domingo, 31 de dezembro de 2017

RELATO SOBRE A MORTE DE MOZART


Por Sophie Weber Haibl (⭐︎01/10/1763 1846)

Tradutor da língua alemã: Francisco José dos Santos Braga


Sophie Haibl ¹ para Georg Nikolaus von Nissen ², Salzburgo

Diakovar, 7 de abril de 1825


Agora eu devo dizer-lhe sobre os últimos dias de Mozart. Bem, Mozart ficou cada vez mais querido de nossa mãe já falecida, ³  e ela dele. Realmente ele frequentemente vinha correndo apressado a Wieden (onde ela e eu estávamos morando no Goldener Pflug), carregando sob o braço uma bolsinha contendo café e açúcar, que ele entregava à nossa boa mãe, dizendo: "Aqui, querida mãe, agora você pode ter uma pequena "Jause". ⁴ Ela costumava ficar encantada como uma criança. Ele fazia isso muito frequentemente. Em suma, Mozart no fim nunca veio nos ver sem trazer algo.

Agora, quando Mozart caiu doente, nós duas lhe fizemos um casaco noturno que ele podia vestir na frente, uma vez que, em razão de estar inchado, não podia virar-se na cama. Então, como não sabíamos quão seriamente doente ele estava, nós também lhe fizemos um robe-de-chambre acolchoado (embora realmente sua querida esposa, minha irmã, nos tivesse dado os materiais para ambas as roupas), de modo que, quando ele se levantasse, ele tivesse tudo o que necessitava. Nós frequentemente o visitávamos, e ele estava realmente encantado com o robe-de-chambre. Eu costumava ir à cidade todo dia para vê-lo. Bem, um sábado, quando eu estava com ele, Mozart me disse: "Cara Sophie, diga à mamãe que eu estou razoavelmente bem, e que poderei ir festejar com ela a oitava do seu dia-do-nome." O que poderia ter sido mais encantador do que eu trazer tais notícias alegres à minha mãe, quando ela mal poderia esperar as notícias? Por isso, eu corri para casa para confortá-la, particularmente naquela situação que ele realmente parecia estar brilhante e feliz.

O dia seguinte era um domingo. Confesso que eu era jovem então e um tanto vaidosa e gostava de vestir-me bem. Mas eu nunca me preocupava de sair passeando de nosso subúrbio até a cidade com minhas roupas finas, e não tinha dinheiro para um passeio de carruagem. Então disse à nossa boa mãe: "Querida mamãe, não vou visitar Mozart hoje. Ele estava tão bem ontem que certamente estará bem melhor hoje, e um dia a mais ou a menos não fará grande diferença." Minha mãe disse: "Bem, escute isso. Faça-me uma xícara de café, e então eu lhe direi o que você deve fazer." Ela estava um tanto inclinada a manter-me em casa; e realmente minha irmã sabe quanto eu aprecio estar em sua companhia. Fui à cozinha. O fogo tinha apagado. Tinha que acender a lamparina e acender o fogo.

Durante todo esse tempo, estava pensando em Mozart.

Fiz o café, e a lamparina estava ainda queimando. Então percebi quão esbanjadora eu tinha sido com minha lamparina, isto é, como eu tinha queimado tanta cera. Ela estava ainda queimando brilhantemente. Eu olhei dentro da chama e pensei com meus botões: "Como eu gostaria de saber como Mozart está." Enquanto eu estava pensando e olhando na chama, ela apagou, tão completamente como se a lamparina nunca tivesse estado queimando. Nem uma faísca ficou no grande pavio, porém não havia a mais leve corrente de ar - isso eu posso jurar. Um sentimento horrível me dominou. Eu corri para minha mãe e lhe contei tudo. Ela disse: "Bem, tire suas roupas finas e vá à cidade, e traga-me notícias dele imediatamente. Mas não demore." Eu acelerei meus passos, dentro do possível. Ah, como me assustei, quando minha irmã, que ainda estava em desespero mas tentando conservar-se calma, veio para fora até mim, dizendo: "Graças a Deus que você veio, querida Sophie. Noite passada, ele estava tão doente que eu pensei que ele não estaria vivo esta manhã. Fique comigo hoje, pois se ele tiver outra recaída, ele falecerá hoje à noite. Vá visitá-lo e verifique como está." Tentei controlar-me e fui para a cabeceira dele.

Ele imediatamente chamou-me a si e disse: "Ah, querida Sophie, como estou alegre em sua companhia. Precisa ficar aqui hoje à noite e acompanhar minha morte."

Tentei seriamente ser corajosa e persuadi-lo do contrário. Mas para todas as minhas tentativas ele apenas replicava: "Uai, eu já sinto o gosto da morte na minha língua." E "quem sustentará minha queridíssima Constanze, quando eu não estiver mais aqui?"

"Sim, sim, querido Mozart", confortei-o, "mas eu preciso primeiro voltar até minha mãe e dizer-lhe que você gostaria que eu ficasse em sua companhia hoje. Do contrário, ela pensará que aconteceu alguma desgraça com você."

"Sim, volte", disse Mozart, "mas não demore."

Bom Deus, como me senti angustiada! Minha pobre irmã seguiu-me até à porta e pediu-me pelo amor de Deus para ir aos padres da igreja de São Pedro e implorar a um deles que viesse até Mozart - uma visita ocasional, como era o caso. Eu fiz isso, mas por um longo tempo eles recusaram vir, e eu tive muita dificuldade de persuadir um daqueles brutos clericais ir até ele. Então eu corri para minha mãe que estava ansiosamente me esperando. Já estava escuro. Pobre alma, como ela estava abalada! Eu a convenci de ir passar a noite com a sua filha mais velha, a velha Josepha Hofer . Eu então voltei correndo tão rápido quando podia para minha irmã distraída. Suessmayr estava na cabeceira de Mozart.

O bem conhecido Réquiem ⁶ estava sobre a colcha, e Mozart estava explicando a ele como, em sua opinião, devia terminá-lo, quando ele já estivesse morto. Além disso, ele pediu à sua esposa manter em segredo a sua morte, até que ela tivesse informado a Albrechtsberger ⁷, pois o posto deveria ser dele diante de Deus e do mundo. Foi feita uma longa busca por Dr. Closset, que foi encontrado no teatro, porém ele respondeu que teria que esperar pelo fim da peça. Ele veio e prescreveu cataplasmas frios a serem colocados sobre a cabeça ardente de Mozart, os quais, contudo, o afetaram numa tal extensão que ele ficou inconsciente e ficou assim até a morte ⁸.

Seu último movimento foi uma tentativa com sua boca de representar as passagens do tímpano no Réquiem. Isso eu ainda posso ouvir.

Mueller ⁹ da Galeria de Arte veio e tirou uma cópia de sua face pálida e defunta.

Faltam-me palavras, queridíssimo irmão, para descrever como sua devotada esposa em sua total desgraça ajoelhou-se para implorar ao Todo Poderoso por Sua ajuda. Ela simplesmente não podia separar-se de Mozart, apesar de minhas instâncias para fazer isso. Se era possível aumentar seu sofrimento, isso foi feito no dia seguinte àquela horrível noite, quando multidões de pessoas passaram e choraram e lamentaram por ele.

