segunda-feira, 6 de dezembro de 2010

2010 - ANO CHOPIN > > > Parte 13 > > > POLÔNIA, por George Friedman


Por Francisco José dos Santos Braga





Tenho o prazer de homenagear o bicentenário de nascimento do compositor polonês Fryderyk Franciszek Chopin (Żelazowa Wola, 1810 - Paris, 1849), disponibilizando aos leitores do Blog do Braga a tradução feita por mim de um texto em língua inglesa de George Friedman, intitulado "Polônia", que corresponde à 7ª parte de sua Viagem Geopolítica à Europa Central e do Leste (Special Series: Geopolitical Journey with George Friedman). Queiram reportar-se ao link http://www.stratfor.com/ para ler o texto em língua inglesa (Geopolitical Journey, Part 7: Poland).¹
Para qualquer ensaísta que pretenda escrever sobre a Polônia, é quase impossível deixar de mencionar Chopin, tal foi a afinidade entre esse gênio e sua terra natal. Assim, aproveitando as opiniões e considerações do especialista George Friedman, fundador de Stratfor, ficaremos conhecendo um pouco mais sobre Chopin e de que forma a geopolítica e Chopin se confundem.


POLÔNIA
Por George Friedman 3 de dezembro de 2010

Para compreender a Polônia, deve-se compreender Frédéric Chopin. Primeiro, ouvir a sua Polonaise e então o seu Estudo Revolucionário. Tratam de esperança, desespero e fúria. Na Polonaise, ouve-se a mais extraordinária destilação da existência de uma nação. No Estudo Revolucionário, escrito no despertar de um levante em Varsóvia em 1830 esmagado pelas tropas russas, há tanto furor quanto resignação. No seu diário pessoal, Chopin interpelou Deus por permitir que acontecesse essa catástrofe nacional, amaldiçoando os russos e condenando os franceses por não virem em socorro dos poloneses. Depois, Chopin nunca retornou à Polônia, mas a Polônia jamais saiu de sua mente.

A Polônia finalmente se tornou uma nação independente em 1918. O primeiro-ministro que escolheu para representá-la em Versalhes foi Ignacy Paderewski, um pianista e um dos melhores intérpretes de Chopin. A conferência restaurou os territórios da Grande Polônia², e Paderewski ajudou a criar a Polônia no período entre-guerras. Gdańsk (a Danzig alemã) preparou o caminho para o maior desastre nacional da Polônia acontecer, quando a Alemanha e a União Soviética se aliaram para arrasar a Polônia, e Danzig tornou-se a justificativa alemã para sua destruição.

Uma História de Tragédia e Grandeza

Para os poloneses, história sempre trata de traição, frequentemente francesa. Mesmo que a França (e o Reino Unido) tivessem planejado honrar seu compromisso com a Polônia, teria sido impossível levá-lo a cabo. A Polônia ruiu em menos de uma semana; ninguém pode ajudar um país que rui tão rápido. (Restou aos invasores as operações de limpeza.)

Travar guerras leva tempo, e os poloneses preferiram o gesto romântico a travar guerra. Os poloneses usaram cavalaria contra os blindados alemães, um acontecimento de grande simbolismo, se não uma proeza militar importante. Como ato de grandeza humana, houve magnificência na sua resistência. Eles travaram guerra — mesmo depois da derrota — como se fosse uma obra de arte. Foi também um exercício em futilidade. Ouça cuidadosamente Chopin: Coragem, arte e futilidade estão intimamente relacionados a favor da Polônia. Os poloneses esperam ser traídos, ser derrotados, perder. Seu orgulho foi serem capazes de reter sua humanidade em face da catástrofe.

Acho que Chopin pode ser compreendido geopoliticamente. Dê uma olhada onde a Polônia está situada. Situa-se na Planície do Norte Europeu, um país aberto cujas fronteiras nacionais para seu oeste e leste não estão protegidas nem mesmo definidas por quaisquer importantes divisas geográficas. A leste está a Rússia, que por volta de 1830 era um império sólido. A oeste estavam primeiro os prussianos e depois de 1871 os alemães. A sul, até 1918 estava o Império Habsburgo.³ Nenhuma quantidade de coragem ou sabedoria poderia sobreviver a forças tão gigantescas quanto essas.

A Polônia não é o mestre de seu destino nem o capitão da sua alma. Vive e morre pela vontade de outros. Pouco pode ser feito para estancar os alemães e russos quando juntam forças ou usam a Polônia como seu campo de batalha. O máximo que a Polônia pode fazer é esperar que poderes mais remotos venham em seu socorro. Esses últimos não poderão: ninguém pode socorrer um país tão longe a não ser que ele se ajude a si mesmo. Chopin sabia disso em sua alma e sabia que os poloneses não conseguiriam ajudar a si mesmos. Acho que Chopin se sentia orgulhoso da certeza da catástrofe.

Há um livro da autoria de Ivan Morris intitulado “A Nobreza do Fracasso”. Trata do Japão, mas o título desperta interesse em mim, quando eu penso na Polônia, em Chopin e Paderewski. Os poloneses foram magníficos na derrota, algo que eu digo sem ironia. Porém é preciso lembrar que a história polonesa não diz respeito sempre à nobreza do fracasso, nem essa espécie de nobreza é o destino certo da Polônia. Antes que o império russo surgisse, antes que os Habsburgos organizassem o sudeste da Europa e antes que a Prússia nascesse, a Polônia era um dos grandes poderes da Europa, a Comunidade Polaco-Lituana.

Quando os alemães estiverem divididos, os russos enfraquecidos e os austríacos preocupados com os turcos, então a Polônia cessa de ser vítima. Os poloneses relembram isso e constantemente se referem à sua grandeza de outrora. Não fica clara a razão que eles verdadeiramente prezam: por que eles uma vez foram grandes, por que a grandeza lhes foi tomada e por que sua ressurreição não é impensável. Os poloneses sabem que uma vez dominaram a Planície do Norte Europeu. Estão convencidos de que isso jamais acontecerá de novo.

Os poloneses hoje desejam livrar-se de sua história. Desejam ir além do senso trágico de Chopin, evitando sonhos fantásticos de grandeza. Aquele primeiro desejo não fez nada para proteger suas famílias dos Nazistas e dos Comunistas e este último é simplesmente irrelevante. Eles foram poderosos por um instante quando não havia Alemanha nem Rússia, mas não são agora. Ou assim pareceria. Eu objetaria que essa visão carece de imaginação.

Polônia, Rússia e Europa

Os poloneses, como o resto da Europa Central, olham para a União Europeia como a solução para seu problema estratégico. Como membro da União Europeia, o problema alemão da Polônia está resolvido. As duas nações estão agora unidas em uma vasta estrutura institucional que elimina o perigo que uma vez ambas se propuseram. Os poloneses também acham que os russos não são um perigo, porque os russos são mais fracos do que parecem e porque, como um funcionário do Ministério de Assuntos Exteriores mo expôs, nem a Ucrânia nem a Bielorrússia são simplesmente satélites russos. Na verdade, ele pensava na Ucrânia e Bielorrússia mais como amortecedores. Quanto à velha ameaça austro-húngara, temos que esse Império foi dissolvido em uma miscelânea de nações fracas, nenhuma das quais pode ameaçar a Polônia.

Sob tais circunstâncias, muitos poloneses estão convencidos de que os riscos de vida na Planície do Norte Europeu foram abolidos. A meu ver, há dois problemas com essa percepção. O primeiro, conforme disse em ensaios anteriores nesta série, é que a Alemanha está reavaliando seu papel dentro da União Europeia. Isso não é porque a liderança alemã queira fazer isso; as elites financeiras e políticas da Alemanha estão profundamente unidas na ideia da União Europeia. Mas, conforme aconteceu com muitas elites mundo afora depois de 2008, as elites da Alemanha perderam muito espaço para manobra. A opinião pública suspeita seriamente das múltiplas fianças que o governo alemão subscreveu e pode ter que subscrever nos anos vindouros. Como a Chanceler Angela Merkel o apresenta, os alemães não estão dispostos a aposentar-se aos 67 anos para que os gregos possam aposentar-se aos 58.

Do ponto de vista dos alemães — e as menos interessantes visões são expressas pela elite cada vez mais fraca — a União Europeia está-se tornando uma armadilha para os interesses alemães. Para os alemães, é necessária uma redefinição da União Europeia. Se a Alemanha vai ser convocada para prestar fiança a falências na área da União Europeia, então quer controle real sobre o resto da política econômica da Europa. Está surgindo um sistema de duas camadas na Europa, no qual patrões e clientes não terão o mesmo grau de poder.

A Polônia está indo extraordinariamente bem em termos econômicos por enquanto. Sua economia está crescendo e é claramente o líder econômico entre os antigos satélites soviéticos. Mas o período em que os subsídios norte-americanos fluíam à Polônia está chegando ao fim, e estão ficando visíveis problemas com o sistema de aposentadoria da Polônia. A capacidade da Polônia de manter sua posição econômica dentro da União Europeia vai ser contestada nos anos futuros. A Polônia poderia então ser relegada à categoria de cliente.

Não acho que os poloneses se importariam de ser um cliente bem atendido. O problema é que os alemães e outros membros centrais da União Europeia não possuem nem os recursos nem a inclinação de sustentar a periferia no estilo que a periferia quer ser atendida. Se a Polônia cometer um deslize, terá sobre si a mesma espécie de controles que estão sendo postos sobre a Irlanda. Um funcionário polonês esclareceu que não via isso como problema. Quando eu mencionei a perda potencial da soberania polonesa, disse-me que havia diferentes tipos de soberania e que a perda da soberania orçamentária não mina a soberania nacional.

