quarta-feira, 30 de dezembro de 2015

"ODES E POEMAS" DE ELEVADO MISTICISMO


Por Francisco José dos Santos Braga

Crítica literária da coletânea de poemas editada em opúsculo intitulado "Odes e Poemas", do Deputado José Barbosa. Esse meu trabalho foi publicado originalmente no Jornal de Brasília, Brasília-DF, caderno 2, seção Pauta Livre, edição de 22 de setembro de 1992. 



Vem de ser lançado, pela State-of-the-Art Editora (Rio de Janeiro) o mais recente livro do poeta, advogado e ex-deputado federal José Barbosa (PTB-SP), intitulado Odes e Poemas ¹. A obra vem enriquecer sobremodo as nossas letras, não só pela enorme vivência do autor, mas também pela exuberante inspiração que permeia as 49 páginas do opúsculo.

O livro do respeitado jurista traz estreitas ligações com diversas localidades, em especial com Barretos de sua infância, São Paulo de sua juventude, e Brasília, Nova Friburgo, Rio de Janeiro e Região Amazônica de sua maturidade.

Destaque merece ser dado aos versos carregados de elevado misticismo em que retrata sua atual existência, como "meu barco-nave de metal desconhecido", "meu veleiro de aura iluminado" deslizando sobre as águas o mais fluido dos elementos naturaispara, em seguida, sob o efeito da sutilização, constatar que "minha nave espacial no céu tornou-se estrela", ou ainda:

"_ _ _ _ _ _ _ _ _ _ _ _ _ _ _ _ _ _ _ _
Garça branca perdida no infinito,
À procura, talvez, de outras moradas,
No evangelho por Cristo declaradas."

Alguns poemas revelam a enorme paranormalidade do autor, tais como Quarta Dimensão e Percepção extra-sensorial. Neste último, revela uma experiência que teve em Ribeirão Preto "nos salões ornados e românticos da Recreativa", onde conheceu uma "pálida morena" fantástica literalmente que dançou com ele respondendo laconicamente a suas perguntas e que desapareceu como "sombra etérea ou visões alucinadas" ² .

Todos conhecemos o célebre "Estouro da Boiada", uma das mais lindas páginas em prosa de Euclides da Cunha. O poeta homenageado não se intimida de enveredar pelo caminho já trilhado por um dos nossos maiores escritores e oferece, em versos, uma descrição desse formidável fenômeno. No bojo do poema, o poeta, que se confessa retirado da vida pública, manifesta sua veia satírica, ao denunciar o culpado pela disparada:
O Estouro da Boiada
 
"_ _ _ _ _ _ _ _ _ _ _ _ _ _ _ _ _ _ _ _ _ _ _ _ _ _
Na recontagem de cabeça por cabeça,
No desfile através de uma porteira,
Anotou o sempre atento capataz
A falta de uma rês, uma única arribada...

Concluíram que era aquele boi pintado,
O culatreiro cego das esquerdas,
Que nas viagens pendia para este lado.
Apesar dos vestígios e procura,
Durante muitos dias e até por noite escura,
Este boi nunca mais por ninguém foi encontrado..."

Não posso deixar de mencionar o belíssimo poema de apenas quatro linhas, intitulado Alô ao Rio Madeira, cujos versos mágicos emprestam nostalgia à situação existencial (Sitz im Leben) do poeta: 

"Oh! Velho e legendário rio Madeira!
Nosso esperado encontro, até que enfim!
Você, no seu mistério, sempre assim.
E eu, no meu exílio, já desta maneira..."


O poema Iara do Madeira, na linha clássica dos grandes sonetos das nossas letras, aqui reproduzido para o deleite dos que apreciam o belo em forma poética, é uma obra-prima, sobretudo no seu primeiro quarteto de notáveis efeitos onomatopaicos e no seu segundo terceto:  


Na curva silenciosa de suas águas,
E nos vãos dos vai-e-vem dos roda-paus,
Vi naufragar meus séculos de mágoas,
E a aurora ressurgir em meio do caos.

Na superfície cor de barro do seu leito,
Olhar perdido no infinito de um céu azul,
Uma dor de saudade comprimindo o peito,
Gravei então o epitáfio da Iara loura,

Filha das belas terras das regiões do Sul,
Hereditária lá da itálica península,
Misto de índia, romana e grega antiga,

Na ambivalência mística da face oculta,
No amor menos amante do que amiga
Perpetuada nas águas fundas do Madeira...

Gostaria ainda de registrar que o "poeta da ambivalência", conforme ficou José Barbosa conhecido em Rondônia (embora o escritor Matias Mendes afirme que ele prefere ser considerado "poeta da polivalência"), é capaz de descortinar laivos de elevado humanitarismo ao longo de toda a sua obra, especialmente no poema intitulado Sonhando... , em que firma sua crença na nova era:

Quisera Deus mais lustro possa ainda viver,
Sonhar a Terra azul, e verde, e branca,
Amplexo de arco-íris em círculo total.
As fontes cristalinas, verdejantes prados,
A paz dos santos e predestinados,
Os paralelos Cireneus de nossa cruz,
Na imensa procissão universal...
Descerrar os umbrais do Terceiro Milênio,
A nova era do mundo tão esperada,
Panorama de cósmica harmonia,
Resplandecente sol de uma eterna beleza!
A casta água purificando a vida,
O planeta irmanado nos seus reinos,
Povos se amando na paz e no trabalho,
E o nosso Titanic já livre do naufrágio...
Sonhar, sentir e continuar sonhando, 
E zelar pelas crianças do universo inteiro,
Pois todas têm o mesmo e mais belo sorriso,
E soluçam e choram da mesma maneira,
Os semeadores da esperança do amanhã...
Reencontrar, enfim, outra nave, outro veleiro,
Para novos espaços navegar...

Por último, alegra-me saudar não só o lançamento de "Odes e Poemas", como também o cumprimento de se publicarem proximamente as Memórias de José Barbosa que, tendo desempenhado importante papel na redemocratização do nosso País, oxalá possa lançar muitas luzes sobre inúmeros acontecimentos e vultos da história brasileira contemporânea. 


I.  NOTAS  EXPLICATIVAS


¹  A coletânea ODES E POEMAS, por José Barbosa, é composta dos seguintes poemas: Sic transit gloria mundi, Meu veleiro, Amazônia, Rondônia, Navegar..., Iara do Madeira, Alô ao rio Madeira, Exorcismo, Garimpo, Rio do Sem Nome, Quarta dimensão, Faculdade do Largo de São Francisco, Percepção extra-sensorial, Recordações, Miragens, Retratos, A mulher da fazenda, Mulher errada, O Estouro da Boiada, Cantigas do rio Grande, Êta! chão preto! terra boa é Barreto...sss!, Brasília, Enseada do Mar do Norte, Arpoador, Absurdo, Solidão, Visita, Canção da noite, Nêga na janela, Sonhando... e Elogio dos setenta.

Esses poemas vieram precedidos de pequeno prefácio que o autor José Barbosa intitulou "Duas Palavras". Ali se lê: 
Ao concordar com a publicação de Odes e Poemas aos Setenta e Cinco, por solicitação de amigos, incluímos, para melhor entendimento de possíveis leitores, o Elogio dos Setenta, escrito em 1987 e ilustrado pelo consagrado pintor Augusto Rodrigues. 
Com exceção de Iara do Madeira ³ e Alô ao rio Madeira, já divulgados, que mereceram algumas alterações no título e no texto, os demais são inéditos.  
Dispenso-me de analisar outros aspectos da poesia, que emana das fontes perenes em todas as faixas etárias. 
Ela está na vida e no mistério.
É divina e demoníaca.
Música e ritmo.
E não é escrava da técnica.

 
Rio, maio de 1992. 

José Barbosa 


²   Contou-me José Barbosa que essa mulher fantástica, alma penada que dançou com ele, respondia enigmaticamente a suas perguntas com apenas "sim" e "não".


³  Com relação a "Iara do Madeira", o autor me informou que o poema inicialmente tinha 12 versos, tendo sido transformado num soneto, com os seguintes acréscimos:
1) No primeiro terceto: o verso mediano "Hereditária lá da itálica península".
Logo, originalmente, o primeiro terceto aparecia assim, omitido o verso central:

Filha das belas terras das regiões do Sul,
_ _ _ _ _ _ _ _ _ _ _ _ _ _ _ _ _ _ _ _ _ _
Misto de índia, romana e grega antiga,

2) No segundo terceto: originalmente, aparecia omitido o verso mediano "No amor menos amante do que amiga", bem como substuída a palavra "Sepultada" por "Perpetuada" no último verso.
 
Na ambivalência mística da face oculta,
_ _ _ _ _ _ _ _ _ _ _ _ _ _ _ _ _ _ _ _ _ _
Sepultada nas águas fundas do Madeira...



⁴  Este poema apareceu com o título "Sonhando com o terceiro milênio" numa Antologia da Casa do Poeta Brasileiro-Poébras - Seção de Brasília-DF, publicada em outubro de 1999, 166 p., intitulada "No Limiar do Terceiro Milênio".



