Por Francisco José dos Santos Braga
(...) a ópera lírica, propriamente dita, começou a luzir de 1840 a 1850, com outro soprano, desta vez mulher, a célebre Candiani. Quem não a haverá citado? Netos dos que se babaram de gosto nas cadeiras e camarotes do teatro de S. Pedro, também vós a conheceis de nome, sem a terdes visto, nem provavelmente vossos pais. Já é alguma coisa viver durante meio século na memória de uma cidade, não tendo feito outra cousa mais que cantar o melancólico Bellini. (...) Machado de Assis, in crônica para a coluna A Semana do jornal Gazeta de Notícias, edição de 08/07/1894
I. Uma breve biografia ¹
Carlota AUGUSTA Angeolina CANDIANI nasceu em Milão em 3 de abril de 1820. Em dezembro de 1843, a então jovem de 23 anos, já casada com o farmacêutico Gioacchino Candiani Figlio, chega ao Rio de Janeiro como a prima-dona da Companhia Italiana de Ópera. Sua estreia ocorre em 17 de janeiro de 1844, no Teatro São Pedro de Alcântara. A Companhia apresenta a primeira montagem no Brasil da ópera “Norma” de Vicenzo Bellini (1801-1835) e Candiani interpreta o papel-título. A partir de então, a ópera italiana assume um lugar de extrema importância no cenário artístico da Corte – inclusive inspirando músicos brasileiros a iniciar o movimento da Ópera Nacional. Era o Rio de Janeiro, sem dúvida, a cidade da ópera. A ária “Casta-Diva” torna-se bastante conhecida através da interpretação de Candiani, influenciando a composição de modinhas baseadas no tema e na composição de Vicenzo Bellini.
Em março de 1844 nasce sua primeira filha, Theresa Christina Maria Candiani Figlio, batizada com o nome de sua madrinha, a Imperatriz Theresa Christina, sendo D. Pedro II também padrinho da menina. Em 1846, já se encontra separada de seu marido italiano e convive com o compositor de modinhas José de Almeida Cabral. O episódio causou inúmeros constrangimentos na época, com cartas de Gioacchino publicadas em jornais revelando publicamente os desagravos com a ex-esposa. O divórcio retirou de Augusta todos os seus bens e a guarda de sua filha. A cantora se afasta do centro da Corte e passa a cantar em outros palcos, viajando pelo interior fluminense, São Paulo, Minas Gerais, Pernambuco, onde se apresentou no importante Teatro Santa Isabel, em Recife.
Empresariada pelo seu segundo marido, Candiani atua na Companhia Dramática Cabral. Junta-se a essa Companhia a atriz Maria Augusta, sua filha com Cabral. Atuando como atriz dramática por várias cidades brasileiras, Candiani nunca deixou de cantar modinhas ou árias de seu repertório romântico que incluía principalmente obras de Gaetano Donizetti e Vicenzo Bellini. Deste modo, levava o teatro e a música da Corte para outros recantos do país. No Rio Grande do Sul, onde estabeleceu residência, trabalhou como professora de canto e é presença sempre citada quando se revê a história do teatro do século XIX nas cidades de Rio Grande, Porto Alegre e Pelotas.
Voltando ao Rio de Janeiro em 1877, Augusta Candiani passou a atuar em pequenos papéis de comédias, mágicas e operetas, trabalhando inclusive com o grande ator de comédia na época, Francisco Corrêa Vasques, e com o empresário Jacinto Heller, mantendo-se na cena artística até o ano de 1880. É esse o período em que Augusta Candiani retira-se do teatro e passa a viver em Santa Cruz, Rio de Janeiro, em casa doada pelo Imperador. Falece aos sessenta e nove anos, três meses após a proclamação da República, longe da fama e do prestígio que lhe dera o título de “Diva”.
Em março de 1844 nasce sua primeira filha, Theresa Christina Maria Candiani Figlio, batizada com o nome de sua madrinha, a Imperatriz Theresa Christina, sendo D. Pedro II também padrinho da menina. Em 1846, já se encontra separada de seu marido italiano e convive com o compositor de modinhas José de Almeida Cabral. O episódio causou inúmeros constrangimentos na época, com cartas de Gioacchino publicadas em jornais revelando publicamente os desagravos com a ex-esposa. O divórcio retirou de Augusta todos os seus bens e a guarda de sua filha. A cantora se afasta do centro da Corte e passa a cantar em outros palcos, viajando pelo interior fluminense, São Paulo, Minas Gerais, Pernambuco, onde se apresentou no importante Teatro Santa Isabel, em Recife.
