Soares.

Setembro/1944 – Setembro de 1944 foi o mês escolhido para a inauguração da “Enfermaria de Crianças Sinhá Pequena” e da “Maternidade Regina Afonso”.    
Diz a ata, sem a data, que a reunião se deu em uma das salas da enfermaria das crianças, com a presença de toda a Mesa Administrativa; etc. (...)                     
Foram paraninfos o Prefeito Dr. Antônio das Chagas Viegas, Dr. Antônio de Andrade Reis, Chefe do Serviço Médico da Santa Casa, o Vigário Pe. Mário Quintão, o Provedor Fernando Cotrim Moreira de Carvalho e o Dr. Joaquim Martins Ferreira, Mordomo da Capela e Farmácia. Falaram: o Prefeito, o Dr. Andrade Reis e o Vigário Pe. Mário Quintão.

5/5/1946 – Reuniu-se a Mesa e Junta e diversas resoluções foram tomadas. Uma delas referia-se à exoneração, solicitada pelo Chefe do Serviço Médico, Dr. Andrade Reis, e, para seu lugar, foi nomeado o Dr. Ivan de Andrade Reis.

10/3/1947 – O Curso de Enfermagem Obstétrica da Santa Casa da Misericórdia de São João del-Rei, instalado no dia 2 de setembro de 1946, iniciativa e direção do Dr. Antônio de Andrade Reis Filho, formou sua primeira turma.                          
A sessão solene da entrega dos diplomas foi realizada no Teatro Municipal. Concluíram o curso 16 alunas. O jornal “O Correio”, em sua edição de 16 de março de 1947, publicou um tópico sob o título “Importante Intervenção Cirúrgica”. Nessa pequena notícia, diz-se que o Dr. Ivan de Andrade Reis, abalizado cirurgião, foi chamado, na noite do dia 10 de março, para praticar delicada intervenção: “José Damasceno foi ferido por bala no coração, tendo-lhe o projétil atravessado o pulmão e ferido o pericárdio, com forte hemorragia interna.” A intervenção imediata se fez com sutura do coração e demais requisitos reclamados. Foi auxiliado pelo dr. Antônio de Andrade Reis Filho. O paciente obteve alta e ainda viveu alguns anos, em sua vida boêmia.

13/9/1947 – Sessão extraordinária para deliberar sobre as homenagens a serem prestadas ao Dr. Antônio de Andrade Reis, que, por mais de quarenta anos, prestou relevantes serviços à Santa Casa como médico, diretor clínico e cirúrgico e instalador do centro cirúrgico da Santa Casa e desta região de Minas Gerais. Ficou resolvido, por unanimidade de votos, a celebração de uma Missa cantada na qual tomariam parte as alunas do Colégio N. Sra. Das Dores, no dia 23 do corrente, trigésimo dia de seu falecimento, às oito horas da manhã.

9/1/1949 – Dada a autorização para que o busto do Dr. Andrade Reis fosse colocado no saguão do Hospital Geral, da Santa Casa.


RÁPIDA PASSAGEM PELA ARENA POLÍTICA

Dr. Andrade Reis era uma personalidade riquíssima e polivalente. Cidadão de apreciáveis sentimentos cívicos, teve feliz oportunidade de prestar excelentes serviços a este Município como presidente da Câmara e chefe político do Município, de 1927 a 1929 inclusive, em período de enorme agitação política, concorrendo, assim, para serenar a situação de intranquilidade em que vivia a população são-joanense.

REIS (2002, p. 35-36) aborda esse momento da história são-joanense da seguinte forma: Enquanto "papai aguardava ansioso o término da construção do Centro Cirúrgico, bem como a chegada dos instrumentos importados, que vinham de navio... acabou sendo obrigado a se envolver na luta política que ocorria na cidade.
As duas facções do Partido Republicano Mineiro, lideradas por Augusto Viegas e Basílio de Magalhães se digladiavam. Embora papai fosse amigo de um irmão de Augusto, manteve-se neutro na disputa. Um dia foi chamado a Belo Horizonte pelo Antônio Carlos Ribeiro de Andrada, que era presidente do Estado de Minas Gerais e líder do P.R.M.
Antônio Carlos propôs a papai ser o mediador da briga política, como presidente da Câmara Municipal, cargo que correspondia ao de prefeito. Papai explicou que sempre fora exclusivamente médico, nunca ambicionara cargo público e seus planos se restringiam à vida profissional. Antônio Carlos contra-argumentou que papai era a pessoa mais indicada para a missão pacificadora, por ser respeitado na cidade, não pertencer a nenhum grupo, e além disso seria uma situação provisória, até que os ânimos se acalmassem. (...)
Papai conseguiu apaziguar Basílio e Viegas e foi com os dois a Belo Horizonte para uma reunião com Antônio Carlos, e oficializaram um acordo. Durante sua gestão na Prefeitura, papai promoveu muitas mudanças positivas na cidade, como lembrou Tancredo Neves num discurso (...)."

Durante essa experiência política, papai teve pouco tempo para o trabalho na clínica, e o sonhado pavilhão de cirurgia ainda estava em construção. Depois que ficou pronto, ele e dois outros colegas, Drs. Antônio Viegas e Francisco Mourão Filho, cuidaram de organizá-lo, equipando-o com instrumentos cirúrgicos para uretroscopia, cistoscopia, cateterismo, vias urinárias, salas de consultório, ginecologia, laboratório com raios X e ultra-violeta, diatermia, endoscopia, esterilização, além de duas salas de cirurgia. O pavilhão receberia doentes também das cidades de Lavras, a 95 quilômetros de distância, e Barbacena, a 60 quilômetros.

A edição nº 850 de A Tribuna (periódico são-joanense dirigido pelo Deputado Basílio de Magalhães),  no dia 8 de maio de 1927, é histórica não apenas por ter trazido, além do comunicado de Andrade Reis a seus concidadãos transcrito abaixo; mas também por ter estampado um manifesto intitulado "Accordo Politico - São João del-Rey", em que representantes das duas facções políticas que se digladiavam, dos assim chamados partidos vieguista, chefiado pelo Deputado Dr. Augusto das Chagas Viegas (proprietário do jornal são-joanense A Tribuna), e basilista, chefiado pelo Deputado Dr. Basílio de Magalhães, concordaram com a dissolução dos seus partidos em favor de um pacificador personificado por Andrade Reis , tendo sido indicado e, em seguida, em 17 de abril 1927 sufragado chefe do Executivo são-joanense. Esse acordo político foi assinado em 8 de abril de 1927 em Belo Horizonte pelo Secretário do Interior Francisco Campos, Basílio de Magalhães, Antonio Gonçalves Coelho e Dr. Antonio de Andrade Reis, interpondo uma trégua temporária à histórica disputa entre as duas facções políticas locais do PRM-Partido Republicano Mineiro.               

A edição nº 850 de A Tribuna traz ainda matéria intitulada "Pacificação Partidária", onde o próprio Andrade Reis, em seu bojo, fazia o encaminhamento do texto do acordo político firmado em Belo Horizonte àquele jornal, chamando-o de "pequeno manifesto" e onde demonstrava o seu enorme respeito pelo povo, quando assim se expressou: 
"Como o povo em geral reclama a publicação do accordo assignado em Bello-Horizonte, e achando eu que elle é um documento publico e que, portanto, pertence ao mesmo povo, envio-lhe tambem uma copia, para que, caso deseje, V.Sª. possa publical-o.
A mesma communicação fiz aos outros jornaes da cidade.
Na mesma matéria, o jornal A Tribuna considera Andrade Reis "actual chefe politico do municipio e futuro presidente da edilidade sanjoannense", já que a posse como Presidente da Câmara se daria, como se deu, no dia 17 p.f.

Abaixo transcrevo o primeiro comunicado de Andrade Reis para os seus eleitores, que apareceu tanto em A Tribuna quanto em O Correio,  em que se pode antever quais são as linhas de sua futura ação política e administrativa à frente do Município, respeitada a ortografia adotada pelo periódico.

