quarta-feira, 24 de dezembro de 2014

NOËLS PARA ÓRGÃO


Por Francisco José dos Santos Braga


I.  INTRODUÇÃO



Neste post tenho o prazer de divulgar o conteúdo de uma edição do programa radiofônico "Música de Teclado", que eu tive a honra de produzir e apresentar para a Rádio Nova Aliança, de Brasília, uma emissora da Arquidiocese de Brasília, com o prefixo ZYH Rádio Nova Aliança AM 710, conforme já explicado em outra matéria neste mesmo Blog do Braga ¹. A minha locução foi gravada durante o Advento de 1994 e levada ao ar no programa imediatamente anterior ao Natal.

Reitero que possuo todas as fitas cassetes com as gravações de todos os programas "Música de Teclado", que foram levados ao ar pela Rádio Nova Aliança em 1994-1995. Por cautela, costumava reunir-me com o operador de áudio Felismar com bastante antecedência para as gravações, para que as apresentações não sofressem solução de continuidade. Assim, as fitas estão datadas de 11/03/1994 a 25/03/1995, totalizando 64 fitas cassetes, todas apresentadas em programa. Só recentemente converti as 64 fitas cassetes em CDs. 



II.  NOËLS PARA ÓRGÃO




Da música de órgão, conhecemos hoje bastantes obras, salvas do olvido do tempo por edições ou manuscritos conservados em bibliotecas. Por outro lado, provavelmente a maior parte dessa música  − a das improvisações − jamais conheceremos. Claro que podemos imaginar que o melhor do talento dos compositores organistas deve ter sido levado à partitura. De qualquer forma, é triste constatar que grande parte dessa música de órgão, essa arte tão particular da improvisação − mal foi acessada − se perdeu: o ataque dos motivos, o brotar espontâneo das ideias, o sentimento de quão precária é uma poesia fugaz.

No final do século XVII, tornou-se uso corrente entre os organistas franceses a improvisação. Os organistas improvisadores atraíram de tal forma as multidões que as autoridades religiosas se viram obrigadas a estabelecer sanções que chegaram até à interdição. Esses organistas costumavam escolher por tema um motivo de canção popular, conhecido de todos e, por isso mesmo, particularmente adequado a ornamentações virtuosísticas que exerciam fascínio sobre essas multidões. Entre todos os motivos de Noëls ², eram mais apreciados os ornamentados para a Missa do Galo, a tal ponto que essas variações receberam notação, foram editadas e difundidas.

Historicamente, podemos considerar que, da mesma forma que a maior liberdade litúrgica da Missa do Galo permitiu cantar Noëls do século XII em diante, assim também no segundo meado do século XVII deu ao organista a oportunidade de introduzir variações sobre motivos populares.

Esses motivos, muito diatônicos, foram às vezes acusados de excessiva simplicidade. Às vezes, eram muito antigos, remontando à Renascença ou mesmo à Idade Média e tornaram-se conhecidos em mais de uma versão. Nos séculos XVII e XVIII, foram fortemente marcados pelas regiões donde provinham − Borgonha, Poitou, Lorena, Champagne ou Gasconha − o que era particularmente sensível num país muito rural e ainda bastante provincializado. Havia mesmo quem os compusesse até à Revolução Francesa. Com a Revolução, o gênero entrou em declínio. Teve que esperar o movimento da Schola Cantorum, em fins do século XIX, para assistir ao renascer do Noël para órgão, como os da lavra de César Franck e Alexandre Guilmant. No século XX, Tournemire retoma a tradição de compor Noëls para órgão.

Certos compositores se tornaram especialistas em Noël, desde fins do século XVII até fins do século XVIII, ficando conhecidos como Noelistas. Surgindo em fins do século XVII, o Noël para órgão com variações parece tomar de empréstimo à arte dos virginalistas e à dos cravistas: consiste de um tema de chanson (melodia popular) e suas doubles (ou variações) em diminuições, para o Natal. A virtuosidade dos dedos que se arremessavam aos teclados inflamava-se à medida que se desenvolviam as variações. A pedaleira à francesa prestava-se apenas para sustentar alguns baixos. As diferentes variações permaneciam na tonalidade (ou no modo) do tema do Noël, evitando dissipar-lhe o contorno, ornando-o, decorando-o, sem tentar descobrir em profundidade seus prolongamentos secretos. Elas fazem dialogar os "jeux" − cromorne, trombeta, trompete, − cantar as flautas e soar os "grands jeux", usando frequentemente efeitos de ecos que despertam o espaço da natureza na noite do Natal. Se os Noëls ficaram então em voga, foi por força duma conotação sentimental: os seus motivos estavam profundamente associados, para cada ouvinte, a uma das festas mais íntimas e calorosas do ano.

