quarta-feira, 19 de julho de 2017

PENTOZÁLI, DANÇA TRADICIONAL DE CRETA


Por Francisco José dos Santos Braga


 
Plasma um recinto de dança ainda o fabro de membros robustos
mui semelhante ao que Dédalo em Cnossos de vastas campinas
fez em louvor de Ariadne formosa de tranças venustas.
Nesse recinto mancebos e virgens de dote copioso
alegremente dançavam seguras as mãos pelos punhos.
Elas traziam vestidos de linho; os rapazes com túnicas
mui bem tecidas folgavam em óleo brilhante embebidas.
Belas grinaldas as fontes das virgens enfeitam; os moços
de ouro as espadas ostentam pendentes de bálteos de prata.
Ora eles todos à volta giravam com pés agilíssimos
tal como a roda do oleiro quando este sentado a experimenta
dando-lhe impulso com as mãos para ver se se move a contento
ora correndo formavam fileiras e a par se meneavam.
Muitas pessoas à volta o bailado admirável contemplam
alegremente. Cantava entre todos o aedo divino
ao som da cítara ao tempo em que dois saltadores a um tempo
cabriolavam seguindo o compasso no meio da turba.
 (Ilíada, Livro XVIII, 590-607 – 
Tradução de Carlos Alberto Nunes)


 
I.  INTRODUÇÃO 


Costumes e tradições no continente e nas ilhas gregas são um importante aspecto da cultura grega. A dança sempre desempenhou um papel importante na vida dos Gregos, sendo praticada por uma infinidade de motivos, desde expressar sentimentos e celebrar festas religiosas, preparar-se para a guerra e comemorar vitórias bélicas, até garantir a fertilidade, superar a depressão e curar doenças físicas. Dança-se em tavernas, noivados, casamentos, festas familiares e nas tradicionais celebrações religiosas (panigyreis) dos santos patronos dos inúmeros vilarejos gregos. Platão e Sócrates concordavam em que todo homem culto deve saber dançar com desenvoltura, já que este exercício mantinha o corpo forte e preparado para cumprir seu dever no campo de batalha.

Inicialmente, para fins didáticos, é possível fazer uma classificação das danças, subdividindo-as em folclóricas ou tradicionais (paradosiaká), que convivem ao lado de danças populares (laïká), sendo a viva expressão da vida cotidiana. As primeiras são transmitidas de geração em geração e, desta forma, mantém-se a identidade nacional; por causa do show de variedades, são divididas em várias categorias. Também distinguem-se das dos demais países pelo entusiasmo com que são praticadas hoje, como o eram antigamente. Como são cerca de 4.000 danças tradicionais que vêm de todas as regiões da Grécia, tanto do continente quanto das 3.000 ilhas gregas, seria praticamente impossível relacioná-las todas aqui. Mas podemos citar alguns exemplos mais conhecidos: hasápiko, zeibékiko, rebétiko (o blues grego), nisiótika, syrtós ¹, syrtáki, kalamatianós, tsámikos, zeibékiko, tsiftetéli, ballo, pentozáli, pidichtós, maleviziótis, etc. Cada dança tem uma história diferente, o que faz com que sejam muito ricas em ritmos, sons e passos. Praticamente cada área ou vila na Grécia tem suas próprias danças que variam em enorme profusão, destacando-se as que provêm da ilha de Creta (kritiká), mais gravadas e estudadas por musicólogos e etnomusicólogos.

A música grega é, sem dúvida, uma das mais ricas do mundo. A infinidade de diferentes ritmos e a paixão do povo grego pela música e pela dança é contagiante. O som da música grega corresponde muito bem à geografia do país, sendo uma mistura de ritmos ocidentais e orientais traduzidos por instrumentos típicos e milenares, a saber: a lira (que pode também ser tocada com arco de violino), o violino e o alaúde (este normalmente utilizado para acompanhar a lira ou eventualmente para solo). A real música cretense não inclui o bouzoúki. Outros instrumentos comuns incluem o mandolin, oud, sourávli ou thiabóli (tipo de flauta), gaita de foles, violão clássico, bulgári e davul ou daoúli (tambor). 

