quarta-feira, 18 de julho de 2018

VINGANÇA DE UMA MULHER


Por Antón Pávlovitch Tchékhov

Tchekhov e sua esposa Olga Knipper

Conto traduzido do russo por Francisco José dos Santos Braga 

Alguém puxou a campainha. Nadiejda Petrovna, dona do apartamento, no qual estava se passando esta história, levantou-se do sofá e saiu correndo para abrir a porta.
“Deve ser meu marido...” pensou.

Porém, ao abrir a porta, não foi seu esposo que ela viu. Diante dela estava de pé um homem alto, bonito, vestido com um casaco caro feito de pele de urso e usando óculos dourados. Sua testa estava franzida e seus olhos sonolentos miravam o mundo de Deus com indiferença e preguiça.
Em que posso servir-lhe? perguntou Nadiejda Petrovna.
Eu sou médico, minha senhora. Alguns daqui mandaram me chamar... eh-eh-eh... os Chelobityevs... Vocês são Chelobityevs?
Sim, somos Chelobityevs, mas... por amor de Deus, desculpe, doutor. Meu esposo teve abscesso dentário e febre. Ele lhe mandou uma carta, mas o senhor demorou tanto para vir que ele perdeu a paciência e foi ao dentista.
Hum... Ele poderia ter ido ao dentista sem me incomodar...

O doutor franziu o cenho. Passou um minuto em silêncio.
Desculpe, doutor, que o tenhamos incomodado e obrigado a vir em vão... Se meu esposo soubesse que viria, então pode crer que não teria ido ao dentista... Desculpe...

Passou ainda outro minuto em silêncio. 

Nadiejda Petrovna coçou a nuca.
“O que afinal ele está esperando? Não entendo!” pensou, olhando de soslaio para a porta.

Libere-me, senhora! murmurou o doutor. Não me retenha. O tempo é tão precioso, sabe?, que...
Isto é... Eu, isto é... eu não o estou segurando...
Porém, senhora, não posso ir-me embora, sem receber por meu trabalho!
Por seu trabalho? Ah, sim... pôs-se a balbuciar Nadiejda Petrovna, fortemente ruborizada. O sr. tem razão... Pela visita é preciso pagar, é verdade... O sr. teve trabalho, veio... Mas, doutor... tenho até vergonha... meu esposo saiu de casa e levou nosso dinheiro consigo... Em casa agora não tenho decididamente nada...
Hum... É esquisito... O que fazer? Eu não posso ficar à espera de seu marido! A propósito, procure, talvez se encontre algo... É um valor, na verdade, insignificante...
Mas garanto-lhe que meu marido levou tudo... Estou com vergonha... Eu não gostaria, por causa de um rublo qualquer, de me preocupar com semelhante... situação estúpida...
É esquisita a opinião que o público tem do trabalho dos médicos... realmente, esquisita... Como se também não fôssemos pessoas, como se nosso trabalho não fosse trabalho... Pois eu vim até vocês, perdi tempo... trabalhei...
Sim, eu entendo isso muito bem, mas, convenha, há certas ocasiões, em que não há em casa nenhum copeque!
Ah, sim? O que tenho a ver com essas ocasiões? A senhora, simplesmente... é ingênua e ilógica... Não pagar a uma pessoa... isto é até desonesto... A senhora tira proveito do fato de que eu não possa entregá-la ao juiz de paz e... tão sem cerimônia, por Deus... É mais do que estranho!

O doutor titubeou. Sentia-se com vergonha da humanidade...

Nadiejda Petrovna ficou corada. Estava chocada...
Bem disse ela em tom áspero. Espere um minuto... Vou mandar à mercearia, e lá, talvez, me dêem dinheiro... E vou pagar ao sr.