Os primeiros Noëls a aparecerem editados foram os constantes do 2º Livre d'Orgue ³ de Lebègue (1631-1702) em 1676. Mas é Nicolas Gigault (1627-1707) quem consegue publicar o 1º Livre de Noëls Variés, em 1682, no mesmo ano em que Lebègue, por sua vez, incluía 10 Noëls adicionais no seu 3º Livre d'Orgue, seguido logo depois por uma coleção de Pierre Dandrieu (c. 1660-1733), tio de Jean-François Dandrieu.

Na geração seguinte, vamos encontrar os Noëls de André Raison (1650-1719), depois os de Jean-François Dandrieu (c. 1682-1738), de Dornel (1685-1765) e, sobretudo, do mestre do gênero, Daquin (1694-1772). Os livros de órgão de Dandrieu (1714 e 1725, revisados em 1759) e de Daquin (1757) são dedicados a Noëls. No primeiro meado do século XVIII, os Noëls para órgão se multiplicaram, com destaque para os de André Raison (1714), Dandrieu (1720) e Daquin (1745).

Seguem-se os de Michel Corrette (1707-1795), Balbastre (1724-1799) e a sua decadência consumar-se-á com Beauvarlet-Charpentier, Lasceux e Séjan. No segundo meado do século XVIII, ainda se publicam os Noëls de Michel Corrette (1753), Balbastre (1770) e Beauvarlet-Charpentier (1783?).

No seu indispensável livro La Musique d'orgue français de Jehan Titelouze à Jehan Alain (Paris, 1949), Norbert Dufourcq assinala que "o Noël com variações requeria uma especial habilidade manual. Não exatamente qualquer iniciante podia adquiri-la. A ideia não era provar originalidade, mas espírito − e dedilhado. Muitos franceses da época careciam de ambos. Essa é a razão por que estes últimos eram mestres do passado nesta arte fluente, afastados do verdadeiro estilo francês de órgão e que tangencia a música descritiva... Esboços em cores frescas, quadros com traços claros, os Noëls de um Pierre Dandrieu,  de um Michel Corrette, ou de um Dornel, de um Daquin, não têm nada correspondente − de nosso conhecimento − em todo o corpus de música de órgão."

Jean-Jacques Rousseau deu a seguinte definição para Noël, no seu Dictionnaire de 1768: "Certos cânticos que o povo canta no Natal. Devem ter um caráter rústico e pastoral semelhante à simplicidade das palavras e dos pastores que supostamente os teriam cantado, ao prestarem homenagem a Cristo no berço."

Dizem que Daquin compôs uma quantidade de obras corais e orquestrais bem como música de teclado, mas apenas três obras sobreviveram. A primeira (de 1735) é um livro de suítes para cravo dedicado a sua discípula Srta. de Soubise, que inclui, entre uma série de peças virtuosísticas, imitações de O Cuco (Le Coucou), de A Andorinha (L'Hirondelle) e de uma tempestade ("Les Vents en courroux"). A segunda é uma cantata (La Rose). A terceira (de 1757) é a coleção de 12 Noëls na qual sua fama principalmente repousa.
Louis-Claude Daquin (1694-1772)

O Livro de Noëls de Louis-Claude Daquin (Op. II) contém 12 peças, sendo  a última o célebre Noël "Suisse"