"Aos meus concidadãos

Convidado pelo presidente Antonio Carlos e apoiado pela vossa bondade, acceitei o difficilimo encargo de concorrer para a vossa tranquilidade.

Conto com o apoio geral para desempenhar-me da ardua missão, que acceitei somente por amor a esta terra, berço de meus filhos, à qual me uni pelo coração. Não tenho, pois, nenhuma outra intenção que a de vos ser util. Desejo apenas ver S. João del-Rey entregue à paz, e cooperar para que possam trabalhar calmamente todos aquelles que procuram concorrer para o seu engrandecimento. Nunca neguei meus serviços a esta terra bemdita, motivo por que, attendendo ao vosso appello, não vol-os recusei tambem agora.

O respeito à justiça, ao direito e à liberdade constituirá o meu programma politico, e a inquebrantabilidade moral o meu programma administrativo.

O problema da energia electrica, o rodoviario, o da saude publica, o da instrucção e, sobretudo, o do perfeito equilibrio orçamentario, com a mais escrupulosa applicação da receita, merecerão o meu decidido carinho.

Em synthese: administrar será o meu programma.

O encargo que assumi me trará ingentes sacrifícios. Mas é preciso que estes sacrificios não sejam somente meus. Conto com a boa vontade de todos os sanjoannenses.

A vossa critica me fará bem, comtanto que ella seja sincera, na altura de vossa elevação moral e de vossos nobres sentimentos.

Como na cirurgia, agirei sempre bem intencionado, de sorte que, mesmo errando, às vezes, possa merecer vossas excusas.

A minha missão, cumpre-me repetir, é principalmente a de, abafado o fogo das paixões, cooperar para a tranquilidade da familia sanjoannense.

Como administrador, me cercarei de pessoal de minha confiança e intimidade, reduzindo o funccionalismo ao estrictamente necessario ao bom andamento dos differentes serviços. Emfim, eu vos concito a trabalhar commigo pelo progresso de S. João del-Rey.

Déstes a prova de vontade firme, prestigiando nas eleições de 17 os candidatos convencionados.

Sanccionastes, assim, os desejos do governo, dando-nos vosso apoio. Em meu nome e no do patriotico governo de Minas, eu vos agradeço.

Eu vos aconselho calma em todos os vossos actos, agindo dentro do direito e da lei.

Confiae no governo, com quem agirei com a intenção de sempre ser justo, e digno de vossa cultura e confiança.

Emfim, eu desejo ainda que o povo de S. João del-Rey seja um auxiliar forte daquelle que nos vem dando exemplo de civismo e de elevação politica, — o insigne e digno presidente Antonio Carlos.

Dr. Antonio de Andrade Reis.

S. João del-Rey, 30 de abril de 1927" (A Tribuna: "Aos meus concidadãos", Anno XIII, nº 850, 8 de maio de 1927)

Na edição seguinte de nº 851, de 12 de maio de 1927, o jornal A Tribuna, em matéria intitulada "A posse da nova Camara Municipal", anunciava que a Câmara seria presidida por Andrade Reis, tendo como seu vice o Sr. Cel. José do Nascimento Teixeira, caso os eleitores confirmassem nas urnas o "honroso entendimento político". E fazendo eco ao comunicado de Andrade Reis, fazia votos de que, nos quatro anos de sua gestão,
"Oxalá advenha inteiro triumpho à obra dos que vão assumir, com sacrifício proprio, a direcção administrativa da "Princeza do Oeste" e oxalá encontrem elles em cada sanjoannense esclarecido um auxiliar dedicado e um indefenso propagandista da pacificação partidaria aqui em boa hora levada a cabo pelo patriotico governo do Estado!"

Ao fim do seu curto período de 3 anos à frente do Executivo municipal, Andrade Reis despediu-se, com memorável segundo comunicado, do povo de São João del-Rei, liberando-se de suas atribuições políticas e administrativas e, ao mesmo tempo, prestando contas desse período de paz, tranquilidade e progresso, conforme se pode comprovar abaixo em matéria intitulada O Dr. Andrade Reis dirige-se ao povo de S. João d' El-Rey, publicada em edição de O Correio, datada de 30 de março de 1930:

"Sanjoannenses!

Em 1927 subia eu as escadas da Câmara Municipal, apoiado pela quasi unanimidade do povo sanjoannense que em mim depositava a mais sagrada esperança para a consecução da paz e do progresso deste município. Creio não ter desmentido essa confiança, pois agi sempre com um patriotismo e uma superioridade que bem caracterisam o meu feitio. Agi sempre como um verdadeiro sanjoannense, pois considero sanjoannense não somente o que nasce em S. João d' El-Rey, mas tambem aquelle que ama esta terra, que trabalha por ella e que applaude os que concorreram para o seu engrandecimento. Confesso, entretanto, que tive um grande auxiliar nesta cruzada cívica e ao qual deveis dedicar o maior dos carinhos — Antonio Carlos.

Vejamos o que fez elle:

Instrucção — Creou 37 escolas isoladas, um Grupo Escolar, uma Escola de Menores, um pequeno grupo annexo à Escola Normal, além da equiparação do Gymnasio de Santo Antonio.

Hygiene — Creou o Posto Permanente de Hygiene que vem prestando à população optimos serviços, sendo indescriptivel o numero de medidas magnificas que vêm melhorando nossas condições sanitarias. O Posto de Molestias Venereas, cujos relatorios attestam a guerra que vem emprehendendo contra molestias tão perigosas que vinham anniquilando o organismo. E agora, funcciona regularmente um Dispensario Escolar, cuja utilidade é indiscutivel, prestando serviços medico-dentarios a toda a população escolar.

Estradas de automoveis — Foi concedida a uma empreza que organizou o Sr. Francisco Belchior de Rezende o privilegio para explorar a estrada de S. João a Cantagallo, unindo-nos a Turvo, com 50 kilometros de extensão, recebendo subvenção; da mesma maneira foi concedido privilegio ao Dr. Antonio Viegas para construir uma estrada desta cidade a S. João Baptista passando por S. Thiago, com 70 kilometros de extensão; promettido está o privilegio ao Sr. João Zeferino da Silva pela estrada entre Rio das Mortes e Capella do Rio Grande e, finalmente, foi assignado contracto para uma estrada ligando S. João a Barbacena.

Eletricidade — O presidente Antonio Carlos concorreu grandemente para que o contracto de augmento da força electrica, que tanto nos ia anniquilar, fosse retardado pela administração passada, tendo procurado evitar sua approvação.

Guarda civil — Creou a guarda civil que vem fazendo um policiamento magnifico.

Doações — Fez o Presidente Antonio Carlos doações a diversas instituições, como 20 contos à egreja de S. Francisco, 20 contos ao Orphanato, 10 contos ao Hospital do Rosario, e 10 contos ao Athletic, além de 30 contos para melhoramentos da cidade e 30 contos para auxilio à reforma da séde da Camara e Forum.

E sobre tudo isto, mais do que tudo isto, trabalhou o Presidente Antonio Carlos para tranquilizar a familia sanjoannense, levando-lhe uma paz sadia e um ambiente de verdadeiro bem estar. Bastavam estes serviços para que elle conquistasse do povo sanjoannense uma gratidão e uma amizade solidas em seu coração. Mas, não foi só.

Prestigiou com seu franco apoio a Camara Municipal que tanto vem trabalhando pelo elevado programma que tracei. Com effeito, a Camara fez em menos de 3 annos o seguinte:
Calçou a parallelipipedos (sic) e ajardinou a Praça Severiano de Resende e a Praça dos Andradas; calçou a parallelipipedos a rua Padre José Maria e a rua dr. Albino da Cunha; calçou a parallelipipedos metade da rua Maria Tereza; ajardinou a Praça de S. Francisco; calçou a rua da Intendencia; collocou meios fios nas ruas Paulo Freitas, General Osorio e Avenida Raul Soares e parte da Avenida Leite de Castro; construio e melhorou pontes, construio e concorreu para diversas estradas de automoveis; reformou o predio da Camara; collocou as novas machinas de electricidade, mandou concertar as velhas e synchronisar as duas; fez centenas de ligações de exgottos; melhorou o serviço de agua e estradas de rodagem nos districtos; vae concorrer para a luz electrica nos districtos de Onça, Nazareth e Conceição; melhorou o transporte de carne e lixo; muitos outros serviços menores. O que vos fez a Camara deveis tambem a esse punhado de vereadores, homens bons e patriotas que, numa confortadora união de disciplina, é a expressão mais firme e inabalavel do caracter mineiro. Assim, essa pequena, mas ardente e fiel corporação, numa só alma e num só enthusiasmo, vem trabalhando pelo municipio.