Nadiejda Petrovna foi à sala de visitas e sentou-se para escrever um bilhete ao merceeiro. O doutor tirou o casaco, entrou na sala de visitas e desabou numa poltrona. À espera pela resposta do merceeiro, ambos ficaram sentados e em silêncio. Cinco minutos após chegou a resposta. Nadiejda retirou do envelope um rublo e passou-o ao doutor. Os olhos do doutor brilharam.
A senhora está brincando, disse ele, pondo o rublo sobre a mesa. É possível que meu criado cobre um rublo, mas eu... não, desculpe!
Quanto o sr. quer?
Geralmente eu cobro dez... da senhora é possível que eu cobre cinco, se quiser.
Bem, o sr. não vai chegar a ver cinco de mim... Não tenho dinheiro para o sr.
Mande ao merceeiro. Se ele pôde lhe dar um rublo, então por que não pode dar-lhe cinco? Por acaso, não é a mesma coisa? Peço-lhe, minha senhora, que não me retenha. Eu não tenho tempo.
Escute, doutor... O sr. não está sendo amável, senão... atrevido! Não, o sr. é grosseiro, desumano! Entende? O sr. é... torpe!

Nadiejda Petrovna virou-se para a janela e mordeu o lábio. De seus olhos brotaram lágrimas volumosas.
“Canalha! Miserável! pensava. Animal! Ele se atreve... se atreve! Não pode entender minha terrível, injuriosa situação! Bem, espere... diabo!”

E, depois de pensar um pouco, virou o rosto para o doutor. Desta vez na sua face havia uma expressão de sofrimento, súplica.
Doutor! disse com voz calma, suplicante. Doutor! Se o sr. tivesse coração, se o sr. quisesse entender... o sr. não se poria a atormentar-me por esse dinheiro... E, fora isso, há muito tormento, muita tortura.

Nadiejda Petrovna comprimiu sua fronte e foi como se tivesse comprimido uma mola: os cabelos em mechas caíram sobre seus ombros...
“Estás sofrendo por causa do ignorante do teu marido... suportas este ambiente horrível, penoso, e aqui ainda uma pessoa educada se permite recriminar-te. Deus meu! Isto é insuportável!” disse a si mesma.
Mas entenda, minha senhora, que a posição especial de nossa classe...
Mas o médico teve que interromper seu discurso. Nadiejda Petrovna cambaleou e caiu sem sentido nos braços estendidos dele... A cabeça dela se inclinou sobre o ombro dele.
Para cá na lareira, doutor... sussurrou ela um minuto depois. Mais perto... vou contar ao sr. tudo... tudo...

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Uma hora depois, o doutor saiu do apartamento dos Chelobityevs. Ele estava tão irritado, quão envergonhado, e satisfeito...
"Que diabo ... pensava, sentando em seu trenó. Nunca convém levar consigo muito dinheiro ao sair de casa! A gente nunca sabe com o que vai se deparar!”


Fonte https://ostrovok.de/p/chekhov/mest-zhenshchiny.html

quinta-feira, 12 de julho de 2018

A CEGONHA AMARELA (CONTO POPULAR CHINÊS)


Traduzido do russo por Francisco José dos Santos Braga


Dizem que outrora vivia em Fuzhou um estudante pobre. Ele era tão pobre que não podia nem mesmo pagar por uma xícara de chá. Ele se chamava Mi. Teria morrido de fome, se não fosse o dono de uma casa de chá. Este teve pena de Mi e graciosamente lhe deu chá para beber e o alimentou.

Mas, um dia, Mi veio ao proprietário e disse:
Estou indo embora. Eu não tenho dinheiro e não posso pagar por tudo que bebi e comi aqui. Mas eu não quero ser ingrato. Olha aqui!

E tirou do bolso um pedaço de giz amarelo e desenhou na parede do salão de chá uma cegonha amarela. A cegonha estava absolutamente como viva.

Esta cegonha disse Mi trará a você dez vezes mais dinheiro do que eu devo. Toda vez que as pessoas se reunirem em seu salão de chá, você deve bater palmas três vezes. Então a cegonha vai sair da parede e dançar. Mas você nunca deve fazê-la dançar para uma pessoa sozinha. Se você a obrigar a dançar para uma única pessoa, ela vai dançar pela última vez.

No dia seguinte, quando muita gente se juntou na sala de chá, o dono bateu palmas três vezes e a cegonha saiu da parede e começou a dançar. Os convidados estavam surpresos e não acreditavam em seus olhos.


Desde então, na sala de chá sempre se reuniam muitos clientes e o proprietário ficou muito rico.


