sexta-feira, 22 de setembro de 2017

LÍRICA ESPACIAL, DE 2004 [4' 43''], por Francisco dos Santos Braga


Por Francisco dos Santos Braga  



O encarte descritivo da Coletânea de Música Eletroacústica Brasileira dedica as páginas 112-5 à peça "Lírica Espacial" (2004)  [4' 43''] CD 3, SPATIUM, faixa 7 de minha autoria, onde se lê:
Nessa obra foram utilizados sons virtuais de piano e de voz de soprano. A linguagem nos reporta à música de câmara instrumental, para canto e piano. A estruturação da obra faz uso dos sistemas atonal e microtonal: a oitava é dividida em 24 quartos de tom.
O sistema de composição adotado foi o de privilegiar a família de intervalos correspondentes aos números existentes na Série de Lucas.
O equipamento utilizado foi um sintetizador Roland D-800 do Estúdio de Música Eletroacústica do Departamento de Música da UnB.
  

A minha peça "Lírica Espacial" foi composta numa disciplina chamada Composição V, no segundo semestre de 2004, sob a orientação do Prof. Conrado Silva de Marco (⭐︎1940, Montevidéu ✞ 2014, São Paulo), do Departamento de Música da UnB, e foi selecionada pela Sociedade Brasileira de Música Eletroacústica para fazer parte de um kit comemorativo em homenagem aos 50 anos da música eletroacústica no Brasil, composto de 5 CDs e de um valioso encarte descritivo dos compositores e suas peças com 223 páginas, em três línguas.

Na época da criação, tive o cuidado de fazer a seguinte anotação:  
Lírico tal era o seu nome original é uma peça em 3 movimentos para piano e soprano (virtuais). Para reforço da voz, usei, além do timbre "soprano", o "sprite vox". Para o piano usei o timbre "grand piano". No 1º e 3º movimentos, a voz ficou constituída dos dois timbres acima descritos, em uníssono. No movimento intermediário desdobrei cada timbre desses, de forma a permitir que canto e contra-canto se independessem, sem o acompanhamento do piano.
A peça é atonal e microtonal (24 quartos de tom correspondendo a uma oitava). 
Embora considere a exposição de Alois Haba a melhor que existe para microtonalidade, achei por bem não adotar uma notação (diferente da tradicional) da escala de quartos de tom, por exemplo a sugerida por esse autor, que utiliza a escala temperada de 24 graus por quartos de tom para fundamentar teoricamente o seu sistema de quartos de tom em seu "Novo Tratado de Harmonia" p. 166,  exemplos 2 e 3 na imagem abaixo, por causa da enorme complexidade da notação. Ei-la:
Notação da escala de quartos de tom sugerida por Alois Haba

[HABA, 1984, 167] informa que "se pode considerar os 12 novos semitons como uma escala cromática de 12 semitons transportada um quarto de tom acima. Deste ponto de vista, a escala de quartos de tom nos parece a interpenetração de uma escala semitonal normal e outra que seria sua própria transposição um quarto de tom acima."
Por simplicidade e comodidade de notação, portanto, fiz 2 oitavas da escala cromática tradicional corresponderem a 1 oitava da escala de quartos de tom sugerida por Haba. Adotei o esquema, que me pareceu mais simples, em que o intervalo Dó1-Dó3 correspondesse a 1 oitava justa (Dó1-Dó2) na notação tradicional. O interessante é que isso possibilitava que fossem representados os 24 quartos de tom (e não só 12 da escala cromática) em qualquer intervalo de oitava justa. De acordo com o esquema adotado, seria necessário fazer uma adaptação para os intervalos da escala diatônica conhecida. Portanto, seriam estes os intervalos da escala maior diatônica no novo esquema: 
Dó1-mi1 : 2ª M
Dó1-sol#1 : 3ª M
Dó1-sib1 : 4ª justa
Dó1-ré2 : 5ª justa
Dó1-fá#2 : 6ª M
Dó1-sib2 : 7ª M
Dó1-Dó3 : 8ª justa
e a escala maior diatônica crescente ficaria assim:
Dó1-mi1-so#1-sib1-ré2-fá#2-sib2-Dó3
A escala cromática crescente ficaria então com a seguinte configuração:
Dó1-ré1-mi1-fá#1-sol#1-sib1-Dó2-ré2-mi2-fá#2-sol#2-sib2 -Dó3.
Com esse artifício, também estava garantida, na notação, a representação dos quartos de tom entre cada um dos referidos semitons. A partir das informações acima citadas, os intervalos diatônicos e cromáticos ficam duplicados em sua extensão, por força das duas oitavas exigidas para acomodarem uma notação não-tradicional de intervalos expandidos, com a finalidade de atender o pré-requisito da comodidade da notação.
De acordo com o esquema adotado, o intervalo de 4ª aumentada (correspondente ao intervalo Dó1-Fá#1 na notação tradicional) corresponderia ao intervalo Dó1-Dó2 no novo esquema adotado; assim sendo, o intervalo Dó1-Dó3 (correspondente ao intervalo Dó1-Dó2 na notação tradicional) no esquema adotado conteria os 24 quartos de tom de uma escala cromática.  
A primeira audição coletiva de "Lírica Espacial", considerada peça de conclusão do curso, foi apresentada no Auditório do MUS, integrando o Concerto dos Estudantes de Composição da UnB, realizado no dia 27 de novembro de 2008, às 20 horas.

