terça-feira, 22 de dezembro de 2015

O ESTOURO DA BOIADA, por Deputado José Barbosa


Por Francisco José dos Santos Braga



Deputado José Barbosa (1917-2010)


I.  INTRÓITO




Tenho a impressão de que meu saudoso amigo,  Deputado José Barbosa, ao me enviar, durante anos, todo esse material que se verá abaixo, a respeito de seu "O Estouro da Boiada", deve ter-se convencido de que eu era a pessoa certa para algum dia coligi-lo para a apreciação dos meus leitores. Naquela ocasião eu era Assessor Legislativo do Senado Federal por concurso público, onde ingressei em 1988, e meu amigo, residente em Nova Friburgo-RJ, passante em Rondônia e sedizente habitante de outros mundos. Quem o conheceu sabe a extensão do que estou a dizer e no que ele acreditava piamente.

Amigo fiel de seus amigos, inimigo cruel de seus desafetos  estou a me lembrar de alguns merecedores de sua inimizade  , nunca o vi levar desaforo para casa. Se ofendido por alguém em qualquer ambiente,  público ou privado, refinado ou não, erguia-se impávido e desafiava o atrevido. Jamais o vi tímido ou amedrontado diante de qualquer desafio. Coragem jamais lhe faltava. E o conheci já idoso...

A par disso, vi-o muitas vezes enternecido diante de uma flor ou da candura de uma criança ou fascinado a contemplar as circunvoluções das águas impetuosas do Rio Madeira.

Sua devoção por Santo Antônio o levava muitas vezes à Cachoeira de mesmo nome, que distava cerca de 7 km da estação de Porto Velho e, nessas ocasiões, eu costumava acompanhá-lo, especialmente em fins de semana. Ainda o vejo falando sobre os portentos e milagres realizados pelo grande orador e taumaturgo português de sua devoção. Ali, também, o ouvi muitas vezes discorrer sobre a mediocridade que nos cercava e da qual deveríamos nos cuidar por representar um perigo constante. Lembrava-me ele que nós nos distinguíamos da mediocridade, porque esta era incompetente e despreparada, mas hábil o suficiente para se articular para um projeto de tomada do poder. E esclarecia sua opinião citando alguns nomes de pessoas que estavam enredando o primeiro governador eleito do Estado de Rondônia nas suas malhas, no primeiro ano de seu mandato (em 1987). Alertou-me sobre nossos encontros que estavam sendo monitorados pela mediocridade, que possuía um verdadeiro sistema de informações e contra-informações para tal fim.

Relembro ainda o primeiro encontro da nova equipe de governo no começo de 1987. Viajei de São Paulo (onde trabalhava para a C.A.T.-Coordenadoria da Administração Tributária da Secretaria Estadual da Fazenda, dirigida por Dr. Clóvis Panzarini) para Porto Velho para um contato pessoal com o staff do novo governo. Todos éramos uma só curiosidade pela figura central do governo, anunciado como amigo e Assessor Especial do governador Jerônimo Santana (1934-2014). A fala do governador, dando-nos o norte de seu governo, não era tão esperada quanto a apresentação e as palavras do seu famigerado Assessor Especial, Dr. José Barbosa, para quem todas as atenções se voltaram. Mas, aos poucos, uma súcia orquestrada praticou o que Romeu Tuma Jr. chama de "assassinato de reputações - um crime de estado" contra o assessor especial. Acusado reiteradamente por suas crenças religiosas (espalharam o boato de ser "guru" ou "pai de santo" do governador), acuado pelo conluio de funcionários das pastas técnicas (principalmente do Planejamento e da Fazenda) que lhe puseram a pecha de "poeta"  dentre muitos outros termos pejorativos que não cabe mencionar aqui, em seis meses Dr. José Barbosa, em vez de ser o formulador de políticas públicas para o governo de Rondônia, o defensor do Estado por sua reconhecida formação jurídica e o facilitador de legislação federal que beneficiasse Rondônia especialmente por seus contatos políticos e sua experiência na Câmara dos Deputados, cada vez mais viu a sua atuação ser reduzida a assuntos "domésticos". Aos poucos, sua influência ficou reduzida a uma pasta (da Educação), a um órgão (PRONAV/LBA) dirigido pela primeira dama Palmira Santana e a uma pessoa do entourage do governador, sua irmã Maria Santana. Desta forma, assistíamos inertes ao ostracismo — literalmente  de um grande homem público.