É impressionante o número de compositores, cantores, cantoras e conjuntos que existem na Grécia. Alguns são considerados dentre os melhores compositores europeus, como Theodorákis, Hatzidákis, Markópoulos, Yanni, etc. 

Devido aos 5 milênios de história e, principalmente, ao período helenístico, podemos notar influência das músicas e danças gregas em diversas outras culturas. Da Grécia antiga provém a dança circular de mãos dadas, onde os participantes dançavam em volta de árvores ou fogueiras fazendo oferendas em homenagem aos deuses. Um ritmo interessante, ainda carente de maiores estudos, é o de ballo e de syrtós, presente em quase todas as culturas, inclusive na brasileira, onde é representado pelas cirandas dançadas no Nordeste.
 


II.  SOBRE A DANÇA PENTOZÁLI



O pentozáli (το πεντοζάλι, em grego, pronuncia-se pendozáli) é uma dança tradicional insular, cretense, difundida por toda a Grécia, mas marca registrada de Creta.

O pentozáli é dançado por homens e mulheres com o tempo 2/4. É acompanhado por muitas melodias, os conhecidos pentozália. O nome "pentozáli" simboliza o quinto zálo (passo, em português), como é dita e considerada a quinta esperança seguida dos Cretenses de libertarem Creta dos Turcos - e não porque tenha cinco passos, como erroneamente têm dito alguns. 

É claramente uma dança guerreira, constituída por uma coreografia vigorosa, com movimentos de altos saltos e admite muita improvisação, manifestando a revolta, a bravura, o heroísmo e a esperança. Inicia-se a um passo moderado e acelera progressivamente. Os dançarinos seguram um ao outro pelos ombros e formam um círculo incompleto, que gira no sentido anti-horário muito devagar. A expectativa é que o primeiro dançarino improvise, prestando-se a acrobacia; neste caso, ele e o segundo dançarino seguram as mãos, em vez de ombros, e o segundo dançarino fica parado e rígido, para que o primeiro dançarino tenha uma base estável para executar. Assim que o primeiro dançarino termina a sua parte, sai de forma e se encaminha para trás da formação, cedendo seu lugar ao segundo (dançarino), e assim por diante. As mulheres também executam a dança, mas seus passos são mais contidos porque seu vestido não permite altos saltos.

O tocador da lira é quem normalmente dirige o fluxo da dança; ele improvisa para assinalar que o primeiro dançarino o faça também, e retoma a melodia principal quando chegar a hora de o dançarino ceder a sua vez para o próximo dançar. 

Fonte: https://el.wikipedia.org/wiki/Πεντοζάλης

Um exemplo do que foi dito acima a respeito do pentozáli instrumental pode ser apreciado a seguir na performance de um grupo de danças cretenses dirigido por Adónis Martsákis: 

https://youtu.be/qrzJcbKXmhc (pelo transcurso do 72º aniversário da Batalha de Creta que foi comemorado no Teatro Dóra Strátou)

Outro exemplo foi um programa produzido pela ET3 dedicado ao pentozáli. Dele participaram não só um grande dançarino, mas também vários entrevistados, que afirmaram ser o pentozáli uma dança guerreira. Apesar das entrevistas serem em grego, vale a pena assistir ao vídeo, pois é possível sentir no olhar de todos os entrevistados que participaram da gravação o amor pela dança.

https://youtu.be/Pv8kHiWTxEQ


III.   O  PENTOZÁLI  INSTRUMENTAL (SEM DANÇA)


Como o pentozáli é música tipicamente instrumental, a melodia principal é normalmente tocada pela lira cretense com acompanhamento do alaúde, tocado não de forma melódica, mas percussiva.
 