Durante toda a minha vida, eu nunca vi Mozart com um humor, menos ainda, zangado.

Meu querido, perdoe-me se tiver sido prolixa e entediante em minha carta. Eu não me lembro se contei à minha irmã sobre o incidente muito estranho - em minha opinião - com a luz, como tenho sempre evitado cuidadosamente reabrir suas feridas.

Oh! como Mozart se preocupou quando sua amada esposa necessitava algo. Assim foi certa vez em que ela jazia muito seriamente doente, e eu estava junto dela e cuidei dela por oito longos meses. Eu mesma sentei em sua cama, Mozart também. Ele compunha perto dela; observei seu doce sono depois de um longo período de insônia. Ambos ficamos quietos como túmulo de modo a não incomodá-la. De repente, um empregado desajeitado entrou no quarto. Mozart sobressaltou-se com medo de que sua querida esposa fosse perturbada em seu doce sono, acenou-lhe para ficar quieto, moveu a cadeia para trás dele; Mozart estava segurando um canivete na palma de sua mão. O canivete espetou entre a cadeira e sua coxa, de modo que a ponta enterrou profundamente em sua carne rígida até o cabo. Mozart, que era normalmente chorão, não moveu um músculo e cerrou seus dentes para reprimir a sua dor, e acenou para mim para acompanhá-lo para fora do quarto. Fomos ao quarto onde nossa mãe vivia escondida porque não queríamos que Constanze soubesse quão doente estava e de onde aquela poderia prestar imediata assistência. Nossa mãe enfaixou a perna dele e colocou Coubey em sua ferida profunda. E com óleo Johannes, ela foi bem sucedida em restaurar a sua saúde. Embora Mozart mancasse por causa da dor, ele conseguiu manter em segredo seu acidente, e sua querida esposa não descobriu o que lhe aconteceu.

Escreva para dizer-me se você já sabia de tudo isso ¹.

NOTAS  EXPLICATIVAS, por Francisco José dos Santos Braga


¹   Nesta nota de rodapé, serão fornecidas informações gerais com o objetivo de contextualizar a carta de Sophie Heibl a Georg Nikolaus von Nissen, de 1825. 

Maria Sophie Weber era irmã caçula de Constanze Mozart e é lembrada principalmente pelo testemunho que ela deixou a respeito da vida e morte de seu cunhado genial. A terceira filha de Fridolin Weber (meio-primo de Carl Maria von Weber) e Cäcilia Weber. Nascida em outubro de 1763 em Zell im Wiesental, numa família musical, a mais jovem de quatro irmãs (sendo as outras Josepha nascida em 1758; Aloysia nascida em 1760; e Constanze nascida em 5 de janeiro de 1762); parece que apenas uma não conseguiu fama profissional como cantora - Constanze -, embora Mozart considerasse que ela possuía uma bela voz e ouvido musical. Logo após o nascimento de Sophie, a família mudou-se para Mannheim, depois para Munique, e finalmente para Viena, seguindo a carreira florescente de Aloysia. A própria Sophie cantou no Burgtheater na temporada de 1780-1781, mas aparentemente não fez nenhum sucesso de longo prazo como cantora.

Mozart esteve com a família Weber em 1777, quando foi a Mannheim em busca de emprego. Nesta ocasião, apaixonou-se por Aloysia durante sua estada, mas logo ele teve que partir para Paris, por não ter encontrado nenhum cargo permanente em Mannheim. A família Weber mudou-se mais tarde para Munique, onde tanto Aloysia quanto Fridolin tinham obtido emprego na ópera. Foi em Munique que Mozart encontrou novamente a família Weber (e foi rejeitado por Aloysia). Em setembro de 1779, a família Weber mudou-se para Viena, ainda seguindo Aloysia que buscava carreira artística na ópera vienense. Com a morte de Fridolin um mês depois, a matriarca viúva Cäcilia Weber lutou para manter a família Weber de pé. Passou a fazer renda admitindo pensionistas e fez tratativas com um pretendente de Aloysia, chamado Joseph Lange, que concordou em socorrer a família com um estipêndio anual de 700 florins quando ele viesse a esposar Aloysia, o que aconteceu em 31 de outubro de 1779. Quando Mozart se mudou para Viena em 1781 e morou certo tempo com a família Weber em Wieden (perto de Viena) na condição de pensionista, parece ter flertado tanto com Sophie quanto com Constanze (com quem veio a se casar). É desta época o seu incompleto Allegro em Si bemol KV 400, que contém nas palavras de W. Dean Sutcliffe "um episódio melódico independente em sol menor, com os nomes de Sophie e Constanze Weber inscritos sobre um par de figuras em prolongado suspiro." Numa carta de 15/12/1781, Mozart descreveu Sophie como "de boa natureza, mas cabeça de vento". Quanto a Constanze, assim Mozart a descreveu em carta a seu pai Leopold: "Ela é apenas bonita porque possui dois olhinhos negros e uma boa forma." Os biógrafos de Mozart consideram este um dos mais felizes períodos de sua vida. Estava livre do Arcebispo Colloredo; estava vivendo em Viena, onde dava concertos; estava apaixonado; havia um potencial imenso para sua produção musical: tinha alunos e um editor (Artaria e Companhia). Para decorar o bolo, em cinco meses compôs uma nova ópera (a primeira vienense do compositor), um Singspiel em 3 atos, intitulado "O Rapto do Serralho", com libreto de Johann Gottlieb Stephanie (filho), que foi estreada no Burgtheater a 16 de julho de 1782, quando Mozart estava noivo de Constanze, fato que contribuiu para que ele não ficasse indiferente ao enredo da ópera (Constanze, a personagem da ópera, era uma de duas ocidentais raptadas por piratas turcos, vendidas a um harém, sendo no final salvas por seus noivos, no caso, por Belmonte, devido à magnanimidade do Paxá). Quando a Sra. Weber percebeu o intenso relacionamento amoroso de Mozart e Constanze, ela pediu a ele que desocupasse o imóvel, pelo bem da propriedade (sic) ou por razões de decoro. Parece que Mozart se mudou para outro imóvel, mas levou consigo Constanze. Em 4 de agosto de 1782, quando Mozart e Constanze finalmente se casaram, foi Sophie a única a comparecer à cerimônia matrimonial. Se a relação de Mozart com sua sogra foi marcado por uma crise no início, com o nascimento do primeiro filho em 1783, Mozart se tornou cada vez mais afeiçoado à Sra. Weber. O casal Mozart-Constanze teve os seguintes seis filhos: Raimund Leopold (nasc./fal. 1783); Karl Thomas Mozart (21/09/1784-31/10/1858); Johann Thomas Leopold (nasc./fal. 1786); Theresia Constanzia Adelheid Friedericke Maria Anna (1787-1788); Anna Maria (nasc./fal. 16/11/1789); e Franz Xaver Wolfgang Mozart (26/07/1791-29/07/1844). Ou seja, apenas dois filhos (Karl Thomas e Franz Xaver sobreviveram a infância. Mozart morreu em 1791, deixando dívidas. Neste momento, as aptidões de Constanze para negócio entraram em cena: apelou ao imperador em 11/12/1791 para uma pensão de viúva que lhe era devida, sob a alegação de que Mozart estivera a seu serviço como compositor de música de câmara em regime parcial, e obteve tal pensão do imperador, organizou uma série de concertos memoriais lucrativos e embarcou numa campanha para a publicação das obras de seu marido. Ao mesmo tempo, observou-se que a reputação musical de Mozart cresceu em seguida à sua morte, a ponto de seu biógrafo do século XX, [SOLOMON, 1995, 499], descrever aquele período como "onda sem precedentes de entusiasmo". Quanto a Constanze, seus esforços aos poucos tornaram-na financeiramente estável e, por fim, rica. Ela enviou seus filhos Karl e Franz a Praga para serem educados por Franz Xaver Niemetschek, com quem ela colaborou na primeira biografia de longa extensão de Mozart. [WOLFF, 2012, 8, apud Bauer] escreve: "Constanze, que sobreviveu o compositor por mais de meio século e, depois de sua morte em 1842, ainda deixou a seus dois filhos uma importante fortuna de uns 30.000 florins em caixa, debêntures e contas de poupança - tudo com base em ganhos provenientes da música de Mozart." 

