terça-feira, 11 de dezembro de 2012

É AINDA POSSÍVEL A POESIA?, discurso de Eugenio Montale, perante a Academia Sueca em 1975, quando foi agraciado com o Prêmio Nobel de Literatura


Por Francisco José dos Santos Braga

 

I - INTRODUÇÃO

No dia 12 de dezembro de 1975, o italiano Eugenio Montale (Gênova, 1896-Milão, 1981), poeta lírico, prosador, crítico literário, editor e tradutor, proferiu, perante a Academia Sueca, em Estocolmo, o seu discurso de agradecimento pelo Prêmio Nobel de Literatura que lhe foi atribuído. A justificativa, ao concedê-lo, foi "por sua poesia distintiva que, com grande sensitividade artística, tem interpretado os valores humanos sob o signo de uma perspectiva sobre a vida sem ilusões."

Em comemoração a esse famoso discurso proferido por ocasião da Cerimônia do Prêmio, ocorrido há exatamente 37 anos atrás, o Blog do Braga publica, a seu ver, em caráter inédito em língua portuguesa, esse célebre discurso que Eugenio Montale intitulou "É ainda possível a poesia?". Apesar de ter essa fala muitos trechos citados por diversos autores entre nós por considerá-lo em muitos aspectos atual, até hoje nenhum deles aceitou o desafio de oferecer a ela a tradução integral de sua lavra. ¹

Para MANDOLINI (2011?), o discurso em questão pode não possuir os caracteres da originalidade absoluta, nem, tampouco, ser considerado um exemplo fulgurante de visão do estado e do futuro da poesia. A singularidade e a atualidade do texto talvez residam no fato de que, já a partir do título, ele revela — indireta, mas claramente — a consciência de que a poesia, este "produto absolutamente inútil, mas quase nunca nocivo", tende a não oferecer resposta a tantas questões sobre a existência do homem que determinam o seu próprio manifestar-se e que, desde sempre, a animam. A poesia aspira explorar bem o que concerne ao nosso viver, mas também pode sobretudo nos colocar questões muitas vezes irrespondíveis.

Passam os anos e os decênios e as questões que Montale colocou sobre a poesia perante os Acadêmicos suecos foram e são ainda contingentes. Elas permanecem ainda, de fato, sem a perspectiva de receberem uma resposta ou interpretação inequívoca. O de que se pode mais provavelmente estar certo, porém, é que a poesia continuará a compartilhar o destino da humanidade: o seu mesmo fugaz e reiterado anseio. ²


II. Eugenio Montale:  É AINDA POSSÍVEL A POESIA?


O Prêmio Nobel foi concedido este ano pela 75ª vez, se eu não estiver mal informado. E se houver muitos cientistas e escritores que mereceram este prestigioso reconhecimento, bem menor é o número dos que estão vivendo e ainda trabalhando. Alguns deles estão presentes aqui, aos quais rendo minhas saudações e votos de boa sorte. De acordo com opinião generalizada, o trabalho dos adivinhos que não são sempre confiáveis, este ano ou nos anos podem ser considerados iminentes, o mundo inteiro (ou pelo menos aquela parte do mundo que pode ser tida como civilizada) experimentará uma virada histórica de proporções colossais. Não é obviamente uma questão de um retorno escatológico, do fim do próprio homem, mas do advento de uma nova harmonia social pressentida apenas nos vastos domínios da Utopia. Na data desse evento, o Prêmio Nobel terá uma centena de anos de idade e apenas então será possível fazer um completo balanço de quanto a Fundação Nobel e o prêmio a ela atrelada contribuíram para a formação de um novo sistema de vida comunitária, seja a do universal bem-estar ou mal-estar, mas em tal dimensão a por um fim, pelo menos por muitos séculos, à multi-secular diatribe sobre o significado da vida. Refiro-me à vida humana e não à aparição dos amino-ácidos que data de vários milhares de milhões de anos atrás, substâncias que tornaram possível a aparição do homem e talvez já continha o projeto dele. Neste caso, como é longo o passo do deus absconditus! ³ Porém, eu não pretendo desviar-me do meu assunto e me pergunto se se justifica a convicção sobre a qual se baseia o estatuto do Prêmio Nobel e essa é: que as ciências, nem todas no mesmo nível, e as obras literárias contribuíram para a disseminação e defesa de novos valores em sentido amplo "humanísticos". A resposta é certamente afirmativa. O registro dos nomes daqueles que, tendo dado algo à humanidade, receberam o cobiçado reconhecimento do Prêmio Nobel seria extenso. Mas infinitamente mais numerosa e praticamente impossível de identificar seria a legião, o exército daqueles que trabalham pela humanidade em infinitas maneiras, mesmo sem se darem conta disso e jamais pensaram em "fazer gemer os tornos", como reza um ditado italiano. Lá certamente existe um exército de almas puras, imaculadas, e eles são um obstáculo (certamente insuficiente) à difusão daquele espírito utilitário que em vários graus é impelido rumo a corrupção, crime e toda forma de violência e intolerância. Os acadêmicos de Estocolmo muitas vezes têm dito não à intolerância, ao fanatismo cruel e àquele espírito perseguidor que volta o forte contra o fraco, opressores contra os oprimidos. Isto é particularmente verdadeiro em sua escolha das obras literárias, trabalhos que podem às vezes ser odiosos, mas nunca como aquela bomba atômica que é o mais maduro fruto da eterna árvore do mal.