Mas eis que, um dia, no salão de chá entrou um rico. Ele veio olhar a cegonha, da qual ouvira falar muito. Colocou muito dinheiro sobre a mesa e forçou o dono a mandar embora todas as pessoas da sala de chá.


Eu quero sozinho olhar a cegonha   disse ele. O dono viu o dinheiro e esqueceu o que o estudante lhe dissera. Bateu palmas três vezes e a cegonha saiu da parede. Ela tinha a aparência triste e doentia. Dançou apenas uma dança e voltou para o seu lugar. O dono ficou zangado, gritou, mas não pôde fazer nada.

E, à noite, alguém bateu na porta da casa de chá. O dono abriu a porta e viu o estudante Mi, de pé e calado. Depois, o estudante Mi tirou uma gaita do bolso, tocou-a e foi-se embora. A cegonha saiu da parede e foi atrás dele. 


Desde então, ninguém nunca mais viu o estudante Mi e sua cegonha amarela.

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OBRA CONSULTADA


Финагина Ю.В. Русский язык как иностранный. Пособие по чтению: Учеб. пособие / Под ред. Н.А. Дмитренко. – СПб.: НИУ ИТМО; ИХиБТ, 2014. -  81 с.

segunda-feira, 2 de julho de 2018

UMA BRILHANTE PERSONALIDADE (CONTO DE UM IDEALISTA)


Por Antón Pávlovitch Tchékhov

Tchekhov e sua esposa Olga Knipper

Conto traduzido do russo por Francisco José dos Santos Braga 

 
Defronte às minhas janelas, obscurecendo o sol para mim, fica um enorme prédio avermelhado com cornijas sujas e telhado enferrujado. Essa sombria e feia casca, não obstante, contém em si uma maravilhosa e preciosa castanha! 

Toda manhã, numa das últimas janelas, eu vejo a cabeça de uma mulher, e essa cabeça devo confessar para mim substitui o sol! Amo-a não pela beleza... Em estreitos olhos cinzentos, em grandes sardas e em eternos papelotes feitos de jornal não há nada de bonito. Eu a amo por algumas características individuais do seu elevado intelecto.

Toda manhã vejo como a jovem, numa blusinha branca e em papelotes, se aproxima da janela, com avidez apanha os jornais e, com brilho nos olhos, se apressa em percorrer suas páginas enfadonhas... Neste momento, peço humildemente que você observe a expressão do seu rosto. Seu rosto se ilumina com um sorriso abençoado, e ela, radiante, com olhos brilhantes, começa a pular alegremente pela sala; então um desespero terrível e indescritível distorce as feições de seu rosto, e ela, segurando sua cabeça como uma louca, caminha de um canto para o outro ... Não a vejo nunca indiferente. Os dias passam e a felicidade se alterna com o desespero... Hoje está incrivelmente feliz, amanhã ela vai tirar seus papelotes. E não há fim para suas alegrias e dores!... 

De certo modo, sou psicólogo e expert em coração humano. Os fenômenos psíquicos observados por mim à janela chegam até meu entendimento, como uma tabuada de multiplicar. Quando no rosto da jovem paira um sorriso feliz, a minha cabeça se enche destas reflexões:
Hum... Claro que as notícias que trazem os jornais de hoje são favoráveis... Alegro-me... Provavelmente minha desconhecida esteja alegre com o comportamento de Tsankov e com o último discurso de Gladstone. Talvez ela esteja bem entusiasmada com o promissor encontro entre Bismarck e Kalnoki... Também pode acontecer que nos jornais de hoje ela tenha visto o nascimento de um novo talento russo... Seja como for, estou muito alegre... São raras as mulheres que se deixam atrair por prazeres de tal qualidade superior! 

Também eu, em êxtase, começo a andar de um canto para o outro e a exclamar:
Criatura maravilhosa e extraordinária! A última palavra da emancipação feminina! Quem dera se houvesse mais mulheres assim! É de tais mulheres que precisamos!