Disse-lhe que eu achava que ele não estava encarando a magnitude do problema. A faculdade de um estado determinar como tributa e distribui a arrecadação é a essência do estado soberano. Se ele perder isso, é deixado com o poder de proclamar o mês nacional do sorvete e outros que tais. Outros, mais particularmente os alemães, supervisionarão defesa, educação e tudo mais. Se se colocar o orçamento acima do processo democrático, a soberania perdeu seu significado.

Aqui a conversa invariavelmente alcançou a essência da questão: o intento. Reiteradas vezes foi dito que os alemães não pretendem subtrair a soberania mas simplesmente reestruturar a União Europeia cooperativamente. Concordei “in toto” que os alemães não cobiçam a soberania polonesa. Eu também disse que intenções não importam. Primeiro, quem sabe o que está na mente de Merkel? WikiLeaks poderia revelar o que tinha dito a um diplomata norte-americano, mas isso não significa que ela disse o que pensa. Segundo, Merkel não estará no comando em alguns anos, e ninguém sabe quem vem a seguir. Terceiro, Merkel não é um ator livre, mas é constrangida pela realidade política. E quarto, chame isso como quiser, mas os alemães realinham a estrutura da União Europeia, então o poder estará em suas mãos — e é o poder que importa, não a inclinação subjetiva relativamente a como usar o poder.

Outra conversa disse respeito ao poder russo. De novo, funcionários enfatizaram duas coisas. A primeira foi que a Rússia era fraca e não uma ameaça. A segunda foi que o controle russo sobre a Ucrânia e Bielorrússia era muito menor do que se imaginou — nenhuma das duas está situada na órbita russa. Sobre isso, eu concordei parcialmente. Os russos não têm nenhum desejo de recriar o império russo ou a União Soviética; eles não querem responsabilidade por esses dois países. Mas querem limitar as opções da Ucrânia e da Bielorrússia na política externa. Os russos permitirão todas as espécies de evoluções internas. Porém, não permitirão alianças político-militares entre as duas e as nações ocidentais, bem como insistirão no acesso que o exército russo e as forças navais têm ao solo bielorrusso e ucraniano.

Não achei convincente o argumento sobre a fraqueza russa. Primeiro, força é relativa. A Rússia pode ser fraca comparada com os Estados Unidos. Não é fraca comparada com a Europa ou com as repúblicas independentes fronteiriças à Rússia. Uma nação não tem que ser mais forte do que suas necessidades estratégicas, e a Rússia é decerto suficientemente forte devido a essas. Na verdade, a população da Rússia está em declínio e é um desastre econômico. Mas a Rússia foi uma ruína econômica desde Napoleão, se não antes. Sua capacidade de mobilizar campanhas militares em desproporção a seu poder econômico é historicamente demonstrável.

Levantei a questão da dependência energética europeia (e particularmente alemã) da Rússia, e disseram que a Alemanha só importa da Rússia 30% de sua energia. Eu tinha pensado que eram 45%, mas ainda considero 30% uma imensa dependência. Interrompa essa porcentagem e a economia alemã se torna insustentável. E isso dá à Rússia muito poder. E embora a Rússia precise das receitas oriundas da energia, ela pode sofrer um corte nas receitas num período muito maior do que a Alemanha e a Europa podem aguentar uma interrupção de energia.

Finalmente, há a questão da cooperação alemã e russa. Como discuti anteriormente, a dependência alemã da energia russa e as necessidades russas por tecnologia têm criado uma sinergia entre os dois países, algo refletido na sua constante conferência diplomática. Além disso, as questões alemãs sobre o futuro da União Europeia os têm levado a uma rota independente e exploratória. Por seu lado, os russos têm alcançado os fundamentos de uma recuperação geopolítica. Comparado com 10 anos atrás, Putin tem levado a Rússia a uma recuperação extraordinária. A Rússia está agora interessada em rachar a Europa, dos Estados Unidos e, particularmente, da Alemanha. À medida que a Alemanha está buscando uma nova fundação para sua política externa, os russos estão de olho em se associar com a Europa.

Os líderes poloneses com quem falei deixaram claro que eles não viam isso como um problema. Acho difícil acreditar que um entendimento entre alemães e russos não inquiete os poloneses. Sim, eu sei que nem a Alemanha nem a Rússia pretende fazer mal à Polônia. Mas um elefante não necessariamente planeja fazer mal a um rato. Intenções à parte, o rato fica danificado.

Acho que a razão por que os poloneses estão fazendo o que fazem é que eles não têm nenhuma escolha. Quando eu apontei para a opção do Intermarium com a retaguarda norte-americana, um funcionário graduado do Ministério Exterior salientou que, sob o novo plano da OTAN, os alemães garantiram duas divisões para defender a Polônia, enquanto que os Estados Unidos ofereceram uma brigada. Ele foi extraordinariamente amargo nessa avaliação. Em seguida à decisão norte-americana de retirar-se de um compromisso de construir uma instalação fixa e permanente de Defesa Míssil Balística na Polônia e a natureza tentativa de distribuição rotativa de uma única bateria Patriot, viu isso como uma traição pelos Estudos Unidos a compromissos assumidos anteriormente. Desajeitadamente eu argumentei que uma brigada norte-americana era uma força armada mais efetiva do que duas divisões alemãs de hoje, porém isso é discutível na melhor das hipóteses, e eu decididamente perdi a razão. Seu ataque foi que não havia nenhum compromisso norte-americano sob o novo plano da OTAN, ou pelo menos nada confiável.

Auto-confiança polonesa e os Estados Unidos

Minha real reação a essas ideias foi algo diferente. A Polônia esteve desamparada por séculos, vítima de ocupação e desmembramento. Tinha sido livre e soberana no período entre-guerras. Tinha jogado fora sua soberania, ao depender simplesmente das garantias francesas e britânicas. Essas garantias podiam ter sido desonestas, mas honestas ou não, elas não poderiam ter sido honradas. A Polônia desmoronou rápido demais.

Garantir a soberania nacional polonesa é, acima de tudo, a primeira questão nacional polonesa. Em primeiro lugar, uma nação não vende barato o controle das prerrogativas nacionais básicas, como sua economia, a organizações multinacionais, particularmente aquelas dominadas por ameaças históricas como a Alemanha. Todas as nações alteram suas intenções; considere a Alemanha entre 1932 e 1934. Em segundo lugar, consolar-se com a fraqueza econômica da Rússia é deliberadamente interpretar mal a história.

Porém mais importante é que a soberania de uma nação depende de sua capacidade de defender-se. Na verdade, a Polônia não pode defender-se de um tratado assinado pela Alemanha com a Rússia, pelo menos não sozinha. Mas pode comprar tempo. O socorro pode não vir, mas sem tempo o socorro possivelmente não venha. É claro que a Polônia pode decidir acomodar-se aos alemães e russos, supondo que desta vez as coisas sejam diferentes. É uma suposição confortável. Pode ser até verdadeira. Mas a Polônia está apostando a sua nação nessa suposição.

Minha leitura da situação é que tanto os funcionários poloneses quanto o povo polonês compreendem que estão seguros por ora, mas que o futuro é desconhecido. Eles também se sentem desamparados. A Polônia é um país afobado, cheio de joint ventures⁵ e hedge funds⁶. Mas toda a atividade só cobre o senso trágico subjacente da nação polonesa, ou seja, que, afinal, a ideia da nação polonesa não está nas mãos polonesas. O que vier virá, e os poloneses farão um esforço heróico se ocorrer mesmo o pior. Chopin converteu essa sensibilidade em arte elevada. Ao final, a sobrevivência é mais prosaica, e definitivamente mais difícil de atingir-se, do que a criação artística. Ou mais precisamente, para a Polônia a sobrevivência é mais difícil do que obras artísticas de gênio, e mais rara.

Em última análise, sou um norte-americano e portanto menos possuído por sensibilidades trágicas do que por estratégia viável. Para a Polônia, aquela estratégia vem do reconhecimento de que não apenas ela está presa entre a Alemanha e a Rússia, ela é a chave inglesa no acordo germano-russo. Pode ser esmagada por isso. Mas pode evitá-lo. Para fazer isso, três coisas são necessárias. Primeiro, precisa de uma estratégia de defesa nacional planejada para tornar mais custoso atacar a Polônia do que achar o caminho dando-lhe a volta. Isso é caro. Porém, quanto os poloneses teriam pago para evitar a ocupação nazista e soviética? O que parece caro pode ser barato no retrovisor.

Segundo, a Polônia sozinha é muito delicada. Como parte de uma aliança que alcance desde a Finlândia até a Turquia — o Intermarium —, a Polônia teria uma aliança de peso suficiente para significar que estaria livre das impertinências da OTAN. A OTAN foi a aliança da Guerra Fria. Esta já acabou, mas a aliança continua a viver como uma alma mal alimentada por uma burocracia bem nutrida.

A Polônia precisaria combinar com a Romênia, independente, digamos, da opinião de Portugal sobre a questão. Essa aliança requer liderança polonesa. Não emergirá dela. Mas a Polônia deve primeiro superar a fantasia de que a União Europeia de 18 anos de idade represente a transformação milenar da Europa no pacífico Reino do Céu. Dezoito anos não são muito tempo nos padrões europeus, e a Europa está com aparência enferma ultimamente. Se a Alemanha fizer uma "aposta de não-passe" à União Europeia, ela sobreviverá. A Polônia conseguirá, se o fizer? A estratégia nacional está baseada no cenário da pior das hipóteses futuras possível, não nos acordos esperançosos com líderes transitórios.