Não insistirei sobre esse ponto, porque não sou filósofo, nem sociólogo nem moralista.

Tenho escrito poemas e por esses me foi concedido um prêmio. Mas também tenho sido um bibliotecário, tradutor, crítico literário e musical e até desempregado por causa de reconhecida falta de lealdade a um regime que não podia amar. Alguns dias atrás uma jornalista estrangeira veio visitar-me e perguntou-me: "Como você distribuiu tantas atividades diferentes? Tantas horas à poesia, tantas horas à tradução, tantas à atividade empregatícia e tantas à vida?" Tentei explicar-lhe que se deve planejar o tempo de vida como se planeja um projeto industrial. No mundo há um grande espaço para o inútil, e realmente um dos perigos de nossa época é essa comercialização do inútil, à qual os muito jovens são particularmente sensíveis.

De qualquer forma, estou aqui porque tenho escrito poemas. Um produto completamente inútil, mas quase nunca nocivo e isto é uma das suas características de nobreza. Mas não é a única, uma vez que a poesia é uma criação ou uma doença que é absolutamente endêmica e incurável.

Estou aqui porque tenho escrito poemas: seis volumes, além de inúmeras traduções e ensaios críticos. Tem sido dito que é uma produção pequena, talvez supondo que o poeta é um produtor de mercadoria; as máquinas precisam ser utilizadas integralmente. Felizmente, poesia não é mercadoria. É um fenômeno de que sabemos muito pouco, tanto que dois filósofos tão diferentes quanto Croce, historiador e idealista, e Gilson, católico, concordam quanto à impossibilidade de se escrever uma história da poesia. De minha parte, se considero poesia como objeto, defendo que ela nasceu da necessidade de agregar um som vocal (palavra) ao martelar da primeira música tribal. Só muito mais tarde, palavra e música puderam ser escritas de alguma forma e diferenciadas. Aparece a poesia escrita, mas o parentesco comum com a música se faz sentir. A poesia tende a abrir-se em formas arquitetônicas, surgem os metros, as estrofes, as assim chamadas formas fixas. Já nas primeiras sagas dos nibelungos e depois em alguns romances, a verdadeira matéria da poesia é o som. Mas não tardará a surgir com os poetas provençais uma poesia que se dirige ao olho. Lentamente a poesia se torna visual porque pinta imagens, mas é também musical; ela reúne duas artes em uma. Naturalmente as estruturas formais constituíam uma grande parte da visibilidade poética. Depois da invenção da imprensa, a poesia fica vertical, não preenche completamente o espaço branco, é rico em novos parágrafos e repetições. Até certos vácuos têm um valor. Bem diversa é a prosa que ocupa o espaço todo e que não dá indicações de sua pronunciabilidade. E neste ponto as estruturas métricas podem ser um instrumento ideal para a arte da narrativa, isto é, para o romance. Este é o caso para aquele instrumento narrativo que é a estrofe de oito versos, forma que já é um fóssil no início do século XIX, apesar do sucesso de Don Juan, de Lord Byron (um poema que ficou semi-acabado). Mas, caminhando para o fim do século XIX, as formas fixas da poesia não mais satisfaziam o olho e o ouvido. Idêntica observação pode-se fazer para o blank verse inglês e para o endecasillabo sciolto italiano. Nesse ínterim, avança a desagregação do Naturalismo, tendo sido imediata a repercussão sobre a arte pictórica. Assim, com um longo processo, que exigiria tempo demais descrever aqui, chegou-se à conclusão de que era impossível reproduzir a realidade, os objetos reais, assim criando duplicatas inúteis; mas são expostos, in vitro ou mesmo ao natural, os objetos ou figuras dos quais Caravaggio ou Rembrandt teriam apresentado um fac-símile, uma obra de arte. Na grande mostra de Veneza, anos atrás, foi exposto o retrato de um mongolóide: era um argumento très dégoûtant, mas por que não? A arte pode justificar tudo. A expectativa era de que a gente, ao se aproximar dele, descobrisse que não se tratava de um retrato, mas de si mesmo, infeliz em carne e osso. O experimento foi interrompido manu militari, mas num contexto estritamente teórico ele era plenamente justificado. Por muitos anos, críticos que ocupam cátedras universitárias vinham pregando a necessidade absoluta da morte da arte, esperando por quem sabe qual palingênese ou ressurreição, cujos sinais não podiam ser vislumbrados.