Quando o rosto da desconhecida é desfigurado pelo desespero, penso:
“Bem, os jornais, pelo menos, não os pegues com tuas mãos! As matérias são um lixo! Provavelmente Karavélov ou Mutkúrov tenha perturbado minha vis-à-vis... Acho também que o jogo ambíguo da exagerada Áustria e o comportamento de Milão tenham ofendido a natureza honesta dela... Ela sofre, mas que honra lhe faz esse sofrimento!

Eu ando, me preocupo e exclamo:
Eis uma mulher de verdade! Sensível aos problemas sociais! Capaz de sofrer pela humanidade!...

E eu estou louco por esta mulher extraordinária... Assim que a manhã chegar, eu já vou estar de pé à minha janela esperando que, vis-à-vis, minha desconhecida apareça nas janelas. À noite eu sonho e espero pela manhã, à tarde ando de um canto para o outro... Sim, senhores, esta é uma mulher extraordinária!

No verão, enquanto as janelas dela e minhas estavam abertas, mais de uma vez ouvia um choro histérico e uma risada feliz... Certo dia inclusive eu a ouvi gritando em desespero e raiva, segurando a cabeça:
Canalha! Torturador!

E rasgou o jornal em pedacinhos...

Lamento que não morem no meu apartamento Auerbach, Spielhagen ou outro romancista à procura de "gente nova"... Eles se interessariam por minha desconhecida...
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Sinto que minha admiração se converte pouco a pouco em um amor apaixonado. Sim, amo-a! Deus meu, que abismo me separa dela! Sua alma está cheia de preocupação social, e eu, faz tempo que perdi meus ideais, deixando-me levar, vivo com os interesses vulgares da maioria...

Mas, sem me dar por vencido, vou até ao prédio avermelhado e toco a campainha do zelador. Duas moedas de vinte copeques soltam a língua do zelador, e me conta, respondendo a todas as minhas perguntas, que minha desconhecida vive no apartamento nº 5, que é casada e que paga pelo apartamento com atrasos. Seu marido, cada manhã, sai para algum lugar e volta tarde da noite, com um quarto da vodka debaixo do braço e uma bolsa de mantimentos... No passaporte do marido figura como filho de um secretário de governo, e minha desconhecida como sua esposa...
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Depois de uma terceira noite de insônia, envio a ela meu cartão de visita. Hoje vi como ela golpeou o peitoril da janela com o punho, depois de ler o jornal. Ai de vocês, Karavélovs, Mutkúrovs, Sálusburys, cobradores de transporte ferroviário de cavalos, donos de engenho! Por que eu não sou capaz de desforrar-me de vocês por todos os sofrimentos com que vocês infligem a ela?
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Hoje (10 de setembro) o esposo dela me mandou de volta escada abaixo. Estou feliz. Por ela estou disposto a fazer qualquer sacrifício! Deixo para amanhã a explicação sobre isso...
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11 de setembro. Ao ir à casa dela hoje, encontro-a com os jornais. Depois de passar a vista com rapidez em dois ou três jornais, de repente desaba numa cadeira e solta um gemido...

Minha querida digo-lhe, beijando a mão. O que te preocupa? Compartilha tuas dores comigo e tem por certo que saberei valorizar tua confiança! Diz-me, então, por que estás chorando?

Ora, como não vou chorar? diz minha desconhecida. Julga-o tu mesmo: hoje temos que pagar pelo apartamento e o preguiçoso do meu maridinho entregou apenas sessenta linhas ao jornal! Como é que podemos viver assim? Ontem escreveu exatamente por onze rublos e quarenta copeques, e hoje mal contei três rublos! Como não vou ser uma infeliz? Não, nem a uma malvada tártara lhe desejaria ser a mulher de um repórter! É um sem-vergonha, um miserável! Em vez de trabalhar, ele vive como hóspede na casa de Savrasienkov! Tu vais ver, quando chegares!
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“Ó mulheres, mulheres!”, disse Shakespeare e agora compreendo seu estado de espírito...






