quinta-feira, 24 de janeiro de 2019

ÍTACA, CEFALÔNIA



Por Nicole Dubois-Tartacap
Traduzido do francês por Francisco José dos Santos Braga



Estudamos a Odisseia na sexta série e na imaginação da criança que nós somos se desenham, através das aventuras que pontuam o longo retorno de Ulisses para o seu reino de Ítaca, os contornos de uma ilha lendária forçosamente mais bonita que todas as outras ilhas, já que o herói, para encontrá-la, enfrenta todos os perigos e renuncia a todas as tentações. ¹ Então, um dia, escaneando um mapa, descobrimos que Ítaca realmente existe, e essa revelação traz emoção intensa, uma mistura de entusiasmo e descrença. Pelo menos eu vivi assim: de repente, o mito tomava forma, ganhava vida. Ele se ancorava na realidade. Eu vi muitas outras ilhas antes de atracar em Ítaca. Ela nunca estava em nossas rotas. Mas no fundo, era esse o motivo? Finalmente, esse dia chegou.

Cefalônia (em cor alaranjada), a maior entre as Ilhas Jônicas e, à sua direita, a pequena ilha de Ítaca (em cor cinza)
As paisagens de Ítaca estão entre as mais belas e virgens que já me foi dado ver em uma ilha grega. Isso é devido ao seu pequeno tamanho, pequena população, número muito pequeno de turistas, seu terreno acidentado, seus vinhedos, o frescor de suas florestas de pinheiros e ciprestes, seus riachos e pequenos portos que pontilham ao longo da costa norte algumas tavernas, não mais, à beira d'água... Mas, sobretudo, isso é devido à sua configuração única: uma longa faixa de terra, em que correm duas cadeias de montanhas, uma ao norte, a outra ao sul, estreitou-se no centro de uma cordilheira rochosa, estreito istmo no qual serpenteia a estrada, tão fina que se encontra suspensa entre o céu e o mar, afogada em um oceano de azul que se estende, a oeste, até à Cefalônia (ou Kefalonia), a leste, até às margens da Grécia ocidental. Ítaca é admirável.

Ítaca

Então, como é que eu não tenha ressentido, aqui, essa vibração que me veio à vista de outros sítios Micenas, o templo de Afaia, Mystra...? É ter acreditado demais, tempos atrás, em um mito grande demais para que um dia possa ser confrontado com a realidade? Ou é porque em Ítaca não encontrei nenhuma pedra, nenhum lugar para ancorar as imagens que eu carregava em mim, nenhum lugar para encontrar Penélope, Eumea, Telêmaco ou Ulisses? Fala-se bem de uma caverna onde ele teria escondido o tesouro oferecido pelos Feácios, uma fonte onde se encontrou, vestido como um mendigo, com o guardador de porcos Eumaeus... Mas do palácio de Ulisses, da praia, na qual ele desembarcou, da cabana do guardador de porcos, nenhum traço, nenhum indício até que razoavelmente nos permita dizer: foi ali. Pior: não há evidências de que realmente seja essa ilha e talvez não sua vizinha Cefalônia o que me recuso a considerar.

Seria aqui o Palácio de Ulisses (ou Odisseu em grego)?
Como para Ulisses tocando finalmente as costas tantas vezes esperadas, uma névoa vem entre Ítaca e mim, que confunde e me impede de reconhecer a ilha que tomou forma em mim quando eu era uma criança. Mas, finalmente, qual é a importância?

ÍTACA ²

Por Konstantínos Kaváfis
(Traduzido do grego por Francisco José dos Santos Braga)


Quando tomares o caminho de Ítaca,

deseja que a rota seja longa

cheia de aventuras, plena de saberes.

Nem os Lestrigões e os Ciclopes

nem o colérico Posêidon não temas;

nunca encontrarás nada disso em teu caminho

se teu pensamento ficar elevado, se sutil emoção

desligar teu espírito e teu corpo.

Os Lestrigões e os Ciclopes,

tu não os reencontrarás, nem o irascível Posêidon,

se não os transportares em tua alma,

se tua alma não os fizer surgir diante de ti.

Deseja que a rota seja longa.

Que numerosas sejam as manhãs de verão

onde – com quanto prazer e quanta alegria! –

tu descobrirás portos que nunca viste;

para em lojas fenícias,

em busca de preciosas mercadorias,

âmbar, coral, ébano, nácar

e inebriantes perfumes de toda sorte,

o máximo que puderes de tais aromas.

Visita também muitas vilas egípcias,

e não pares de te instruir junto dos sábios.

Guarda sempre Ítaca presente em tua mente.

Lá chegar é a destinação final.

Mas não te apresses sobretudo na tua viagem.

É melhor prolongá-la durante anos;

e só atracar na ilha na tua velhice,

rico do que tiveres ganho no caminho,

sem esperar de Ítaca outro benefício.

Ítaca te ofereceu essa bela viagem.

Sem ela, não te terias posto a caminho.

Ela não tem mais nada a dar-te.

Mesmo se a achares pobre, Ítaca não te enganou.

Tu te tornaste sábio com tal experiência,

já compreendeste o que significam Ítacas.


Fonte: Poemas 1897-1933, Íkaros 1984.

Um simples estreito separa Ítaca de Cefalônia. A gente o cruza em um dos barcos que partem do porto de Pisaetos, na costa ocidental de Ítaca, e, dirigindo o rumo para o oeste, meia hora mais tarde, aporta em Sami. A capital, Argostoli, está localizada no outro lado da ilha.