Que conclusões podem ser tiradas de tais fatos? Evidentemente as artes, todas as artes visuais, estão ficando mais democráticas no pior sentido do termo. Arte é a produção de objetos para consumo, para serem usados e descartados à espera de um novo mundo no qual o homem seja bem sucedido em livrar-se de tudo, até da própria consciência. O exemplo que trouxe poderia ser estendido à música exclusivamente barulhenta e indiferenciada, ouvida naqueles locais onde milhões de jovens se reúnem para o horror de sua solidão. Mas por que, mais do que nunca, o homem civilizado chegou ao ponto de ter horror de si mesmo?

Obviamente prevejo as contestações. Não é preciso confundir as moléstias sociais, que talvez sempre existiram, mas foram pouco conhecidas, por que os antigos meios de comunicação não permitiam conhecer e diagnosticar a moléstia. Mas impressiona o fato de que uma espécie de milenarismo geral seja acompanhado por um conforto sempre mais difundido, o fato de que o bem-estar (lá onde existe, isto é, em limitadas áreas do planeta) tenha as lívidas feições do desespero. Sob esse quadro tão triste da atual civilização do bem-estar, até as artes tendem a misturar-se e a perder sua identidade. A comunicaçao de massa, o rádio e sobretudo a televisão, tentaram, não sem sucesso, aniquilar toda possibilidade de solidão e de reflexão. O tempo se torna mais rápido, as obras compostas há poucos anos aparecem "datadas" e a carência que o artista tem de ser ouvido, mais cedo ou mais tarde, torna-se uma necessidade espasmódica do atual, do imediato. Daí, que a arte nova do nosso tempo é o espetáculo, uma exibição não necessariamente teatral, para a qual concorrem os rudimentos de toda arte e que opera uma espécie de massagem psíquica no espectador, ouvinte ou leitor, conforme o caso. O deus ex machina deste novo acervo é o diretor. Seu objetivo não é só coordenar arranjos cênicos, mas também dar intenções a peças que não tenham nenhuma ou que tenham outras. Há uma grande esterilidade em tudo isso, uma grande falta de confiança na vida. Em tal paisagem de exibicionismo histérico, qual pode ser o lugar da mais discreta das artes, a poesia? A assim chamada poesia lírica é obra, fruto de solidão e de acumulação. Isso é ainda hoje verdadeiro, mas em casos bastante limitados. Contudo, temos casos mais numerosos, nos quais o autoproclamado poeta se mantém atualizado. A poesia se faz então acústica e visual. As palavras respingam em todas as direções, como a explosão de uma granada, não havendo um verdadeiro significado, mas um terremoto verbal com muitos epicentros. Não sendo necessário decifrá-la, pode-se recorrer à ajuda do psicanalista em muitos casos. Prevalecendo o aspecto visual, a poesia é até traduzível, e isso é um novo fenômdno na história da estética. Isso não significa que os novos poetas sejam esquizóides. Alguns deles podem escrever prosa classicamente tradicional e pseudo-versos vazios de qualquer sentido. Há também poesia escrita para ser urrada numa praça diante de uma multidão entusiasta. Isso ocorre especialmente em países onde regimes autoritários estão em vigor. E tais atletas do vocalismo poético não são sempre destituídos de talento. Citarei um caso e me desculpo se é também um caso que me diz respeito pessoalmente. Mas o fato, se verdadeiro, demonstra que já coexistem dois tipos de poesia: uma, para consumo imediato e morre assim que é expressa, enquanto que a outra pode dormir tranquila, porque um dia despertará, se tiver força para fazê-lo.