II.  OBRA CONSULTADA


BARBOSA, José: ODES E POEMAS, Rio de Janeiro: State-of-the-Art Editora Ltda., 1992, 49 p., ilustrações de Márcia Süssekind.



terça-feira, 29 de dezembro de 2015

CORAL DA UnB BRILHA NA GRÉCIA


Por Francisco José dos Santos Braga



Coral da UnB antes de sua tournée grega, na Catedral de Brasília


Antes do encerramento do ano de 2015, não queria deixar sem registro a notável participação do Coral da UnB em sua tournée grega, entre os dias 11 e 18 de outubro p.p., tanto no Parnassos Hall, uma das mais prestigiadas salas de concerto de Atenas, quanto no Concurso e Festival Internacional de Coros de Kalamata (First Kalamata International Choir Competition & Festival 2015), cidade onde representou o País, disputando nas seguintes categorias: Música Sacra, Coro Misto e Música Folclórica. Nesta cidade onde foram realizados o Concurso, promovido pela Interkultur, e o Festival, o Coral conquistou para orgulho dos brasileiros o Diploma de Prata, tendo feito diversas récitas com seu tradicional brilhantismo, que é marca característica deste conjunto coral. A premiação foi entregue ao Coral no encerramento do Concurso no dia 17 de outubro p.p.

AGENDA - O Coral ainda foi convidado a participar do Concerto de Abertura, do Concerto de Gala The Colorful World of Choral Music II e do Friendship Concert, onde o público pôde apreciar peças do folclore musical brasileiro, tais como Aquarela do Brasil, de Ary Barroso, e Qui nem jiló, de Luiz Gonzaga e Humberto Teixeira.

Durante a viagem, antes de chegar ao seu destino que era Kalamata, o coral da UnB fez um concerto em conjunto com o RoseArt Children' s Choir no Parnassos Hall, em Atenas.

No concurso em Kalamata, o Coral disputou em três categorias, como vimos acima, apresentando-se com um repertório à altura do evento. Na primeira categoria (Música Sacra), o Coral interpretou Exultante Deo, de Palestrina, Judas mercator pessimus, de padre José Maurício Nunes Garcia, e Dona Nobis, de Carlos Alberto Pinto Fonseca. Na categoria Música Folclórica, apresentaram Ofulu Lorêrê, de Oswaldo Lacerda, Ponteio, de Edu Lobo e José Carlos Capinan, e Muié Rendeira. Na categoria de Coro Misto, levaram Ecco mormorar l'onde, de Cláudio Monteverdi, El guayaboso, de Guido Lopez Gavilan, e Sabiá, coração de uma viola, de Aylton Escobar. 

Atualmente, o coral é dirigido desde 2001 pelo maestro Éder Camúzis, pós-graduado em Regência Coral pela UnB, professor do CEP-Escola de Música de Brasília, onde rege o Madrigal de Brasília e o Coro Feminino Cantares.

De acordo com o jornal ARRUIA, a presidente do Coral da UnB, Karen Camargo, assim se expressou a respeito do trabalho desenvolvido pelo grupo visando ao Concurso: "Nós pretendemos colocar o mesmo empenho que colocamos na preparação para esse Concurso nos projetos que vamos desenvolver daqui para frente, procurando aperfeiçoar ainda mais o desempenho do Coro."

Também se manifestou a Diretora de Relações Institucionais do Coral, Eliane Timm, dizendo que a premiação conquistada vinha se somar às outras premiações obtidas pelo Coral em concursos internacionais realizados anteriormente, que mostram que o Coral sempre buscou a excelência em suas performances ao longo da história.

O maestro Éder Camúzis considerou muito bom o resultado. "Esta é uma premiação excelente em função das rigorosas exigências feitas pelos jurados e pelo alto nível dos concorrentes." Acrescentou antes do certame, de acordo com a SECOM-Secretaria da UnB, que "estaremos em contato com jurados renomados no ambiente do Canto Coral e em interação com maestros e corais de várias partes do mundo. Espero que possamos representar bem a cultura brasileira."

SOBRE O CORAL - O Coral da UnB foi criado em 1981 por membros do Departamento de Música e era então conduzido pelo maestro David Junker. Atualmente sob a regência do maestro Éder Camúzis, o grupo é formado por alunos, ex-alunos, professores e servidores da UnB, bem como por membros da comunidade, contando com o apoio da pianista co-repetidora Marília de Alexandria e do preparador vocal André Vidal. 
Desde sua formação, sob a regência de importantes maestros, o Coral homenageado vem destacando-se como vencedor em numerosos certames nacionais e internacionais. Seu repertório abrange peças da renascença europeia ao contemporâneo brasileiro. Já obteve premiações importantes, tendo sido bi-campeão de corais da cidade do Rio de Janeiro, promovido pela Rádio Nacional, ganhador de troféus na Espanha (1º lugar), Alemanha (3º lugar) e França (grupo finalista). Outro ponto alto do coral foi quando cantaram o medley de O Fantasma da Ópera.
Desde 2013, o grupo é considerado patrimônio imaterial do Distrito Federal e, apesar de ser um coro amador, destaca-se por ter cantores de nível profissional.


ALGUMAS INFORMAÇÕES SOBRE A CIDADE DE KALAMATA


É a segunda cidade mais populosa na península do Peloponeso, no sul da Grécia. Kalamata é a capital e o principal porto da província de Messênia (ou Messínia). Quanto à etimologia da palavra, há muita disputa. Alguns defendem a origem do nome à expressão "Kalá mátia" (bons olhos).
A história de Kalamata começa com Homero (Hom. II.5, 543; 9, 151; 293, como uma das sete cidades que Agamêmnon prometeu a Aquiles), que menciona Pharaí, uma antiga cidade construída mais ou menos onde se situa hoje o Castelo "Isabeau", no alto das montanhas, onde tem lugar o famoso Festival Internacional de Dança. Construído no século XIII por William Villehardouin, sofreu adições e mudanças posteriores pelos venezianos e turcos. Hoje é um espaço ideal para shows de teatro, música e dança ao ar livre.
Acredita-se que a área onde a atual cidade se encontra era coberta pelo mar.
Kalamata foi a primeira cidade a ser libertada do jugo turco, devido à Guerra da Independência grega. Em 23 de março de 1821 foi conquistada pelas forças revolucionárias gregas sob o comando dos generais Theodóros Kolokotrónis, Pétros Mavromichális e Papafléssas. Na Grécia independente, Kalamata foi reconstruída e tornou-se um dos mais importantes portos no mar Mediterrâneo.
As azeitonas de Kalamata são célebres: têm o formato de amêndoas, de cor plúmbea, roxa escuro. Elas, na União Europeia, têm status PDO (protected designation of origin).


BIBLIOGRAFIA  CONSULTADA


ASSOCIAÇÃO ARTÍSTICA CORAL JÚLIA PARDINI: jornal Arruia, Ano LVI, Belo Horizonte, novembro de 2015, nº 617, p. 3.






terça-feira, 22 de dezembro de 2015

O ESTOURO DA BOIADA, por Deputado José Barbosa


Por Francisco José dos Santos Braga



Deputado José Barbosa (1917-2010)


I.  INTRÓITO




Tenho a impressão de que meu saudoso amigo,  Deputado José Barbosa, ao me enviar, durante anos, todo esse material que se verá abaixo, a respeito de seu "O Estouro da Boiada", deve ter-se convencido de que eu era a pessoa certa para algum dia coligi-lo para a apreciação dos meus leitores. Naquela ocasião eu era Assessor Legislativo do Senado Federal por concurso público, onde ingressei em 1988, e meu amigo, residente em Nova Friburgo-RJ, passante em Rondônia e sedizente habitante de outros mundos. Quem o conheceu sabe a extensão do que estou a dizer e no que ele acreditava piamente.

Amigo fiel de seus amigos, inimigo cruel de seus desafetos  estou a me lembrar de alguns merecedores de sua inimizade  , nunca o vi levar desaforo para casa. Se ofendido por alguém em qualquer ambiente,  público ou privado, refinado ou não, erguia-se impávido e desafiava o atrevido. Jamais o vi tímido ou amedrontado diante de qualquer desafio. Coragem jamais lhe faltava. E o conheci já idoso...

A par disso, vi-o muitas vezes enternecido diante de uma flor ou da candura de uma criança ou fascinado a contemplar as circunvoluções das águas impetuosas do Rio Madeira.

Sua devoção por Santo Antônio o levava muitas vezes à Cachoeira de mesmo nome, que distava cerca de 7 km da estação de Porto Velho e, nessas ocasiões, eu costumava acompanhá-lo, especialmente em fins de semana. Ainda o vejo falando sobre os portentos e milagres realizados pelo grande orador e taumaturgo português de sua devoção. Ali, também, o ouvi muitas vezes discorrer sobre a mediocridade que nos cercava e da qual deveríamos nos cuidar por representar um perigo constante. Lembrava-me ele que nós nos distinguíamos da mediocridade, porque esta era incompetente e despreparada, mas hábil o suficiente para se articular para um projeto de tomada do poder. E esclarecia sua opinião citando alguns nomes de pessoas que estavam enredando o primeiro governador eleito do Estado de Rondônia nas suas malhas, no primeiro ano de seu mandato (em 1987). Alertou-me sobre nossos encontros que estavam sendo monitorados pela mediocridade, que possuía um verdadeiro sistema de informações e contra-informações para tal fim.