Só entendi perfeitamente os seus alertas, fruto de suas premonições, quando fui alijado do cargo de Secretário Adjunto de Estado da Fazenda de Rondônia pela mesma mediocridade, impossibilitado de concluir um ano de trabalho naquela função, que eu exercia como funcionário cedido pelo Estado de São Paulo. Foi o tempo suficiente para a mediocridade perceber que eu não estava em Rondônia para servir os seus interesses. Mal sabiam meus desafetos em Porto Velho que eu fora aprovado em concurso público para assessor legislativo do Senado Federal, só aguardando a convocação para tomar posse no novo cargo público, o que ocorreu logo no ano seguinte. Por ironia do destino, em breve, como funcionário do Senado, fui designado como responsável por assessorar o relator do Orçamento Geral da União em questões referentes à dívida pública dos Estados brasileiros e, aí, vi-me assediado por aquela conhecida mediocridade, meus desafetos em Porto Velho, agora negociadores da dívida de Rondônia.

Deputado José Barbosa refugiou-se na poesia vocação que ele não imaginava que tivesse e o governador Jerônimo Santana (MDB) ficou refém da mediocridade.
Livro de 1998, 34 pp.




II.  APRECIAÇÕES DE SEU POEMA "O ESTOURO DA BOIADA"



1) ESTOURO DA BOIADA: O Livro do Anhanguera

Matias Mendes ¹ 

Publicado ainda no ano de 1998, em separata, O Estouro da Boiada é um poema concebido pelo poeta José Barbosa ²  conhecido em Rondônia pela alcunha de Anhanguera desde os tempos que aqui esteve como assessor do ex-governador Jerônimo Santana e incluído no seu livro Odes e Poemas, tendo por base o consagrado tema abordado pelo imortal Euclides da Cunha e dissecado pelo notável Ruy Barbosa com sua impecável oratória em Conferência de Juiz de Fora. Respaldado por um prefácio escrito por Esther de Figueiredo Ferraz, ministra da Educação no governo do general João Batista Figueiredo, o mais recente livro do poeta José Barbosa permite ao leitor analisar com mais propriedade um belíssimo poema que descreve com rara exatidão uma das sagas mais empolgantes dos sertões do Brasil, a saga do peão boiadeiro, fato sobejamente conhecido pelo Autor dos tempos aventurescos de sua movimentada juventude no interior do Estado de São Paulo.

Conquanto demonstre saber cantar com inimitável lirismo as fainas rudes do meio rural, o poeta José Barbosa teve uma trajetória de vida bastante urbana, marcada por atividades bem típicas da cidade grande. Formado em Direito pela tradicional Faculdade de Direito da Universidade de São Paulo (USP), onde teve como condiscípulas figuras eminentes como a professora e ex-ministra Esther de Figueiredo Ferraz e a consagrada escritora Lygia de Fagundes Telles, exerceu a profissão de professor no Ginásio Municipal de Barretos, foi jornalista durante muitos anos, foi deputado federal pelo Estado de São Paulo e exerceu a função de presidente da prestigiada Comissão de Constituição e Justiça da Câmara dos Deputados e prestou relevantes serviços na organização dos Tribunais Regionais do Trabalho, principalmente no que tange ao Estado de Rondônia, entre outras tantas atividades jurídicas desenvolvidas em diversos Estados do País. Testemunha privilegiada da História, José Barbosa foi assessor bem próximo do presidente Getúlio Vargas e uma das grandes figuras do Partido Trabalhista Brasileiro (PTB) no contexto do Estado de São Paulo.