Emfim, não preciso mais me expandir sobre factos sabidos de todos e que devem ter impressionado fundamente àquelles que amam este pedaço bemdito de Minas. De sorte que todo o meu esforço e todos os meus sacrificios estiveram a serviço da terra que amo verdadeiramente e pela qual tudo tenho procurado fazer.

Um pacto de honra foi assignado, ao assumir a direcção de vossos destinos, por mim, o Governo e as duas facções politicas locaes.

Assumi o compromisso perante o Presidente Antonio Carlos de ser chefe de conciliação e não chefe de partido. Roto o accordo ha 6 mezes pelo Deputado Basilio de Magalhães, depuz immediatamente nas mãos do Presidente Antonio Carlos a chefia politica de S. João d' El-Rey, cargo que occupo ha quasi 3 annos, com prejuizos de todas as especies. E sinto-me confortado, porque assim pensaram commigo o Governo Estadual e a maior parte de meus verdadeiros amigos, aquelles que, com justiça, encaram a minha situação. Completamente fora de meu meio, apenas acceitei a difficil missão de dirigir os vossos destinos, com o fim de vos levar o bem estar, enchendo de alegrias o lar sanjoannense. E por este bem estar, e não me arrependo, sacrifiquei a minha profissão, a ponto de quasi fazer desapparecer um centro cirurgico para cuja formação gastei mais de uma dezena de annos; sacrifiquei a minha pequenissima fortuna e sacrifiquei os proprios minutos que dedicava à minha familia. Mas chegou o momento supremo em que vos devo entregar o mandato e isto o faço depois de ter ouvido o Presidente Antonio Carlos e a maior parte de meus amigos.

Demais, estou entre duas resoluções: continuar na chefia politica ou na medicina. É certo que preciso abandonar uma das duas, porque conscientemente não posso exercer ambas.

Não ha duvida que na ultima posso prestar muito mais serviços à humanidade e posso ser muito mais util ao povo.

Assim pensamos eu, meus amigos e minha clientella. Portanto, terminado o meu compromisso, só tenho um caminho a seguir — deixar a chefia politica.

Não queria antes difficultar a posição politica de S. João d' El-Rey por não haver nenhum partido organisado e por isto prolonguei minha missão que hoje considero terminada, porque todas as facções resurgiram, cada uma com seu chefe natural, e tambem porque tive o compromisso commigo mesmo, com o Presidente Antonio Carlos e comvosco de prolongar a minha missão até o dia 1º de Março. Não ficaria bem a mim chefiar artificialmente um partido, quando a minha missão era outra, a de levar a paz ao municipio. Tive um unico ideal, para o que me dispuz aos maiores sacrificios e às mais rudes contrariedades. Com effeito, trabalhar pela paz e pelo engrandecimento de S. João d' El-Rey foi uma visão que illuminou minha intelligencia, pois tive sempre em mira a felicidade deste povo bom e culto que eu considero o sacrario riquissimo desta cidade bisecular que no silencio de suas montanhas, dá os melhores exemplos de educação civica, intellectual e moral. Consegui essa paz bemdita que banhou de alegrias a vida sanjoannense e ahi está, como symbolo da nossa grandeza, o progresso de São João d' El-Rey, em todas as suas faces, ora material ora moral; ahi está, em plena lucta, essa paz firme, fructo de uma politica patriotica e sã. A elevação de vistas, patriotismo e imparcialidade com que governei bem demonstram o animo sereno e justo de minhas intenções.

O direito, a liberdade, e a justiça illuminaram a orientação com que tenho agido. Sempre trabalhei, orientado por um caracter firme e inquebrantavel que desafia qualquer critica.

Mas, quiz o destino que as cousas não continuassem assim. Nem todos gostam dessa serenidade e nem todos encaram, como o fiz, apenas o progresso de S. João d' El-Rey.

Partidos contrarios surgiram agora cada um com seu chefe e, terminado o meu compromisso com o Presidente Antonio Carlos e com o povo altivo de S. João d' El-Rey, passo à minha posição de soldado e à minha posição obscura de medico, em que posso ser mais util ao povo, pois nella me eduquei, illuminado pelos magnificos exemplos do lar e sabia orientação da religião catholica, cultivando exuberantemente o mais nobre dos sentimentos — a caridade.

Pois eu vos affirmo que o que sou na medicina tenho sido na politica. Compenetrado da noção magnifica do bem e da justiça, procurei neste periodo de quasi 3 annos ser bom para todos que são bons, punindo suavemente os maus, afim de corrigil-os sem humilhal-os, porque considero a maior degradação moral humilhar, com o prestigio da força, o nosso semelhante. Pois um homem que vive numa incessante floração de sonhos humanitarios, capaz de engrandecer a alma e aperfeiçoar a vida, não podia deixar de prestigiar os que trabalham, porque considero parasitas malsãos, usurpadores de outros homens, aquelles que vivem explorando o trabalho alheio; estes nunca tiveram o meu apoio.

Penso que o grande escriptor argentino Ingenieros tem razão dizendo que "quem nada leva à colmeia não tem direito de provar o mel".

Não abusei, portanto, nunca, da posição que me foi confiada pelo Presidente Antonio Carlos e o povo de S. João d' El-Rey. Covardia innominavel seria a acção em contrario. Dediquei todos os meus dias à felicidade e ao progresso do nosso municipio e si vejo hoje terminado o meu mandato, tenho a consciencia tranquilla de ter cumprido o meu dever e de ter trabalhado um pouco pela terra de meus filhos e pela terra que amo realmente. Ficarei contente si, qualquer que seja o partido que domine, S. João d' El-Rey continue na mesma vida feliz, em que a familia sanjoannense possa tranquillamente cuidar de sua vida quotidiana, embrenhada no doce e confortador trabalho, de que depende sua felicidade. A causa pela qual tenho luctado acaba de conseguir a victoria do direito, pois o povo de S. João d' El-Rey, numa ardente e sincera reaffirmação do sentimento liberal, no calor da esplendida confirmação de suas tradições, acaba, com firmeza, com vontade e com o coração, de procclamar victoriosa a chapa do P.R.M., agremiação possante a cuja sombra vivemos.

Povo de S. João d' El-Rey!
Eu vos agradeço vossas attenções e espero que reconheçaes que, si me faltou talento para bem vos guiar e bem vos servir, me sobrou o esforço bastante para compensar aquella falta.

Dr. Andrade Reis

S. João d' El-Rey, 27 de março de 1930." (O Correio: "O Dr. Andrade Reis dirige-se ao povo de S. João d' El-Rey", Anno IV, nº 183, de 30 de março de 1930)

Consta que os jornais da Capital Federal noticiaram durante vários dias o fato inédito de, numa pequena cidade de Minas Gerais, um "interventor", após três anos de governo, sair, por sua livre e espontânea vontade, aclamado, carregado nos braços do povo.