Relembro ainda o primeiro encontro da nova equipe de governo no começo de 1987. Viajei de São Paulo (onde trabalhava para a C.A.T.-Coordenadoria da Administração Tributária da Secretaria Estadual da Fazenda, dirigida por Dr. Clóvis Panzarini) para Porto Velho para um contato pessoal com o staff do novo governo. Todos éramos uma só curiosidade pela figura central do governo, anunciado como amigo e Assessor Especial do governador Jerônimo Santana (1934-2014). A fala do governador, dando-nos o norte de seu governo, não era tão esperada quanto a apresentação e as palavras do seu famigerado Assessor Especial, Dr. José Barbosa, para quem todas as atenções se voltaram. Mas, aos poucos, uma súcia orquestrada praticou o que Romeu Tuma Jr. chama de "assassinato de reputações - um crime de estado" contra o assessor especial. Acusado reiteradamente por suas crenças religiosas (espalharam o boato de ser "guru" ou "pai de santo" do governador), acuado pelo conluio de funcionários das pastas técnicas (principalmente do Planejamento e da Fazenda) que lhe puseram a pecha de "poeta"  dentre muitos outros termos pejorativos que não cabe mencionar aqui, em seis meses Dr. José Barbosa, em vez de ser o formulador de políticas públicas para o governo de Rondônia, o defensor do Estado por sua reconhecida formação jurídica e o facilitador de legislação federal que beneficiasse Rondônia especialmente por seus contatos políticos e sua experiência na Câmara dos Deputados, cada vez mais viu a sua atuação ser reduzida a assuntos "domésticos". Aos poucos, sua influência ficou reduzida a uma pasta (da Educação), a um órgão (PRONAV/LBA) dirigido pela primeira dama Palmira Santana e a uma pessoa do entourage do governador, sua irmã Maria Santana. Desta forma, assistíamos inertes ao ostracismo — literalmente  de um grande homem público.

Só entendi perfeitamente os seus alertas, fruto de suas premonições, quando fui alijado do cargo de Secretário Adjunto de Estado da Fazenda de Rondônia pela mesma mediocridade, impossibilitado de concluir um ano de trabalho naquela função, que eu exercia como funcionário cedido pelo Estado de São Paulo. Foi o tempo suficiente para a mediocridade perceber que eu não estava em Rondônia para servir os seus interesses. Mal sabiam meus desafetos em Porto Velho que eu fora aprovado em concurso público para assessor legislativo do Senado Federal, só aguardando a convocação para tomar posse no novo cargo público, o que ocorreu logo no ano seguinte. Por ironia do destino, em breve, como funcionário do Senado, fui designado como responsável por assessorar o relator do Orçamento Geral da União em questões referentes à dívida pública dos Estados brasileiros e, aí, vi-me assediado por aquela conhecida mediocridade, meus desafetos em Porto Velho, agora negociadores da dívida de Rondônia.

Deputado José Barbosa refugiou-se na poesia vocação que ele não imaginava que tivesse e o governador Jerônimo Santana (MDB) ficou refém da mediocridade.
Livro de 1998, 34 pp.




II.  APRECIAÇÕES DE SEU POEMA "O ESTOURO DA BOIADA"



1) ESTOURO DA BOIADA: O Livro do Anhanguera

Matias Mendes ¹ 

Publicado ainda no ano de 1998, em separata, O Estouro da Boiada é um poema concebido pelo poeta José Barbosa ²  conhecido em Rondônia pela alcunha de Anhanguera desde os tempos que aqui esteve como assessor do ex-governador Jerônimo Santana e incluído no seu livro Odes e Poemas, tendo por base o consagrado tema abordado pelo imortal Euclides da Cunha e dissecado pelo notável Ruy Barbosa com sua impecável oratória em Conferência de Juiz de Fora. Respaldado por um prefácio escrito por Esther de Figueiredo Ferraz, ministra da Educação no governo do general João Batista Figueiredo, o mais recente livro do poeta José Barbosa permite ao leitor analisar com mais propriedade um belíssimo poema que descreve com rara exatidão uma das sagas mais empolgantes dos sertões do Brasil, a saga do peão boiadeiro, fato sobejamente conhecido pelo Autor dos tempos aventurescos de sua movimentada juventude no interior do Estado de São Paulo.

Conquanto demonstre saber cantar com inimitável lirismo as fainas rudes do meio rural, o poeta José Barbosa teve uma trajetória de vida bastante urbana, marcada por atividades bem típicas da cidade grande. Formado em Direito pela tradicional Faculdade de Direito da Universidade de São Paulo (USP), onde teve como condiscípulas figuras eminentes como a professora e ex-ministra Esther de Figueiredo Ferraz e a consagrada escritora Lygia de Fagundes Telles, exerceu a profissão de professor no Ginásio Municipal de Barretos, foi jornalista durante muitos anos, foi deputado federal pelo Estado de São Paulo e exerceu a função de presidente da prestigiada Comissão de Constituição e Justiça da Câmara dos Deputados e prestou relevantes serviços na organização dos Tribunais Regionais do Trabalho, principalmente no que tange ao Estado de Rondônia, entre outras tantas atividades jurídicas desenvolvidas em diversos Estados do País. Testemunha privilegiada da História, José Barbosa foi assessor bem próximo do presidente Getúlio Vargas e uma das grandes figuras do Partido Trabalhista Brasileiro (PTB) no contexto do Estado de São Paulo.

A mais longa permanência do poeta José Barbosa em Rondônia aconteceu no tempo do governo de Jerônimo Santana. Trazido para Rondônia como um dos principais assessores do governador, José Barbosa foi olimpicamente boicotado pelo grupo menos ilustrado do poder, resultando no seu afastamento do centro das decisões do governo Santana e nos percalços que levaram ao fracasso da administração governamental. Sem o respaldo da experiência pública do jurista José Barbosa o governo Jerônimo Santana perdeu o seu principal ponto de referência e tornou-se refém de uma quadrilha bem articulada de oportunistas que arruinaram completamente uma das mais significativas lideranças políticas do Estado de Rondônia.

Foi exatamente nessa época que o homem público cedeu lugar ao poeta até então adormecido sob o manto do jurista. Enquanto cumpria o seu semi-exílio nas plagas rondonienses, José Barbosa preparou a grande maioria dos poemas apresentados no livro de estreia Odes e Poemas, entre os quais também figurava o poema agora editado em separata. Da amizade que estabelecemos nessa época resultou o seu famoso apelido Anhanguera, por mim concebido em razão do epíteto de bruxo que lhe era atribuído pelos seus desafetos políticos. A partir de então, a despeito do seu afastamento de Rondônia, em razão do seu recolhimento ao sítio serrano do Estado do Rio de Janeiro, o autor de Estouro da Boiada jamais deixou de manter contato com o escrevinhador das profundezas da selva amazônica. Como contrapartida do apelido que lhe atribuí, José Barbosa atribuiu-me a alcunha de Duende do Guaporé (Le Lutin du Guaporé) em razão de algumas previsões acertadas sobre a política de Rondônia. Embora sendo nós dois homens de gerações distintas, a exemplo do respeitado historiador bandeirante Manoel Rodrigues Ferreira ³, o poeta José Barbosa tornou-se um dos maiores amigos entre os poucos que consegui cultivar ao longo da vida, a despeito de algumas divergências em relação a determinados assuntos, apenas de ordem filosófica.

Do ponto de vista apenas literário, José Barbosa é uma feliz simbiose do estilo vibrante de Euclides da Cunha com a oratória impecável de Ruy Barbosa. No caso restrito de Estouro da Boiada, podemos dizer que o poeta José Barbosa surge exatamente como a terceira via, traduzindo ousadamente em versos a bela página poética surgida da prosa incomparável de Euclides da Cunha tão finamente burilada na famosa conferência proferida por Ruy Barbosa.

A obra de José Barbosa é uma verdadeira lição de integridade intelectual. Somente os grandes homens são capazes de admirar e compreender os grandes vultos do passado. José Barbosa imprime em versos a sua marca de grandeza na literatura ao resgatar de forma brilhante páginas tão vibrantes de nossa prosa, emprestando-lhes a renovação do gênero poético como timbre personalizador do seu inegável talento literário.

FONTE: jornal Alto Madeira, Porto Velho. Ano LXXXI nº 23.159, de 26 de janeiro de 1999.