BREVE BIOGRAFIA DE TCHEKHOV por Francisco José dos Santos Braga



Antón Pávlovitch TCHÉKHOV (Taganrog, 1860-Badenweiler, 1904) foi um médico, dramaturgo e escritor russo, considerado um dos maiores contistas de todos os tempos. "O maior contista que já existiu" para Raymond Carver, que escreveu o conto Errand sobre a morte de Tchekhov; "muito provavelmente o melhor de todos os contistas" para William Boyd; e para George Steiner os contos de Tchekhov são "histórias... que estão entre as conquistas supremas na narrativa em prosa". Os contos breves, precisos e tocantes de Tchekhov revolucionaram a maneira de escrever narrativas curtas, tornaram-se mundialmente conhecidos e influenciaram os principais escritores que posteriormente dedicaram-se ao gênero. Grande parte da originalidade de Tchekhov reside no papel fundamental que desempenham, em suas histórias, a sugestão e o silêncio, a ponto de, muitas vezes, o mais importante ser justamente o que não é dito, razão por que muitos críticos literários o consideram o pai dos contos modernos.

Em 1876, seu pai, Pavel, tentando construir uma casa nova, foi enganado por um empreiteiro chamado Mironov, razão por que, depois de gastar todas as suas finanças, levou a sua própria loja à falência. Endividado, para não ser preso, fugiu com os filhos para Moscou, onde dois de seus filhos, Aleksandr e Nicolai, já cursavam a universidade, deixando para trás Tchekhov que ficou encarregado de vender os bens da família, cuidar de si e de sua família e terminar seus estudos. Este permaneceu em Taganrog por mais três anos em companhia de um homem chamado Selivanov, o qual socorreu a família de Tchekhov, indo, antes do leilão da casa, ao juiz propor um acordo com Mironov, comprando a casa e protegendo-a de outros credores predadores.

Durante essa época, começou a ler frenética e analiticamente obras de Cervantes, Turgueniev, Goncharov e Schopenhauer, tendo escrito uma comédia dramática, O Órfão.

Em 1879, concluiu seus estudos em Taganrog e se juntou à sua família em Moscou, quando foi admitido na Faculdade de Medicina da Universidade de Moscou. Agora havia assumido definitivamente a responsabilidade pela família. Para sustentá-la e pagar suas mensalidades na Faculdade, começou a escrever diariamente esquetes curtas e bem-humoradas e ainda vinhetas sobre a vida russa contemporânea, ganhando aos poucos a reputação de cronista satírico da vida cotidiana russa. Em 1882, já escrevia para a revista Fragmentos que pertencia a Nicolai Leykin, um dos principais editores da época. Em 1884, formou-se médico. Entre 1884 e 1885, Tchekhov começou a tossir sangue e em 1886 os ataques pioraram, mas ele não quis admitir que estava com tuberculose a seus familiares e amigos: “Eu tenho medo de me submeter a ser examinado pelos meus colegas”, teria confessado ao editor da revista semanal, para a qual colaborava.

O que se passava com Tchekhov, em 1885-1886, o período de maior produção como contista, com a idade de 25 anos, recém-formado na Faculdade de Medicina da Universidade de Moscou? Com uma produção espetacular de cerca de 200 contos nesses intensos dois anos, cabe perguntar se era por necessidade que ele redigia até à exaustão, além de exercer sua profissão de médico.

Primeiro, a princípio Tchekhov escrevia simples anedotas humorísticas por razões financeiras, mas suas ambições artísticas cresceram à medida que ele fez inovações formais que influenciaram na evolução dos contos modernos. Em pouco tempo, Tchekhov começou a atrair não só a atenção popular, mas também a atenção dos literatos, dentre os quais cabe mencionar Dmitri Grigórovitch, uma das maiores celebridades do seu tempo, com 64 anos de idade, que apostou nele desde o início, e que, após ler o seu conto O Caçador, apreciou seu belo trabalho intelectual, comentando: "Você tem um verdadeiro talento, um talento que o coloca na linha de frente entre os escritores da nova geração." Porém, continua, na famosa carta de 25 de março de 1886, recomendando-lhe desacelerar, escrever menos e se concentrar em qualidade e não em quantidade literária, isto é, abandonar os esforços das peças menores em busca de uma maior “seriedade” na escrita. A resposta de Tchekhov a essa convocação não se fez esperar: "Sua carta, meu caro, querido arauto de grandes novas, me atingiu como um raio."