Finalmente, os poloneses precisam manter sua relação com o principal poder global. Certamente, os últimos anos da administração Bush e os primeiros da administração de Obama não têm sido divertidos para a Polônia. Mas afinal, os Estados Unidos lutaram três vezes no século XX para evitar um acordo germano-russo e a dominação da Europa por um poder, quer seja a Alemanha, a Rússia ou uma combinação das duas. Essas guerras não foram feitas por sentimento; os Estados Unidos não tiveram nenhum Chopin. As guerras foram conduzidas por geopolítica. Um acordo germano-russo ameaçaria os Estados Unidos profundamente. Aí está porque combateram na 1ª Grande Guerra, na 2ª Grande Guerra e na Guerra Fria.

Há coisas que os Estados Unidos não podem permitir, se puderem estancá-las. A dominação da Europa por um poder está no topo da lista. No momento, os Estados Unidos estão mais preocupados com o fim da corrupção no Afeganistão. Esta "fixação" não terá longa duração. Obviamente, os Estados Unidos funcionam por um relógio diferente e mais de longo alcance do que a Polônia. Os Estados Unidos têm mais espaço para manobra. A Polônia também tem tempo agora, mas precisa usá-lo para preparar-se para a época em que os norte-americanos recuperarem seu senso de perspectiva.

A União Europeia poderia endireitar-se, e o que emergir poderia ser uma confederação de nações iguais, como planejado originalmente. Os russos poderiam caminhar calmamente para dentro daquela boa noite. Por mais dúvidas que tenha, isso pode acontecer. Mas o problema que os poloneses têm é o que eles farão se a melhor das hipóteses não emergir. Eu argumentaria que não há nobreza numa derrota que poderia ser evitada. Também acrescentaria que, se você ouvir cuidadosamente a Polonaise, ela é um convite não apenas à sobrevivência, mas à grandeza.

A margem de erro polonesa é extraordinariamente fina. O que eu encontrei na Polônia não foi uma indiferença àquela margem, mas um senso de desamparo casado com intensa atividade para fazer bem enquanto viver bem é impossível. Mas é o senso de fatalismo desamparado que me apavora como norte-americano. Nós dependemos da Polônia, de um jeito que meus conterrâneos não vêm ainda. Quanto mais esperamos, maior a chance de tragédia. Os alemães e os russos não são montros no momento, nem querem sê-lo. Mas como Chopin deixa claro, o que queremos ser e o que somos são duas coisas diferentes, um assunto a ser considerado no meu ensaio final.

NOTAS

¹ A série completa desta viagem geopolítica de George Friedman compõe-se das seguintes partes: O Viajante (8/11), Borderlands (9/11), Romênia (16/11), República da Moldávia (18/11), Turquia (23/11), Ucrânia (30/11), Polônia (3/12) e retorno para casa (7/12).
Na Antiguidade, outros fizeram "esboços" de suas viagens. Um dos mais famosos é o de Pausânias que percorreu a Grécia no II século D.C. ("Hellados Periêgesis"), conforme descrito no meu texto no link abaixo deste Blog do Braga:
http://bragamusician.blogspot.com/2010/11/recomendacoes-delficas-parte-1.html

² Wielkopolska (Polonia Major em latim, Greater Poland em inglês, Grosspolen em alemão) é uma região histórica da Polônia ocidental-central. Foi o núcleo do primitivo estado polonês medieval. Sua principal cidade é Poznań. O nome da região pode ser interpretado como referindo-se à velha Polônia, em oposição à pequena (nova) Polônia (Małopolska em polonês, Polonia Minor em latim, Lesser Poland em inglês, Kleinpolen em alemão) a sudeste, com capital na cidade de Cracóvia. [N.T.]

³ Também chamado de Império Austro-húngaro. A Casa de Habsburgo, frequentemente anglicizada para Hapsburg e às vezes referida como Casa da Áustria, era uma das mais importantes casas reais da Europa. A Casa de Habsburg-Lorraine era uma das mais importantes e foi uma das dinastias reinantes mais longevas na história da Europa. Dessa dinastia descendia Maria Leopoldina de Habsburgo-Lorena (1797-1826), conforme seu nome aportuguesado e adotado, a qual foi arquiduquesa da Áustria, primeira Imperatriz-consorte do Brasil, regente do Brasil em setembro de 1821 e, durante oito dias, em 1826, rainha-consorte de Portugal. Parece que o nome completo da arquiduquesa, que viria a ser a primeira imperatriz do Brasil, era Carolina Josefa Leopoldina Francisca Fernanda de Habsburgo-Lorena, de acordo com seus principais biógrafos. Foi casada com D. Pedro I. Consta que ela era extraordinariamente culta para a época, tendo enorme interesse em botânica.
Uma irmã mais velha de Leopoldina foi Maria Luísa, a segunda esposa de Napoleão e segunda Imperatriz dos franceses. [N.T.]

Intermarium fornece uma mídia eletrônica para trabalho acadêmico notável e pensamento provocativo sobre a história e a política da Europa Central e do Leste em seguida à 2ª Guerra Mundial. O periódico é tido como a mídia ideal para ampliar o discurso sobre aspectos das histórias nacionais que estão sofrendo mudança graças à disponibilidade de nova documentação de arquivos recentemente abertos. É um projeto do Instituto de Estudos Políticos da Academia Polonesa das Ciências e do Centro para a Europa Central e do Leste da Universidade de Colúmbia. [N.T.]

Joint venture ou empreendimento conjunto é uma associação de empresas, que pode ser definitiva ou não, com fins lucrativos, para explorar determinados negócios, sem que nenhuma delas perca sua personalidade jurídica. No Brasil, um exemplo de joint venture foi a Autolatina, quando se uniram a Ford e a Volkswagen, de 1987 a 1996. Durante o período de atividade da Autolatina, a VW ofereceu à Ford determinados motores seus e a plataforma do Sedan Santana, ao passo que a Ford ofereceu à VW certos motores seus, bem como a plataforma do Escort. [N.T.]

Hedge funds são investidores institucionais, cuja principal meta é conseguir o maior retorno possível para os recursos à sua disposição, aplicando nos mais diversos ativos financeiros: moedas, ações de mercados emergentes ou títulos de dívida pública que rendem juros elevados, como no Brasil. Os conceitos-chave para os hedge funds são: agressividade, risco elevado e, principalmente, alavancagem. São voltados para investidores ricos e sofisticados e se caracterizam pelo sigilo de suas aplicações. Ficou famosa a quebra de um grande hedge fund (US$ 126 bilhões de ativos), o LTCM, no final da década de 90, que fazia aplicações arriscadas em mercados emergentes e que quase ruiu em fins de 1998. A crise da Rússia, que decretou uma moratoria em 1998, pulverizou as operações do LTCM. Para impedir que as perdas do LTCM se espalhassem pelo sistema bancário, o Federal Reserve coordenou uma operação de resgate, em que 16 bancos injetaram recursos para manter o LTCM respirando, até que voltasse a oferecer retornos positivos aos seus aplicadores. [N.T.]

Imagem:
"Chopin" por Delacroix, 1838

sábado, 20 de novembro de 2010

Doces Recordações da FGV nos Anos 70 > > > Parte 4 > > >


Por Francisco José dos Santos Braga


4º Capítulo: Início do CPM-Curso Preparatório ao Mestrado da FGV

Numa versão apócrifa da Odisséia (“Odysseus und die Schweine oder Das Unbehagen an der Kultur”), Lion Feuchtwanger propôs que os marinheiros enfeitiçados por Circe e transformados em porcos gostaram de sua nova condição e resistiram desesperadamente aos esforços de Ulisses para quebrar o encanto e trazê-los de volta à forma humana. Quando informados por Ulisses de que ele tinha encontrado as ervas mágicas capazes de desfazer a maldição e de que logo seriam humanos novamente, fugiram numa velocidade que seu zeloso salvador não pôde acompanhar. Ulisses conseguiu afinal prender um dos suínos; esfregada com a erva maravilhosa, a pele eriçada deu lugar a Elpenoros – um marinheiro, como insiste Feuchtwanger, em todos os sentidos mediano e comum, exatamente “como todos os outros, sem se destacar por sua força ou por sua esperteza”. O “libertado” Elpenoros não ficou nada grato por sua liberdade, e furiosamente atacou seu “libertador”:

"Então voltaste, ó tratante, ó intrometido? Queres novamente nos aborrecer e importunar, queres novamente expor nossos corpos ao perigo e forçar nossos corações sempre a novas decisões? Eu estava tão feliz, eu podia chafurdar na lama e aquecer-me ao sol, eu podia comer e beber, grunhir e guinchar, e estava livre de meditações e dúvidas: “O que devo fazer, isto ou aquilo?” Por que vieste? Para jogar-me outra vez na vida odiosa que eu levava antes?"

A libertação é uma bênção ou uma maldição? Uma maldição disfarçada de bênção, ou uma bênção temida como uma maldição? Tais questões assombraram os pensadores durante a maior parte da era moderna, que punha a “libertação” no topo da agenda da reforma política e a “liberdade” no alto da lista de valores – quando ficou suficientemente claro que a liberdade custava a chegar, e os que deveriam dela gozar relutavam em dar-lhe as boas-vindas.

* in BAUMAN, Zygmunt. Modernidade Líquida, Capítulo 1 (Emancipação), pág. 25-6. Trad. Plínio Dentzien. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor, 2001.


