quarta-feira, 24 de dezembro de 2014

NOËLS PARA ÓRGÃO


Por Francisco José dos Santos Braga


I.  INTRODUÇÃO



Neste post tenho o prazer de divulgar o conteúdo de uma edição do programa radiofônico "Música de Teclado", que eu tive a honra de produzir e apresentar para a Rádio Nova Aliança, de Brasília, uma emissora da Arquidiocese de Brasília, com o prefixo ZYH Rádio Nova Aliança AM 710, conforme já explicado em outra matéria neste mesmo Blog do Braga ¹. A minha locução foi gravada durante o Advento de 1994 e levada ao ar no programa imediatamente anterior ao Natal.

Reitero que possuo todas as fitas cassetes com as gravações de todos os programas "Música de Teclado", que foram levados ao ar pela Rádio Nova Aliança em 1994-1995. Por cautela, costumava reunir-me com o operador de áudio Felismar com bastante antecedência para as gravações, para que as apresentações não sofressem solução de continuidade. Assim, as fitas estão datadas de 11/03/1994 a 25/03/1995, totalizando 64 fitas cassetes, todas apresentadas em programa. Só recentemente converti as 64 fitas cassetes em CDs. 



II.  NOËLS PARA ÓRGÃO




Da música de órgão, conhecemos hoje bastantes obras, salvas do olvido do tempo por edições ou manuscritos conservados em bibliotecas. Por outro lado, provavelmente a maior parte dessa música  − a das improvisações − jamais conheceremos. Claro que podemos imaginar que o melhor do talento dos compositores organistas deve ter sido levado à partitura. De qualquer forma, é triste constatar que grande parte dessa música de órgão, essa arte tão particular da improvisação − mal foi acessada − se perdeu: o ataque dos motivos, o brotar espontâneo das ideias, o sentimento de quão precária é uma poesia fugaz.

No final do século XVII, tornou-se uso corrente entre os organistas franceses a improvisação. Os organistas improvisadores atraíram de tal forma as multidões que as autoridades religiosas se viram obrigadas a estabelecer sanções que chegaram até à interdição. Esses organistas costumavam escolher por tema um motivo de canção popular, conhecido de todos e, por isso mesmo, particularmente adequado a ornamentações virtuosísticas que exerciam fascínio sobre essas multidões. Entre todos os motivos de Noëls ², eram mais apreciados os ornamentados para a Missa do Galo, a tal ponto que essas variações receberam notação, foram editadas e difundidas.

Historicamente, podemos considerar que, da mesma forma que a maior liberdade litúrgica da Missa do Galo permitiu cantar Noëls do século XII em diante, assim também no segundo meado do século XVII deu ao organista a oportunidade de introduzir variações sobre motivos populares.

Esses motivos, muito diatônicos, foram às vezes acusados de excessiva simplicidade. Às vezes, eram muito antigos, remontando à Renascença ou mesmo à Idade Média e tornaram-se conhecidos em mais de uma versão. Nos séculos XVII e XVIII, foram fortemente marcados pelas regiões donde provinham − Borgonha, Poitou, Lorena, Champagne ou Gasconha − o que era particularmente sensível num país muito rural e ainda bastante provincializado. Havia mesmo quem os compusesse até à Revolução Francesa. Com a Revolução, o gênero entrou em declínio. Teve que esperar o movimento da Schola Cantorum, em fins do século XIX, para assistir ao renascer do Noël para órgão, como os da lavra de César Franck e Alexandre Guilmant. No século XX, Tournemire retoma a tradição de compor Noëls para órgão.

Certos compositores se tornaram especialistas em Noël, desde fins do século XVII até fins do século XVIII, ficando conhecidos como Noelistas. Surgindo em fins do século XVII, o Noël para órgão com variações parece tomar de empréstimo à arte dos virginalistas e à dos cravistas: consiste de um tema de chanson (melodia popular) e suas doubles (ou variações) em diminuições, para o Natal. A virtuosidade dos dedos que se arremessavam aos teclados inflamava-se à medida que se desenvolviam as variações. A pedaleira à francesa prestava-se apenas para sustentar alguns baixos. As diferentes variações permaneciam na tonalidade (ou no modo) do tema do Noël, evitando dissipar-lhe o contorno, ornando-o, decorando-o, sem tentar descobrir em profundidade seus prolongamentos secretos. Elas fazem dialogar os "jeux" − cromorne, trombeta, trompete, − cantar as flautas e soar os "grands jeux", usando frequentemente efeitos de ecos que despertam o espaço da natureza na noite do Natal. Se os Noëls ficaram então em voga, foi por força duma conotação sentimental: os seus motivos estavam profundamente associados, para cada ouvinte, a uma das festas mais íntimas e calorosas do ano.

Os primeiros Noëls a aparecerem editados foram os constantes do 2º Livre d'Orgue ³ de Lebègue (1631-1702) em 1676. Mas é Nicolas Gigault (1627-1707) quem consegue publicar o 1º Livre de Noëls Variés, em 1682, no mesmo ano em que Lebègue, por sua vez, incluía 10 Noëls adicionais no seu 3º Livre d'Orgue, seguido logo depois por uma coleção de Pierre Dandrieu (c. 1660-1733), tio de Jean-François Dandrieu.

Na geração seguinte, vamos encontrar os Noëls de André Raison (1650-1719), depois os de Jean-François Dandrieu (c. 1682-1738), de Dornel (1685-1765) e, sobretudo, do mestre do gênero, Daquin (1694-1772). Os livros de órgão de Dandrieu (1714 e 1725, revisados em 1759) e de Daquin (1757) são dedicados a Noëls. No primeiro meado do século XVIII, os Noëls para órgão se multiplicaram, com destaque para os de André Raison (1714), Dandrieu (1720) e Daquin (1745).

Seguem-se os de Michel Corrette (1707-1795), Balbastre (1724-1799) e a sua decadência consumar-se-á com Beauvarlet-Charpentier, Lasceux e Séjan. No segundo meado do século XVIII, ainda se publicam os Noëls de Michel Corrette (1753), Balbastre (1770) e Beauvarlet-Charpentier (1783?).

No seu indispensável livro La Musique d'orgue français de Jehan Titelouze à Jehan Alain (Paris, 1949), Norbert Dufourcq assinala que "o Noël com variações requeria uma especial habilidade manual. Não exatamente qualquer iniciante podia adquiri-la. A ideia não era provar originalidade, mas espírito − e dedilhado. Muitos franceses da época careciam de ambos. Essa é a razão por que estes últimos eram mestres do passado nesta arte fluente, afastados do verdadeiro estilo francês de órgão e que tangencia a música descritiva... Esboços em cores frescas, quadros com traços claros, os Noëls de um Pierre Dandrieu,  de um Michel Corrette, ou de um Dornel, de um Daquin, não têm nada correspondente − de nosso conhecimento − em todo o corpus de música de órgão."

Jean-Jacques Rousseau deu a seguinte definição para Noël, no seu Dictionnaire de 1768: "Certos cânticos que o povo canta no Natal. Devem ter um caráter rústico e pastoral semelhante à simplicidade das palavras e dos pastores que supostamente os teriam cantado, ao prestarem homenagem a Cristo no berço."

Dizem que Daquin compôs uma quantidade de obras corais e orquestrais bem como música de teclado, mas apenas três obras sobreviveram. A primeira (de 1735) é um livro de suítes para cravo dedicado a sua discípula Srta. de Soubise, que inclui, entre uma série de peças virtuosísticas, imitações de O Cuco (Le Coucou), de A Andorinha (L'Hirondelle) e de uma tempestade ("Les Vents en courroux"). A segunda é uma cantata (La Rose). A terceira (de 1757) é a coleção de 12 Noëls na qual sua fama principalmente repousa.
Louis-Claude Daquin (1694-1772)

O Livro de Noëls de Louis-Claude Daquin (Op. II) contém 12 peças, sendo  a última o célebre Noël "Suisse"

Eles foram dedicados ao Conde d'Eu (Louis-Auguste de Bourbon, Príncipe de Dombes, filho do Duque de Maine, e uma figura importante da corte). Foi um importante patrono para Daquin, cuja generosidade, segundo seus biógrafos, foi impedir que o compositor morresse um pobretão. Tanto as suítes para cravo quanto os Noëls revelam um compositor Daquin em contraste com seus predecessores Lalande, Charpentier, Couperin e Rameau. Menos preocupado com estrutura ou forma, com modulação ou genuíno contraponto, ele mirou mais no imediato pictórico e virtuosidade como fim em si. Ninguém ultrapassou sua habilidade de quebrar uma melodia em seus fragmentos componentes e desenvolvê-los em deslumbrante passagem, sem perder de vista a melodia original. A forma do Noël se adequou perfeitamente a suas habilidades particulares. Por isso mesmo, Dufourcq conclui que Daquin foi o "rei dos Noelistas".