Empresariada pelo seu segundo marido, Candiani atua na Companhia Dramática Cabral. Junta-se a essa Companhia a atriz Maria Augusta, sua filha com Cabral. Atuando como atriz dramática por várias cidades brasileiras, Candiani nunca deixou de cantar modinhas ou árias de seu repertório romântico que incluía principalmente obras de Gaetano Donizetti e Vicenzo Bellini. Deste modo, levava o teatro e a música da Corte para outros recantos do país. No Rio Grande do Sul, onde estabeleceu residência, trabalhou como professora de canto e é presença sempre citada quando se revê a história do teatro do século XIX nas cidades de Rio Grande, Porto Alegre e Pelotas.
Voltando ao Rio de Janeiro em 1877, Augusta Candiani passou a atuar em pequenos papéis de comédias, mágicas e operetas, trabalhando inclusive com o grande ator de comédia na época, Francisco Corrêa Vasques, e com o empresário Jacinto Heller, mantendo-se na cena artística até o ano de 1880. É esse o período em que Augusta Candiani retira-se do teatro e passa a viver em Santa Cruz, Rio de Janeiro, em casa doada pelo Imperador. Falece aos sessenta e nove anos, três meses após a proclamação da República, longe da fama e do prestígio que lhe dera o título de “Diva”.
II. Augusta Candiani em São João del-Rei (1855-1856)
Entre as memórias preservadas em arquivos são-joanenses está registrada a passagem de Augusta Candiani, a prima-dona e musa predileta de Machado de Assis, pela cidade de São João del-Rei durante a Semana Santa de 1856. Em bolorento periódico recuperou o escritor [GUERRA, 1969, 38-39], um admirável artigo de João Viegas a respeito, publicado no jornal A Reforma, edição de 15/08/1918, com a ressalva de que aquele autor, por falta de noticiário nos jornais da época, não lhe foi possível precisar em qual Companhia teatral esteve em São João del-Rei a notável cantora, mas assegurou que o certo é que ela pisou nossos palcos em 1856. (...) E tanto é assim que no livro de registro, a fls. 2, encontra-se claramente disposto o modo da regência e ordem a seguir-se nesta tradicional procissão, como veremos das seguintes linhas:
“(...) por diversos modos ouvimos repetida a referência à cantora italiana, transformada em Verônica, na solenidade maior do período quaresmal em certo ano e confessamos que, para nós, foi sempre uma lenda essa referência. Uns diziam — foi uma cantora de teatro que teve a habilidade de se impor, pelos seus ares de religiosidade que adquirira em nosso meio, outros — foi uma moça italiana que, de estadia na cidade, conseguiu relacionar-se com a sociedade sanjoanense; e, possuindo belíssima e educada voz , não tardou em colher ocasião de exibir-se em reuniões familiares, conseguindo, daí, atrair a atenção de notável musicista-compositor, que dela procurou se aproximar, esforçando-se, mais tarde, para que cantasse Verônica ² na majestosa procissão do Enterro do Senhor, confiando-lhe, para esse fim, a partitura e ensaiando-a. Isto foi, diziam-nos, pelo meado do século.
Decorreram-se anos e eis que, prosseguindo a nossa tarefa de descoberta de documentos que se relacionem com a instituição da Ordem de N. Senhora do Carmo e construção de sua igreja, deparamos um manuscrito, autêntico, que vem fazer luz sobre o caso e autorizar-nos a afirmar ser um fato — haver a célebre artista Augusta Candiani tomado as vestes piedosas da Verônica e soltado a sua magnífica voz no trajeto da respeitosa procissão do Enterro do Senhor, na Sexta-feira maior, do ano da graça de 1856, nesta cidade.