Eles foram dedicados ao Conde d'Eu (Louis-Auguste de Bourbon, Príncipe de Dombes, filho do Duque de Maine, e uma figura importante da corte). Foi um importante patrono para Daquin, cuja generosidade, segundo seus biógrafos, foi impedir que o compositor morresse um pobretão. Tanto as suítes para cravo quanto os Noëls revelam um compositor Daquin em contraste com seus predecessores Lalande, Charpentier, Couperin e Rameau. Menos preocupado com estrutura ou forma, com modulação ou genuíno contraponto, ele mirou mais no imediato pictórico e virtuosidade como fim em si. Ninguém ultrapassou sua habilidade de quebrar uma melodia em seus fragmentos componentes e desenvolvê-los em deslumbrante passagem, sem perder de vista a melodia original. A forma do Noël se adequou perfeitamente a suas habilidades particulares. Por isso mesmo, Dufourcq conclui que Daquin foi o "rei dos Noelistas".

Seu biógrafo, o Abade de Fontenay, no seu célebre "Dictionnaire des Artistes" (ed. 1776) observava que Daquin se distinguia pela "precisão infalível nas execuções de grande rapidez" e pelo fato de sobressair-se "entre todos os virtuoses pela mesma perícia de ambas as mãos". O mesmo autor ainda observava que Daquin deixou, quando de sua morte, manuscritos de música vocal, motetos, cantatas, atos de ópera, sinfonias de órgão, quartetos, fugas, trios, etc.

Em seguida, foi anunciada a audição programada para aquele dia para a Rádio Nova Aliança. Inicialmente, a audição de alguns Noëls da autoria de Dandrieu, na interpretação do organista francês André Isoir, extraídos do CD da Calliope nº CAL 9916 intitulado "NOËLS ET SUITES AU GRAND SIÈCLE". Também foram extraídos alguns dos 12 NOËLS de Daquin, na interpretação de Christopher Herrick, no órgão de Saint Rémy de Dieppe (CD da Hyperion nº CDA66816) .

Outra jóia musical de nossa programação consistiu na apresentação integral da Missa da Meia-Noite para o Natal (Messe de minuit pour Noël) da autoria de Marc-Antoine Charpentier (1645-1702), que contava entre seus alunos Grigny, Dagincour, Nicolas Geoffroy e, provavelmente, Gilles Julien e Gabriel Garnier.

A música de Noël, em todas as suas formas, esteve muito em voga na França sob o reinado de Luís XIV. Entretanto, em nenhuma parte no corpus da música barroca francesa há uma obra de tanto charme quanto a mencionada Missa de Charpentier. Isso se deve ao fato de que esse compositor utilizou antigos Noëls franceses como base de sua composição com uma notável habilidade, levando a obra completa a possuir uma leveza e doçura em consonância com a festa que celebra. Acresça-se a isso o fato de que tal Missa teria fascinado o mais simples e humilde dos fiéis, pois as árias eram famosas e fáceis de reconhecer, embora adaptadas ao Ordinário da Missa em latim. É evidente que Charpentier escolheu seus cantos de Noël com grande cuidado, não só por seu valor musical, mas também por seu alcance alegórico e litúrgico.

Observando os títulos dos Noëls que constituem a base das diferentes partes da Missa, pode-se imaginar como eles deveriam evocar uma narrativa evangélica a um ouvinte francês do século XVII, a saber:
Kyrie (Noël intitulado "Joseph est bien marié")
Christe eleison ("Or nous-dites, Marie" e "Une jeune pucelle")
Gloria ("Les bourgeois de Chastres" e "Où s'en vont cês gais bergers")
Credo ("Voici qui désirez sans fin", "Voici le jour solennel de Noël" e "À la venue de Noël")
Ofertório ("Laissez paître vos bestes")
Sanctus ("O Dieu que n'étois-je en vie")
Agnus Dei ("À minuit fut fait un réveil")

Em certos trechos ao longo da obra (como, por exemplo, após o Kyrie e o Christe), o compositor encarrega o organista de tocar interlúdios baseados nas árias de Noël já utilizadas. Para o Ofertório Charpentier incumbiu os violinos de tocar o Noël intitulado "Laissez paître vos bestes" (Deixem pastar seus animais). Tanto nos interlúdios para órgão quanto no Ofertório, Charpentier tomou como base composições preexistentes da autoria de Nicolas-Antoine Lebègue (1631-1702). No Agnus Dei, atinge-se o auge com o Noël "À minuit fut fait un réveil" (À meia-noite se fez um despertar), uma ária fascinante que sugere de pronto a infância e sua inocência.