Seu biógrafo, o Abade de Fontenay, no seu célebre "Dictionnaire des Artistes" (ed. 1776) observava que Daquin se distinguia pela "precisão infalível nas execuções de grande rapidez" e pelo fato de sobressair-se "entre todos os virtuoses pela mesma perícia de ambas as mãos". O mesmo autor ainda observava que Daquin deixou, quando de sua morte, manuscritos de música vocal, motetos, cantatas, atos de ópera, sinfonias de órgão, quartetos, fugas, trios, etc.

Em seguida, foi anunciada a audição programada para aquele dia para a Rádio Nova Aliança. Inicialmente, a audição de alguns Noëls da autoria de Dandrieu, na interpretação do organista francês André Isoir, extraídos do CD da Calliope nº CAL 9916 intitulado "NOËLS ET SUITES AU GRAND SIÈCLE". Também foram extraídos alguns dos 12 NOËLS de Daquin, na interpretação de Christopher Herrick, no órgão de Saint Rémy de Dieppe (CD da Hyperion nº CDA66816) .

Outra jóia musical de nossa programação consistiu na apresentação integral da Missa da Meia-Noite para o Natal (Messe de minuit pour Noël) da autoria de Marc-Antoine Charpentier (1645-1702), que contava entre seus alunos Grigny, Dagincour, Nicolas Geoffroy e, provavelmente, Gilles Julien e Gabriel Garnier.

A música de Noël, em todas as suas formas, esteve muito em voga na França sob o reinado de Luís XIV. Entretanto, em nenhuma parte no corpus da música barroca francesa há uma obra de tanto charme quanto a mencionada Missa de Charpentier. Isso se deve ao fato de que esse compositor utilizou antigos Noëls franceses como base de sua composição com uma notável habilidade, levando a obra completa a possuir uma leveza e doçura em consonância com a festa que celebra. Acresça-se a isso o fato de que tal Missa teria fascinado o mais simples e humilde dos fiéis, pois as árias eram famosas e fáceis de reconhecer, embora adaptadas ao Ordinário da Missa em latim. É evidente que Charpentier escolheu seus cantos de Noël com grande cuidado, não só por seu valor musical, mas também por seu alcance alegórico e litúrgico.

Observando os títulos dos Noëls que constituem a base das diferentes partes da Missa, pode-se imaginar como eles deveriam evocar uma narrativa evangélica a um ouvinte francês do século XVII, a saber:
Kyrie (Noël intitulado "Joseph est bien marié")
Christe eleison ("Or nous-dites, Marie" e "Une jeune pucelle")
Gloria ("Les bourgeois de Chastres" e "Où s'en vont cês gais bergers")
Credo ("Voici qui désirez sans fin", "Voici le jour solennel de Noël" e "À la venue de Noël")
Ofertório ("Laissez paître vos bestes")
Sanctus ("O Dieu que n'étois-je en vie")
Agnus Dei ("À minuit fut fait un réveil")

Em certos trechos ao longo da obra (como, por exemplo, após o Kyrie e o Christe), o compositor encarrega o organista de tocar interlúdios baseados nas árias de Noël já utilizadas. Para o Ofertório Charpentier incumbiu os violinos de tocar o Noël intitulado "Laissez paître vos bestes" (Deixem pastar seus animais). Tanto nos interlúdios para órgão quanto no Ofertório, Charpentier tomou como base composições preexistentes da autoria de Nicolas-Antoine Lebègue (1631-1702). No Agnus Dei, atinge-se o auge com o Noël "À minuit fut fait un réveil" (À meia-noite se fez um despertar), uma ária fascinante que sugere de pronto a infância e sua inocência.

A gravação que foi ouvida da Missa de Charpentier consta do CD da EMI Records nº CDM 7 363135 2, na execução da Orquestra de Câmara Inglesa da Academia St. Martin-in-the-Fields, sob a regência de Sir David Willcocks, tendo ao órgão Andrew Davis.



III.  NOTAS  EXPLICATIVAS



¹   Cf. in http://bragamusician.blogspot.com.br/2014/01/musica-de-teclado-um-programa.html

²  O que na França se entende por Noël é determinada obra vocal em estrofes, com ou sem refrão, destinada a ser cantada no tempo natalino, porém não litúrgica, e cujo texto na língua vulgar tratava do Natal ou dos acontecimentos que precediam ou que seguiam essa festa. 
Musicalmente se pode distinguir duas categorias de Noël:
1. Noël sobre melodias conhecidas, ou seja, aquele cujo texto foi adaptado a melodias preexistentes, litúrgicas ou profanas. Noëls desse tipo se encontram desde o século XIII. Os mais apreciados foram mais tarde objeto de transcrições instrumentais.
2. Noël, para o qual o compositor compôs uma música original, obra de cunho culto, aparentada principalmente com a canção polifônica.
A partir do século XVII, estende-se o uso dessas transcrições quer para instrumentos quer para órgão.

³  Sobre os muitos "Livres d' Orgue" durante o segundo meado do século XVII, cabe mencionar que eram as coleções mais tipicamente francesas que apareceram, por compositores como Guillaume Nivers, Nicolas-Antoine Lebègue, Nicolas Gigault, André Raison e Jacques Boyvin. Lebègue foi o primeiro francês a explorar integralmente os pedais, pois geralmente eles eram ou opcionais ou omitidos completamente. Os "Livres d'Orgue" contêm peças curtas que, embora ainda nos modos de igreja e dedicados ao uso litúrgico, são razoavelmente simples no estilo e muitas vezes claramente tonais.

segunda-feira, 1 de dezembro de 2014

Crônica das duas apresentações da cantata "FRANCISCO, JOGRAL DE DEUS" em novembro de 2014

Por Francisco José dos Santos Braga *


       Et verba musica facta sunt. (E as palavras se fizeram música.)


I.  INTRODUÇÃO


Em verdadeiro clima de festa foi apresentada em duas ocasiões (dias 23 e 29 de novembro do ano corrente) a cantata sacra "Francisco, Jogral de Deus", da autoria do frei holandês Joel Postma o.f.m., pelo Coral Trovadores da Mantiqueira, grupo coral fundado pelo compositor em 1965 que comemora o seu jubileu no próximo ano.

Tendo chegado ao Brasil em 1959, frei Joel logo percebeu sua aptidão e talento para compor cantatas em parceria com o letrista frei Urbano Plentz o.f.m. Enquanto este ia traduzindo textos, a música fluía contagiante das mãos de frei Joel. Foi assim que o ano de 1966 foi marcado por esse espírito de muita vibração em toda a comunidade franciscana do Seminário Seráfico de Santo Antônio, em Santos Dumont, quando esta viu "O Peregrino de Assis ¹" vir a lume e, em 1969, "Francisco, Jogral de Deus". A letra da primeira cantata é do teatrólogo francês Léon Chancerel, o qual deu início a uma série de obras dedicadas ao "Poverello", escritas por ocasião do 7º centenário da morte do Santo de Assis em 1926, tendo sido traduzida do francês por frei Urbano em 1966. Já todo o texto da segunda cantata ("Francisco, Jogral de Deus") é criação do próprio frei Urbano, que aqui revela o seu dom poético. Há ainda uma pequena diferença entre as duas cantatas: "O Peregrino de Assis" foi escrita para coro misto a quatro vozes, solista e declamador com acompanhamento de piano, ao passo que, em "Francisco, Jogral de Deus", foi dispensado o solista.