Porto de Sami
Porto de Argostoli, capital da Cefalônia
Vista parcial de Argostoli, Cefalônia

Uma longa presença veneziana comum a todas as ilhas jônicas, que só terminou no século XVIII, havia marcado a arquitetura de Cefalônia. Argostoli era linda e elegante, como Corfú (em grego Κέρκυρα), talvez. Nada resta dela: o terrível terremoto de 1953, que atingiu também Ítaca e Zante, erradicou-a de repente. Sua força foi tal que se modificou até no relevo da ilha.

12/8/1953: um fortíssimo terremoto de 7.3 graus devasta 
a ilha de Zante (em grego: Ζάκυνθος)
Agosto de 1953: alguns perderam tudo...

O acaso havia levado Maurice Grandazzi a Argostoli alguns dias antes. “Foi ele escreveu em seu retorno, nos Anais da Geografia, como se uma serra gigante tivesse fendido os rochedos, como se um trem, em um estrondo que estava crescendo, atravessasse uma grande ponte de metal no subsolo, depois passasse ao outro lado da ilha e afundasse no coração da montanha. Na noite seguinte, um vento forte se levantou, o mar estava agitado, os cães começaram a uivar, os burros a zurrar, os galos a cantar. A terra ainda estava se movendo. Quando o sol nasceu, os abalos sísmicos recomeçaram. O cume das montanhas pareceu dobrar sobre si mesmo. A terra se arrebentava como uma fruta madura. Uma nuvem de poeira, que se levantara de Argostoli, abatida em alguns segundos como um castelo de cartas, caiu de volta em nós. A escuridão tornou-se tal que, a 3 metros de distância, não podíamos mais adivinhar quem éramos. [...] Então o sol brilhou novamente.” Argostoli não existia mais. A ilha de Solal era apenas um campo de ruínas. O número de mortos foi contado por centenas, e foram milhares os habitantes que deixaram a ilha.

Hoje, como em todas as áreas de risco, os que ainda vivem lá ainda se compõem de pessoas caracterizadas por impressões que vão desde fatalismo até temor, sabendo que a qualquer momento suas vidas podem ser pulverizadas por uma reação de humor vinda das profundezas da terra. Este foi novamente o caso em janeiro de 2014, quando outro terremoto, felizmente de menor importância, devastou muitos edifícios e jogou centenas de famílias nas ruas.

Fiskardo, Cefalônia

Em 1953, apenas um punhado de aldeias foi poupado pelo cataclismo. Entre elas, Fiskardo, na ponta norte da ilha, se achava no oposto do epicentro. Era uma aldeia de pescadores em torno de um pequeno porto, apenas um Saint-Tropez, talvez antes de Brigitte Bardot, com aquele não-sei-o-quê que encanta à primeira vista. A autenticidade de tais lugares está sempre fadada à desaparição: depois dos descobridores, vêm os artistas, depois os iates, depois as multidões. Fiskardo não escapou à regra. Na década de 1960, os hippies a haviam tornado seu refúgio. Instalados no duplex do faroleiro, eles arranhavam o violão sem cerimônia com os aldeões. Depois eles foram embora, e foi no café da Kyría Iríni, a primeira taverna-café-ouzeria do porto, onde continuamos a festejar. Outros cafés e restaurantes seguiram, dentre os quais o dos pais de Tasia Dendrinou, na década de 1970. Tasia tinha 12 anos de idade. A aldeia não tinha eletricidade e, para chegar à capital a 50 quilômetros de distância, demorava pelo menos quatro horas!

Quando você a vê pela primeira vez em seu restaurante, sentada um pouco à parte com seu parceiro, cabelos muito escuros, corpulência de boa vida, gargalhadas explosivas e voz alta, sabemos desde já quem, aqui, é o mestre. Tasia é uma estrela, uma Maité grega conhecida em todo o país por seus programas culinários na televisão. Uma personagem. Uma personalidade. Uma Loxandra em terra jônica.

Loxandra, a verdadeira, viveu em Constantinopla no século XIX. Ela era uma mulher do povo transbordante de vida e energia, generosa, excelente cozinheira, amorosa, simples e forte. Sua neta, a romancista Maria Iordanídou, tornou-a a personagem central de um romance que foi um enorme sucesso. Loxandra, tornada emblemática de uma época e de um lugar, cristalizará toda a nostalgia dos Gregos por Constantinopla e pelo helenismo da Ásia Menor, e se tornará uma verdadeira figura da literatura grega.

Loxandra, de Maria Iordanídou, 1ª edição grega (1966)
Loksandra Istanbul Dusu, edição turca (1994)


Tudo o que Cefalônia, afamada pelo filme Capitão Corelli, conta com celebridades Tom Hanks, Giorgio Armani, Fernando Botero –, marca encontro aqui, em Fiskardo, no restaurante de Tasia. Isso não muda nem a impressiona. Com estrelas ou com estranhos, Tasia é Tasia, redonda, aberta, generosa, truculenta.

Filme dirigido por John Madden (vencedor do Oscar) sobre Capitão Corelli (Nicolas Cage), que se apaixonou por uma garota local grega, Pelagia (Penelope Cruz), durante a II Grande Guerra.

Na última noite de nossa estada em Fiskardo, tínhamos pedido, ao final da refeição, uma sobremesa de laranja que tinha me agradado tanto que, na manhã seguinte, acordei com a lembrança de sua frescura e com a obsessão de conhecer a sua receita. Morávamos numa aldeia a poucos quilômetros da vila, mas antes de sairmos, precisávamos passar por lá para fazer compras. O porto, às 10 horas da manhã, mal emergia de sua letargia, mas Tasia já estava lá, acampada atrás de seu forno. Duvidava que ela me desse sua receita, mas afinal... As coisas não se arrastaram: mal meu pedido foi formulado, encontrei-me impelida para trás das grandes panelas, precedida por uma Tasia decidida: “Pegue este papel! Você tem uma caneta? Escreva!” Ela listava: laranjas, suco, açúcar, centáurea... Ela ditou as proporções a toda a velocidade, metade em grego, metade em inglês. Ao fazer isso, ela levantava as tampas e me mostrava o que ela já estava cozinhando para o almoço: um guisado de legumes “feito com os que eu trouxe esta manhã do jardim! Èla Yanni! Tome dois pratos!... Eu vou fazer você provar. Sente-se lá fora!” E aqui nos sentamos em frente a dois grandes pratos de uma “ratatouille” sublime, acompanhada por dois copos de licor caseiro. “Você gosta? Quer a receita?” (p. 243-249)


DUBOIS-TARTACAP, Nicole: KALIMÉRA, permanências e sonhos em terra grega, Paris, Edições Transboréal, 1ª edição 2017, 432 p.


