sexta-feira, 18 de dezembro de 2009

105 Anos da Presença Franciscana em São João del-Rei e o centenário Ginásio Santo Antônio > > > Parte 4


Por Francisco José dos Santos Braga *



Atitude cultural



Vale destacar aqui importantes iniciativas tomadas no âmbito do Ginásio Santo Antônio que por certo contribuíram para elevar o nível atlético e intelectual dos envolvidos e, por extensão, de toda a comunidade são-joanense, a saber:

1. a fundação do Grêmio Literário Jackson de Figueiredo em 1938, com biblioteca própria, tinha no Prof. Antônio de Assiz Sobrinho seu organizador e orientador, bem como em Paulo Mendes Campos um orador de vulto em diversas de suas sessões (como se pode comprovar da peça oratória dedicada a Jackson de Figueiredo em “O Porvir” nº 276, Ano XVI, de 17/10/1938)

2. a inauguração da piscina olímpica em 11/11/1941 com o comprimento de 25 metros com vestiário e casa de chuveiros. Uma verdadeira façanha na época!

3. um museu de História Natural, fruto de ter-se enriquecido com a aquisição de valiosos espécimes pela Direção do Ginásio ou com a doação generosa de pais dos alunos ou dos próprios alunos, por ocasião do seu retorno das férias escolares, conforme se lê em “O Porvir” nº 310, Ano XIX, de 24/01/1942

4. um Curso de Datilografia do Ginásio Santo Antônio (anunciado em "O Porvir" nº 291, Ano XVII, de 18/3/1939

5. um coral regido pelo Maestro Tenente João Cavalcante, como se lê em "O Porvir" nº 324, Ano XX, de 11/11/1943; na década de 50, houve um coral regido pelo Frei Geraldo de Reuver, do qual participaram pelo menos o historiador Evandro de Almeida Coelho, Abgar Campos Tirado e Gil Amaral Campos; e na década de 60, o coral de Frei Orlando Rabuske, acima descrito

6. desde 1920, uma Banda do Colégio sob a regência do Prof. Christiano Müller cujo nome oficial era Lira São Francisco, apelidada "A Furiosa"

7. um Clube de Xadrez e snooker, proporcionando várias competições entre os internos, conforme mencionado em "O Porvir" nº 324, Ano XX, de 11/11/1943

8. a Cruzada Eucarística, como a noticiada em "O Porvir"nº 325, Ano XX, sem data

9. a Festa em benefício das Missões indígenas com barraquinhas, como a ocorrida nos dias 31/10 a 2/11/1943

10. festa anual em homenagem a algum frei

11. retiro espiritual (por exemplo, o noticiado em “O Porvir” nº 257, Ano XIV, em 7/9/1937)

12. a instalação de aparelho telefônico com o nº 6, ligado diretamente à rede da Companhia Telefônica Brasileira, facilitando a comunicação entre pais e seus filhos internos

13. Olimpíada travada entre alunos dos cursos Ginasial e Colegial, em todas as modalidades de esportes: tênis de mesa, xadrez, vôlei, basquete, salto em altura e em extensão, corrida, lançamento de pêso, dardo, provas de atletismo, provas aquáticas, sinuca e bilhar e futebol, como a ocorrida de 21/10 a 24/10/1948 em homenagem a Frei Bertrando van Breukelen, noticiada em "O Porvir" de 21/10/1948

14. o apoio incondicional ao Infantil Esparta e ao Esparta Futebol Clube, donde saíram inúmeros craques para o futebol profissional

15. o mini-zoológico que o Ginásio Santo Antônio disponibilizava à visitação pública, especialmente nos fins de semana, quando as famílias são-joanenses levavam seus filhos para se divertirem com os animais em cativeiro (macaco “chico”, onça jaguatirica, jacaré, veados, grandes tartarugas e aquário)

16. sessão de cinema toda quarta-feira, com presença voluntária de internos bem como de externos do Coral.

Curiosidades

Durante minha permanência no Ginásio, todo semestre observava algo incomum: a chegada de um ex-aluno, que diziam ser do Rio de Janeiro. O seu nome era Fernando Moura, apelidado Fila-bóia, porque entre os alunos corria o boato de que ele nada pagava pela hospedagem, era “boca livre”. Aparecia de repente e via-o pelos corredores, em companhia dos freis, por um período de uns quinze dias, para em seguida desaparecer de novo. No semestre seguinte, lá estava ele de novo, usando o mesmo sistema de cama e mesa grátis.

Outra curiosidade foi a admissão de figuras do sexo feminino no corpo discente do Ginásio. Até 1964, não havia garotas no Ginásio. Em 1965, chegou a primeira mulher à minha turma, primeira série do curso colegial: Carlene, uma norte-americana. Nos dois anos seguintes, que ainda permaneci no Ginásio, observei o aumento crescente de participação das garotas. Foi o início de uma tendência muito saudável que hoje constitui a realidade das escolas de todo o País.

Austeridade

Nunca é demais relembrar que certos professores primavam pela austeridade, tanto no seu modo de ser quanto no processo de ensino-aprendizagem. Alguns ex-alunos são muito críticos em relação a essa austeridade exagerada, atribuindo a ela certo distanciamento entre professor-aluno de então. Dentre os mais austeros destacaram-se os seguintes professores: Domingos Horta, o Jamelão, o Tamancão, o Perereca e Frei Jordano.

Eu cursava a 2a. série ginasial-turma A, quando o Professor Blair Simões Ribeiro foi contratado para lecionar Matemática. Seja por nossa insubordinação, seja pelo despreparo do professor em liderar a turma, a verdade é que, após um breve período, o professor foi substituído por Frei Geraldo, o Perereca. Logo, nas primeiras aulas, o novo professor se horrorizou perante nosso desconhecimento da matéria e desleixo diante das lições que passava. Foi então que tivemos que enfrentar a lição referente aos produtos notáveis. Dizia o Perereca: "Existem alguns produtos que se notabilizaram por algumas particularidades." De imediato, pôs-se a explicar o conhecido polinômio do quadrado da soma de dois números. Diante da nossa desatenção, considerada agravante pelo Perereca, este resolveu convocar a turma a comparecer, durante uma semana, às 15 horas, munida de caneta e caderno intacto, sendo cada um de nós obrigado a fazer a seguinte cópia do célebre polinômio, duas mil vezes: "O quadrado da soma de dois termos é igual ao quadrado do primeiro mais duas vezes o primeiro vezes o segundo, mais o quadrado do segundo termo, ou seja, ( a + b )² = a² + 2ab + b²."

Apesar da austeridade mencionada, eu conseguia granjear a amizade de alguns desses mestres, devido ao meu grande esfôrço no aprendizado do piano e pelo afinco que demonstrava no estudo das disciplinas. Foi assim que cultivei a amizade de Frei Geraldo, o Perereca, regente de coral e organista, com quem aprendi a ouvir e apreciar as obras mestras do Barroco e da Primeira Escola de Viena (Beethoven, Haydn e Mozart). Indeléveis na minha formação foram a sua interpretação de prelúdios e fugas de Bach no órgão da capela dos internos e a audição de peças de órgão e cravo, bem como de cantatas e Paixões de Bach e de madrigais renascentistas. Também o Frei Felicíssimo, o Tamancão, certa vez me surpreendeu, ao presentear-me com a partitura de uma valsa, intitulada "Partiu para nunca mais!...", de autoria de Higino Cunha, que conservo com muito carinho. Não poderia silenciar-me ainda sobre as audições de música erudita de que participava. Cabe lembrar que, em companhia dos irmãos Frei Cleto Egink e Frei Orlando Parreira de Moraes, tive a oportunidade de ouvir os clássicos da música ocidental. Especialmente com o segundo ouvi as maiores óperas de todos os tempos, na interpretação dos maiores intérpretes.

Capítulo Provincial no Ginásio Santo Antônio

Durante as férias de 1965 ou 1966, realizou-se no Ginásio Santo Antônio uma concorrida reunião da Província franciscana. Centenas de frades Menores eram vistos por todas as salas de aula e perambulando pelos corredores ou pátios com seu "hábito" característico: túnica larga marrom-escura, capuz, cordão, sandálias e calças, o que lhes dava um ar medieval. Trabalhamos Maria de Lourdes de Barros e eu no serviço de apoio administrativo, para o bom funcionamento desse Capítulo Provincial. Ocupávamo-nos especialmente com trabalhos datilográficos, sendo também responsáveis pelos mimeógrafos a álcool e a tinta.

Num primeiro momento, os textos eram preparados com a ajuda de uma máquina de escrever, numa matriz em papel, chamado estêncil, impermeável e contendo a tinta (azul ou preta) concentrada numa das faces. Essa tinta da matriz dissolvia-se em álcool, que ficava colocado num recipiente da máquina, chamada mimeógrafo. A segunda etapa consistia em por o mimeógrafo em funcionamento, tendo sido posicionado o estêncil no pequeno cilindro poroso da máquina. Com o auxílio de uma manivela que o punha a rodar, conseguíamos que a tinta imprimisse diretamente o papel em branco. Essa máquina - fantástica para a época - permitia a passagem da tinta através da matriz e esta, por sua vez, levava à consequente impressão no papel.

Fim de um ciclo

Em 1888, Raul Pompéia publicou seu romance de memória "O Ateneu" (subtítulo Crônica de Saudades), com fortes tons autobiográficos, no qual, sob a ótica de um ex-aluno interno Sérgio (o próprio autor), descreve certo Colégio Ateneu (o colégio Abílio do qual o autor fôra aluno interno) cuja fama nacional atraía as famílias abastadas da sociedade brasileira a disputarem no célebre educandário uma vaga para seus filhos. Misturando alegria e tristeza, decepções e entusiasmos, Sérgio (tanto protagonista como narrador) reconstrói, por meio da memória e da introspecção, os dois anos que viveu entre as paredes do internato.

Antes de ali ingressar aos 11 anos de idade —uma criança —, Sérgio só conhecia o internato por suas grandes festas, razão por que a escola correspondia a um mundo de ilusões e fantasias. "Vais encontrar o mundo, disse-me meu pai, à porta do Ateneu. Coragem para a luta", assim começa o romance. Para Sérgio, o Ateneu era um novo mundo que se abria diante dele. Só aos poucos é que vai percebendo as "regras" daquele mundo, as leis que regiam o Ateneu. Arrebatado da "estufa de carinho que é o regime do amor doméstico" (cap. I), o menino se sente frágil e indefeso diante das hostilidades do mundo, à mercê de "educadores" que lhe impõem a camisa-de-força das convenções sociais, marcadas pela mentira e superficialidade. O Ateneu, apresentado pelo autor como um retrato da sociedade da época ("Não é o internato que faz a sociedade; o internato a reflete. A corrupção que ali viceja vem de fora.", diz o professor Sérgio no cap. XI), é o local onde sobressaem as mazelas, os casos de corrupção, deslealdade, amizades perigosas, homossexualismo e outras manifestações do comportamento social. O internato é um microcosmo da sociedade da época: monarquista e imperial. Desviado de sua verdadeira função — formar e instruir —, o Ateneu transforma-se num meio de exteriorizar a vaidade, a soberba e a empáfia de seu Diretor Dr. Aristarco (Dr. Abílio Borges, Barão de Macaúba, diretor do colégio Abílio) .

O romance pode ser considerado como um diário sobre um internato, em que o mundo da escola é retratado sob a ótica particular de Sérgio, que é claramente caricatural. Assim, o Diretor do Ateneu, Aristarco Argolo dos Ramos, encarna o autoritarismo, a insensibilidade e a vaidade. "Soldavam-se nele o educador e o empresário com uma perfeição rigorosa de acôrdo, dois lados da mesma medalha: opostos, mas justapostos." (cap. II)

Sérgio, com o passar do tempo, vivencia inúmeras experiências, desde a amizade (pelo aluno Egbert), a fôrça (tanto do amado Bento quanto do cruel "sedutor" Sanches), o autoritarismo (do Diretor Aristarco), até a descoberta da sexualidade (amor por Ema, esposa do Diretor, que para Sérgio representa um misto de mulher e mãe; amor por Ângela, a empregada do colégio, símbolo do mal, personificação do sexo e da classe social inferior a serviço, com o trabalho ou a prestação de serviços sexuais, de uma classe mais abastada; amor por Bento Alves, o "grande, forte e bravo", por quem nutria uma estima "feminina").

Com o tempo, instala-se na criança o sentimento de vingança. A necessidade de ver-se livre desse mundo de opressão é uma consequência natural: a catarse é previsível. Encerra sua "crônica de saudades" o incêndio do educandário, ao final do livro, tramado não por Sérgio, mas por Américo, um aluno que fugira do internato e, resgatado, fôra ali deixado contra a vontade com a recomendação paterna de que Aristarco lhe curasse o mau comportamento. O incêndio final da escola e o abandono de Aristarco por parte de sua esposa Ema evidenciam a intenção do narrador de vingar-se contra a educação que recebera na adolescência, sendo os momentos mais agressivos de sua desforra.

Alguns críticos acham por bem reportar o nome do incendiário Américo à América, o novo mundo que figurativamente põe fogo a tudo que lembre o passado — Europa e seus valores. O colégio Ateneu, dentro dessa visão, seria um antro de erudição europeizada, falsa, importada e desligada da realidade histórica brasileira.

Lembremo-nos de que Raul Pompéia era abolicionista e republicano.

Por que tratar de um internato tão distante, no Rio de Janeiro, na última década do século XIX, dentro desse texto sobre o Ginásio Santo Antônio em São João del-Rei, na década de 60 do século XX, portanto cerca de 70 anos depois?