Como são efêmeras as instituições e as causas em prol da cultura em nosso País é digno de nota o fato de ter enfrentado todos os reveses e adversidades e manter-se em pleno funcionamento há 49 anos o Coral Trovadores da Mantiqueira, que, além do próprio frei Joel, já teve também como regentes frei Geraldo de Reuver e frei Joaquim Fonseca de Souza, quando o seu fundador se ausentou para participar de Comissão de Liturgia na CNBB, em Brasília (1984 a 1997). Alguns membros do Coral se mantêm firmes e assíduos desde a fundação, dando exemplo de sua lealdade e paixão pela música sacra a novos membros.


II.  PRIMEIRA APRESENTAÇÃO DE "FRANCISCO, JOGRAL DE DEUS" EM 23 DE NOVEMBRO DE 2014 


Em homenagem à visita do Ministro Provincial da Província dos Mártires Gorcomienses, com sede na Holanda, frei Roberto Hoogenboom o.f.m., ao Seminário Seráfico de Santo Antônio em Santos Dumont, em companhia de Dom frei Hugo van Steekelenburg o.f.m., foi apresentada no domingo, dia 23 de novembro, às 19 horas, a cantata "Francisco, Jogral de Deus", da lavra musical de frei Joel Postma o.f.m., pelo Coral Trovadores da Mantiqueira, tendo como regente o compositor, como declamador o frei João Ricardo Teodoro e acompanhando ao piano o autor desta crônica. O espetáculo contou com a presença dos dois franciscanos ilustres no auditório, além de famílias e outros membros da sociedade de Santos Dumont. O referido Provincial holandês tinha chegado ao Brasil no dia 16 e veio de uma visita ao norte da Província franciscana de Santa Cruz, em especial às cidades de Minas Gerais próximas à Bahia, sempre em companhia de Dom frei Hugo.

Inicialmente, falou o guardião frei Gabriel José de Lima Neto dando as boas vindas aos visitantes ilustres e convidando-os a desfrutar da bela música da cantata sacra composta por frei Joel há 45 anos atrás. Também frei Joel deu informações referentes às peças que seriam ouvidas naquela noite e, na foto, discorre sobre o livro "Outro Cristianismo é possível", do teólogo belga Roger Lenaers (São Paulo: Paulus, 2010).

Frei Joel Postma o.f.m., compositor e regente

Resumidamente são transcritos abaixo os títulos das partes componentes da cantata "Francisco, Jogral de Deus", todas versando sobre o Santo de Assis:
I.  O INÍCIO
1. Nascimento
2. Infância
3. Juventude
4. A Vocação

II. O IDEAL
1. Decisão
2. A Regra
3. Fraternismo: Uma História de Amor
4. Santa Clara
5. A Ordem Franciscana Secular

Também constou do mesmo "concerto" a apresentação do "Cântico do Irmão Sol" (cuja partitura foi editada pela SONO-VISO do Brasil) e da peça coral "Invocação em Defesa da Pátria", com música de Villa-Lobos e letra de Manuel Bandeira, em solo da cantora lírica Rute Pardini, esposa do autor desta crônica e convidada especial para aquele importante evento.
Da esq. p/ dir.: Dom frei Hugo, cantora Rute Pardini (no centro) e Provincial holandês em meio ao Coral Trovadores da Mantiqueira, com frei Joel e o autor desta crônica no extremo direito.

Da esq. p/ dir.: frei Joel, Provincial holandês e o autor. Ao fundo, vista parcial da cidade de Assis.



Na manhã do dia seguinte, durante os cantos do Ofício Divino das Comunidades, o Provincial Hoogenboom, que é exímio clarinetista, nos brindou com uma música composta por outro frei holandês, Ton van der Valk, cuja execução é destinada à memória de freis falecidos. Destaque especial nesta partitura de música contemporânea é que ela utiliza em sua parte central o motivo do hino gregoriano "In Paradisum" (trad. "ao entrar no Paraíso"). O agrado foi geral.

Durante o café da manhã, o Provincial holandês nos contou que o Ministro Geral da Ordem Franciscana em Roma, o frei norte-americano Michael Perry, tinha feito um comentário com ele muito positivo a respeito do trabalho importante que cerca de 200 frades da Holanda realizaram, no século passado, no Brasil, em paróquias e colégios da Província Santa Cruz, em Minas Gerais, que, por sua vez, está se tornando agora, também, uma Província Missionária, tendo freis presentes na Amazônia, em Angola e, em breve, em Israel. Frei Roberto ainda comentou que se sentia feliz de ver a província de Minas viva e atuante, em todos os lugares e paróquias que visitou. Finalmente, frei Roberto observou que gostou muito de ouvir o coral do Seminário, considerando a prática da música um importante elemento na formação de aspirantes para a vida franciscana. Ficamos sabendo que seu destino naquela manhã seria o distrito de Dores de Paraibuna, onde o confrade holandês Justino Burgers faz um trabalho pastoral intensivo na comunidade local e da redondeza.


III. SEGUNDA APRESENTAÇÃO DA CANTATA"FRANCISCO, JOGRAL DE DEUS" EM 29 DE NOVEMBRO DE 2014

Este evento se deu dentro de um contexto maior, a saber: o XVI Encontro de Corais, neste ano sediado pelo Seminário Seráfico Santo Antônio, de Santos Dumont. Todos os anos, ele se dá por ocasião do Advento, já estando em sua 16ª edição, e todos os alimentos arrecadados e contribuições são doados em benefício do PROJETO VIDA, que cuida de aidéticos. No sábado, dia 29 de novembro, às 18 horas, teve início a apresentação dos corais participantes na seguinte ordem: Coral Tajapanema, Coro Municipal de Juiz de Fora, Coral São Tarcísio, Coral OAB Juiz de Fora, Coral São Miguel e Coral Trovadores da Mantiqueira. Todos os componentes desses corais se esforçaram por oferecer momentos de enlevo e prazer estético a todos os presentes espectadores e ouvintes que lotavam o teatro, vindos das mais diversas localidades.

Da parte de nosso Coral Trovadores da Mantiqueira, basicamente repetimos a apresentação anterior, com exceção de que não levamos a Cantata na íntegra, mas apenas sua parte central, Uma História de Amor, "narrando os grandes momentos da História da Salvação, começando com a criação do universo, passando pela Recriação em Cristo, para a figura singela de São Francisco, que apenas desejava viver conforme o modelo do Evangelho, chamando o movimento dos seus seguidores 'Ordem dos Irmãos Menores', para serem neste mundo PEREGRINOS DO AMOR", conforme nos ensinou o declamador.

Reproduzo abaixo o texto de "Uma História de Amor", da autoria de frei Urbano Plentz e musicado por frei Joel:

CORO:
No princípio foi o Amor
um amor como o Sol:
estuante,
fecundo,
perfeito.

A sabedoria brincou
sobre o orbe terrestre,
e nasceram os seres:
todos lindos,
todos unidos,
todos alegres,
todos perfeitos,
todos irmãos!

Mas houve um dia,
houve uma tarde,
e houve uma noite:
as trevas ficaram...
Então as flores murcharam,
as estrelas sumiram,
os olhos choraram,
os homens se isolaram,
o sol não apareceu
e tudo se acabou
nas trevas e no frio.

Mas... de repente,
o sol reapareceu
e a Voz eterna falou:
Vamos recomeçar,
do princípio,
e passar tudo a limpo!

Cristo se fez gente,
o Amor se fez gente,
o homem se fez irmão.

"Amai-vos uns aos outros,
como eu vos amei!
Ninguém tem maior amor
do que aquele que dá sua vida
por seus amigos."

Então, de novo
as estrelas lucilaram,
as flores floresceram,
os olhos sorriram,
e os homens se amaram.

Mas, como é frágil esse amor!
Como é imperfeito,
como é egoísta!

Eu gosto do japonês;
eu aprecio o francês;
eu amo o chinês.
Pois não os conheço...
E eles não me aborrecem!

DECLAMADOR:
E o irmão próximo?
Senhor, quem é meu próximo?
— O próximo é da família,
muitas vezes é chato,
cheio de defeitos,
é "metido",
é ignorante,
é "cacete".
O próximo, às vezes, ofende,
desagrada,
"enche",
não some,
insiste,
e até nos ama, às vezes!