A segunda audição coletiva da peça aconteceu extraprograma no Sarau Musical Musimed, levado ao espaço da Livraria MusiMed na SCRS 505-W 3 Sul, Brasília, no dia 6 de dezembro de 2008, às 16 horas. "Lírica Espacial" finalizou o Sarau, cujo programa era constituído de composições do barroco italiano e um exemplar do romantismo brasileiro, preparados dentro da disciplina "Música de Câmara 2" ministrada pelo Prof. Ebenezer Maurílio Nogueira da Silva, conforme abaixo:

Sarau Musical Musimed
Apresenta
Fábio Benites - fagote
Francisco dos Santos Braga - piano

PROGRAMA
Antonio Vivaldi (1680-1743)           Concerto em Lá menor
                                                          Allegretto
                                                          Larghetto
                                                          Allegro
Benedetto Marcello (1868-1739)     Sonata em Mi menor
                                                          Adagio
                                                          Allegro
                                                          Largo
                                                          Allegretto
Hilda Reis                                         Valsa Seresta
                                                          Tempo Rubato
Francisco dos Santos Braga              Lírica Espacial 
                                                         (sons eletroacústicos)

Tive a oportunidade de apresentar "Lírica Espacial" em terceira audição coletiva e discorrer livremente sobre ela, finalizando uma apresentação do duo Rute Pardini-Francisco dos Santos Braga na galeria da Fundação Oscar Araripe no dia 11 de abril de 2009, em Tiradentes-MG, inaugurando seu novo programa "Um Piano ao Anoitecer em Tiradentes", e para tal foram apresentadas as seguintes peças:
- Hino Nacional / Francisco Manuel da Silva
- Prelude to a kiss / Duke Ellington para piano solo
- Giusto Ciel, in tal periglio / Gioacchino Rossini
- Lua Branca / Chiquinha Gonzaga
- Carinhoso / Pixinguinha
- Largo da Sonata em mi menor / Benedetto Marcello (arr. para flauta e piano)
- Quem sabe / Carlos Gomes
- Em algum lugar / Cláudio Santoro
- Por toda minha vida / Tom Jobim
- Deh vieni, non tardar / Mozart
- Lírica Espacial / Francisco dos Santos Braga (sons eletrônicos)