PALAVRAS DE DR. ANDRADE REIS

1) "O sr. presidente, em exercício, da Câmara Municipal, recebeu o seguinte telegramma do dr. Andrade Reis, ex-presidente do município:

Presidente da Camara Municipal S. João d' El-Rey
Araxá, Minas
11-4-930

Agradeço moção generosa votada por essa Camara minha pessoa aproveitando occasião mais uma vez agradecer valiosos serviços prestados minha administração aos quaes attribuo grande exito progresso nossa cara São João d' El-Rey. Guardarei lembrança eterna lealdade amizade e sinceridade companheiros Camara aos quaes hypotheco minha solidariedade. Saudações Andrade Reis." (O Correio, Anno IV, edição nº 186, de 20/4/1930)

2) Entrevista dada por Dr. Andrade Reis a O Correio, logo após ter deixado o cargo de chefe político do Município:

— "E sua acção futura?
Não tenho acção futura. Minha missão está terminada. Roto o accordo, que considero um verdadeiro pacto de honra, nem mais um dia devia permanecer no cargo. Nunca fui político e por isto mesmo fui chamado accidentalmente para occupar um logar que não me cabe por direito. Chefe de conciliação, e não chefe de partido, foi o meu compromisso. Amigo de S. João d' El-Rey, não queria deixar mal a sua politica. (...)
E V. Excia?
— (...) Acceitei a difficil missão de dirigir S. João d' El-Rey, porque estava convencido de que lhe ia levar o bem estar, enchendo de alegrias o lar sanjoannense. Nunca me illudi com minha posição. Não era politico e não tinha nunca cultivado eleitorado. Tive sempre horror ao prestigio politico receando qualquer posição, pois conheço a minha vocação e meu feitio. Nasci para o hospital, ao lado do doente pobre, a quem não nego nunca o meu carinho e onde cultivo a mais nobre das profissões, aquella que não vê odios e apenas procura diminuir dores. Entrei para a politica accidentalmente, sòmente para levar a paz ao municipio e esta paz ahi está mesmo em epoca de luctas. (...) Desejava enthusiasticamente que o povo correspondesse ao chamado do P.R.M. para votar nas eleições de 1º de Março. A Aliança Liberal, que prega as nossas ideas e encarna o nosso programma, merece applausos, porque está bem representada nas figuras inconfundiveis de Getulio Vargas e João Pessoa que, com altivez, enfrentam os processos mofados da velha politica, em que o povo não participa das resoluções que devem decidir o futuro da patria. S. João d' El-Rey, terra tradicional em civismo, não pode desmentir o seu passado. (...)
E a Camara?
A Camara vae optimamente. Trabalhei quasi dois annos e agora me substitue José do Nascimento Teixeira com grande energia e talento, concorrendo brilhantemente para o nosso engrandecimento. Todos os pontos de meu programma foram abordados. (...) Emfim, de qualquer maneira, tenho a consciencia tranquilla de ter prestado um pequeno serviço a S. João d' El-Rey, o que muito me conforta, porque amo realmente esta terra." ("O Dr. Andrade Reis nos concede uma entrevista", O Correio, Anno IV, edição nº 176, de 9/02/1930) (Grifos meus)

3) "No seu longo discurso de posse (na Academia Nacional de Medicina, sediada no Rio de Janeiro), papai resumiu as grandezas e os espinhos da profissão:

'Não atuei nunca sem o escrupuloso conhecimento do caso e, sempre que possível, sem o avisado e prudente conselho de ilustres colegas, com os quais, posso dizer, dividi sempre as graves responsabilidades de uma delicada intervenção, o doloroso de um desastre e as alegrias de um sucesso. Tive sempre para com a minha profissão o respeito do crente que sabe adorar o seu ídolo com o coração cheio de fervorosas convicções; sempre soube venerá-la e respeitá-la como ante um monumento de arte, se curvam, reverentes e humildes, os admiradores do Belo. (...)

Procurei sempre honrar a minha classe, a fim de viver com os meus colegas em uma atmosfera de prestígio, aquecido pelo calor da amizade do povo em cujo meio vivo. Viver na órbita da intriga e da inveja, na crítica de erros de colegas, seria para mim uma quase renúncia ao meu título, porque está fora dos moldes que convêm à minha índole. Assim, senhores, vencendo os ventos rudes contra os quais sempre lutei, venho, num vôo silencioso, aproximar-me do vosso aconchego, onde sinto minha vida perfumada pela sensação de uma vitória, e onde, na exatidão de vosso duro raciocínio científico, ouço as sinfonias de vossos corações. (...)

Cumpre-me dizer-vos ainda o que, consoante presumo, não escapa aos fins desta Academia, que não conseguiríamos, por certo, efetivar eu e os meus ilustres colegas o ousado empreendimento de realizar no interior de Minas um serviço hospitalar lançado nos moldes que recomenda a boa técnica, se não fora o piedoso trabalho de altruísticas gerações de mais de um século e que agora, posso dizer, se integra, se aperfeiçoa e se completa, graças aos filantrópicos esforços de antiga e ilustre família são-joanense, que, ao lado de um grupo de bons, tem, no estabelecimento em que trabalho, um pouco de seu generoso coração. (...)

País doente, já se disse muitas vezes, o Brasil precisa de hospitais, e já que os governos não tiveram ainda o desejo profundamente patriótico de aumentar as verbas para o seu saneamento, responsamos às palpitações dos corações aflitos, levantando, com o auxílio popular, o alicerce para uma formação hospitalar futura, curando os doentes e ao mesmo tempo robustecendo a raça. São João del-Rei correspondeu modestamente, nos limites de suas forças, às exigências do meio, levantando, por entre as suas coloniais e seculares construções e as tradições que tanto a nobilitam e elevam, um hospital pequeno, mas moderno, lançado com o rigor dos tempos hodiernos, prestando à população que o contempla orgulhosa serviços inestimáveis, que tornam a sua administração, presidida por Eduardo e Alberto de Almeida Magalhães, credora de uma dívida sacratíssima, já perpetuada no imortal bronze colocado na fachada do augusto templo.' " (REIS, N.A.: "Estações de minha vida", p. 33-34)


REFERÊNCIAS ELOGIOSAS A SEU TRABALHO FEITAS POR TERCEIROS

1) "SERVIÇO MÉDICO — A ingente e abnegada missão de atender o delicado e vultoso serviço hospitalar, veio, através dos tempos, sendo desempenhada por distintos profissionais, com a elevada compreensão de seu sacerdócio. Sua direção, a partir de 1916, estêve a cargo do distinto clínico e operador Dr. Antônio de Andrade Reis, que, em 1918, devotadamente tendo da Mesa Administrativa e do distinto corpo clínico o necessário apoio, muito concorreu para modernizar suas instalações." (VIEGAS, A.: "Notícia de São João del-Rei", Belo Horizonte, 3ª edição, 1969, p. 131)

2) "Para ampliar seus conhecimentos especializados (cirurgia, obstetrícia e ginecologia) passou dois anos na Europa, freqüentando clínicas da França e Alemanha. Também freqüentou congressos médicos e organizações hospitalares brasileiras.
Tornou-se mestre consumado na clínica e na cirurgia, num pioneirismo que o situou entre os expoentes da ciência hipocrática de Minas Gerais, ao lado de vultos extraordinários como o Dr. Vilaça, em Juiz de Fora, o Dr. Rivadávia Gusmão, em Pedro Leopoldo, o do Dr. Borges e o do Dr. Hugo Furquim Werneck (1878-1935), em Belo Horizonte. Graças ao Dr. Andrade criou-se em São João del-Rei não só respeitável centro cirúrgico mas um polo hospitalar que absorveu modernas técnicas médicas.
Foi escolhido Patrono da Cadeira nº 6 da Academia Mineira de Medicina, cujo primeiro ocupante foi o sanjoanense Dr. Antônio de Melo Alvarenga (1900-1981). (...)
Em virtude dos trabalhos médicos publicados, de alto valor científico, foi eleito membro correspondente da Academia Nacional de Medicina. Ao tomar posse no citado sodalício cultural, o mais importante para glorificar um médico, foi saudado com elogios pelo grande mestre da medicina brasileira, Professor Miguel Couto (1865-1934).
Em 1912, foi eleito vice-presidente da Sociedade de Medicina e Cirurgia de São João del-Rei. O extinto Hospital do Rosário, inaugurado a 11/02/1912, prestou grandes serviços à pobreza desta cidade. A sala de operações do referido nosocômio foi montada às expensas dos doutores Andrade Reis, Artidônio Pamplona e Antônio Viegas." (CINTRA, S.O.: "Galeria das Personalidades Notáveis de S. João del-Rei", FAPEC, 1994, p. 20-21)

