sábado, 20 de maio de 2017

ÁRIA DO CACHIMBO NO "PEQUENO LIVRO PARA ANNA MAGDALENA BACH" DE 1725


Por Francisco José dos Santos Braga


Dedico este artigo a meu saudoso primo Eduardo José Braga de Oliveira, o "Eduardinho" (19/02/1932-23/04/2005) e a  meu irmão Carlos Fernando dos Santos Braga, notórios fumantes de cachimbo, ambos são-joanenses.


MAGRITTE, René: A Traição das Imagens (Isto não é um cachimbo), 1928. Inspirador de FOUCAULT, Michel: "Ceci n' est pas une pipe: Sur Magritte", 1973, Éd. Fata Morgana, (Scholies).

I.  VERDADEIRO AUTOR DA ÁRIA DO CACHIMBO


Os estudiosos da vida e obra de Johann Sebastian Bach (Eisenach, 21/03/1685 - Leipzig, 28/07/1750) asseguram que ele escreveu 3 coletâneas ou "pequenos livros" para cravo (Clavier-Büchlein), a saber:
1) o primeiro "pequeno livro", começado em 1720 e dedicado a seu filho mais velho Wilhelm Friedemann Bach (1710-1784), continha, principalmente, as invenções a duas e três vozes;
2) o segundo, datado de 1722, já composto em homenagem à sua segunda esposa Anna Magdalena Bach (com quem havia casado em 03/12/1721), continha principalmente as cinco primeiras Suítes Francesas (BWV 812-16), assim como alguns fragmentos e pequenas peças insignificantes. Embora o manuscrito original esteja hoje muito incompleto e em mau estado, esse "pequeno livro" de 1722 (o 1º escrito para Anna Magdalena) ainda nos dá uma boa ideia do gênero de música que Bach apreciava ver executada em sua própria casa;
3) o terceiro, datado de 1725 (que corresponde ao 2º "pequeno livro" dedicado a Anna Magdalena), cujo manuscrito original está quase completo e em bom estado, com 67 folhas longas, teve ali inseridas pelo próprio Bach as Partitas nº III e VI (BWV 827, 830), deixando que as restantes folhas desse "pequeno livro" fossem preenchidas pela esposa e para que fizesse delas o que lhe aprouvesse.

[GEIRINGER, 1966, 279] anota sobre esse último "pequeno livro" de 1725: 
"(...) O livro contém um certo número de pequenas danças (minuetos, polonaises, marchas, uma musette), as quais não foram compostas por Sebastian e podem nem mesmo refletir o gosto de Magdalena, que as incluiu no livro. Essas representantes agradáveis e tecnicamente muito simples do 'style galant' destinavam-se provavelmente às pequenas mãos de Emanuel, então com 11 anos, e das crianças menores. Também eram perfeitamente adequadas para uso nas lições de dança que, de acordo com os costumes da época, todos os rapazes e moças tinham que tomar. (...)"

No 2º "pequeno livro" dedicado a Anna Magdalena, datado de 1725, encontra-se uma ária que aparece em duas versões:
1) a primeira, BWV 515 em ré menor, cuja melodia é atribuída a Gottfried Heinrich Bach ¹ pelos "experts" em Bach. 
2) Há também outra versão transposta para uma quarta acima da primeira, em sol menor (ária para soprano e contínuo BWV 515ª), com baixo realizado por Johann Sebastian Bach, onde se lê a seguinte anotação: "copiada e transposta por Anna Magdalena", acompanhada de texto completo (6 estrofes), copiado pela mesma Anna Magdalena ², do poema "So oft ich meine Tobackspfeife", também conhecido por "Erbauliche Gedanken eines Tobacksrauchers" (Edificantes Pensamentos de um Fumante de Cachimbo), de um autor desconhecido. É possível que Gottfried Heinrich Bach seja também o autor da conhecida ária. ³

Uma excelente demonstração do frescor genial de Gottfried Heinrich nos é dada por uma gravação da ária transcrita para sol menor (para soprano e contínuo BWV 515ª), tendo Olivier Baumont no cravo e Christine Plubeau na viola da gamba, ambos acompanhando a soprano Anne Magouët
Link: https://youtu.be/RhFIGwHnGGg

Outra gravação antológica da mesma ária tem o cravista Ton Koopman acompanhando o barítono Klaus Mertens. 
Link:  https://youtu.be/fkgKdVzexsI

Vejamos então o poema completo de "Edificantes Pensamentos de um Fumante de Cachimbo" ou "So oft ich meine Tobackspfeife": 