Obs.: Acompanhava o artigo acima um bilhete (sua marca registrada), sem data, que reproduzo abaixo:

Caro amigo Braga,
Estou lhe remetendo o artigo do Matias Mendes ("Alto Madeira") sôbre o mesmo livrinho e um exemplar ao Ascânio.
Grande abraço de
José Barbosa

Noutro bilhete José Barbosa dá-me instruções:

Rio, 30/11/98
Meu caro Braga,
Estou lhe remetendo 5 (cinco) exemplares de "O Estouro da Boiada".
Os livros são seus e você distribui aos amigos.
Noutra oportunidade, os autógrafos.
Abraços do amigo
José Barbosa
Livro de 1992, 49 pp.


2) "... Todos conhecemos o célebre "Estouro da Boiada", uma das mais lindas páginas em prosa de Euclides da Cunha. O poeta homenageado (José Barbosa) não se intimida de enveredar pelo caminho já trilhado por um dos nossos maiores escritores e oferece, em versos, uma descrição desse formidável fenômeno. No bojo do poema, o poeta, que se confessa retirado da vida pública, manifesta sua veia satírica, ao denunciar o culpado pela disparada:
'_ _ _ _ _ _ _ _ _ _ _ _ _ _ _ _ _ _ _ _ _ _ _ _ _ _
Na recontagem de cabeça por cabeça,
No desfile através de uma porteira,
Anotou o sempre atento capataz
A falta de uma rês, uma única arribada...

Concluíram que era aquele boi pintado,
O culatreiro cego das esquerdas,
Que nas viagens pendia para este lado.
Apesar dos vestígios e procura,
Durante muitos dias e até por noite escura,
Este boi nunca mais por ninguém foi encontrado...'"

Autor: Francisco José dos Santos Braga, Assessor Legislativo do Senado Federal, historiador e genealogista

FONTE:  trecho de trabalho de crítica literária denominado "Odes e poemas de elevado misticismo", por Francisco José dos Santos Braga, o qual apareceu publicado tanto no Jornal de Brasília, Brasília-DF, caderno 2, seção Pauta Livre, edição de 22 de setembro de 1992, quanto na orelha da capa do livro "O Estouro da Boiada", por José Barbosa (onde o poeta apresenta, sobre o tema, separatas de Os Sertões, por Euclides da Cunha, de Conferência de Juiz de Fora, por Rui Barbosa, e de Odes e Poemas, pelo próprio autor), lançado pela Razão Cultural Editora, Rio de Janeiro: 1998, 34 pp.

O poeta José Barbosa enviou-me um bilhete com os seguintes dizeres:

Rio, 28/10/98
No Dia de São Judas Tadeu e do Servidor Público — poste de vira-lata — estou lhe remetendo algumas críticas que o livrinho "Estouro da Boiada" está recebendo. Recomendações ao seu irmão, tão atencioso e diligente, e aos demais amigos.
Aguardo notícias.
Abraços de
José Barbosa

Bilhete do Deputado José Barbosa falando do livrinho "Estouro da Boiada"


Acompanhavam essa correspondência as duas seguintes críticas a seu "O Estouro da Boiada":

3) O ESTOURO
"O Estouro da Boiada" foi o livro lançado por José Barbosa, no último dia de setembro do ano em curso. O evento aconteceu no Rio de Janeiro, na Casa de Cultura Lauro Alvim, estando presentes políticos e intelectuais, inclusive Celina Vargas.
O autor foi diversas vezes deputado federal por São Paulo, assessor de Getúlio Vargas e jornalista de grande expressão. Na literatura foi colega de Menotti del Picchia e Cassiano Ricardo.
"O Estouro da Boiada" traduz em versos trechos de "Os Sertões", de Euclides da Cunha, e da Conferência de Juiz de Fora, pronunciada por Rui Barbosa, sendo prefaciado pela professora e escritora da Academia Paulista de Letras, Esther de Figueiredo Ferraz.
O livro é gostoso de ser lido pelo encantamento do seu conteúdo. A obra foi editada por Razão Cultura Editora, no Rio de Janeiro.

FONTE: Jornal da ABI, setembro/outubro 1998, p. 24

4) ESTANTE DE LIVROS (Coluna de Magalhães da Costa)

PRATELEIRA BRASILEIRA

Vol. 545: "O Estouro da Boiada", poema de José Barbosa, Razão Cultural Editora, Rio de Janeiro, 1998, ilustrações de Marta Süssekind, 36 págs. A obra traz textos sobre o mesmo tema, aliás famosos, de Euclides da Cunha e de Rui Barbosa, apresentação do autor, feita pelo jornalista e ex-parlamentar do Rio de Janeiro, Oscar Noronha Filho, e prefácio assinado pela professora Esther de Figueiredo Ferraz, da Academia Paulista de Letras, ex-ministra desta República e colega de banco de faculdade do poeta JB, além de uma carta, datada de 1994, dirigida a este, pelo jornalista e historiador paulista Adriano Campanhole. Para mostrar a força do vate, basta trazer pra cá estes versos do poema que agora aparece em livro:

"_ _ _ _ _ _ _ _ _ _ _ _ _ _ _ _ _ _ _ _ _ _
Disformes estruturas movediças,
Num só corpo atomizado,
Súbitas explosões de força reprimida,
Ao expandir-se em latentes energias...

Na desabrida e louca disparada,
Vai deslocando tudo de arrastão,
Cerca-de-arame e porteiras,
Mato-virgem e capoeiras,
Os currais e pontilhões.
Abatem-se os capinzais,
Moitas grandes de macegas,
Rangem-se os ressequidos carrascais,
Estalam-se os raquíticos cerrados,
Choram os verdes das roças de plantação,
Afugentam-se levas de animais,
Casas de passarinho rolam pelo chão,
Até cobras pisoteadas..."

As ilustrações mimoseiam o livro e valorizam o texto (poema), que vem agora se juntar a dois dos maiores de nossas letras. A Razão Cultural está atendendo à Rua Siqueira Campos, 43 Gr. 601 Copacabana 22031-070 Rio de Janeiro - RJ. Isto para o caso de você, leitor, não encontrar o livrinho em nossas livrarias.
Endereço (para remessa de livros e correspondências): Rua José Olímpio de Melo, 3026 Ilhotas 64001-640 Teresina - Piauí.

FONTE: jornal Meio Norte, Teresina, 12/10/1998

5) PREFEITURA DO MUNICÍPIO DE BARRETOS - SECRETARIA MUNICIPAL DE CULTURA

A Prefeitura do Município de Barretos, através da Secretaria Municipal de Cultura, tem a satisfação de convidar V. Sª e Exma. Família para o lançamento do livro "O Estouro da Boiada" de autoria do Dr. José Barbosa, e premiação do Concurso de Contos - "Barretos: nossa cultura boiadeira e sertaneja".
Dia 11 de agosto de 1999
Horário: 20h00
Local: Museu "Ruy Menezes"

José Barbosa é poeta jornalista, advogado, ex-deputado e quando estudante de Direito destacou-se na vida acadêmica em defesa de reformas sociais e políticas. Tendo sido eleito deputado, exerceu a presidência da Comissão de Constituição e Justiça da Câmara Federal e teve atuação positiva na elaboração da Constituição do Brasil.
Em "O Estouro da Boiada" José Barbosa conta em versos, o que Euclides da Cunha e Rui Barbosa imortalizaram em prosa, mostrando a realidade do peão de boiadeiro e a vida do homem do campo conduzindo a boiada. Ao fazer uma separata de "O Estouro da Boiada", parte de seu livro "Odes e Poemas", José Barbosa oportuniza aos leitores uma visão poética na abordagem do tema.

Uebe Rezeck
Prefeito Municipal

Léa Therezinha Pitelli de Souza Lima
Secretária Municipal de Cultura

6) Palestra proferida pelo Deputado José Barbosa em 7 de dezembro de 2009 no Salão Nobre do Fórum de Cantagalo intitulada "Meus encontros com Euclides da Cunha". (Observe que Euclides da Cunha era natural de Cantagalo, onde nasceu a 20/01/1866, vindo a falecer no Rio de Janeiro em 15/08/1909.)




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Para não me estender exageradamente na apresentação do meu homenageado, entendo que o melhor a fazer é reproduzir aqui seu belo poema descritivo de "O Estouro da Boiada", conforme visto por alguém que adquirira parte de seu tirocínio em Barretos-SP, cidade que sedia a festa mais antiga do peão de boiadeiro. Ei-lo:

O ESTOURO DA BOIADA

À memória de Moisés Barbosa e Tonico Barbosa,
legendários boiadeiros...

José Barbosa

Nessas viajadas para compra de boi magro,
Nunca me esqueço, ao vivo, do estouro da boiada,
Por motivo fortuito ou às vezes provocado:
O trem de ferro apitando nas curvas,
A onça que num relance corta a estrada,
O repentino raio ao ribombo do trovão,
Caixa de marimbondo bravo despencada,
Tiroteios ou rojões improvisados,
Labaredas de fogo em queimadas de agosto,
Ou até mesmo fantasma nas encruzilhadas...

À frente da manada, guias na condução,
Alinham-se marruáses e marrucos,
Mestiços de gir e guzerá,
Criação do Zé Caetano, lá das Uberabas,
Rebeldes aos cabrestos, aos laços e às cangas...