A gravação que foi ouvida da Missa de Charpentier consta do CD da EMI Records nº CDM 7 363135 2, na execução da Orquestra de Câmara Inglesa da Academia St. Martin-in-the-Fields, sob a regência de Sir David Willcocks, tendo ao órgão Andrew Davis.



III.  NOTAS  EXPLICATIVAS



¹   Cf. in http://bragamusician.blogspot.com.br/2014/01/musica-de-teclado-um-programa.html

²  O que na França se entende por Noël é determinada obra vocal em estrofes, com ou sem refrão, destinada a ser cantada no tempo natalino, porém não litúrgica, e cujo texto na língua vulgar tratava do Natal ou dos acontecimentos que precediam ou que seguiam essa festa. 
Musicalmente se pode distinguir duas categorias de Noël:
1. Noël sobre melodias conhecidas, ou seja, aquele cujo texto foi adaptado a melodias preexistentes, litúrgicas ou profanas. Noëls desse tipo se encontram desde o século XIII. Os mais apreciados foram mais tarde objeto de transcrições instrumentais.
2. Noël, para o qual o compositor compôs uma música original, obra de cunho culto, aparentada principalmente com a canção polifônica.
A partir do século XVII, estende-se o uso dessas transcrições quer para instrumentos quer para órgão.

³  Sobre os muitos "Livres d' Orgue" durante o segundo meado do século XVII, cabe mencionar que eram as coleções mais tipicamente francesas que apareceram, por compositores como Guillaume Nivers, Nicolas-Antoine Lebègue, Nicolas Gigault, André Raison e Jacques Boyvin. Lebègue foi o primeiro francês a explorar integralmente os pedais, pois geralmente eles eram ou opcionais ou omitidos completamente. Os "Livres d'Orgue" contêm peças curtas que, embora ainda nos modos de igreja e dedicados ao uso litúrgico, são razoavelmente simples no estilo e muitas vezes claramente tonais.

segunda-feira, 1 de dezembro de 2014

Crônica das duas apresentações da cantata "FRANCISCO, JOGRAL DE DEUS" em novembro de 2014

Por Francisco José dos Santos Braga *


       Et verba musica facta sunt. (E as palavras se fizeram música.)


I.  INTRODUÇÃO


Em verdadeiro clima de festa foi apresentada em duas ocasiões (dias 23 e 29 de novembro do ano corrente) a cantata sacra "Francisco, Jogral de Deus", da autoria do frei holandês Joel Postma o.f.m., pelo Coral Trovadores da Mantiqueira, grupo coral fundado pelo compositor em 1965 que comemora o seu jubileu no próximo ano.

Tendo chegado ao Brasil em 1959, frei Joel logo percebeu sua aptidão e talento para compor cantatas em parceria com o letrista frei Urbano Plentz o.f.m. Enquanto este ia traduzindo textos, a música fluía contagiante das mãos de frei Joel. Foi assim que o ano de 1966 foi marcado por esse espírito de muita vibração em toda a comunidade franciscana do Seminário Seráfico de Santo Antônio, em Santos Dumont, quando esta viu "O Peregrino de Assis ¹" vir a lume e, em 1969, "Francisco, Jogral de Deus". A letra da primeira cantata é do teatrólogo francês Léon Chancerel, o qual deu início a uma série de obras dedicadas ao "Poverello", escritas por ocasião do 7º centenário da morte do Santo de Assis em 1926, tendo sido traduzida do francês por frei Urbano em 1966. Já todo o texto da segunda cantata ("Francisco, Jogral de Deus") é criação do próprio frei Urbano, que aqui revela o seu dom poético. Há ainda uma pequena diferença entre as duas cantatas: "O Peregrino de Assis" foi escrita para coro misto a quatro vozes, solista e declamador com acompanhamento de piano, ao passo que, em "Francisco, Jogral de Deus", foi dispensado o solista.