CORO:
De repente
o mundo olhou espantado:
— Cristo voltou?
— Eu me chamo Francisco!
— Que vieste fazer?
— Procurar um irmão,
muitos irmãos,
muitas irmãs,
para todos amarmos o Amor
que não é amado.

Seremos uma família,
todos irmãos,
com todos os homens
e todas as criaturas,
no fraternismo universal.

Faremos um mundo
mais acolhedor,
mais humano,
mais humilde,
mais pacífico,
mais amigo,
mais irmão!

"Irmãos,
nossa Ordem se chamará:
'Ordem dos Irmãos Menores'.
E seremos no mundo
os peregrinos
do Amor!"



Antes da execução do "Cântico do Irmão Sol", foi lido pelo declamador um trecho de um trabalho de frei Vitório Mazzuco Filho, intitulado "A Mística da União Cósmica: O Cântico das Criaturas": 
"Esse canto de luz surgiu no meio de uma noite escura da alma (de São Francisco). Emergiu das profundezas de uma existência que foi se erguendo, sofrida, acrisolada, como um botão que busca, insaciável, a luz do sol. É o símbolo expressivo de um universo que se configurou dentro do coração.
Causa espanto que um homem cego, em meio a dores terríveis, que não gozava mais da excelência das coisas, cante exatamente a matéria, o sol, a lua, a água e o fogo.
A alma canta com uma espontaneidade, com o candor e o calor da língua materna. O hino é um dos testemunhos mais primitivos da língua italiana.
Esse canto parece quase um hino pagão. Não se fala de Cristo, nem do mistério Trinitário, nem do mundo sobrenatural, nem do Reino. As realidades materiais são evocadas e cantadas.
Contudo, se olharmos bem, se olharmos mais profundamente, as coisas materiais, além de serem coisas, são a língua e o instrumento expressivos de uma experiência religiosa profunda, acontecida no coração de São Francisco. Os elementos cósmicos são celebrados como símbolos do (seu) mundo interior. (...)
É uma afirmação serena da fraternidade universal. Tudo é claro, luminoso e imediato. ²"

Sobre o canto cívico-religioso "Invocação em Defesa da Pátria", o declamador lembrou que "Villa-Lobos era um grande estudioso da música folclórica brasileira, autor de livros didáticos para as diversas instituições de ensino no Brasil, contendo marchas, canções, cantos cívicos, marciais, folclóricos e artísticos para 'formação consciente da apreciação do bom gosto na música brasileira', assim como escreve a introdução do segundo volume do livro Canto Orfeônico, publicado em 1951 pela Editora Irmãos Vitale, em São Paulo, que termina com o canto INVOCAÇÃO EM DEFESA DA PÁTRIA, um canto ainda de grande atualidade, haja vista a situação política, social e ecológica do nosso imenso País. 
Na repetição do canto, o coral acompanha a solista Sra. Rute Pardini, esposa do nosso fiel companheiro, o pianista de longos anos, Francisco José dos Santos Braga, que tocou a redução para piano da parte orquestral."

Ao final de nossa apresentação, a coordenação do XVI Encontro de Corais conferiu aos regentes o diploma comprobatório de sua participação no evento. Assinam pela coordenação do evento Frederik Otto Postma (nome religioso: frei Joel Postma o.f.m.) e Maria Alice de Azevedo Sad (simultaneamente, pianista e regente do Coral Tajapanema).

Diploma conferido ao Coral Trovadores da Mantiqueira







IV.  NOTAS EXPLICATIVAS


* O autor é  compositor e pianista, membro do Instituto Histórico e Geográfico de São João del-Rei, onde ocupa a cadeira nº 22 patronímica do escritor e poeta são-joanense Lincoln de Souza, e da Academia de Letras de São João del-Rei, onde ocupa a cadeira 28 patronímica de Dr. Antônio de Andrade Reis. Outras instituições de que participa como membro: IHG de Campanha, Academia Valenciana de Letras e Instituto Cultural Visconde do Rio Preto (Valença-RJ), Academia Divinopolitana de Letras, IHG-DF, Academia Taguatinguense de Letras, Academia Barbacenense de Letras, Academia Formiguense de Letras e Colégio Brasileiro de Genealogia (Rio de Janeiro-RJ).

segunda-feira, 17 de novembro de 2014

PEREGRINO DE ASSIS JUNTO AO TÚMULO DE SÃO FRANCISCO


Por Francisco José dos Santos Braga


 


Durante as mornas tardes de outono, o céu do ocidente tinge-se de laranja e reflete sobre as consumidas pedras de Assis uma indefinível gama de tonalidades. Nestes momentos é como se sobre todo o vale descesse um véu de silêncio enquanto o sol se deita lentamente sobre o perfil das colinas do Trasimeno ¹, até ser por elas engolido. Então o espetáculo torna-se emoção. As pedras abandonam o vermelho e adquirem tonalidades rosadas, violáceas e finalmente cinzentas. E depois, as trevas. Talvez, neste momento do dia, como em nenhum outro, percebemos o inevitável transcorrer do tempo. É o imperceptível que se torna perceptível, as cores vestem o traje do porvir. Nisso também Assis é espetáculo: a manifestação da natureza que se repete a cada dia sem nunca cair na rotina, sem nunca se tornar refrão, sem dissipar suas tonalidades. Suscita, ao invés, intuições, permite-nos fantasiar, levando-nos a imaginar cenas da Idade Média com damas, cavaleiros e gente do povo animando os becos e as praças da cidade (...) ²                    
Adriano Cioci
Assis, Itália
 I.   INTRODUÇÃO


Para uma visita completa à cidade de Assis é necessário permanecer pelo menos três dias ali. Uma estada mais longa permite não só visitar as atrações turísticas "intra muros", mas também as localidades fora dos muros, que devem ser vistas, bem como os velhos burgos medievais fortificados ao redor da cidade. Assim, o turista pode se aventurar a fazer breve excursão ao Monte Subásio, a montanha que encima Assis e cujas estradas agrícolas, marcadas e facilmente transitáveis, podem lhe dar uma ideia do ambiente, principalmente da flora existente em volta da cidade. Assim procedendo, o turista obrigatoriamente se interessará em conhecer a Rocca Maggiore (Fortaleza Maior) e a Rocca Minore (Fortaleza Menor).

A Rocca Maggiore destaca-se sobre a cidade. A atual estrutura é o que restou do edifício militar que o cardeal Egidio Albornoz mandou erigir na segunda metade dos anos trezentos, num período em que a Igreja, para melhorar a própria imagem de pujança militar, construía e restaurava fortalezas e pontos de vigia. O objetivo era desencorajar eventuais ataques inimigos colocando contra seu avanço importantes estruturas de defesa.

De lá, a visão é espetacular: sob seus pés, estende-se o centro histórico de Assis, depois o Vale Spoletano que se inicia a sul, onde faz limite com uma cadeia de montanhas. Na planície, nota-se o centro de Santa Maria degli Angeli, inconfundível pela grande cúpula que se destaca sobre o povoado. Do lado oposto, iniciam-se os Montes Martani separando pequenas aldeias. Mais embaixo se notam os grandes centros de Bastia Umbra (à direita), Ponte San Giovanni e a capital da província, Perúsia.


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A etimologia da palavra "peregrino" é a seguinte: vem de peregrinus em latim, ou de peragrare, no sentido de "andar pelos campos". Por sua vez, o latino "peregrinus" significava estrangeiro e quem vai ao estrangeiro. Em Roma se chamava peregrino a pessoas de condição livre (não eram escravos ou servi), mas que, por terem procedência estrangeira ou ascendência estrangeira, não desfrutavam da cidadania romana. De peregrinus procede o verbo peregrinari, cujo sentido é viajar ao estrangeiro, e peregrinatio, viagem ao estrangeiro. Esta última palavra adquiriu na época cristã o sentido de "viagem à Terra Santa", como o evidencia um livro da monja galega Egeria que narra sua peregrinatio à Palestina no século IV d.C., tida como a primeira peregrinação conhecida da história.  Peregrino, nessa acepção, era a pessoa que por devoção ou voto ia visitar um santuário, especialmente se levasse consigo um bordão e cabeção. É curioso ainda acrescentar que o termo "romeiro", em português, ou "romero", em castelhano, no princípio se aplicava a Romanos que viajavam à Palestina, palavra que mais tarde foi estendida aos que se deslocavam até Roma ou Santiago de Compostela.