3) "O prestígio profissional de papai aumentou tanto que em novembro de 1924 ele foi eleito por unanimidade para a Academia Nacional de Medicina, sediada no Rio de Janeiro . Concorreu à vaga com uma tese intitulada "Gravidez dupla tubária, simulando gravidez dupla tubária e ovariana", na qual analisava um caso ocorrido na Maternidade de São João del-Rei. 
A posse aconteceu no ano seguinte, no dia de meu aniversário, escolhido de propósito por papai. Ao recepcioná-lo na Academia, o professor Miguel Couto disse: "Se a medicina não se enclausura hoje somente no hospital, nos leitos dos doentes, também não se enclausura nas grandes capitais, e vamos encontrar no interior, longe desses grandes centros, homens notáveis. Não preciso dizer a quem me refiro neste momento. Há o exemplo de Duchenne, que de um lugarejo longínquo de seu país, refundiu toda a neurologia. De outro sei que, de uma vila secundária da Inglaterra, refez toda a cardiologia o grande Mackenzie. Sei também de um que, num cantinho de Minas, num lugar histórico, como cirurgião é capaz das maiores audácias, com todo o êxito, com toda a erudição científica: é este a quem tenho a honra de cingir ao peito as insígnias da Academia."
A saudação foi do Dr. Artidônio Pamplona, anestesista que tinha trabalhado muitos anos com papai em Minas Gerais." (REIS, N.A.: "Estações de minha vida", p. 33)

4) "As bactérias são mortas pelo mofo; uma variedade de bactérias é inibida em seu crescimento pelo Penicillium notatum, esse fungo que impedia o crescimento da vida das bactérias que Fleming estudava, na época da guerra, aí por 1945-6 quando o ti' Mário teve uma quase mortal peritonite causada por apêndice supurado. Custou-se a obter a penicilina, ela ainda em inícios de comercialização lá na Inglaterra. O ti' Mário salvou-se, interno na Santa Casa da Misericórdia e entregue aos cuidados do dr. Ivan de Andrade Reis, grande figura, filho do velho dr. Andrade Reis, formado em Berlim (com defesa de tese perante o Mestre Virchow)." [CARVALHO, J.A.A.: "Historieta sobre um perdedor (Desta vez, ele perdeu o Prêmio Nobel)"]

5) "Inspirado, serena e patrioticamente, nos grandes ideaes de ordem e de progresso que nortearam sempre a sua vida preciosa e nobre, o grande e querido Presidente Dr. Antonio Carlos, em momento difficil da politica deste municipio, houve por bem patrocinar um accordo, mediante o qual se entregou a chefia politica de S. João del-Rey ao cidadão prestante e portador de um passado respeitavel, que é o Exmo. Sr. Dr. Antonio de Andrade Reis.

Tal resolução, executada sob a égide do benemerito chefe do executivo mineiro, provocou, como era de esperar, o mais caloroso applauso do culto e digno povo sanjoannense, quer porque o accordo vinha marcar o termino de uma luta que poderia conduzil-o às mais graves consequencias, quer porque o nome daquelle a quem se confiavam os destinos do municipio, e sobretudo a sua paz, era o melhor penhor das justas esperanças de todos.

Sem alarde, sem espectaculosidade ridicula, e, antes com absoluta modestia e inexcedivel firmeza, passou o illustrado medico, cujo nome já se fizera respeitavel fora deste municipio e fora mesmo deste Estado, a executar um programma que a outros menos decididos exigiria uma decada de annos para completa realização.

Hoje, com surpresa de todos, ahi está integralmente realizado esse programma de governo que só a ingratidão de poucos irá talvez esquecer. S. João del-Rei não possuia vias de communicação, além da Estrada de Ferro Oeste de Minas e poucas e imprestaveis estradas de rodagem. Quando todos os municipios mineiros intensificavam a construcção de boas estradas de automoveis, o nosso quedava-se satisfeito e talvez orgulhoso por ter construido 10 kilometros apenas. Isolado, S. João del-Rei não acompanhava a marcha celere dos outros municipios. O Dr. Andrade Reis fez construir 250 kilometros de boas estradas, ligando-nos aos municipios de Turvo, Prados, Barbacena, Bom Successo. Isso no curto periodo de 3 annos somente. Mas, não foi só. A instrucção, a hygiene, os serviços de electricidade, a boa arrecadação das rendas, a honesta e criteriosa applicação dos dinheiros publicos, é certo, mereceram-lhe especial carinho. Conseguiu crear, afora o Grupo Escolar "Aureliano Pimentel", 37 escolas urbanas, districtaes e ruraes que, entregues como se acham a escolhido professorado, vão produzindo os beneficos resultados que a instrucção prodigaliza. Só isso, e sem favor o dizemos, seria bastante para fazer o honrado administrador deste formoso rincão de Minas digno do nosso apreço e da mais completa gratidão. Conseguiu crear 3 postos de hygiene: o de hygiene municipal, o de molestias venereas e o de assistencia escolar, todos bem installados, dispondo de moderno material e em franca e proveitosissima actividade. Calçou a parallelipipedos varias ruas da cidade; construiu e reconstruiu pontes e estradas; tudo fez, emfim, com inexcedivel patriotismo e larga visão, pelo engrandecimento da terra sanjoannense. Está, pois, na memoria de todos os homens sensatos, e aos quaes as paixões não obnubilaram as consciencias, esta somma de beneficios tão inapagaveis quão necessarios.

Mas, e com que profunda magua o dizemos, não continuará o Dr. Andrade Reis na presidencia da Camara e na qualidade de chefe politico do municipio.

Circumstancias que aqui enumeraremos, para evitar interpretações menos legitimas, forçam o nosso illustre amigo e incontestavel bemfeitor da communhão sanjoannense a essa attitude, que com ser lamentavel não deixa, entretanto, de ser justa. Tendo um dos partidos signatarios do accordo restabelecido as competições politicas, o Dr. Andrade Reis, que foi chefe de conciliação e não de determinado partido, reconhece por esse motivo terminada a sua missão. Além disto, a sua saude não lh'o permittiria sem graves perigos continuar desenvolvendo a actuação politica e administrativa que elle poude manter até aqui. Está presentemente o referido amigo fazendo uma estação de repouso em uma das estancias mineraes do Estado. Tambem é de notar que foram enormemente sacrificados os interesses particulares do eminente scientista que, por 3 annos, se consagrou com zelo inexcedivel ao progresso, paz e felicidade deste municipio que tanto e tanto lhe fica a dever.

Ninguem mais que nós que temos acompanhado pari passu a acção politico-administrativa do Dr. Andrade Reis lamenta a sua retirada, embora perfeitamente justificada. Accentuamos, porém, que se não lhe pode exigir mais do que ha feito e, muito menos o sacrificio de sua saude. Estejam bem certos os nossos leitores, e emfim toda a população sanjoannense de que nenhum outro motivo leva o Dr. Andrade à attitude que vae assumir dentro em pouco. Em perfeita harmonia com o P.R.M., com o grande chefe liberal Dr. Antonio Carlos, com a brilhante e patriotica corporação que preside e com os seus numerosos amigos, elle prestará em qualquer momento a sua cooperação boa à grandeza desta terra. Registemos, pois, como acto da mais rigorosa justiça, o nosso profundo pesar, não esquecendo jamais que, sob a sua direcção, teve S. João del-Rey um periodo aureo de grandes e formosas realizações, durante as quaes se affirmou um governo fecundo que a posteridade, em julgamento sereno, sagrará o mais digno da nossa imperecivel gratidão." (O Correio: "Governo fecundo", Anno IV, nº 183, de 30 de março de 1930)



VOTOS DE PESAR PROFERIDOS NA ASSEMBLEIA MINEIRA

Na hora do expediente do dia 25 de agosto de 1947, portanto há cerca de 65 anos atrás, o Deputado Tancredo de Almeida Neves solicitou expressar um voto de pesar em homenagem ao saudoso Dr. Antônio de Andrade Reis, que tinha falecido na véspera, conforme segue, conservado nos Anais da Assembleia Legislativa de Minas Gerais ¹⁰:

DR. ANTÔNIO DE ANDRADE REIS
Voto de Pesar

O SR. PRESIDENTE — Tem a palavra o Sr. Tancredo Neves.
O SR. TANCREDO NEVES — Sr. Presidente, Srs. Deputados.
Ocorreu, na madrugada de ontem, em Juiz de Fora, o falecimento de um ilustre mineiro: o Dr. Antônio de Andrade Reis.

