quarta-feira, 20 de março de 2019

RECUPERE SEU LATIM > > PARTE 4


Por Francisco José dos Santos Braga
 

Em 1967, o tradutor Belchior Cornélio da Silva (seu nome original) fez a tradução do ensaio Revelação e Tradição (Offenbarung und Überlieferung, publicado por Verlag Herder, Freiburg, 1965), da dupla de teólogos alemães Karl Rahner e Joseph Ratzinger. Este último seria eleito Papa com o nome de Bento XVI, na sucessão de João Paulo II.

Em 1982, o mesmo tradutor com o nome de Silva Bélkior, surpreendeu com outra publicação, desta vez do português para o latim, com Carmina Drummondiana - a tradução de 52 poemas de seu conterrâneo de Minas Gerais, o poeta Carlos Drummond de Andrade.

Sinto inveja de Silva Bélkior por sua capacidade de verter do português para o latim poemas seletos de autores. Embora eu contrarie São Tomás de Aquino, que na Quaestio 36 (1-91) da Segunda Suma Teológica trata da inveja, considerando que a inveja sob nenhuma hipótese seja virtuosa e boa, esta inveja o é. Até S. Tomás, no seu texto, considera que a inveja não seja um vício capital, um pecado capital, a não ser no caso que leve o insensato ou o tolo à morte (Job, 5.2: Vere stultum interficit iracundia et parvulum occidit invidia). Neste caso particular em que a inveja mata alguém, é que S. Tomás é taxativo: "Nihil autem occidit spiritualiter nisi peccatum mortale. Ergo invidia est peccatum mortale." (Porém nada mata espiritualmente a não ser o pecado mortal. Por isso, a inveja é pecado mortal.) Não estou falando daquela inveja que procura destruir a virtude e o mérito alheio (Gloriae et virtutis invidia est comes), mas desta vontade de poder igualmente contribuir para alguns amigos poetas que gostariam de ver seus poemas traduzidos para o latim e poder atendê-los da mesma forma que Silva Bélkior o fez em relação aos versos de Drummond, que foram excelentemente traduzidos, como se verá.

Diante desses poemas traduzidos para o latim, poderá alguém do contra questionar: Qual é a utilidade de traduzir esses poemas modernistas para o latim? Por que não adotar, na tradução, a métrica do latim clássico, baseada na quantidade silábica?

“Latim clássico” ou “literário” é a norma literária, altamente estilizada, que compreende o período que vai de 81 a. C. a 14 d.C., momento de seu maior esplendor e fruto de prolongado amadurecimento e elaboração. Mas nenhum dos autores que o utilizaram na sua escrita, falavam-no em casa ou entre amigos. O latim literário era  uma estilização do sermo urbanus, latim falado ou língua coloquial das classes cultas, com o qual convivia. No nosso caso, a tradução dos versos de Drummond para o latim pode ser considerada uma utilização desse sermo urbanus pelo tradutor.

As línguas românicas (incluindo o português) são, diacronicamente, o latim de hoje. Provenientes do latim falado, o que elas conseguem exprimir pode, em princípio e sem prejuízo para essas línguas oriundas do latim, ser trasladado para a língua-mãe que, como se sabe, ainda sobrevive entre as filhas: "Non enim ita exhausta est mater, ut quod possunt filiae, ipsa non possit", cuja tradução pode ser "De fato não está assim exaurida a mãe, de modo que o que podem as filhas, ela própria não possa." (SPRINGHETTI, Aemilius. Lexicon linguisticae et philologiae. Roma, Univ. Gregoriana, 1962, p. VIII)

Permito-me reproduzir aqui o Apêndice nº 10 do "Carmina Drummondiana" na p. 141 do livro:

VOLTA AO ESTUDO DO LATIM

Enaltecendo a educação utilitária, pode Bertrand Russell ter proclamado que o mundo novo se construirá sem latim e sem grego, sem Dante, sem Shakespeare, sem Bach e sem Mozart. Preferimos aquecer-lhe o frio pensamento filosófico com a voz e a sensibilidade dos poetas:
"É singularmente adequado (o Latim pós-clássico) para exprimir a paixão tal como a compreende e sente o mundo poético moderno" (CHARLES BAUDELAIRE. Les fleurs du mal. Paris, Crès, 1917, p. 370).
"Arduíno Bolívar, o teu latim / não foi, não foi perdido para mim" (CARLOS DRUMMOND DE ANDRADE. Poesia completa e prosa. Rio, Aguilar, 1973, p. 409).
E, num mundo empobrecido de sonhos, ressoe este apelo de pedagogos portugueses e brasileiros que não descreem das vantagens do restabelecimento do estudo do latim nos currículos escolares: 
"Os pedagogistas com razão concordam em que o exercício das letras latinas aviva o engenho do estudante, o que resulta da natureza da língua, essencialmente lógica, e de terem de se revestir de trajo moderno pensamentos que concernem a modos de existir muito diferentes dos atuais. Tudo isto obriga a refletir e a raciocinar: ora, reflexão e raciocínio são ginástica do espírito, o qual com ela se aperfeiçoa" (LEITE DE VASCONCELOS. Da importância do Latim. Lisboa, Clássica Edit., 1947, p. XII).
"A ação dos que entre nós sacrificaram e relegaram o ensino da língua latina no curso secundário não produziu os resultados por eles pretendidos, porque nenhuma melhoria foi obtida na formação cultural da nossa juventude. O nível de aproveitamento demonstrado pelos candidatos aos exames vestibulares baixou sensivelmente" (VANDICK L. DA NÓBREGA, Língua latina: imagem de Roma na América do Sul. Rio, 1967, p. 46).
"Como a obrigatoriedade do ensino profissionalizante no ensino do 2º grau está à beira da morte, que tal se as horas ociosas fossem preenchidas com aulas de Latim? Desta forma, os alunos teriam a oportunidade de praticar a tão necessária ginástica mental, já que a estrutura da língua latina obriga o aluno a pensar, a desenvolver o raciocínio lógico, atributos esses tão pouco desenvolvidos nos dias atuais" (SÉRGIO PONTES, in: JORNAL DO BRASIL, 22/03/1982).

Deixemos por ora as divagações e vamos ao que interessa. Eis alguns dos mais conhecidos poemas do itabirano trasladados para o latim de Silva Bélkior:

MEDIA IN VIA

Media in via erat lapis
erat lapis media in via
erat lapis
media in via erat lapis.

Non ero unquam immemor illius eventus
pervivi tam mihi in retinis defatigatis.
Non ero unquam immemor quod media in via
erat lapis
erat lapis media in via
media in via erat lapis.

NO MEIO DO CAMINHO

No meio do caminho tinha uma pedra
tinha uma pedra no meio do caminho
tinha uma pedra
no meio do caminho tinha uma pedra.

Nunca me esquecerei desse acontecimento
na vida de minhas retinas tão fatigadas.
Nunca me esquecerei que no meio do caminho
tinha uma pedra
tinha uma pedra no meio do caminho
no meio do caminho tinha uma pedra.


IOSEPH

Et quid nunc, Ioseph?
Festum est finitum,
lumen est exstinctum,
cuncta evanuit turba,
nox est frigefacta,
et quid nunc, Ioseph?
et quid nunc, et tu?
qui nomen non habes,
qui alios derides,
qui versus componis,
qui amas, reclamas?
et quid nunc, Ioseph?

Femina non tibi,
verbum neque tibi,
nec blanditiae tibi,
bibere non vales,
fumum nec spirare,
nec sputare quidem,
nox est frigefacta,
dies tuus non venit,
currus tuus non venit,
risus tuus non venit,
utopia non venit,
omnia et sunt finita,
omnia et vanuere,
omnia et mucuere,
et quid nunc, Ioseph?

Et quid nunc, Ioseph?
tuus sermo dulcis,
tuae febris hora,
tua gula et ieiunium,
tua bibliotheca,
tua auri fodina,
tua vestis vitrea,
tua contradictio,
tuum odium - et quid nunc?

Clavi manu arrepta,
vis ut pateat ianua,
non est tamen ianua;
vis in mari mori,
mare est tamen siccum;
vis in Minas ire,
Minas non est amplius.
Ioseph, et quid nunc?

Tu si vocitares,
tu si gemeres,
tu si personares
Vindobonae melos,
tu si obdormires,
tu si fessus fieres,
tu si mortem obires...
Sed non moreris,
tu es durus, Ioseph!

Solus in caligine
velut bellua in silva,
sine theogonia,
nudo sine muro,
tete cui fulcires,
sine equo nigro
qui quam citior fugiat,
tu incedis, Ioseph!
Ioseph, quonam gentium?

JOSÉ

E agora, José?
A festa acabou,
a luz apagou,
o povo sumiu,
a noite esfriou,
e agora, José?
e agora, você?
você que é sem nome,
que zomba dos outros,
você que faz versos,
que ama, protesta?
e agora, José?

Está sem mulher,
está sem discurso,
está sem carinho,
já não pode beber,
já não pode fumar,
cuspir já não pode,
a noite esfriou,
o dia não veio,
o bonde não veio,
o riso não veio,
não veio a utopia
e tudo acabou
e tudo fugiu
e tudo mofou,
e agora, José?

E agora, José?
sua doce palavra,
seu instante de febre,
sua gula e jejum,
sua biblioteca,
sua lavra de ouro,
seu terno de vidro,
sua incoerência,
seu ódio - e agora?