A verdadeira poesia é semelhante a certos quadros cujo proprietário se ignora e que apenas alguns iniciados conhecem. Contudo, a poesia não vive somente em livros ou em antologias escolares. O poeta não conhece e muitas vezes nunca conhecerá seu verdadeiro receptor. Eu lhes darei meu pequeno exemplo pessoal. Nos arquivos dos jornais italianos se acham obituários de homens que ainda estão vivos e ativos. Esses artigos são chamados de "crocodilos". Há uns anos atrás, no Corriere della Sera, eu descobri meu "crocodilo", assinado por Taulero Zulberti, crítico, tradutor e poliglota. Ele afirma que Mayakovsky, tendo lido um ou mais de meus poemas traduzidos em russo, disse: "Eis um poeta de que gosto. Gostaria de poder lê-lo em italiano." O episódio não é improvável. Meus primeiros versos começaram a circular em 1925 e Mayakovsky (que viajou à América do Norte e a outros lugares) cometeu suicídio em 1930.

Mayakovsky era um poeta com um pantógrafo, com um megafone. Se ele pronunciou tais palavras, meus poemas tinham encontrado, por caminhos tortos e imprevisíveis, seu receptor.

Não se creia, contudo, que eu tenha uma ideia solipsística. A ideia de escrever para os assim chamados poucos felizes nunca foi minha. Na realidade, a arte é sempre para todos e para ninguém. Mas o que permanece imprevisível é seu verdadeiro produtor, o seu receptor. A arte-espetáculo, a arte de massa, a arte que quer produzir uma espécie de mensagem físico-psíquica sobre um usuário hipotético tem infinitas estradas diante de si, porque a população do mundo está em contínuo crescimento. Mas o seu limite é o vácuo absoluto. É possível moldar e exibir um par de chinelos (eu próprio vi os meus nesta condição); no entanto, uma paisagem, um lago ou qualquer espetáculo natural grandioso não pode ser exposto sob lente.

A poesia lírica certamente rompeu seus limites. Há poesia até na prosa, em toda a prosa grandiosa que não é meramente utilitária ou didática: existem poetas que escrevem em prosa ou pelo menos em prosa mais ou menos aparente; milhões de poetas escrevem versos que não têm ligação com a poesia. Mas isso significa pouco ou nada. O mundo está em crescimento, ninguém pode dizer o que o futuro será. Mas não é crível que a cultura de massa pelo seu caráter efêmero e frágil, não produzirá, através de necessárias repercussões, uma cultura que seja tanto defesa quanto reflexão. Que possamos  todos colaborar para este futuro. Mas a vida do homem é breve e a vida do mundo pode ser quase infinitamente longa.

Eu tinha pensado em dar este título a meu curto discurso: "Será a poesia capaz de sobreviver no universo de comunicação de massa?". É o que muitos se perguntam, mas, após refletir bem, a resposta não pode ser senão afirmativa. Se por poesia for entendida poesia beletrística, é claro que a produção do mundo continuará a crescer desmesuradamente. Se, ao invés, nos limitarmos àquela poesia que recusa com horror o término da produção, aquela que surge quase por milagre e parece estofar toda uma época e toda uma situação linguística e cultural, então é necessário dizer que não é possível nenhuma morte para a poesia.