Entendo que o romance de Raul Pompéia se caracteriza por ser um magnífico documento psicológico da vida interior de um menino púbere, em que pese as contínuas interferências do narrador adulto sobre a matéria-prima da memória.

Muitas de suas observações sagazes devem sim ter contribuído muito para que os administradores dos futuros internatos tomassem decisões importantes buscando a não-repetição das precariedades denunciadas pelo romance.

Que eu saiba, nenhuma das críticas virulentas de Raul Pompéia foi desferida por algum ex-aluno contra o educandário são-joanense. Pelo contrário, são do meu conhecimento contínuas referências elogiosas e atribuição do êxito pessoal à excelente educação recebida dentro dos muros do Ginásio Santo Antônio.

Ali se educou — e muito bem — para a vida.

Pode até ser que alguns conseguiram ser admitidos no "Santo Antônio" sem as condições mínimas desejáveis — o que já é muito difícil de acreditar porque as vagas eram muito disputadas —, mas posso garantir que ninguém conseguiu continuar seus estudos lá dentro sem estudar seriamente. Era fato corrente que, para permanecer sob os cuidados dos franciscanos, o aluno precisava gostar de estudar, o que era ensinado como o caminho natural para a autoeducação e o saber, sem prejuízo de muitos passeios, incentivo aos esportes e à música, estímulo à participação na banda marcial e em olimpíadas e convite à diversão coletiva.

Do que se viu nesse texto pode-se afirmar que a uma sólida formação nas disciplinas ensinadas com o maior rigor correspondia a formação integral da juventude nos ideais franciscanos de respeito à dignidade humana.

Os alunos do "Santo Antônio" tinham diferentes procedências. No início, a maioria dos estudantes vinha de cidades pequenas e de fazendas, trazidos a cavalo pelos freis para comporem o grupo de internos. Na minha época, cerca de 60 anos após a fundação, era comum ter algum colega estrangeiro em sala de aula, como ocorreu quando tive a convivência saudável com dois norte-americanos no curso colegial (Carlene Yone Larsing e seu irmão). O que quero dizer é que a diversidade de procedência do corpo discente do "Santo Antônio" possibilitava que todos nos enriquecêssemos com as diferentes experiências. Foi assim que tive a sorte de privar com colegas de todos os Estados do Brasil.

Penso que, no convívio com os franciscanos, todos os alunos desenvolvemos sentimentos e virtudes, como a solidariedade, o amor à verdade e a compaixão para com os pobres.

Para além de um conhecimento lisonjeiro das disciplinas que ensinavam, os freis eram portadores de qualidades humanas incomparáveis, preferindo deixar como herança alunos — diria filhos — que pudessem continuar a sua obra, ensinando outros alunos, aprendendo sempre.
Corpo Docente do Ginásio Santo Antônio - 1968


De comum com o romance de Raul Pompéia foi o encerramento de um ciclo do "Santo Antônio", motivado por um grande incêndio ocorrido em 31 de maio de 1968. Foram inteiramente destruídos pelo fogo os laboratórios de Física e de História Natural, a capela dos internos com o seu órgão europeu. Igualmente, um incêndio de ainda maiores proporções do que o do "Santo Antônio" pôs fim ao Colégio e Seminário do Caraça, exatamente três dias antes do ocorrido em São João del-Rei. No "Caraça" foram destruídos o edifício ocupado pelos alunos e parte das edificações, dentre elas uma biblioteca com vinte mil volumes, salas de aula, gabinete e teatro. Coincidência? Acredito que não.

Tenho uma tese, ainda carente de comprovação, de que uma mente diabólica urdiu os dois incêndios, de forma que numa única tacada conseguisse paralisar os dois maiores formadores de opinião de Minas Gerais, já que ali estudava a nata da intelectualidade mineira e do País. No caso do Santo Antônio, acusa-se um ferro de passar roupa, que foi esquecido ligado na alfaiataria, e no caso do "Caraça" um fogareiro teria sido o autor do feito. Por outro lado, sustento que, naquele momento crucial da história brasileira, com premeditação forjaram-se os dois incêndios.

Em todos os períodos da história humana, há as pessoas mais fundamentalistas que são irredutíveis no seu modo de ser e pensar. Não arredam um centímetro dos princípios fundamentais da organização a que pertencem. Neles acreditam como verdade absoluta, indiscutível, sem possibilidade de abrir-se à premissa do diálogo e à realidade do "outro".

Eu acuso essa mente diabólica de perpetrar ambos os incêndios. Em 1968, na França, o movimento estudantil reivindicava melhores condições de ensino, com ideais libertários contra a tradição da sociedade burguesa de então. Mas cada país tinha uma motivação diferente. No Brasil, o movimento estudantil tinha motivação política e lutava contra a ditadura imposta pelos militares. Ainda em nosso País, havia extremistas de ambos os lados, o que possibilitou o surgimento, por um lado, de guerrilhas urbanas, sequestros de embaixadores e ações terroristas e, por outro lado, de sessões de tortura nas celas do DOPS, patrulhamento ideológico, desaparecimento de cidadãos e perseguição dos simpatizantes do Comunismo. O acirramento das posições levou ao endurecimento do regime e à edição do AI-5. Nesse estado de coisas, os exageros são compreensíveis, mas os desfechos, imprevisíveis.

Comemoração dos 100 anos da presença franciscana em São João del-Rei

Em 2004, a Paróquia São Francisco de Assis de São João del-Rei comemorou 100 anos da presença franciscana na cidade, através da apresentação da opereta "Legenda de Santa Clara" , encenada no Teatro Municipal de São João del-Rei, tendo na regência o também autor da música, Frei Joel Postma o.f.m. ³, e, no acompanhamento ao piano, o autor deste artigo. O concerto ocorreu no dia 05/12/2004, tendo o comentarista Prof. Abgar Campos Tirado tecido inúmeros fatos alusivos à data e o historiador Luiz Antônio Ferreira projetado inúmeros diapositivos e "slides" do antigo Ginásio Santo Antônio. Além da participação intensa do Coral "Trovadores da Mantiqueira" de Santos Dumont, a opereta contou ainda com a atuação dos seguintes personagens:

Clara (criança): Carla Rosita da Silva
Clara (adulta): Márcia Cristina da S. Ferreira
Francisco: Valtair Francisco da Silva
Favarone: Frei Óton da Silva Araújo Júnior
Hortulana: Rute Pardini (soprano lírico coloratura — convidada especial)
Frei Junípero: Frei Óton da Silva Araújo Júnior
Solistas: Sérgio Donizete Ferreira e Aparecida de Oliveira Rosa
Cronista: Edson Roberto dos Santos
Arauto: José Fernando da Costa

Inesquecível a ária "O Amanhecer", cantada por Hortulana no 1º ato da opereta, cena 3:
"O Senhor me agraciou: sua luz me iluminou,
uma filha à luz darei: claro, Clara a chamarei!
Ao banhá-la em santa fonte, Clara lhe darei por nome;
claro, os planos do meu Rei, com certeza, alcançarei."

Releva citar que a letra dessa opereta foi criação do poeta pernambucano Padre Reginaldo Veloso, que muito se notabilizou como autor de poemas sacros e ativista da antiga Ação Católica Operária e cuja obra poética tem suas raízes na cultura popular, na inculturação religiosa e na literatura de cordel. A música, conforme mencionado, é de autoria de frei Joel Postma, que em 2009 está comemorando 53 anos de vida religiosa, com intensa atividade na área da música litúrgica.



Imagem: fotografia tirada em 1968 e pertencente ao acervo da Província de Santa Cruz, na qual se vê, da esquerda para a direita, o corpo docente do Ginásio Santo Antônio (com exceção de Frei Orêncio Vogels) : Frei Feliciano van Sambeek, Frei Seráfico Schluter, Frei Diogo Reesink, Frei Augusto Uiterwaal, Frei Manuel Smeltink, Frei Geraldo de Reuver, Frei Orêncio Vogels (2º pároco da Paróquia São Francisco de Assis [1970-1985]), Professor Elpídio Ramalho, Professor Tomaz Perilli e Frei Jordano Noordermeer. 



Notas do Autor

¹  Em Briela de Holanda, celebra-se o triunfo de dezenove Mártires chamados Gorcomienses: deles, onze eram frades menores. Consta que sofreram muitos tormentos e injúrias até à morte, por defenderem a autoridade da Igreja e a presença real de Cristo na Eucaristia. O Papa Pio IX os colocou no número dos santos Mártires.

² O Monsenhor Gustavo Ernesto Coelho (Lavras 1853-1924) era profundo conhecedor de fitoterapia (estudo das plantas medicinais e de suas aplicações na cura das doenças). Observe que a definição de fitoterápico não engloba o uso popular das plantas em si, mas de seus extratos. Seu livro "Medicina Vegetal" era vendido nas principais farmácias sanjoanenses (cf. "A Nota" (Diário Vespertino), p. 3, de 26/02/1918)

AQUINO (1950) registra que em 1888 assumiu em São João del-Rei a direção da Escola de latim, português e francês, mantida pela municipalidade.

CINTRA (1982, I, 139) relata que o monsenhor integra o corpo docente do Colégio Maciel (cadeiras de Geografia, Português e Filosofia), dirigido e mantido pelo Prof. João Batista Maciel, conforme Gazeta Mineira de 26/3/1892.

CINTRA (1982, I, 66; 1994, 65-68) informa que o monsenhor e Frei Cândido Vroomans fundam a União Popular em 27/12/1908, entidade de assistência social que prestou grandes serviços aos são-joanenses (1982, II, 534). Cita ainda como frutos dessa entidade a criação do Albergue Santo Antônio, do Clube Dramático União Popular, do jornal Ação Social e do Liceu de Artes e Ofícios.

³  Frei Joel, tendo chegado a Divinópolis em 1959, logo se engajou à missão de Mestre de Canto para a Faculdade de Teologia do Convento de Santo Antônio (coral de frades), logo passando a dirigir também o Coral Santo Antônio (coral de meninos cantores) e conjuntos instrumentais com cantores leigos, com os quais gravou os LP's de Salmos de Gelineau em português e Cânticos de Natal. Em 1964 foi para o Seminário Seráfico Santo Antônio em Santos Dumont, onde fundou o Coral Trovadores da Mantiqueira, regendo-o durante 20 anos. Chamado à Brasília, foi por 14 anos Chefe da Comissão Litúrgica da CNBB-Conferência Nacional dos Bispos do Brasil, ocasião em que coordenou o lançamento de 4 hinários litúrgicos e fundou e regeu o coral Trovadores do Planalto. Além dessa opereta, Frei Joel compôs ainda três cantatas ("O Peregrino de Assis" , que em 1997 mereceu a gravação em CD pelo Côro de Câmara Pró-Arte, do Rio de Janeiro e em 2008 a gravação em DVD no Teatro Nacional Cláudio Santoro em Brasília, numa cooperação entre a Orquestra de Cordas da UnB e o Coral Cantus Firmus; "Francisco, Jogral de Deus" e "Os Louvores do Irmão Francisco"), além do Cântico das Criaturas (ou Cântico do Irmão Sol), que teve também registro fonográfico, e de muitas outras missas e peças sacras. Posso dizer que tenho muito orgulho de ter participado, como pianista convidado, de todas as apresentações das obras de Frei Joel em várias cidades do País — e não apenas sob a sua regência, mas também sob a batuta de seu aluno Frei Joaquim Fonseca de Souza —, a saber: em Indaiatuba-SP (bairro Itaici), onde se realiza tradicionalmente a reunião anual da Assembléia Nacional dos Bispos (3 vezes, numa das quais presidia a CNBB o saudoso são-joanense Dom Lucas Moreira Neves (1925-2002), ex-aluno do Ginásio Santo Antônio), Belo-Horizonte (3 vezes, sendo duas no Colégio Santo Antônio e uma no Teatro Dom Silvério), Ouro Preto (na Igreja de São Francisco de Assis), Betim, Santos Dumont, Juiz de Fora, Divinópolis, São João del-Rei (na Igreja de São Francisco de Assis e no Teatro Municipal), Anápolis-GO e Brasília-DF.

É curioso ainda transcrever o que está escrito em "O Porvir", publicação quinzenal dos alunos do Ginásio Santo Antônio, na edição de 23/02/1923 (Ano VII nº 83) em artigo de Frei Zacarias van der Hoeven, saudando o novo Diretor Frei Estêvão Lucassen o.f.m. : "Chamado pelo Rev. Pe. Comissário provincial dos Pes. Franciscanos, para reger a cadeira de Geografia, Corografia e Cosmografia, como também de Latim, teve nos 5 anos, que dedicou ao magistério, exatamente na época mais difícil da fundação e fixação do estabelecimento ... Frei Estêvão deixou ao Ginásio, para as respectivas Cadeiras, cujo fundador distinto ele teve a honra de ser, um compêndio de Corografia, ainda em uso, e um livro de exercícios de latim, infelizmente esgotado."

ASSIS (ibidem, p. 74) transcreve o relatório de certo fiscal do Governo, nos exames do fim do ano de 1925, no Ginásio Santo Antônio, onde se lê que "o seu programa está dividido em três cursos", a saber: primário, complementar e ginasial. Acredito que o curso complementar corresponde ao curso de admissão, existente ainda nos meus tempos de estudante.

 BWV, abreviatura de "Bach-Werke-Verzeichnis" ou catálogo de obras de Bach, é o sistema de numeração definido em 1950 por Wolfgang Schmieder e usado para identificar obras compostas por Johann Sebastian Bach, agrupadas por tema, e não cronologicamente. Os números BWV são universalmente usados e aceitos como a forma padrão para enumerar as obras de Bach.