Após o concerto, postei em 23/04/2009 um artigo intitulado "Um Piano ao Anoitecer em Tiradentes" no Blog do Braga. Com relação à peça eletroacústica "Lírica Espacial", fiz os seguintes comentários:  
“(...) Finalmente, a última peça (Lírica Espacial) de minha autoria foi apresentada ao ar livre, nos jardins que cercam a Galeria, como se fosse som-ambiente, à luz de uma lua cheia esplendorosa em noite estrelada. Esta peça microtonal consta de 3 movimentos para piano e soprano virtuais, com duração de 4 min 43 seg. Foi composta em 2004: o programa utilizado na sua composição foi Logic Audio para MacIntosh conectado a um sintetizador JD-800 da Roland; a gravação foi editada, mixada e masterizada em ProTools pelo Estúdio Carbonos em São Paulo. A "Lírica Espacial" foi incluída na Coletânea de Música Eletroacústica Brasileira (no CD nº 3, Spatium), organizada e produzida pela SBME-Sociedade Brasileira de Música Eletroacústica. A referida Coletânea foi lançada em 2008, sob o patrocínio da Petrobrás.
A aceitação do público dessa minha obra eletroacústica me surpreendeu: após a sua audição, muitas pessoas se aproximaram de mim para ter mais informações sobre a sua criação, o que me deu enorme prazer a ponto de ter ficado à disposição dos presentes por mais de 30 minutos discorrendo sobre a sua estrutura. Expliquei-lhes, por exemplo, que as relações tonais não serviram à sua construção, já que não se tratava de uma peça tonal e que foi necessário encontrar outras relações, tendo a peça sido composta com a técnica da atonalidade. Outro fato curioso foi o seguinte: o sistema compositivo adotado foi o de privilegiar a família de intervalos não-convencionais correspondentes aos números existentes na "série de Lucas" e na rede congênere formada por eles — técnica que me foi ensinada pelo Professor Christopher Bochmann, da Inglaterra, num dos Cursos Internacionais de Verão da EMB-Escola de Música de Brasília. Disse-lhes ainda que ele costumava privilegiar determinados intervalos e acordes previamente escolhidos em suas composições com o objetivo de dar-lhes o caráter da contemporaneidade. Como muitos dos presentes já conheciam "O Código Da Vinci" e já tinham alguma noção da "série de Fibonacci", que foi usada por Dan Brown, nos capítulos 8 a 12 do livro, como uma "brincadeira numérica" para a solução de um de seus enigmas, não foi difícil sugerir à sua imaginação uma série parecida com a de Fibonacci (no caso, a série de Lucas) com o mesmo propósito de descrever os pontos traçados de uma espiral — a forma perfeita buscada pelos arquitetos e pintores de todos os tempos. Enquanto essas explicações lhes eram dadas, percebi que cada vez mais sua curiosidade era aguçada pela técnica compositiva utilizada na "Lírica Espacial", título sugerido pelo Maestro e Compositor Jorge Antunes que imediatamente acolhi. (...)”
   
Fonte: http://bragamusician.blogspot.com.br/2009/04/um-piano-ao-anoitecer-em-tiradentes.html
Em vídeo: https://www.youtube.com/watch?v=aXR_hWwn9zU

O comentário acima me dá a oportunidade de discorrer um pouco sobre a estrutura de "Lírica Espacial". Antes de iniciar a composição da peça, hesitei entre usar a série (ou sequência ou sucessão) de Fibonacci ou outra menos conhecida, a de Lucas, mais recente. Os números constantes de qualquer série numa composição eventualmente podem ser empregados como intervalos musicais. 

A série de Fibonacci é muito mais antiga, eis que apareceu pela primeira vez no livro Liber Abaci (datado de 1202) de Leonardo de Pisa, conhecido por Fibonacci. Na sua criação, considerou o crescimento de uma população idealizada de coelhos. A sequência numérica de Fibonacci apresenta-se da seguinte forma:
0, 1, 1, 2, 3, 5, 8, 13, 21, 34, 55, 89, 144, 233, 377, 610, 987, 1.597, 2.584, 4.181, 6.765...
Como se vê, é uma sequência de números inteiros, começando normalmente por 0 e 1, na qual cada termo subsequente corresponde à soma dos dois anteriores. A sequência de Fibonacci pode ser facilmente percebida na espiral de conchas, na do Nautilus e na formada pela folha de uma bromélia, além de descrever perfeitamente a reprodução das abelhas.
Desde a Antiguidade, ou seja, muito antes de Fibonacci formular matematicamente a sua série de números, a "proporção áurea", "divina proporção" ou "seção divina" foi utilizada na arquitetura. Consta que Fídias a teria utilizado para conceber o Parthenon, e com o valor arredondado a três casas decimais de 1,618, conhecido por "número de ouro". Por isso, o número de ouro (1,618) também é conhecido como razão de Fídias, em homenagem ao escultor grego, representado pela letra PHI (\phi). Também essa letra está presente no início do apelido "Fibonacci".
Em geometria, o retângulo de ouro é aquele cujo resultado da divisão de sua base por sua altura seja 1,618. 
Espiral em retângulos de ouro que surgem da "divisão em média e extrema razão", de Euclides
A aplicação desse segmento áureo nas artes em geral, inclusive na música, pressupõe que 1 1,618 = 0,618 1, ou seja, que haja duas proporções, sendo 0,618 a segunda — a mais usada em música. Quando se tem uma peça musical, ou um movimento de uma sinfonia, por exemplo, e se observa por volta de 62% dos compassos um clímax, considera-se que a peça ou o movimento foi estruturado pelo artista (pintor ou compositor) pensando no segmento áureo.
Na pintura renascentista, Botticelli, Giotto e Leonardo da Vinci exploraram a perfeição da beleza em quadros com base nesta constante. Também no "Davi" de Michelangelo o seu umbigo está a 61,8% de sua altura.
Entre os músicos, pode-se citar Beethoven, Debussy e Béla Bartók, dentre os que mais utilizaram essa relação de proporcionalidade constantemente em sua obra. Também eu, em minha "Lírica Espacial", explorei esse conceito.