Com a chave na mão
quer abrir a porta,
não existe porta;
quer morrer no mar,
mas o mar secou;
quer ir para Minas,
Minas não há mais.
José, e agora?

Se você gritasse,
se você gemesse,
se você tocasse
a valsa vienense,
se você dormisse,
se você cansasse,
se você morresse...
Mas você não morre,
você é duro, José!

Sozinho no escuro
qual bicho-do-mato,
sem teogonia,
sem parede nua
para se encostar,
sem cavalo preto
que fuja a galope,
você marcha, José!
José, para onde?


BIS GEMINA CHOREA

Iohannes ardebat Theresiam quae ardebat Raymundum
qui ardebat Mariam quae ardebat Ioachim qui ardebat Lilim
quae ardebat neminem.
Iohannes ad Status Foederatos fecit iter, Theresia ad claustrum,
Raymundus fatali obiit casu, Maria vitam vixit virgo,
Ioachim propria se interfecit manu atque Lilim sibi iunxit J. Pinto
                                                                            ⎡Fernandes
qui fabellam non ingressus fuerat.


QUADRILHA

João amava Teresa que amava Raimundo
que amava Maria que amava Joaquim que amava Lili
que não amava ninguém.
João foi para os Estados Unidos, Teresa para o convento,
Raimundo morreu de desastre, Maria ficou para tia,
Joaquim suicidou-se e Lili casou com J. Pinto Fernandes
que não tinha entrado na história.


CANTIO AMICA

Ipse cantionem paro
mea in qua se mater videat,
sese matres videant omnes,
duo ut oculi et quae loquatur.

Quamdam gradior per viam
plures percurrentem patrias.
Etsi me non videant, video
salutoque diu amicos.

Arcanum distribuo
ut qui amat vel subridet.
Modo quam aptissimo
bina sese iungunt oscula.

Vita mea, vitae nostrae
unum condunt adamanta.
Verba didici pernova
pulchriora et alia reddidi.

Ipse cantionem paro
homines quae expergefaciat
puerosque captet somno.

CANÇÃO AMIGA

Eu preparo uma canção
em que minha mãe se reconheça,
todas as mães se reconheçam,
e que fale como dois olhos.

Caminho por uma rua
que passa em muitos países.
Se não me veem, eu vejo
e saúdo velhos amigos.

Eu distribuo um segredo
como quem ama ou sorri.
No jeito mais natural
dois carinhos se procuram.

Minha vida, nossas vidas
formam um só diamante.
Aprendi novas palavras
e tornei outras mais belas.

Eu preparo uma canção
que faça acordar os homens
e adormecer as crianças.


DICTA ARCANO AB ITABIRANO

Itabirae vixi annos aliquot.
Itabirae praesertim natus sum.
Propterea tristis sum, superbus: ferreus.
Centesimae nonaginta partes ferri in viis.
Centesimae octaginta partes ferri in animis.
Et oblivio haec cuiuscumque in vita est porositatis
                                                          ⎡communicationisve.

Amandi voluntas, qua a labore impedior,
Itabira venit, vacuis e suis noctibus, sine feminis, sine finibus.

Patiendi et assuetudo, qua tantopere delector,
dulcis est itabirana hereditas.

Attuli Itabira tibi nunc daturus munera diversa:
sanctum istum Benedictum opus veteris statuarii Alfredo Duval;
pellem illam tigridis, super spondam stratam in exedrio;
hanc superbiam, caput hoc demissum...

Aurum habui, habui armenta, ruri fundos habui.
Hodie officialis sum civilis.
Itabira est vix imago photographica ad parietem.
Dolor tamen quantus!

CONFIDÊNCIA DO ITABIRANO

Alguns anos vivi em Itabira.
Principalmente nasci em Itabira.
Por isso sou triste, orgulhoso: de ferro.
Noventa por cento de ferro nas calçadas.
Oitenta por cento de ferro nas almas.
E esse alheamento do que na vida é porosidade e comunicação.

A vontade de amar, que me paralisa o trabalho,
vem de Itabira, de suas noites brancas, sem mulheres e sem horizonte.

E o hábito de sofrer, que tanto me diverte,
é doce herança italiana.

De Itabira trouxe prendas diversas que ora te ofereço:
este São Benedito do velho santeiro Alfredo Duval;
este couro de anta, estendido no sofá da sala de visitas;
este orgulho, esta cabeça baixa...

Tive ouro, tive gado, tive fazendas.
Hoje sou funcionário público.
Itabira é apenas uma fotografia na parede.
Mas como dói!

Fonte: BÉLKIOR, Silva & DRUMMOND, Carlos de Andrade: CARMINA DRUMMONDIANA, edição comemorativa dos 80 anos do poeta, Ed. Universidade de Brasília/Salamandra consultoria Editorial S/A, 1982, 143 p.