Como são efêmeras as instituições e as causas em prol da cultura em nosso País é digno de nota o fato de ter enfrentado todos os reveses e adversidades e manter-se em pleno funcionamento há 49 anos o Coral Trovadores da Mantiqueira, que, além do próprio frei Joel, já teve também como regentes frei Geraldo de Reuver e frei Joaquim Fonseca de Souza, quando o seu fundador se ausentou para participar de Comissão de Liturgia na CNBB, em Brasília (1984 a 1997). Alguns membros do Coral se mantêm firmes e assíduos desde a fundação, dando exemplo de sua lealdade e paixão pela música sacra a novos membros.


II.  PRIMEIRA APRESENTAÇÃO DE "FRANCISCO, JOGRAL DE DEUS" EM 23 DE NOVEMBRO DE 2014 


Em homenagem à visita do Ministro Provincial da Província dos Mártires Gorcomienses, com sede na Holanda, frei Roberto Hoogenboom o.f.m., ao Seminário Seráfico de Santo Antônio em Santos Dumont, em companhia de Dom frei Hugo van Steekelenburg o.f.m., foi apresentada no domingo, dia 23 de novembro, às 19 horas, a cantata "Francisco, Jogral de Deus", da lavra musical de frei Joel Postma o.f.m., pelo Coral Trovadores da Mantiqueira, tendo como regente o compositor, como declamador o frei João Ricardo Teodoro e acompanhando ao piano o autor desta crônica. O espetáculo contou com a presença dos dois franciscanos ilustres no auditório, além de famílias e outros membros da sociedade de Santos Dumont. O referido Provincial holandês tinha chegado ao Brasil no dia 16 e veio de uma visita ao norte da Província franciscana de Santa Cruz, em especial às cidades de Minas Gerais próximas à Bahia, sempre em companhia de Dom frei Hugo.

Inicialmente, falou o guardião frei Gabriel José de Lima Neto dando as boas vindas aos visitantes ilustres e convidando-os a desfrutar da bela música da cantata sacra composta por frei Joel há 45 anos atrás. Também frei Joel deu informações referentes às peças que seriam ouvidas naquela noite e, na foto, discorre sobre o livro "Outro Cristianismo é possível", do teólogo belga Roger Lenaers (São Paulo: Paulus, 2010).

Frei Joel Postma o.f.m., compositor e regente

Resumidamente são transcritos abaixo os títulos das partes componentes da cantata "Francisco, Jogral de Deus", todas versando sobre o Santo de Assis:
I.  O INÍCIO
1. Nascimento
2. Infância
3. Juventude
4. A Vocação

II. O IDEAL
1. Decisão
2. A Regra
3. Fraternismo: Uma História de Amor
4. Santa Clara
5. A Ordem Franciscana Secular

Também constou do mesmo "concerto" a apresentação do "Cântico do Irmão Sol" (cuja partitura foi editada pela SONO-VISO do Brasil) e da peça coral "Invocação em Defesa da Pátria", com música de Villa-Lobos e letra de Manuel Bandeira, em solo da cantora lírica Rute Pardini, esposa do autor desta crônica e convidada especial para aquele importante evento.
Da esq. p/ dir.: Dom frei Hugo, cantora Rute Pardini (no centro) e Provincial holandês em meio ao Coral Trovadores da Mantiqueira, com frei Joel e o autor desta crônica no extremo direito.

Da esq. p/ dir.: frei Joel, Provincial holandês e o autor. Ao fundo, vista parcial da cidade de Assis.



Na manhã do dia seguinte, durante os cantos do Ofício Divino das Comunidades, o Provincial Hoogenboom, que é exímio clarinetista, nos brindou com uma música composta por outro frei holandês, Ton van der Valk, cuja execução é destinada à memória de freis falecidos. Destaque especial nesta partitura de música contemporânea é que ela utiliza em sua parte central o motivo do hino gregoriano "In Paradisum" (trad. "ao entrar no Paraíso"). O agrado foi geral.