NOTAS  EXPLICATIVAS  DO  TRADUTOR

¹  Há um curto poema em língua portuguesa, de um poeta alagoano de fina inspiração, Judas Isgorogota, pseudônimo de Agnelo Rodrigues de Melo (1901-1979), o qual ganhou projeção internacional, tendo diversas de suas poesias sido traduzidas para o francês, inglês, alemão, espanhol, italiano, húngaro, árabe, tcheco e lituano. O poema de sua autoria, a que me refiro, é intitulado A Ulisses. Gostaria de incluí-lo aqui por trazer um novo olhar sobre o herói da Odisseia. Ei-lo:


A ULISSES 

Judas Isgorogota

Quando à manhã parti — era a partida
de um novo Ulisses à Ítaca sonhada —
eu vivia da homérica investida
e empolgavam-me os lances da chegada! 

Menino, ia este sonho me levando...
Não nasci para Ulisses... melhor fora
não ouvir a sereia enganadora
e ter ficado junto ao mar, sonhando... 

Mas, se voltasse a ser, numa outra vida,
a mesma criança de alma forasteira,
sempre a rolar como uma pedra mó, 

certo, madrugaria na partida,
na ânsia de não ser nada a vida inteira
e ser Ulisses um minuto só...



²  Ιθάκη



Σα βγεις στον πηγαιμό για την Ιθάκη,
να εύχεσαι νάναι μακρύς ο δρόμος,
γεμάτος περιπέτειες, γεμάτος γνώσεις.
Τους Λαιστρυγόνας και τους Κύκλωπας,
τον θυμωμένο Ποσειδώνα μη φοβάσαι,
τέτοια στον δρόμο σου ποτέ σου δεν θα βρεις,
αν μέν’ η σκέψις σου υψηλή, αν εκλεκτή
συγκίνησις το πνεύμα και το σώμα σου αγγίζει.
Τους Λαιστρυγόνας και τους Κύκλωπας,
τον άγριο Ποσειδώνα δεν θα συναντήσεις,
αν δεν τους κουβανείς μες στην ψυχή σου,
αν η ψυχή σου δεν τους στήνει εμπρός σου.

Να εύχεσαι νάναι μακρύς ο δρόμος.
Πολλά τα καλοκαιρινά πρωιά να είναι
που με τι ευχαρίστησι, με τι χαρά
θα μπαίνεις σε λιμένας πρωτοειδωμένους·
να σταματήσεις σ’ εμπορεία Φοινικικά,
και τες καλές πραγμάτειες ν’ αποκτήσεις,
σεντέφια και κοράλλια, κεχριμπάρια κ’ έβενους,
και ηδονικά μυρωδικά κάθε λογής,
όσο μπορείς πιο άφθονα ηδονικά μυρωδικά·
σε πόλεις Aιγυπτιακές πολλές να πας,
να μάθεις και να μάθεις απ’ τους σπουδασμένους.

Πάντα στον νου σου νάχεις την Ιθάκη.
Το φθάσιμον εκεί είν’ ο προορισμός σου.
Aλλά μη βιάζεις το ταξείδι διόλου.
Καλλίτερα χρόνια πολλά να διαρκέσει·
και γέρος πια ν’ αράξεις στο νησί,
πλούσιος με όσα κέρδισες στον δρόμο,
μη προσδοκώντας πλούτη να σε δώσει η Ιθάκη.

Η Ιθάκη σ’ έδωσε τ’ ωραίο ταξείδι.
Χωρίς αυτήν δεν θάβγαινες στον δρόμο.
Άλλα δεν έχει να σε δώσει πια.

Κι αν πτωχική την βρεις, η Ιθάκη δεν σε γέλασε.
Έτσι σοφός που έγινες, με τόση πείρα,
ήδη θα το κατάλαβες η Ιθάκες τι σημαίνουν. 
http://www.kavafis.gr/images/line.jpg–––––––––––––––––––––––––––––––––
(Από τα Ποιήματα 1897-1933, Ίκαρος 1984)

domingo, 20 de janeiro de 2019

POEMAS SELETOS DE KIKÍ DIMOULÁ



Traduzidos do grego por Francisco José dos Santos Braga


ΔΙΟΔΙΑ

Ξύπνα, φτάνουμε.
Τέρμα στην επόμενη στάση.
Κατεβαίνουμε.
Νίψε λίγο το πρόσωπό σου
σύρε και κείνη τη μολυβιά στα μάτια
να φαίνονται εναργή
βάλε και το ελαφρύ ΛΑΪΦ άρωμά σου.
Μη λες ποιος θα με δει
θα είναι εκεί η ματαιότητα
να σε υποδεχτεί.
Φτάνουμε, ετοιμάσου
έχε πρόχειρες τις αμαρτίες σου
το ΑΦΜ τους το θυμάσαι;

θα σου ζητηθεί βεβαίωση
ότι όλα τα παραπάνω έχουνε λήξει
βεβαίωση επίσης
ότι κι εσύ έχεις λήξει
εδώ ελέγχονται αυστηρά τα σύνορα.