Por sua vez, a série de François Édouard Lucas (1842-1891) pode ser considerada uma sequência numérica parecida com a de Fibonacci. Ei-la:
1, 3, 4, 7, 11, 18, 29, 47, 76, 123...
Ou seja, cada número é a soma dos dois imediatamente anteriores. 
Além dos números constantes da série de Lucas, devo confessar que, no novo esquema adotado, também fiz uso de duas categorias de intervalos: os não convencionais, geralmente intervalos ímpares, além dos intervalos dissonantes convencionais extraídos da escala diatônica, todos pares conforme a imagem abaixo (2ª m, 2ª M, 4ª aum, 7ª m, 7ª M, 9ª m, 9ª M, etc.), ambos com plena utilização na música contemporânea.
De acordo com o esquema adotado, acima discutido, criei uma tabela para analisar os intervalos já mencionados que elegi privilegiar, a saber: 
Tabela dos intervalos dos 32 microtons que me permitiu escolher os menos convencionais
Conforme informei acima, o sistema compositivo adotado entendeu privilegiar não só a família de intervalos não-convencionais correspondentes aos números existentes na "série de Lucas", mas também os existentes na rede congênere formada por eles. Assim sendo, resta ainda mostrar um exemplo da "família ou rede de intervalos" que o sistema compositivo privilegiou independente de o número escolhido para o intervalo já ter sido utilizado pela série de Lucas ou ser pertencente à família de intervalos não-convencionais. Na rede, cada um dos números é o resultado da soma de outros dois aos quais se liga, e assim sucessivamente.

Exemplo de rede ou família de intervalos, dos quais selecionei os menos convencionais


A seguir, apresento a partitura para "Lírica Espacial" (ou com o nome original de "Lírico"), exemplificando o esquema de notação adotado. Eis a sua Introdução:
1ª Seção:
I + II =  Partitura para "Grand Piano" e S = Soprano (na 1ª pág.)
 
2ª Seção:
Partitura do S = Soprano na 1ª pág. (a continuar na próxima imagem)

Conclusão da parte do Soprano (na 2ª pág.)


Finalmente, gostaria ainda de postar dois registros na imprensa são-joanense quando do lançamento de "Lírica Espacial" na região mineira do Campo das Vertentes. A primeira matéria foi denominada "Música Eletroacústica", na coluna Em Voga do periódico são-joanense Jornal de Minas, publicado por Nêudon Bosco Barbosa. Ali se lê:
Enriquecem o conteúdo da recém-lançada "Coletânea de Música Eletroacústica Brasileira", da Sociedade Brasileira de Música Eletroacústica, dois são-joanenses: o maestro José Maria Neves (1943-2002) e o dr. Francisco José dos Santos Braga. José Maria Neves estudou Música na Sorbonne e presidiu a Academia Brasileira de Música. Francisco Braga, atualmente radicado na capital federal, é ex-aluno do Grupo Escolar João dos Santos, Colégio Santo Antônio e Conservatório Estadual de Música Pe. José Maria Xavier; casado com a cantora lírica Rute Pardini, Braga é estudioso de música (pela Escola de Música de Brasília e Departamento de Música da Universidade de Brasília) e integra instituições no País e no exterior, como Membro ou Sócio Correspondente... A coletânea cobre, em cinco CDs, registros de 50 anos da referida música, e, no caso de Francisco Braga, traz a peça "Lírica Espacial" que está contida no vol. 3 do lançamento. Estes importantes registros, apresentados em luxuosa caixa e com encarte em três línguas, confirmam a tradição musical de São João del-Rei em âmbito nacional e internacional.
  Fonte: Jornal de Minas, São João del-Rei, edição nº 104, de 16 a 23/07/2009, coluna Em Voga