Quando Mozart morreu, Sophie tinha 28 anos, e era a única filha ainda solteira na família. Ela vivia com sua mãe Cäcilia, mas frequentemente comparecia na casa de Mozart durante a breve e agonizante doença final e subsequente morte do cunhado, - considerada portanto testemunha ocular - ajudando Constanze a cuidar de seu esposo moribundo.

Sophie casou-se em 7 de janeiro de 1807 em Diakovar, na Slavonia (Croácia) com Jakob Haibel (1762-1826), tenor, ator, mestre de coro da catedral de Diakovar, compositor e autor de Singspiele, o qual, por volta de 1789, se juntou à companhia de atores de Emanuel Schikaneder. Foi também autor de uma  ópera, Der Tiroler Wastel, seu maior sucesso, de 1796, que foi encenada 118 vezes ao todo no Freihaus-Theater auf der Wieden. Após a morte de Haibel em 1826, Sophie mudou-se para Salzburgo, onde Constanze pela segunda vez se enviuvara e passara a morar. Depois de 1831, Aloysia, agora viúva, se juntou às duas, mas faleceu em 1839. As duas restantes continuaram a viver juntas até a morte de Constanze em 6 de março de 1842. Seis meses antes de sua morte, Constanze presenciou a ereção do memorial de Mozart em substituição a uma fonte barroca e uma estátua de São Miguel numa praça em Salzburgo, diante da casa ocupada por ela.

(textos levemente modificados para atender os nossos fins)

²   Esta carta histórica de Sophie datada de 7 de abril de 1825 (ou seja, 33 anos após os fatos vivenciados) enviada para o segundo marido de Constanze, Georg Nikolaus von Nissen (1761-1826), diplomata dinamarquês e historiador musical, com o propósito de ajudá-lo na biografia de Mozart que ele e Constanze estavam preparando desde 1823. Além desse depoimento, o casal também se beneficiou grandemente com 400 cartas da família Mozart doadas por Nannerl, irmã de Mozart. Além disso, Sophie foi também entrevistada por Vincent e Mary Novello em 1829 durante a viagem que estes empreenderam para coletar informações sobre Mozart.
Nissen trabalhou assiduamente para juntar todo material biográfico que ele pôde, incluindo entrevistas com pessoas ainda vivas que tinham conhecido o compositor. Infelizmente Nissen faleceu em 24 de março de 1826, sem concluir nem publicar a pretendida biografia de Mozart.
Apenas o prefácio pode ser atribuído a Nissen. A conclusão da obra, com base nas notas de Nissen, foi deixada ao médico e entusiasta de Mozart, Dr. Johann Heinrich Feuerstein (1797-1850). Uns entendidos consideram o novo autor "instável", resultando numa obra desastrosa em termos de qualidade. Outros consideram a obra problemática, questionando a confiabilidade de vários de seus relatos, acusando-os de plenos de contradições e de erros; acusam a obra de selecionar as cartas que cita e censura.
A biografia só foi publicada em 1829 e foi intitulada "Biografia de W. A. Mozart: com base em cartas originais e tudo o que foi escrito sobre ele, e com muitos novos suplementos, litógrafos, páginas de música e um fac-símile".
Outra possível fonte de imprecisão nesta biografia é atribuída à própria Constanze. De acordo com [SOLOMON, 1995, 501], biógrafo de Mozart do século XX, ela "tinha desenvolvido um interesse em exagerar a generosidade, a pobreza e a falta de reconhecimento de Mozart, e assim, na biografia de Nissen, ela validou muitos falsos relatos - principalmente os que originavam com o editor Friedrich Rochlitz - dando relevância para tais assuntos, inclusive os que alegavam que Mozart era explorado por empresários, editores e seus colegas músicos."


Cf. in https://en.wikipedia.org/wiki/Georg_Nikolaus_von_Nissen
 
Além dessas iniciativas de Sophie e Constanze, a irmã de Mozart, Nannerl, forneceu informações a Friedrich Schlichtegroll, que, aliadas às espirituosas anedotas e memórias de Andre Schachtner, um amigo da família Mozart da época da infância de Wolfgang, se constituíram base para um relato sobre os primeiros 25 anos da vida do compositor, ou seja, até 1781. Schlichtegroll (1765-1822) pode ser considerado o primeiro biógrafo de Mozart.

³  Sra. Cäcilia Weber, mãe de Constanze e Sophie, morreu em 22 de agosto de 1793.

⁴  Café da tarde.

⁵  Josepha Weber-Hofer, que em 1797 tinha casado com seu segundo esposo, o ator e cantor Friedrich Sebastian Mayer (1773-1835), morreu em 29 de dezembro de 1819.

(Talvez caiba aqui acrescentar o que descobri sobre Josepha enquanto cantora: Foi a primeira soprano a representar o papel da Rainha da Noite (parte famosa por exigir passagens difíceis de coloratura) na estreia altamente bem sucedida da ópera A Flauta Mágica (1791), de Mozart. De sua qualidade vocal, o New Grove diz: "De acordo com relatos contemporâneos, ela dominava uma tessitura muito aguda, mas possuía certa rispidez na voz e faltava-lhe presença de palco." Então, a primeira qualidade deve tê-la municiado para assumir as passagens muito difíceis da coloratura que Mozart escreveu para a parte da Rainha da Noite.)

⁶  O Réquiem K. 626. Seis meses antes, Mozart tinha sido comissionado pelo conde Franz Walsegg-Suppach para compor esse trabalho, que, contudo, tinha sido protelado devido à sua viagem a Praga no começo de setembro para a produção de A Clemência de Tito e à sua produção de A Flauta Mágica, estreada em 30 de setembro.