Inopinadamente, estacam-se estes bois,
Erguem-se suas cabeças reluzentes,
Olhos exorbitantes, temerosos,
Eretas as orelhas, pêlos eriçados,
Reviram-se nas suas patas firmados,
As caudas levantando na altura das ancas,
Debandam-se em satânica abalada,
E vão rompendo tudo de roldão...

Invertem-se, num ímpeto, as posições,
Culatra transformando-se na ponta,
Esta em culatra então vai se tornando,
Até se retornar ao que antes era.

A rês, de boi, vira boiada,
Boiada inteira vira boi,
Os músculos e nervos retesados,
Os chifres se batendo entrelaçados,
Cascos riscando pedreiras,
Faíscas por todos os lados,
Cheiro de queimado no ar...

Disformes estruturas movediças,
Num só corpo atomizado,
Súbitas explosões de força reprimida,
Ao expandir-se em latentes energias...

Na desabrida e louca disparada,
Vai deslocando tudo de arrastão,
Cerca-de-arame e porteiras,
Mato-virgem e capoeiras,
Os currais e pontilhões.
Acamam-se os capinzais,
Moitas grandes de macegas,
Rangem-se os ressequidos carrascais,
Estalam-se os raquíticos cerrados,
Choram os verdes das roças de plantação,
Afugentam-se levas de animais,
Casas de passarinho rolam pelo chão,
Até cobras pisoteadas...

Envereda o rebanho em atropelo
Na direção das orlas do rio Grande,
Que os limites assenta com Minas Gerais,
Voltando para o pouso de onde saíra.

Arroja-se nas águas do agitado rio,
Nada o gado ao sabor das correntezas,
Serpenteia-se em sinuosa diagonal,
Descendo assim como se pesca de rodada,
Segue o rumo das margens do outro lado.

Como o piloto que do barco perde a rota,
Permanecem agora os destemidos peões,
Mas aparece o capataz na liderança,
Dirigem-se para o antigo e velho porto,
Numa balsa conseguem travessia.

Não podendo seguir mesmo destino,
Risquei de leve a mula nas esporas,
Convoquei no assobio o Leão e a Pantera,
Ajustei bem as traias e o cano das duas botas,
Do rio conhecia as manhas e os segredos,
E juntos adentramos nas suas águas...

Por leis da natureza sempre governados,
Os animais já nascem sabendo nadar,
Mas eu, simples criatura racional,
Idêntico a outro ser que é ser humano,
Marcado pelo fogo de artes e talentos,
Carrego o fardo do constante tirocínio,
No aprendizado de outras técnicas e ciências,
As coisas que ao nascer eu não sabia...

Mais ou menos iguais nestes embates,
Cada qual sua tarefa desempenha.
Nas laterais exercem os cães o controle,
A manada para outra margem empurrando,
Ruana, nos movimentos de vaivém,
Contrabalança a falta da peonada.
Meu berrante pranteava seus lamentos,
Guiava acalmando os rudes animais,
Ao evocar os plangentes aboios dos vaqueiros...

Nas tranquilas paisagens daqueles rincões,
Vencida a trabalhosa e árdua jornada,
Acomodou-se o gado numa várzea,
Do verde jaraguá toda forrada.

O condutor e os peões se aproximando,
Com outros camaradas para ajuda,
Cantando juntos seus aboios dolentes,
Berrantes acordavam ecos nas quebradas,
E assim comboiavam o rebanho ao mangueirão.

Na recontagem de cabeça por cabeça,
No desfile através de uma porteira,
Anotou o sempre atento capataz
A falta de uma rês, uma única arribada...

Concluíram que era aquele boi pintado,
O culatreiro cego das esquerdas,
Que nas viagens pendia para este lado.
Apesar dos vestígios e procura,
Durante muitos dias e até por noite escura,
Este boi nunca mais por ninguém foi encontrado...

Depois de duas marchas exaustivas,
Com saídas ao romper da madrugada,
Vai chegando, afinal, a grande boiada,
Aos verdes prados da fazenda Santa Fé,
Do conhecido Coronel Barreto,
Logo adiante do Sítio do Chão Preto.

Feliz, e riso franco o fazendeiro,
Ao ver e recontar aqueles bois,
Dezoito ou vinte arrobas estimados,
Mandou preparar festa a noite inteira.
Cateretês e violas são improvisados,
Rodeios e desafios de moda sertaneja,
Muita cerveja e a velha pinga com limão.
Reza cantada ao pé do rústico cruzeiro,
Rezaram juntos aquela mesma oração.
Nasce assim, ao calor de nossa terra,
A festa alegre do Peão,
Do Capataz, do Boiadeiro...



III.  NOTAS  EXPLICATIVAS




¹  [FERREIRA1987, 397] se refere ao jornalista Matias Alves Mendes de forma muito respeitosa: 
(...) Tal como acontecia no resto do País, verifiquei que em Porto Velho ninguém conhecia a história da E. F. Madeira-Mamoré, a não ser algumas recordações de experiência pessoais vividas por alguns poucos remanescentes da época da construção e que ainda viviam na região, os quais tive a oportunidade de entrevistar e fotografar. Essa circunstância é sempre salientada pelo acadêmico, jornalista e escritor rondoniense Matias Alves Mendes, nascido às margens do rio Guaporé, junto ao Real Forte do Príncipe da Beira. (...) 


²  No site da B&B Advocacia encontra-se o currículo do meu saudoso amigo, com quem tive a honra de trabalhar no governo de Rondônia por menos de um ano, em 1987, na condição de Secretário-Adjunto da Secretaria de Estado da Fazenda de Rondônia: http://www.advogadoemportugal.com/dr-jose-barbosa.php


Também no verbete "José Barbosa", do Dicionário Histórico-Biográfico Brasileiro - Segunda Edição - FGV,  volume 1, pp. 512-513, encontra-se disponível o currículo do poeta e político brasileiro, a saber: http://www.fgv.br/cpdoc/acervo/dicionarios/verbete-biografico/barbosa-jose

³  Manoel Rodrigues Ferreira é o autor de "A Ferrovia do Diabo - História de uma estrada de Ferro na Amazônia", cuja 4ª coedição pela Companhia Melhoramentos de São Paulo, em 1987, foi patrocinada pelo Governo Jerônimo Santana, por iniciativa do seu Assessor Especial, Dr. José Barbosa. Tive a honra de conhecer o referido autor em visita que lhe fizemos José Barbosa e eu em sua residência na Rua Martim Francisco, 657, no bairro Santa Cecília, em São Paulo-SP. Gostaria de consignar que eu, na qualidade de Secretário-Adjunto da Fazenda de Rondônia, colaborei para que esse livro fosse editado em 1987, o que aumentou ainda mais a tensão entre mim e a mediocridade, simplesmente por ser um projeto cultural do Dr. José Barbosa.


4ª edição do livro patrocinada pelo Governo de Rondônia, por iniciativa 
de Dr. José Barbosa, Assessor Especial do Governador Jerônimo Santana


O capítulo XXV desse livro, intitulado "Novos Planos para a Reativação" (pp. 396-400), parece ter sido um adendo à edição anterior, pois relata os últimos movimentos visando à preservação da E. F. Madeira-Mamoré. Reproduzo abaixo o que me parece relevante para bem situar as preocupações cívicas de Dr. José Barbosa que deveriam estar na fundação do novo Estado:  