A segunda matéria apareceu no Blog Tencões e Terentenas, do são-joanense Emílio da Costa, com o título "Do barroco ao eletroacústico: mais música em São João del-Rei", publicado em 31 de julho de 2012
“Você acha que é possível um são-joanense apaixonado por composições sacras mineiras dos séculos XVIII e XIX executadas principalmente na Semana Santa e nas muitas novenas das igrejas barrocas de São João del-Rei ser também amante da música eletroacústica? Pois lhe digo que sim e que isto não é adultério. E digo até o nome dele: Francisco José dos Santos Braga.
Além de se destacar como estudioso, concertista e compositor deste estilo de música contemporânea, Braga deu grande contribuição para o crescimento do número de corais em nosso País. Foram dele o projeto e os esforços para acriação do Coral do Senado Federal, em Brasília, do qual fez parte, na fase inicial, como pianista. Este é mais um exemplo de que a musicalidade de São João del-Rei sempre atravessa as ondas minerais da Serra do Lenheiro e semeia claves de sol e notas musicais nos mais diversos e distantes pontos do território brasileiro.
Mas muito antes disso, nos idos de 1960, em São João del-Rei, nosso compositor integrou o coral dos Meninos Cantores do Ginásio Santo Antônio, que tinha no repertório clássicos de Bach, Schubert, Lasso, Mendoza y Cortes, entre outros grandes compositores eruditos e populares. A lembrança desse tempo é tão preciosa que Braga enumera de cor o nome completo de, pelo menos, vinte meninos que compunham o coral, assim como se recorda, respeitoso e agradecido, do frei Orlando Rabuske fundador, regente e mantenedor daquele coral infanto-juvenil.
Cultura, história, patrimônio. Estas são outras paixões da vida de Braga. Nos anos 90, muitos e grandiosos foram as ações que ele empreendeu para mostrar a cidadania são-joanense do herói Tiradentes, inclusive redigindo discursos parlamentares, depois publicados e difundidos para escolas, bibliotecas e acervos de instituições culturais. Recentemente, foi protagonista no processo de instituição do Dia da Liberdade e da Cidadania, festejado anualmente no dia 12 de novembro para comemorar o aniversário de nascimento de Joaquim José da Silva Xavier. É participante ativo do projeto de criação do circuito religioso-cultural relativo a Nhá Chica e integra conselhos de representativas instituições culturais são-joanenses, nacionais e até de outros países.
Para felicidade de São João del-Rei, Francisco Braga voltou a residir na cidade. Assim, agora pode dedicar seu dia a dia a zelar, produzir, difundir e repercutir a cultura são-joanense. E enriquecer a todos, com sua conversa gentil e amiga, serena como o orvalho da manhã que em paz refresca campos e vertentes desta "terra querida e formosa de São João del-Rei.
 

Fonte: Blog Tencões e Terentenas.
Link:  https://diretodesaojoaodelrei.blogspot.com.br/2012/07/do-barroco-ao-eletroacustico-mais.html


AGRADECIMENTO


Gostaria de registrar aqui meu agradecimento a algumas pessoas, que colaboraram com a organização e posterior divulgação da música:
- Esaú Reis, um colega de curso na UnB, que muito contribuiu para a execução e divulgação da peça na forma de um CD de áudio
- Prof. Conrado Silva de Marco (in memoriam), orientador sempre atencioso e disponível para prestar esclarecimentos quanto à estrutura da peça
- Prof. Jorge Antunes, que em abril de 2017 completou 75 anos de permanente criatividade musical e em 2004 era presidente da SBME, tendo indicado minha composição para integrar a Coletânea de Música Eletroacústica Brasileira
- meus sobrinhos webdesigners Ricardo e Bruno Braga Campos que contribuíram para a obtenção de um CD de dados 
- Beto Carezzato do Estúdio Carbonos de São Paulo, onde a gravação foi editada, mixada e masterizada, produzindo um CD de dados ProTools
- Roberto Rodrigues, sonoplasta são-joanense, responsável pela edição da peça no YouTube
- minha querida esposa Rute Pardini, que acompanhou a composição da peça, sempre incentivando a manter-me firme e ajudando-me a superar todas as dificuldades; neste post, ficou responsável pelas fotografias, formatando-as a meu pedido.
 


BIBLIOGRAFIA



HABA, Alois: NUEVO TRATADO DE ARMONIA DE LOS SISTEMAS DIATÓNICO, CROMÁTICO, DE CUARTOS, DE TERCIOS, DE SEXTOS Y DE DOCEAVOS DE TONO, Madrid: Real Musical S.A. Editores, 1984, 291 p.

quarta-feira, 30 de agosto de 2017

O VIRTUOSE VIOLINISTA JERZY MILEWSKI


Por Francisco José dos Santos Braga


 
Violinista Jerzy Milewski morre aos 70 anos (1946-2017)



Faleceu na tarde de sexta-feira, 23 de junho, em Curitiba, o violinista Jerzy Milewski, aos 70 anos, vitimado por um câncer no sistema digestivo. Polonês de Varsóvia, Jerzy conheceu, em 1968, a pianista brasileira Aleida Schweitzer, com quem se casou vindo a morar no Brasil. Naturalizou-se brasileiro em 1972, fixando residência no Rio de Janeiro.