  Conforme a intenção de Mozart, Albrechtsberger, o organista da corte, sucedeu-o como assistente do Mestre de Capela na Catedral de São Estêvão, Leopold Hoffmann.

⁸  Mozart faleceu aos 55 minutos da madrugada do dia 5 de dezembro de 1791.

⁹   Conde Jozef Deym von Stritetz (1752-1804), pseudônimo Mueller, foi proprietário de uma loja de coleção de obras de cera, moldes de antiguidades, e atrações variadas, que, de 1797 em diante, ficou situada num edifício no canal do Danúbio. A máscara mortuária de Mozart desapareceu. De acordo com Nohl ("Mozart segundo Narrações dos seus Contemporâneos", p. 393), Constanze, um dia, ao limpá-la, estilhaçou a cópia em sua posse. Dizem que ela observou que "estava alegre com o fato de que tinha se quebrado a coisa feia velha" (A. Schurig, "Apontamentos de Leopold Mozart", p. 92)

¹  Daniel Wakin, em artigo no New York Times, inicia o artigo intitulado “Depois da morte de Mozart, uma infinita coda” com as seguintes indagações: "Há qualquer evidência médica direta? Nenhuma. Autópsia? Não foi realizada. Existem registros médicos? Nenhum foi encontrado. E quanto ao cadáver? Desapareceu." (...) Faltando evidência direta, os pesquisadores tiveram que confiar principalmente nos relatos pela viúva de Mozart, Constanze Mozart, e por sua irmã, Sophie Haibl, feitas três décadas mais tarde, quando então as memórias das testemunhas poderiam ter esmaecido. Também alguma evidência vem de um documento não datado pelo filho de Mozart, Karl Thomas, e de uma descrição – de novo, décadas mais tarde – por um médico vienense que conversou com os médicos que trataram de Mozart nos seus dias finais. Autoridades entendidas em medicina também examinaram relatos das doenças de Mozart nas cartas escritas por membros da família, especialmente por seu pai, Leopold, para descobrir indicadores relativamente à sua moléstia final. Especulou-se sobre uma anormalidade na forma do seu ouvido, o que levou alguns a sugerirem que tenha sido provável a falência do rim, uma vez que as deformidades do trato urinário são às vezes relacionadas a anormalidades do ouvido. (...) O quadro da doença final de Mozart está claro. Ele caiu de cama em 20/11/1791, depois de intenso período que produziu “A Flauta Mágica”, “A Clemência de Tito”, o concerto para clarineta, uma cantata maçônica e partes do seu Réquiem. Suas mãos e pés estavam inchados. Ficou apático, sofria ataques de vômito e estava com febre. (...) Em 4 de dezembro vários amigos aparentemente foram à cabeceira de Mozart cantar partes do Réquiem. Sobre esse evento Benedikt Schack, amigo íntimo de Mozart para quem ele escreveu o papel de Tamino em A Flauta Mágica, disse a um entrevistador que, no último dia de vida do compositor, participou de um ensaio do Réquiem, verbis
"Na mesma véspera de sua morte, Mozart mandou trazer a partitura do Réquiem à sua cama, e ele próprio (eram duas horas da tarde) cantou a parte do contralto; Schack, o amigo da família, cantou a linha do soprano, como já vinha fazendo previamente; Hofer, cunhado de Mozart, fez a parte do tenor; Gerl, mais tarde baixo do Mannheim Theater, fez a parte do baixo. Eles estavam nos cinco compassos de Lacrimosa quando Mozart começou a chorar amargamente, colocou a partitura de lado, e onze horas mais tarde, a uma hora da madrugada (de 5 de dezembro de 1791, como é sabido), despediu-se da vida." 
Esse questionável relato de Schack apareceu num obituário para Schack que foi publicado na edição de 25 de julho de 1827 da Allgemeine musikalische Zeitung.
De noite, Mozart piorou, e seu médico, Dr. Thomas Closset, foi convocado a vir do teatro, mas enviou recado de que viria tão logo a peça terminasse. Quando chegou, receitou compressas frias aplicadas sobre a cabeça de Mozart, o que as testemunhas disseram ter provocado tremor no paciente. Uma hora depois da meia noite, em 5 de dezembro Mozart estava morto, aos 35 anos. Dr. Closset diagnosticou a doença de Mozart como febre miliária (este termo é usado para descrever pústulas – efetivamente, uma erupção cutânea) aguda, registrada como causa mortis no livro de óbitos da Catedral de Santo Estêvão em Viena. O corpo de Mozart foi sepultado no distrito vienense de Landstrasse, no Cemitério de São Marcos, sem sinalização, numa sepultura comum, de acordo com a prática típica da época para a classe média vienense, o que dificultou que os restos mortais que eram indiscutivelmente dele ficassem disponíveis para teste.
Nesta altura, o artigo põe em cena algumas descobertas médicas. Dr. Karhausen encontrou 118 causae mortis que têm sido propostas para Mozart. Dr. Dawson recusa-se a dar seu próprio número específico. Mas divide as causas em cinco grupos: envenenamento, infecção, doença cardiovascular, doença renal e outros. Sangria como tratamento pode também ter apressado a morte de Mozart. 
A teoria de envenenamento – ou pelo colega de Mozart, Antonio Salieri, ou pelo próprio Mozart para tratar sífilis (uma doença excluída há muito tempo) – foi descartada bastante sumariamente depois de uma fofoca na virada do século XIX. Contam que o próprio Mozart, que tinha suspeitado envenenamento, então mudou sua mente em seus meses finais. 
Na categoria da infecção bacteriana têm sido propostas as seguintes:  endocardite, septicemia estreptocócica, tuberculose e infestação parasítica. A febre reumática tem sido a principal candidata desde um estudo por um médico suíço chamado Carl Bär que constituiu um marco em 1966. As causas de uma doença cardiovascular incluem um ataque e a falência congestiva do coração. A diagnose mais comum encontrada por Dr. Dawson foi a uremia, um acúmulo de toxinas no sangue causado por doença renal. Também a causa dos problemas renais de Mozart continua em discussão (...)
Cf. in http://www.nytimes.com/2010/08/25/arts/music/25death.html


Em 18 de agosto de 2009, a BBC Brasil noticiou que pesquisadores da Universidade de Amsterdam, na Holanda, apresentaram uma nova teoria sobre a misteriosa causa mortis de Mozart, num estudo publicado na edição daquela semana da revista Annals of Internal Medicine: Mozart teria sido vítima de complicações geradas por uma infecção bacteriana na garganta. A partir daí, microorganismos teriam infectado os rins do compositor, levando a uma síndrome nefrítica aguda (edema ou inchaço provocado pelo acúmulo de fluidos sob a pele) e à sua morte. Mas não descartaram a possibilidade de outras causas para a morte do compositor, como a febre escarlatina ou uma doença crônica do coração ou dos rins.




BIBLIOGRAFIA



SOLOMON, Maynard: Mozart: A Life, New York, NY: HarperCollins, 1995, 1ª edição. 