E agora, quando escrevo este final da 4ª edição do livro, devo registrar mais um lance da história, que é a decisão do governo do Estado de Rondônia, de reconstruir e reativar a E. F. Madeira-Mamoré em toda a sua extensão, de Porto Velho a Guajará-Mirim. Realmente, tendo tomado posse no cargo no início de 1987, o governador Jerônimo Garcia de Santana logo tomou as primeiras providências para restaurar a ferrovia, em toda a sua extensão. Essa decisão deve ser registrada neste livro, pois ela não deixa de ser histórica. 
Em setembro de 1987, realizou-se em Manaus reunião do Instituto de Estudos da Amazônia - ISEA, tendo a delegação do Estado de Rondônia apresentado seis propostas, das quais a mais importante dizia respeito à restauração da Estrada de Ferro Madeira-Mamoré, e cujos termos, de autoria do ex-deputado federal por São Paulo e atual assessor especial do Governador Jerônimo Garcia de Santana (Dr. José Barbosa), são os seguintes: 
"Os membros conselheiros do Instituto Superior de Estudos da Amazônia - ISEA, infra-assinados, propõem a essa douta Mesa Diretora dos Trabalhos, ouvido o plenário, sejam adotadas providências junto aos órgãos competentes no sentido da restauração da extinta Estrada de Ferro Madeira-Mamoré - E.F.M.M., a tradicional e histórica "Ferrovia do Diabo", como bem a definiu o escritor Manoel Rodrigues Ferreira."  
"Trata-se de ferrovia que marcou época na vida social e econômica do atual Estado de Rondônia. "
"A sua construção foi iniciada em 1872 e, em decorrência do Tratado de Petrópolis, após longos anos de ingentes sacrifícios dos seus construtores, com alguns hiatos motivados por razões superiores, inclusive com a perda de preciosas vidas decorrentes de ataques dos silvícolas e de endemias rurais, é inaugurada em 1º de agosto de 1912, com 366 quilômetros de extensão e ligando Porto Velho a Guajará-Mirim."  
"Durante o período do seu funcionamento, deu dias de glória a toda a comunidade rondoniense, e boliviana em particular, que tanto por ela ansiou como o meio mais eficaz para o seu desenvolvimento e transporte dos seus produtos."
Depois de relatar que a ferrovia fora desativada em consequência do Decreto Federal nº 58.501, de 25 de maio de 1966, "causando os maiores vexames, apreensão e tristeza a todos os seus usuários", prossegue a proposta:  
"Houve dilapidação do seu acervo, por razões lamentáveis e ignoradas, mesmo assim, em 1981, mercê da abnegação e devotamento de velhos e laboriosos servidores da mui saudosa e sentida ferrovia, com o apoio do não menos saudoso ex-governador do antes Território Federal e hoje Estado de Rondônia, Jorge Teixeira de Oliveira, foi recuperado um pequeno trecho da E.F.M.M. e, também, uma locomotiva e alguns vagões, que passaram a realizar viagens turísticas dominicais entre a velha estação e a localidade denominada Cachoeira do Teotônio, em Porto Velho, convindo ressaltar que tais viagens foram interrompidas por alguns meses, em virtude de defeitos na estrada produzidos por erosão pluvial, a qual há bem pouco tempo foi restaurada, e a composição voltou a funcionar em trecho menor, entre a estação e a histórica localidade da Cachoeira de Santo Antônio, que precedeu a Porto Velho como capital de Estado." 
"Justifica-se, desse modo, a restauração total da legendária ferrovia, sonho acalentado de há muito por toda a comunidade de Rondônia e Bolívia, como o meio de transporte eficaz e ao alcance de todos." 
"Pouco resta do seu acervo, que se constitui em patrimônio histórico e cultural de Rondônia, zelado e mantido carinhosamente pelo governo do Estado, através da Secretaria de Estado da Cultura, Esporte e Turismo - SECET e por alguns abnegados ferroviários, idosos e já aposentados, que têm na completa restauração da extinta ferrovia, não apenas o seu grande sonho, porém o seu grande amor." 
"Com essas e outras razões de interesse nacional, os Conselheiros signatários reiteram o apoio desse nascente e já conceituado órgão no sentido de que, efetivamente, possa ser conseguida tal restauração para o bem e felicidade do povo rondoniense e da Bolívia, nossa nação amiga por todos os motivos, beneficiando, assim, todo o complexo da rica região amazônica." 
"Esse o pensamento do Governador Jerônimo Garcia de Santana que, como parlamentar, por três legislaturas seguidas, clamou contra o erro da erradicação dessa legendária ferrovia." 
"Somos todos Rondônia, somos todos Brasil." 
"Manaus, Sala das Sessões, em 25 de setembro de 1987." 
Ao mesmo tempo, o Governador Jerônimo Garcia de Santana dirigiu-se ao Presidente José Sarnxey, em longa exposição de motivos, para provar que a E.F. Madeira-Mamoré não deveria ter sido desativada, pois ela fora construída para atender ao compromisso assumido pelo Brasil para com a Bolívia através do Tratado de Petrópolis, não podendo, pois, "ser desativada unilateralmente, tal como ocorreu". E o governador do Estado de Rondônia propunha ao Presidente da República dignar-se determinar urgentes medidas administrativas objetivando: 
"1. Cessão gratuita de todos os imóveis, construções e benfeitorias da extinta Estrada de Ferro Madeira-Mamoré, ao Estado de Rondônia, com a finalidade específica de promover a restauração da Estrada de Ferro Madeira-Mamoré, podendo instituir Fundação capaz de alcançar esse objetivo, passando os bens ora cedidos a integrar o seu patrimônio, para os devidos fins de Direito." 
"2. Definição de recursos financeiros a cargo da União Federal para que, numa ação conjunta do Ministério dos Transportes e do Governo de Rondônia, seja iniciado o trabalho de recuperação da linha férrea e das locomotivas, bem como as reformas nos bens imóveis pertencentes ao acervo da Estrada de Ferro Madeira-Mamoré." 
Dessa maneira, a história da ferrovia entra numa nova fase. E uma fase surpreendente, inesperada à da sua restauração completa. Não há dúvida de que, quando estiver totalmente reativada, constituirá, como era antes, uma das mais belas ferrovias do mundo, das mais pitorescas, ao atravessar a majestosa floresta equatorial amazônica, junto às belas cachoeiras dos imponentes rios Mamoré e Madeira. Assim, ao lado do seu valor econômico, deve-se ressaltar também a sua importância turística. Voltará então a Madeira-Mamoré, cuja história atribulada sempre atribuí às disputas entre os anjos do céu e os das trevas, a ser novamente, não mais a ferrovia do diabo mas a FERROVIA DO SENHOR.

IV.  ALGUMAS FOTOGRAFIAS DE ÉPOCA


Ao centro e no fundo, da esq. p/ dir.: empresário Luiz Tourinho, Dr. José Barbosa e o autor deste artigo
O autor em conversa com o governador Jerônimo Santana no Palácio Getúlio Vargas
O autor tocando para a aniversariante Adriana no Palácio Getúlio Vargas
O autor saboreando sorvete de açaí numa das praças de Porto Velho
Da esq. p/ dir.: O autor, sua esposa Rute Pardini, Deputado José Barbosa, escritora Léa Sayão,
uma amiga e Ivonilda da Silva Santos, a "Ive", na residência desta última no Lago Norte (set/2002)

 V.  AGRADECIMENTO



Agradeço à minha esposa, Rute Pardini, por oportunizar aos leitores do Blog do Braga as imagens deste artigo.

quinta-feira, 17 de dezembro de 2015

CRÔNICA DO XVII ENCONTRO DE CORAIS DE SANTOS DUMONT


Por Francisco José dos Santos Braga



Como ocorre anualmente, realizou-se o 17º Encontro de Corais de Santos Dumont-MG no dia 28 de novembro de 2015. Estava programada a apresentação de 5 corais, conforme o folder preparado pela Sra. Virgínia Parízio e enviado a todos os amantes da música como convite. Dizia o referido folder:


Havia grande expectativa em relação a um coral participante, que era o mais aguardado: o Coro Municipal de Juiz de Fora, sob a regência do maestro Domício Procópio que acabara de participar do 28º Octubre Coral nas cidades de Buenos Aires e Santa Rosa (La Pampa)-Argentina no período de 08 a 11/10/2015. ¹ No começo da semana, entretanto, fomos informados da impossibilidade de o Coro Municipal de Juiz de Fora participar do evento, o que inviabilizou também a apresentação do Coral da OAB-Juiz de Fora, eis que os coralistas são os mesmos integrantes dos 2 corais. Desta forma, o encontro ficava reduzido a apenas corais da cidade de Santos Dumont, a "prata da casa".

Frei Joel me ligou no começo da semana, solicitando-me para suprir a ausência dos dois renomados corais com uma audição de 3 peças para soprano com acompanhamento de piano. Combinamos então o repertório a ser apresentado. 

Antes das apresentações musicais, falou o representante do Projeto Vida em Santos Dumont-MG,  o qual agradeceu a todos os presentes as doações e aos corais participantes a oportunidade de divulgar seu trabalho na luta contra a propagação do vírus do HIV/AIDS e no combate ao preconceito. ²

O 17º Encontro de Corais de Santos Dumont-MG teve inicialmente a participação da minha esposa, a cantora lírica Rute Pardini, que brindou o teatro superlotado do Seminário Seráfico Santo Antônio, em Santos Dumont, com três canções, acompanhada por mim ao piano. A primeira peça foi "Ombra mai fu" (Recitativo e Ária), do 1º Ato da ópera Xerxes, de Haendel; a segunda, um Lied de Schubert, dedicado a Deus, "Du bist die Ruh'" (Vós Sois a Tranquilidade), sobre versos de Friedrich Rückert (1788-1866). A terceira canção apresentada foi "As Pombas", música de Chiquinha Gonzaga sobre versos de Raimundo Correia (1859-1911).
Casal Rute Pardini e o autor da crônica

O primeiro coral a se apresentar foi o Coral Trovadores da Mantiqueira, sob a regência de frei Joel Postma o.f.m.. Sobre o repertório apresentado, frei Luciano Lopes o.f.m. assim descreveu em artigo publicado no dia seguinte no site da Província de Santa Cruz ³
"A primeira música foi uma mini-cantata, A caminho do Pai, das irmãs religiosas, Irene Maria e Maria Madalena; a segunda música foi o Cântico das Criaturas, na versão original italiana, escrita por São Francisco de Assis, musicada por Domenico Alaleona (1881-1928)."
O compositor italiano Domenico Alaleona musicou o texto original de Francisco de Assis ("Il Cantico di Frate Sole"), conforme a seguir. Logo em seguida, é oferecida a sua transcrição didática do poema para a língua italiana corrente. Finalmente, é apresentado um texto de frei Vitório Mazzuco Filho o.f.m. sobre as condições em que vivia Francisco de Assis quando o poema foi produzido.