Ainda naquele primeiro semestre de 1974 procurei retomar meus estudos da língua alemã, que mais tarde me foram muito úteis, especialmente quando fui a Berlim com bolsa de estudo concedida pelo Instituto Goethe de Brasília em 1999. Na década de 70, o ensino de língua alemã era ministrado sobretudo pelo Instituto Goethe (em geral por professoras alemãs mais idosas), o qual ficava na Rua Augusta, nº 1492, próximo à esquina com a Rua Antônio Carlos.
Para lá me dirigia sempre à noite em dias prefixados, para ouvir as preleções daquelas professoras às vezes pouco simpáticas. O método ainda era muito tradicional, havendo pouquíssima participação ou intervenção dos alunos. Por essa razão, as aulas costumavam ser muito monótonas. Contribuía muito para esse resultado o distanciamento muito grande entre as professoras e os alunos. Por exemplo, tentei localizar algum nome de professora em meus pertences de Alemão e para todo o período que se prolongou até 1978. Pois bem: descobri apenas um nome, o da professora "Frau" Margaretha Speer em 1974. Como material didático, além de livros essas professoras utilizavam também excelente material mimeografado onde também não consta o nome delas. Em compensação, havia umas colegas muito interessantes na classe, dentre as quais se destacavam Maria Cecília, Lídia e outras.
Seja como for, o aluno do Instituto Goethe de então era beneficiado pela adoção de excelente material didático, embora não houvesse ainda os métodos audiovisuais modernos tão revolucionários no ensino da língua alemã, ou se havia, era de uso muito restrito. Em 1974, o Instituto passou a utilizar, além de seu excelente material mimeografado, o kit “Deutsch als Fremdsprache” (Alemão como Língua Estrangeira), de autoria de Korbinian Braun, Lorenz Nieder e Friedrich Schmöe, editado pela Editora Ernst Klett de Stuttgart, disponível ou na Livraria Augusta (Rua Augusta, 1403) ou na Livraria Cultura (no Conjunto Nacional da Av. Paulista), consistindo de dois livros, um de diálogos sobre situações corriqueiras do dia a dia acompanhados de exercícios graduados (tomo I), e o outro, constando de textos literários juntamente com exercícios graduados (tomo II).
Mas o que foi considerado uma revolução foi a adoção de um material didático diferente de tudo até então: os livros de exercícios de estrutura e testes que acompanhavam os referidos tomos I e II apresentavam os textos com lacunas didáticas para serem preenchidas. Algo novo estava na possibilidade de o próprio aluno poder conferir as soluções através da superposição de uma película colorida (Kontrollmaske, em Alemão) sobre a área hachurada (da mesma cor da película) das páginas que ocultava a resposta correta, e o próprio aluno fazer o controle do seu aprendizado, conferindo a sua resposta com a do livro, o que seria impossível a olho nu. Portanto, a metodologia pressupunha que, só depois de preenchida a lacuna, o aluno deveria conferir ou “colar” a resposta correta. A alegria era enorme quando a gente conseguia gabaritar toda a página.

Utilizando essa mesma técnica (da área hachurada ocultando soluções para autoestudo), alguns anos depois, o Prof. Jacob Ancelevicz e eu iríamos escrever um livro chamado Contabilidade Básica - Um Estudo Programado, lançado pela Editora Saraiva em 1979. Esse livro usa o "método do caso" e sua característica principal consiste em simular as operações de uma firma ao longo de todo o livro, exemplificando o sistema contábil das partidas dobradas, a apuração do lucro e a elaboração do balanço patrimonial e da demonstração do resultado.
Além do kit citado, as professoras do Instituto passaram a utilizar também a coletânea intitulada “Ernste und heitere Erzählungen 1” (Contos sérios e alegres 1) , composta de textos literários e exercícios formulados por Heinz Griesbach (já citado no Capítulo II destas Memórias), e o compêndio chamado “Deutschland in Geschichte und Gegenwart” (Alemanha na História e no Presente), de autoria de Erich Zettl. Ambos eram editados pela Editora Max Hueber. Do primeiro primeiro livro supracitado extraio um conto do escritor alemão Heinrich Böll, que muito me impactou na época, denominado Anedota sobre a Queda de Produtividade, que abaixo transcrevo na íntegra, em minha tradução para a língua portuguesa.
Antes, porém, gostaria de tecer algumas considerações sobre esse grande escritor, contextualizando melhor o texto que se irá ler. Heinrich Böll foi um dos principais escitores alemães do século XX. Ganhou o Prêmio Nobel de Literatura em 1972. Ficcionista e ensaísta com destacada atuação política durante toda a sua vida, deixou uma vasta obra, cuja tônica é a luta contra a omissão, a injustiça e a opressão. O engajamento na luta política e a coragem marcaram a vida e a obra desse grande escritor. Defensor implacável dos direitos humanos, anti-militarista convicto e um dos primeiros ativistas em defesa do meio ambiente, Böll transformou o internacional P.E.N.¹ Club, do qual foi presidente por vários mandatos consecutivos, em um fórum para multiplicar suas ideias humanistas e pacifistas. Até pouco antes de sua morte ainda participava ativamente de manifestações anti-nucleares. Pela sua postura inabalável, pelo seu papel na divulgação dos ideais democráticos e pelo seu ativo engajamento nas causas pacifistas, Heinrich Böll foi eleito pela Heinrich Böll Stiftung (Fundação Heinrich Böll) o símbolo da integridade humana. (Cfr. www.boell-latinoamerica.org/web/11.html)
Heinrich Böll: Anedota sobre a Queda de Produtividade ²

Heinrich Böll, 1963
Num porto, numa costa oeste da Europa, um homem pobremente vestido está deitado, tirando uma soneca em seu barco de pesca. Neste momento, um turista chiquemente vestido está colocando um novo rolo de filme colorido em sua máquina fotográfica para fotografar a imagem idílica: céu azul, mar verde com cristas de onda alvas e pacíficas, barco preto, boné vermelho de pescador. Click. Outra vez: click, e como todas as boas coisas vêm em três, uma terceira vez: click. O ruído áspero, quase hostil acorda o cochilante pescador, que sonolento se ergue, sonolento procura às apalpadelas seu maço de cigarros; mas, antes de aquele ter encontrado o que procura, já o solícito turista lhe segurou o maço diante do nariz, não exatamente lhe enfiou o cigarro na boca, porém colocou-lhe na mão, e um quarto click, este do isqueiro, conclui a pressurosa cortesia. Devido àquele excesso — mal mensurável, jamais verificável — de pronta cortesia, surgiu uma situação embaraçosa, marcada por irritação, que o turista tenta transpor através de um bate-papo.
“O sr. vai fazer uma boa pesca hoje.”
Aceno de cabeça do pescador, indicando que não.
“Mas me disseram que o tempo está favorável.”
Meneio de cabeça do pescador, indicando que sim.
“Afinal: o sr. não vai por-se ao largo?”
Movimento de cabeça do pescador indicando que não, nervosismo crescente do turista. Com certeza, a felicidade do homem pobremente vestido importuna-o profundamente. Corrói-lhe a aflição pela oportunidade perdida.
“Oh, o sr. está se sentindo bem?”
Por fim, o pescador passa da linguagem de sinais para a palavra realmente falada. “Eu estou me sentindo bem,” diz. “Jamais me senti melhor.” Ele se levanta, estica-se, como se quisesse demonstrar quão atlética era sua compleição. “Eu estou me sentindo maravilhosamente.”
A expressão facial do turista se torna cada vez mais infeliz, e ele não mais é capaz de reprimir a pergunta que, por assim dizer, ameaça explodir-lhe o coração: “Mas, então, por que o sr. não se põe ao largo?”
A resposta vem curta e grossa. “Porque hoje de manhã já o fiz.”
“A pescaria estava boa?”
“Estava tão boa que não preciso ir mais uma vez: peguei quatro lagostas em minhas cestas, quase duas dúzias de cavalas…”
O pescador, finalmente desperto, quebra o gelo e bate com calma no ombro do turista. A expressão facial preocupada do último parece-lhe uma expressão de inapropriada, na verdade, porém, tocante aflição.
“Eu tenho até bastante para amanhã e depois de amanhã”, diz, a fim de aliviar a alma do estranho. “O sr. fuma um dos meus?”
“Sim, obrigado.”
Cigarros estão sendo postos nas bocas, um quinto click; o estranho, abanando a cabeça em sinal negativo, senta-se na beira do barco, tira a câmera da mão, pois agora precisa de ambas as mãos para dar ênfase à sua fala.
“Eu não quero me intrometer nos seus assuntos pessoais”, diz, “mas apenas imagine: o sr. se põe ao largo hoje uma segunda, uma terceira, talvez até uma quarta vez e o sr. pegaria três, quatro, cinco, talvez até dez dúzias de cavalas… imagine só!”
O pescador acena com a cabeça em sinal afirmativo.
“O sr. se poria ao largo”, continua o turista, “não só hoje, mas amanhã, depois de amanhã, certamente, em todo dia favorável duas, três, quatro vezes — sabe o que aconteceria?”
O pescador acena com a cabeça em sinal negativo.
“O sr. poderia comprar para si um motor, em dois anos um segundo barco, em três ou quatro anos teria talvez um pequeno cúter; com dois barcos ou o cúter, o sr. pescaria muito mais, naturalmente — um dia o sr. teria dois cúters; o sr. iria…”, o entusiasmo embarga-lhe a voz por alguns instantes, “o sr. construiria um pequeno frigorífico, talvez um defumadouro, mais tarde uma fábrica de marinadas, fazer voos circulares com um helicóptero próprio, reconhecer cardumes e dar ordens a seus cúters por rádio. O sr. poderia adquirir os direitos de pesca do salmão, abrir um restaurante de frutos do mar, exportar lagosta sem intermediário diretamente para Paris — e então…”, novamente o entusiasmo embarga a voz ao estrangeiro.
Acenando com a cabeça em sinal negativo, profundamente desolado, já quase privado de suas alegrias consagradas ao lazer, olha para a maré rolando pacificamente para dentro do porto, na qual os peixes não capturados saltam alegremente.
“E então”, diz ele, mas de novo o entusiasmo embarga-lhe a voz.
O pescador bate-lhe nas costas, como se faz com uma criança quando se engasgou. “O que então?”, pergunta baixinho.