A mais longa permanência do poeta José Barbosa em Rondônia aconteceu no tempo do governo de Jerônimo Santana. Trazido para Rondônia como um dos principais assessores do governador, José Barbosa foi olimpicamente boicotado pelo grupo menos ilustrado do poder, resultando no seu afastamento do centro das decisões do governo Santana e nos percalços que levaram ao fracasso da administração governamental. Sem o respaldo da experiência pública do jurista José Barbosa o governo Jerônimo Santana perdeu o seu principal ponto de referência e tornou-se refém de uma quadrilha bem articulada de oportunistas que arruinaram completamente uma das mais significativas lideranças políticas do Estado de Rondônia.

Foi exatamente nessa época que o homem público cedeu lugar ao poeta até então adormecido sob o manto do jurista. Enquanto cumpria o seu semi-exílio nas plagas rondonienses, José Barbosa preparou a grande maioria dos poemas apresentados no livro de estreia Odes e Poemas, entre os quais também figurava o poema agora editado em separata. Da amizade que estabelecemos nessa época resultou o seu famoso apelido Anhanguera, por mim concebido em razão do epíteto de bruxo que lhe era atribuído pelos seus desafetos políticos. A partir de então, a despeito do seu afastamento de Rondônia, em razão do seu recolhimento ao sítio serrano do Estado do Rio de Janeiro, o autor de Estouro da Boiada jamais deixou de manter contato com o escrevinhador das profundezas da selva amazônica. Como contrapartida do apelido que lhe atribuí, José Barbosa atribuiu-me a alcunha de Duende do Guaporé (Le Lutin du Guaporé) em razão de algumas previsões acertadas sobre a política de Rondônia. Embora sendo nós dois homens de gerações distintas, a exemplo do respeitado historiador bandeirante Manoel Rodrigues Ferreira ³, o poeta José Barbosa tornou-se um dos maiores amigos entre os poucos que consegui cultivar ao longo da vida, a despeito de algumas divergências em relação a determinados assuntos, apenas de ordem filosófica.

Do ponto de vista apenas literário, José Barbosa é uma feliz simbiose do estilo vibrante de Euclides da Cunha com a oratória impecável de Ruy Barbosa. No caso restrito de Estouro da Boiada, podemos dizer que o poeta José Barbosa surge exatamente como a terceira via, traduzindo ousadamente em versos a bela página poética surgida da prosa incomparável de Euclides da Cunha tão finamente burilada na famosa conferência proferida por Ruy Barbosa.

A obra de José Barbosa é uma verdadeira lição de integridade intelectual. Somente os grandes homens são capazes de admirar e compreender os grandes vultos do passado. José Barbosa imprime em versos a sua marca de grandeza na literatura ao resgatar de forma brilhante páginas tão vibrantes de nossa prosa, emprestando-lhes a renovação do gênero poético como timbre personalizador do seu inegável talento literário.

FONTE: jornal Alto Madeira, Porto Velho. Ano LXXXI nº 23.159, de 26 de janeiro de 1999.

Obs.: Acompanhava o artigo acima um bilhete (sua marca registrada), sem data, que reproduzo abaixo:

Caro amigo Braga,
Estou lhe remetendo o artigo do Matias Mendes ("Alto Madeira") sôbre o mesmo livrinho e um exemplar ao Ascânio.
Grande abraço de
José Barbosa

Noutro bilhete José Barbosa dá-me instruções:

Rio, 30/11/98
Meu caro Braga,
Estou lhe remetendo 5 (cinco) exemplares de "O Estouro da Boiada".
Os livros são seus e você distribui aos amigos.
Noutra oportunidade, os autógrafos.
Abraços do amigo
José Barbosa
Livro de 1992, 49 pp.