Há também o uso da expressão "peregrino neste mundo". Às vezes, a Palavra de Deus nos é dirigida convocando-nos a sermos peregrinos e forasteiros neste mundo, como a exortação de I Pd 2:11, significando que este mundo não é nossa casa ou que não pertencemos a este mundo. Neste caso, a Igreja é constituída de um povo peregrino ou cristãos. Também existe a expressão "peregrino do Amor", usada para referir-se a São João Paulo II, que de fato espelha a passagem de Karol Wojtyła pelo papado, peregrino pelas nações que visitava.


II.  SÃO JOÃO PAULO II,  O PAPA PEREGRINO


DISCURSO DO PAPA JOÃO PAULO II
POR OCASIÃO DA VISITA A ASSIS ³
Domingo, 5 de novembro de 1978

Inscrição comemorativa da visita de São João Paulo II ao túmulo de São Francisco na Basílica Inferior, em Assis: 
"A ricordo del Papa Giovanni Paolo II devoto pellegrino alla tomba di S. Francesco nei primordi del suo pontificato"       -        5 novembre 1978


"Eis-me em Assis neste dia que desejei consagrar de modo particular aos Santos Patronos desta terra: a Itália, terra à qual Deus me chamou para servir como sucessor de São Pedro. Uma vez que não nasci neste solo, sinto mais que nunca a necessidade dum "nascimento" espiritual nele. E por isso, neste domingo, venho como peregrino a Assis, aos pés do Santo "Poverello" Francisco, que escreveu com caracteres bem marcados o Evangelho de Cristo nos corações dos homens do seu tempo. Não podemos admirar-nos de que os seus concidadãos tenham querido ver nele o Patrono da Itália.

O Papa que, por motivo da sua missão, deve ter diante dos olhos toda a Igreja universal, esposa de Cristo nas várias partes do mundo, precisa especialmente, na sua sede de Roma, da ajuda do Santo Patrono da Itália, precisa da intercessão de São Francisco de Assis.

Por isso, chega hoje aqui.

Vem para visitar esta cidade, sempre testemunha da maravilhosa aventura divina, decorrida entre os séculos XII e XIII. Ela é testemunha daquela surpreendente santidade, vivida aqui como grande sopro do Espírito. Sopro de que participou São Francisco de Assis, a sua irmã espiritual Santa Clara e tantos outros Santos nascidos da sua espiritualidade evangélica. A mensagem franciscana estendeu-se ao longe, além das fronteiras da Itália, e bem depressa chegou também ao solo da Polônia, de que eu provenho. E lá continua sempre a atuar com frutos copiosos, como aliás nos outros países do mundo e nos outros continentes.

Dir-vos-ei que, como Arcebispo de Cracóvia, habitava perto duma antiquíssima igreja franciscana, e de vez em quando ia rezar, fazer a Via-Sacra e visitar a capela de Nossa Senhora das Dores. Momentos inesquecíveis para mim! Não se pode deixar de recordar aqui que exatamente deste magnífico tronco da espiritualidade franciscana brotou o beato Maximiliano Kolbe, patrono especial dos nossos difíceis tempos. Não posso deixar de recordar que, exatamente aqui em Assis, nesta Basílica, no ano de 1253, o Papa Inocêncio IV proclamou Santo o Bispo de Cracóvia, o Mártir Estanislau, agora Patrono da Polônia, de que eu até há pouco era indigno sucessor.

Por isso hoje, como Papa, ao entrar a primeira vez aqui, nas fontes desse grande sopro do Espírito, desse maravilhoso renascimento da Igreja e da cristandade no século XIII, derivado da figura de São Francisco de Assis, o meu coração abre-se para o nosso Patrono e brada:

"Tu, que tanto aproximaste Cristo da tua época, ajuda-nos a aproximar Cristo da nossa época, dos nossos tempos difíceis e críticos. Ajuda-nos! Estes tempos esperam Cristo com grandíssima ansiedade, embora de tal coisa não dêem conta muitas pessoas da nossa época. Aproximamo-nos do ano 2000 depois de Cristo. Não serão estes, tempos que nos preparem para um renascimento de Cristo, para um novo Advento? Nós, todos os dias, na oração eucarística exprimimos a nossa expectativa, dirigida a Ele só, nosso Redentor e Salvador, a Ele que é termo da história do homem e do mundo.

Ajuda-nos, São Francisco de Assis, ajuda-nos a aproximar Cristo da Igreja e do mundo de hoje.

Tu, que trouxeste no Teu coração os altos e baixos dos teus contemporâneos, ajuda-nos, com o coração vizinho ao coração do Redentor, a abraçar as alternativas dos homens da nossa época. Os difíceis problemas sociais, econômicos e políticos, os problemas da cultura e da civilização contemporânea, todos os sofrimentos do homem de hoje, as suas dúvidas, as suas negações, as suas debandadas, as suas tensões, os seus complexos e as suas inquietações... Ajuda-nos a traduzir tudo isto em simples e frutuosa linguagem do Evangelho. Ajuda-nos a reduzir tudo a categorias evangélicas, de maneira que possa ser Cristo 'Caminho, Verdade e Vida' para o homem nosso contemporâneo.

Isto te pede a Ti, filho santo da Igreja, filho da terra italiana, o Papa João Paulo II, filho da terra da Polônia. E espera que não lho recuses, que o ajudes. Sempre foste bom e sempre te apressaste a levar auxílio a todos os que a Ti se dirigiram".

Agradeço vivamente ao Eminentíssimo Cardeal Sílvio Oddi, Delegado Pontifício para a Basílica de São Francisco de Assis, e ao Excelentíssimo Bispo de Assis, D. Dino Tomassini, e a todos os Arcebispos e Bispos da Região pastoral umbra, como aos sacerdotes das várias Dioceses.

Uma saudação e um agradecimento especial aos Ministros-Gerais das quatro Famílias Franciscanas, à Comunidade da Basílica de São Francisco, a todos os Franciscanos, a todas as Famílias Religiosas — Religiosos e Religiosas —, que se inspiram na Regra, no estilo de vida de São Francisco de Assis.
Digo-vos aquilo que sinto no fundo do coração:

O Papa está-vos agradecido pela fidelidade à vossa vocação franciscana.
O Papa está-vos agradecido pela vossa diligência apostólica e missão evangélica.
O Papa agradece as vossas orações por ele e segundo as suas intenções.
O Papa assegura que se lembrará de vós na oração.
Servi o Senhor com alegria.
Sede servos do Seu povo com alegria, porque São Francisco quis-vos servos alegres da humanidade, capazes de acender por toda a parte a lâmpada da esperança, da confiança e do otimismo de que é fonte o Senhor mesmo. Seja-vos de exemplo, hoje e sempre, o vosso, o nosso comum Santo Patrono, São Francisco de Assis.
Túmulo de São Francisco de Assis na Basílica Inferior 
Apresento, em seguida, a minha cordialíssima e deferente saudação às Autoridades civis aqui presentes: 
ao Senhor Presidente da Câmara de Assis, aos Membros da Junta Comunal e do Conselho, às Autoridades civis da Região Umbra e da Província de Perúsia, aos Parlamentares da Região. Obrigado! Obrigado pelas presenças, obrigado por terem querido associar-se à oração comum junto do Túmulo de São Francisco!
Aos sentimentos da minha gratidão profunda uno os votos mais fervorosos de bem, de prosperidade e de progresso, para as suas pessoas e para toda a caríssima população da Úmbria.

De Assis ainda, deste lugar sagrado, tão querido a todos os Italianos, uma saudação comovida e uma bênção especial a toda a Itália, a todos os Italianos espiritualmente presentes a este nosso encontro de oração, a todo o povo italiano.