O texto dessa cantata é de autoria do poeta Léon Chancerel, traduzido para o português por Frei Urbano Plentz o.f.m. O poliglota são-joanense Gil Amaral Campos (1939-1999), ex-aluno do Ginásio Santo Antônio, verteu o texto francês para o neerlandês, o qual conservo em meu poder com muito carinho.



Agradecimentos

Finalmente, gostaria de agradecer às seguintes pessoas por me terem prestado informações importantes para a realização da presente pesquisa:

1. historiador Luiz Antônio Ferreira, funcionário da UFSJ, pela cessão de fotografias e cópias de jornais de época pertencentes a seu acervo particular;
2. Frei Joel Postma o.f.m. pelas informações sobre os primórdios do franciscanismo em São João del-Rei; e
3. meu irmão Carlos Fernando dos Santos Braga por ter-me enviado a fotografia do corpo docente do Ginásio Santo Antônio em 1968, estampada logo acima, para registro histórico nesta página.




B I B L I O G R A F I A

Acta Ordinis (editio specialis):  A face do Franciscanismo da memória à profecia,  2000  (Consultar http://www.ofm.org/capgen/00/docs/Conf1.pdf)

AQUINO, Pe. Almir de Rezende: Álbum da Histórica Cidade de São João del-Rei — Sul de Minas, 1950, sem outras referências

ASSIS, Astrogildo; O Ginásio Santo Antônio no Tempo de Tancredo, Rev. do Instituto Histórico e Geográfico de São João del-Rei, volume IV, 1986, pág. 71-77

CINTRA, Sebastião de Oliveira: Efemérides de São João del-Rei, Belo Horizonte, Imprensa Oficial de Minas Gerais, 1982, 2 volumes

— : Galeria das Personalidades Notáveis de S. João del-Rei, publicado pela FAPEC-Fundação de Apoio à Pesquisa, Educação e Cultura, São João del-Rei, 1994

COELHO, Evandro de Almeida: Passeio a São João del-Rei, onde nasceu o Tiradentes (muito sentimental), monografia datilografada em 17 folhas, 1998

FERREIRA, Mauro Eustáquio: Frades da Santa Cruz na Terra do Divino, Museu Histórico de Divinópolis (Exposição "70 anos da presença franciscana em Divinópolis"), Divinópolis-MG, 1994, 23 p.

GUIMARÃES, Geraldo: O povoamento das Minas Gerais, Revista do Instituto Histórico e Geográfico de São João del-Rei, volume V, 1987, pág. 39-48

JÚNIOR, Roberto B. Nicioli e MATTOS, Cristiano Rodrigues de: Uma Análise de Livros Didáticos de Física das Décadas de 50 e 60 (Consultar em

PROVÍNCIA FRANCISCANA SANTA CRUZ: O Peregrino de Assis (música: Frei Joel Postma), organizado por Frei Joaquim Fonseca de Souza, Belo Horizonte, 1996, 312 p.

MAGNANI, Maria Cláudia Almeida Orlando.: O hospício da Diamantina - 1889-1906, dissertação de Mestrado apresentada ao Curso de Pós-Graduação em História das Ciências da Saúde da Casa de Oswaldo Cruz-FIOCRUZ, Rio de Janeiro (Consultar na Internet)

REUVER, Frei Geraldo de: Gramática Elementar da Língua Francesa, Edições Melhoramentos, São Paulo, 4a. edição, 1960

— : Francês (Leituras e Exercícios para o primeiro, segundo, terceiro e quarto ano do Curso Ginasial), Gráfica Santo Antônio, Divinópolis-MG, 1a. edição, 1956; 2a. ed. 1962; 3a. ed. 1986; 4a. ed. 1989

SANTOS, Maria Cecília Guimarães e FERREIRA, Mauro Eustáquio (org.): Presença Seráfica (publicação especial em homenagem aos 70 anos da presença franciscana em Divinópolis), CMPHAPD-Conselho Municipal de Patrimônio Histórico, Artístico e Paisagístico de Divinópolis, Divinópolis, junho de 1995, 16 p.

VASCONCELOS, Diogo de: História Antiga das Minas Gerais, 2º volume, Editora Itatiaia, Belo Horizonte, 1974

VIEGAS, Augusto.: Notícia de São João del-Rei, 3a. edição, Belo Horizonte, 1969

WERNECK, Gustavo: História de amor e solidariedade, Jornal Estado de Minas, 3/5/2009

— :Colégio Santo Antônio comemora 100 anos, Jornal Estado de Minas, 3/5/2009

Diversos números de "O PORVIR", jornal exclusivo do Ginásio Santo Antônio, que teve no Prof. Domingos Horta seu eminente diretor.


* O autor do presente artigo é ex-aluno do Ginásio Santo Antônio e pianista de Frei Joel Postma o.f.m. nas apresentações de suas composições por todo o País.

(Fim desta série em 4 partes)



* Francisco José dos Santos Braga, cidadão são-joanense, tem Bacharelado em Letras (Faculdade Dom Bosco de Filosofia, Ciências e Letras, atual UFSJ) e Composição Musical (UnB), bem como Mestrado em Administração (EAESP-FGV). Além de escrever artigos para revistas e jornais, é autor de dois livros e traduziu vários livros na área de Administração Financeira. Participa ativamente de instituições no País e no exterior, como Membro, cabendo destacar as seguintes: Académie Internationale de Lutèce (Paris), Familia Sancti Hieronymi (Clearwater, Flórida), SBME-Sociedade Brasileira de Música Eletroacústica (2º Tesoureiro), CBG-Colégio Brasileiro de Genealogia (Rio de Janeiro), Academia de Letras e Instituto Histórico e Geográfico de São João del-Rei-MG, Instituto Histórico e Geográfico de Campanha-MG, Academia Valenciana de Letras e Instituto Cultural Visconde do Rio Preto de Valença-RJ e Fundação Oscar Araripe em Tiradentes-MG. Possui o Blog do Braga (www.bragamusician.blogspot.com), um locus de abordagem de temas musicais, literários, literomusicais, históricos e genealógicos, dedicado, entre outras coisas, ao resgate da memória e à defesa do nosso patrimônio histórico.Mais...

105 Anos da Presença Franciscana em São João del-Rei e o centenário Ginásio Santo Antônio > > > Parte 3


Por Francisco José dos Santos Braga


Os Meninos Cantores Externos do Ginásio Santo Antônio

Pela sua participação nos ensaios (duas vezes por semana) e nas apresentações que abrilhantavam as comemorações religiosas das paróquias, os meninos cantores externos gozávamos de certos privilégios que consistiam em irmos aos pique-niques organizados pelo criador do coral e seu regente Frei Orlando Rabuske. Um dos mais pitorescos e inesquecíveis foi o passeio à Lagoa dos Cordões que ficava localizada entre São João del-Rei e Tiradentes, na localidade conhecida por Porto (Real da Passagem), então distrito de Tiradentes. Hoje esta lagoa ainda se encontra perfeitamente conservada, sendo um dos principais atrativos da Pousada Lago d' Ouro, no Município de Santa Cruz de Minas.

Além desse, havia outro privilégio: toda quarta-feira, à noite, os meninos cantores podíamos assistir aos maravilhosos filmes a que tinham também direito os alunos internos do Ginásio Santo Antônio. Essa oportunidade em especial era imperdível. Assistíamos às fitas mais marcantes da história da sétima arte sem despender um único centavo. Digno de nota era também o direito que tínhamos de ter acesso à Biblioteca e frequentar a piscina junto com os internos. Por todas essas concessões nos distinguíamos dos alunos regulares externos e internos, como era natural, razão por que nossos desafetos nos tratavam com a alcunha desairosa de "piuítas do frei Orlando".

A seguir, cito apenas aqueles cantores de quem me recordo, embora o seu número seja muito maior do que os nomeados a seguir: Carlos Marcos Henriques, Flávio Costa Gonçalves, Antônio Celso Teixeira Braga, João Bosco Teixeira Braga, Adenir Aquiles dos Santos, Aldomir, Luiz Antônio Almeida, Edson Romero Neves ("Dinho"), João Prado, Hugo Ribeiro de Araújo, Roque César dos Santos Braga, Osvaldo Torga, Carlos Alberto Torga, Sérgio Torga, Cláudio, Francisco Canavez, José Maria Ávila, Antônio Taier, Breno Lombardi, Moacir Cristóvão Guimarães, José Luiz Gattas Halack, Marcos Monteiro, Eduardo Marques Ávila, Murilo Chaffi Halack, Antônio Eduardo Halack, Marco Antônio de Araújo Rangel, Cláudio Salomé, Mateus Eustáquio Salomé de Oliveira, Euler Fernando Ribeiro e Silva, Luiz Fernando Nascimento, Carlos Alberto Nascimento, Roberto Brasil, Hélder, o autor deste artigo, dentre outros.

Frei Orlando Rabuske era um frei teuto-brasileiro, que, antes de sua passagem por São João del-Rei, desenvolveu um trabalho de regência coral em Divinópolis. Conseguiu com a Embaixada da então República Federal da Alemanha vários exemplares da coletânea de peças corais, intitulada "Chorübungen", para cada naipe do coral. As peças que ali constavam tinham sido selecionadas pelo Professor Eberhard Schwickerath e editadas pela Musikverlag Hans Sikorski de Hamburgo. Guardo ainda comigo um desses exemplares para a voz de tenor. Da referida coletânea, cantávamos algumas peças corais. Recordo-me especialmente de Matona mia cara e Das Wandern, cujas letras, com minha tradução, reproduzo abaixo:

1. Matona mia cara (Orlando di Lasso)

Matona mia cara, mi follere canzon
cantar sotto finestra, lanze bon compagnon.
Don don don diri diri don don don don

Ti prego m'ascoltare che mi cantar de bon
e mi ti foller bene come greco e capon.
Don don don diri diri don don don don

Com'andar alle cazze, cazzar con le falcon,
mi ti portar beccazze, grasse come rognon.
Don don don diri diri don don don don

Se mi non saper dire tante belle rason
Petrarca mi non saper, ne fonte d'Helicon.
Don don don diri diri don don don don

Se ti mi foller bene mi non esser poltron;
mi ficcar tutta notte, urtar come monton
Don don don diri diri don don don don.

(Minha tradução)
Senhora minha cara, esta imprudente canção
cantarei sob a janela, serei um bom companheiro.
Don don don diri diri don don don don

Te suplico me escutar, pois cantarei bem
e te exaltarei bem como um grego e um galo castrado.
Don don don diri diri don don don don

Assim a andar pela caça, caçar com o falcão,
te trarei boa caça gorda como rins.
Don don don diri diri don don don don

Se não sei dizer muitos belos pensamentos,
Petrarca não conheço,nem a fonte de Helicon.
Don don don diri diri don don don don

Se você me quiser bem, não serei um potro;
foderei a noite toda a bater como um aríete.
Don don don diri diri don don don don

Observação: Claro que esta última estrofe era propositalmente excluída por não se adequar aos padrões morais e religiosos do Ginásio.

2. Das Wandern, o primeiro dos "Lieder" do ciclo intitulado Die schöne Müllerin (Franz Schubert)

Das Wandern ist des Müllers Lust,
Das Wandern ist des Müllers Lust,
Das Wandern!

Das muss ein schlechter Müller sein,
Dem niemals fiel das Wandern ein,
Dem niemals fiel das Wandern ein,
Das Wandern!

Vom Wasser haben wir's gelernt,
Vom Wasser haben wir's gelernt,
Vom Wasser!

Das hat nicht Ruh' bei Tag und Nacht,
Ist stets auf Wanderschaft bedacht,
Ist stets auf Wanderschaft bedacht,
Das Wasser!

Da sehn wir auch den Rädern ab,
Da sehn wir auch den Rädern ab,
Den Rädern!

Die gar nicht gerne stille stehn
Und sich bei Tag nicht müde drehn,
Und sich bei Tag nicht müde drehn,
Die Rädern!

Die Steine selbst, so schwer sie sind,
Die Steine selbst, so schwer sie sind,
Die Steine!

Sie tanzen mit den muntern Reihn
Und wollen gar noch schneller sein,
Und wollen gar noch schneller sein,
Die Steine!

O Wandern, Wandern, meine Lust,
O Wandern, Wandern, meine Lust,
O Wandern!

Herr Meister und Frau Meisterin,
Lasst mich in Frieden weiterziehn,
Lasst mich in Frieden weiterziehn
Und wandern!

(Tradução minha)
O caminhar é a alegria do moleiro,
O caminhar é a alegria do moleiro,
O caminhar!

Deve ser um mau moleiro,
O que nunca se lembrou do caminhar,
Do caminhar.

Da água o aprendemos,
Da água o aprendemos,
Da água!

Ela não descansa de dia e noite,
Sempre refletiu sobre andança,
Sempre refletiu sobre andança,
A água.

Ali percebemos também as rodas de moinho,
Ali percebemos também as rodas de moinho,
As rodas.

Elas absolutamente não gostam de parar
E giram incansáveis durante o dia,
E giram incansáveis durante o dia,
As rodas.

Do moinho as próprias pedras que são tão duras,
Do moinho as próprias pedras que são tão duras,
As pedras!

Elas dançam na alegre fila
E querem ser até mais rápidas,
E querem ser até mais rápidas,
As pedras.

Ó caminhar, caminhar, minha alegria,
Ó caminhar, caminhar, minha alegria,
Ó caminhar!