Βάλε στο αθόρυβο το βηματοδότη σου.
Μετά εκεί, τον δυναμώνεις
και η αιωνιότητα τι νομίζεις
με βηματοδότη ζει.

Obs. Este poema foi publicado como parte da coletânea “Tempo Público” (2014).


PEDÁGIO

Acorda, estamos chegando.
Ponto final na próxima parada.
Estamos descendo.
Lava teu rosto
faz também a sombra dos olhos
para parecerem claros
põe também teu leve perfume “LIFE”.
Não penses “quem me verá?”
lá estará a vaidade
a te recepcionar.

Estamos chegando, prepara-te
tem teus pecados à mão
lembras o CPF deles?

Te pedirão para certificar
que todas as coisas acima já expiraram
para verificar igualmente
que tu também já expiraste
aqui o controle é severo nas fronteiras.

Põe teu marca-passo no silencioso.
Depois deste ponto, podes acioná-lo
e a eternidade – que pensas? –
vive também com marca-passo.

––––––––––––––––––––––

ΕΠΙ ΠΤΩΜΑΤΩΝ 
















Σε θυμάμαι λήθη
παραδουλεύτρα σε είχε
ο χρόνος

για τις χοντρές δουλειές του
μάζευες τα σκουπίδια του
έθαβες κόσμο
σφουγγάριζες τα λάθη του
κουκούλωνες όσο μπορούσες.

Απορώ πώς
από καθαρίστρια
έγινες ξαφνικά η εκλεκτή του.

Υποψιάζομαι
ξετρύπωσες το μπουκαλάκι
με το άρωμα
κάποιας πεθαμένης του αγάπης.

Το φόρεσες
μοσχοβολούσες γνώριμα

και προήχθης σε μνήμη.

Obs.: Este poema foi publicado como parte da coletânea “Tempo Público” (2014).


DETERMINADA

Me lembro de ti, Lethe ¹,
Faxineira te teve
o Tempo ²

para seus trabalhos rudes
coletavas seu lixo
enterravas um mundo
limpavas seus erros
encobrias quanto podias.

Espantei-me como
de faxineira
te tornaste de repente sua eleita.

Suspeito
derrubaste o frasco
com o perfume
duma defunta do amor dele.

Usaste-o
exalaste um cheiro familiar

vieste primeiro na memória.

–––––––––––––––––––––––––

ΔΙΔΑΚΤΙΚΗ ΥΛΗ

Χρόνε
τὴ διατριβή μου σοῦ ὑποβάλλω
μὲ θέμα της ἐσένα βασικὰ
γιατὶ αὐτὸ ποὺ εἶμαι τώρα
ἐσὺ τὸ ἔφτασες ἐδῶ.

Φτωχοὶ τῆς φύσης μου οἱ πόροι
δὲ μ᾿ ἔστειλε γιὰ ἀνώτερη ἀμάθεια
στὸ ἐξωτερικό. Ἔμεινα ἐδῶ στὸ νοίκι
μιᾶς χαμηλοτάβανης ἐσωτερικῆς
πατριδογνωσίας.

Οἰκονομική
μέθοδο ἄνευ διδασκάλου ἀκολούθησα
καὶ κάθε ἄνευ γενικῶς
ποὺ εἶναι μέθοδος εὐρύτερης μαθήσεως.

Τί τράβηξα δὲ λέγεται ἀδύνατον νὰ μπῶ
στὸ δύσκολο κεφάλαιο
τοῦ «ἄνευ σημασίας».
Ὅ,τι γιὰ μένα εἶχε
ἤτανε ἄνευ γιὰ τοὺς ἄλλους.
Κι ἐνῶ μὲ ἐπιμέλεια ἀποροῦσα
τὸ ἀπορώντας μοῦ ἔβαζε μηδὲν.
Διόρθωνα τὸ βαθμὸ ἐκ νέου ἀπορώντας
μὲ τὴν ἄνευ λόγου μέθοδό σου
χρόνε
νὰ φέρνεις ἀλλαγὲς καὶ ἐν τῶ ἅμα
νὰ παίρνεις πίσω σβήνοντας ὁλότελα
τὴν προηγούμενη τὴν ἤπια μορφὴ
ποὺ εἴχανε τὰ πράγματα
πρὶν γίνουν σπουδασμένα.

Καὶ τώρα ἀκόμα
μὲ τὴ μέθοδο τοῦ ἄνευ μεγαλώνοντας
σμικρύνομαι σαστίζω ἀπορῶ
πῶς ἄλλαξαν ἀκόμα καὶ τὰ ἄνευ
τόσο συχνὰ δὲν ἦταν

πῶς ἄλλαξε ὁ θάνατος
τόσος συχνὸς δὲν ἦταν

ὅταν ἐνθέρμως μοῦ τὸν σύστησε ἡ ἀγάπη.

Obs.: Este poema foi publicado como parte da coletânea “Grama de estufa” (2005)


CURRICULUM

Ó Tempo,
minha dissertação te submeto
cujo tema és tu basicamente
porque o que eu sou agora
tu é que chegaste aqui.

Com meus parcos meios de subsistência
não me enviou para ignorância superior
no exterior. Fiquei aqui pagando aluguel
por um teto baixo interior
de conhecimento do meu país.

Frequentei
o método econômico dum professor ausente
e toda ausência em geral,
que é um método de ensino mais ‘lato sensu’.

O que sofri não quer dizer impossível de entrar
no difícil capítulo
do ‘ausente de sentido’.
O que para mim era presente
era ausente para os outros.
E enquanto com afinco ficava perplexa,
o que espantava me dava a nota zero.
Corrigia a nota ficando perplexa de novo
com o teu método ausente de lógica
ó Tempo,
para trazeres mudanças e ao mesmo tempo
te retratares apagando completamente
a benigna forma anterior
que as coisas tinham
antes de serem educadas.