Um pensamento afetuoso e especial recordação desejo reservar para os emigrados italianos, para os italianos dispersos em todos os continentes do globo. Sei que nas suas casas, muitas vezes bem distantes de Assis e da Itália, há sempre uma recordação levada da Itália e ligada com Assis, uma imagem de São Francisco, e no coração uma devoção sincera e vivida ao "Poverello" de Assis. E em seguida uma saudação a todos os que se honram com o nome de "Francisco", encontrando no nosso Santo Patrono exemplo de vida, protetor celeste, guia espiritual e uma inspiração interior!

Para todos, presentes em Assis, uma especial oração do Papa!

E para todos, enviada de Assis, uma especial Bênção Apostólica!"


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III.  FREI URBANO PLENTZ REFLETINDO SOBRE A PEREGRINAÇÃO NESTE MUNDO

Frei Urbano Plentz (☆ Estrela-RS, em 03/03/1931 ✞ Roma, em 02/07/2000)

Para finalizar, em primeiro lugar, escolhi um belo texto que faz parte da cantata "O PEREGRINO DE ASSIS", com letra do poeta francês Léon Chancerel, tradução de frei Urbano Plentz o.f.m. e música de frei Joel Postma o.f.m., o qual é intitulado "A Morte de São Francisco", que transcrevo abaixo:

Em sua cabana, numa noite de outono,
São Francisco morreu cantando:
"A voz que clama ao Senhor!"
O Pobrezinho entregou sua alma.

Que a nossa irmã morte seja bem acolhida,
Como a gente acolhe o sono,
Depois de um dia bem ocupado! (refrão)

Seu corpo tem a calma dos mármores,
Sua face é um espelho de paz!
Ele se deita despido ao chão!
E ele nasce para a vida eterna!

Vieram centenas de cotovias,
Sentar-se à beira do telhado,
Para levar em cima das asas
O Santo Cantor ao Paraíso!

Com São Francisco aprendamos 
A bem viver e a bem morrer!
Para que possamos também
Cantar da mesma maneira,
Quando nossa hora tiver chegado! 


E, agora, embora último mas não menos importante, um texto de Frei Urbano Plentz, intitulado "Peregrino do Silêncio" , será aqui reproduzido, onde sintetiza brilhantemente o que foi dito ao longo deste post.

PEREGRINO DO SILÊNCIO

A pessoa humana, em seu íntimo, é um peregrino: sai do útero da mãe para entrar no ventre do mundo, e deste sai para o seio eterno do Pai. Só então entra na sua morada definitiva.

Enquanto vive no mundo, a condição normal da pessoa humana é a de "estrangeiro e peregrino sobre a terra" (Hebr. 11, 13). Depois do pecado o homem torna-se um exilado. Em cada homem Caim continua fugindo e procurando um ponto geográfico de fixação. É a tentativa de romper o cordão umbilical com o pecado e irmanar-se pacificamente com a mãe-terra.

Enquanto a pessoa não encontra esse ponto-de-repouso, continua fugindo. A condição humana, na cidade terrestre, é de peregrino e estrangeiro (I Pd. 2, 11). "Sabemos que todo o tempo que passamos no corpo, é um exílio longe do Senhor" (II Cor. 5, 6). Só depois que "for destruída esta tenda em que vivemos na terra, teremos no céu uma habitação eterna" (II Cor. 5, 1).

Por isso, vale dizer que o homem é o peregrino do absoluto (Leon Bloy). Ele vai do seu exílio terrestre à habitação celeste; a primeira é provisória e a outra definitiva.

Essa peregrinação do homem, com seus altos e baixos, suas quedas e soerguimentos, é uma constante história de amor. Deus acompanha os seus filhos nessa odisseia divina através do exílio humano.

A fraqueza humana, que frequentes vezes leva o peregrino ao cansaço da caminhada, aos momentos de pessimismos, às fossas e desânimos, é certamente a frustração mais desastrosa. No entanto, Deus caminha ao nosso lado, nos apóia e sustenta, nos anima e reconforta. Deus nunca abandona o seu caminheiro. As maiores maravilhas acontecem ao longo dessa peregrinação, rumo à pátria definitiva.

O pecado não é absoluto; só Deus é absoluto. Seu amor é a grande força que nos leva à vitória. O AMOR é a única força que nos dá sentido à vida do homem, à sua peregrinação pela Jerusalém terrestre e a sua realização plena até a Jerusalém Celeste.

À luz do AMOR de Deus, em nós, a nossa vida adquire um sentido novo e um sentido pleno. Então a peregrinação do homem torna-se um "HISTÓRIA DE AMOR".

Frei Urbano Plentz, o.f.m. - Membro da Academia Mineira de Letras



IV.  NOTAS EXPLICATIVAS


¹   O lago Trasimeno é um lago da Itália e localiza-se no centro do país na região da Úmbria (província de Perugia). Estende-se por uma área de cerca de 128 km², o que o torna o quarto maior lago da Itália. Na praia norte do lago foi travada a chamada Batalha do Lago Trasimeno em abril de 217 a.C., durante a 2ª Guerra Púnica, na qual os Cartagineses saíram vencedores sobre os Romanos.

²  CIOCI, Adriano: Guida illustrata di Assisi (con planta all'interiore), Schio, Italia: Edizioni Edelweiss, 2013, p. 3

³  Copyright 1978 - Libreria Editrice Vaticana
Cf. texto traduzido in http://www.vatican.va/holy_father/john_paul_ii/speeches/1978/documents/hf_jp-ii_spe_19781105_assisi_po.html

  "A Morte de São Francisco" (Cantique de la Bonne Mort) é uma das peças que compõem a cantata "O Peregrino de Assis" (Le Pélerin d' Assise), de Léon Chancerel, na tradução de frei Urbano Plentz adotada por frei Joel Postma. Essa peça coral, em lá menor, inicia-se com uma balada em ritmo binário composto, seguido por um binário simples em tempo de marcha, na partitura de frei Joel Postma. Recomendo-lhe assistir ao vídeo no YouTube: trata-se de um arranjo orquestral de Sérgio de Sabbato, em substituição ao acompanhamento original do piano. A apresentação neste formato se deu a 17 de outubro de 2008, no Teatro Nacional Cláudio Santoro em Brasília. A execução esteve a cargo da Orquestra de Cordas da Universidade de Brasília e convidados, sob a regência do Maestro Emílio de César.
Link: http://youtu.be/6YOafKNJ3mk

Abaixo ofereço o texto original de Léon Chancerel, em francês:

 CANTIQUE DE LA BONNE MORT

1- Dans sa cabane, un soir d’automne. Saint François mourut en chant.
Vox clamans ad dominum. Le petit pauvre a rendu l’âme.

Que notre sœur la morte soit bien accueillir, comme on accueille le sommeil après la journée bien remplie.

2- Vox clamans ad dominum, le petit pauvre a rendue l’âme.
Son corps a le calme du marbre, sa face est un miroir de paix.

Que notre sœur la mort soit saluée. Elle n’est dure qu’à ceux qui se débattent.

3- Son corps a la came des marbres, sa face est un miroir de paix.
Il se veut nu sur le sol nu pour naître à la Vie Éternelle.

Que notre sœur la mort soit remerciée. Elle nous ouvre la Porte d’or du verger séraphique.

4- Il se veut nu sur le sol nu pour naître à la Vie Éternelle.
Et voici que mille alouettes au bord du toit se sont posées.

Que notre sœur la mort soit bénie. Elle est l’aube au sein des ténèbres, l’été qui n’aura pas de fin.

5- Et voici que mille alouettes au bord du toit se sont posées.
Pour emporter dessus leurs ailes, l’âme chanteuse en Paradis.

Pour saint François, apprenons à bien vivre et à bien mourir,
afin que nous puissions de même lors que notre heure sera venue.