2) "... Todos conhecemos o célebre "Estouro da Boiada", uma das mais lindas páginas em prosa de Euclides da Cunha. O poeta homenageado (José Barbosa) não se intimida de enveredar pelo caminho já trilhado por um dos nossos maiores escritores e oferece, em versos, uma descrição desse formidável fenômeno. No bojo do poema, o poeta, que se confessa retirado da vida pública, manifesta sua veia satírica, ao denunciar o culpado pela disparada:
'_ _ _ _ _ _ _ _ _ _ _ _ _ _ _ _ _ _ _ _ _ _ _ _ _ _
Na recontagem de cabeça por cabeça,
No desfile através de uma porteira,
Anotou o sempre atento capataz
A falta de uma rês, uma única arribada...

Concluíram que era aquele boi pintado,
O culatreiro cego das esquerdas,
Que nas viagens pendia para este lado.
Apesar dos vestígios e procura,
Durante muitos dias e até por noite escura,
Este boi nunca mais por ninguém foi encontrado...'"

Autor: Francisco José dos Santos Braga, Assessor Legislativo do Senado Federal, historiador e genealogista

FONTE:  trecho de trabalho de crítica literária denominado "Odes e poemas de elevado misticismo", por Francisco José dos Santos Braga, o qual apareceu publicado tanto no Jornal de Brasília, Brasília-DF, caderno 2, seção Pauta Livre, edição de 22 de setembro de 1992, quanto na orelha da capa do livro "O Estouro da Boiada", por José Barbosa (onde o poeta apresenta, sobre o tema, separatas de Os Sertões, por Euclides da Cunha, de Conferência de Juiz de Fora, por Rui Barbosa, e de Odes e Poemas, pelo próprio autor), lançado pela Razão Cultural Editora, Rio de Janeiro: 1998, 34 pp.

O poeta José Barbosa enviou-me um bilhete com os seguintes dizeres:

Rio, 28/10/98
No Dia de São Judas Tadeu e do Servidor Público — poste de vira-lata — estou lhe remetendo algumas críticas que o livrinho "Estouro da Boiada" está recebendo. Recomendações ao seu irmão, tão atencioso e diligente, e aos demais amigos.
Aguardo notícias.
Abraços de
José Barbosa

Bilhete do Deputado José Barbosa falando do livrinho "Estouro da Boiada"


Acompanhavam essa correspondência as duas seguintes críticas a seu "O Estouro da Boiada":

3) O ESTOURO
"O Estouro da Boiada" foi o livro lançado por José Barbosa, no último dia de setembro do ano em curso. O evento aconteceu no Rio de Janeiro, na Casa de Cultura Lauro Alvim, estando presentes políticos e intelectuais, inclusive Celina Vargas.
O autor foi diversas vezes deputado federal por São Paulo, assessor de Getúlio Vargas e jornalista de grande expressão. Na literatura foi colega de Menotti del Picchia e Cassiano Ricardo.
"O Estouro da Boiada" traduz em versos trechos de "Os Sertões", de Euclides da Cunha, e da Conferência de Juiz de Fora, pronunciada por Rui Barbosa, sendo prefaciado pela professora e escritora da Academia Paulista de Letras, Esther de Figueiredo Ferraz.
O livro é gostoso de ser lido pelo encantamento do seu conteúdo. A obra foi editada por Razão Cultura Editora, no Rio de Janeiro.

FONTE: Jornal da ABI, setembro/outubro 1998, p. 24

4) ESTANTE DE LIVROS (Coluna de Magalhães da Costa)

PRATELEIRA BRASILEIRA

Vol. 545: "O Estouro da Boiada", poema de José Barbosa, Razão Cultural Editora, Rio de Janeiro, 1998, ilustrações de Marta Süssekind, 36 págs. A obra traz textos sobre o mesmo tema, aliás famosos, de Euclides da Cunha e de Rui Barbosa, apresentação do autor, feita pelo jornalista e ex-parlamentar do Rio de Janeiro, Oscar Noronha Filho, e prefácio assinado pela professora Esther de Figueiredo Ferraz, da Academia Paulista de Letras, ex-ministra desta República e colega de banco de faculdade do poeta JB, além de uma carta, datada de 1994, dirigida a este, pelo jornalista e historiador paulista Adriano Campanhole. Para mostrar a força do vate, basta trazer pra cá estes versos do poema que agora aparece em livro:

"_ _ _ _ _ _ _ _ _ _ _ _ _ _ _ _ _ _ _ _ _ _
Disformes estruturas movediças,
Num só corpo atomizado,
Súbitas explosões de força reprimida,
Ao expandir-se em latentes energias...