E agora ainda
com o método de um ausente amadurecimento
me encolho, me embaralho, fico perplexa
como até mesmo as ausências mudaram
que não eram tão frequentes

como mudou a morte
que não era tão frequente

quando o amor ardentemente ma apresentou.

_______________________________

ΥΠΕΡ ΥΓΕΙΑΣ

Για φαντάσου
ύστατος σύντροφος της επιβίωσης μου,
ένας Βηματοδότης.

Ένωση καθαρά σαρκική.
Μέσα στο στέρνο μου φωλιάζει
Ευτυχής που ορίζει την καρδιά μου…

αλλά και ευγνώμων.
Αναγνωρίζει ότι
χάρη στην καρδιά μου ζει
σαν άνθρωπος κι αυτός. Φύλαξ άγγελός της.

Παντού τη συνοδεύει, στον ύπνο
την εκκλησία, στο κοιμητήριο
το καφενείο, το θέατρο
στα μακρινά ταξίδια του νου.
Όλα τα βάρη της αυτός τα σηκώνει,
η καρδιά ούτε το φτερό της δεν πρέπει.

Σύντροφος συγκινητικά διακριτικός,
δεν τη ρωτάει ποτέ για το παρελθόν της,
νυχθημερόν μετράει το σφυγμό της.

Μη σε νοιάζει εδώ είμαι εγώ,
όλος δικός σου πίστεψέ με της λέει
σαν ερωτευμένος. Τρελά.
Προς το παρόν. Κι αυτός.

Obs.: Este poema foi publicado como parte da coletânea "Tempo Público" (2014).


PELA SAÚDE

Imagine
último companheiro da minha sobrevivência,
um marca-passo.

Claramente, uma união carnal
abriga dentro do meu esterno,
feliz com o kit, meu coração

mas também grato.
Reconhece que
graças a meu coração vive
como uma pessoa também. Seu anjo da guarda.

Por toda a parte o acompanha no sono,
à igreja, ao cemitério
ao café, ao teatro
às viagens longínquas do “nous” ³.
Todos os fardos levanta,
o coração nem carece levantar sua pena.

Companheiro comovedoramente discreto,
nunca indaga o coração sobre seu passado,
medindo seu pulso noite e dia.

“Não te preocupes; estou aqui. Confia
em mim todo teu ser”, diz ao coração
como um apaixonado. Loucamente.
Por enquanto. Como outros antes dele.

–––––––––––––––––––––––––

Η ΜΑΝΤΙΣ ΑΠΛΟΪΚΟΤΗΤΑ

Σκυμμένη πάνω στην παλάμη μου
ακόμα μελετώ με πάθος τις γραμμές
αυτές τις ράγες απ’ όπου περνά ο καιρός
διατρέχοντας το πεπρωμένο μας

μελετώ εμβαθύνω στις χαράξεις
ισιώνω τρέμοντας
τους τσαλακωμένους σταθμούς
τεντώνω
καλά τις διακλαδώσεις
μην εκτροχιαστεί το ζητούμενο!...

διευθετώ
κάθε ευθείας το κρίσιμο
μήκος, παίρνω
απότομα τη μεγάλη στροφή
προς ένα μήκος κάθετο μικρό

αποκαθιστώ των δυσδιάκριτων
την κυκλοφορία
το δρόμο καθαρίζοντας
απ’ τις κατολισθήσεις
της ομαλότητας

Επιστρέφω, ανεφοδιάζομαι
και προς το ίδιο κατευθύνομαι
από άλλη τώρα διαδρομή
ψάχνοντας, με μανία ψάχνοντας
να βρω η ανόητη στην παλάμη μου
τη γραμμή της ζωής

λες και είναι στο χέρι μας η ζωή.

Obs.: Este poema foi publicado como parte da coletânea "Tempo Público"(2014).


SIMPLICIDADE DE ADIVINHA

Debruçada sobre a minha palma
ainda estudo com paixão as linhas
esses trilhos por onde passa o tempo
atravessando o nosso destino

estudo penetro nos traçados
aplano estremecendo
as enrugadas paradas
alongo
bem os ramais
para que não se descarrile o que se procura!...

dirijo
direto o comprimento
crítico, tomo
subitamente a grande curva
em direção a um pequeno comprimento vertical

restabeleço as coisas difíceis de discernir

o trânsito
o caminho limpando
a partir dos desmoronamentos
das normalidades

Regresso, reabasteço-me
e para a mesma coisa dirijo-me
de outra agora rota
procurando, com fúria procurando
achar a absurda na minha palma
linha da vida

como se a vida estivesse em nossa mão.

––––––––––––––––––––––––––––


NOTAS  EXPLICATIVAS 

¹  Sobre Lethe ou "o esquecimento", cfr.  https://pt.wikipedia.org/wiki/Lete

²  Sobre Chronos ou o Tempo, cfr.  https://pt.wikipedia.org/wiki/Chronos

³  Sobre "nous", cfr.  https://pt.wikipedia.org/wiki/Nous

BIOBIBLIOGRAFIA DE KIKÍ DIMOULÁ


Por Francisco José dos Santos Braga
 

VASSILIKÍ "KIKÍ" DIMOULÁ* nasceu em Atenas em 1931, onde vive. Em 1949, ao fim de seus estudos secundários, ingressou no Banco da Grécia, onde trabalhou como funcionária por 25 anos. Em 1954, casou-se com o engenheiro civil e poeta Áthos Dimoulás (1921-1985), com quem teve dois filhos. Bem mais tarde, instada a redigir seu resumo biográfico, ela escreverá: 
Meus estudos superiores: os anos passados junto do poeta Áthos Dimoulás. Sem ele eu me teria contentado, estou certa, com uma preguiça sonhadora e ignorante, à qual ainda me inclino, sabiamente talvez. Eu lhe devo ter escapado a isso; mesmo que tenha sido só em parte, devo-lhe minha iniciação, incompleta sem dúvida, à poesia. 
  