Segundo, é preciso observar que havia encomenda para seus belos textos e contos. Revistas e jornais russos disputavam a presença dele entre seus colunistas, articulistas e colaboradores. 

Terceiro, independente disso, Tchekhov pensava em cumprir com suas obrigações, porque escrever para ele era um ato político, um assunto social, consequentemente uma questão relevante. Como ele escrevia também para aqueles anos, sobre o que se passava naquela época, tinha o cuidado de escrever com humor e sem provocar muitos atritos. 

Mas não só isso: escrevia também contos tristes sobre órfãos, viúvas, esposas e meninos, todos tristes, porque no fundo era triste o que ele via. Retratando o que sucedia a seu redor, escrevia com cada vez menos humor, ao mesmo tempo que relaxava o ritmo de publicação em troca de um ritmo de qualidade, de profundidade ou de compromisso. Também deve ser considerado que o final desses dois anos, quando Tchekhov já beirava seus 27 anos de idade, correspondia ao momento em que sua atenção já estava noutra parte, numa transformação, numa crise. Não se importava mais com o que acontecia ao redor de si; era preciso inovar, avançar, retratando agora o que acontecia no seu interior.

No início de 1886, foi convidado a escrever para um dos mais populares jornais em São Petersburgo, Novo Tempo, que pertencia e era editado pelo magnata Aleksei Suvorin, de quem se tornou um amigo dos mais próximos. Neste mesmo ano, Tchekhov publicou originalmente o conto Uma Brilhante Personalidade na revista O Grilo. Quanto à anedota sobre a minguada renda de um repórter, relatada e ridicularizada no conto, o irmão de Anton, chamado Mikhail Tchekhov, publicou um livro de memórias na União Soviética intitulado "Vokrúg Tchekhova" (Ao redor de Tchekhov), no qual rememora os 3 rublos que, cada semana, seu irmão Anton tinha que recolher na própria redação da revista e que, além disso, frequentemente havia atraso no pagamento. Embora esse fato se refira especificamente aos editores da revista Teatro e Notícias do Dia (esta dirigida por Abraham Lípskerov), não há porque acreditar que, no caso de O Grilo, fosse muito diferente. Mikhail comprova o que afirma, referindo-se a uma sua carta de 1885, dirigida a Anton, na qual fazia alusão aos 3 rublos. (Recentemente, em 2010, a Editora Palgrave Macmillan de New York publicou uma tradução desse livro de Mikhail Tchekhov com o título A Brother's Memoir, com 237 páginas, na tradução do russo por Eugene Alper.)

Em 1887, ele ganhou o cobiçado Prêmio Pushkin “pela melhor produção literária distinguida pelo seu valor artístico” com a coleção de contos Ao Anoitecer.

No outono de 1887, um diretor de teatro chamado Korsh comissionou Tchekhov a escrever uma peça, e o resultado foi Ivanov, escrita em duas semanas. A peça foi um sucesso e muito elogiada pela sua originalidade.

Perdeu o irmão Nikolai em 1889, fulminado pela tuberculose, que o deixou depressivo e inquieto. Em busca de um propósito em sua vida, logo se tornou obcecado com a questão da reforma do sistema prisional, assunto que seu outro irmão Mikhail estava pesquisando como parte de seu curso de Direito.

Em 1890, Tchekhov realizou uma árdua viagem de trem, carruagem e navio a vapor para o Extremo Oriente da Rússia e depois para a colônia penal Sacalina, localizada no mar do Japão, onde passou três meses entrevistando milhares de presos e colonos para um censo. As cartas que escreveu durante esse período são consideradas umas das suas melhores. “Houve momentos em que senti que as coisas que via diante de mim haviam ultrapassado os limites da degradação humana”, referindo-se aos espancamentos, desvio de suprimentos e a prostituição forçada de mulheres que presenciou. O resultado de suas pesquisas sobre o sistema prisional foi publicado entre 1893 e 1894 sob o título de A Ilha de Sacalina, uma obra sociológica, não literária, digna e informativa ao invés de brilhante.