Na desabrida e louca disparada,
Vai deslocando tudo de arrastão,
Cerca-de-arame e porteiras,
Mato-virgem e capoeiras,
Os currais e pontilhões.
Abatem-se os capinzais,
Moitas grandes de macegas,
Rangem-se os ressequidos carrascais,
Estalam-se os raquíticos cerrados,
Choram os verdes das roças de plantação,
Afugentam-se levas de animais,
Casas de passarinho rolam pelo chão,
Até cobras pisoteadas..."

As ilustrações mimoseiam o livro e valorizam o texto (poema), que vem agora se juntar a dois dos maiores de nossas letras. A Razão Cultural está atendendo à Rua Siqueira Campos, 43 Gr. 601 Copacabana 22031-070 Rio de Janeiro - RJ. Isto para o caso de você, leitor, não encontrar o livrinho em nossas livrarias.
Endereço (para remessa de livros e correspondências): Rua José Olímpio de Melo, 3026 Ilhotas 64001-640 Teresina - Piauí.

FONTE: jornal Meio Norte, Teresina, 12/10/1998

5) PREFEITURA DO MUNICÍPIO DE BARRETOS - SECRETARIA MUNICIPAL DE CULTURA

A Prefeitura do Município de Barretos, através da Secretaria Municipal de Cultura, tem a satisfação de convidar V. Sª e Exma. Família para o lançamento do livro "O Estouro da Boiada" de autoria do Dr. José Barbosa, e premiação do Concurso de Contos - "Barretos: nossa cultura boiadeira e sertaneja".
Dia 11 de agosto de 1999
Horário: 20h00
Local: Museu "Ruy Menezes"

José Barbosa é poeta jornalista, advogado, ex-deputado e quando estudante de Direito destacou-se na vida acadêmica em defesa de reformas sociais e políticas. Tendo sido eleito deputado, exerceu a presidência da Comissão de Constituição e Justiça da Câmara Federal e teve atuação positiva na elaboração da Constituição do Brasil.
Em "O Estouro da Boiada" José Barbosa conta em versos, o que Euclides da Cunha e Rui Barbosa imortalizaram em prosa, mostrando a realidade do peão de boiadeiro e a vida do homem do campo conduzindo a boiada. Ao fazer uma separata de "O Estouro da Boiada", parte de seu livro "Odes e Poemas", José Barbosa oportuniza aos leitores uma visão poética na abordagem do tema.

Uebe Rezeck
Prefeito Municipal

Léa Therezinha Pitelli de Souza Lima
Secretária Municipal de Cultura

6) Palestra proferida pelo Deputado José Barbosa em 7 de dezembro de 2009 no Salão Nobre do Fórum de Cantagalo intitulada "Meus encontros com Euclides da Cunha". (Observe que Euclides da Cunha era natural de Cantagalo, onde nasceu a 20/01/1866, vindo a falecer no Rio de Janeiro em 15/08/1909.)




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Para não me estender exageradamente na apresentação do meu homenageado, entendo que o melhor a fazer é reproduzir aqui seu belo poema descritivo de "O Estouro da Boiada", conforme visto por alguém que adquirira parte de seu tirocínio em Barretos-SP, cidade que sedia a festa mais antiga do peão de boiadeiro. Ei-lo:

O ESTOURO DA BOIADA

À memória de Moisés Barbosa e Tonico Barbosa,
legendários boiadeiros...