Testo originale 

Francesco d' Assisi

Altissimu, onnipotente, bon Signore,
tue so’ le laude, la gloria e l’honore et onne benedictione.

Ad te solo, Altissimo, se konfano,
et nullu homo ène dignu te mentovare.

Laudato sie, mi’ Signore, cum tucte le tue creature,
spetialmente messor lo frate sole,
lo qual’è iorno, et allumini noi per lui.

Et ellu è bellu e radiante cum grande splendore:
de te, Altissimo, porta significatione.

Laudato si’, mi’ Signore, per sora luna e le stelle:
in celu l’ài formate clarite et pretiose et belle.

Laudato si’, mi’ Signore, per frate vento
et per aere et nubilo et sereno et onne tempo,
per lo quale a le tue creature dài sustentamento.

Laudato si’, mi’ Signore, per sor’aqua,
la quale è multo utile et humile et pretiosa et casta.

Laudato si’, mi’ Signore, per frate focu,
per lo quale ennallumini la nocte:
ed ello è bello et iocundo et robustoso et forte.

Laudato si’, mi’ Signore, per sora nostra matre terra,
la quale ne sustenta et governa,
et produce diversi fructi con coloriti flori et herba.

Laudato si’, mi’ Signore, per quelli ke perdonano per lo tuo amore
et sostengo infirmitate et tribulatione.

Beati quelli ke ’l sosterrano in pace,
ka da te, Altissimo, sirano incoronati.

Laudato si’, mi’ Signore, per sora nostra morte corporale,
da la quale nullu homo vivente pò skappare:
guai a·cquelli ke morrano ne le peccata mortali;
beati quelli ke trovarà ne le tue sanctissime voluntati,
ka la morte secunda no ’l farrà male.


Laudate e benedicete mi’ Signore et rengratiate
e serviateli cum grande humilitate.


Trascrizione didattica 
Altissimo, onnipotente, buon Signore,
tue sono le lodi, la gloria e l’onore e ogni benedizione.

A te solo, Altissimo, si confanno,
e nessun uomo è degno di te mentovare.

Lodato sii, mio Signore, con tutte le tue creature,
specialmente messer fratello sole,
il quale è giorno, e allumini noi per lui.

E esso è bello e raggiante con grande splendore:
di te, Altissimo, porta significazione.

Lodato sii, mio Signore, per sorella luna e le stelle:
in cielo le hai formate chiarite e preziose e belle.

Lodato sii, mio Signore, per fratello vento
e per aere e nubilo e sereno e ogni tempo,
per il quale alle tue creature dai sostentamento.

Lodato sii, mio Signore, per sorella acqua,
la quale è molto utile e umile e preziosa e casta.

Lodato sii, mio Signore, per fratello fuoco,
per il quale illumini la notte:
e esso è bello e giocondo e robustoso e forte.

Lodato sii, mio Signore, per sora nostra madre terra,
la quale ci sostenta e governa,
e produce diversi frutti con coloriti fiori e erba.

Lodato sii, mio Signore, per quelli che perdonano per il tuo amore
e sostengono infermità e tribolazione.

Beati quelli che lo sosterranno in pace,
ché da te, Altissimo, saranno incoronati.

Lodato sii, mio Signore, per sorella nostra morte corporale,
dalla quale nessun uomo vivente può scappare:
guai a quelli che morrano nei peccati mortali;
beati quelli che troverà nelle tue santissime volontà,
ché la morte seconda non farà loro male.

Lodate e benedicete il mio Signore e ringraziate
e servitegli con grande umilità. 

Extraído de: Francesco d'Assisi (1970). «Cantico di frate Sole». In: CONTINI, Gianfranco. Letteratura italiana delle origini. Firenze: Sansoni. Pp. 4-5.

Referências bibliográficas:
Reprodução do códice 338 do Fondo Antico della Biblioteca Comunale di Assisi, mantido pelo Sacro Convento di San Francesco, Assis, Itália.












   


Fl. 33r                                                                                                                     Fl. 34v


Para que o leitor possa apreciar essa belíssima obra musical de Domenico Alaleona, sugiro que assistam ao vídeo, disponível no YouTube, do Coral Porciúncula, sob a regência de Maurizio Verde, que executa, durante a solene celebração das Primeiras Vésperas no Trânsito de São Francisco, o "Cântico do Irmão Sol" (mais conhecido no Brasil como Cântico das Criaturas). 
Obs.: "Trânsito" é a passagem da vida para a morte deste homem que acolheu fraternalmente a "irmã morte" e aconteceu na tarde do dia 3 de outubro de 1226, um sábado. São Francisco tinha mais ou menos 44 anos e morreu cantando um salmo, na presença de seus confrades. No domingo, 4 de outubro, foi sepultado na igreja de São Jorge, na cidade de Assis, mas o cortejo fúnebre passou antes pelo mosteiro de São Damião, para que Santa Clara, sua grande amiga, pudesse se despedir.