Senhor mestre, senhora mestra,
Deixem-me em paz seguir além,
Deixem-me em paz seguir além,
E caminhar!

Havia outras canções em nosso repertório, obrigatórias em todas as apresentações:

1. Cielito lindo (de Quirino Mendoza y Cortes) e que integra o folclore mexicano

2. Edelweiss

3. Green Fields (letra de Nilo Amaro e Seus Cantores de Ébano)

Lá tão distante,
Por trás do sol
Lá bem distante,
Onde o por-do-sol
Põe tons vermelhos
Na noite como um véu,
Onde aos meus olhos
A terra encontra o céu.

Vivia outrora o meu bem
Em Green Fields.
Green Fields é o meu lar
Meu mundo enfim

Lá eu guardava
Alguém só para mim
Lá me esperava,
À noite, o meu bem
Lá onde o sonho
Morava enfim também
Vivia outrora o meu bem
Em Green Fields.

Eu não sabia
Que um dia ao regressar
Já não mais teria
Alguém a me esperar
E que o encanto, a paz e o calor
Se tornassem pranto, frio e amargor.

E hoje de volta para o meu lar
Já não encontro alguém a me esperar.
Tudo é tão triste! É fria solidão,
Em tudo existe, envolve a mim também.
Como é tão triste
Meu Green Fields, sem meu bem.

Além dessas duas peças, cantávamos ainda uma Missa de Johann Sebastian Bach, de cujo BWV , após tantos anos, não mais me recordo.

Cantávamos também peças sacras corais que, na época, eram conhecidas pelos fiéis em geral, o que favorecia enormemente a sua aceitação. As letras dessas canções eram copiadas em impressoras para stêncil que ainda hoje conservo no meu arquivo. Reproduzo abaixo as que ainda possuo:

Ave, Coração divino
Ave, Coração divino,
Tu és trono só de amor,
Almo templo de Deus trino,
Sol dos céus encantador!
Ave, Coração rasgado,
Por ingratos, ai! por nós!
Crucifica! — é nosso brado,
Vinde a mim! — é tua voz. (etc.)

Sit laus divino
Sit laus divino Cordi,
Per quod nobis parta salus;
Ipsi gloria et honor in saecula,
in saecula.

Christus vincit!
Christus vincit, Christus regnat,
Christus regnat et imperat.

Alleluia, alleluia, alleluia!

Do mar Estrela
Do mar Estrela, Mãe carinhosa,
Para os aflitos grato solar
O teu sorriso é meu encanto.
É nas angústias Luz salutar!
Ouve os pedidos d' alma saudosa
Ó Mãe piedosa, vem me amparar.

Do mar Estrela, Virgem das Dores,
Aos oprimidos dás proteção.
Se me confortas o pranto enxugas,
Cessam as mágoas e atroz penar!
Ouve os pedidos d' alma saudosa,
Ó Mãe piedosa, vem me amparar!

Maria, rogai por nós
Um só olhar, Mãe, lá dos céus,
A nós volvei.
E do alto mar os escarcéus
Sêde fanal, Maria.

Maria, rogai por nós!
Maria, rogai por nós!

Vós de piedade, Mãe sem par,
Qual sempre sois!
Ó vinde, vinde consolar
A todos nós, Maria.

Mãe querida
Mãe querida, Virgem pura,
Meu amor é só ventura
Ó Rainha singular,
Vós Senhora, luz divina,
Que me alenta e me fascina
Salve, salve, sem cessar,
Salve, Mãe do céu sem par,
Ó salve sem cessar, sem cessar!

Toda pura, toda arminho,
Salve, salve sem cessar,
Salve Mãe do céu, sem par!
Meiga pomba, níveo lírio,
A sorrir-nos lá do empíreo.
Virgem santa e modelar;
Desde séc' los escolhida,
Para Mãe de Deus querida,
Salve, salve, sem cessar
Salve, Mãe do céu sem par,
Ó salve sem cessar, sem cessar!
Dos fragores retumbantes,
Salve, salve sem cessar!
Salve, Mãe do céu sem par!

Pode parecer que o coral de meninos cantores do Ginásio Santo Antônio tenha sido uma iniciativa de caráter cultural isolada. Mas não é esse o caso.

Festividades em honra de determinado frei

Tenho em mãos a edição de "O Porvir" de 07/09/1934 com o "Programa das Festividades em honra do Revmo. Pe. Frei Optato van Oorschot o.f.m.", por ocasião das suas bodas de prata de vida monástica, o que ocorreu em 7 de setembro de 1934, sexta-feira. Às 6h 30min estava programada missa solene, cantada. Da schola cantorum participaram os alunos Aires de Oliveira e Silva, Hélio de Souza Gomes, Hamilton Dias Ribeiro, Hélio de Lima Castro, Ivan Moura Botelho, José Maria Tranqueira, José de Castro Souza, João Justino Rodrigues, João E. Barcelos, Geraldo Galbraith, Roberto de Melo Franco, Wilson de Melo Franco, Washington Brito e Waldir Mendonça. O acompanhamento dos cânticos estava a cargo da Orquestra São Francisco, dirigida pelo Maestro Cristiano Müller, composta dos seguintes membros:
Piano: Senhorita Maria de Lourdes Pimentel e Omar Patrício de Assis
Piston: João Veloso e Antônio Soares de Melo
Saxofone: Raimundo Moreira Guimarães
Clarineta: Décio Mendes dos Reis
Trombone: Joaquim Roberto Azevedo
Flauta: José dos Santos
Bombardino: Manoel Morais Batista Neto
Violinos: Levi Saldanha, Walter dos Santos, Wilson Rocha da Silva, Paulo Alvarenga Filho, Luiz Simbalista, Pedro Teodoro de Souza, José Geraldo Ávila
Arquivistas: José Geraldo Rocha da Cunha, Geraldo Correia Goulart e Arnaldo Bouças.

Às 19 horas do mesmo dia e do dia seguinte, no teatro, a Orquestra São Francisco tocou a Ouverture, seguida da apresentação de peças musicais interpretadas por vários alunos, discursos e representação de três peças teatrais, a saber:
a primeira na sexta-feira, "Inédita" (comédia em 1 ato, sem papel e sem ensaio) a cargo do Club Futurista formado pelos alunos Simão Salomé, Artur O. Esperança, Oscar B. Bicalho, Décio Mendes dos Reis e Geraldo F. de Souza (na sexta-feira); as outras duas peças teatrais no sábado: a comédia em 1 ato denominada "Os dois Estudantes no Prego", a cargo dos seguintes atores: Artur O. Esperança, Geraldo F. de Souza, Oscar B. Bicalho, Rafael P. de Carvalho, Raimundo Veloso, Simão Salomé e João Damásio Pinto, seguida da comédia em 3 atos "Os dois Sósias", a cargo dos atores Oscar B. Bicalho, João Damásio Pinto, Eurico de A. Pereira, Simão Salomé, Délio França Baía, Arnaldo Bouças, Artur O. Esperança, Geraldo F. de Souza, Antônio T. Penido, Raymundo Velloso, José C. de Carvalho, José Pereira Queiroz e Luiz Antônio Lisbôa.

Além do anúncio dessas comemorações, o referido jornal ainda dá boas vindas ao surgimento de um novo grupo musical no Ginásio Santo Antônio daquela época. Tratava-se do "Jazz do Barulho" que possivelmente tenha estreado por ocasião das referidas festividades, nos dias 7 e 8 de setembro, no campo, no pátio, no refeitório, etc. Os membros do grupo jazzístico eram: Nadico, Pimenta, Balão, Oxygeneiro, Calçudo, Espanhol, Minel, Carioquinha, Ri e Castanha.

Embora possa ser cansativa a relação que faço de alguns dos vários nomes envolvidos no evento, acho importante deixar claro que havia na ocasião das referidas festividades um empenho coletivo para o seu brilhantismo semelhante ou superior àquele que presenciei entre os meninos cantores do Ginásio Santo Antônio, nos anos de 1961-1963, liderados pelo Frei Orlando Rabuske.

Hinos e canções obrigatórias do repertório dos alunos do "Santo Antônio"

Independente de pertencer ao coral do Frei Orlando Rabuske, todo aluno do Ginásio era obrigado a saber cantar de cor algumas canções em outras línguas, especialmente francesas e inglesas. Abaixo reproduzo as de que me recordo.

Frère Jacques
Frère Jacques, Frère Jacques,
Dormez vous, dormez vous?
Sonnez les matines, sonnez les matines,
Din din don, Din din don.


La Marseillaise (hino nacional francês, composto por Rouget de Lisle em 1792; versão reduzida)
Allons enfants de la Patrie,
Le jour de gloire est arrivé!
Contre nous de la tyrannie,
L' étendard sanglant est levé, (bis)
Entendez-vous dans les campagnes
Mugir ces féroces soldats!
Ils viennent jusque dans nos bras
Égorger nos fils, nos compagnes.

Refrão: Aux armes citoyens!
Formez vos bataillons,
Marchons, marchons!
Qu' un sang impur
Abreuve nos sillons!

Amour sacré de la Patrie,
Conduis, soutiens nos bras vengeurs!
Liberté, Liberté chérie,
Combats avec tes défenseurs; (bis)
Sous nos drapeaux, que la victoire
Accoure à tes mâles accents;
Que tes ennemis expirants
Voient ton triomphe et notre gloire!
(ao Refrão)

(Minha tradução)
Vamos, filhos da Pátria,
O dia da glória chegou.
Contra nós da tirania
O estardarte ensanguentado se levantou; (bis)
Ouvis nos campos rugirem
Esses ferozes soldados?
Eles vêm até nós
Degolar nossos filhos, nossas esposas.

Às armas, cidadãos!
Formai vossos batalhões!
Marchemos, marchemos!
Que um sangue impuro
Embeba nossos solos!

Amor sagrado pela Pátria,
Conduze, sustenta nossos braços vingativos.
Liberdade, querida Liberdade,
Combate com teus defensores; (bis)
Sob nossas bandeiras, que a vitória
Acorra logo às tuas vozes viris;
Que teus inimigos agonizantes
Vejam teu triunfo e nossa glória!

Au Clair de la Lune
Au clair de la lune,
Mon ami Pierrot,
Prête-moi ta plume
Pour écrire un mot;
Ma chandelle est morte,
Je n’ ai plus de feu ...
Ouvre-moi ta porte,
Pour l’ amour de Dieu!

My Bonnie
My Bonnie lies over the ocean,
My Bonnie lies over the sea.
My Bonnie lies over the ocean,
Oh bring back my Bonnie to me.

Refrão: Bring back, bring back,
Oh bring back my Bonnie to me, to me.
Bring back, bring back,
Oh bring back my Bonnie to me.

Last night as I lay on my pillow,
Last night as I lay on my bed,
Last night as I lay on my pillow,
I dreamt that my Bonnie was dead.

Festa de formatura

Outro evento marcante na vida do Ginásio era a Festa dos Bacharelandos, que ocorria normalmente em fins de novembro. Do programa dessa festa normalmente constava inicialmente uma missa solene, às 8h 30min na Capela dos Externos. Às 13h, no grande refeitório era servido lauto almôço, presentes altas autoridades municipais, todo o corpo docente do Ginásio, pessoas amigas, uma embaixada de ex-alunos, estudantes em Belo Horizonte que vinham prestigiar o evento, além de todos os bacharelandos. À sobremesa, três discursos se faziam ouvir: o do anfitrião (Diretor do Ginásio), o de um ex-aluno brindando os bacharelandos e o de um diplomando.

À noite, às 20h, cumpria-se a última parte do programa: a Sessão Cívica Solene, para a qual a mais seleta platéia lotava as amplas dependências do auditório do teatro. Abriam a sessão, no palco, o Diretor do Ginásio e o Inspetor Federal de Ensino. Logo o Diretor convidava as autoridades presentes a tomarem assento à mesa, constituídas pelo Prefeito Municipal, o Juiz de Direito, o Comandante do 11º Regimento de Infantaria e o Inspetor Municipal de Ensino.

A seguir, o Diretor produzia bela peça oratória de despedida, saudando os diplomandos e entregando-lhes seus certificados. Neste momento, chamava o bacharelando que se classificou em 1º lugar para receber das mãos do Prefeito Municipal a medalha de ouro brilhantemente conquistada.

Depois, era dada a palavra ao orador da turma, que, em nome de seus colegas, se despedia do Ginásio, num emotivo discurso bem elaborado.
Por fim, ocupava a tribuna um professor, paraninfo dos bacharéis do ano em curso.
Com o Hino Nacional, cantado pelos presentes, encerrava-se a sessão cívica.

Lembro-me com detalhes dessa festa, porque tive a honra de ser agraciado com a medalha de ouro, que me foi entregue pelo Diretor Frei Feliciano van Sambeeck, por ter sido o bacharelando de 1967 a conquistar o 1º lugar, no conjunto das matérias.

Hinos de despedida

Conservo ainda comigo um impresso que traz dois hinos compostos por Frei Metelo Geeve para a formatura de 18/11/1966. O primeiro fala de uma saudade imorredoura evocada pela memória de um tempo de estudos no Ginásio envolta pelo som de sinos que repetem "São João del-Rei", a saber:

SÃO JOÃO DEL-REI
Tempo saudoso estudando em São João,
Terra de sinos, de ouro e tradição;
Viva lembrança p' ra sempre guardarei,
O som de sinos sempre diz: São João del-Rei.

Refrão: Blim, blem, blão — blim, blem, blão,
Sinos dobram em São João,
No som de sinos escutei:
São João del-Rei.