Durante quatro anos, de 1973 a 1977, foi spalla da Orquestra Sinfônica Brasileira. Com grande interesse pela música brasileira e popular, Jerzy tocou e gravou com importantes instrumentistas e compositores do País, como Luiz Eça, Paulo Moura, Paulinho da Viola, Sivuca, Altamiro Carrilho, Rafael Rabello, Francis Hime, Milton Nascimento e Djavan, entre outros. Dedicou grande parte de sua vida à pesquisa das obras dos compositores do Brasil.



Criador de Concertos Didáticos, Jerzy ensinava música em escolas, universidades e principalmente às crianças das comunidades do Rio de Janeiro. O violinista e sua mulher Aleida Schweitzer também formaram o Duo Milewski, para a apresentação de um vasto repertório que ia de autores da música clássica, como Mozart e Brahms, até o chorinho.



Jerzy Milewski deixa, além da viúva, duas filhas e quatro netos.


Fonte: revista Concerto, nº 241, agosto 2017, p. 8, seção Contraponto (Notícias do mundo musical), in http://www.concerto.com.br/contraponto.asp?id=3767 


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Milewski deu uma entrevista a Maciej Stasiński, publicada pela Gazeta Wyborcza em sua edição de 12/08/2011, intitulada "Só sei tocar violino", onde narrou o seguinte episódio (na minha tradução do polonês para a língua portuguesa): 

Um monte de gente. Comiam, bebiam e tocavam.
Jobim sentou-se ao piano e de tempos em tempos se virava para mim e gritava: Craque! Tocamos até a noite do dia seguinte.
Jobim é um pianista e compositor autodidata, não teve estudos superiores, sozinho aprendeu as notas. Soube que na Polônia o tocavam Wanda Warska e Andrzej Kurylewicz. Queria muito ir à Polônia. Jobim no Brasil é como Duke Ellington e Miles Davis num só. Tocar com ele é como agarrar as pernas de Deus.
No ano de 1974 (Jobim) me levou à sua orquestra de 20 membros, onde ele próprio tocava piano e flauta. Eu era spalla, ou primeiro violino. A famosa Elis Regina cantava com eles. Deram 15 concertos em São Paulo, Rio, Curitiba e Porto Alegre. Depois, gravei com Jobim mais uns discos.

Na mesma entrevista, ficamos sabendo, na seção "De Pai para Filho", que seus avós chegaram à Polônia vindos de Odessa. Seu avô foi violoncelista na Ópera de Varsóvia. Morreu em 1928. Só recentemente foi descoberto o túmulo dele no cemitério judaico em Varsóvia.



Seu pai (1904, Varsóvia-1963, Varsóvia) concluiu o curso de piano no conservatório antes da Guerra. Além disso, era acompanhador e compositor. Tocava em concertos clássicos, no cinema mudo, em navios. Na primeira viagem do “Bateau” em 1936, tinha conjunto jazzístico, tocou na orquestra de Stefan Rachon. Chamava-se Victor Miszułowicz. Era judeu. Só mais tarde mudou o sobrenome. Após a guerra,  Victor Milewski voltou para o rádio, para a orquestra de Stefan Rachon. Mandou os filhos para uma escola de música na rua Miodowa. Eles começaram pelo piano. Mas em casa acompanhava os exercícios com cantor e violinista.



Por fim, Jerzy decidiu-se pelo violino. “Eu me apaixonei por este lindo som e disse: Eu só quero tocar violino!¹



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No encarte do CD intitulado "FLAUSINO VALE: Prelúdios característicos e concertantes para violino só", cujo solista é Jerzy Milewski, achamos mais informações sobre o notável violinista polonês: 