WAKIN, Daniel J.: "After Mozart's Death, an Endless Coda", The New York Times, edição de 24/08/2010.

WOLFF, Christoph: Mozart at the Gateway to his Fortune: Serving the emperor 1788-1791, New York: Norton.

sábado, 23 de dezembro de 2017

NATAL E REIS MAGOS NA GRÉCIA E NA ESPANHA


Por Francisco José dos Santos Braga


I.  INTRODUÇÃO

 
Para tratar da época natalina no mundo, escolhi dois países de enorme religiosidade e tradição: a Grécia e a Espanha.

Na Igreja católica a vigília do Natal é comemorada no dia 24 de dezembro. Nas Igrejas greco-católica e ortodoxa, que se utilizam do calendário juliano, isso ocorre no dia 6 de janeiro, e na Igreja católica do rito armênio, no dia 5 de janeiro. O Natal propriamente dito cai no dia 25 de dezembro para os católicos que seguem o calendário gregoriano (cuja reforma foi promovida pelo Papa Gregório XIII, em 1582 d.C., para, de novo, fazer o ano civil coincidir com o ano solar), enquanto o Natal ortodoxo cai no dia 7 de janeiro, porque a Igreja ortodoxa segue o calendário juliano com o seu ano solar (criado por Júlio César em 45 a.C.).

A palavra "vigília" provém da língua latina e significa vigilância. Antigamente havia na Igreja o costume de, no dia anterior às principais solenidades, obrigar o jejum, e os fiéis aguardarem, a noite toda, essa solenidade, rezando e velando conjuntamente.



Feliz Natal! Eftichisména Christoúgenna! 
Bom Natal para todos! Kalá Christoúgenna se ólous!

Na Grécia, no dia 24 de dezembro as vizinhanças são acordadas pelas campaínhas das portas, acionadas por crianças de todas as idades em duplas ou em pequenos grupos que perguntam se podem entoar as canções de Natal (kálanda) nas casas com seus triângulos metálicos (trígona) anunciando o nascimento de Cristo. (Kálanda provém do latino calendae, que designa o primeiro dia do mês, no calendário romano.)  Geralmente essas crianças nunca saem de mãos abanando dessas casas visitadas: ou ganham doces ou dinheiro. Segundo a tradição, o ato de abrir a porta da casa para as crianças cantarem traz boa sorte e prosperidade. Esse costume é geral: acontece desde nos pequenos vilarejos até nas grandes cidades. 

Exemplo de kálanda no YouTube (música e verso tradicional, território pan-helênico): 
https://youtu.be/nSnhvgsTa04

Minha tradução para Kálanda Christougénnon:

Boa noite, soberanos,
e, se for vosso comando,
o divino nascimento de Cristo,
possa eu entrar em vosso solar:

Cristo nasce hoje
na cidade de Belém
os céus ficam serenos
toda a natureza se alegra.

Na caverna nasce
no estábulo dos cavalos
o rei dos céus,
o criador de tudo. 

Canta uma multidão de anjos
o "Glória nas alturas",
e isto seja digno,
a fé dos pastores. 

Da Pérsia vêm
três magos com os presentes,
uma estrela brilhante os conduz
sem perder a hora.

Até recentemente, em lugar da árvore de Natal, na Grécia o que representava o Natal grego era um barco de pequeno porte enfeitado com luzes e bolinhas coloridas.

A ceia do dia 24 de dezembro é bem farta, com muitas frutas, Christópsomo (o pão natalino), cordeiro e peixes. Não há distribuição de presentes nesse dia, nem missa. Alguns pratos comuns tanto nessa ceia quanto na passagem do ano, a saber: o roscão de São Basílio ou Ághios Vassílis (a figura central do Natal grego, o santo mais popular da Ásia Menor, sendo o que distribui presentes para as crianças em 1º de janeiro, dia de comemoração da morte do santo), a Vedette, os melomakáronas e os kourabiedes.

Sobre essas iguarias, cabe lembrar que o roscão de São Basílio é um pão onde se esconde uma moeda, com a crença de que quem a encontra terá um ano próspero. A vedette é um biscoitinho oval oferecido a amigos e vizinhos, simbolizando a partilha. Melomakárona são biscoitinhos à base de mel, perfumado com canela e cravo e decorado com as raspas de laranja, servidos no fim da ceia. Kourabiedes são saborosos biscoitinhos amanteigados de baunilha polvilhados com açúcar em pó. E Christópsomo é um pão feito com grandes uvas doces e decorado com uma cruz esculpida na crosta superior antes de ser assado. No dia de Natal, o chefe da família faz o sinal da cruz sobre o pão, corta-o e dá um pedaço a cada pessoa na mesa de jantar.
Christópsomo (pão natalino) e frutas secas

Como se vê, a celebração natalina grega é bem sóbria, não há árvore de Natal, luzes ou meias sob a lareira ou na janela. Em algumas aldeias a decoração não passa de um arranjo de maçãs gratinadas com mel no centro da mesa.

A festa da Teofania, comemorada a 6 de janeiro, encerra as festividades natalinas na Grécia. Segundo as crenças ortodoxas, 6 de janeiro é o dia do batismo de Jesus (diferentemente do Brasil que na mesma data comemora os Reis Magos). Daí a associação dessa data com a água.

Definitivamente esta é uma festa religiosa totalmente grega, celebrada para e por gregos ortodoxos, não para turistas. A Epifania também é chamada de festa das Luzes (gr. Fóta). Por isso, neste dia os Gregos se cumprimentam com os votos de "Boa Iluminação!" (gr. Kalí fótisi!).

Este dia adquire um significado especial para os Gregos, quando se celebra uma cerimônia de bênção das águas e dos barcos que as singram. Todas as cidades costeiras ou banhadas por rio organizam suas próprias cerimônias. A de Atenas se realiza no porto de Piréus, onde um sacerdote lança um grande crucifixo às águas do porto. Jovens valentes, que não temem o frio, competem entre si para recuperá-lo. Uma vez finalizada a cerimônia da cruz, os pescadores locais aproximam seus barcos do molhe, para serem benzidos pelo sacerdote.



Feliz Navidad!
Felices Pascuas de Navidad!

O Natal na Espanha é um dos mais peculiares entre os países de maioria católica.

A noite do dia 24 é chamada de Nochebuena, momento em que se reúne a família para uma farta ceia, geralmente composta de paella, obviamente, mariscos, aves e doces à base de mel e nozes. Não há troca de presentes nesse dia e à meia noite os mais religiosos vão à Missa do Galo. No dia seguinte, reúne-se a família mais uma vez para o almoço de Natal. Em algumas regiões o prato principal é cordeiro; em outras, caldos e mariscos. Na Catalunha, comemora-se o dia 26 de dezembro, Dia de São Estêvão, mais importante que o Natal.

Uma tradição comum a todo o país é a montagem de presépios, lá chamados de belén. Próximo a estes, as crianças se reúnem para cantar villancicos, canções natalinas acompanhadas de pandeiros, gaitas e flautas, indicando obviamente uma influência árabe.

