domingo, 26 de outubro de 2014

MEU DISCURSO DE POSSE NA ACADEMIA FORMIGUENSE DE LETRAS em 25/10/2014


Por Francisco José dos Santos Braga



Ilmo. Dr. Paulo José de Oliveira, D.D. Presidente da Academia Formiguense de Letras,  
Ilmo. Dr. Roque Camêllo, D.D. Presidente da Casa de Cultura-Academia Marianense de Letras e membro do Instituto Histórico e Geográfico de Minas Gerais, que, a meu convite, muito me prestigia com a sua honrosa presença, em cuja pessoa cumprimento também todas as outras autoridades ocupantes da Mesa,
Ilmo. Sr. Acadêmico Luiz Carlos Meneses, poeta e psicólogo, que me saudou abrindo-me as portas desta Casa de Cultura, 
Prezados amigos Confrades e Confreiras deste egrégio Sodalício,
Senhores e Senhoras,


Cabe-me inicialmente expressar minha gratidão ao presidente desta Casa de Cultura, eis que meu ingresso aqui é fruto da sua insistência solidária e magnânima. Sem medo de errar, considero a minha presença nesta Casa, bem como a distinção com que tenho sido tratado por todos os Confrades, uma dádiva de Paulo José de Oliveira. Quero, portanto, deixar registrada, o mais solenemente possível, a minha homenagem e gratidão ao nosso presidente.

De todo neo-acadêmico, ao ingressar numa Academia, espera-se que fale de seu patrono. Tenho a subida honra de, como acadêmico correspondente desta egrégia Academia, ocupar a cadeira nº 4, patroneada por João Guimarães Rosa, mineiro como a maioria de nós e um dos mais importantes escritores brasileiros de todos os tempos, além de médico e diplomata, o que procurarei fazer da forma mais objetiva possível, abordando o viver e o morrer na obra de Guimarães Rosa (referido como GR no presente discurso).

Sobre a vida de GR, a Wikipédia e autores de diversas formações podem fornecer inúmeras informações relevantes, a meu ver dispensáveis de serem comentadas aqui. Há, no entanto, um fato curioso sobre a posse de Guimarães Rosa na ABL-Academia Brasileira de Letras que gostaria de mencionar, tendo em vista a conexão que tem com a temática eleita para esse discurso. Em 1957, GR candidatou-se pela primeira vez a imortal da ABL e obteve apenas 10 votos. Observe-se que GR já era autor consagrado em 1957, tendo até então lançado os seguintes grandes livros de contos: “Sagarana” (1946) e “Corpo de Baile”, além do romance “Grande Sertão: Veredas” (1956). Em decorrência desse último, GR recebeu nesse mesmo ano os seguintes prêmios: "Machado de Assis", "Carmem Dolores Barbosa" e "Paula Brito". Em 1961, GR recebeu da ABL, pelo conjunto da obra, o prêmio "Machado de Assis". Em 1962, GR lançou “Primeiras Histórias” e, em maio de 1963, candidatou-se pela segunda vez a membro da ABL, na vaga deixada por João Neves da Fontoura. A eleição deu-se a 8 de agosto e desta vez GR foi eleito por unanimidade. Temendo ser tomado por forte emoção, protelou o quanto pôde a cerimônia de posse por quatro anos. Costumava dizer que, empossado, morreria em seguida.

Quando finalmente decidiu tomar posse na Academia Brasileira de Letras, ocorrida na noite de 16 de novembro de 1967, foi recebido por Afonso Arinos de Melo Franco. Em seu discurso, GR afirmou, como se prenunciasse a própria morte: “… a gente morre é para provar que viveu.” Quando se ouve a gravação do discurso de Guimarães Rosa, nota-se, claramente, ao seu final, sua voz embargada pela emoção: é como se chorasse por dentro. É possível que o novo acadêmico tivesse plena consciência de que chegara sua hora e sua vez. Com efeito, três dias após a posse, em 19 de novembro, ele morria subitamente em seu apartamento em Copacabana, sozinho (a esposa fora à missa naquele domingo), mal tendo tempo de chamar por socorro. Assim desapareceu GR prematuramente aos 59 anos de idade, vítima de enfarte fulminante, no ápice de sua carreira literária. No ocaso daquele 19 de novembro, GR ficou para sempre encantado, tornou-se um mito, talvez o mais duradouro da literatura brasileira.