Durante o café da manhã, o Provincial holandês nos contou que o Ministro Geral da Ordem Franciscana em Roma, o frei norte-americano Michael Perry, tinha feito um comentário com ele muito positivo a respeito do trabalho importante que cerca de 200 frades da Holanda realizaram, no século passado, no Brasil, em paróquias e colégios da Província Santa Cruz, em Minas Gerais, que, por sua vez, está se tornando agora, também, uma Província Missionária, tendo freis presentes na Amazônia, em Angola e, em breve, em Israel. Frei Roberto ainda comentou que se sentia feliz de ver a província de Minas viva e atuante, em todos os lugares e paróquias que visitou. Finalmente, frei Roberto observou que gostou muito de ouvir o coral do Seminário, considerando a prática da música um importante elemento na formação de aspirantes para a vida franciscana. Ficamos sabendo que seu destino naquela manhã seria o distrito de Dores de Paraibuna, onde o confrade holandês Justino Burgers faz um trabalho pastoral intensivo na comunidade local e da redondeza.


III. SEGUNDA APRESENTAÇÃO DA CANTATA"FRANCISCO, JOGRAL DE DEUS" EM 29 DE NOVEMBRO DE 2014

Este evento se deu dentro de um contexto maior, a saber: o XVI Encontro de Corais, neste ano sediado pelo Seminário Seráfico Santo Antônio, de Santos Dumont. Todos os anos, ele se dá por ocasião do Advento, já estando em sua 16ª edição, e todos os alimentos arrecadados e contribuições são doados em benefício do PROJETO VIDA, que cuida de aidéticos. No sábado, dia 29 de novembro, às 18 horas, teve início a apresentação dos corais participantes na seguinte ordem: Coral Tajapanema, Coro Municipal de Juiz de Fora, Coral São Tarcísio, Coral OAB Juiz de Fora, Coral São Miguel e Coral Trovadores da Mantiqueira. Todos os componentes desses corais se esforçaram por oferecer momentos de enlevo e prazer estético a todos os presentes espectadores e ouvintes que lotavam o teatro, vindos das mais diversas localidades.

Da parte de nosso Coral Trovadores da Mantiqueira, basicamente repetimos a apresentação anterior, com exceção de que não levamos a Cantata na íntegra, mas apenas sua parte central, Uma História de Amor, "narrando os grandes momentos da História da Salvação, começando com a criação do universo, passando pela Recriação em Cristo, para a figura singela de São Francisco, que apenas desejava viver conforme o modelo do Evangelho, chamando o movimento dos seus seguidores 'Ordem dos Irmãos Menores', para serem neste mundo PEREGRINOS DO AMOR", conforme nos ensinou o declamador.

Reproduzo abaixo o texto de "Uma História de Amor", da autoria de frei Urbano Plentz e musicado por frei Joel:

CORO:
No princípio foi o Amor
um amor como o Sol:
estuante,
fecundo,
perfeito.

A sabedoria brincou
sobre o orbe terrestre,
e nasceram os seres:
todos lindos,
todos unidos,
todos alegres,
todos perfeitos,
todos irmãos!

Mas houve um dia,
houve uma tarde,
e houve uma noite:
as trevas ficaram...
Então as flores murcharam,
as estrelas sumiram,
os olhos choraram,
os homens se isolaram,
o sol não apareceu
e tudo se acabou
nas trevas e no frio.

Mas... de repente,
o sol reapareceu
e a Voz eterna falou:
Vamos recomeçar,
do princípio,
e passar tudo a limpo!

Cristo se fez gente,
o Amor se fez gente,
o homem se fez irmão.

"Amai-vos uns aos outros,
como eu vos amei!
Ninguém tem maior amor
do que aquele que dá sua vida
por seus amigos."

Então, de novo
as estrelas lucilaram,
as flores floresceram,
os olhos sorriram,
e os homens se amaram.

Mas, como é frágil esse amor!
Como é imperfeito,
como é egoísta!

Eu gosto do japonês;
eu aprecio o francês;
eu amo o chinês.
Pois não os conheço...
E eles não me aborrecem!

DECLAMADOR:
E o irmão próximo?
Senhor, quem é meu próximo?
— O próximo é da família,
muitas vezes é chato,
cheio de defeitos,
é "metido",
é ignorante,
é "cacete".
O próximo, às vezes, ofende,
desagrada,
"enche",
não some,
insiste,
e até nos ama, às vezes!