A data mais estranha da comemoração natalina espanhola é o 28 de dezembro, Dia dos Inocentes, relembrando o massacre de crianças com idade de até dois anos ordenado por Herodes no período do nascimento de Jesus. Nesse dia as crianças saem às ruas pedindo aguinaldo, que é presente em dinheiro. Nesse dia também é permitido mentir, correspondendo ao nosso 1º de abril.

Também o Papai Noel às vezes é detestado; mais queridos mesmo são os Reis Magos que presenteiam as crianças apenas no dia 6 de janeiro. A celebração começa na Noite de Reis, dia 5 de janeiro, quando as crianças deixam tigelas com água nas janelas, com o intuito de matar a sede dos camelos dos Reis do Oriente, que, em retribuição, deixam presente no lugar da tigela. No dia seguinte come-se a Rosca de Reis, uma torta com um presente dentro, que é considerado sinal de sorte a quem o encontra.



II.  Texto natalino grego: A mesa natalina (pp. 22-25)

Por Nina Kokkalídou-Nachmía
Tradutor da língua grega: Francisco José dos Santos Braga

Acabamos de voltar da igreja. Como diz a canção: "flocos de neve estão caindo". As árvores estão decoradas com neve. Tudo parece natalino. Antes de termos saído para a igreja, a vovó e a mamãe tinham posto a mesa. A massa para fritar os "pasteizinhos" (teganítes) já estava pronta ao lado da lareira. Começamos a lamber os nossos lábios. Imediatamente, a vovó põe na brasa da lareira a frigideira com o azeite. Corta a massa em pequenos pedaços e os coloca no azeite fervente. Os "pasteizinhos" crescem conforme vão sendo fritos. O mel com as nozes estão sobre a mesa. Enfiamos as massas fritas no mel e as comemos. Bebemos nosso leite, desejamos a todos "Feliz Natal" e esperamos...

Chegam os Magos com os presentes. Nosso avô é o grande Mago, que traz os pacotes. Beijamos sua mão e recebemos cada um o seu presente. Felizes e impacientes, abrimos os pacotes para vermos os nossos presentes. Depois, o Mago menor, Filipe, que é xará do vovô, traz os nossos presentes que tínhamos secretamente preparado. Rapidamente os distribuímos. Abraços, beijos e votos... Corremos ao nosso quarto e brincamos com nossos novos brinquedos e deixamos os adultos ocupados em preparar a mesa natalina. Doces fragrâncias enchem a casa. "Cristo esteja em nossa mesa", diz vovó, ao colocar sobre o centro da mesa o pão natalino. Quando tudo está pronto, chama-nos: "Crianças, venham para a mesa!"

Estamos todos bem vestidos. Veio também nossa tia com os nossos primos. Tortas, perus, costeletas de porco! Não sabemos por onde começar. "Deixem um espaço para a sobremesa", diz mamãe. "Não lhes disse de manhã para não comer tantas massas fritas?" (Mamãe chama os "pasteizinhos" de lalanguites; diz que nos lembram das fraldas de Cristo.)

Finalmente, em certo momento saímos da mesa. Lá fora, a neve brilhava na escuridão. Todas as crianças paramos ao lado da lareira e cantamos o cântico escolar:
"Neve na torre da igreja que anuncia o Natal,
neve no campanário, que acordou toda a vila.
Todos para a igreja, para adorar Cristo,
Esta noite brilha a Virgem Maria!..."


III.  Texto natalino espanhol: Grabados: Los Reyes Magos e Tradición cristiana (pp. 2 e 7 de "La Hormiga de Oro" de 1902, 19ª edição anual)
Tradução da língua espanhola: Francisco José dos Santos Braga

Ante-rosto de La Hormiga de Oro, 1902 
- Imagem: Os Reis Magos




GRAVURAS: OS REIS MAGOS

Os orientais chamavam Magos a seus doutores, como os hebreus os chamavam Escribas, os egípcios Profetas, os gregos Filósofos, os latinos Sábios; e esta palavra Mago em língua persa também significa Sacerdote. Em todas estas partes os respeitavam sumamente os povos, tendo-os como depositários da ciência e da religião. A Igreja dá o nome de Reis a estes três homens ilustres com base naquelas palavras de Davi (Sl 71, 10-11): Os Reis de Társis e das Ilhas lhe trarão presentes, / os Reis da Arábia e de Sabá virão oferecer-lhe seus dons /, em prendas de sua veneração, de sua fidelidade e de sua obediência. Também se baseia em uma tradição tão antiga que não é fácil encontrar-lhe princípio, achando-se pinturas antiquíssimas que os representam pessoas coroadas com todas as insígnias da majestade. Acrescente-se a este os testemunhos dos Padres mais célebres da Igreja, como Tertuliano, São Cipriano, São Hilário, São Basílio, São João Crisóstomo, Santo Isidoro, o venerável Beda, Teofilacto e muitos outros. É certo que as nações orientais, quando os reinos eram eletivos, escolhiam reis entre os filósofos; e se eram hereditários, procuravam instruir nas ciências os príncipes, de maneira que pudessem merecer o título de sábios. Assim o observa Platão, tratando da educação dos príncipes da Pérsia, acrescentando que sobretudo a astronomia era estimada como a ciência mais digna dos soberanos.

Tendo, pois, estes três Monarcas, chamados Gaspar, Baltasar e Melchior, observado uma estrela mais brilhante que as ordinárias, julgaram que era aquela estrela de Jacó, anunciada por um profeta como sinal de um Rei que havia de nascer para saúde de todo o gênero humano.

Foram os Magos guiados pela estrela durante toda a viagem, que foi de doze dias, ou vizinho deles; e sabido é de todos como chegaram a Jerusalém, suas relações com Herodes, e sua chegada a Belém, onde, cheios de fé e respeito, prostraram-se aos pés do Menino Jesus e o adoraram, oferecendo-lhe, segundo o costume de seu país, os gêneros mais preciosos e mais estimados que levavam de sua terra: ouro, incenso e mirra.

Há a garantia de que as relíquias daquelas personalidades, primícias do Catolicismo, foram transportadas da Pérsia a Constantinopla pelo zelo e piedade da imperatriz Santa Helena; que, depois, no tempo do imperador Emanuel, foram transladadas a Milão, onde permaneceram por 670 anos, segundo Galesino, até que, finalmente, quando esta cidade foi tomada e saqueada por Frederico Barba-Roxa em 1163, foram conduzidas a Colônia, onde se conservam com singular veneração. 


TRADIÇÃO CRISTÃ

Quando os Reis Magos chegaram a Belém para adorar o Menino Deus, alguns pastores, não tendo que oferecer-lhe, juntavam algumas flores do campo para apresentá-las ao recém-nascido; porém, quando vieram os ricos presentes dos Reis, disseram cheios de tristeza:
Diante desses ricos presentes de ouro e prata, de que servirão nossas flores? O Menino não se dignará nem sequer olhá-las! 