Vejamos agora o texto original da estória do pescador de Heinrich Böll:

Anekdote zur Senkung der Arbeitsmoral

Heinrich Böll, 1963

In einem Hafen an einer westlichen Küste Europas liegt ein ärmlich gekleideter Mann in seinem Fischerboot und döst. Ein schick angezogener Tourist legt eben einen neuen Farbfilm in seinen Fotoapparat, um das idyllische Bild zu fotografieren: blauer Himmel, grüne See mit friedlichen schneeweißen Wellenkämmen, schwarzes Boot, rote Fischermütze. Klick. Noch einmal: klick. Und da aller guten Dinge drei sind und sicher sicher ist, ein drittes Mal: klick.

Das spröde, fast feindselige Geräusch weckt den dösenden Fischer, der sich schläfrig aufrichtet, schläfrig nach einer Zigarettenschachtel angelt; aber bevor er das Gesuchte gefunden, hat ihm der eifrige Tourist schon eine Schachtel vor die Nase gehalten, ihm die Zigarette nicht gerade in den Mund gesteckt, aber in die Hand gelegt, und ein viertes Klick, das des Feuerzeuges, schließt die eilfertige Höflichkeit ab. Durch jenes kaum messbare, nie nachweisbare Zuviel an flinker Höflichkeit ist eine gereizte Verlegenheit entstanden, die der Tourist - der Landessprache mächtig - durch ein Gespräch zu überbrücken versucht.

"Sie werden heute einen guten Fang machen."
Kopfschütteln des Fischers.

"Aber man hat mir gesagt, daß das Wetter günstig ist."
Kopfnicken des Fischers.

"Sie werden also nicht ausfahren?"
Kopfschütteln des Fischers, steigende Nervosität des Touristen. Gewiß liegt ihm das Wohl des ärmlich gekleideten Menschen am Herzen, nagt an ihm die Trauer über die verpaßte Gelegenheit.

"Oh, Sie fühlen sich nicht wohl?"
Endlich geht der Fischer von der Zeichensprache zum wahrhaft gesprochenen Wort über. "Ich fühle mich großartig", sagt er. "Ich habe mich nie besser gefühlt." Er steht auf, reckt sich, als wolle er demonstrieren, wie athletisch er gebaut ist. "Ich fühle mich phantastisch."

Der Gesichtsausdruck des Touristen wird immer unglücklicher, er kann die Frage nicht mehr unterdrücken, die ihm sozusagen das Herz zu sprengen droht: "Aber warum fahren Sie dann nicht aus?"
Die Antwort kommt prompt und knapp. "Weil ich heute morgen schon ausgefahren bin."

"War der Fang gut?"
"Er war so gut, daß ich nicht noch einmal auszufahren brauche, ich habe vier Hummer in meinen Körben gehabt, fast zwei Dutzend Makrelen gefangen..." Der Fischer, endlich erwacht, taut jetzt auf und klopft dem Touristen beruhigend auf die Schultern. Dessen besorgter Gesichtsausdruck erscheint ihm als ein Ausdruck zwar unangebrachter, doch rührender Kümmernis.
"Ich habe sogar für morgen und übermorgen genug", sagt er, um des Fremden Seele zu erleichtern. "Rauchen Sie eine von meinen?"
"Ja, danke."

Zigaretten werden in die Münder gesteckt, ein fünftes Klick, der Fremde setzt sich kopfschüttelnd auf den Bootsrand, legt die Kamera aus der Hand, denn er braucht jetzt beide Hände, um seiner Rede Nachdruck zu verleihen.

"Ich will mich ja nicht in Ihre persönlichen Angelegenheiten mischen", sagt er, "aber stellen Sie sich mal vor, Sie führen heute ein zweites, ein drittes, vielleicht sogar ein viertes Mal aus, und Sie würden drei, vier, fünf, vielleicht gar zehn Dutzend Makrelen fangen - stellen Sie sich das mal vor."
Der Fischer nickt.

"Sie würden", fährt der Tourist fort, "nicht nur heute, sondern morgen, übermorgen, ja, an jedem günstigen Tag zwei-, dreimal, vielleicht viermal ausfahren - wissen Sie, was geschehen würde?"
Der Fischer schüttelt den Kopf.

"Sie würden sich spätestens in einem Jahr einen Motor kaufen können, in zwei Jahren ein zweites Boot, in drei oder vier Jahren vielleicht einen kleinen Kutter haben, mit zwei Booten und dem Kutter würden Sie natürlich viel mehr fangen - eines Tages würden Sie zwei Kutter haben, Sie würden...", die Begeisterung verschlägt ihm für ein paar Augenblicke die Stimme, "Sie würden ein kleines Kühlhaus bauen, vielleicht eine Räucherei, später eine Marinadenfabrik, mit einem eigenen Hubschrauber rundfliegen, die Fischschwärme ausmachen und Ihren Kuttern per Funk Anweisungen geben. Sie könnten die Lachsrechte erwerben, ein Fischrestaurant eröffnen, den Hummer ohne Zwischenhändler direkt nach Paris exportieren - und dann...", wieder verschlägt die Begeisterung dem Fremden die Sprache.

Kopfschüttelnd, im tiefsten Herzen betrübt, seiner Urlaubsfreude schon fast verlustig, blickt er auf die friedlich hereinrollende Flut, in der die ungefangenen Fische munter springen. "Und dann", sagt er, aber wieder verschlägt ihm die Erregung die Sprache.
Der Fischer klopft ihm auf den Rücken, wie einem Kind, das sich verschluckt hat.
"Was dann?" fragt er leise.


Sobre esse texto de Heinrich Böll, acho que cabem algumas observações. A meu ver, o autor não estava interessado no dilema entre “trabalhar ou não trabalhar”. Acredito que esse texto foi motivado por considerações acerca da forma como nossa sociedade interage com seu meio ambiente natural. A estória sobre o pescador ilustra como processos sociais dão forma ao estado em que se encontram os recursos naturais. Já existem até alguns estudos quantitativos inspirados no texto acima, de Heinrich Böll, provando que “métodos matemáticos podem ajudar a traçar futuros sustentáveis — se forem utilizados com uma atitude respeitosa para com outros domínios do conhecimento". (Cfr. “Model Ensembles for Natural Resource Management: Extensions of Qualitative Differential Equations Using Graph Theory and Viability Theory” (em PDF) na Internet, dissertação apresentada em 30/09/2005 por Klaus Eisenack à Universidade Livre de Berlim. A referida tese foi escrita no Departamento de Análise de Sistemas Integrados no Instituto Potsdam para a Pesquisa do Impacto Climático.)