So oft ich meine Tobackspfeife,
Mit gutem Knaster angefüllt,
Zur Lust und Zeitvertreib ergreife,
So gibt sie mir ein Trauerbild -
Und füget diese Lehre bei,
Dass ich derselben ähnlich sei. (bis)

Die Pfeife stammt von Ton und Erde,
Auch ich bin gleichfalls draus gemacht.
Auch ich muss einst zur Erde werden -
Sie fällt und bricht, eh ihr's gedacht,
Mir oftmals in der Hand entzwei,
Mein Schicksal ist auch einerlei. (bis)

Die Pfeife pflegt man nicht zu färben,
Sie bleibet weiß. Also der Schluss,
Dass ich auch dermaleinst im Sterben
Dem Leibe nach erblassen muss.
Im Grabe wird der Körper auch
So schwarz wie sie nach langem Brauch. (bis)

Wenn nun die Pfeife angezündet,
So sieht man, wie im Augenblick
Der Rauch in freier Luft verschwindet,
Nichts als die Asche bleibt zurück.
So wird des Menschen Ruhm verzehrt
Und dessen Leib in Staub verkehrt. (bis)

Wie oft geschieht's nicht bei dem Rauchen,
Dass, wenn der Stopfer nicht zur Hand,
Man pflegt den Finger zu gebrauchen.
Dann denk ich, wenn ich mich verbrannt:
O, macht die Kohle solche Pein,
Wie heiss mag erst die Hölle sein? (bis)

Ich kann bei so gestalten Sachen
Mir bei dem Toback jederzeit
Erbauliche Gedanken machen.
Drum schmauch ich voll Zufriedenheit
Zu Land, zu Wasser und zu Haus
Mein Pfeifchen stets in Andacht aus. (bis)

Cf. in http://www.klavier-noten.com/bach/anna-magdalena/tobak-aria-515.htm

Abaixo ofereço uma tradução livre do poema alemão para o português:

Sempre que eu pego no meu cachimbo, 
Fornido com bom fumo,
Para prazer e passatempo,
Assim ele me dá uma triste figura - 
E leva à conclusão de que
Sou parecido com ele. (bis)

O cachimbo foi feito de argila e terra
E também fui eu.
Um dia eu serei terra novamente -
Ele frequentemente me cai da mão
E se quebra antes que eu o saiba,
Idêntico é o meu destino. (bis)

Não agrada a ninguém colori-lo.
Então fica branco. Também concluo
Que ao chamado da morte eu preciso ouvir,
Meu corpo também ficará todo pálido,
Debaixo da relva se tornará preto
Como o cachimbo, depois de longo uso. (bis)

Quando o cachimbo está aceso,
Percebe-se como, neste momento,
A fumaça se desvanece no ar livre,
Nada restando senão cinza.
Assim também a fama do homem arderá
Até que pó seu corpo vire. (bis)

Quão frequente acontece quando alguém fuma,
Que o calcador não esteja disponível,
E agrade-lhe usar seu dedo.
Então me imagino queimando:
Se o carvão causa tanta dor,
Quão quente deve só ser o inferno! (bis)

Assim sobre meu cachimbo com essas ideias formadas
A todo instante me permito
Fazer meditações edificantes.
Por isso, cheio de contentamento eu pito
Em terra, no mar e em casa
Com devoção, meu cachimbinho sempre. (bis) 



II.  NOTAS  EXPLICATIVAS 



¹  Gottfried Heinrich Bach (Leipzig, 26/02/1724-Naumburg, 12/02/1763) foi o primeiro filho do casamento de Bach com sua segunda esposa, Anna Magdalena. Nasceu em Leipzig, para onde seus pais tinham se mudado um ano antes de seu nascimento. 

Em uma idade precoce Gottfried Heinrich mostrou grande habilidade no cravo, mas conforme cresceu, passou a ficar com uma deficiência mental, o que levou seu irmão Carl Philipp Emanuel Bach, também conhecido pelas iniciais C.P.E. Bach (1714-1788), a dizer que ele mostrava "um grande gênio, que no entanto não conseguiu desenvolver-se" ("War ein großes Genie, welches aber nicht entwickelt wurde"). Contudo, Anna Magdalena teve a alegria de ter também filhos altamente dotados. Em 1732 deu à luz Johann Christoph Friedrich (1732-1795) e, três anos depois, Johann Christian (1735-1782), ambos destinados a serem músicos eminentes.

