sábado, 24 de janeiro de 2015

PADRE GODINHO NO FOLCLORE POLÍTICO


Por Francisco José dos Santos Braga *




I.  INTRODUÇÃO

Padre Godinho (☆ Carmo da Cachoeira, 1920 ✞ São Paulo, 1992)

Sebastião Nery talvez seja o autor que melhor se tenha especializado nos meandros do poder, além de bem humorado contador de histórias, tão boas que chegaram a ser adaptadas para o teatro. Nery já foi vereador, deputado estadual e percorreu o Brasil e o mundo, sempre cobrindo política e eleições.

Como jornalista veterano, ele conviveu com toda sorte de homens públicos, mormente os grandes e já lendários José Américo de Almeida, José Maria Alkmin e Juscelino Kubitscheck, bem como os generais da ditadura militar.

Sabe-se que, conhecedor como ninguém do lado B da política, Nery logo se interessou por contá-lo ao público. O início foi por necessidade. Ele próprio relata: 
"Médici, AI-5 e uma censura burra. Era 12 de setembro de 1971, aniversário de Juscelino. Escrevi sobre ele a minha coluna na Tribuna da Imprensa e entreguei ao censor, de plantão na redação. Leu, me chamou: 
– Escreva outra coisa, que isso não sai. Juscelino, nem a morte da mãe. 
– Então deixe o buraco em branco.
– Com sinal de censura o jornal não sai. 
Voltei para a máquina de escrever, escrevi: "Alkmin, Sete Histórias de Um Gênio da Raça". Uma delas tinha Juscelino no meio. Passou. No dia seguinte, meu saudoso amigo Abelardo Jurema me mostrou o caminho das pedras:
– Drible a censura contando o folclore político.
Estava ali o título. Toda vez que a censura engrossava, na Tribuna, no Politika, no Correio da Manhã, na Última Hora, no meu programa na TV Bandeirantes, eu contava histórias políticas e metia os cassados proibidos." Nery comentou: "Menino de fazenda, cedo aprendi que, quando a estrada não dá caminho, toma-se o atalho. É o jeito de dizer, pela boca dos outros, o tornado indizível. O humor é uma linguagem absolutamente séria, necessária, eterna."

Inicialmente foram quatro volumes, publicados de 1972 a 1984, constituindo sucesso absoluto, vendendo várias edições cada um. Depois, Nery entendeu que devia voltar a pesquisar, colecionando novas histórias para um quinto volume. Atualmente, o volume completo do "Folclore Político" de Nery coleciona 1.950 histórias ilustradas e contém os cinco volumes. E o próprio Nery conclui: "Agora, reúno os cinco em um livro só. 1.950 histórias. Cada Estado com seu capítulo, seus líderes e sabedorias. De cada um, todas as histórias juntas. Uma aquarela política do país, de norte a sul. Metade folclore, metade história."

De José Maria Alkmin: "Essas histórias do folclore político a gente nunca sabe quais são as verdadeiras e quais as inventadas. O povo vai contando e elas vão se modificando, se reproduzindo. Como os cogumelos. Quem é que sabe quem é a mãe do cogumelo?"

Escolhi as mais interessantes histórias de Nery a respeito de Pe. Godinho, em geral como assessor de Jânio da Silva Quadros e que foi, para este, "o amigo certo nas horas incertas".


II.  PADRE GODINHO NO "FOLCLORE POLÍTICO"


1) Na primeira história, que poderia chamar-se "Funeral da Muriçoca", ou simplesmente "Muriçoca" pela importância atribuída à personagem, o jornalista baiano Sebastião Nery, com formação mineira, responsável pelos melhores momentos de humor do jornalismo político no Brasil, em programa da TV Câmara, relatou ao vivo, de forma jocosa, fato protagonizado pelo ex-Presidente da República Jânio da Silva Quadros, quando em 1970, já cassado pela ditadura militar, residia em um casarão na capital paulista. O episódio narrado serve para ilustrar a estreita ligação afetiva entre o ser humano e seu animal de estimação.

História extraída do "Folclore Político" nº 454, p. 158:
Rio – Chegamos cedo, dez da manhã. José Aparecido de Oliveira, o poeta Gerardo Mello Mourão, eu. Era um belo domingo de sol em São Paulo, na Rua Santo Amaro, 5. Jânio Quadros veio abrir o portão, feliz, sorridente. Cortava a grama com um carrinho anavalhado.

Era 1970, a ditadura militar corria feroz. Todo mês, quando em São Paulo, Aparecido arrebanhava alguns amigos para almoçarmos com Jânio. Fomos para a varanda. Foram chegando o padre Godinho, Roberto Cardoso Alves, Luís Carlos Santos. Esperávamos Oscar Pedroso Horta. Tomávamos uísque ou vinho. Jânio contava coisas, escandia as sílabas:

– O Nery, que foi quase bispo, sabe que vinho é tinto. Não há vinho branco. É uma bebida dos homens. A bebida de Deus é o vinho tinto. Já viram missa com vinho branco? Os porres da Bíblia, de Noé, de Davi, foram todos com vinho tinto, sim. E o que Cristo bebeu na Última Ceia.