Frequentemente tem sido observado que a repercussão da linguagem poética sobre a linguagem em prosa pode ser considerada um decisivo golpe de chicote. Estranhamente, a Divina Comédia de Dante não produziu uma prosa daquela altura criativa ou fez isso depois de séculos. Mas, caso se estude a prosa francesa antes e depois da escola de Ronsard, a Plêiade, será observado que a prosa francesa perdeu aquela suavidade pela qual era julgada tão inferior às línguas clássicas e consumou um verdadeiro salto de maturidade. O efeito foi curioso. A Plêiade não produz coleções de poemas homogêneos como os do dolce stil nuovo italiano (que é certamente uma de suas fontes), mas dá de vez em quando verdadeiras "peças de antiquário" que poderiam ser colocadas num possível museu imaginário da poesia. Trata-se de um gosto que poderia ser definido como neo-grego e que, séculos mais tarde, o Parnaso tentará em vão igualar. Isso prova que a grandiosa poesia lírica pode morrer, renascer, morrer de novo, mas sempre permanecerá uma das mais excelentes criações do espírito humano. Façamos juntos uma releitura de um poema de Joachim du Bellay . Este poeta, nascido em 1522 e que faleceu na idade de trinta e cinco anos, era o sobrinho de um cardeal com quem viveu em Roma por vários anos, reportando profundo desgosto pela corrupção da corte pontifícia. Du Bellay escreveu muito, imitando, mais ou menos felizmente, os poetas da tradição petrarquista. Mas a poesia dele (talvez escrita em Roma), inspirada pelos versos latinos de Navagero , que confirma sua fama, é fruto de uma dolorosa nostalgia pelo interior do doce Loire que ele tinha abandonado. De Sainte-Beuve até Walter Pater, que dedicou a Joachim uma memorável descrição, a breve Odelette des vanneurs de blé  entrou no repertório da poesia mundial. Tentemos fazer uma releitura, se isso for possível, porque se trata de um poema em que o olho tem seu papel.

A vous troppe legere,
qui d' aele passagere
par le monde volez,
et d' un sifflant murmure
l' ombrageuse verdure
doulcement esbranlez,

j' offre ces violettes,
ces lis et ces fleurettes,
et ces roses icy,
ces vermeillettes roses,
tout freschement écloses,
et ces oeilletz aussi.

De vostre doulce halaine
eventez ceste plaine,
eventez ce sejour:
ce pendant que j' ahanne
a mon blé, que je vanne
a la chaleur du jour.

Não sei se este poema Odelette foi escrito em Roma como interlúdio no despacho de incômodas práticas de ofício. Deve a Pater sua atual sobrevivência. À distância de séculos, uma poesia pode achar o seu intérprete.

Mas agora para concluir, devo responder à questão que deu um título a este breve discurso. Na atual civilização consumista que vê novas nações e novas línguas aparecerem na história, na civilização do homem-robô, qual pode ser o destino da poesia? Pode haver muitas respostas. Poesia é a arte que está tecnicamente ao alcance de todos: um pedaço de papel e um lápis e alguém está pronto. Apenas num segundo momento surgem os problemas de publicação e distribuição. 

O incêndio da biblioteca de Alexandria destruiu três quartos da literatura grega. Hoje nem mesmo um incêndio universal poderia fazer desaparecer a produção poética torrencial de nosso tempo. Mas é exatamente uma questão de produção, isto é, de produtos artesanais que estão sujeitos às leis do gosto e da moda. Mais do que provável, é certo que o jardim das Musas pode ser devastado por grandes tespestades. Mas me parece igualmente certo que muito papel impresso e muitos livros de poesia devem resistir ao tempo.