Em 2002, foi eleita membro efetivo da Academia de Atenas. 

Ela comenta assim os cinquenta anos de vida literária: Eu me dediquei com abnegação ao meu papel de mãe, e foi com uma terna bravura que ouvi ser chamada de "avó". Agora eu fluo silenciosamente e sem ideias de perpetuação nessas novas derivações de meu sangue. Eu fluo, e quanto mais eu me aproximo do estuário, mais eu sonho que a poesia vai me jogar a bóia de um poema.

Publicou em 1952 sua primeira coletânea de poemas. Em 1964 ela recebeu uma menção honrosa do Grupo dos Doze pela coletânea "Nos Trilhos" (1963). Em 1972 foi agraciada com o II Prêmio Nacional de Poesia pela quinta coletânea "O Pouco do Mundo" (1971), que lhe vale seu primeiro reconhecimento oficial, granjeando com ela grande fama. Em 1989 recebeu o I Prêmio Nacional de Poesia pela coletânea "Adeus Nunca" (1988) e em 1995, o Prêmio da Fundação Kostas e Eléni Ouránis da Academia de Atenas pela coleção "A Adolescência de Lethe". Em 2001 foi-lhe conferida a Condecoração de Letras da Academia de Atenas, pelo conjunto da obra, e a Cruz de Ouro da Ordem de Honra, pelo Presidente da República, Konstantínos Stefanópoulos. Em 2009, ela recebeu o Prêmio Europeu de Literatura pelo conjunto da obra. A Association Capitale Européenne de Littératures concedeu-lhe em março de 2010 o Prêmio Europeu de Literatura no âmbito da V Reunião de Literatura Europeia. No mesmo ano, foi homenageada pelo conjunto da obra, com o Grand State Prize for Literature. Em 2015, foi premiada com o título de doutor honoris causa na Universidade Aristotélica de Salônica. Seus poemas foram traduzidos para o inglês, francês, espanhol, italiano, polonês, búlgaro, alemão e sueco. Merecem destaque os livros The Brazen Plagiarist (O plagiador de bronze), de 2012, uma coletânea de poemas seletos de Kikí Dimoulá, brilhantemente traduzidos para o inglês por Cecile Inglessis Margellos e Rika Lesser, e o livro, publicado em 2010, Πέρασα - Erlebt (edição bilíngue).

Livro de 2012
Livro de 2010





















Além das coletâneas poéticas já citadas, publicou ainda as seguintes mais conhecidas:
Poemas (1952), Erebus (1956), In absentia (1958), Meu último corpo (1981), Juntos de um Minuto (1998), Som da Partida (2001), Grama de Estufa (2005), Mudamo-nos para a porta ao lado (2007), Encontro (2007), Os questionários (2010), Tempo Público (2014) e Ponto e Vírgula (2016).

Obras em prosa: Conto esportivo (2004), Sem plano (2005) e Coleta de Pensamentos (2009), que reproduz o discurso da autora na Sociedade Arqueológica em Atenas.

Finalmente, há um DVD intitulado Encontros com Kikí Dimoulá (2010).

Apreciação sobre a poesia de Kikí Dimoulá

Segundo Kikí Dimoulá, a poesia "beneficia tanto quanto uma gota de um calmante num oceano de tristeza". No entanto, e apesar desta desproporção, ela insiste, com plena consciência, sabendo que, em qualquer caso, não temos muitas provisões para atravessar a vida selvagem do oceano. Para ela, a Poesia não constitui amor próprio à frente da necessidade ou um substituto da felicidade. É algo melhor: ato de insolência à frente do já realizado ou o inevitável de acontecer (...) Kikí Dimoulá descreve este Mal multiforme com audácia e com franqueza: o corpo para sempre submerso, num país sofrido, nos tempos revirados que vivemos. Seu tema principal é a descrição do desgaste que exacerba sentimentos e aguça a mente com vista a enfrentar esse absurdo. ¹
[Γιώργης Γιατρομανωλάκης]


Uma poesia de olhar privado e questionamento existencial, mas confessando paixões pessoais e negações pessoais, se abre ao universal e coletivo. A vaidade, a passagem do tempo, o desgaste, a memória e o esquecimento, a perda, os desejos não realizados e os que ocorreram em um passado distante são os temas que constantemente preocupam Kikí Dimoulá. E ainda, em uma ironia redentora, a nossa própria morte, a única certeza: 
"Que fadiga meu Deus, não aguento
dar de beber ao solo do céu,
Sou um cadáver ". (...) ²
[Χαράλαμπος Γιαννακόπουλος]


Com "Tempo Público", a 17ª coletânea de poesia, aprendemos a "ouvir" os sons da sombra de uma fotografia, de um sentimento. E são esses poemas mais pessoais do que nunca, mais introvertidos e com eloquente e ensurdecedora preocupação com o futuro desconhecido e com a rota da vida corruptível... E como sempre, Kikí Dimoulá, com a sua própria maneira poética, faz para nós mais leves as coisas pesadas, as coisas insuportáveis, também tudo o que magoa as pessoas... Mas ainda e principalmente aquelas (coisas) que a amedrontam.