Como explicado na Parte 1 dessas "memórias" dos anos 70, o CPM-Curso Preparatório ao Mestrado da FGV seria oferecido no primeiro semestre de 1974 a todos os que precisavam, por algum motivo, fazer uma reciclagem de todo o curso de graduação em Administração em apenas 6 meses, para então se candidatarem ao ingresso no Mestrado da FGV. Tal era o caso de economistas, engenheiros e advogados, ou até mesmo professores de Administração de universidades, mas que precisavam de maior embasamento nas disciplinas que lecionavam ou que necessitavam uma reciclagem de seus conhecimentos. O meu caso, como mostrei, era mais complicado, porque eu era bacharel em Letras, considerada área não-afim à Administração de Empresas. Mas eu não era o único egresso de Letras em dificuldade. Havia outra moça na mesma situação. Ambos corríamos o risco de sermos excluídos. À certa altura do curso, ela desistiu de continuar naquela incerteza de sucesso, deixando-me só. Tendo sido aprovado nos exames de admissão ao CPM, criei uma situação de fato e de direito, porque faltou à FGV uma providência essencial: a de só permitir a participação, no certame, de candidato graduado nas áreas afins. Tendo indagado alguns funcionários da Secretaria Escolar, recomendaram-me ser discreto, não provocar a Direção de Escola a se definir e aguardar a iniciativa da Escola de glosar ou não o meu nome durante o curso. Foi exatamente o que fiz.
Foi assim que, no primeiro trimestre de 1974, comecei a dedicar-me, em tempo integral, às disciplinas oferecidas pelo CPM, a saber, Revisão Matemática, Estatística, Análise Mercadológica e Administração Contábil Financeira, todas com duração de 45 horas/aula (equivalentes a 3 créditos) cada, ocasião em que tive o meu primeiro contato com o "método do caso", implementado pela Harvard e adotado pela Fundação Getúlio Vargas, que se transformou em marca distintiva desta última, por causa de sua eficácia. Os casos eram situações reais ou próximas à realidade que precisavam de uma solução por parte de um ou vários estudantes.
A primeira disciplina — Revisão Matemática aos cuidados do Prof. José Rappaport, do DMQI-Departamento de Métodos Quantitativos e Informática — era composta das seguintes unidades programáticas: noções sobre conjuntos, funções, limites, derivadas, máximos e mínimos, bem como integrais. O material didático era muito bom, tendo sido preparado pelos Profs. Pedro Alberto Morettin e Wilton de Oliveira Bussab, que — parece — constituiria capítulos de um livro a ser publicado.
Gostava tanto de Matemática, que assisti além disso, como aluno ouvinte, às aulas de outro professor, Prof. Sebastião Medeiros da Silva, que mais tarde em Brasília encontrei como funcionário do Ministério do Trabalho. Na sua disciplina, vimos funções, domínio da função, regras de derivação, função de Gauss e de Cobb-Douglas, matrizes, limite da função e derivadas, bem como cálculo diferencial, pelo menos.
A disciplina de Estatística Aplicada oferecida pela Prof. Lígia Siniscalco de Oliveira Costa, também do DMQI, cobriu método estatístico, amostra, cálculo das probabilidades, modelos de distribuição de probabilidades, amostragem, estimação, testes de hipóteses e correlação linear. Para leitura suplementar foi entregue material desenvolvido pelo Prof. Norberto Antônio Torres.
A disciplina Análise Mercadológica foi ministrada pelo Prof. Sérgio Roberto Dias do Departamento de Mercadologia. Cobriu o sistema mercadológico, classificação de bens, modelos de comportamento do consumidor, curva de ciclo de vida do produto, segmentação e dimensionamento do mercado, bem como composto mercadológico (planejamento mercadológico do produto, determinação e administração de preços, decisões sobre distribuição e sobre o composto promocional).
A disciplina Administração Contábil Financeira ficou a cargo do Prof. Frediano Quilici do Departamento COFINCO ou CFC-Contabilidade, Finanças e Controle, autor de precioso material didático que conseguia fazer-nos navegar com a maior desenvoltura pelos difícieis meandros da contabilidade. Dentre muitos trabalhos da sua autoria, posso citar "Fluxo de Caixa", "Fluxo de Recursos" e "Avaliação de Estoques", entregues durante a disciplina. Também tivemos a felicidade de conhecer, através de Frediano, material produzido por eminentes professores da Michigan State University e consultores técnicos da EAESP-FGV, dos quais ele certamente tinha sido aluno, tais como Jack J. Kempner, Meyer Stilman, Leonard Hall, etc. Também cabe aqui mencionar o excelente material didático da autoria do Prof. Ivan Pinto Dias, o "IPD", que também nos foi dado a conhecer na ocasião, denominado "A Análise das Demonstrações Financeiras" (que seria parte de seu livro "Princípios de Administração Contábil"), bem como as excelentes traduções e adaptações, feitas por esse mestre, de capítulos do livro "Principles of Accounting, Introductory" de Finney e Miller. "Frediano”, como carinhosamente o tratávamos, sem qualquer estranhamento por parte dele, era um ser humano admirável. (Aos outros professores devíamos usar um tratamento mais formal, chamando-os de “mestres”.) Sempre alegre, bonachão, muito gordo e sempre aguardando um convite para um cafezinho. Sua simpatia para comigo era tão grande que chegou a ser meu avalista no aluguel de um apartamento, poucos anos mais tarde. Suas aulas eram aguardadas com ansiedade. Nós, seus alunos, o reverenciávamos como alguém superdotado, porque sua disciplina dependia de uma igualdade entre débitos e créditos, não admitindo uma "conta de chegada", pelo menos em teoria. Seu curso ia desde balanço patrimonial e demonstração do resultado (demonstração de lucros e perdas) até demonstração de origens e aplicações de recursos (ou fluxo de fundos) e fluxo de caixa, tudo isso calcado sobre o "método do caso".
Se a memória não me trai, eram os seguintes, dentre outros, os estudantes matriculados no Curso Preparatório ao Mestrado naquele primeiro trimestre de 1974: Edson Sebastião Barrichello, Fernando Montanher, Jair Poeiras Assunção (Londrina-PR), Ricardo Xavier Simões, Sílvia Frank e Maria Luíza Barroso (São Paulo-SP), Cléber Pinheiro de Aquino, Adalberto Bezerra e Maricy (cearenses), Adelar Francisco Baggio (Ijuí-RS), Nilton Gomes Paz (“Criciúma”) e Jaime von Loch (Criciúma-SC), Oscar Malvessi (atualmente, professor com PhD da FGV, autor de "Criando Valor para o Acionista", "Project Finance no Brasil: Fundamentos e estudo de casos", entre outros), Pauletti, Ariolli, Mauro Boscardin, James Pavan e Afonso José de Matos (Caxias do Sul-RS), Paulo Roberto Maia Cortes (“Buda”) (Curitiba-PR), Domingos Martins, Watanabe, Fernando Valente, Luciano (Motta de Carvalho?), Nelson Machado (ministro do Planejamento, Orçamento e Gestão de 19.11.2004 a 22.03.2005 e ministro da Previdência Social de 21.07.2005 a 29.03.2007 do Governo Lula e atual Secretário Geral do Ministério da Fazenda), Vera Thorstensen (Assessora Econômica da Missão do Brasil em Genebra desde 1995 e professora de Política de Comércio Internacional na EAESP/FGV em São Paulo), José Fernando Calil, Mário Prata, Álvaro, Laura Gallucci, entre outros.

1º de fevereiro de 1974, sexta-feira, às 8h 50min: no Edifício Joelma, localizado na Avenida Nove de Julho, 225 (hoje Rua Santo Antônio, 200, onde se localizou também em setembro e outubro de 2010 o Comitê Central do PSDB), irrompeu no 12º andar um princípio de incêndio criminoso, conforme se comprovou mais tarde, aparentemente causado pelo curto-circuito em um aparelho de ar condicionado e talvez devido à sobrecarga elétrica. Esse aparelho, segundo se constatou, estava ligado à fiação de outro pavimento, de forma que seria impossível desligá-lo com rapidez. Quase 800 pessoas se encontravam no prédio no momento do incêndio. Do primeiro ao décimo andar estavam situados os estacionamentos para veículos. Do décimo primeiro ao vigésimo quinto andar havia escritórios de um grande banco e várias empresas. As escadas Magirus do Corpo de Bombeiros só atingiam o 13º andar, o que dificultou o trabalho dos Bombeiros e o salvamento das vítimas. Logo o fogo atingiu os andares superiores do Joelma. Somente os que estavam abaixo do princípio do incêndio e os que fugiram para o terraço do edifício conseguiram salvar-se das chamas. Os que se encontravam acima do 13º andar tentaram atingir as escadas Magirus, improvisando cordas e descendo perigosamente, de andar em andar, pelo lado de fora, buscando atingi-las. Muitos caíram, voando para a morte. Às 10h 30min o fogo estava extinto.

Pois bem: um de meus colegas do CPM estava presente a esse incêndio, tendo escapado da morte simplesmente por ter-se dirigido ao terraço do edifício Joelma, donde foi resgatado por um helicóptero. Seu nome era Cléber Pinheiro de Aquino, nascido em Maracanaú, Ceará. Tomei conhecimento de sua morte ocorrida recentemente, em 2/4/2010, uma Sexta-Feira da Paixão. Era professor aposentado da FEA-Faculdade de Economia e Administração/USP. Cléber Aquino foi o organizador da obra "História Empresarial Vivida" em 5 volumes editados pela Gazeta Mercantil, onde recolheu depoimentos de empresários brasileiros bem sucedidos (1986).

Por essa ocasião, após um curto período de aprendizado no CPM, comecei a sentir-me um peixe fora d' água na praia da Administração. De repente, instalou-se em mim um sentimento de ter nadado, nadado para morrer na praia. Acho que contribuiu para esse desagradável sentimento-de-inaptidão-para-a-coisa o fato de não ter a formação específica para aquele curso e meus colegas me discriminarem de certa forma. Bem no meu íntimo, algo monstruoso começou a tomar forma: 'Por que diabos tenho que fazer este curso? Para que frequentar um curso que traz mais problemas a mim do que a qualquer outro colega? Após a conclusão deste curso e do Mestrado a seguir, a conclusão lógica é de que eu vá adotar a vida acadêmica como carreira: estou disposto a pagar o preço? Vale a pena perder quatro anos de minha vida perseguindo um ideal que pode, em última instância, não ser adequado a mim? Por que diabos devo dedicar-me em tempo integral às disciplinas do curso, quando lá fora outras pessoas mais pragmáticas ajuntam seu pé-de-meia, mais preocupados com o seu ganha-pão e com o seu futuro?'
Dentro de mim, outro sentimento me recriminava: 'Você vai amarelar na hora H? Vá em frente e mostre a todos eles quem é você e do que é capaz.' O argumento fatal e definitivo, nesse transe, vinha de Antônio Gonçalves Dias, que, na Canção do Tamoio, coloca na boca de velho pajé o conselho a seu jovem filho:

Não chores, meu filho;
Não chores, que a vida
É luta renhida:
Viver é lutar.
A vida é combate,
Que os fracos abate,
Que os fortes, os bravos
Só pode exaltar.

Segue-se uma série de conselhos, concluindo com a célebre exortação ao filho:

As armas ensaia,
Penetra na vida:
Pesada ou querida,
Viver é lutar.
Se o duro combate
Os fracos abate,
Aos fortes, aos bravos,
Só pode exaltar.

Como o índio cuja resposta à tentativa de escravização é a luta, eu também resistirei — pensei então —, sendo a luta, para mim, condição maior, fator de minha dignidade e justificativa de minha própria existência. Qualquer que seja a dificuldade do momento, por maior que seja o desânimo diante do difícil empreendimento, está tomada a decisão de lutar com toda a minha energia contra esse instinto de morte que me quer dominar. Toda manhã, ao sair da cama, pensava cá com os meus botões, repetindo em voz alta: "Sê bravo, sê forte!"

Recordo-me ainda de que, simultaneamente aos estudos da FGV, decidi praticar natação por ser uma modalidade de esporte, a um só tempo, útil e recreativa. Sobretudo para aliviar a tensão e o estresse causado pela expectativa de auto-superação requerida nos trabalhos e exames da FGV. Praticamente todos os dias aproveitava o intervalo entre as aulas ou tarefas de casa e dirigia-me à ACM-Associação Cristã de Moços — nosso sucedâneo para YMCA-Young Men's Christian Association — para exercitar-me nos vários tipos de natação, dando preferência ao nado crawl. A ACM ficava e ainda hoje está sediada nas proximidades do Teatro de Cultura Artística, ou mais exatamente, na Rua Nestor Pestana, nº 147. Está provado que o estresse prejudica a concentração e leva à má administração do tempo, mas eu não estava ciente dessas implicações quando frequentei as excelentes instalações da ACM, sob a supervisão de instrutores especializados, nem quando procurei na natação um derivativo para a ideia fixa ou tensão, provocadas pelo acúmulo das tarefas escolares.