Aproveitando a deixa que o próprio GR nos forneceu nesse seu derradeiro discurso e, ao folhear seus vários livros, me deparei com uma miríade de ditos que evidenciam a sua posição diante do viver e do morrer. Eis alguns colhidos aleatoriamente: As pessoas não morrem, ficam encantadas”, “Viver é perigoso”, “Viver é sempre obrigação imediata , A colheita é comum, mas o capinar é sozinho”, “Na vida, o que aprendemos mesmo é a sempre fazer maiores perguntas”, “O correr da vida embrulha tudo, a vida é assim: esquenta e esfria, aperta e daí afrouxa, sossega e depois desinquieta. O que ela quer da gente é coragem.”, “Viver… o senhor já sabe: Viver é etecetera”, “Vida é sorte perigosa passada na obrigação: toda a noite é rio-abaixo, todo dia é escuridão”, “Viver é um descuido prosseguido”, “O gerais corre em volta. Esses gerais são sem tamanho. Enfim, cada um o que quer aprova, o senhor sabe: pão ou pães, é questão de opiniães… O sertão está em toda parte.”, “A morte de cada um já está em edital.”, “Tempo é a vida da morte: imperfeição”, “Como não ter Deus? Com Deus existindo, tudo dá esperança: sempre um milagre é possível o mundo se resolve. Mas, se não tem Deus, há-de a gente perdidos no vai-vem, e a vida é burra. É o aberto perigo das grandes e pequenas horas, não se podendo facilitar — é todos contra os acasos. Tendo Deus, é menos grave se descuidar um pouquinho, pois, no fim dá certo. Mas, se não tem Deus, então a gente não tem licença de coisa nenhuma!”, “Mas eu hoje em dia acho que Deus é alegria e coragem — que Ele é bondade adiante, quero dizer.” e muitos outros motivos de reflexão sobre a nossa passagem/páscoa por este mundão de Deus e a nossa despedida de nossa condição humana.

Os contos, novelas e romances rosianos estão situados espacialmente no que se poderia chamar, em sentido amplo, de sertão. Suas narrativas transcorrem nos campos gerais, ou mais simplesmente, nos gerais (cujo espaço geográfico GR situava no Oeste e Noroeste de Minas Gerais, estendendo-se pelo Oeste da Bahia, e Goiás, até ao Piauí e ao Maranhão), caracterizados pelas chapadas e pelos chapadões, bem como pela vegetação do cerrado. Essas informações sobre o interior do Brasil, onde se passa a ação em “Corpo de Baile”, GR transmite em carta a seu tradutor para o italiano, Edoardo Bizzarri.

A sua obra se distingue pelas inovações de linguagem, profundamente identificada com os falares populares e regionais, que, plasmados pela erudição do autor, lhe permitiam criar inúmeros vocábulos a partir de arcaísmos, bem como neologismos e onomatopeias a partir do realismo mágico, regionalismo e invenções e intervenções semânticas e sintáticas, que empregava com maestria.

Há uma crônica muito curiosa de Rubem Alves, intitulada “Sobre o morrer”, publicada em 18 de outubro de 2011, que diz, entre outras coisas, que, apesar de a morte ser o destino de todos nós, a ideia de morte repentina não o atraía, porque ele precisava de tempo para escrever o seu último haikai, capaz de sintetizar “o esforço supremo para dizer a beleza simples da vida que se vai”. Nessa célebre crônica comentou que, diante da proximidade da Morte, iria repensar seus valores e listou alguns discípulos da mesma mestra (a Morte), cuja convivência não dispensaria: primeiro “Mallarmé que tinha o sonho de escrever um livro com uma palavra só”; depois, os poetas em geral e, por fim, apenas três prosadores, intelectuais de nomeada: um alemão, um francês e um brasileiro, como aprendizes da mesma mestra, a Morte. Atentemos para as suas próprias palavras: “A Morte me informa sobre o que realmente importa. Me daria ao luxo de escolher as pessoas com quem conversar. E poderia ficar em silêncio, se o desejasse. Perante a morte tudo é desculpável... Creio que não mais leria prosa. Com algumas exceções: Nietzsche, Camus, Guimarães Rosa. Todos eles foram aprendizes da mesma mestra. É certo que não perderia um segundo com filosofia. E me dedicaria à poesia com uma volúpia que até hoje não me permiti. Porque a poesia pertence ao clima de verdade e encanto que a Morte instaura. E ouviria mais Bach e Beethoven. Além de usar meu tempo no prazer de cuidar do meu jardim...”