Vou pelo mundo, seguindo a vocação,
Desenvolvida nas terras de São João:
O meu colégio jamais esquecerei;
O som dos sinos sempre diz: São João del-Rei.

Quando na luta, no mundo sedutor,
Fracas as forças e forte o tentador,
De Santo Antônio logo lembrar-me-ei,
O som dos sinos sempre diz: São João del-Rei.

Quando eu for grande, um homem de valor,
Quando pequeno, curvado pela dor,
Nome bendito sempre recordarei,
O som de sinos sempre diz: São João del-Rei.

No mesmo impresso está estampada a "Despedida do Colégio", em que os formandos em côro imploram à Virgem Maria a proteção e esta, por sua vez, responde terna à sua prece, verbis:

DESPEDIDA DO COLÉGIO

Côro: Seja-nos Mãe, ó Virgem santa,
a vossa bênção imploramos:
que nós, na vida triunfantes,
num céu feliz Vos pertençamos.

Solista: "Do alto do céu eu vos protejo
e sempre meus filhos vos guiarei:
de vós, no mundo militantes,
de vós, que filhos sois, jamais me esquecerei.

Deixais o curso em "Santo Antônio";
meus caros filhos, digo-vos adeus:
serei sempre eu vossa mãe terna;
vós, conservai-vos sempre dignos filhos meus.

A vida passa, o tempo é breve,
o mundo acaba, eterno é o troféu,
do inferno as forças vos invejam,
lembrai-vos, sempre mãe, espero-vos no céu."

(Continua na Parte 4 desta série)


* Francisco José dos Santos Braga, cidadão são-joanense, tem Bacharelado em Letras (Faculdade Dom Bosco de Filosofia, Ciências e Letras, atual UFSJ) e Composição Musical (UnB), bem como Mestrado em Administração (EAESP-FGV). Além de escrever artigos para revistas e jornais, é autor de dois livros e traduziu vários livros na área de Administração Financeira. Participa ativamente de instituições no País e no exterior, como Membro, cabendo destacar as seguintes: Académie Internationale de Lutèce (Paris), Familia Sancti Hieronymi (Clearwater, Flórida), SBME-Sociedade Brasileira de Música Eletroacústica (2º Tesoureiro), CBG-Colégio Brasileiro de Genealogia (Rio de Janeiro), Academia de Letras e Instituto Histórico e Geográfico de São João del-Rei-MG, Instituto Histórico e Geográfico de Campanha-MG, Academia Valenciana de Letras e Instituto Cultural Visconde do Rio Preto de Valença-RJ e Fundação Oscar Araripe em Tiradentes-MG. Possui o Blog do Braga (www.bragamusician.blogspot.com), um locus de abordagem de temas musicais, literários, literomusicais, históricos e genealógicos, dedicado, entre outras coisas, ao resgate da memória e à defesa do nosso patrimônio histórico.Mais...

105 Anos da Presença Franciscana em São João del-Rei e o centenário Ginásio Santo Antônio > > > Parte 2


Por Francisco José dos Santos Braga

105 anos da presença franciscana em São João del-Rei

Conforme noticiado na seção anterior, a presença franciscana em São João del-Rei teve início em 1904, quando os Freis Patrício Meijer e Frei Cândido Vroomans vieram a essa cidade, a convite do Monsenhor Gustavo Ernesto Coelho ², vigário da Paróquia de Nossa Senhora do Pilar, para ajudá-lo no seu ministério. Na ocasião, ficaram hospedados no casarão do Monsenhor, contíguo à Capela de Santo Antônio, hoje situado na Rua Santo Antônio, nº 224. ASSIS (1986, pág. 71-77) se estende na constatação das qualidades do referido Monsenhor: "Ponto saliente na fundação do Ginário Santo Antônio teve o então vigário da cidade, o Rev. Monsenhor Gustavo Ernesto Coelho. E aqui bem é o lugar de render um preito de homenagem à memória deste grande são-joanense de coração, amigo do povo e dos Franciscanos. Foi ele quem tomou a iniciativa da vinda dos frades para São João del-Rei, e também foi dele a idéia da fundação do externato".

Já em São João del-Rei, os frades fizeram uma espécie de pesquisa de mercado e chegaram à conclusão de que a cidade necessitava uma escola católica, uma instituição educacional à altura do padrão europeu.

Não que iniciativas isoladas não tivessem surtido bons resultados pedagógicos na cidade: podemos citar a escola do Prof. Travanca, que funcionava até como internato no sobradão da Rua Santo Antônio, correspondendo aos atuais nº 128 e 136; da Prof. Alexina de Magalhães Pinto (1870-1921), pioneira em estudos de problemas educacionais e de folclore; das Prof. Augusta Eliza da Costa Moreira e Porcina da Costa Moreira, parentas do atual Presidente do Instituto Histórico e Geográfico de São João del-Rei, Sr. Artur Cláudio da Costa Moreira, as quais tiveram uma escola no mesmo prédio onde os freis estabeleceriam a sua projetada escola católica.

Frei Joel Postma o.f.m. ³, residente no Seminário Seráfico de Santo Antônio em Santos Dumont e curador de um Memorial da Província Franciscana de Santa Cruz, atendendo à minha solicitação, por correspondência me informa, de acordo com suas pesquisas nos arquivos da Ordem Franciscana: "Padre Gustavo Ernesto Coelho, pároco de São João del-Rei, foi informado por frei Gabriel, esmoleiro da Terra Santa, sobre os franciscanos holandeses. Incontinenti, o pároco convidou o Padre Comissário para ajudar e fundar uma casa na sua paróquia. Em 8 de junho de 1904, frei Cirilo la Rose foi a São João del-Rei ajudar na festa do Sagrado Coração e durante uns quinze dias avaliar a situação. Em 28 de julho de 1904, frei Patrício Meijer foi enviado para São João del-Rei, provisoriamente instalando-se como assistente na casa paroquial. Mas não querendo abusar da hospitalidade, frei Patrício pediu licença a seu superior para procurar uma residência própria. Obtendo tal autorização, em outubro alugou uma casa na rua Santo Antônio, nº 22. Em 29 de outubro, frei Cândido Vroomans chegou a São João del-Rei. Sendo a casa de aluguel incômoda e diante das reclamações por melhor habitação, resolveu frei Rogério Burgers, Comissário Provincial, conhecer pessoalmente São João del-Rei, quando o amigável pároco o colocou a par das necessidades e vantagens da fundação de uma escola católica."

Frei Joel adiciona ainda as seguintes informações de forma sucinta: "Em 13/04/1905, frei Benigno van Osch foi ser praeses em São João del-Rei, cargo que ocupou até 01/08/1905. Durante essa primeira gestão, chegou o irmão Boaventura Peters (25/06/1905). Em 01/08/1905 frei Cirilo la Rose substituiu frei Benigno van Osch no cargo de praeses. Em 04/03/1906 chegou frei José de Haas. Em 10/07/1907 foi a vez de chegarem mais três franciscanos: frei Júlio Berten, frei Bertoldo Wartna (Alberto) e o irmão Bernardo Verhoeven. Em 01/05/1909 é fundado o educandário franciscano, germe do Ginásio Santo Antônio. A chegada de outros três franciscanos em 19/10/1909 completou a primeira grande leva de franciscanos a São João del-Rei, a saber: frei Wenceslau Westerhof, frei Florentino Brölmann e o irmão Nepomuceno Blewanus."

Corria o ano de 1909. O escritor sanjoanense COELHO (1998, fls. 10-11) nos dá informações adicionais sobre esse educandário fundado nesse ano: "Os franciscanos começaram com o Grupo Escolar Católico, ao lado da igreja de São Francisco, antes da instalação da escola oficial, a 'João dos Santos', do Estado de Minas." Essa escola primária constituiu o embrião do Ginásio Santo Antônio, que neste ano de 2009 comemora festivamente seu centésimo ano de fundação. Localizava-se num casarão colonial na Rua da Prata (hoje Pe. José Maria Xavier), nº 34, com quatro hectares de terreno anexo. Esse prédio situava-se exatamente entre os dois portões existentes ainda hoje, na frente da atual sede da UFSJ-Universidade Federal de São João del-Rei, ¨demolido por volta de 1934, (o que foi uma pena) após a construção de parte das amplas e modernas edificações, nos fundos," conforme ASSIS (ibid., p. 72). Inicialmente essa escola primária funcionou com o regime de externato, até que em 1º de fevereiro de 1914 o internato teve início. De acordo com ASSIS (ibid., p. 71), os freis "fizeram no prédio algumas modificações e instalaram o dormitório. Foi o Pe. Frei Florentino Brölmann que se interessou em procurar nos municípios vizinhos as famílias que desejassem ter seus filhos no internato."

Ainda cabe observar que, de acordo com COELHO, em 1912 o vigário e os franciscanos se reuniram com as lideranças da comunidade e resolveram transformar a escola primária em ginásio. "A novidade foi bem aceita na região e houve a necessidade do internato, aberto em 1914. Crescendo o Ginásio, um prédio grande foi iniciado em 1916 para dormitório e refeitório. No ano seguinte, bênção e inauguração pelo Diretor, Frei Florentino. As plantas e cálculos vieram da Holanda, em cartolinas arquivadas na FUNREI (atual UFSJ), bases para uma pequena restauração feita há poucos anos. Crescendo mais o Ginásio, nova necessidade de prédios, começados em 1925 com direção técnica de Frei Norberto e de Luiz Baccarini. Planta do engenheiro Luís Morais, do Rio de Janeiro."

CINTRA trata ainda de fatos relacionados com a inauguração da Igreja de Nossa Senhora de Lourdes (a “capela dos alunos externos”, como costumava ser chamada), em 06/02/1916, verbis: "Bênção e inauguração da Igreja de N. Sra. da Conceição de Lourdes, edificada à antiga Rua da Prata pelos padres Franciscanos (OFM). Oficiou-se missa cantada, tendo ocupado a tribuna sagrada Mons. Gustavo Ernesto Coelho. A parte artística teve como principais atuantes Pe. Frei Cirilo la Rose (harmônio) e Prof. Jafé Maria da Conceição (violino). Também prestigiaram as festas inaugurais os sacerdotes segs.: Frei Braz Berten, irmão de Frei Júlio, Cândido Martins de Alvarenga, Francisco Cipriano da Rocha e José Pedro da Costa Guimarães. Exercia o cargo de superior da comunidade franciscana de S. João del-Rei Pe. Frei Júlio Berten."

Sobre as primeiras grandes obras levadas a efeito no Ginásio, assim se refere ASSIS (ibid., p. 71-72): "Devido ao rápido desenvolvimento do Ginásio, houve necessidade de se fazer novas construções, com bastante urgência. Foi contratado o Sr. Rossini Baccarini, que tomou a responsabilidade de construir novo dormitório e refeitório, que satisfizessem às exigências, ficando na ideia a construção do primeiro pavilhão de um novo colégio, cuja pedra fundamental foi colocada no dia 26.04.916. Mais tarde o Sr. Rossini Baccarini desenhou e executou a obra, a qual foi inaugurada em 1917, tendo como seu primeiro diretor o Pe. Frei Florentino.

Não obstante a existência de novo pavilhão, o Frei Florentino teve a necessidade de adquirir o prédio da Rua da Prata nº 30, de propriedade do Sr. Cel. Olímpio Reis, onde hoje está instalada a sede diocesana. É uma casa histórica para a Ordem Franciscana, porque o referido prédio foi construído no mesmo terreno onde, por quase dois séculos, esteve o Hospício da Terra Santa, instalado em 1743."

Principais reformas do ensino neste período

Nesta altura vamos fazer um breve estudo das principais reformas do ensino no País, no período sob estudo, que foram importantes, entre muitas outras coisas, para definir o perfil nas obras didáticas no Brasil.

A primeira reforma do ensino que cabe destacar foi a de Francisco Campos, regulamentada pelo Decreto nº 19.890, de 18/4/1931, e depois consolidada pelo Decreto nº 21.241 de 4/4/1932. Ela deu ao exame de admissão da época um caráter nacional. Romanelli apud JÚNIOR e MATTOS reconhece que essa reforma "teve o mérito de dar organicidade ao ensino secundário, estabelecendo definitivamente o currículo seriado, a frequência obrigatória, dois ciclos, um fundamental e outro complementar, e a exigência de habilitação neles para o ingresso no curso superior. Além disso, equiparou todos os colégios secundários oficiais ao Colégio Pedro II, mediante a inspeção federal e deu a mesma oportunidade às escolas particulares que se organizassem, segundo o decreto, e se submetessem à mesma inspeção".

A segunda reforma do ensino (de Gustavo Capanema) foi em 1942, quando foi promulgada a Lei Orgânica do Ensino Secundário através do Decreto-Lei 4.244, de 9/4/1942. Essa dividiu o curso secundário em dois ciclos: o 1º ciclo, intitulado "curso ginasial", composto de quatro séries, e o 2º ciclo, subdividido em "curso clássico" e "curso científico", composto de três séries. A conclusão desses dois ciclos do curso secundário era exigida para a entrada em qualquer curso superior, dando estabilidade às disciplinas do 2º ciclo, cujos programas serviriam de base para o vestibular ou "exame de habilitação". A Portaria nº 966 de 2/10/1951 incumbe a congregação do Colégio Pedro II de elaborar programas das diversas disciplinas do curso secundário. Assim, pode-se dizer que o Colégio Pedro II passa a se responsabilizar não só pelos conteúdos a serem trabalhados mas também pela abordagem desses conteúdos.