¹ P.E.N. é abreviatura de Poets, Essayists and Novelists (poetas, ensaístas e novelistas). O clube internacional desses escritores foi fundado em 5/10/1921 pela escritora inglesa Catherine Amy Dawson Scott, visando defender a liberdade de expressão e estabelecer uma comunidade internacional de escritores. O novelista e dramaturgo inglês John Galsworthy (ganhador do Prêmio Nobel de Literatura de 1932 "por sua distinguida arte de narração que assume sua mais elevada forma em "The Forsyte Saga") foi seu primeiro presidente. Atualmente, o PEN Club é composto por 144 centros em 102 países. O seu presidente atual é o Jiří Gruša, poeta e político tcheco.
Tendo aderido aos objetivos e princípios do PEN Club, o PEN Clube do Brasil, fundado em 2/4/1936 na cidade do Rio de Janeiro, integra o sistema do PEN Internacional, sediado em Londres. (N.A.)

² Ingl.: "Anecdote Concerning the Lowering of Productivity" ou "Anecdote to the Decline of Work Ethic". Essa história, com suas diferentes adaptações, tem tido ampla circulação pela Internet, bem como tem sido citada em muitos livros e trabalhos eruditos. Numa das versões mais populares, o turista é apresentado como um norte-americano e o pescador, um mexicano.




* Francisco José dos Santos Braga, cidadão são-joanense, tem Bacharelado em Letras (Faculdade Dom Bosco de Filosofia, Ciências e Letras, atual UFSJ) e Composição Musical (UnB), bem como Mestrado em Administração (EAESP-FGV). Além de escrever artigos para revistas e jornais, é autor de dois livros e traduziu vários livros na área de Administração Financeira. Participa ativamente de instituições no País e no exterior, como Membro, cabendo destacar as seguintes: Académie Internationale de Lutèce (Paris), Familia Sancti Hieronymi (Clearwater, Flórida), SBME-Sociedade Brasileira de Música Eletroacústica (2º Tesoureiro), CBG-Colégio Brasileiro de Genealogia (Rio de Janeiro), Academia de Letras e Instituto Histórico e Geográfico de São João del-Rei-MG, Instituto Histórico e Geográfico de Campanha-MG, Academia Valenciana de Letras e Instituto Cultural Visconde do Rio Preto de Valença-RJ e Fundação Oscar Araripe em Tiradentes-MG. Possui o Blog do Braga (www.bragamusician.blogspot.com), um locus de abordagem de temas musicais, literários, literomusicais, históricos e genealógicos, dedicado, entre outras coisas, ao resgate da memória e à defesa do nosso patrimônio histórico.Mais...

domingo, 7 de novembro de 2010

2010 - ANO CHOPIN > > > 12ª Parte > > > "O PIANO DE CHOPIN", por Cyprian Norwid


Por Francisco José dos Santos Braga





O Blog do Braga tem o prazer de homenagear o bicentenário de nascimento do compositor polonês Fryderyk Franciszek Chopin (Żelazowa Wola, 1810 - Paris, 1849), disponibilizando aos seus leitores uma primorosa tradução de "O Piano de Chopin" (Fortepian Szopena, em polonês) da lavra do poeta polonês Cyprian Norwid, o qual, além de poeta, foi dramaturgo, pintor, escultor e filósofo. Essa tradução foi enriquecida por análise e comentários em dois livros constantes da Bibliografia por parte dos tradutores e ensaístas Prof. Dr. Henryk Siewierski e Marcelo Paiva de Souza. O autor deste blog, devidamente autorizado pelos dois literatos, apenas pinçou do seu texto o que lhe pareceu mais relevante para a perfeita caracterização do poema e de seu criador, tendo sido necessário condensar o material constante dos dois livros, ficando sob sua responsabilidade a disposição e ordenamento das matérias deste ensaio.


1. Prefácio

Ao falar da Atualidade de Chopin, Mário de Andrade chama o seu piano de obra de aproximação, privilegiando, entre todas as funções da música, aquela que torna os homens mais próximos uns aos outros.

O voluntário servidor de todos, o que compunha e procurava conscientemente compor pra toda a gente. Ele mesmo se manifestou contra a arte de elite e todas as místicas classistas de arte, afirmando que a música tinha de ser compreensível a todos (...). Aí Chopin consegue a nossa unanimidade popular (...). Todos se aproximam uns dos outros, porque o piano de Chopin é obra de aproximação.”¹
Essa afirmação do poeta e crítico brasileiro sintoniza com a percepção da música de Chopin que predomina na sua pátria, e que tem sua expressão, talvez a mais completa, num poema de Cyprian Norwid, O Piano de Chopin. É um poema cujas últimas palavras repercutem na Polônia como os acordes do estudo “Revolucionário”: O ideal — atingiu o chão.

A atualidade de Chopin, hoje, duzentos anos depois do seu nascimento, continua indissociável daquela “obra de aproximação” de que resulta e que, ao mesmo tempo, continua produzindo o seu piano. Uma obra de aproximação, em que “o ideal atinge o chão” e em que todos podemos nos encontrar, enfeitiçados por uma melodia que faz desmoronar as fronteiras.

2. Breve biografia de Cyprian Kamil Norwid

Cyprian Kamil Norwid (Laskovo-Głuchy, 1821 – Paris, 1883), órfão desde cedo, foi educado por parentes. Ainda menino mudou-se para Varsóvia, onde frequentou o liceu e, mais tarde, cursou belas-artes. Ali, em 1840, foram dados à estampa seus primeiros poemas. Em 1842, acompanhado por um amigo, cruzou a Polônia a pé, pesquisando a cultura popular e registrando, em desenhos, os tipos humanos, a arquitetura e as paisagens. Pouco depois, asfixiado pela atmosfera provinciana e politicamente opressiva de Varsóvia, deixou sua pátria, para onde não mais voltaria (recorde-se que, naquele período, a Polônia sofria o tríplice jugo da Rússia, da Prússia e da Áustria). Viajou para a Alemanha e em seguida para a Itália, decidido a aprimorar sua formação.

Em Florença, estudou escultura e história da arte, e em Roma, arqueologia. Viveu certo tempo na Itália, entre viagens e intensa atividade como pintor e poeta. Em 1849 instalou-se em Paris, onde foi apresentado, entre outros, a Chopin, de quem se tornou amigo. Mais tarde, Norwid viria a dar provas de sua admiração pelo compositor, não só no poema O Piano de Chopin, mas também escrevendo-lhe o Necrológio e dedicando-lhe uma parte de Flores Negras.

Alguns anos depois, em 1853, problemas financeiros e a torturante lembrança de um amor infeliz (Norwid alimentara uma paixão não correspondida por uma mulher casada, Maria Kalergis, dama a cujos encantos rendiam homenagem os mais requintados salões da época) forçaram-no a migrar para Nova Iorque. Devido à solidão e ao que chamou de falta de história nos Estados Unidos, retornou à Europa em 1854, e no ano seguinte já se encontrava novamente em Paris. Envelhecido, quase surdo e cada vez mais isolado, sem meios de subsistência, no fim de sua vida Norwid abrigou-se no Asilo de São Casimiro, refúgio para idosos mantido por freiras polonesas, onde veio a falecer.

Tendo crescido à sombra dos grandes românticos poloneses — Mickiewicz, Słowacki e Krasiński — Norwid deixou-se, no começo, influenciar nitidamente por eles. Seu percurso biográfico e sua prática textual levaram-no, contudo, muito além das fronteiras do Romantismo.

Se por um lado sua biografia contém dados exemplarmente românticos, por outro, vê-se logo que Norwid vivenciou algo mais, vivências que lhe descortinaram novos horizontes, bem mais amplos do que aqueles franqueados pela perspectiva da corrente a que, em parte, ele pertenceu. A pobreza, o exílio, o encontro com a “cidade grande”, avatar da civilização industrial do Ocidente, e também a experiência como artista plástico, aliada à erudição e ao interesse pela História, todos esses elementos enformaram a poesia de Norwid, que sempre guardou uma postura independente com relação às vogas literárias de seu tempo. Por força de suas inovações formais, ela tem sido comparada à de autores como Stéphane Mallarmé e Gerard Manley Hopkins. Mas cessam aí as semelhanças. Do jesuíta, Norwid difere basicamente porque não comunga a ortodoxia de sua fé; do francês, porque não compartilha o seu esteticismo. Ao longo de toda a sua obra, que inclui poemas longos e narrativos, assim como peças teatrais e textos em prosa, Norwid abriu as veredas de uma singular teoria da arte, cujos termos centrais, expostos no Promethidion, extenso diálogo poético publicado em Paris, em 1851, são o trabalho, a relação entre o belo e o útil, e a redenção.

Norwid não pôde aceitar o mundo tal como ele era. Por conta da amplitude e da severidade dessa recusa, seus contemporâneos, que o haviam benevolamente saudado como um talento promissor, não tardaram a fustigá-lo com a pecha de excêntrico, encarcerando-lhe a poesia no silêncio da indiferença e da incompreensão. Foi preciso que um outro século despontasse, foi preciso que todo um conjunto de hábitos de percepção se alterasse, para que sua obra fosse enfim resgatada do olvido e reavaliada.

3. Análise do poema O Piano de Chopin (Fortepian Szopena, em polonês)

Tanto quanto, porém, ou talvez até mais do que suas considerações filosóficas, interessa aos modernos a experiência norwidiana com a linguagem. N’O Piano de Chopin (poema XCIX da summa lírica de Norwid, o Vade-mecum, de 1866) temos um exemplo consumado da técnica norwidiana e uma de suas mais conhecidas criações. Temas e sobretudo procedimentos, amiúde encontradiços nas demais obras do autor, encontram-se ali condensados.