Eis agora um exemplo de canção tradicional: pentozáli com rima e canto acompanhado por um grupo instrumental. Inicialmente, a letra na minha tradução, depois no original grego e, por fim, vídeos da apresentação do mesmo canto com acompanhamento instrumental em 3 situações: a primeira, no Teatro de Herodes Ático de Atenas; a segunda, no programa televisivo "À nossa saúde, turma!" da Alpha TV, destacando Vasílis Skoulás tocando sua lira cretense; e, por fim, no mesmo programa televisivo Vasílis Skoulás e Mákos Tsachourídis tocam lira cretense e lira pôntica, respectivamente.



Este mês

Este mês, o mês seguinte
o mês seguinte, o próximo mês
(refrão pelo coro)
uma águia saiu a caçar 
a caçar e a rodopiar
(refrão)

Não caçou lebres e veados
Só caçou dois olhos negros
(refrão)
Olhos negros meus que amo
e como passais sem mim?
(refrão)

Olhos negros meus, lábios de carmim
sai, minha pequena, à janela
(refrão)
para veres o sol e a lua
para veres o jovem que te desposará
(refrão)

Estou tricotando uma fita e não tenho tempo livre
não me convém bater papo
(refrão)
Malditos sejam tanto a fita
quanto todo o tricotar, e todo o tecer
(refrão)


Τούτο το μήνα

Τούτο το μήνα τον από πάνω
τον από πάνω τον παραπάνω
(επανάληψη)
αϊτός εβγήκε να κυνηγήσει
να κυνηγήσει και να γυρίσει
(επανάληψη)
Δεν εκυνήγα λαγούς και 'λάφια
μόν’ εκυνήγα δυο μαύρα μάτια
(επανάληψη)
μαύρα μου μάτια κι αγαπημένα
και πως περνάτε χωρίς εμένα
(επανάληψη)
Μαύρα μου μάτια, κόκκινα χείλη
έβγα μικρή μου στο παραθύρι
(επανάληψη)
να δεις τον ήλιο και το φεγγάρι
να δεις το νέο που θα σε πάρει
(επανάληψη)
Γαϊτάνι πλέκω και δεν αδειάζω
δεν μου βολεί να κουβεντιάζω
(επανάληψη)
Aνάθεμά το και το γαϊτάνι
κι απού το πλέκει, κι απού το 'φάνει
(επανάληψη)

https://youtu.be/252xsZW6huk (Vasílis Skoulás toca lira no Teatro de Herodes Ático, de Atenas)

https://www.youtube.com/watch?v=V_D-1sOxOoY (Na primeira parte de 6 minutos do vídeo, Vasílis Skoulás e Mákos Tsachourídis tocam lira cretense e lira pôntica, respectivamente)



IV.  BREVE NOTÍCIA SOBRE A MÚSICA DE CRETA



Por pertinente, apresento aqui uma breve introdução à música de Creta. A música de Creta refere-se a formas tradicionais da música folclórica grega muito espalhadas por toda a ilha de Creta. A música tradicional cretense inclui música instrumental (geralmente também acompanhando o canto), canções a cappella conhecidas como rizítika (cantos monofônicos de tradição oral e de origem pastoril, que se destacam pelo uso da escala pentatônica e por seus versos pentadecassilábicos, às vezes com motivos relacionados com justiça vingativa ou a vendetta), canções urbanas (tabachaniótika), bem como outras canções miscelâneas e gêneros folclóricos (acalantos, lamentos rituais, etc.).

Na categoria instrumental, uma grande parte da música cretense inclui o uso de instrumentos (e geralmente o canto, também). São mais comuns os seguintes instrumentos: a lira (que pode também ser tocada com arco de violino), o violino e o alaúde (este normalmente utilizado para acompanhar a lira ou eventualmente para solo). Outros instrumentos comuns incluem o mandolin, oud, sourávli ou thiambóli (tipo de flauta), gaita de foles, violão clássico, bulgári e davul ou daoúli (tambor).