Deixa, portanto, de ser lenda a Verônica Candiani, como veremos do autógrafo que damos a seguir e que o arquivamos entre as publicações que temos feito:
"Illustríssimos Caríssimos senhores,
A abaixo assinada com o maior prazer oferece-se para, na Sexta-feira da Paixão de Nosso Senhor Jesus Cristo, acompanhar a Procissão do Enterro, e cantar, em todas as ruas em que a mesma parar, o solo da marcha fúnebre que foi expressamente composta para esse dia, e que tem de ser executada. Este oferecimento espontâneo é todo filho do meu coração, o qual consagro como um sacrifício a tão santo dia.
Deus guarde a Vossas Caridades por muitos anos,
Aos 18 de março de 1856.
Ilustríssimos e Caríssimos Srs. Prior e mais Mesários da Venerável Ordem Terceira de N. Senhora do Carmo.
(Assinado) Augusta Candiani."
Servia de Comissário da Ordem, por esse tempo, o Rev. Cônego Francisco Amâncio de Assis e a Mesa Administrativa era composta dos seguintes irmãos: José Teixeira Coelho, Prior; Comendador José Maximiano Baptista Machado, Sub-Prior; Cap. Custódio de Almeida Magalhães, Secretário; 1º Definidor, Senador Gabriel Mendes dos Santos; Tesoureiro, Antônio de Souza França; Procurador, Joaquim José Correia.”
Além dessa curiosa e histórica descoberta, há um relato prosaico de um evento profano do qual participou a soprano italiana, fornecido pelo historiador [VIEGAS, 1969, 93]. Ei-lo transcrito abaixo:
"É das crônicas desta cidade que, no ano de 1855, Candiani, em um jantar de campo, a ela oferecido por acadêmicos em férias, em meio a ruidosa alegria, em bucólico cenário tapizado de esplêndida relva, por entre frenéticos aplausos de seus admiradores, apaixonadamente cantou a ária da 'Casta Diva'." (Nota nº 47 do Capítulo III, seção “O Teatro” do seu livro)
Para o leitor desta matéria fazer ideia de quão maravilhosa deve ter sido a apresentação de Augusta Candiani aos acadêmicos em 1855, sugiro que se assista à mesma ária na voz de Maria Callas. Aqui, a magnífica Maria Callas interpreta uma ária de seu papel emblemático, a sacerdotisa druida Norma, de Bellini (ópera Norma, ato I), com a Orquestra da Ópera Nacional de Paris sob a regência de Georges Sebastian. Gravado ao vivo no Palais Garnier em 19 de dezembro de 1958, este concerto marcou a estreia da soprano na Ópera de Paris, um importante evento social para os parisienses, para o qual Callas vestiu sua mais elegante alta costura e jóias avaliadas em milhões de dólares.
III. NOTAS EXPLICATIVAS
¹ Transcrevo aqui trechos de uma breve biografia já elaborada por Andréa Carvalho Stark, excelente biógrafa de Augusta Candiani, autora do livro "Augusta Candiani, a prima-dona da época de Dom Pedro II".
² O mais correto teria sido dizer: "(...) que cantasse o recitativo da Verônica...". Costuma-se cantar em São João del-Rei, a cappela, o recitativo da Verônica composto por Manuel Dias de Oliveira (✰ 1734-5 ✞ Vila de São José, atual Tiradentes, 1813) para soprano solo. Também é conhecido como "O vos omnes para Verônica nº 5" de Manuel Dias de Oliveira.
IV. AGRADECIMENTO À
minha amada esposa Rute Pardini Braga pela formatação do registro
fotográfico utilizado neste trabalho e pela edição das imagens.
V. BIBLIOGRAFIA
GOMES, C.C. & FONSECA, M.: Estudo de Fontes que transmitem o Canto da Verônica em São João del-Rei e região, nos Anais do III Encontro de Musicologia Histórica do Campo das Vertentes, representando a UFSJ-Universidade Federal de São João del-Rei
GUERRA, A.: Pequena História de Teatro, Circo, Música e Variedades em São João del-Rei - 1717 a 1967
STARK, Andréa Carvalho: Augusta Candiani - A prima-dona da época de Dom Pedro II, publicado pela Editora Unicamp em 2025, 664 p.
VIEGAS, A.: Notícia de São João del-Rei, Belo Horizonte: Imprensa Oficial de MG, 3ª edição, 1969