Mas quando enfim se apresentaram os pastores, o divino Menino, afastando com suas mãozinhas os ricos dons que tinha diante de si, tomou dentre as flores que lhe apresentavam uma margarida dos campos, e levando-a aos lábios deu-lhe um beijo. Desde então as margaridas, que eram inteiramente brancas, tomaram uma cor de aurora e em seu centro levam um raio de ouro, caído dos divinos lábios.
Nosso presépio caseiro, com La Hormiga de Oro e Billiken, vol.1, de 1949, acompanhados de uma coletânea de Lieder de Franz Schubert




IV.  AGRADECIMENTO



Quero aqui registrar meu agradecimento a minha amada esposa Rute Pardini, que, durante todo o ano de 2017 e especialmente neste trabalho, emprestou sua habilidade na tomada e formatação de imagens para os meus blogs.



V.  BIBLIOGRAFIA




KOKKALÍDOU-NACHMÍA, Nina: "Quando os Gregos festejam: Alexandra conta a suas crianças amigas sobre os feriados do ano" (em grego), Salônica: Instituto de Estudos Gregos Modernos da Universidade Aristotélica de Salônica, 1995, 159 p.

LA HORMIGA DE ORO, Ano XIX, Barcelona, Sábado 4 de Enero de 1902, nº 1, 832 pp.

quinta-feira, 21 de dezembro de 2017

A CORRENTE MIGRATÓRIA PARA A EUROPA PODE CONSTITUIR A CONCRETIZAÇÃO DE UM PLANO TENEBROSO DE 1922


Por Maria Negreponti-Delivanis
(Tradutor do texto em língua grega: Francisco José dos Santos Braga) 



O texto que segue constitui uma pré-publicação do novo livro de Maria Negreponti-Delivanis intitulado "Boa Noite Ocidente, Bom Dia Oriente

Publicado na revista Atualidades em 16/12/2017
Introdução
O texto que segue não é fruto de imaginação científica, nem pertence à categoria das teorias conspiratórias. Tudo o que se refere a ele constitui realidade do início do século passado.
Não estou convencida de que tudo o que acontece na Europa com a onda migratória e as consequências que, com precisão matemática, resultarão disso, seja efeito do correspondente plano de Kalergi. Contudo, é difícil para mim, diria também para aquele que ler as linhas deste artigo, perguntar-me "sobre o que precisamente significa", "o que pode estar escondido" debaixo deste indescritível drama dessas pessoas, que relação pode existir "entre o clero europeu e os prêmios Kalergi", etc.
Achei, então, que interessará aos leitores da revista "Atualidades" e, ainda, que provavelmente encoraje também uma continuação da pesquisa, de modo a se esclarecer este caso realmente curioso.

a) A concretização do plano Coudenhove-Kalergi: O genocídio dos povos da Europa ¹

O plano Coudenhove-Kalergi poderia ser fruto de uma novidade fantasiosa, mas também uma conspiração para o genocídio dos povos da Europa. Em 1922, Coudenhove-Kalergi, um jovem bem dotado de procedência aristocrática, fundou o movimento "Pan-Europa" em Viena, que aspirava criar uma nova ordem internacional, centrada na união da Europa, e sob o comando dos Estados Unidos. A unificação europeia constituiria o primeiro passo para a criação de um governo universal. Contudo, esse plano era do conhecimento de poucas pessoas, e em seguida foi esquecido por quase um século, contudo, para os iniciados, Richard Coudenhove-Kalergi é tido, e corretamente, o fundador da União Europeia. Ainda é mínimo o número daqueles que sabem que o plano "Pan-Europa" escondia uma previsão satânica, mas também um objetivo nefasto, a respeito do futuro da Europa: o seu desaparecimento. De fato, na capa do livro "Idealismo Prático", Kalergi defende que os habitantes dos futuros "Estados Unidos da Europa" não terão relação com os antigos povos do Velho Continente, mas serão uma espécie de subhumanos que provirão de um cruzamento. Desenvolve, sem escrúpulos, a opinião de que os Europeus precisam mesclar-se com raças asiáticas e africanas, de forma a darem em uma raça sem qualidade, que seja completamente controlada pela América, com a ajuda de uma elite aristocrática. Kalergi esclarece: "O homem do futuro descenderá de uma origem racial mista. As raças e as classes de hoje desaparecerão paulatinamente por causa da supressão do espaço, do tempo e do preconceito. A raça euroasiática-negróide do futuro, semelhante à sua aparição com os antigos Egípcios, substituirá a diferenciação dos povos e das pessoas." A supressão das nações e povos pode ser conseguida, segundo Kalergi, entre outras, também com a imigração. Precisamente, o renascimento deste plano tenebroso parece unir-se diretamente com o recente e incontrolável fluxo de imigrantes/refugiados na Europa, os quais pertencem às raças, que constituem as preferências do plano Kalergi. Mas, certas pessoas, que destestam o cheiro das conspirações, teriam possivelmente a inclinação de sustentar, e provavelmente com ar superior, que se trata de uma simples coincidência. Contudo, o plano é emoldurado por certos fatos, que já é difícil prosseguir a serem tomados por "coincidências". Seleciono, para a conclusão desta alínea do artigo em mãos, os seguintes:
* Primeiro, em honra de Coudenhove-Kalergi, foi inaugurado o prêmio europeu, o qual é entregue a cada dois anos, a Europeus, os quais se reconhece que contribuíram para a promoção do plano Kalergi. E os premiados até hoje são: Angela Merkel e Herman Van Rompuy, duas das "peças supremas" do Clube Bildemberg. ²
* Segundo, como é conhecido, os Estados Unidos da América incentivam permanentemente a Europa, através das Nações Unidas, a acolher milhões de imigrantes, para solucionar assim o problema de baixa taxa de natalidade e de envelhecimento da sua população. Concretamente, refere-se a relatório das Nações Unidas de janeiro de 2000, intitulado "Imigração da substituição: Uma solução para a redução e o envelhecimento da população", onde é mencionado o fato que até 2025 a Europa precisará 150 milhões de imigrantes. ³  É realmente surpreendente este número preciso, que automaticamente remete, em associação também com tudo referido anteriormente, à existência de um plano premeditado. Agradeço a questão dele porque as Nações Unidas não aconselham a Europa a adotar outras soluções, como programas de apoio de famílias, análogos aos que empregam os Franceses há muitas décadas, mas ao contrário a incitam a colocar-se num programa de seu genocídio. 
* Terceiro, a seguinte manifestação de G. Brock Chisholm, ex-diretor da Organização Mundial da Saúde (OMS), que é referido pelo artigo em mãos, reforça as suspeitas sobre a existência de um plano tenebroso, contra a viabilidade da Europa, com base nas opiniões de Kalergi. Tal manifestação é a seguinte: "Aquilo que em todos os lugares as pessoas precisam fazer é praticarem a limitação dos nascimentos e realizarem casamentos mistos (entre diferentes raças), e isto com o objetivo de se criar uma raça una num mundo que será dirigido por uma autoridade central" (isto é, por um governo mundial).
* Quarto, finalmente, é difícil evitarem-se associações entre a provável marcha do emprego do plano Kalergi e a inclinação de certas economias europeias, dentre as quais também a da Grécia, a abolirem o ensino religioso nas escolas, a diminuírem a importância do ensino da língua pátria, ou a deformarem a história do país nos livros didáticos escolares, a desvalorizarem valores humanos básicos, símbolos nacionais e vitórias históricas que mantém o orgulho nacional e a identidade nacional.