Como grande parte da música folclórica grega, a música cretense está intimamente relacionada à dança, e as formas musicais mais comuns correspondem diretamente às danças cretenses que podem acompanhá-las, tais como o syrtós, o pentozáli, o siganós, o pidichtós, o maleviziótis e a soústa. Como melodias para violino em várias outras tradições, a música cretense de dança frequentemente faz uso de melodias repetidas ou parelhas (ou dísticos) repetidas de melodias, cuja seleção e concatenação são improvisadas na apresentação. Outra construção musical comum na música cretense é o taksími, um solo instrumental (por exemplo, no violino, na lira ou no alaúde)  ritmicamente livre, improvisado numa escala ou modo particular precedendo a canção propriamente da dança.

Grande parte da música cretense é improvisada, especialmente em termos de sua letra. Tipicamente, a letra da música instrumental cretense toma a forma de "MANTINÁDA" (pron. mandináda), um poema que é constituído frequentemente de dois versos (ou dístico) de 15 sílabas com rima (ou também 4 hemistíquios que não rimam necessariamente). Constitui um meio de expressão popular instintiva dentro das canções de Creta. A mantináda cretense distingue-se pela expressão particular, a concisão da frase e reflete os sentimentos, o pensamento e a vida do povo cretense. É uma herança cultural de todos os Cretenses e não são propriedade exclusiva de ninguém.

Cada verso da mantináda é dividido em 2 hemistíquios, sendo o primeiro de 8 sílabas e o segundo, de 7, e separados por uma cesura. Por isso, às vezes quando mantinádas são transcritas, elas são quebradas em 4 versos mais curtos num esquema rítmico de ABCB, diferentemente da forma tradicional de parelha (ou dístico). O ritmo métrico das mantinádas geralmente cai nos oito iambos sucessivos seguidos por uma sílaba fraca, a forma conhecida em grego como verso político, aparentado com o fourteener ou com a ballad stanza (ou estrofe de balada popular). Pode haver leves variações na métrica. Por exemplo,

Τα Κρητικά τα χώματα         όπου κι ανέ τα σκάψεις
αίμα παλικαριών θα βρείς        κόκαλλα θα ξεθάψεις.

Trad. O solo cretense, onde quer que o caves,
encontrarás o sangue de bravos homens, não desenterrarás ossos.

Mantinádas são escritas sobre uma variedade de assuntos. Muitas focam no amor, empregam imaginário pastoral e usam o grego idiomático de Creta. Inúmeros folcloristas desde o século XII publicaram grandes coleções de mantinádas.² Desde meados do século XX, alguns compositores prolíficos têm publicado suas mantinádas, bem como outros livros de poesia ³.

Fonte: trechos selecionados de https://en.wikipedia.org/wiki/Music_of_Crete



V.  NOTAS  EXPLICATIVAS 



¹  Recomendo a leitura de meu post "Não entres em combate com o Grego", um autêntico ensaio sobre a dança tradicional cretense "SYRTÓS".
Cf. in http://bragamusician.blogspot.com.br/2017/06/nao-entres-em-combate-com-o-grego.html

² Recomendo a leitura de um trabalho moderno feito por um músico, etnomusicólogo, neo-helenista suíço, Samuel Baud-Bovy (Genève, 1906-Genève,1986). Trata-se de um material de uma pesquisa etnomusicológica de Baud-Bovy com a colaboração de Aglaïa Ayoutantí e Sra. V. Mazarakí sob os cuidados editoriais de Lamprós Liabas:

BAUD-BOVY, Samuel: Registro musical em Creta 1953-1954. Atenas: Centro de Estudos Micro-asiáticos, Arquivos Musicais de Folclore Mélpos Merlier, 2006

Idem: Canções populares de Creta ocidental (Música impressa), recolhidas com a colaboração de Aglaïa Ayoutantí e Sra. V. Mazarakí, transcritas e publicadas  com prefácio e notas por Baud-Bovy. Genève: Minkoff, 1972. Descrição material: In-fol., XII-312 pp., il. + disco. Coleção Arquivos Musicais de Folclore Mélpos Merlier.


³  BALL, Eric L.: "Onde está o Povo? A Mantináda cretense como Literatura posta", Jornal de Pesquisa do Folclore, nº 39, pp. 147-172.