“Nasceu em Varsóvia, de família de músicos. Iniciou seus estudos de música aos 4 anos de idade, estudando piano. Aos 6, começou a estudar violino com o Prof. Garbarski. Seu primeiro concerto público aconteceu após um ano de estudo, como solista da Orquestra da RTV de Varsóvia. Formou-se com distinção, obtendo o título de 'Master of Arts' na Academia de Música de Varsóvia, em 1970. Atuou como solista e camerista com duas Orquestas polonesas famosas: Con Moto ma Cantabile (dir. Tadeusz Ochlewski) e Orquestra de Câmara de Varsóvia (dir. de Karol Teutsch), realizando tournées por toda a Europa, Ásia, América e Oriente Médio. Foi premiado em vários concursos de violino na Europa; participou de Festivais Internacionais de Música importantes, tais como: Outono de Varsóvia, Baalbeck, Tour, México, Bogotá, etc. Reside no Brasil desde 1971, onde exerce intensa atividade artística, atuando como solista em todo o território nacional e no exterior. De alma brasileira, vem descobrindo na música brasileira a fonte maior para o desenvolvimento total de sua versatilidade musical, formando com Luis Eça, Paulo Moura e outros expoentes máximos, grupos atuantes em concertos e gravações de LPs, TVs, rádios, etc. Responsável, como idealizador e executor, pela implantação dos 'Concertos Didáticos', com o objetivo de divulgar a música erudita, em programas oficiais e extra-oficiais, atingindo todas as faixas etárias, de escolas primárias, passando por secundárias, universidades e comunidades. Entre as mais importantes gravações de Jerzy Milewski, vale destacar:
- Música Polonesa e Brasileira (com a pianista Aleida Schweitzer);
- Sonata a 4 (música barroca para 2 violinos, violoncelo, piano e órgão);
- Música Nova do Brasil (obras inéditas contemporâneas brasileiras para violino e piano - 1ª execução mundial);
- Prelúdios Característicos e Concertantes para Violino Só, de Flausino Vale (obras inéditas para violino só, do compositor mineiro - 1ª edição mundial;
CD "Flausino Vale": Prelúdios característicos e concertantes para violino só, por Jerzy Milewski - Edição comemorativa do Centenário de Flausino Vale (1894-1994) - Promoção: Prefeitura Municipal de Barbacena - Apoio Cultural: FUNDAC - Arte Gráfica: Edson Brandão e Martha-Poppe - Crédito pela imagem: Rafael dos Santos Braga
- Música para 2 Violinos (participação de Erich Lehninger e Aleida Schweitzer);
- "As Quatro Estações": Vivaldi, com a Orquestra da RTV Polonesa, sob regência de Agnieszka Duczmal;
- Villa-Lobos às crianças - obra-prima da literatura infantil, considerado "O Pequeno Príncipe" brasileiro, estória de Maria Clara Machado, adaptada por Hélio Bloch, participação de Lucinha Lins e Cláudio Cavalcanti, além de inúmeros músicos da mais alta estirpe. Peças das mais lindas do repertório de Villa-Lobos;
- Luis Eça &  Jerzy Milewski Ensemble, bossa nova e jazz, com participação de Robertinho Silva na bateria e Luis Alves no baixo acústico;
- Bach : 3 Concertos para violino e Orquestra de Câmara, com a Orquestra da RTV Polonesa, sob regência de Agnieszka Duczmal;
- "Ecos e Reflexos", sua última criação, uma coletânea de temas populares dos maiores compositores brasileiros (Tom Jobim, Milton Nascimento, Dorival Caymi, Luiz Gonzaga, etc.), em versão orquestral sinfônica, com participação de notáveis solistas nacionais, como Léo Gandelman, Sivuca, Altamiro Carrilho e outros. Foi membro do júri do Concurso Internacional de Violino Wieniawski em Poznań, na Polônia em 1986 - um dos mais importantes concursos de violino do mundo.

Sobre o CD dos "Prelúdios Característicos e Concertantes para Violino Só",  de Flausino Vale (⭐︎Barbacena, 06/01/1894-✞Belo Horizonte, 04/04/1954), por Jerzy Milewski, produzido no Rio de Janeiro (1994/1995), sob os auspícios da Prefeitura de Barbacena para homenagear o filho ilustre, cabe lembrar que o feito de Flausino permanecia pouco conhecido até recentemente, em razão de não ter conseguido editar nem gravar suas composições em vida. É também verdade que Jascha Heifetz havia gravado e divulgado nos seus concertos algumas das composições do barbacenense, tal como o prelúdio chamado "Ao pé da fogueira". Também se sabe que teve o incentivo do compositor Villa-Lobos, para quem Flausino era o "novo Paganini", e  do crítico Celso Brant, que chegou a encorajar Flausino a se candidatar à vaga de compositor na Academia Brasileira de Música, conforme registrou em artigo publicado em dezembro de 1953 em O Estado de Minas. Também são muito pouco conhecidos os estudos de Flausino Rodrigues Vale no âmbito do folclore brasileiro, que culminaram com a publicação do livro intitulado "Elementos de folclore musical brasileiro" (Companhia Editora Nacional em convênio com o Instituto Nacional do Livro/MEC, volume 57 da Coleção Brasiliana,  São Paulo, 1936). Finalmente é pouco conhecida, entre seus ínumeros ensaios dispersos em várias revistas técnicas especializadas, sua conferência "Músicos mineiros", proferida nas comemorações do cinquentenário de Belo Horizonte, e publicada em 1948.