O pano de fundo histórico do texto remete-nos a um atentado contra a vida do general russo Teodor Berg, Governador Geral do tzar Alexandre II na Polônia, durante a Insurreição Polonesa de 1863. Como represália, os cossacos invadiram e incendiaram o palácio dos Zamoyski em Varsóvia. O piano de Chopin, guardado no palácio, foi encontrado por eles e atirado janela abaixo.

George Gömöri, renomado estudioso da obra de Norwid, pondera que:

Em seus aspectos formais O Piano de Chopin é muito mais experimental que o restante do Vade-mecum. Ele está escrito num verso livre rimado, com freqüentes alterações de ritmo; as linhas variam de alento e são por vezes rompidas em frases emotivas muito curtas. À parte as associações históricas e culturais já discutidas, o poema ainda abriga um reflexo impressionista da música de Chopin; certos elementos do estilo do compositor tais como o 'tom sussurrante' e os acordes impromptu são além disso urdidos na sua textura. De fato, todo o poema parece ter sido composto com base em princípios musicais; quando lido em voz alta, ele soa como uma peça de música, escrita para o instrumento da vox humana. Contudo, os elementos eufônicos não sobrepesam o conteúdo; eles não adornam meramente mas explicitam e amplificam 'a mensagem'. Tanto em seu assunto quanto em sua execução, este é um poema original e impressionante. Ele permanece entre as melhores realizações líricas de Norwid e de todo o período pós-romântico.²
Nosso século tem assistido a constantes iniciativas de revisão do passado literário. A modernidade, em seu movimento constitutivo, engendrou uma nova tradição, resgatando muitos poetas do oblívio a que os havia condenado a rotina do gosto. Foram reabilitados, assim, autores tão díspares como Góngora, John Donne, Jules Laforgue, Arnaut Daniel e, entre nós, Sousândrade (artista cuja vida e obra se assemelham, em mais de um ponto, às de Norwid). A recuperação da poesia norwidiana obedeceu, portanto, a uma tendência consideravelmente ampla, em cuja órbita ainda hoje nos movemos. A tradução d’ O Piano de Chopin³ que ora é apresentada, sensível às características formais do original, procurou encontrar-lhes equivalentes criativos em português.

4. O poema propriamente dito

CYPRIAN NORWID: O Piano de Chopin

A Antoni C...

La musique est une chose étrange!
Byron

L‘ art? ... c’ est l’ art — et puis, Voilà tout.
Béranger

I

Estive em tua casa nos penúltimos dias
Da trama sem desfecho – –
– Cálidos,
Como o Mito, pálidos,
Como a aurora... Quando o fim da vida sibila ao começo:
“N ã o  t e  r o m p e r i a  e u  –  n ã o  –  E u,  t e  r e-a l ç a r i a!...”

II

Estive nesses dias, penúltimos, em tua
Casa, e parecias – de novo e de novo então –
A lira que Orfeu chegado o instante
Rejeita, mas que forçada-forceja pela canção,
E ainda vibra relutante
As suas
Cordas: duas – mais duas –
E pulsa:
“A s s o m o
D o  s o m?...
S e r á  t a l  M e s t r e!...  q u e  t o c a...  m a l g r a d o  a  r e p u l s a?...”

III

Estive em tua casa nesses dias, Frederico!
E tua mão... assim
Tão clara – e leve – rico
Alabastro e espasmos de pluma –
Mesclava-se com as teclas numa
Névoa de marfim...
E eras a forma que ressuma
Do ventre do mármore,
Antes de esculpida,
E revida
Ao cinzel do Gênio – Pigmalião que nunca morre!

IV

E no que tocaste – quê?disse o tom – quê? dirá, mas a cor de
Um eco escoa a esmo,
Não como abençoavas, tu mesmo,
A cada acorde –
E no que tocaste: tal foi a rude
Perfeição Pericleana,
Como se antiga Virtude,
No umbral duma choupana
De lariço, a si
Mesma dissesse: “R e n a s c i
  N o  C é u,  e  a  p o r t a  –  s e  i r m a n a
  À h a r p a,  a  v e r e d a  –  à  f a i x a...
  V e j o  u m a  h ó s t i a  –  a t r a v é s  d o  t r i g o  s e m  c o r...
  E m a n u e l  j á  s e  a c h a
  N o  c i m o  d e  T a b o r!”

V

E nisso era a Polônia, retesa
Desde o zênite da História dos
Homens, num arco-íris de êxtase – –
A Polônia – d o s  f e r r e i r o s  t r a n s f i g u r a d o s!
Ela mesma, adorada,
Abelhi-dourada!...
(Mesmo ao cabo do ser – eu teria certeza!...)

VI

E – eis aí – cantaste – – e não mais te alcança
O meu olhar – – mas ainda ouço:
Algo?... como rusga de crianças – –
São porém as teclas em alvoroço
Pelo anseio da canção que não se fez:
E arfando convulsas,
Oito – cinco por dez –
Murmuram: “E l e  s e  p ô s  a  t o c a r?  o u  n o s  r e p u l s a??...”

VII

Tu! – perfil-do-Amor,
Que tens por nome P l e n i t u d e;
Isto – que na Arte atende por
Estilo, porque permeia a canção, urde
As pedras... Tu!  –  E r a, como a História soletra,
E onde o zênite da História não investe,
Chamas-te a um só tempo: o  E s p í r i t o  e  a  L e t r a,
E “consummatum est”...
Tu! P e r f e i t a-c o n s u m a ç ã o, seja o que
For, e onde?... Teu selo...
Em Fídias? Chopin? Davi?
Na cena de Ésquilo? Em ti
Sempre – se vingará: o ANELO!...
– A marca desse globo – carente:
A  P l e n i t u d e?... o fere!
Ele – prefere
Começar e prefere lançar o sinal – mais à frente!
A espiga?... madura feito um cometa fugaz,
Mal sente
A brisa a tocá-la, chove sementes
De trigo, a própria perfeição a desfaz...

VIII

Eis aí – olha, Frederico!... é – Varsóvia:
Sob a estrela que flameja,
À luz que, insólita, envolve-a – –
– Olha, os órgãos da Igreja;
Olha! Teu ninho: ali – os sobrados
Patrícios velhos como a P u b l i c a-r e s,
O chão surdo e pardo
Das praças, e a espada de Segismundo nos ares.

IX

Olha!... nos becos os potros
Do Cáucaso irrompem
Como andorinhas defronte das tropas, ao sopro
Da tempestade; c e m  –  o u t r o s
C e m  – –
O fogo fulge, hesita, infesta
O prédio – – e eis aí – contra a fachada
Vejo testas
De viúvas empurradas
Pelo cano
Das armas – – e vejo entre a fumaça no gradil
Da sacada um móvel como um caixão erguerem... ruiu...
Ruiu – T e u  p i a n o!

X

Ele!... que exaltava a Polônia, tomada
Desde o zênite da História dos
Homens, no êxtase da toada –
A Polônia – dos ferreiros transfigurados;
Ele mesmo – ruiu – no granito da calçada!
– E eis aí: como o nobre
Pensamento é presa certa
Da fúria humana, o u  c o m o  –  s é c u l o  s o b r e
S é c u l o  –  t u d o,  q u e  d e s p e r t a!
E – eis aí – como o corpo de Orfeu,
Mil Paixões rasgam dementes;
E cada uma ruge: “E u
N ã o!...  E u  n ã o” – rangendo os dentes –


Mas Tu? – mas eu? – que surda
O canto do juízo:“A l e g r i a,  n e t o s  q u e  v i r ã o!...
G e m e u  –  a  p e d r a  s u r d a:
O  I d e a l  –  a t i n g i u  o  c h ã o – –"

5. Bibliografia

SIEWIERSKI, H. e SOUZA, M. P. de (trad. e introd.). “Cyprian Norwid. O Piano de Chopin.” Gráfica e Editora OCB, Brasília-DF, 1994, 24 pp. com 4 ilustrações.

SIEWIERSKI, H. (org.). “O Piano de Chopin: uma Obra de Aproximação”, Edelbra Ind. Gráf. Editora Ltda., Erechim-RS, 1999, 64 pp. com 5 ilustrações.

SOUZA, M. P. de. Desatinada azáfama - reflexões sobre um percurso tradutório. In Sob o signo de Babel. Literatura e poéticas de tradução. Vitória: PPGL/MEL, Flor&Cultura, 2006.

6. Notas dos Tradutores

¹ ANDRADE, Mário de. “Atualidade de Chopin”. In O Baile das Quatro Artes, Livr. Martins Ed., São Paulo, 1963, p. 161-4.

² Cyprian Norwid (monografia). New York, Twayne Publishers, 1974, p. 59.

³ A primeira versão d’ O Piano de Chopin, escrito no fim de 1863 ou início de 1864, foi publicada numa revista polonesa editada na Suíça (Pisma zbiorowe..., caderno 2, Bendlikon, 1865). O texto aqui reproduzido e traduzido é a segunda versão do poema, incluída por Norwid na coletânea poética Vade-mecum (1866), que não chegou a ser publicada durante a vida do artista, e cujo autógrafo encontra-se atualmente na Biblioteca Nacional de Varsóvia. Os tradutores serviram-se aqui das obras completas de Norwid editadas por Juliusz Wiktor Gomulicki: Cyprian Norwid, Pisma wszystkie, vol. I-XI, Warszawa, 1971-1976.

Imagens:
1. "Chopin" por Delacroix, 1838
2. Cyprian Norwid