De forma conclusiva, também ainda é difícil para quantos tentam ficar, dentro do possível, longe da relação de qualquer forma com "teorias conspiratórias", porque as consideram não sérias e não científicas , ignorarem a realidade imperiosa: que, as coisas que acontecem na Europa com a corrente migratória não controlada, se acham detalhadamente registrados no livro de Kalergi, desde 1922 na forma de votos, que já estão se realizando. Claro, não se pode excluir o argumento de que "se trata de simples coincidência" e não de um plano pré-traçado. Mas, mesmo que seja respeitável a opinião dos que recusam categoricamente reconhecer a existência de conspirações na realidade internacional, não é possível haver refutação para o fato de que precisam acontecer na Europa. Kalergi, além disso, que foi o primeiro que teve a ideia da Europa unida, propunha como seu hino nacional o hino de Beethoven, mas também sonhou com o renascimento do "Novo Sacro Império Romano". Kalergi não estava só, mas teve o apoio de importantes pessoas da sua época, que se entusiasmaram com a ideia da Europa unida. Líderes estatais, príncipes e banqueiros são citados como apoiadores e financiadores das suas ideias, enquanto depois do fim da II Grande Guerra, tanto Winston Churchill, quanto o jornal New York Times e finalmente a CIA concordaram e apoiaram as opiniões dele . O plano Kalergi era e permaneceu ignorado para muitos, não por falta de interesse, mas, como parece, pela imposição de alguma espécie de censura oficiosa em torno dele. Conta-se, a esse respeito, que o livro de Kalergi é raro. Em 1990 o jornal alemão Notícias Independentes publicou um resumo do livro de Kalergi e formulou a intenção de republicar o livro, mas a polícia confiscou a única cópia que então circulava. Além disso, é curioso que o livro de Kalergi não seja citado nas páginas bibliográficas oficiais da Internet, relativamente ao movimento da Pan-Europa.

b) Constatações paralelas e advertências sobre o fim da Europa
A combinação do envelhecimento e da baixa taxa de natalidade da Europa, aliados à impetuosa corrente migratória encontra-se na base das constatações, que não se relacionam diretamente com o plano Kalergi, mas que resultam nas mesmas consequências, a saber, no desaparecimento da Europa. Cito o seguinte trecho, que está contido no artigo de Giulio Meotti :
"A população da Europa diminui aproximadamente dois milhões ao ano, e constantemente é preenchida por população de imigrantes. David Coleman caracteriza da seguinte forma essa substituição: A redução suicida da baixa taxa de natalidade europeia, em combinação com os imigrantes que aumentam rapidamente, transformarão a cultura europeia. A queda do ritmo de natalidade pelos Europeus nativos coincide na realidade com a institucionalização do Islam na Europa e com a renovação da sua islamificação."

Lord Sacks declarou recentemente: "A redução da taxa de natalidade pode significar o fim do Ocidente." A Europa, à medida que envelhece, já não renova as suas descendências, e no seu lugar dá boas vindas a uma migração, vinda do Oriente Médio, África e Ásia, que substituirão os Europeus nativos, e que trazem culturas com valores radicalmente diferentes, pela relação das duas raças, o poder político, a cultura, a economia e a relação de Deus com o homem.

O Cardeal Raymond Leo Burke previu que "o Islam conquistará a Europa por causa da fé e do ritmo da natalidade."

Os neoliberais, exatamente do mesmo jeito que enfrentam o problema da destruição do meio-ambiente, com idêntica atitude patética enfrentam o problema migratório: esperando a "mão invisível" restabelecer a ordem. E neste ínterim, com a projeção de alguns argumentos, que, sob condições normais, correspondem às coisas, como, por exemplo, que a Europa precisará, no futuro próximo, de mão de obra ou que as comunidades mistas garantem qualidade de vida, justificam o fato de que se mostrem amigáveis diante as vindas descontroladas de imigrantes.

Assim, "depois de uma geração a partir de hoje, a Europa será irreconhecível. Os povos europeus estão conscientes, em alto grau, de que a sua cultura corre perigo principalmente por uma liberalidade leviana, uma ideologia que se esconde sob a máscara da liberdade, e que tem como objetivo a demolição de todas as instituições que ligam a pessoa à sua família, os seus parentes, o seu trabalho, a sua história, a sua religião, a sua língua, a sua Nação, a sua liberdade. Esta atitude parece provir de uma inércia que conduz à indiferença para com o sucesso ou a catástrofe da Europa, para com o desaparecimento de nossa cultura, mergulhado no caos étnico, ou para com o saque desencadeado por uma nova religião que é oriunda do deserto".

Sob o prisma de tudo quanto foi referido acima, o livre fluxo de imigrantes/refugiados deve ser visto como o último estágio, depois da globalização e do liberalismo puro, da marcha para o estabelecimento do governo mundial do nosso planeta. ¹

 

NOTAS  EXPLICATIVAS



¹    O artigo  foi originalmente postado no site "Identità". Mais tarde, foi traduzido do italiano e aperfeiçoado por Elefthérios Anastasiádis e reproduzido em 22/12/2012 in http://theodotus.blogspot.com.br/2012/12/coudenhove-kalergi.html

²  Leo Lyon Zagami: Report: EU intentionally collapsing European countries with illegals-The "Kalergi Plan" started in the 70's 
Cf in https://www.infowars.com/the-kalergi-plan/

³   Postado pelo blog Theódotos em 22/12/2012: Cf in http://theodotus.blogspot.com.br/2012/12/coudenhove-kalergi.html 

  Contudo, ah!, nossa gente dança no dia-a-dia com base no seu ritmo.

  O artigo foi traduzido do italiano e aperfeiçoado por Elefthérios Anastasiádis, op. cit.

  Leo Lyon Zagami, op. cit.

  "Europa: A Substituição de uma População", op. cit.

  No seu estudo intitulado "Imigração e Mudança Étnica em Países de Baixa Fertilidade: Uma terceira Transição Demográfica".

  Giulio Meotti, op. cit.

¹⁰  Maria Negroponti-Delivanis: O homicídio a sangue frio da Grécia, Fundação Delivanis e Edições Ianós, Atenas 2014, Introdução.

Fonte: http://marianegreponti-delivanis.blogspot.gr/ 


AGRADECIMENTO 


Gostaria aqui de consignar meu agradecimento ao Prof. Aléxandros Orfanídis, de Atenas, que teve a gentileza de dar-me a sugestão de traduzir o presente artigo, agregando valor e permanente atualização ao Blog do Braga, em comunhão com a intelectualidade grega.