Médico dos mais notáveis, homem público de acendradas virtudes, cidadão eminente com relevantes serviços prestados a Minas Gerais, o seu passamento envolve em crepe a medicina do nosso Estado, golpeia fundo o coração da sociedade do Oeste mineiro e particularmente da coletividade são-joanense, que perde nele um dos seus maiores benfeitores.

Andrade Reis era natural da vila de São Tiago, do município de Bonsucesso, residindo em São João del-Rei, após um brilhante curso de medicina, onde se revelavam os seus privilegiados atributos de espírito e o seu devotamento à Ciência.

Simples e bom, nobre de alma e puro de coração, construiu no estudo, no trabalho e no ideal uma existência que empolga pelo que há nela de austeridade, de labor digno e abençoado, de idealismo sadio e dignificante.

Criou em São João del-Rei um centro cirúrgico, que, graças aos seus esforços e a sua competência, tornou-se afamado em todo o Estado. Durante várias décadas, a sua figura de apóstolo iluminou as dependências de nossa secular Santa Casa, sua oficina de trabalho, que ele ampliou e modernizou, fazendo dela um hospital modêlo, cujas instalações são das mais perfeitas e eficientes. Aí, pelo exemplo e pela dedicação às árduas tarefas do seu nobilitante ministério, deixou uma viva tradição de operosidade, lições edificantes de ética profissional e rasgos inesquecíveis do seu magnânimo coração, sempre aberto a tôdas as solicitações do desespêro, da angústia e do sofrimento dos seus semelhantes.

Viveu entre duas paixões absorventes: a da sua família e a da sua profissão.

Entre ambas dividia prodigamente as opulências do seu espírito e os tesouros dos seus sentimentos.

O seu lar era o autêntico lar mineiro: virtude, bondade, distinção e simplicidade, onde todos se sentiam como se estivessem em sua própria casa e a cuja lareira havia sempre uma palavra de consôlo para os infelizes, o lenitivo para os tormentos físicos e morais e o conselho sábio e paternal nas provas de crise ou de aflição.

A profissão, no entanto, o atraía dominadoramente. Em tôda a sua vida de médico e de cirurgião, era o primeiro a chegar ao hospital e o último a deixá-lo. Não houve casa em São João del-Rei — da mais humilde choupana à mais luxuosa das moradas — que êle não tivesse visitado no cumprimento do seu nobilíssimo apostolado. Não fazia diferença entre ricos e pobres, pretos e brancos, e a todos tratava com a mesma solicitude, o mesmo interêsse e a máxima dedicação.

Clínico esclarecido e proficiente, notabilizou-se, contudo, como cirurgião. Depois de haver esgotado os recursos da técnica operatória do Brasil, levado pela sua ânsia de saber e de aperfeiçoar-se, esteve na França e na Alemanha, trazendo dos centros cultos destas nações novos métodos cirúrgicos, dos quais se serviu com êxito na sua longa carreira.

Nunca deixou de ler e de estudar. Em meio às suas afanosas atividades profissionais encontrava horas para o estudo e a meditação, aprimorando incessantemente a sua esmerada cultura e mantendo-se rigorosamente em dia com a evolução da ciência médica.

A irradiação do seu nome e a sua fama de cirurgião exímio atravessavam os limites do nosso Estado e foram-se projetar na Capital da República, onde foi distinguido, pelos seus estudos e trabalhos, para ocupar uma cadeira na Academia Nacional de Medicina, ao lado dos maiores luminares da nossa ciência médica.

Era o reconhecimento dos seus méritos extraordinários. O mais alto cenáculo da medicina nacional honrou-se, escolhendo para um dos seus membros, o modesto cirurgião do interior, cujo excepcional valor forçara as suas portas, que para êle se abriram cordialmente, numa festiva recepção, que foi uma consagradora homenagem a uma das mais legítimas expressões da cultura, da perícia e da dignidade da medicina mineira.

Mas Andrade Reis não foi apenas o médico notável e o cirurgião perfeito. Foi, também, um preclaro homem público, amante da sua terra e apaixonado pela sua Pátria.

Em certa quadra, a política insuflara ódios e rancores no coração do povo de São João del-Rei. A sua culta sociedade dividira-se em duas facções, que se hostilizavam tenazmente. Dias sombrios desceram sôbre a minha terra. Fundas e irreconciliáveis divergências extremaram os partidos em luta. O município vivia envolto numa atmosfera de apreensões, de intranqüilidade e de insegurança. 

Foi quando os são-joanenses apelaram para Andrade Reis. Reclamaram os seus serviços. Exigiram o seu nome para a direção do município e, num pleito memorável, foi êle unânimente elevado à Chefia de São João del-Rei.

A sua administração foi algo de surpreeendente. Equilibrou o orçamento municipal, majorando as suas rendas. Abriu escolas e rasgou estradas. Pavimentou a cidade, ampliou a sua rêde de abastecimento d' água e seu serviço de esgôto, embelezou-a com lindos jardins e melhorou consideràvelmente as suas condições sanitárias.  

Realizou obra de vulto em todos os setores da administração pública, ao mesmo tempo que pacificou os espíritos, reintegrando o povo são-joanense na plenitude do exercício de seus direitos individuais e sociais. 

Quando se viu compelido a deixar o cargo de governador da cidade para retornar às suas lides profissionais, pôde transmitir ao seu sucessor um município em franco progresso com tôdas as suas atividades em desenvolvimento e a sua população entregue às suas tarefas normais, sem ódios e sem prevenções.

A política, porém, nunca o seduziu. Tendo podido ocupar os mais honrosos cargos em nossa vida pública, preferiu sempre servir ao nosso povo e ao nosso Estado, devotando-se de coração ao exercício de sua nobilitante profissão.

Dotado de admirável espírito público, nunca soube ser um indiferente à sorte dos nossos destinos. Participou ativamente de todos os movimentos que, durante a sua existência, agitava a alma nacional, dando-lhe a generosa contribuição do seu civismo.

Já no último quartel de sua vida, o seu zêlo patriótico exaltou-se com a entrada do Brasil na Guerra, ao lado das Nações Unidas, contra as potências nazi-fascistas.

Julgou-se no dever de realizar algo de útil em favor da Pátria, envolvida nos azares de um terrível conflito, cujo desfêcho era para todos os brasileiros uma torturante incógnita. Não se deixou ficar impassível. Fundou, organizou e dirigiu, em São João del-Rei, um Curso de Enfermagem, no qual se matricularam algumas dezenas de senhoras e senhoritas de sua melhor sociedade, às quais ministrou proveitosos ensinamentos, preparando-as para as duras eventualidades que, felizmente, a vitória das armas democráticas nos poupou.

Era assim Andrade Reis. Homem do povo a serviço do povo. Grande e nobre coração, onde repercutiam generosamente as causas do Brasil e da humanidade. Caráter de férrea resistência, estruturado pelos mais rígidos princípios morais. Inteligência lúcida, ornamentada por uma larga e profunda cultura e iluminada pelos clarões da fé, havida na religião sublime do Salvador, que êle praticava sem ostentação, mas também, sem respeito humano, com a sinceridade que punha em tôdas as suas atitudes.

Êsse, em largas pinceladas, o perfil moral do varão ilustre que a morte acaba de arrebatar do convívio de sua família, da amizade dos seus concidadãos e da veneração do povo de São João del-Rei.

Requeiro, pois, Sr. Presidente, em meu nome e em nome da bancada do Partido Social Democrático, nesta Assembléia, que se faça inserir na ata dos nossos trabalhos de hoje, um voto do mais profundo e sincero pesar pelo falecimento do Dr. Antônio de Andrade Reis. (Muito bem! Muito bem!)