JÚNIOR e MATTOS, no seu estudo sobre o conteúdo dos livros didáticos de Física nas décadas de 50 e 60, criticam a pedagogia ali utilizada por seu caráter informativo, "já que o processo de transmissão de conhecimento possui uma mão única na direção do professor para o aluno. A ciência não é caracterizada como historicamente construída pois é posta nos livros sem uma postura indagadora. (...) Sendo assim, a visão de ciência ensinada a um aluno do ensino secundário da época era apenas de cálculos complicados, onde a principal finalidade era a preparação para o ensino superior."

Até 1943 o Ginásio Santo Antônio oferecia o curso secundário no período de 5 anos. Os alunos estudavam de manhã e de tarde em regime intensivo.

A partir de 1943, o Governo da República, pelo Decreto 11.194, de 4/1/1943, concede ao Ginásio Santo Antônio "as regalias oficiais para manter os cursos clássico e científico", passando a chamar-se então Colégio Santo Antônio (art. 3º ). Conforme "O Porvir", nº 318, Ano XX, de 31/1/1943, a partir de então, os alunos que se matriculavam , poderiam cursar os 4 anos ginasiais (1º ciclo) e também os 3 anos colegiais (2º ciclo) sob a modalidade de curso científico ou curso clássico. Fiel à tradição, para mim foi e será sempre Ginásio Santo Antônio, embora eu tenha sido submetido ao novo regime de 4 anos de curso ginasial e 3 anos de colegial (curso clássico).

O curso de admissão

Para ingressar no Ginásio Santo Antônio, não bastava o aluno ter concluído com proficiência o curso primário. Havia a necessidade de frequentar o 5º ano ou curso de admissão ao Curso Ginasial. Em São João del-Rei, na época de que tratamos, duas professoras se notabilizaram na transmissão dos conhecimentos necessários ao ingresso no Ginásio Santo Antônio: Beatriz Albergaria e Maria do Carmo de Assis ("Carmita").
Frequentei as aulas de Dona Albergaria no Salão da Paróquia da então Igreja Matriz de Nossa Senhora do Pilar, quando - digno de registro! - privei da amizade de um aluno com uns dez anos a mais, sempre trajando um terno preto, que diziam tocar piston (trompete) com maestria: o saudoso Chico Mangabeira (Francisco Mangabeira da Silva). Ouvi-o em seguida em salões de baile e em serenatas pelas ruas da cidade, comprovando sua incrível habilidade. Dele possuo as partituras do arranjo que fez para a peça teatral Missa Leiga nº 2 para piano, piston e coro sobre música de Cláudio Petraglia, que foi encenada pelo TÚNIS-Teatro Universitário São-joanense, e do arranjo para banda que fez para o Hino do Social Futebol Clube sobre melodia de Alberico Zanetti Neto e letra de Gustavo Sette de Resende Campos.

O ingresso no “Santo Antônio”

O ingresso no Ginásio Santo Antônio se dava através de concurso de admissão, exigindo dos candidatos aprovação em prova escrita e em prova oral. Nesta última, costumava-se sortear um ponto para que o candidato discorresse perante uma banca julgadora sobre a matéria sorteada. A critério da banca, o aluno era aprovado ou reprovado.

Era tão grande o interesse de ingressar no "Santo Antônio" que várias turmas eram formadas, especialmente após o ingresso dos candidatos ao Curso Ginasial. Por isso, a 1a. Série costumava abrigar 4 ou mais turmas (A, B, C, D, ...). Após a 1a. Série, devido ao elevado número de reprovações, a tendência era as próximas séries do Curso Ginasial serem compostas de apenas 1 ou 2 turmas.

Para aqueles estudantes que não tinham se adaptado ao ensino "puxado" ministrado no "Santo Antônio", havia a possibilidade de recorrer à Escola de Comércio, dirigida pelo Major Bidart, ou ao Colégio Dom Bosco, dirigida pelos padres salesianos.

Disciplinas no ano que ingressei (1961): Religião, Português, Latim, Francês, Inglês, Matemática, Ciências, História Geral, História do Brasil, Geografia, Trabalhos Manuais, Desenho, Canto Orfeônico e Educação Física. Na ocasião, as aulas eram teóricas, ministradas de manhã (8 h às 12 h). Havia duas exceções: em dias determinados, a disciplina de Educação Física precedia o horário normal das aulas (às 7 h) e a de Trabalhos Manuais era à tarde (16 h às 18 h).

Cursei 1a. Série B, 2a. Série A, 3a. Série A e 4a. Série A no Curso Ginasial (1961-1964).

No Curso Colegial Clássico (hoje ensino médio) cursei mais 3 Séries (1965-1967). Nesta fase, as disciplinas de Grego, Latim, Francês e Química eram ministradas à parte aos alunos do "Clássico". As outras disciplinas (Física, Biologia, Português, Inglês, Geografia Econômica, História e Educação Física), oferecidas aos estudantes do Curso Colegial Científico, eram também estendidas aos alunos do "Clássico".

Meu pai costumava contar que, em sua época, não havia essa subdivisão. O curso secundário constava de 5 anos, com presença obrigatória de manhã e de tarde.

O Ginásio Santo Antônio dos meus tempos de aluno tinha instalações adequadas a uma vida em comunidade, desde salas de aula amplas e arejadas, laboratórios completamente equipados de Física e História Natural, duas capelas (uma para internos, que possuía um órgão de origem européia, e outra, para externos, cujo nome é Igreja de Nossa Senhora de Lourdes), gráfica, duas bibliotecas, salão de leitura, salas de lazer, gabinete médico e dentário, farmácia, barbearia, cantina, refeitórios, dormitórios, salão nobre, quadra de esportes, piscina, teatro, três pianos sendo dois pianos de armário que ficavam no teatro e na sala da Admissão (também usada para ensaio do coral) e um piano de cauda que ficava numa das bibliotecas, até três campos de futebol (para alunos menores, médios e maiores).

Para mim os pianos especialmente eram de encher o ôlho, pois tive que recorrer a eles para realizar meus estudos técnicos diários e passar peças do meu repertório dos meus 13 aos 16 anos de idade. Ainda conservo comigo 6 cadernetas escolares do período em que estive sob a orientação dos franciscanos, e no mês de março de 1965 pode-se ler ainda: "A pedido, pode-se abrir a porta da sala da Admissão às 13,30 para estudo de piano do Francisco José. Ass.: Frei Felicíssimo".

Professores de minha época (1961-1967):

Frei Orlando Rabuske, apelidado "Escovinha" (lecionava Canto Orfeônico e era regente do Coral de Meninos Cantores, além de pianista), Frei Hilário Meekes (prof. de Francês e normalmente era visto acompanhado dos cães Pajé e Lobo), Frei Geraldo de Reuver, o "Perereca", que recebeu esse apelido por pronunciar o "r" à moda francesa, tendo dito: "Olha a perrerreca no burraco da parrede" (organista, regente do Coral de Meninos Cantores antes de Frei Orlando Rabuske, excelente marceneiro, professor de Matemática, Francês - autor de Gramática Elementar da Língua Francesa e Francês —Leituras e Exercícios para os quatro anos do Curso Ginasial - e Canto Orfeônico, tendo sido o último diretor (1968-1972) do Ginásio Santo Antônio), Frei Manuel Smeltink (Francês e Latim), Frei Fagundes van Dreumel (Grego), Frei Jordano Noordermeer (Matemática e Fisica), Frei Feliciano van Sambeek (diretor no período 1965-1967, além de professor de Física), Frei Beno van Buijtenen (Biologia), Frei Gottardo Boom, Frei Metelo Geeve (Biologia e Química), Frei Jaime Steneker, o "Jamelão" (diretor em 1963, Prefeito de Disciplina e professor de Inglês), Frei Paciano van Schaijik (Inglês e Geografia Econômica), Frei Seráfico Schluter (prof. de Francês e normalmente se fazia acompanhar pelo cão Rebelde), Frei Diogo Reesing, o "Diogão" (Inglês), Frei Felicíssimo Mattens, o "Tamancão" (sempre acompanhado de sua cadela Bolinha, diretor no período 1951-1957, violinista e professor de Francês), Frei Erardo Veen (primeiro ministro-provincial da Província de Santa Cruz e diretor no período 1963), Frei Amâncio (atualmente Frei Guilherme) van Wordragen (Matemática), Frei Ângelo van Heijningen (diretor do Asilo São Francisco), Frei Augusto Uiterwaal (Prefeito de Disciplina, professor de Matemática, que em 2009 comemora 60 anos dedicados à vida religiosa), Frei Rufino Peters (diretor no período de 1938-1945 e professor de Latim), Frei Salvador Tonino (funcionário da Tesouraria), Frei Valério Heisen (diretor no período 1962-1963), Domingos Horta, o "Domingão" (Português e História), Geraldo Silva, o "Jaburu" (Geografia e Trabalhos Manuais), Thomaz Perilli, o "Pirilão" (Desenho e Matemática), Ivan Della Croce, o "Beiçola" (Geografia), Abgar Campos Tirado (Português e Inglês), Evandro de Almeida Coelho (História), Blair Simões Ribeiro (Matemática), José Cândido de Almeida, pseudônimo Juca Aurélio (Educação Física), Elpídio Antônio Ramalho (Português), Laís Medeiros Garcia de Lima (Inglês), Denaide Imbroisi (Inglês), Rafael de Almeida Coelho (Química), Dr. Álvaro Augusto de Paula Viana (Latim para Vestibulares).

Frades leigos: Frei Cleto Egink, Frei Orlando de Moraes.

Funcionários: na Secretaria, Valdir Martins e Nilton Ferreira; na Portaria, o Sr. José das Neves ("Juca"); na Barbearia, Arlindo Santana; na Cantina, Roberto Pirulito, o generoso "Monsieur", e seu filho; na Marcenaria, Ari Guimarães, que era o responsável pelos quadros de formatura, verdadeiras obras de arte; além desses, o disciplinário Manuel Trindade, apelidado Zito, treinador do Esparta na década de 60; as empregadas Inês, Maria Trindade, Marta Maria, Mariana, Jandira, Lourdinha e Marta.

Regentes de disciplina: Frei Jaime Steneker e Frei Diogo Reesing

Párocos: Frei Francisco Seesing (1967-1969), Frei Orêncio Vogels (1970-1985), Frei Justino Burgers (1986-1997), Frei Estanislau Bartholdy (1998-2003), Frei João José de Jesus (2004-2006) e Frei Renato Alves Rodrigues (2007-2009).

Colegas de turma durante os Cursos Ginasial e Colegial: Dr. Marco Antônio de Araújo Rangel, Dr. Carlos Antônio de Souza Campos, Antônio de Souza Campos, Pedro Aguinaga (RJ), Hilton Rocha Filho (de Belo Horizonte), Mateus Eustáquio Salomé de Oliveira, Djalma Tarcísio Ferreira Assis, Orlando de Paiva Barros, Dom Celso Lourenço de Oliveira, Afonso Palhares, José Eudes Braga (1949-1985), Dr. Antônio Taier, Flávio Costa Gonçalves, Enéas Dutra Leal, Jairo, Carlos Marcos Henriques (1947-2003), Thales Silva (de Prados), Paulo Sérgio Siqueira dos Santos (sineiro) (1947-1970), Dr. Luiz Antônio Neves de Resende ("Laíde"), José Luiz Gattás Hallak, José Ângelo Gallo, Carlene Yone Larsing e seu irmão (U.S.A.), Alfredo Ratton, Robson Braga Andrade, Aloísio Lara, Geraldo Egle, Nicanor Neto Armando, Sebastião Rodrigues dos Santos, Roberto Ávila, Haroldo Sabóia (Deputado maranhense), Dr. Frederico Baêta Guimarães (de Cristiano Otoni-MG), Mário Portela, Mauri Antônio de Souza, Marcos Monteiro, Murilo Monteiro, Murilo Chafi Hallak, Juarez Machado de Alcântara, Edgar Antunes, Carlos Alberto Muffatto, Moacir Cristóvão Guimarães, Luiz Fernando Alvarenga Dias, José Raimundo Lobosque, Enildo Garcia, José Pereira Marques, Mário Lúcio Santana, Mário das Neves e Manoel das Neves, Antônio Olavo Freire d' Aguiar, Raimundo Nonato Silva, José Pedro Peligrinelli, Pedro Nontini, Euler Fernando Ribeiro e Silva, Marcelo Antônio Campos Mourão, seminaristas Galdino, José Luzia e Joel.