Por que Rubem Alves, entre tantos representantes da boa técnica literária brasileira, escolheu apenas GR entre os prosadores? Na impossibilidade de sabermos dele próprio o motivo dessa eleição, aventuro-me a responder que, o que era ponderável para Rubem Alves, é que a universalidade da obra de GR se deva a uma série de fatores, que vão desde o plano de expressão, nas mãos de GR, impregnando seu texto de conotações, de realismo fantástico e de uma multiplicidade de dimensões, até a metalinguagem, o que torna o relato pleno de significados e passível de diversas interpretações. As técnicas empregadas são multidimensionais, deixando transparecer várias camadas sobrepostas. Tudo isso está muito próximo à proposta poética. Resta ainda acrescentar que a ação poética da obra de GR baseia-se na oralidade. GR faz seu relato vincular-se à preservação intencional do verbo ancestral. Sua prosa poética funda suas raízes na música intuída e praticada pelos poetas-cantadores do sertão.

Consideremos o conto “Cara-de-Bronze” (do livro “Corpo de Baile), o múltiplo relato de um velho e rico fazendeiro enfermo, que vive fechado em sua propriedade, rodeado de vaqueiros. Sozinho, perto da morte, pede a seu mais fiel vaqueiro, chamado Grivo, — poeta-cantador, dotado das virtudes de humildade, simplicidade e pureza de espírito, — que vá procurar, numa longa viagem, a essência da vida, “o quem das coisas”. A escolha recai sobre aquele que tem as virtudes da criança e que está incumbido de trazer a aurora à noite de seu senhor, mediante apenas o relato do que viu e ouviu na sua longa jornada. Valendo-se de secreto poder, o menestrel, um descompromissado com as coisas que atam o homem ao interesse, adivinha-lhes a beleza. É tudo o que Cara-de-Bronze desejava ouvir. GR desloca assim a narrativa do Cara-de-Bronze para uma dimensão mitopoética. A apologia da poesia o faz antepor o seguinte terceiro poema (paratexto) à abertura do conto: 
   
"Eu sou a noite pra aurora,
Pedra de ouro no caminho,
Sei a beleza do sapo,
A regra do passarinho,
Acho a sisudez da rosa, 
O brinquedo dos espinhos.

Muito obrigado!

O autor empossado e Acadêmico Luiz Carlos Meneses que o saudou. Ao fundo,  a Secretária Municipal de Cultura, Dra. Elizabeth Castro Baptista de Souza, e o Vereador Cabo Cunha

Neoacadêmicos, juntamente com o Presidente Paulo José de Oliveira e a Secretária Municipal de Cultura, Dra. Elizabeth Castro Baptista de Souza
                  






* Francisco José dos Santos Braga, cidadão são-joanense, tem Bacharelado em Letras (Faculdade Dom Bosco de Filosofia, Ciências e Letras, atual UFSJ) e Composição Musical (UnB), bem como Mestrado em Administração (EAESP-FGV). Além de escrever artigos para revistas e jornais, é autor de dois livros e traduziu vários livros na área de Administração Financeira. Participa ativamente de instituições no País e no exterior, como Membro, cabendo destacar as seguintes: Académie Internationale de Lutèce (Paris), Familia Sancti Hieronymi (Clearwater, Flórida), SBME-Sociedade Brasileira de Música Eletroacústica (2º Tesoureiro), CBG-Colégio Brasileiro de Genealogia (Rio de Janeiro), Academia de Letras e Instituto Histórico e Geográfico de São João del-Rei-MG, Instituto Histórico e Geográfico de Campanha-MG, Academia Valenciana de Letras e Instituto Cultural Visconde do Rio Preto de Valença-RJ, Academia Divinopolitana de Letras, Instituto Histórico e Geográfico do Distrito Federal, Academia Taguatinguense de Letras, Academia Barbacenense de Letras e Academia Formiguense de Letras. Possui o Blog do Braga (www.bragamusician.blogspot.com), um locus de abordagem de temas musicais, literários, literomusicais, históricos e genealógicos, dedicado, entre outras coisas, ao resgate da memória e à defesa do nosso patrimônio histórico.Mais...