JÂNIO

Fomos para o almoço. A mesa, farta e colorida. Já estávamos no conhaque e no charuto, quando dona Eloá chega perto de Jânio e diz-lhe alguma coisa ao ouvido. Jânio crespa as mãos, revolve os olhos, passa os dedos retorcidos pelo cabelo e geme fundo:

– Não pode ser! Meu Deus, não pode ser!

As lágrimas desabam pelo rosto, ele se levanta e grita:

– Muriçoca! Muriçoca morreu!

Eu tinha pensado que era a filha Tutu. Perplexos, levantamo-nos todos. Ele andando na frente, nós atrás. No fim do jardim, deitada na grama, morta, uma cachorrinha branca, meio amarelada. Jânio senta-se no chão, pega-a nos braços, aperta contra o peito, beija-a em soluços, chorando convulsivamente.

A RAINHA

Dona Eloá tenta levantá-lo, a voz trêmula:

– Jânio, temos outros cães no jardim. Ela foi, os outros ficaram.

– Cães, Eloá! Cães! Cães há muitos, eu o sei. Mas a Muriçoca era única. E não porque a rainha Elizabeth me deu. Quando me cassaram, quando o algoz fardado caiu sobre mim, todos me abandonaram, todos Eloá, até tu. E tu também, Aparecido. Até tu. E só a Muriçoca me acompanhou, na solidão e na dor.

Dona Eloá olhou para nós, desolada:

– Não diga isso, Jânio. Você sabe que não é verdade. Aqui estão seus amigos. Aqui está o Aparecido.

– Amigos, Eloá, amigos. A Muriçoca era um pedaço da minha alma.

APARECIDO

Ele ali no chão, soluçando, a cachorrinha no colo, e nós abestalhados sem saber o que fazer. Ele revirava os olhos e arquejava:

– Deixem-me só. Deixem-me com minha dor.

Aparecido resolveu acabar com aquilo:

– Presidente, vamos para o gabinete conversar. Os empregados enterrarão a Muriçoca, aqui mesmo, debaixo das árvores.

Ele deu um salto, ficou de pé, a cachorrinha nos braços, com o pescoço caído, como uma boneca de Chaplin:

– Eles não, Zé. Eu. Sepultá-la-ei eu mesmo, com minhas mãos e minhas lágrimas. No vértice do jardim. Ficará eterna na minha saudade, sob uma lápide de bronze. Prometi-lhe, cumprirei.

A COVA

E saiu andando a passos largos, os olhos tortos, os cabelos desgrenhados, para o centro do jardim, beijando e apertando a cachorrinha contra o peito. E nós atrás. Uma tensa e ridícula procissão medieval, como em um filme de Buñuel na Catalunha. No meio do gramado, Jânio parou, olhou para os quatro cantos, deu um passo, bateu o pé no chão:

– Será aqui, no vértice. Ela sempre comigo, até meu último dia.

Um rapaz trouxe uma picareta, Jânio entregou a Muriçoca a dona Eloá e começou a cavar, aflito. Vermelho, em lágrimas, cavava e suava. Aparecido reclamou:

– Presidente, não faça isso. Acabou de almoçar. Dê-me, eu cavo.

Pegou a picareta e passou a cavar. Tinha posto safenas um mês antes. Sobrou para mim. Tomei a picareta da mão dele e fui cavando. Jânio, de pé, a cachorrinha de novo nos braços, dava ordens:

– Por favor, Nery, fundo, mais fundo, bem fundo!

GODINHO

Robertão e Luís Carlos Santos tinham saído para buscar cal, chegaram. A cova estava pronta. Dona Eloá tinha pedido flores ao empregado. Jânio, depois de aflitos beijos lacrimejados, pôs Muriçoca na cova, disse uma série de coisas incompreensíveis, chamou padre Godinho:

– Padre, uma prece última, por favor. Ela era um ser humano. E dos poucos que conheci em minha vida. Faça-lhe a derradeira prece.

Padre Godinho, entre a liturgia e o amigo enlouquecido, olhou para mim e começou a recitar em seu latim perfeito um poema de Horácio. Jânio olhava para o céu, procurando a alma de Muriçoca na tarde fria que caía.

Voltei lá outro dia. No vértice do jardim, uma lápide de bronze cobria Muriçoca. Jânio enganou São Paulo e o Brasil. Não enganou Muriçoca.