Cf. in http://mondieuetmontout.com/Leon-Chancerel-o.f.m-Chansons.htm

⁵  Cf. in motivandocomespiritualidade.blogspot.com/2010_06_01_archive.html

domingo, 26 de outubro de 2014

MEU DISCURSO DE POSSE NA ACADEMIA FORMIGUENSE DE LETRAS em 25/10/2014


Por Francisco José dos Santos Braga



Ilmo. Dr. Paulo José de Oliveira, D.D. Presidente da Academia Formiguense de Letras,  
Ilmo. Dr. Roque Camêllo, D.D. Presidente da Casa de Cultura-Academia Marianense de Letras e membro do Instituto Histórico e Geográfico de Minas Gerais, que, a meu convite, muito me prestigia com a sua honrosa presença, em cuja pessoa cumprimento também todas as outras autoridades ocupantes da Mesa,
Ilmo. Sr. Acadêmico Luiz Carlos Meneses, poeta e psicólogo, que me saudou abrindo-me as portas desta Casa de Cultura, 
Prezados amigos Confrades e Confreiras deste egrégio Sodalício,
Senhores e Senhoras,


Cabe-me inicialmente expressar minha gratidão ao presidente desta Casa de Cultura, eis que meu ingresso aqui é fruto da sua insistência solidária e magnânima. Sem medo de errar, considero a minha presença nesta Casa, bem como a distinção com que tenho sido tratado por todos os Confrades, uma dádiva de Paulo José de Oliveira. Quero, portanto, deixar registrada, o mais solenemente possível, a minha homenagem e gratidão ao nosso presidente.

De todo neo-acadêmico, ao ingressar numa Academia, espera-se que fale de seu patrono. Tenho a subida honra de, como acadêmico correspondente desta egrégia Academia, ocupar a cadeira nº 4, patroneada por João Guimarães Rosa, mineiro como a maioria de nós e um dos mais importantes escritores brasileiros de todos os tempos, além de médico e diplomata, o que procurarei fazer da forma mais objetiva possível, abordando o viver e o morrer na obra de Guimarães Rosa (referido como GR no presente discurso).

Sobre a vida de GR, a Wikipédia e autores de diversas formações podem fornecer inúmeras informações relevantes, a meu ver dispensáveis de serem comentadas aqui. Há, no entanto, um fato curioso sobre a posse de Guimarães Rosa na ABL-Academia Brasileira de Letras que gostaria de mencionar, tendo em vista a conexão que tem com a temática eleita para esse discurso. Em 1957, GR candidatou-se pela primeira vez a imortal da ABL e obteve apenas 10 votos. Observe-se que GR já era autor consagrado em 1957, tendo até então lançado os seguintes grandes livros de contos: “Sagarana” (1946) e “Corpo de Baile”, além do romance “Grande Sertão: Veredas” (1956). Em decorrência desse último, GR recebeu nesse mesmo ano os seguintes prêmios: "Machado de Assis", "Carmem Dolores Barbosa" e "Paula Brito". Em 1961, GR recebeu da ABL, pelo conjunto da obra, o prêmio "Machado de Assis". Em 1962, GR lançou “Primeiras Histórias” e, em maio de 1963, candidatou-se pela segunda vez a membro da ABL, na vaga deixada por João Neves da Fontoura. A eleição deu-se a 8 de agosto e desta vez GR foi eleito por unanimidade. Temendo ser tomado por forte emoção, protelou o quanto pôde a cerimônia de posse por quatro anos. Costumava dizer que, empossado, morreria em seguida.

Quando finalmente decidiu tomar posse na Academia Brasileira de Letras, ocorrida na noite de 16 de novembro de 1967, foi recebido por Afonso Arinos de Melo Franco. Em seu discurso, GR afirmou, como se prenunciasse a própria morte: “… a gente morre é para provar que viveu.” Quando se ouve a gravação do discurso de Guimarães Rosa, nota-se, claramente, ao seu final, sua voz embargada pela emoção: é como se chorasse por dentro. É possível que o novo acadêmico tivesse plena consciência de que chegara sua hora e sua vez. Com efeito, três dias após a posse, em 19 de novembro, ele morria subitamente em seu apartamento em Copacabana, sozinho (a esposa fora à missa naquele domingo), mal tendo tempo de chamar por socorro. Assim desapareceu GR prematuramente aos 59 anos de idade, vítima de enfarte fulminante, no ápice de sua carreira literária. No ocaso daquele 19 de novembro, GR ficou para sempre encantado, tornou-se um mito, talvez o mais duradouro da literatura brasileira.

Aproveitando a deixa que o próprio GR nos forneceu nesse seu derradeiro discurso e, ao folhear seus vários livros, me deparei com uma miríade de ditos que evidenciam a sua posição diante do viver e do morrer. Eis alguns colhidos aleatoriamente: As pessoas não morrem, ficam encantadas”, “Viver é perigoso”, “Viver é sempre obrigação imediata , A colheita é comum, mas o capinar é sozinho”, “Na vida, o que aprendemos mesmo é a sempre fazer maiores perguntas”, “O correr da vida embrulha tudo, a vida é assim: esquenta e esfria, aperta e daí afrouxa, sossega e depois desinquieta. O que ela quer da gente é coragem.”, “Viver… o senhor já sabe: Viver é etecetera”, “Vida é sorte perigosa passada na obrigação: toda a noite é rio-abaixo, todo dia é escuridão”, “Viver é um descuido prosseguido”, “O gerais corre em volta. Esses gerais são sem tamanho. Enfim, cada um o que quer aprova, o senhor sabe: pão ou pães, é questão de opiniães… O sertão está em toda parte.”, “A morte de cada um já está em edital.”, “Tempo é a vida da morte: imperfeição”, “Como não ter Deus? Com Deus existindo, tudo dá esperança: sempre um milagre é possível o mundo se resolve. Mas, se não tem Deus, há-de a gente perdidos no vai-vem, e a vida é burra. É o aberto perigo das grandes e pequenas horas, não se podendo facilitar — é todos contra os acasos. Tendo Deus, é menos grave se descuidar um pouquinho, pois, no fim dá certo. Mas, se não tem Deus, então a gente não tem licença de coisa nenhuma!”, “Mas eu hoje em dia acho que Deus é alegria e coragem — que Ele é bondade adiante, quero dizer.” e muitos outros motivos de reflexão sobre a nossa passagem/páscoa por este mundão de Deus e a nossa despedida de nossa condição humana.

Os contos, novelas e romances rosianos estão situados espacialmente no que se poderia chamar, em sentido amplo, de sertão. Suas narrativas transcorrem nos campos gerais, ou mais simplesmente, nos gerais (cujo espaço geográfico GR situava no Oeste e Noroeste de Minas Gerais, estendendo-se pelo Oeste da Bahia, e Goiás, até ao Piauí e ao Maranhão), caracterizados pelas chapadas e pelos chapadões, bem como pela vegetação do cerrado. Essas informações sobre o interior do Brasil, onde se passa a ação em “Corpo de Baile”, GR transmite em carta a seu tradutor para o italiano, Edoardo Bizzarri.

A sua obra se distingue pelas inovações de linguagem, profundamente identificada com os falares populares e regionais, que, plasmados pela erudição do autor, lhe permitiam criar inúmeros vocábulos a partir de arcaísmos, bem como neologismos e onomatopeias a partir do realismo mágico, regionalismo e invenções e intervenções semânticas e sintáticas, que empregava com maestria.

Há uma crônica muito curiosa de Rubem Alves, intitulada “Sobre o morrer”, publicada em 18 de outubro de 2011, que diz, entre outras coisas, que, apesar de a morte ser o destino de todos nós, a ideia de morte repentina não o atraía, porque ele precisava de tempo para escrever o seu último haikai, capaz de sintetizar “o esforço supremo para dizer a beleza simples da vida que se vai”. Nessa célebre crônica comentou que, diante da proximidade da Morte, iria repensar seus valores e listou alguns discípulos da mesma mestra (a Morte), cuja convivência não dispensaria: primeiro “Mallarmé que tinha o sonho de escrever um livro com uma palavra só”; depois, os poetas em geral e, por fim, apenas três prosadores, intelectuais de nomeada: um alemão, um francês e um brasileiro, como aprendizes da mesma mestra, a Morte. Atentemos para as suas próprias palavras: “A Morte me informa sobre o que realmente importa. Me daria ao luxo de escolher as pessoas com quem conversar. E poderia ficar em silêncio, se o desejasse. Perante a morte tudo é desculpável... Creio que não mais leria prosa. Com algumas exceções: Nietzsche, Camus, Guimarães Rosa. Todos eles foram aprendizes da mesma mestra. É certo que não perderia um segundo com filosofia. E me dedicaria à poesia com uma volúpia que até hoje não me permiti. Porque a poesia pertence ao clima de verdade e encanto que a Morte instaura. E ouviria mais Bach e Beethoven. Além de usar meu tempo no prazer de cuidar do meu jardim...”