José Barbosa

Nessas viajadas para compra de boi magro,
Nunca me esqueço, ao vivo, do estouro da boiada,
Por motivo fortuito ou às vezes provocado:
O trem de ferro apitando nas curvas,
A onça que num relance corta a estrada,
O repentino raio ao ribombo do trovão,
Caixa de marimbondo bravo despencada,
Tiroteios ou rojões improvisados,
Labaredas de fogo em queimadas de agosto,
Ou até mesmo fantasma nas encruzilhadas...

À frente da manada, guias na condução,
Alinham-se marruáses e marrucos,
Mestiços de gir e guzerá,
Criação do Zé Caetano, lá das Uberabas,
Rebeldes aos cabrestos, aos laços e às cangas...

Inopinadamente, estacam-se estes bois,
Erguem-se suas cabeças reluzentes,
Olhos exorbitantes, temerosos,
Eretas as orelhas, pêlos eriçados,
Reviram-se nas suas patas firmados,
As caudas levantando na altura das ancas,
Debandam-se em satânica abalada,
E vão rompendo tudo de roldão...

Invertem-se, num ímpeto, as posições,
Culatra transformando-se na ponta,
Esta em culatra então vai se tornando,
Até se retornar ao que antes era.

A rês, de boi, vira boiada,
Boiada inteira vira boi,
Os músculos e nervos retesados,
Os chifres se batendo entrelaçados,
Cascos riscando pedreiras,
Faíscas por todos os lados,
Cheiro de queimado no ar...

Disformes estruturas movediças,
Num só corpo atomizado,
Súbitas explosões de força reprimida,
Ao expandir-se em latentes energias...

Na desabrida e louca disparada,
Vai deslocando tudo de arrastão,
Cerca-de-arame e porteiras,
Mato-virgem e capoeiras,
Os currais e pontilhões.
Acamam-se os capinzais,
Moitas grandes de macegas,
Rangem-se os ressequidos carrascais,
Estalam-se os raquíticos cerrados,
Choram os verdes das roças de plantação,
Afugentam-se levas de animais,
Casas de passarinho rolam pelo chão,
Até cobras pisoteadas...

Envereda o rebanho em atropelo
Na direção das orlas do rio Grande,
Que os limites assenta com Minas Gerais,
Voltando para o pouso de onde saíra.

Arroja-se nas águas do agitado rio,
Nada o gado ao sabor das correntezas,
Serpenteia-se em sinuosa diagonal,
Descendo assim como se pesca de rodada,
Segue o rumo das margens do outro lado.

Como o piloto que do barco perde a rota,
Permanecem agora os destemidos peões,
Mas aparece o capataz na liderança,
Dirigem-se para o antigo e velho porto,
Numa balsa conseguem travessia.

Não podendo seguir mesmo destino,
Risquei de leve a mula nas esporas,
Convoquei no assobio o Leão e a Pantera,
Ajustei bem as traias e o cano das duas botas,
Do rio conhecia as manhas e os segredos,
E juntos adentramos nas suas águas...

Por leis da natureza sempre governados,
Os animais já nascem sabendo nadar,
Mas eu, simples criatura racional,
Idêntico a outro ser que é ser humano,
Marcado pelo fogo de artes e talentos,
Carrego o fardo do constante tirocínio,
No aprendizado de outras técnicas e ciências,
As coisas que ao nascer eu não sabia...

Mais ou menos iguais nestes embates,
Cada qual sua tarefa desempenha.
Nas laterais exercem os cães o controle,
A manada para outra margem empurrando,
Ruana, nos movimentos de vaivém,
Contrabalança a falta da peonada.
Meu berrante pranteava seus lamentos,
Guiava acalmando os rudes animais,
Ao evocar os plangentes aboios dos vaqueiros...

Nas tranquilas paisagens daqueles rincões,
Vencida a trabalhosa e árdua jornada,
Acomodou-se o gado numa várzea,
Do verde jaraguá toda forrada.