2) História extraída da p. 134 do "Folclore Político" ¹:
Dia 13 de abril de 1964, o padre Godinho, deputado da UDN de São Paulo (depois cassado), foi à Rua Nascimento e Silva, Ipanema, no Rio, onde morava o general Castelo Branco, que acabava de ser indicado pelo Congresso para a Presidência da República. Ninguém podia entrar, e o padre Godinho ficou esperando na porta. De repente, descem algumas pessoas, o padre se aproxima:
– Como é? Cadê o homem? Esse homem não desce?
– Que homem?
– O Castelo.
– Sou eu.
Padre Godinho cumprimentou-o, foi saindo de fininho, pegou no braço de um amigo, apontou para o Castelo:
– Só isso?
Era. Imaginem se fosse mais.


3) O episódio a seguir, que bem poderia ser intitulado "Chamem o Lacerda!" para ensinar nossos políticos atuais a ter um comportamento ético, protagonizado por Carlos Lacerda, governador da Guanabara, em visita ao Líbano, ilustra bem a postura de um político sério, para o qual "à mulher de César não lhe basta ser honesta; tem que parecer honesta!"

História extraída do "Folclore Político" nº 683, p. 227: 
Em 65, Lacerda foi ao Japão, à Índia e ao Líbano, em visita oficial. No Líbano, esperando-o, os deputados Jorge Curi (UDN do Paraná, depois cassado) e padre Godinho (UDN de São Paulo, também cassado).
À noite, foram levados ao cassino Beirute, maravilhoso, show ao nível do Lido de Paris. Depois do show, a roleta. Padre Godinho ficou de fora da banca, não por virtude, porque sorte não é pecado, mas com medo da traição das fichas.
Lacerda e Jorge começaram a jogar. Jorge, também libanês, zangado com as fichas conterrâneas, não acertava uma. Lacerda, naquele audacioso rompante de sempre, pegava todas as fichas e arriscava numa parada só. Deu, recebeu, arriscou tudo de novo. Deu novamente. Reuniu tudo e fez a terceira parada total. Acertou na cabeça. Jorge e o padre estavam extasiados:
– Carlos, você fez três plenos. É uma coisa dificílima. Ganhou uma fortuna.
O crupiê recolheu as fichas todas numa bandeja enorme. Lacerda olhou aquele montão de fichas:
– Jorge, quanto será que vale isso?
– Cinquenta mil libras libanesas. Entre 25 e 30 mil dólares.
Lacerda parou um instante, chamou o crupiê:
– Tudo isso é seu. A gorjeta.
O crupiê segurou a bandeja, trêmulo, quase desmaiou. Jorge e o padre ficaram desesperados:
– Carlos, isso é uma loucura. Gorjeta de 30 mil dólares?
– Vamos embora. Esse tipo de sorte não existe. Isso é o do governo. Eles estão querendo é comprar o governador da Guanabara.
E voltou para o hotel.


4) História extraída do "Folclore Político" nº 404, p. 139:
Aimorés, Minas, 60, campanha de Jânio Quadros para a presidência da República. Grande comício na cidade: Jânio, Magalhães Pinto, deputado Florisvaldo Dias (UDN). Aimorés era terra do famoso coronel Bimbim, dr. Memeco (Américo Martins da Costa) e do deputado Álvaro Sales, todos chefes do PSD.
Tempo de eleição, as coisas esquentavam. Naquela tarde, esquentaram também. Começou o comício, José Aparecido de Oliveira e o padre Godinho desceram do palanque e foram procurar uma barbearia. Estavam fazendo a barba, do outro lado da praça, ouvem um tiroteio. A coisa começara. Padre Godinho levanta-se da cadeira do barbeiro. Aparecido segura-o:
– Não faça isso. Não vá, padre. Continuam atirando.
– Vou sim. É meu dever de sacerdote. Tenho que dar extrema-unção ao Jânio.
Não precisou.


III.  NOTAS EXPLICATIVAS


¹  Cf. in http://www.revistagestor.com.br/edicoes/revista_ed_29/files/assets/basic-html/page134.html



IV.  BIBLIOGRAFIA


NERY, Sebastião: FOLCLORE POLÍTICO: 1950 Histórias - 5 Volumes em 1, São Paulo: Geração Editorial, 2002, 659 p.




* O autor é escritor, compositor e pianista, membro do Instituto Histórico e Geográfico de São João del-Rei, onde ocupa a cadeira nº 22 patronímica do escritor e poeta são-joanense Lincoln de Souza, e da Academia de Letras de São João del-Rei, onde ocupa a cadeira 28 patronímica de Dr. Antônio de Andrade Reis. Outras instituições de que participa como membro: IHG de Campanha, Academia Valenciana de Letras e Instituto Cultural Visconde do Rio Preto (Valença-RJ), Academia Divinopolitana de Letras, IHG-DF, Academia Taguatinguense de Letras, Academia Barbacenense de Letras, Academia Formiguense de Letras e Colégio Brasileiro de Genealogia (Rio de Janeiro-RJ).