A seguir, vou transcrever partes de um estudo feito por frei Vitório Mazzuco Filho o.f.m. sobre "A MÍSTICA DA UNIÃO CÓSMICA - O Cântico das Criaturas
"Na leitura do Cântico das Criaturas parece que estamos vendo uma escada (de Jacó) através da qual o místico Francisco ascende até Deus. Nesse sentido Francisco não é original, mas se alinha entre os místicos e os cantores bíblicos, salmistas e santos que cantaram também a natureza com seus elementos. Mas a originalidade de Francisco consiste no modo singular e simples como as coisas, no Cântico, são concebidas, valorizadas, ornadas. Ele segue a ordem cosmológica da época (os 4 elementos: terra, água, fogo e ar e o geocentrismo da cosmologia antiga), mas segundo uma ordem profunda da psique. Os elementos subjetivos (sol, lua, estrelas, etc.) valem enquanto exprimem uma vibração mística da alma. Eles formam uma língua com a qual o místico quer exprimir aquilo que lhe passa na alma: a união religioso-cósmica de tudo com Deus. 
O hino representa o término de um longo itinerário espiritual de S. Francisco. Já se havia passado vinte anos de conversão. Dia após dia se esforçava Francisco em seguir os traços do Senhor, com grande humildade, meditando o 'evento da doçura' do Altíssimo Filho de Deus. No Monte Alverne havia recebido as chagas do Senhor crucificado. Perdia sangue, enfraquecido pela doença, e cego, quase agonizante. Sofria mais certamente na alma. Via a cristandade medieval cobiçosa e cheia de poder sagrado e profano. Fazia-se então uma cruzada contra os mulçumanos na Palestina. Os valores evangélicos da pobreza, simplicidade e paz eram violados profundamente na Igreja, em nome do amor de Deus. Na Ordem haviam já aparecido os primeiros problemas. Fazia-se tarde na vida de Francisco. Tarde sem doçura das tardes da Úmbria e da Toscana. 
Foi então que aconteceu o evento de doçura. De volta ao Monte Alverne, nos extremos da fraqueza e da perda das forças, Francisco se detém em São Damião, onde vivia Santa Clara e suas Irmãs. Exatamente na igreja, na qual o Senhor lhe falara e lhe pedira para reconstruir a sua casa em ruínas. Os sofrimentos não lhe davam tréguas. 'Durante 50 dias não estava em condições de suportar a luz do dia, nem o clarão do fogo da noite... Os olhos o atormentavam de tal maneira que nem podia repousar nem dormir.' (Legenda Antiqua S. Francisci, Archivum Franc. Historicum XV (1922, 289-299). 
Uma noite não podendo mais suportar as dores, São Francisco, numa atitude de profunda simpatia não só com as coisas, teve grande piedade e pena de si mesmo e disse ao Senhor: 'Senhor, acorde-me em minha enfermidade, para que a possa suportar pacientemente' (Legenda Ant., 299). Segundo Celano travou-se uma luta em São Francisco para vencer as dores e a impaciência... orando entrou em agonia... No decurso desta agonia ouve em espírito uma voz que lhe diz: 'Diga-me, irmão: se alguém lhe presenteasse, como dom por teus sofrimentos e pelas tribulações, um imenso tesouro precioso, a terra inteira transformada em ouro fino, as rochas em pedras preciosas, a água dos rios em perfumes, não te alegraria?' O beato Francisco responde: 'Senhor, seria um tesouro imenso, preciosíssimo, inestimável e para além de tudo o que se pode desejar e amar!' 'Pois bem, irmão, disse a voz, alegra-te em meio as tribulações e enfermidades: vive agora em paz, como se foras já no meu Reino' (299). 
Nesse momento uma alegria incontida invadiu e irrompeu em São Francisco, ao saber que já estava no Reino de Deus, que sua alma entrou numa esplêndida aurora. Levanta-se. Escreve o Hino a todas as Criaturas. Chama os Frades e com eles canta o Hino recém-composto. Esse canto de luz surgiu no meio de uma noite escura da alma. Emergiu das profundezas de uma existência que foi se erguendo, sofrida, acrisolada, como um botão que busca, insaciável, a luz do sol. É o símbolo expressivo de um universo que se configurou dentro do coração. Causa espanto que um homem cego, que em meio às dores horríveis, que não gozava mais as excelências das coisas, cante exatamente a matéria, o sol, a lua, a água e o fogo. 
A alma canta com uma espontaneidade, com o candor e o calor da língua materna. Esse canto parece quase um hino pagão. Não se fala de Cristo, nem do mistério Trinitário, nem do mundo sobrenatural, nem do Reino. As realidades materiais são evocadas e cantadas. Contudo, se olharmos bem, se olharmos mais profundamente as coisas materiais, além de serem coisas são a língua e o instrumento expressivos de uma experiência religiosa profunda acontecida no coração de São Francisco. Os elementos cósmicos são celebrados como símbolos do mundo interior. Não se trata  de um discurso poético-religioso sobre as coisas. As coisas aparecem como um invólucro de um discurso mais profundo. Essa leitura simbólica do hino nos faz penetrar na experiência religiosa de São Francisco. Não se trata de alegorizarmos os elementos. O sol fica sol, a lua fica lua, a água, água. Mas além de um valor objetivo possuem um valor simbólico. O Santo exprime através destes elementos o seu mundo interior. 
É uma afirmação serena da fraternidade universal. Tudo é claro, luminoso e imediato.  
Os elementos referidos por Francisco e pelos quais canta o Criador não são simplesmente elementos. Ele os qualifica, dá-lhes adjetivos que expressam a vivência interior que possuía. O sol é radiante e com grande esplendor. O fogo é radiante e robusto, forte e jucundo; água é humilde, preciosa e casta e assim por diante. Esses adjetivos qualificam os elementos. Mais que os elementos qualificam a alma. Nem sempre é verdade que o sol é radiante e de grande esplendor. Ele pode queimar e matar as plantações. Nem sempre a água é humilde, preciosa e casta. A água convulsa do oceano pode matar. A água poluída pode  contaminar. O fogo pode queimar e seus danos são irreparáveis. (...)  
O Hino contém ainda duas outras estrofes. Foram acrescentadas posteriormente. O Cântico foi composto no outono de 1225. A última estrofe celebra o perdão e a paz alcançada pelo santo que mediou uma rixa entre o prefeito e o bispo de Assis, e foi composta em julho de 1226. A última estrofe celebra nossa irmã a morte corporal e foi inspirada pouco antes do 'trânsito' de São Francisco, nos primeiros dias de outubro de 1226.  
Elas se destacam do hino. Não mais o cosmos que é cantado, mas o cosmos humano, inserido dentro da fraternidade cósmica. É uma fraternidade conquistada entre tensões e sofrimentos, graças a um amor que supera o ódio e a angústia da morte. São Francisco quis acrescentá-las ao canto. Elas, na verdade, fazem-lhe parte e se originam da mesma inspiração fundamental.  
O hino quer cantar e comemorar a união mística de tudo com Deus. Não podia deixar o humano fora, na sua tribulação. O hino se abre ao mundo humano, estigmatizado por conflitos e pela angústia da morte. O mundo cósmico não seria totalmente reconciliado no matrimônio universal se não inserisse o mundo humano. O humano se concilia com o outro humano. O humano se reconcilia com a morte, aceitando a sua existência mortal. Integra a morte a vida. Aceita-a não como uma bruxa má, mas como a irmã que nos introduz na casa da Vida e do Amor." 
Eu me estendi para explicar a importância do Cântico das Criaturas, porque se transformou num emblema para o franciscanismo e para a defesa do meio ambiente, como ocorreu recentemente com a Carta Encíclica LAUDATO SI' do Santo Padre Francisco sobre o cuidado da casa comum, cujo início lembra o Cântico das Criaturas quando trata da nossa irmã, a mãe terra 
"LAUDATO SI', mi' Signore  Louvado sejas, meu Senhor", cantava São Francisco de Assis. Neste gracioso cântico, recordava-nos que a nossa casa comum se pode comparar ora a uma irmã, com quem partilhamos a existência, ora a uma boa mãe, que nos acolhe nos seus braços: "Louvado sejas, meu Senhor, pela nossa irmã, a mãe terra, que nos sustenta e governa e produz variados frutos com flores coloridas e verduras."
E frei Luciano Lopes o.f.m. assim concluiu sua descrição da execução dos outros dois corais: 
"Depois foi a vez do coral São Miguel, representado por várias comunidades católicas da cidade (de Santos Dumont), sob a regência do maestro Paulo Luiz Moreira ("Melado"). O coral cantou a música Dona Nobis Pacem, de Mozart: e em seguida cantou Um Dia Lindo, de autor desconhecido. 
Para encerrar a noite, o coral Tajapanema, regido por Maria Alice de Azevedo Sad, reservou três belas canções, a saber: Andança, de Danilo Caymmi; What a Wonderful World, de Louis Armstrong e, por fim, a canção de Ernest Gold e Pat Boone, para o filme Exodus, canção originalmente chamada "This Land is Mine".  
O encontro foi encerrado com todos os corais no palco, cantando Doce é Sentir." 
Frei Luciano Lopes o.f.m. e o autor da crônica

Vou agora aproveitar o ensejo para falar de um evento que serviu ainda mais para estreitar os laços entre São João del-Rei e Santos Dumont-MG: trata-se de um Diploma de Honra ao Mérito que recebi em 14 de dezembro de 2015, por indicação do vereador são-joanense Stefânio Pires, natural de Santos Dumont-MG, que submeteu a indicação de meu nome a seus Pares, tendo obtido aprovação por unanimidade.

O ilustre edil da cidade de São João del-Rei é vice-presidente da Câmara Municipal, bem como líder dos vereadores do PMDB.

Tive a honra de conhecer o vereador no dia 23 de agosto de 2015, quando o IHG de São João del-Rei e os representantes do Instituto Cultural Visconde do Rio Preto de Valença-RJ se reuniram no Salão Nobre da Câmara Municipal para comemorar o 213º aniversário do nascimento do são-joanense Domingos Custódio Guimarães, o Visconde do Rio Preto, o maior benfeitor de Valença. Na ocasião, o vereador manifestou seu desejo de indicar meu nome para receber o diploma de Honra ao Mérito. Num segundo momento, após minha palestra intitulada "Baptista Caetano de Almeida e seus projetos civilizatórios" no Salão Nobre da Casa legislativa em 12 de novembro de 2015, mandou chamar-me a seu gabinete, reiterando gentilmente seu convite de me ver agraciado com o referido diploma. Desde então, ficamos em contato e o convidei para comparecer ao XVII Encontro de Corais de Santos Dumont, o que não foi possível por compromissos que o vereador tinha assumido anteriormente para aquela data de 28 de novembro de 2015. Entretanto, sabedor de minha participação na defesa do Projeto Vida de Santos Dumont-MG e de minhas ligações com a sua cidade natal, colocou o seu gabinete à minha disposição para que a entrega do diploma se desse na noite do dia 14 de dezembro p.p., quando haveria "sessão solene homenageando personalidades da cidade que contribuíram ou continuam contribuindo com o desenvolvimento humano, social, econômico, cultural e religioso da cidade".

Reproduzo aqui meu breve discurso em agradecimento pela homenagem:
"Boa noite a todos. 
Queria expressar minha sincera gratidão por estar aqui e ser considerado merecedor desta homenagem que o vereador Stefânio Pires hoje me outorga. Eu quero também agradecer à Casa por convalidar e endossar meu nome. Acredito que o destaque que venho de receber se deva a estar fazendo esses trabalhos, mencionados pelo mestre de cerimônias, na área da História, ao mesmo tempo em que disponibilizo o Blog de São João del-Rei a todos os historiadores são-joanenses em defesa dos nossos valores e para engrandecer a nossa terra natal, que tenho muita honra de representar. Quanto ao ilustre vereador que aqui me presta esta homenagem e que tanto bem faz a São João del-Rei, tenho a dizer que é natural de Santos Dumont-MG, cidade que tenho o prazer de estreitar laços de amizade com São João del-Rei através da Música, acompanhando anualmente ao piano o Coral Trovadores da Mantiqueira, dirigido por frei Joel Postma do Seminário Seráfico Santo Antônio, perto de Cabangu, sítio onde nasceu o inventor brasileiro Santos Dumont. Finalizando, quero, mais uma vez, agradecer a esta Casa legislativa a distinção que me confere nesta noite."

Recebo das mãos do vereador Stefânio Pires um Diploma de Honra ao Mérito
no Salão Nobre da Câmara Municipal de São João del-Rei



NOTAS EXPLICATIVAS 


¹  http://www.festcoros.com.br/corais/cmjf.html

²  http://portal.cabangu.com.br/?p=643&print=1

³  http://www.ofm.org.br/default.asp?notId=2682