Da discografia de Milewski consta ainda "Música brasileira para violino, violoncelo e piano", produzido pela Rioartedigital em 1996, com o seguinte repertório: 
Cláudio Santoro: Trio para violino, violoncelo e piano (1973)
Ronaldo Miranda: Recitativo, variações e fuga para violino e piano (1980)
Ricardo Tacuchian: Estruturas verdes, para violino, violoncelo e piano (1976)
Ernani Aguiar: Duo para violino e violoncelo (1976)
Dawid Korenchendler: Miniaturas para violino e piano (1981)
Marisa Rezende: Trio para violino, violoncelo e piano (1976)
Edino Krieger: 25 Sonâncias II para violino e piano (1981)
Jerzy Milewski, violino
Marcio Malard, violoncelo
Aleida Schweitzer, piano




Por todas essas realizações artísticas de alto nível que engrandecem o Brasil e a sua música, considero importante reconhecer a elevada dignidade deste cidadão polonês que tantos louros acumulou em sua breve existência.

Consternado com o desaparecimento do talentoso violinista, aproveito a oportunidade para transmitir à família enlutada, especialmente à sua viúva, pianista Aleida Schweitzer, meus sinceros pêsames pela perda irreparável de seu parceiro de jornadas artísticas, do tão simpático musicista que encantava plateias por onde quer que passasse. Tive a oportunidade de ouvi-lo acompanhado por sua esposa no Centro Cultural Yves Alves, de Tiradentes-MG, em uma apresentação antológica, em 0l/10/2011, com apoio cultural do Instituto Estrada Real/SESI/FIEMG. Naquela noite inesquecível, o Duo Milewski já prenunciava o que faria daí em diante: um concerto para um violino iídiche, com árias de Pablo Sarasate, czardas, cirandas e choros, como Naquele Tempo, de Pixinguinha e Benedito Lacerda, arranjado à moda klezmer (música não-litúrgica judaica). Na despedida Milewski presenteou meu irmão Rafael e esposa Lourdes com seu CD "Nostalgic Evenings".

CD "Nostalgic Nights" pelo Duo Milewski
Encarte do CD "Nostalgic Nights"


Encarte do CD "Nostalgic Nights"
Crédito pelas imagens: Rafael dos Santos Braga

Do encarte dedicado a Milewski, extraio dois parágrafos (traduzidos por mim do inglês) para mostrar a sua enorme generosidade: 
"(...) Milewski promoveu o violinista brasileiro e compositor Flausino Vale, que Villa-Lobos considerava o "Paganini brasileiro", produzindo um livro e gravando um CD. O Papa João Paulo II foi presenteado por um representante do governo brasileiro com um exemplar, com uma dedicatória escrita em polonês.
Milewski foi nomeado diretor e produtor para a implementação de Concertos Didáticos. O objetivo desses concertos era encorajar a apreciação musical por pessoas de todas as idades, nas escolas primárias, secundárias, universidades e comunidades. (...)
"
 
Para finalizar esta homenagem a Milewski, reitero que a sua vida dedicada à arte musical foi um verdadeiro presente para nossos ouvidos e sensibilidade, - mimo que nos foi oferecido por suas mãos generosas e talentosas. Vindo da distante Polônia, Milewski deixou-se contagiar pelo amor ao Brasil, tornando-se brasileiro. 

Quando indagado: "Por que Brasil?", Milewski costumava responder a seu interlocutor: "Porque no Brasil se aprende a viver. Se você nunca viveu no Brasil, não sabe o que a vida é." 



NOTAS  EXPLICATIVAS



¹  http://wyborcza.pl/1,76842,10107125,Umiem_tylko_na_skrzypkach.html?disableRedirects=true 
Clicando neste link, terá acesso ao vídeo com o Duo Milewski interpretando Tico-tico no Fubá e Brasileirinho.