NOTAS  EXPLICATIVAS


¹ Cfr. https://www.tovima.gr/2014/06/13/books-ideas/kiki-dimoyla-ftharto-swma-pasxoysa-xwra/

² Cfr.  https://charalamposgiannakopoulos.com/2014/07/21/κική-δημουλά-μεσίστια-η-λιακάδα-πατρί/

terça-feira, 1 de janeiro de 2019

CASA PATERNA DE SÃO FRANCISCO DE ASSIS, HOJE PARTE DA IGREJA NOVA DE ASSIS


Por Padre Francesco De Lazzari
Tradução livre por Francisco José dos Santos Braga 


AQUI "UM SOL NASCEU PARA O MUNDO" ¹

Antes de entrar na igreja, à esquerda da porta de entrada, uma placa dá boas vindas aos que entram no Santuário:

Irmão, irmã, eu esperava você.
Seja bem vindo à casa onde nasci,
e onde eu vivi os primeiros 24 anos da minha vida:
festas com amigos e sonhos de glória,
o encontro com o Senhor
e a jornada de conversão para Ele,
a Prisão já experimentada em Perúgia
e então aqui, na minha casa,
o conflito com meu pai e, finalmente, a saída daqui.

Deus estava me chamando para reparar Sua casa em mim,
e então a Igreja do Seu Filho.
Era melhor obedecer a Deus
do que a meu pai Pietro.

Irmão, irmã,
faze-te peregrino da minha casa terrena,
mas caminha em direção à casa de Deus em ti,
em direção à Sua Casa, o Paraíso.

Levanta-te e anda.

Estou te acompanhando com o testemunho da minha vida,
Estou sustendo teus passos com a oração.

Anda. Te espero. Deus te abençoe.

Francisco de Assis, teu irmão

Placa à esquerda da entrada na Igreja Nova

“Cárcere” de Francisco na casa paterna, hoje parte da Igreja Nova

O bem-vindo texto ² do pe. Francesco De Lazzari tem o objetivo de interpretar a mensagem do Santuário, tendo em mente os primeiros 24 anos da vida de S. Francisco vividos na sua casa, com a sua família. Aqui Francisco nasceu, trabalhou no negócio do pai, viveu os seus sonhos, acalentou os ideais e, por fim, aceitou que Deus entrasse na sua vida. As Fontes Franciscanas relatam cerca de vinte fatos vividos pelo jovem Francisco. Alguns são conhecidos; outros, menos. Uns são históricos, outros hagiográficos. Os biógrafos de S. Francisco, sobretudo Tommaso da Celano e S. Boaventura, embora com ênfases diferentes, nos oferecem indicações claras sobre o mundo e sobre a vida do jovem Francisco: rico, rei das festas, gentil e cortês, altruísta e generoso, sonhador, amante dos ideais humanos. Aos vinte anos aproximadamente, Francisco vive a primeira experiência forte da sua vida. Assis está em guerra com Perúgia. Ali toma parte também ele. Francisco é feito prisioneiro em Perúgia por um ano. Falta a liberdade, faltam-lhe os amigos, a família, o ser o rei das festas. O rosto triste dos prisioneiros fazem-no refletir sobre os horrores da guerra. Tenta amparar seus colegas, refletir, fazer desaparecer a nostalgia de casa. Depois de uma ano, o pai o resgata. Francisco retorna a Assis, fraco, enfermo, provado no coração e na mente. Cuidado pela mãe, retoma a vida anterior à sua prisão. Mas não é mais o mesmo. Assim foi a primeira parte da sua vida jovem. Deus o reservava a uma missão e a ideais maiores: dos ideais humanos, sob a ação do Espírito Santo, o conduz aos ideais do espírito. Deus o chamava a ser um Evangelho vivo. Na segunda parte da sua juventude Francisco é convidado a dar os primeiros passos. Certamente não seriam fáceis, certamente nunca pensados. Aproveita a oportunidade para realizar uma grande ação em benefício dos Lugares santos. Com alguns colegas seus, associa-se ao grande condottiero Gualtieri di Brienne e parte para a Puglia. Mas Deus também se serve de nossas oportunidades para intervir em nossa vida. Em Spoleto, Francisco é interrompido por duas perguntas que o perturbam: “Francisco, a quem é melhor servir, ao amo ou ao criado?” Francisco reflete. Responde: “Ao amo.” A voz, que ainda soava, prossegue: “E por que então serves ao criado e não ao Amo?” Francisco compreende. Faz uma pergunta: “Quem és tu, Senhor? O que queres que eu faça?” De seus lábios vem sua primeira oração feita com o coração e a mente. A resposta o inquieta: “Volta a Assis e ficarás sabendo que coisa terás que fazer.” Um retorno amargo. Uma obediência amarga. Um retorno de derrotado, de quem renuncia aos sonhos de glória, de se tornar um cavaleiro. E agora? Quem é o amo? Quem é ou que coisa é o criado? E volta a Assis. Ridicularizado e humilhado, inicia uma profunda revisão de si mesmo. Quase quatro anos para chegar, gradualmente, a uma conversão radical. Perde o sabor daquilo que vivia anteriormente. Eleva a oração pronunciada com as lágrimas: “Retirava-se a uma gruta no Monte Subasio para implorar a clemência de Deus.” Em São Damião articula uma oração implorante: “Ó alto e glorioso Deus, ilumina o meu coração. Dá-me fé direta, esperança certa, caridade perfeita e humildade profunda, sabedoria e conhecimento para que eu sirva a teus mandamentos” (FF 276). Ele mesmo passa pelo desgosto de ver os leprosos, e fugir à vista deles, ao abraço e beijo. É a primeira grande vitória sobre si mesmo, do Senhor sobre ele. Recorda-a por toda a vida. Nos meses precedentes, irmã morte, na Porciúncula ³, dita seu Testamento. Inicia assim: “O Senhor conceda a mim, irmão Francisco, começar assim a fazer penitência, pois, estando eu nos pecados, parecia-me amargo ver os leprosos; e o próprio Senhor me conduziu entre eles e eu usei misericórdia para com eles. E quando eu os deixei, o que parecia amargo se me converteu em doçura de alma e de corpo. E então fiquei um tempo e saí do mundo” (Test. 1-4; FF 110). Desde que com ricos e nobreza, começa a servir os pobres; veste-te como um pobre e pede esmola (cfr 2 Cel IV, 8; FF 589); torna-te pobre a serviço dos últimos. Do silêncio do Crucifixo de S. Damião finalmente acolhe com alegria e generosidade a palavra-comando tão esperada: “Francisco, vá, restaure a minha casa que, como se vê, está toda em ruínas”. Após ser o ídolo de seu pai, que o satisfazia em tudo, ele vive o dilacerante conflito até às surras, aos insultos, à prisão doméstica. Mas para ele, Francisco, “era melhor obedecer a Deus do que a seu pai Pietro.” E assim, “quando parou de adorar a si mesmo, começou a compreender Deus”. Passo a passo, a conversão toma consistência, atinge uma primeira meta importante, necessária: sai de casa e vai ao bispado para ser processado e deserdado, para se colocar permanentemente nas mãos de Deus, a seu total serviço. Quando Deus te toma pela mão, Ele te mantém preso. Tu sentes o calor da mão Dele e o amor Dele, e te deixas levar. Tu te permites levar aonde ele te quer. E vives na alegria Dele. E Deus Se torna teu Deus, teu tudo.