O SR. MATEUS SALOMÉ — Sr. Presidente, peço a palavra pela ordem.
O SR. PRESIDENTE — Tem a palavra o Sr. Mateus Salomé.
O SR. MATEUS SALOMÉ — Sr. Presidente,
Raramente esta Casa terá a oportunidade de render homenagem tão justa como a que acaba de ser requerida pelo nobre Deputado Tancredo Neves.

O Dr. Antônio de Andrade Reis é a demonstração de que um homem vale tanto quanto valem o seu saber e a sua consciência, é a demonstração de que, se a muitos é fácil, numa penada em um cheque, fazer levantar uma Santa Casa, entretanto, o difícil, o que exige sentimento humano muitas vêzes além das possibilidades, é fazer esta Santa Casa funcionar, é fazer com que essa Santa Casa se imponha não apenas na cidade, senão também em uma região inteira. Esta é a obra de Antônio de Andrade Reis, em São João del-Rei e naquela região, obra que foi o custo do melhor da sua existência, construída com modéstia e no silêncio, e que, depois de realizada, fêz com que São João del-Rei pudesse olhar na sua pessoa não já a figura de médico, senão também a figura de homem que se impunha pela sua força moral em circunstância difícil como a que foi invocada pelo nobre Deputado Tancredo Neves.

Essa personalidade, essa força pessoal que assim se foi construindo, deixa para todos nós uma lição bem alta numa época em que, como disse Virgílio de Melo Franco, "nem sempre os homens se parecem consigo mesmos todos os dias". Andrade Reis nos deixa o exemplo muito eloqüente e se às vêzes a lei se enfraquece para os homens, é uma felicidade para os povos que homens existam que possam resumir a força de uma lei, proferindo frases que sejam sentenças.

De mim confesso que ainda há pouco, nos nossos anais políticos, a lei se enfraqueceu, ou digamos, a lei desapareceu e eu via muito mais em Antônio de Andrade Reis, a força de um Decreto-lei do que mesmo naquilo que a isso se costumava chamar.

É um grande exemplo, é uma grande perda, portanto, esta que Antônio de Andrade Reis representa para São João del-Rei, como cientista, como chefe de família, como são-joanense, como mineiro e como brasileiro.

A homenagem que, portanto, aqui se presta, é uma homenagem que dignifica esta Casa. (Muito bem! Muito bem!)

Submetido a votos, é aprovado o requerimento do Sr. Tancredo Neves, contendo voto de pesar pelo falecimento do Sr. Antônio de Andrade Reis.

Por todas essas razões, a Câmara de São João del-Rei houve por bem chamar a artéria que separa a Santa Casa de Misericórdia da residência do distinto médico, com o nome de Avenida Dr. Andrade Reis, em sua homenagem e em gratidão pelos inúmeros serviços que ele prestou à Municipalidade, não só como médico, obstetra e cirurgião, mas também como seu Presidente da Câmara e chefe político, de 1927 a 1929.

NOTAS DO AUTOR

¹ Filho de Boaventura Maria de Ploesquellec e Maria Antonieta Gallays de Resmental, casou-se com Maria Benedita de Souza Fortes, filha do Capitão-Mor Luiz Fortes Bustamante e Sá e Ana Teresa de Mello Almeida Souza Menezes. O casamento se deu em São João del-Rei, aos 21-05-1828, no oratório de D. Luisa Sinforosa de Bustamante, tia da noiva. Maria Benedita recebeu, como herança da referida tia, metade dos remanescentes dos bens desta, passando por sua morte a seu filho Gabriel. (Vide na Internet, Ploesquellec: pesquisa de Nelson Fortes)

² Embora os biógrafos de Dr. Andrade Reis mencionem a data de nascimento como sendo 16/11/1882, o seu assento de batizado menciona o dia 15. OLIVEIRA (2008), que teve acesso ao referido assento do batizado, pôde esclarecer que a data correta do nascimento do meu biografado é 15 de novembro de 1882, conforme registro transcrito em Nota nº 1 da página 4 do Boletim nº XI: "A 11 de dezembro de 1882 baptisei solemnemente o innocente Antonio, nascido a 15 de Novembro deste anno, filho legitimo de José Pedro d' Andrade Reis e Anna Jesuína d' Andrade; foram padrºs Antonio Torquato Teixeira e Marianna Victória d' Andrade, por procuração, que estes derão a José Joaquim d' Andrade Reis Junior e Josefa Amélia d' Andrade e para constar faço este assento. O Vigrº (Júlio José) Ferreira." (Livro de Registro de batismos da Paróquia de São Tiago nº 02, fls. 107)
Assento de batismo de Antônio de Andrade Reis: cópia extraída do Livro de Batismos da Paróquia de São Tiago nº 02, fls. 107. Crédito: João Pinto de 
Oliveira.
Esclareceu ainda, em Nota da Redação da página 8 do Boletim XIII, por informação do genealogista Diego Duque Guimarães, que José Joaquim d' Andrade Reis Junior era filho do José Joaquim de Andrade, Barão de Ponte Nova aos 25/09/1889, e Maria Umbelina (ou apenas Ubaldina?) Cândida  de Andrade; acrescentou ainda que os pais do Dr. Andrade Reis eram donos da fazenda Fundão, na então Santa Rita do Rio Abaixo (atual Ritápolis), que provavelmente se estendia por São Tiago. Segundo o autor, após a venda desta fazenda, eles se estabeleceram no então distrito juiz-forano de Água Limpa (atual cidade de Cel. Pacheco), região em que já estavam estabelecidos vários de seus parentes.

³ Lêem-se os seguintes dizeres na placa comemorativa dos serviços prestados à Santa Casa da Misericórdia de São João del-Rei pelos beneméritos Irmãos Provedor e Tesoureiro, Dr. Eduardo de Almeida Magalhães Sobrinho e Cel. Alberto Custódio de Almeida Magalhães:
HOMENAGEM DO POVO DE SÃO JOÃO D' EL REY
AOS BENEMERITOS
EDUARDO D' ALMEIDA MAGALHÃES, SOBRINHO
E
ALBERTO CUSTODIO DE ALMEIDA MAGALHÃES
POR TEREM CONSTRUIDO
O HOSPITAL GERAL EM 1913 A CAPELLA EM 1918
O PAVILHÃO "ALMEIDA MAGALHÃES" EM 1924
O NECROTERIO EM 1924 E O DESINFECTORIO EM 1924

O texto deste célebre discurso é apresentado ao final deste post com o seguinte título: "DR. ANTÔNIO DE ANDRADE REIS - Voto de Pesar". Ali, o então Deputado Tancredo Neves refere-se ao fato de ter Andrade Reis deixado a sua gestão na Prefeitura com inúmeras mudanças positivas na cidade. Entre elas, citou o embelezamento da cidade com lindos jardins. REIS (2002, p. 36 e 20 respectivamente) esclarece que "um dos jardins foi o da Igreja de São Francisco, com as mesmas curvas que têm a cumeeira e as paredes laterais" e também que "o belo jardim, imitando as curvas da igreja com caminhos tortuosos que contornam as palmeiras, também tinha para mim uma beleza especial, porque meu pai foi o responsável pela execução da obra quando prefeito interino da cidade".

Estabelecia o art. 6º do citado "Accordo Politico - São João del-Rey": "Eleita a nova Câmara, os dois partidos (vieguista e basilista) serão dissolvidos, ficando um só partido, sob a direção do dr. Andrade Reis."

Major Antonio Gonçalves Coelho, natural de Nazareno-MG, foi um dos empresários da iluminação elétrica de São João del-Rei, além de chefe do Executivo municipal (1908-1912), Presidente da Câmara Municipal e titular do Cartório do 3º Ofício, criado em 1928.