A questão é diferente se se referir à reabilitação de um antigo texto poético, sua restauração contemporânea, sua abertura a novas interpretações. E, finalmente, sempre se pode perguntar dentro de quais limites alguém se move ao falar de poesia. Muito da poesia atual é expressa em prosa. Muitos dos versos de hoje são prosa e prosa ruim. A arte narrativa, o romance, de Murasaki a Proust, produziu grandes obras de poesia. E o teatro? Muitas histórias literárias nem mesmo o discutem, também extrapolando alguns gênios que formam um capítulo à parte. Além disso, como se pode explicar o fato de que a antiga poesia chinesa sobreviva a todas as traduções, enquanto a poesia europeia está acorrentada à sua língua original? Talvez o fenômeno possa ser explicado pelo fato de que acreditamos que estejamos lendo Po Chü-i e, em vez disso, estamos lendo o maravilhoso falsificador Arthur Waley? Seria possível multiplicar as questões com o único resultado que, não apenas a poesia, mas todo o mundo da expressão artística ou o que se autoproclama como tal, entrou em uma crise que está estreitamente vinculada à condição humana, à nossa existência como seres humanos, à nossa certeza ou ilusão de acreditarmos que somos seres privilegiados, os únicos que acreditam que são os mestres de seu destino e os depositários de um destino que nenhuma outra criatura pode reivindicar. É inútil então perguntar-se qual será o destino das artes. É como perguntar-se alguém se o homem de amanhã, talvez de um amanhã muito distante, será capaz de resolver as trágicas contradições nas quais tem estado se debatendo desde o primeiro dia da Criação (e se ainda for possível falar de tal dia, que pode ser uma época exterminada).



III. NOTAS  DO TRADUTOR


¹  Eu mesmo já citei trechos do célebre discurso de Eugenio Montale em, pelo menos, duas matérias postadas neste Blog do Braga, cujo endereço eletrônico é o seguinte:

http://bragamusician.blogspot.com.br/2012/05/homenagem-ao-poeta-polones-janusz.html


²  MANDOLINI, D. : http://www.arcipelagoitaca.it/Download/Arcipelago_Itaca_6.pdf
Nesse mesmo endereço eletrônico, encontra-se o discurso de Montale na língua italiana.

Igualmente, o discurso pode ser encontrado em italiano e na sua versão inglesa, no seguinte endereço:
http://www.nobelprize.org/nobel_prizes/literature/laureates/1975/montale-lecture.html?print=1
Também descobri na Internet uma versão do discurso de Montale em holandês, a saber: http://krabat.menneske.dk/_forfatter/Er_digtningen_stadig_mulig.html
Ainda existe uma tradução para o tcheco, disponível no seguinte endereço eletrônico:
http://www.advojka.cz/archiv/2006/28/je-poezie-jeste-mozna

³ O conceito teológico do "deus escondido", utilizado por Tomás de Aquino (1225-1274), refere-se a uma divindade cuja existência não é prontamente conhecível pelos humanos, a não ser por contemplação e através do exame das ações divinas. Ele sugere um deus que conscientemente  deixou este mundo para se esconder em outro lugar.  
Por sua vez, há outro conceito teológico, do "deus ocioso" (deus otiosus), usado para descrever um "deus criador", que principalmente se retira do mundo e não se envolve mais com a sua operação do dia a dia, sugerindo que deus se cansou do envolvimento neste mundo.

Joachim du Bellay nasceu no castelo da Termelière, na paróquia de Liré. Sua família era da pequena nobreza. Órfão cedo, educado por um irmão que negligenciou sua instrução, de modo que Du Bellay não possuía a erudição de Pierre de Ronsard. Segundo a lenda, esses dois poetas se encontraram numa hotelaria perto de Poitiers. Eles se tornaram alunos de Jean Dorat, humanista e professor no colégio de Coqueret, em Paris. Por volta da Páscoa de 1549, Du Bellay lançou o manifesto da Pléiade, sua "Deffence e illustration de la langue françoyse" dedicado a seu tio, cardeal Du Bellay, e publicou, ao mesmo tempo, sua primeira coleção poética de Cinquante sonnetz à la louange de l' Olive. Em 1550, saiu a segunda edição da Olive, com mais 65 sonetos. Depois eguiu seu parente na Itália, o cardeal Jean du Bellay, encarregado de missão junto à Santa Sé. Logo, seu entusiasmo de humanista se transformou em desilusão e em nostalgia da França. São estes sentimentos pessoais que lhe inspiraram suas coleções italianas: Antiquitez de RomeJeux RustiquesRegrets, todas publicadas em 1558. De volta a Paris em 1557, acabrunhado por preocupações familiares e contestações judiciais. Sua surdez se agravou e ele morreu de um ataque presumivelmente aos 37 anos. Data de 1559 seu Le Poëte Courtisan, espécie de testamento poético onde satiriza aqueles para quem a literatura só é um jogo frívolo ou um meio de se dar bem.