A partir da morte de seu pai em 1750, Gottfried Heinrich passou a morar com sua irmã mais jovem, Elisabeth Juliane Friederica e seu marido Johann Christoph Altnikol, músico que residia e trabalhava em Naumburg, a cerca de 60 km sudoeste de Leipzig. Com a morte de seu cunhado em 1759, Gottfried Heinrich permaneceu em Naumburg em companhia de sua irmã, até que ocorreu sua própria morte poucos anos depois (1763).

A sua autoria da melodia da ária "So oft ich meine Tobackspfeife" é confirmada por Dr. Georg von Dadelsen, da Universidade de Tübingen, no seu livro (Bemerkungen zur Handschrift Johann Sebastian Bachs, seiner Familie und seines Kreises. Hohner Trossingen 1957, p. 19) e no epílogo do livro J. S. Bach: Klavierbüchlein für Anna Magdalena Bach 1725. Faksimile der Originalhandschrift. Bärenreiter, Kassel u. a. 1986, p. 6f.

Eis a melodia da ária citada da autoria de Gottfried Heinrich, com baixo realizado por seu pai J. S. Bach:


Observe que o equívoco de se atribuir a Johann Sebastian Bach a autoria dessa ária não é exclusividade da Caux Music Publishing (2012), conforme a imagem da partitura acima. Antes, é algo mais ou menos geral: quase todas as edições o cometem. A tendência dessas edições é considerar quase tudo existente no "pequeno livro" de 1725 como da autoria de J.S. Bach, o que é contestado pelos "experts". Muitas peças que aparecem no "Pequeno Livro para Anna Magdalena Bach", atribuídas a J.S. Bach, hoje os experts colocam em dúvida ou já descobriram seus reais compositores. No Brasil equivocadamente a Editora Arthur Napoleão Ltda. não só publicou e divulgou uma coletânea com 20 peças com o título "Pequeno Livro de Anna Magdalena Bach", como incorreu num segundo erro quando considerou que todas as "20 peças fáceis selecionadas" para piano eram  da lavra de J. S. Bach. Refiro-me aqui à partitura de 1960, que ainda possuo em bom estado.
Por mais decepcionante que possa ser para nós, que tocamos esse "pequeno livro", distribuído por todo o País, convencidos de que todas aquelas peças eram da autoria de Bach, hoje já está estabelecido que algumas peças, atribuídas anteriormente a Bach, na realidade são da autoria de Christian Petzold e outros. 
Índice do "Pequeno Livro de Anna Magdalena Bach", editado pela Editora Arthur Napoleão Ltda na década de 1960

Tomemos, por exemplo, as primeiras 5 peças da coletânea divulgada no Brasil como da autoria de J. S. Bach desde 1960, conforme a imagem postada acima. O minueto em sol maior que abre a coletânea e o minueto em sol menor que vem em 3º lugar no índice são da autoria de Petzold. O minueto que vem em 2º lugar ainda não teve a autoria de Bach colocada em dúvida. Não foi o caso do minueto em fá maior que aparece em 4º lugar no índice, nem do minueto em sol maior em 5º lugar no índice, os quais os "experts" ainda estão relutantes em atribuir a J. S. Bach. Observemos apenas neste exemplo citado que, das cinco primeiras peças do "pequeno livro", apenas o minueto que aparece em 2º lugar no índice é considerado ter sido realmente composto por Bach. 
Finalmente, também a única e delicada musette (peça nº 18 no índice acima, constante da coletânea) hoje tem a autoria de Bach questionada pelos mesmos "experts".
Cf. in https://en.wikipedia.org/wiki/Notebook_for_Anna_Magdalena_Bach


²   Anna Magdalena Wilcke era filha de um trompetista (Johann Caspar Wilcke), que tinha feito carreira nas cortes de Zeitz e Weißenfels. Ela possuía excelente voz de soprano e trabalhava na corte de Cöthen desde o outono de 1721. Bach já estava trabalhando ali como Kapellmeister, ou diretor de música, desde dezembro de 1717. É possível que J.S. Bach a tenha ouvido cantar em Weißenfels, em cuja corte é sabido que ele se apresentou. O seu casamento foi celebrado em 03/12/1721 em Cöthen. Parece que Anna Magdalena renunciou à carreira artística e à sua renda própria quando Bach assumiu o cargo de "Kantor" (responsável pela música litúrgica) de São Tomás em Leipzig em 31/05/1723, sendo as obrigações dele "a programação musical, regência de coro, apresentar uma cantata todos os domingos, lecionar latim para os jovens". Entretanto, sabe-se que Anna Magdalena retornou a Cöthen em 1729 para cantar no funeral do Príncipe Leopold. O interesse compartilhado da família Bach em música contribuiu para o feliz matrimônio dela. Trabalhou regularmente como copista, transcrevendo a música de seu marido, que ela vendia como meio de contribuir para a renda familiar. Durante a época em que a família Bach viveu em Leipzig, Anna Magdalena organizava saraus regulares, nos quais se apresentava toda a família Bach, quando ela cantava junto com amigos que os visitavam. A casa dos Bach tornou-se um centro musical em Leipzig.