Em 1892, comprou a propriedade rural de Melikhovo, a 65 km ao sul de Moscou, onde viveu com sua família até 1899. Logo se fez útil para os camponeses locais, através da organização de ajuda humanitária para as vítimas de fome e de surtos de cólera em 1892, construção de três escolas, um corpo de bombeiros e uma clínica médica, oferecendo gratuitamente seus serviços médicos aos camponeses, apesar das frequentes recidivas de sua tuberculose.

Tchekhov começou a escrever sua peça teatral A Gaivota em 1894, na sua pousada em Melikhovo. Estreada em outubro de 1896 no Teatro Aleksandrinski em São Petersburgo, constituiu-se num fiasco. As vaias do público e a péssima recepção da peça levaram o seu autor a pensar em renunciar ao teatro. Mas a peça impressionou tanto o dramaturgo Nemirovitch-Dantchenko que este convenceu seu colega Konstantín Stanislavski a dirigi-la no inovador Teatro de Arte de Moscou em 1898. A atenção que Stalinavski prestou ao realismo psicológico e a atuação criadas para extrair as maravilhas escondidas no texto foram os principais fatores responsáveis por restaurar o interesse de Tchekhov pela dramaturgia. O Teatro de Arte encomendou mais peças de Tchekhov e esta associação permitiu a representação de suas peças mais representativas como Tio Vânia (1897), As Três Irmãs (1901) e O Jardim de Cerejeiras (1904).

Em março de 1897, sofre uma hemorragia grave nos pulmões, durante uma visita a Moscou. Levado a uma clínica, os médicos diagnosticaram tuberculose na parte superior de seus pulmões e ordenaram uma mudança em seu estilo de vida. Neste mesmo ano, escreveu o conto Os Mujiques, onde revisitou as condições de vida dos camponeses russos antes e depois de 1861, data do fim da servidão. Neste conto é possível constatar com minúcias, de maneira íntima e apaixonada, características como clima, miséria, alimentação, trabalho árduo, impostos abusivos, lembrança da servidão, religião, alcoolismo, doenças, analfabetismo e violência doméstica. Todas essas serão também as características que constituem as causas que contribuirão para que o povo russo se rebele no futuro contra o governo (1917). Ou seja, Tchekhov denunciou essas péssimas condições de vida dos camponeses russos vinte anos antes da Revolução Russa.

Após a morte de seu pai em 1898, comprou um terreno nos arredores de Ialta, lá construindo uma casa, para a qual se mudou com sua mãe e irmã no ano seguinte.

Em 25 de maio de 1901 casou-se com a talentosa atriz Olga Knipper em segredo, dado o seu horror a casamentos, preferindo até então fazer visita aos bordéis a ter um relacionamento sério. Tal casamento só aconteceu graças à sua feliz relação com o Teatro de Arte de Moscou e à sua amizade com Stanislavski. Cumpria rigorosamente as condições para os arranjos conjugais: ele viveu em grande parte em Ialta e Olga em Moscou, prosseguindo a sua carreira de atriz. Olga encenou vários papéis principais em todas as importantes peças teatrais de Tchekhov, sendo algumas delas escritas especificamente para ela. O legado literário deste casamento a distância é a correspondência que preserva jóias da história do teatro.

Os últimos anos em Ialta, na Crimeia, onde foi obrigado a viver em razão da sua moléstia dos pulmões e aonde todo o Teatro de Arte vinha visitá-lo para lhe mostrar suas peças, foram talvez os mais felizes de sua vida, por causa do casamento, da amizade com Górki, da relação respeitosa com Tolstói, que, convalescente, residiu por algum tempo num castelo perto de Ialta. Ficou extremamente feliz como uma criança ao ser eleito membro de honra da Classe de Letras da Academia de Ciências de São Petersburgo.

Em 1902, Górki foi eleito membro honorário da Academia de Ciências de São Petersburgo, título que mais tarde foi vetado por um ato do tzar Nicolau II, que alegou as ideias radicais do escritor. Em sinal de protesto e num gesto de solidariedade ao autor de Pequenos Burgueses, Tchekhov e Korolenko fizeram questão de se demitir da Academia.

A respeito de Tchekhov, Górki escreveu: "Na presença de Anton Pavlovitch, todos nós sentíamos um desejo inconsciente de sermos mais simples, mais confiáveis, mais nós mesmos."