Dr. Antonio Carlos Ribeiro de Andrada era sobrinho-neto de José Bonifácio de Andrada e Silva, o "Patriarca da Independência". Quando estudava Direito em São Paulo, aderiu ao movimento republicano. Na época deste comunicado de Andrade Reis, Antonio Carlos era presidente do Estado de Minas Gerais, cargo para o qual fora eleito em 1926, tendo-o ocupado até 1930. Além desse cargo, exerceu outros: Presidente da Câmara de Vereadores, Secretário de Finanças, Prefeito (de Belo Horizonte), Deputado Estadual, Senador, Constituinte e Ministro da Fazenda. Ele foi um dos articuladores da Aliança Liberal, em que ele e João Pessoa, da Paraíba, apoiavam a candidatura do gaúcho Getúlio Vargas, em contraposição ao paulista Júlio Prestes, candidato oficial à Presidência da República, indicado por Washington Luís. Natural de Barbacena, nasceu em 5 de setembro de 1870 e faleceu em 1º de janeiro de 1946. 

Relembrando os nomes dos integrantes desta Câmara Municipal que contribuíram para os bons êxitos da gestão de Andrade Reis, como Presidente da Câmara Municipal e chefe do Executivo local: além do já citado Major José do Nascimento Teixeira (vice-presidente), Alfredo Teixeira, João Baptista Rodrigues, José Carvalho de Resende, João Baptista da Costa, José Vicente da Trindade, Gabriel de Andrade, Dr. José de Athayde Pacheco, José Augusto de Resende e Antônio Augusto da Silva Braga.

A arquivista Renata Ferreira da ANM-Academia Nacional de Medicina, através de mensagem datada de 23/10/2012, respondeu a meu pedido de informações que "a Biblioteca Alfredo do Nascimento está fechada por motivo de obra no prédio na sede da ANM. No Arquivo consta que o Dr. Antonio de Andrade Reis foi membro Correspondente Nacional — eleito em 27/11/1924 — posse em 05/11/1925."

¹⁰ Anais da Assembleia Legislativa de Minas Gerais - 1947, Volume 1, p. 292-294.



AGRADECIMENTOS

Gostaria de deixar aqui consignada minha gratidão a todos os que contribuíram para o desenvolvimento desta pesquisa, especialmente minha esposa Rute Pardini pela maioria das fotos exibidas neste evento e pelas boas ideias, incentivo permanente e tolerância sempre presente; meu irmão Carlos Fernando dos Santos Braga por sua eficiência no contato com a Assembleia Legislativa Mineira, através das funcionárias Márcia Milton Vianna e Lorena da Gerência-Geral de Documentação e Informação; historiador Antônio Gaio Sobrinho, que me sugeriu a leitura do livro "Estações de minha vida" de Niva de Andrade Reis e facilitou o contato com João Pinto de Oliveira, editor de "Sabores e Saberes", boletim informativo de São Tiago e Região; Roberto Boscolo, do Museu Regional, por inúmeras ideias ventiladas durante nossas conversas sobre meu patrono e a Santa Casa; historiador Silvério Parada pela cessão de duas fotografias de seu acervo de fotografias de época; Agostinho Bolognani e Ruth Silva, funcionários da Santa Casa; Maria da Glória S. Coelho, funcionária da Biblioteca Batista Caetano de Almeida; acadêmico José Antônio de Ávila Sacramento por ter-me recomendado a leitura de um artigo de seu tio José de Alencar Ávila Carvalho, que trata, entre outras coisas, da especialização do Dr. Andrade Reis em Berlim; Prof. Evandro de Almeida Coelho, ex-Presidente da Academia de Letras são-joanense, por ter-me disponibilizado o histórico dos membros ocupantes da atual cadeira nº 28, patronímica do Dr. Andrade Reis; e, finalmente, meu agradecimento todo especial ao historiador e expert em informática Paulo Chaves Filho, que dedicou seu tempo e conhecimento à formatação do material da pesquisa, com o apoio de desenho gráfico e projeção em datashow, e a Roberto Fernandes Rodrigues, pelos seus serviços profissionais de filmagem e posterior edição do material em forma de vídeo para o YouTube.


BIBLIOGRAFIA

ALVARENGA, Luís de Melo: História da Santa Casa da Misericórdia de São João del-Rei (1783-1983), Belo Horizonte: Gráfica Formato, 2009, 443 p. (edição patrocinada pelo BDMG Cultural)

CARVALHO, J.A.A.: "Historieta sobre um perdedor (Desta vez, ele perdeu o Prêmio Nobel)" no seguinte link: http://www.patriamineira.com.br/ver_pdf.php?id_noticia=717&id=3

CINTRA, Sebastião de Oliveira: Galeria das Personalidades Notáveis de S. João del-Rei, São João del-Rei: editora não mencionada, 1994, 274 p. (edição patrocinada pela FAPEC-Fundação de Apoio à Pesquisa, Educação e Cultura)

COELHO, Ronaldo Simões: Primeira Unidade Psiquiátrica em Hospital-Geral no Brasil, São João del-Rei: Revista do Instituto Histórico e Geográfico de São João del-Rei, nº 1, 1973, p. 4-9.

NEVES, Tancredo de Almeida Neves: Requerimento, contendo Voto de Pesar pelo falecimento de Dr. Antônio Andrade Reis. Anais da Assembleia Legislativa de Minas Gerais - 1947, Volume 1, p. 292-293.

OLIVEIRA, João Pinto de: Dr. Antônio de Andrade Reis: o ágape do Saber e da Caridade, São Tiago: Sabores e Saberes-Boletim Informativo Cultural e Memorialístico de São Tiago e Região, Ano II, nº 11, agosto/2008, com correção na edição nº XIII, outubro/2008

REIS, Antônio de Andrade: Aos meus concidadãos e Accordo Politico - S. João del-Rey. O Correio, São João del-Rei, Anno I, nº 35, 7 de maio de 1927, p.1. / A Tribuna, São João del-Rei, Anno XIII, nº 850,  8 de maio de 1927, p. 1.
Pacificação partidaria. A Tribuna, São João del-Rei, Anno XIII, nº 850, 8 de maio de 1927, p. 1.
O Dr. Andrade Reis nos concede uma entrevista. O Correio, São João del-Rei, Anno IV, edição nº 176, de 9 de fevereiro de 1930, p. 1.
O Dr. Andrade Reis dirige-se ao povo de S. João d' El-Rey. O Correio, São João del-Rei, Anno IV, nº 183, de 30 de março de 1930, p. 1.
Governo fecundo. O Correio, São João del-Rei, Anno IV, nº 183, de 30 de março de 1930, p. 1-2.

REIS, Niva de Andrade: Estações de minha vida, Rio de Janeiro: Editora JS Comunicação Ltda., 2002, 195 p.

SALOMÉ, Mateus: Apoiamento ao Requerimento de Tancredo de Almeida Neves, contendo Voto de Pesar pelo falecimento de Dr. Antônio de Andrade Reis. Anais da Assembleia Legislativa de Minas Gerais - 1947, Volume 1, p. 293-294.

VIEGAS, Augusto: Notícia de São João del-Rei, Belo Horizonte: editora não mencionada, 3ª edição, 1969, 273 p.

Fotos:

1) Busto do Dr. Antônio de Andrade Reis no saguão do Hospital-Geral da Santa Casa (em reforma)
2) Corpo médico da Santa Casa, na época em que Dr. Andrade Reis era Diretor do Serviço Cirúrgico do "Pavilhão Almeida Magalhães" da Santa Casa (Acervo do historiador Silvério Parada)
3) Família de Dr. Antônio de Andrade Reis (REIS, 2002 p. 37)
4) Casa de Dr. Antônio Andrade Reis à esquerda e Santa Casa ao fundo direito (Acervo do historiador Silvério Parada)
5) O Correio de 21/05/1927: Dr. Antônio de Andrade Reis e Cel. José do Nascimento Teixeira
6) P.R.M. unido: Presidente Antônio Carlos e o chefe político Dr. Antônio Andrade Reis (baile no salão nobre da Prefeitura Municipal) (REIS, 2002 p. 32)
7) Diretoria da Santa Casa na inauguração do Pavilhão de Cirurgia (REIS, 2002 p. 32)
8) Dr. Andrade Reis aos 62 anos (REIS, 2002 p. 93)