Além das 2 Partitas que o próprio Johann Sebastian inseriu no "Pequeno Livro para Anna Magdalena Bach", de 1725, Anna Magdalena copiou ali a música que ela amava, preenchendo as folhas que ficaram à sua disposição. Assim é que ali se encontram peças do enteado Carl Philipp Emanuel Bach, bem como dos filhos Johann Christian Bach (1735-1782) e Gottfried Heinrich Bach, anotando suas tentativas de composição. Essa coletânea tornou-se essencialmente o livro de música da família Bach, embora também tenha acolhido compositores da época. Por exemplo, ali se encontram cópias de obras de autores consagrados, tais como François Couperin (rondó), Giovannini , Georg (?) Böhm (minueto), Christian Petzold, Gottfried Heinrich Stölzel e Johann Adolf Hasse (polonaise em sol maior-BWV Anh. 130), que encontraram guarida nesta coletânea de 45 números, cujas páginas para cravo, em maior número, alternavam às vezes com algumas páginas vocais. 
No fim do "pequeno livro" de 1725, havia ainda algumas regras de realização de baixo contínuo que fixavam, sem dúvida, o ensino que Anna Magdalena e as crianças receberam de Johann Sebastian. [GEIRINGER, 1966, 279] escreveu:

"Parece que Sebastian queria, além disso, proporcionar a seus filhos um curso sistemático na realização de um baixo figurado. Após a décima quinta regra, entretanto, o professor desistiu, com a desculpa de que 'o resto podia ser melhor explicado oralmente'." 
O manuscrito autógrafo (P 225) desse "pequeno livro" pode ser localizado na Biblioteca Nacional de Berlim (atualmente na Biblioteca de Marburg an der Lahn).

³  Alfred Dürr, Yoshitake Kobayashi (eds.), Kirsten Beißwenger. Bach Werke Verzeichnis: Kleine Ausgabe, nach der von Wolfgang Schmieder vorgelegten 2. Ausgabe. Preface in English and German. Wiesbaden: Breitkopf & Härtel, 1998, pp. 308–309.

⁴  Autor de uma pequena canção de amor, ária Willst du dein Herz mir schenken (BWV 518), subtitulada "Ária de Giovannini".

⁵  Autor de um rudimentar poema nupcial, Bist du bei mir (BWV 508). De acordo com uma declaração de von Dadelsen (KB, pp. 92 e 124), a terna ária pode ter como autor G. H. Stöltzel. Até 1945, a Berliner Sing-Akademie possuía um manuscrito intitulado Airs divers comp. par M. Stöltzel. Esse volume, hoje perdido, continha a ária Bist du bei mir numa versão para soprano, cordas e baixo, com a melodia que figura também no Clavier-Büchlein.



III.  BIBLIOGRAFIA




DADELSEN, Georg von:  Bemerkungen zur Handschrift Johann Sebastian Bachs, seiner Familie und seines Kreises. Tübinger Bach-Studien 1, Trossingen: Hohner Verlag, 1957
           Beiträge zur Chronologie der Werke J.S. Bachs, Tübinger Bach-Studien 4/5, Trossingen: Hohner Verlag, 1958 

DÜRR, Alfred & KOBAYASHI, Yoshitake (eds.), BEISSWENGER, Kirsten: Bach Werke Verzeichnis: Kleine Ausgabe, nach der von Wolfgang Schmieder vorgelegten 2. Ausgabe. Preface in English and German. Wiesbaden: Breitkopf & Härtel, 1998


GEIRINGER, Karl: Johann Sebastian Bach: o Apogeu de uma Era (copyright 1966, Oxford University Press Inc.), Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed., 1985, 366 p. 

Wikipedia: verbete "Anna Magdalena Bach", cf. in https://en.m.wikipedia.org/wiki/Anna_Magdalena_Bach