Seu último conto A Noiva (1903) e sua última peça O Jardim das Cerejeiras (1904) são dois textos em que um espírito preparado com tranquilidade para o fim da vida faz pouco caso de sua doença, sua morte, continuando a semear a esperança à beira do túmulo. Sua obra encerra toda a vasta Rússia antes da revolução, com sua natureza eterna e suas eternas condições sociais "desnaturadas", ou seja, "a insolência e o ócio dos fortes, a ignorância e a bestialidade dos fracos, e, ao redor, a pobreza indescritível, o sofrimento, a degradação, a bebida, a hipocrisia, a mentira...". Embora o fim estivesse se aproximando, a luz radiante de fé no futuro paira no olhar amoroso do contista. É assim que retrata Nádia, a noiva, quando diz ao morto que a convenceu a fugir de uma falsa existência: "Adeus, meu querido Sasha. E diante dela surgiu uma nova vida, ampla e livre, e essa nova vida, ainda pouco nítida e cheia de segredos, vinha chamá-la e atraí-la." Seria o segredo da morte que vinha chamar Tchekhov e atraí-lo? Ou seria mesmo a visão de uma nova Rússia?

Em maio de 1904, a tuberculose que sofria alcançou um estado terminal. Em 3 de junho, ele partiu com Olga para a cidade alemã de Badenweiler, na Floresta Negra, de onde escreveu cartas aparentemente joviais para sua irmã.


Para Janet Malcolm, a morte de Tchekhov se tornou um dos "maiores temas da história literária", e já foi recontada, enfeitada e muitas vezes fantasiada. De concreto sabe-se que o corpo de Tchekhov foi transportado a Moscou por um vagão de trem com refrigeração, que servia para o transporte de ostras frescas, fato que indignou Górki.

Sempre modesto, Tchekhov não poderia imaginar o tamanho de sua reputação póstuma, especialmente como dramaturgo. Como tal criou quatro obras teatrais clássicas (Tio Vânia, As Três Irmãs, O Jardim das Cerejeiras e A Gaivota), muito apreciadas pelo público brasileiro. Por outro lado, seus contos têm sido aclamados por escritores e críticos de todo o mundo. Foi médico durante a maior parte de sua carreira literária e, em uma de suas 4.500 cartas, ele escreveu a respeito: “A medicina é a minha legítima esposa; a literatura é apenas minha amante.

Apesar do seu sucesso incontestável como dramaturgo, alguns escritores acreditam que seus contos representem sua maior conquista. Tolstói foi um grande admirador dos contos de Tchekhov, que o considerava “o Pushkin da prosa”. Górki o considerava como um dos grandes da narrativa: O idioma russo foi criado por Pushkin, Turguéniev e ele.” Stanislavski confessou que Tchekhov "trouxe à arte do teatro aquela verdade profunda que serviu de fundamento ao que mais tarde veio a se chamar método Stanislavski." Raymond Carver, que escreveu o conto Errand sobre a morte de Tchekhov, acreditava que seu biografado era o melhor de todos os contistas: “Os contos de Tchekhov são tão maravilhosos (e necessários) hoje como quando eles apareceram pela primeira vez. Não é apenas o número imenso de contos que ele escreveu poucos escritores, se houver algum, escreveram mais que ele é impressionante a frequência com a qual ele produziu obras-primas, contos que nos encorajam, bem como encantam e mexem conosco, que revelam as nossas emoções de forma que só a verdadeira arte conseguiria.

Grandes tradutores brasileiros se revezaram no nobre ofício de transporem para o idioma português as pérolas do conto russo da lavra de Tchekhov, podendo-se citar: Rachel de Queiroz, Manuel Bandeira, Luís Martins, Oswaldo Alves, o húngaro Paulo Rónai, o ucraniano Boris Schnaiderman, a russa Tatiana Belinky, etc.

Há um filme russo de 1989 com o mesmo título do conto (Uma Brilhante Personalidade). Trata-se de uma comédia musical de mau gosto que nada tem a ver com a temática do conto de Tchekhov, infelizmente.