Ex-alunos ilustres: Presidente Tancredo Neves, João Guimarães Rosa (Cordisburgo-MG, 1908-1967), Senador Alfredo Campos (Abaeté-MG, 1942-2008), Senador Francisco Dornelles, Deputado Matheus Salomé de Oliveira (Cláudio-MG, 1907-1955), Deputado Haroldo Sabóia (São Luís-MA), Deputado Clóvis Pestana (Porto Alegre-RS, 1904-2001), Deputado Luiz Fernando Ramos Faria (Santos Dumont-MG), Deputado Wainer de Carvalho Ávila, Prefeito Dr. Milton Resende Viegas, Dr. Carlos Mário da Silva Velloso (ex-presidente do TSF e do TSE), Dom Lucas Moreira Neves (1925-2002), Frei Estanislau Bartholdy, Deputado Celso Gabriel Passos, Dr. José Costa Loures (desembargador e professor), General Carlos Luís Guedes, Dr. Olinto Fonseca Filho, jornalista e escritor Otto Lara Resende (1922-1992), poeta e jornalista Paulo Mendes Campos (1922-1991), escritor Fernando Sabino (1923-2004), dramaturgo e médico José Geraldo Dângelo, o “Jota D' Ângelo”, Attila Carvalho Godoy, Dr. Paulo César de Araújo Rangel, arquiteto Haroldo Alves Nogueira (BH), Dr. Belisário Leite de Andrade Neto, Dr. Custódio Lourenço de Oliveira, Dr. José de Carvalho Teixeira, Dr. Marcelo Santiago Costa, Dr. José de Alencar Ávila Carvalho, Dr. João Braz de Carvalho, Mozart Vianna de Paiva (Secretário Geral da Presidência da Câmara dos Deputados), Francisco de Almeida Neves (proprietário do Café Rio de Janeiro), historiador Luiz Antônio Ferreira (funcionário da UFSJ), historiador Sebastião de Oliveira Cintra (1918-2003), historiador Dario Cardoso Vale, Ernani Pequeno e Paulo Pequeno (filhos do musicista João Pequeno), Nelson Teixeira de Almeida, Prof. Abgar Antônio Campos Tirado, Lúcio Flávio Baioneta, Roque da Fonseca Braga (1918-1984), Júlio Teixeira (1918-1994), José de Abreu, Rubens de Barros, Júlio Mário Mourão, Walter Luiz Baccarini, Alexandre Borges Matos, Roberto Simões Coelho, Walter Mourão Ratton, Mário Lombardi, Murilo Viegas, José Caetano de Carvalho, Sebastião Gaede, Rubens Farnese, Sílvio Assis, José Raposo, Reginaldo Silva Neto, José Norberto Esteves, Dickens Ferraz, Tácito da Silva Moura, Charrid Resgala, Chafik Abdo Haddad, Paulo Rezende, Nilo Brasiel Vale, Elias Jorge Nicolau, Rafil Chala Sade, Roberto Chala Sade, Jorge Chala Sade, Deputado Jorge Hannas, Miled Hannas, Naib Ferreira, Rui Canaan, Assad Ferreira, Alírio Silva, Roberto Silva, Aldo Rezende, Gil Amaral Campos (1939-1999), Santiago Sabino de Carvalho (violoncelista da Royal Philharmonic Orchestra), Murilo Geraldo de Souza Cabral, Dr. Euclydes Garcia de Lima (1905-1955), Dr. Euclides Garcia de Lima Filho, Dr. Francisco Diomedes Garcia de Lima (1931-1993), jornalista e escritor Roberto Drummond (1933-2002), Dante José de Araújo, Aloísio de Paiva Barros, Roberto William de Carvalho, Dr. Márcio Nacif, Patrícia e Wilson de Pádua Pereira, o holandês Dr. Nicolau Schoenmaker, Sérgio e Fábio Dornelles, Ivan Jaccoud, Marcelo Álvaro de Souza, Roque César dos Santos Braga (aprovado no vestibular do ITA e da UFMG sem cursinho), Carlos Fernando dos Santos Braga, Luiz Antônio dos Santos Braga, José Cláudio Henriques, ex-Procurador Geral da República Aristides Junqueira, Gustavo de Almeida Coelho, Evandro de Almeida Coelho, Fernando de Almeida Coelho, Rafael de Almeida Coelho, José Carlos Hernández Prieto, Mário Lombardi, José Gaede, dentre muitos outros.

Rotina do "Santo Antônio":

6 h: alvorada

6 h 30 min: café da manhã e missa na capela interna (voluntários)

7 h 15 min: estudo

8 h-12 h: aulas

12 h: almoço

13 h 30 min: 1º estudo

14 h 30 min: lanche

15 h: 2º estudo

16 h: lazer e esporte

18 h: jantar e recreio

19 h 30 min: 3º estudo

20 h 30 min: recolhimento aos dormitórios

21 h: apagar das luzes no dormitório dos menores

21 h 30 min: apagar das luzes no dormitório dos maiores

Material didático exclusivo do Ginásio Santo Antônio

Quando citei os nomes dos professores do meu tempo, observei que Frei Geraldo de Reuver publicou importante obra: Gramática Elementar da Língua Francesa ("de acôrdo com os programas oficiais") que adotava na disciplina de Francês. Além dessa gramática, ele adotava, também de sua autoria, Francês (Leituras e Exercícios para os quatro anos do Curso Ginasial), fazendo com que numerosos e variados exercícios correspondessem a capítulos da Gramática. É importante frisar que essa não era uma exclusividade de Frei Geraldo. Outros freis, além da utilização dos livros clássicos da disciplina que lecionavam (por exemplo, no que se refere à Física, Frei Jordano e Frei Feliciano adotavam no curso científico o livro “Problemas de Mecânica”, de A. A. Maia, editado em 1958 pela Moderna Ltda, cujo conteúdo estava de acordo com a Portaria nº 966 de 1951; na disciplina de Francês lecionada por Frei Felicíssimo, era utilizado “Le Français Accéléré” e sua Pequena Gramática da Língua Francesa, editada por Barbieri & Gorgatti-São Paulo e que ele humildemente considerava "adaptada por Felicíssimo Mattens", etc.), também faziam uso de material didático que eles próprios produziam e que se constituíam em material gráfico exclusivo do Ginásio. Assim, os freis Jordano (Matemática e Física), Feliciano (Física), Manuel (Francês), Jaime (Inglês) e outros utilizavam material didático de sua própria autoria e produzido pela Gráfica do Ginásio em mimeógrafos.

Frei Fagundes tinha um método "sui generis" para as suas aulas de Grego: seu material didático consistia de cadernos, que ele pacientemente preenchia com pequenas anedotas e histórias recolhidas com fim didático e que eram entregues aos alunos no começo e recolhidos ao final do semestre. Se bem me lembro, esse material didático excepcionalmente instrutivo iniciava-se com um conto sobre a rainha Pentesileia. Consta, de acordo com o Pseudo-Apolodoro, que essa rainha amazônica entrou na Guerra de Tróia, depois de matar por acidente sua irmã Hipólita. Esse acidente causou tanta dor a Pentesileia que, desejosa de morrer, foi fácil convencê-la a entrar na Guerra de Tróia. Segundo a versão mais conhecida, Pentesileia foi morta por Aquiles.

Parada de Sete de Setembro

Todo ano as comemorações do Sete de Setembro eram vivamente aguardadas por todos os alunos. Um mês antes iniciávamos os ensaios, primeiro "de leve", só na hora do recreio. O Frei Jamelão, Prefeito de Disciplina do Ginásio, coadjuvado por uns servidores, colocava-nos em filas, formava os pelotões, com o olhar media as alturas — maiores na frente, menores atrás. Mais tarde, na penúltima semana, o ensaio já era no grande pátio que se estendia pelo campo de vôlei, atingindo as instalações para educação física. Sr. Juca Marreta era incansável na busca da perfeição no ordenamento dos pelotões. Na última semana, os ensaios já aconteciam à tarde com comparecimento maciço, inclusive da Banda e dos porta-bandeiras, ao longo das áreas externas do Ginásio e algumas ruas da cidade. Era um objetivo comum exibir todo o garbo estudantil durante a parada. Envidávamos nossos melhores esforços, porque sabíamos que seríamos admirados pelas moças presentes ao desfile e especialmente pelas alunas do Colégio Nossa Senhora das Dores e que a cidade esperava uma grande exibição de civismo por parte do grandioso Ginásio Santo Antônio. Todo esse movimento pró-desfile era secundado por mensagens alusivas à Pátria e ao Patriotismo, estampadas na primeira página de "O Porvir" dirigido pelo Prof. Domingos Horta, conforme ocorreu no seu nº 305, Ano XVIII, de 23/8/1941.

(Continua na Parte 3 desta série)



* Francisco José dos Santos Braga, cidadão são-joanense, tem Bacharelado em Letras (Faculdade Dom Bosco de Filosofia, Ciências e Letras, atual UFSJ) e Composição Musical (UnB), bem como Mestrado em Administração (EAESP-FGV). Além de escrever artigos para revistas e jornais, é autor de dois livros e traduziu vários livros na área de Administração Financeira. Participa ativamente de instituições no País e no exterior, como Membro, cabendo destacar as seguintes: Académie Internationale de Lutèce (Paris), Familia Sancti Hieronymi (Clearwater, Flórida), SBME-Sociedade Brasileira de Música Eletroacústica (2º Tesoureiro), CBG-Colégio Brasileiro de Genealogia (Rio de Janeiro), Academia de Letras e Instituto Histórico e Geográfico de São João del-Rei-MG, Instituto Histórico e Geográfico de Campanha-MG, Academia Valenciana de Letras e Instituto Cultural Visconde do Rio Preto de Valença-RJ e Fundação Oscar Araripe em Tiradentes-MG. Possui o Blog do Braga (www.bragamusician.blogspot.com), um locus de abordagem de temas musicais, literários, literomusicais, históricos e genealógicos, dedicado, entre outras coisas, ao resgate da memória e à defesa do nosso patrimônio histórico.Mais...

105 Anos da Presença Franciscana em São João del-Rei e o centenário Ginásio Santo Antônio > > > Parte 1


Por Francisco José dos Santos Braga

Breve história dos primórdios

Pedro Álvares Cabral, escolhido como chefe militar da expedição, partiu de Portugal, em 9 de março de 1500, com destino à Índia, levando entre sua numerosa comitiva nove padres do clero secular e oito franciscanos, tendo a escolha de D. Manuel recaído sobre Frei Henrique de Coimbra, um dos oito franciscanos, para chefiá-los a todos. Os outros franciscanos eram Frei Gaspar, Frei Francisco da Cruz, Frei Simão de Guimarães, Frei Luís Salvador (todos os quatro sacerdotes pregadores), Frei Masseu (músico e organista) e Frei Pedro Neto (corista), ambos sacerdotes, e o irmão Frei João da Vitória. Frei Henrique de Coimbra tinha sido escolhido como guardião dos conventos que a Ordem Franciscana iria edificar na Índia, sob os auspícios do Papa.

O papa Alexandre VI concedeu, em 1497, a D. Manuel o direito de alargar as conquistas portuguesas, confirmando-lhe a posse de todos os domínios adquiridos, esperando que ele empenhasse os melhores esforços em propagar e exaltar a fé católica. Prevalecia a forma típica de compromisso medieval entre a Igreja de Roma e a Coroa Portuguesa.

Confirmando a norma, os poderes temporal e espiritual compunham uma dualidade recorrente nas navegações portuguesas. Atestando a interação dessas duas componentes, a missão tinha a dupla tarefa de catequizar e mercadejar.

O acaso — ou uma espécie de intencionalidade presumida? — levou a frota às plagas americanas.

A Carta do escrivão Caminha reflete uma tomada de posse cartorial da nova terra, devendo atestar que tudo se passou conforme relatado. Por isso, informa que, logo pela manhã, no Domingo de Pascoela, o Capitão mandou armar um pavilhão naquele ilhéu, e dentro levantar um altar muito bem arranjado para que Frei Henrique oficiasse uma missa, a que assistiram os portugueses da frota e os naturais da terra que se iam aproximando, com muito prazer e devoção. "Acabada a missa, desvestiu-se o padre e subiu a uma cadeira alta; e nós todos lançados por essa areia. E pregou uma solene e proveitosa pregação, da história evangélica; e no fim tratou da nossa vida, e do achamento desta terra, referindo-se à Cruz, sob cuja obediência viemos, que veio muito a propósito, e fez muita devoção."

Passar a chamar a terra descoberta de "Terra de Vera Cruz" foi apenas um passo.

Até o ano de 1549, somente os franciscanos exerceram a ação missionária no Brasil, quando edificaram os primeiros templos e conventos, cabendo destacar a construção do Santuário da Penha, em Vitória.

Em março de 1549, chegaram os primeiros quatro jesuítas nos navios de Tomé de Souza, o fundador de Salvador: os padres Manoel da Nóbrega, Aspicuelta Navarro, Antônio Rodrigues e Pêro Correia.

Em 1585, foi fundada em Olinda a Custódia de Santo Antônio, subordinada à província portuguesa de Santo Antônio de Lisboa, tendo sido escolhido o Frei Melchior de Santa Catarina para dirigi-la. A iniciativa para o estabelecimento definitivo dos franciscanos no Brasil partiu do governador de Pernambuco, Jorge de Albuquerque Coelho, que apelou diretamente ao Ministro Geral da Ordem, Frei Francisco Gonzaga, que na ocasião (1584) se encontrava em Portugal.

Em 1624, foi instalada a Custódia de Santo Antônio do Grão-Pará e em meados do século a Custódia de Santo Antônio recebia o nome de Província de Santo Antônio do Brasil.

Diante do crescimento da Ordem Seráfica no Brasil, os conventos do sul separaram-se para fundar a Província da Imaculada Conceição do Rio de Janeiro, em 1675.

Descoberta das minas gerais

A descoberta de metais preciosos nas "Minas Gerais dos Cataguás" no final do século provocou o rápido crescimento da região e sangrentos conflitos.