SÃO FRANCISCO “CONVERSO”

Assim, os habitantes de Assis o chamaram. O título real é “S. Francisco converso (convertido)”. De acordo com uma tradição comprovada e uma suficiente documentação, na área da igreja ficava a casa paterna e natal de S. Francisco. Um documento de 1300 atesta que, na área do presbitério, um quarto foi transformado em capela. É fácil pensar que foi o quarto onde nasceu S. Francisco. 

Os frades há muito tempo tentavam possuir este lugar. No início dos anos 1600, graças ao interesse do Pe. Antonio Treja, Vigário, primeiro, e depois, Ministro Geral da Ordem dos Frades Menores, conseguiu adquirir a casa. Esta foi quase completamente demolida e a igreja foi construída em sua área. Filipe III, rei de Espanha, colocou à disposição uma contribuição substancial, e foi feita nas Províncias da Ordem uma captação de recursos. Uma procissão solene, bispo, clero diocesano, religiosos, uma grande multidão de pessoas e autoridades civis, desceram da Catedral de S. Rufino carregando a “pedra fundamental”, colocada na fundação de todo o edifício. A arquitetura da igreja segue um projeto de Rafael. Construída em seis anos, foi toda revestida de afrescos de 1621 a 1631. Lá trabalharam os Giorgetti, pai e filho, o Cesare Sermei e, parece, algum outro autor. A cúpula foi pintada em 1687 por Emanuele, de Como.

Nos anos 1920-1925 a maioria dos afrescos, inexplicavelmente, foram cobertos com um reboco questionável de mármores falsos. Pe. Francesco De Lazzari, em 2013, através de uma mediação, conseguiu entrar em contato com Sergey Matvienko, irmão ortodoxo de São Petersburgo. Com grande generosidade, tendo em mente o profundo significado do lugar, financiou a restauração dos afrescos. E assim a Igreja está retornando ao seu primitivo esplendor arquitetônico e pictórico. Dentro da igreja, sobre o primeiro pilar central esquerdo se conserva o “cárcere” onde Pietro di Bernardone trancou seu filho Francisco. Do segundo pilar central, sempre à esquerda, pode-se acessar a frente da casa com as entradas. Descendo e virando à direita, entra-se na loja onde Francisco, junto com seu pai, realizava sua atividade diária como comerciante de tecidos comuns e preciosos.

Fachada da Igreja Nova
Estátuas dos pais de Francisco: Pietro di Bernardone e Pica de Bourlemont

AGRADECIMENTO 


Agradeço à minha amada esposa Rute Pardini o seu cuidado em fixar as imagens de nossa passagem pela Igreja Nova de Assis. 
 

NOTAS  EXPLICATIVAS


¹  Com estas palavras, no XI canto do "Paraíso" da Divina Comédia, Dante apresenta a figura de Giovanni di Pietro di Bernardone, mais conhecido como São Francisco de Assis, nascido em Assis provavelmente em 5 de julho de 1182.

²   LAZZARI, Pe. Francesco De: Sui passi del giovane Francesco: il santuario della Chiesa Nuova (Nos passos do jovem Francisco: o santuário da Igreja Nova), revista Chiesa Insieme nº 3, março de 2017, Anno XXXV, p. 8 e 9.
Cfr https://issuu.com/chiesainsieme/docs/xsa3_2017

³   Pequena igreja fora de Assis, atualmente contida dentro de uma basílica muito maior, a Basílica de Santa Maria dos Anjos. Ali morreu Francisco de Assis. A Porciúncula foi a terceira igreja restaurada por Francisco de Assis, depois de ter tido um sonho no qual ouviu o chamado de Deus para "reconstruir a sua igreja".

⁴  O Convento da Igreja Nova aparece já em um documento de 1398, no qual se menciona uma pequena igreja, construída sobre o sítio que a tradição identifica como "a casa paterna e de nascimento de São Francisco de Assis", que foi uma etapa importante nas peregrinações nos passos de Francisco de Assis, tendo morado ali até os 24 anos, quando se converteu. 
Em 1610, a mando do rei da Espanha Filipe III, uma nova igreja em estilo barroco foi construída, em vez daquela medieval: segundo uns sobre projeto de Rafael, segundo outros sobre projeto de Rufino, de Cerchiara.