Por que Rubem Alves, entre tantos representantes da boa técnica literária brasileira, escolheu apenas GR entre os prosadores? Na impossibilidade de sabermos dele próprio o motivo dessa eleição, aventuro-me a responder que o que era ponderável para Rubem Alves é que a universalidade da obra de GR se deva a uma série de fatores, que vão desde o plano de expressão, nas mãos de GR, impregnando seu texto de conotações, de realismo fantástico e de uma multiplicidade de dimensões, até a metalinguagem, o que torna o relato pleno de significados e passível de diversas interpretações. As técnicas empregadas são multidimensionais, deixando transparecer várias camadas sobrepostas. Tudo isso está muito próximo à proposta poética. Resta ainda acrescentar que a ação poética da obra de GR baseia-se na oralidade. GR faz seu relato vincular-se à preservação intencional do verbo ancestral. Sua prosa poética funda suas raízes na música intuída e praticada pelos poetas-cantadores do sertão.

Consideremos o conto “Cara-de-Bronze” (do livro “Corpo de Baile), o múltiplo relato de um velho e rico fazendeiro enfermo, que vive fechado em sua propriedade, rodeado de vaqueiros. Sozinho, perto da morte, pede a seu mais fiel vaqueiro, chamado Grivo, — poeta-cantador, dotado das virtudes de humildade, simplicidade e pureza de espírito, — que vá procurar, numa longa viagem, a essência da vida, “o quem das coisas”. A escolha recai sobre aquele que tem as virtudes da criança e que está incumbido de trazer a aurora à noite de seu senhor, mediante apenas o relato do que viu e ouviu na sua longa jornada. Valendo-se de secreto poder, o menestrel, um descompromissado com as coisas que atam o homem ao interesse, adivinha-lhes a beleza. É tudo o que Cara-de-Bronze desejava ouvir. GR desloca assim a narrativa do Cara-de-Bronze para uma dimensão mitopoética. A apologia da poesia o faz antepor o seguinte terceiro poema (paratexto) à abertura do conto: 
   
"Eu sou a noite pra aurora,
Pedra de ouro no caminho,
Sei a beleza do sapo,
A regra do passarinho,
Acho a sisudez da rosa, 
O brinquedo dos espinhos.

Muito obrigado!

O autor empossado e Acadêmico Luiz Carlos Meneses que o saudou. Ao fundo,  a Secretária Municipal de Cultura, Dra. Elizabeth Castro Baptista de Souza, e o Vereador Cabo Cunha

Neoacadêmicos, juntamente com o Presidente Paulo José de Oliveira e a Secretária Municipal de Cultura, Dra. Elizabeth Castro Baptista de Souza
                  






* Francisco José dos Santos Braga, cidadão são-joanense, tem Bacharelado em Letras (Faculdade Dom Bosco de Filosofia, Ciências e Letras, atual UFSJ) e Composição Musical (UnB), bem como Mestrado em Administração (EAESP-FGV). Além de escrever artigos para revistas e jornais, é autor de dois livros e traduziu vários livros na área de Administração Financeira. Participa ativamente de instituições no País e no exterior, como Membro, cabendo destacar as seguintes: Académie Internationale de Lutèce (Paris), Familia Sancti Hieronymi (Clearwater, Flórida), SBME-Sociedade Brasileira de Música Eletroacústica (2º Tesoureiro), CBG-Colégio Brasileiro de Genealogia (Rio de Janeiro), Academia de Letras e Instituto Histórico e Geográfico de São João del-Rei-MG, Instituto Histórico e Geográfico de Campanha-MG, Academia Valenciana de Letras e Instituto Cultural Visconde do Rio Preto de Valença-RJ, Academia Divinopolitana de Letras, Instituto Histórico e Geográfico do Distrito Federal, Academia Taguatinguense de Letras, Academia Barbacenense de Letras e Academia Formiguense de Letras. Possui o Blog do Braga (www.bragamusician.blogspot.com), um locus de abordagem de temas musicais, literários, literomusicais, históricos e genealógicos, dedicado, entre outras coisas, ao resgate da memória e à defesa do nosso patrimônio histórico.Mais...

quinta-feira, 23 de outubro de 2014

ΠΑΡΟΥΣΙΑΣΗ


Ο Φραγκίσκος Ζοζέ ντος Σάντος Μπράγκα γεννήθηκε το 1949 στη Βραζιλία. Ξεκίνησε τις σπουδές του στη μουσική από την ηλικία των δεκατριών ετών. Είναι πτυχιούχος του Πανεπιστημίου Φιλολογίας και Μουσικής. Επίσης, είναι κάτοχος Μεταπτυχιακού Διπλώματος στις Επιχειρήσεις (ΜΒΑ) από το Πανεπιστημιακό Ίδρυμα Getúlio Vargas το 1983. Είναι συνθέτης πιάνου, μουσικής δωματίου, ορχήστρας και ηλεκτροακουστικής μουσικής. Συγγράφει άρθρα που άπτονται ιστορικών και λογοτεχνικών θεμάτων έως προτάσεων περί εκσυγχρονισμού της Νομοθετικής Εξουσίας και της Βραζιλιάνικης Πολιτείας.

Παρακολούθησε το «Θερινό Σεμινάριο Ελληνικής Γλώσσας και Πολιτισμού για αλλοδαπούς Υποτρόφους του Υπουργείου Εθνικής Παιδείας και Θρησκευμάτων» στο Αριστοτέλειο Πανεπιστήμιο Θεσσαλονίκης τον Ιούλιο του 2000. Πριν έξι μήνες, έλαβε μέρος στη Ελληνική Εστία (Greek House) που εδρεύει στην Κηφισιά, περιοχή της Αθήνας. Από τότε έως σήμερα, εμβαθύνει όλο και περισσότερο τις γνώσεις του στην ελληνική γλώσσα υπό την καθοδήγηση του Δασκάλου Αλεξάνδρου Ορφανίδη, ο οποίος κατάγεται από το Ναύπλιο και παραδίδει μαθήματα ελληνικών μέσω διαδικτύου σε ολόκληρη τη Βραζιλία.

Είναι λάτρης του ελληνικού πολιτισμού, των αρχαίων μνημείων, των μεγάλων έργων λογοτεχνίας της αρχαιότητας, της μουσικής και της μαγειρικής.

Είναι συνταξιούχος της Γερουσίας της Βραζιλίας όπου διετέλεσε σύμβουλος. Διατηρεί άριστες σχέσεις με Βραζιλιάνους Γερουσιαστές, ομιλίες των οποίων ενίοτε συντάσσει.

Είναι μέλος των κάτωθι:
· Διεθνής Ακαδημία Lutèce, Paris, Γαλλία 
· Familia Sancti Hieronymi, Clearwater, Florida, USA
· Βραζιλιάνικη Ένωση Ηλεκτροακουστικής Μουσικής 
· Βραζιλιάνικο Κολλέγιο Γενεαλογίας 
· Ακαδημία Λογοτεχνίας - Ιστορικό και Γεωγραφικό Ινστιτούτο του São João del-Rei, Βραζιλία 
· Ιστορικό και Γεωγραφικό Ινστιτούτο της Campanha, Βραζιλία 
· Πολιτιστικό Ινστιτούτο Visconde do Rio Preto και Ακαδημία Λογοτεχνίας της Valença
· Ακαδημία Λογοτεχνίας της Divinópolis
· Ιστορικό και Γεωγραφικό Ινστιτούτο της Μπραζίλιας 
· Ακαδημία Λογοτεχνίας της Taguatinga 
· Ακαδημία Λογοτεχνίας της Barbacena
· Ακαδημία Λογοτεχνίας της Formiga και 
· Ακαδημία Λογοτεχνίας των Lavras.