Os Lusus de Andrea Navagero (em latim Andreas Naugerius) (Veneza, 1483-França, 1529), coleção em latim publicada pela primeira vez em Veneza (1530), foram coletados postumamente por amigos admiradores, vindo a constituir um nicho na literatura europeia e encontrando lugar privilegiado nas antologias neolatinas. Os Lusus foram parcialmente traduzidos para o francês vernacular por Du Bellay em Jeux Rustiques (1558). O Lusus nº II de Andrea Navagero deu origem a D' un Vanneur de Blé aux Vents de Du Bellay, conforme abaixo:

Vota ad auras

Por Andrea Navagero

Auræ, quæ levibus percurritis æra pennis,
Et strepitis blando per nemora alta sono,
Serta dat hæc vobis, vobis hæc rusticus Idmon
Spargit odorato plena canistra croco.
Vos lenite æstum et paleas seiungite inanes,
Dum medio fruges ventilat ille die.

O nome verdadeiro do poema de Du Bellay é D' un vanneur de blé aux vents e faz parte de sua coletânea "italiana" chamada Jeux Rustiques, publicada em 1558. Os estudiosos de nomes próprios reportam o termo francês Odelette à sua origem grega, no sentido de "pequena cantora", usado para nome de bebês do sexo feminino. Consta que em francês o nome Odelette utilizado para bebês femininos significa "pequena primavera".
Posso citar a Odelette XXIV (1554), de Pierre Ronsard, explorando o tema da primavera envolto com o do amor:

Cependant que ce beau mois dure,
Mignonne, allon sur la verdure,
Ne laisson perdre en vain le temps;
L' age glissant qui ne s' arreste,
Mesland le poil de notre teste,
S' enfuit ainsi que le printemps.


Donq, cependant que nostre vie
Et le temps d' aimer nos convie,
Aimon, moissonnon nos desirs,
Passon l' amour de veine en veine;
Incontinent la mort prochaine
Viendra desrober nos plaisirs. 

A seguir, ofereço minha tradução literal para o belo poema de Du Bellay:

De um Peneirador de Trigo aos Ventos

Por Du Bellay

A ti, tropa ligeira
Com asa passageira
Pelo mundo esvoaças,
E com murmúrio doce
A folhagem umbrosa
Docemente agitas,

Of'reço essas violetas,
Lírios e florezinhas,
E aqui estas rosas,
Rosas avermelhadas,
Muito recém-floridas,
E também estes cravos.

Com o teu suave sopro
Ventilas esta planície,
Ao redor desta casa:
Enquanto eu me canso,
Vou peneirando o trigo
Sob o calor do dia.

O mais conhecido arranjo musical para esse célebre poema de Du Bellay foi composto por um inglês, talvez o mais francófilo dos compositores ingleses: Sir Lennox Randal Francis Berkeley (1903-1989), que em 1926, ocasião em que atendeu a uma recomendação de Ravel de ir a Paris para estudar com Nadia Boulanger até 1932, publicou um ciclo de canções francesas intitulado 3 Early Songs, aí incluída a sua versão musical do referido poema, em arranjo para tenor e piano. As canções de Lennox Berkeley inspiradas pela sua estada na França demonstram o gosto típico dos franceses e uma intensidade espiritual ditada por sua devoção ao Catolicismo. A performance do tenor James Gilchrist, acompanhado pela pianista Anna Tilbrook, pode ser parcialmente ouvida, clicando o seguinte link: http://www.prestoclassical.co.uk/r/Chandos/CHAN10528#listen

Outros compositores fizeram outros arranjos para o mesmo poema, tais como: Robert Herberigs (1886-1974): arranjo para coro misto a cappella; Rudolf Leopold Koumans (1929-), em arranjo para soprano, clarineta e piano; Emanuel Moór (1863-1931), em arranjo para voz e piano; e Raymond Moulaert (1875-1962), em arranjo para voz média desacompanhada.