Conforme VASCONCELOS (1974, pág. 23),o jesuíta André João Antonil refere-se a respeito da grande invasão no distrito das Minas da seguinte forma: "Cada ano vem nas frotas quantidade de portugueses, e de estrangeiros para passarem às Minas. Das cidades, vilas, recôncavos e sertões do Brasil vão brancos, pardos, pretos e muitos índios de que os paulistas se servem. A mistura é de toda a condição de pessoas, homens e mulheres, moços e velhos, nobres e plebeus, ricos e pobres, seculares e religiosos de diversos institutos, muitos dos quais não têm no Brasil nem conventos nem casas." Ou ainda, nas palavras de outro autor (GUIMARÃES, 1987, pág. 39): "Sobre o assunto manifestou-se José Álvares de Oliveira, emboaba contemporâneo e participante ativo dos acontecimentos, em sua 'História do Distrito do Rio das Mortes', referindo-se ao Caminho Velho, único na época para as minas então descobertas: '... caminho antiquíssimo que sempre seguiram as bandeiras dos sertanistas para o Sertão dos Cataguazes até o fim do século de setecentos que deste tempo por diante o caminho que só era trilhado dos sertanistas se fez uma estrada frequentada de muita gente tanto de Serra Acima como de Serra Abaixo e suposto desta ao princípio morresse bastante parte. Uns encontrando a morte na agrestidão de tal caminho e outros na maleficência dos naturais, contudo não se escusavam do convite que lhes faziam as minas de novo descobertas no mesmo Sertão dos Cataguazes, nome que nos primeiros anos tiveram as chamadas Minas Gerais (...) ."

Consta que, só de Portugal vieram às Minas, a cada ano e durante sessenta anos, cerca de 10 mil pessoas. A população de paulistas ficou paulatinamente menor, tanto em termos absolutos quanto em relativos. Os paulistas, concentrados no Rio das Mortes, embora minoritários, se julgavam donos das minas por direito da descoberta. A todos os forasteiros os paulistas chamavam de "emboabas". A rivalidade e as hostilidades de ambos os lados resultou na Guerra dos Emboabas. O desfecho foi a mortandade dos paulistas no local conhecido como Capão da Traição, em fevereiro de 1708. Expulsos das Minas, os paulistas penetraram em Goiás e Mato Grosso, onde novas jazidas seriam descobertas.

VASCONCELOS (ibid., pág. 135) acusa o sistema governamental, que, desde o começo das Minas, dava lugar à dualidade do fôro, pelos desmandos cometidos pelo clero e principalmente pelos "frades fugidos dos conventos ou apóstatas". Segundo o historiador, "os Bispos, tendo uma posição política e exercendo muitas atribuições civis, eram quase soberanos em sua esfera. Para sustentarem a sua influência, em face da autoridade temporal, ordenavam o maior número de padres que podiam, chegando a ponto que criminosos protegidos por dignidade eclesiástica, não raras vezes, recebiam as ordens para se livrarem da jurisdição e do fôro comum... Nas Minas não obedeciam os clérigos a ninguém. Isentos da jurisdição civil, não respeitavam nem o seu Bispo, e os frades apóstatas não o reconheciam por seu prelado. Daí a libertinagem e a simonia e apenas um haveria menos concorrente aos gozos materiais, que a riqueza e o luxo sabem engendrar. Eram negociantes, mineiros, senhores de engenho e de escravos; mas sobretudo fatores desabusados e sem peias dos contrabandos e extravios do ouro. As autoridades não podiam tocá-los, e em geral não havia quem mal os quisesse por esta conveniência de extraviarem o ouro para si e para os amigos."

VIEGAS (1969, pág. 20-21) informa que "a competição pelo ouro, motivando o violento dissídio de 1707 a 1709 no Distrito do Rio das Mortes, teve ainda no 'estado de completa anarquia da região mineira' naquele tempo o ambiente adequado à rixa e ao crime", aí incluída "a perniciosa influência que exerceu no ambiente da capitania a cizânia por toda parte lançada pelo 'maquiavélico Frei Francisco de Menezes' contra os paulistas por haverem estes se oposto a que, de súcia com Francisco do Amaral Gurgel, houvesse a 'irrefreável cobiça' do frade apóstata conseguido odioso monopólio do talho da carne em toda a região mineira", atribuindo a notícia aos historiadores Diogo de Vasconcelos e José Pedro Xavier da Veiga.

O sistema de então era tão ruim que VASCONCELOS considera "o progresso religioso atual sobre instituições e sistemas que davam espaço a tais escândalos e conflitos, uma vez que se confundiam as esferas da Igreja e do Estado no híbrido organismo que levava os bispos e prelados a recrutarem padres, como felizmente agora não fazem." (grifo meu) (ibid., pág. 137)

Autorização para os franciscanos construírem hospícios em Minas Gerais

A Coroa Portuguesa, apesar de ter proibido a instalação de conventos nas Minas, permitiu aos franciscanos construírem hospícios em Sabará, Vila Rica e no Caraça, na tentativa de pacificar os ânimos após as refregas da Guerra dos Emboabas. MAGNANI (2004), em sua pesquisa, lembra que hospício era uma designação dada a hospedarias religiosas que pertenciam a companhias do clero regular, e eram utilizadas por frades franciscanos esmoleres que percorriam a Capitania coletando dinheiro para a Terra Santa e ministrando sacramentos. A permissão para a construção dos hospícios se justificou em função do pequeno número de párocos nas Minas.

A atuação dos franciscanos não se restringiu àquelas três povoações; antes, atingiu outras, onde foram criadas irmandades franciscanas da Ordem Terceira, construindo capelas, monumentos e igrejas.

O Hospício da Terra Santa em São João del-Rei foi instalado em 1743 e estava localizado onde hoje funciona a sede diocesana. A respeito desse hospício, CINTRA (1982, pág. 380) noticia:

"12/09/1719: D. Pedro de Almeida e Portugal, Governador da Capitania escreve o Senado da Câmara de S. João del-Rei, convocando os Sanjoanenses para a criação de um hospício na vila. O Senado responde ao Conde de Assumar 'que tendo chamado algumas pessoas da edilidade, com elas assentou que se aceitasse o hospício de 6 até 7 missionários'. Sobre o assunto, manifestara-se a 24-05-1719 o Senado da Vila, em carta enviada ao Bispo do Rio de Janeiro, na qual se lê: —'concordaram todos em que fosse o Hospício de religiosos franciscanos que com grande vontade os querem logo.' Somente em 1743 instalou-se em S. João del-Rei o Hospício da Terra Santa, que se localizava em terrenos próximos da atual Igreja de S. Francisco."

O Hospício da Terra Santa no Arraial do Tejuco (primeira designação de Diamantina) foi instalado em 1750, juntamente com o de Mariana. Mariana,especialmente, foi escolhida para ser o primeiro bispado de Minas Gerais, o que veio a ocorrer em 6 de dezembro de 1745, sendo destacado o prelado Dom Frei Manoel da Cruz, ex-professor de Teologia da Universidade de Coimbra, para a importante missão.

De interesse para São João del-Rei cabe mencionar a fundação da Venerável Ordem Terceira de São Francisco de Assis, em 8 de março de 1749, a segunda a se constituir e ereta canonicamente por Dom Frei Manoel da Cruz. A referida Ordem Terceira foi a promotora da construção do majestoso templo franciscano (Igreja de São Francisco de Assis) que é considerado um dos mais expressivos monumentos religiosos do Barroco Mineiro. Os trabalhos arquitetônicos tiveram início em 1774 e continuaram por 20 anos.

Reflexos do embate entre Marquês de Pombal e os jesuítas

De 1750 a 1889, o Catolicismo no Brasil passou por um momento crítico. O sério atrito entre o Marquês de Pombal e a Companhia de Jesus resultou na expulsão dos jesuítas do Brasil, em 1759. Entre os franciscanos, a situação não era diferente, tendo chegado ao ponto de, no ano de 1889, só contarem com oito frades na Província de Santo Antônio e apenas um - o provincial Frei João do Amor Divino Costa - na Província da Imaculada Conceição.

Reflexos da proclamação da República

Proclamada a República, era chegada a hora da restauração do Catolicismo. Os frades da Província da Saxônia de Santa Cruz, com sede em Hannover, foram convocados para colaborar nesta empreitada. O Capítulo Geral de 1889 encarregou a Saxônia de restaurar as duas províncias brasileiras que estavam ameaçadas de extinção. O Ministro Provincial da entidade alemã, Frei Gregório Janknecht, aceitou de bom grado a nova missão. A partir desta data, a assim chamada Missão da Bahia teve por objetivo renovar e restaurar a Província de Santo Antônio, levando muitos religiosos alemães - padres, clérigos, noviços e irmãos - a desembarcarem em portos brasileiros para repovoar os conventos abandonados, todos situados no litoral.

Foi mais difícil restaurar a Província Imaculada Conceição, devido à resistência do único frade sobrevivente à incorporação dos frades alemães. Só em 1899, diante dos rápidos progressos da Missão que, de norte a sul, abrangia uma vasta extensão territorial, decidiu o Definitório dividir a referida Província em dois Comissariados. Após várias crises e vicissitudes, o Vigário Geral da Ordem, Frei David Fleming, em 14 de setembro de 1901, elevou os dois Comissariados a Províncias autônomas, com o nome das duas antigas entidades. Desta forma, estavam finalmente restauradas as Províncias de Santo Antônio e da Imaculada Conceição.

Em 1899, os bispados de Manaus e Petrópolis apelaram para a colaboração dos frades da Província dos Santos Mártires Gorcomienses, da Holanda ¹, tendo o convite sido aceito pelo provincial holandês, Frei Estêvão van de Burgt. Em 7 de maio de 1900 chegaram ao Rio de Janeiro Frei Rogério Burges e Frei Frederico Voorvelt. Niterói, então capital do Estado do Rio de Janeiro, tornou-se a primeira cidade-sede do "Comissariado Franciscano da Província dos Santos Mártires Gorcomienses no Brasil", sendo Frei Rogério Burges o primeiro comissário provincial. O historiador Frei Helano van Koppen comenta a propósito: "quando em 1899 os franciscanos (holandeses) chegaram ao Brasil, vinham alegres para continuar uma antiga tradição de sua Ordem, pois a Ordem Seráfica entrou no Brasil juntamente com os descobridores portugueses".

Atualmente, a Ordem dos Frades Menores (OFM) no Brasil é formada por onze entidades: quatro Províncias (Santo Antônio, Imaculada Conceição, Santa Cruz e São Francisco de Assis), quatro Vice-Províncias (Sete Alegrias de Nossa Senhora, Santíssimo Nome de Jesus, São Benedito da Amazônia e Assunção, além de três entidades dependentes de Províncias italianas (Custódia S. Coração de Jesus, Fundação Nossa Senhora de Fátima e Fundação Nossa Senhora das Graças).

Ocupação franciscana de Minas Gerais

Em 1903, a convite do bispo de Mariana, Dom Silvério Gomes Pimenta, é fundada a casa de Ouro Preto, a fim de assumir a paróquia da Imaculada Conceição.

Em 1904, os franciscanos holandeses vieram a São João del-Rei para fundar uma escola católica e ajudar o vigário Monsenhor Gustavo Ernesto Coelho no trabalho de evangelização.

Em 1906, estabeleceram-se em Teófilo Otoni; em 1911, em Cabo Verde; em 1912, iniciaram as missões de Joaíma, São Miguel de Jequitinhonha e Araçuaí; em 1914, foram confiados aos franciscanos o Reitorado do Barro Preto, em Belo Horizonte, e as paróquias de Pirapora e Monte Belo; em 1916, durante dez meses, dirigiram a paróquia de Manhuaçu, serviço que se estendeu em 1917 a Cordisburgo, Corinto, Rio Preto (Itaipé) e Almenara (Vigia); em 1919, os franciscanos holandeses assumiram também a paróquia de Novo Cruzeiro (Lufa); em 1921, foram dirigir a paróquia de Muzambinho e, finalmente, em 1922, foram atuar em Caraí.

A pedido do Padre José Alexandre de Mendonça, vigário de Carmo do Cajuru, o arcebispo metropolitano de Belo Horizonte, Dom Antônio dos Santos Cabral, por carta ofereceu, em 8 de abril de 1924, a Paróquia do Divino Espírito Santo de Divinópolis à OFM. Frei Paulo Stein e Frei Júlio Berten, respectivamente comissário e vice-comissário, visitaram Divinópolis e, em seguida, visitaram o arcebispo na Capital para demonstrar o interesse de não apenas assumir a paróquia como também fundar um seminário. Consultada a província na Holanda, a autorização para a OFM se estabelecer em Divinópolis chegou por telegrama em 20 de junho do mesmo ano.

(Continua na Parte 2 desta série)



* Francisco José dos Santos Braga, cidadão são-joanense, tem Bacharelado em Letras (Faculdade Dom Bosco de Filosofia, Ciências e Letras, atual UFSJ) e Composição Musical (UnB), bem como Mestrado em Administração (EAESP-FGV). Além de escrever artigos para revistas e jornais, é autor de dois livros e traduziu vários livros na área de Administração Financeira. Participa ativamente de instituições no País e no exterior, como Membro, cabendo destacar as seguintes: Académie Internationale de Lutèce (Paris), Familia Sancti Hieronymi (Clearwater, Flórida), SBME-Sociedade Brasileira de Música Eletroacústica (2º Tesoureiro), CBG-Colégio Brasileiro de Genealogia (Rio de Janeiro), Academia de Letras e Instituto Histórico e Geográfico de São João del-Rei-MG, Instituto Histórico e Geográfico de Campanha-MG, Academia Valenciana de Letras e Instituto Cultural Visconde do Rio Preto de Valença-RJ e Fundação Oscar Araripe em Tiradentes-MG. Possui o Blog do Braga (www.bragamusician.blogspot.com), um locus de abordagem de temas musicais, literários, literomusicais, históricos e genealógicos, dedicado, entre outras coisas, ao resgate da memória e à defesa do nosso patrimônio histórico.Mais...