CORO:
De repente
o mundo olhou espantado:
— Cristo voltou?
— Eu me chamo Francisco!
— Que vieste fazer?
— Procurar um irmão,
muitos irmãos,
muitas irmãs,
para todos amarmos o Amor
que não é amado.

Seremos uma família,
todos irmãos,
com todos os homens
e todas as criaturas,
no fraternismo universal.

Faremos um mundo
mais acolhedor,
mais humano,
mais humilde,
mais pacífico,
mais amigo,
mais irmão!

"Irmãos,
nossa Ordem se chamará:
'Ordem dos Irmãos Menores'.
E seremos no mundo
os peregrinos
do Amor!"



Antes da execução do "Cântico do Irmão Sol", foi lido pelo declamador um trecho de um trabalho de frei Vitório Mazzuco Filho, intitulado "A Mística da União Cósmica: O Cântico das Criaturas": 
"Esse canto de luz surgiu no meio de uma noite escura da alma (de São Francisco). Emergiu das profundezas de uma existência que foi se erguendo, sofrida, acrisolada, como um botão que busca, insaciável, a luz do sol. É o símbolo expressivo de um universo que se configurou dentro do coração.
Causa espanto que um homem cego, em meio a dores terríveis, que não gozava mais da excelência das coisas, cante exatamente a matéria, o sol, a lua, a água e o fogo.
A alma canta com uma espontaneidade, com o candor e o calor da língua materna. O hino é um dos testemunhos mais primitivos da língua italiana.
Esse canto parece quase um hino pagão. Não se fala de Cristo, nem do mistério Trinitário, nem do mundo sobrenatural, nem do Reino. As realidades materiais são evocadas e cantadas.
Contudo, se olharmos bem, se olharmos mais profundamente, as coisas materiais, além de serem coisas, são a língua e o instrumento expressivos de uma experiência religiosa profunda, acontecida no coração de São Francisco. Os elementos cósmicos são celebrados como símbolos do (seu) mundo interior. (...)
É uma afirmação serena da fraternidade universal. Tudo é claro, luminoso e imediato. ²"

Sobre o canto cívico-religioso "Invocação em Defesa da Pátria", o declamador lembrou que "Villa-Lobos era um grande estudioso da música folclórica brasileira, autor de livros didáticos para as diversas instituições de ensino no Brasil, contendo marchas, canções, cantos cívicos, marciais, folclóricos e artísticos para 'formação consciente da apreciação do bom gosto na música brasileira', assim como escreve a introdução do segundo volume do livro Canto Orfeônico, publicado em 1951 pela Editora Irmãos Vitale, em São Paulo, que termina com o canto INVOCAÇÃO EM DEFESA DA PÁTRIA, um canto ainda de grande atualidade, haja vista a situação política, social e ecológica do nosso imenso País. 
Na repetição do canto, o coral acompanha a solista Sra. Rute Pardini, esposa do nosso fiel companheiro, o pianista de longos anos, Francisco José dos Santos Braga, que tocou a redução para piano da parte orquestral."

Ao final de nossa apresentação, a coordenação do XVI Encontro de Corais conferiu aos regentes o diploma comprobatório de sua participação no evento. Assinam pela coordenação do evento Frederik Otto Postma (nome religioso: frei Joel Postma o.f.m.) e Maria Alice de Azevedo Sad (simultaneamente, pianista e regente do Coral Tajapanema).

Diploma conferido ao Coral Trovadores da Mantiqueira







IV.  NOTAS EXPLICATIVAS


* O autor é  compositor e pianista, membro do Instituto Histórico e Geográfico de São João del-Rei, onde ocupa a cadeira nº 22 patronímica do escritor e poeta são-joanense Lincoln de Souza, e da Academia de Letras de São João del-Rei, onde ocupa a cadeira 28 patronímica de Dr. Antônio de Andrade Reis. Outras instituições de que participa como membro: IHG de Campanha, Academia Valenciana de Letras e Instituto Cultural Visconde do Rio Preto (Valença-RJ), Academia Divinopolitana de Letras, IHG-DF, Academia Taguatinguense de Letras, Academia Barbacenense de Letras, Academia Formiguense de Letras e Colégio Brasileiro de Genealogia (Rio de Janeiro-RJ).