O condutor e os peões se aproximando,
Com outros camaradas para ajuda,
Cantando juntos seus aboios dolentes,
Berrantes acordavam ecos nas quebradas,
E assim comboiavam o rebanho ao mangueirão.

Na recontagem de cabeça por cabeça,
No desfile através de uma porteira,
Anotou o sempre atento capataz
A falta de uma rês, uma única arribada...

Concluíram que era aquele boi pintado,
O culatreiro cego das esquerdas,
Que nas viagens pendia para este lado.
Apesar dos vestígios e procura,
Durante muitos dias e até por noite escura,
Este boi nunca mais por ninguém foi encontrado...

Depois de duas marchas exaustivas,
Com saídas ao romper da madrugada,
Vai chegando, afinal, a grande boiada,
Aos verdes prados da fazenda Santa Fé,
Do conhecido Coronel Barreto,
Logo adiante do Sítio do Chão Preto.

Feliz, e riso franco o fazendeiro,
Ao ver e recontar aqueles bois,
Dezoito ou vinte arrobas estimados,
Mandou preparar festa a noite inteira.
Cateretês e violas são improvisados,
Rodeios e desafios de moda sertaneja,
Muita cerveja e a velha pinga com limão.
Reza cantada ao pé do rústico cruzeiro,
Rezaram juntos aquela mesma oração.
Nasce assim, ao calor de nossa terra,
A festa alegre do Peão,
Do Capataz, do Boiadeiro...



III.  NOTAS  EXPLICATIVAS




¹  [FERREIRA1987, 397] se refere ao jornalista Matias Alves Mendes de forma muito respeitosa: 
(...) Tal como acontecia no resto do País, verifiquei que em Porto Velho ninguém conhecia a história da E. F. Madeira-Mamoré, a não ser algumas recordações de experiência pessoais vividas por alguns poucos remanescentes da época da construção e que ainda viviam na região, os quais tive a oportunidade de entrevistar e fotografar. Essa circunstância é sempre salientada pelo acadêmico, jornalista e escritor rondoniense Matias Alves Mendes, nascido às margens do rio Guaporé, junto ao Real Forte do Príncipe da Beira. (...) 


²  No site da B&B Advocacia encontra-se o currículo do meu saudoso amigo, com quem tive a honra de trabalhar no governo de Rondônia por menos de um ano, em 1987, na condição de Secretário-Adjunto da Secretaria de Estado da Fazenda de Rondônia: http://www.advogadoemportugal.com/dr-jose-barbosa.php


Também no verbete "José Barbosa", do Dicionário Histórico-Biográfico Brasileiro - Segunda Edição - FGV,  volume 1, pp. 512-513, encontra-se disponível o currículo do poeta e político brasileiro, a saber: http://www.fgv.br/cpdoc/acervo/dicionarios/verbete-biografico/barbosa-jose

³  Manoel Rodrigues Ferreira é o autor de "A Ferrovia do Diabo - História de uma estrada de Ferro na Amazônia", cuja 4ª coedição pela Companhia Melhoramentos de São Paulo, em 1987, foi patrocinada pelo Governo Jerônimo Santana, por iniciativa do seu Assessor Especial, Dr. José Barbosa. Tive a honra de conhecer o referido autor em visita que lhe fizemos José Barbosa e eu em sua residência na Rua Martim Francisco, 657, no bairro Santa Cecília, em São Paulo-SP. Gostaria de consignar que eu, na qualidade de Secretário-Adjunto da Fazenda de Rondônia, colaborei para que esse livro fosse editado em 1987, o que aumentou ainda mais a tensão entre mim e a mediocridade, simplesmente por ser um projeto cultural do Dr. José Barbosa.


4ª edição do livro patrocinada pelo Governo de Rondônia, por iniciativa 
de Dr. José Barbosa, Assessor Especial do Governador Jerônimo Santana


O capítulo XXV desse livro, intitulado "Novos Planos para a Reativação" (pp. 396-400), parece ter sido um adendo à edição anterior, pois relata os últimos movimentos visando à preservação da E. F. Madeira-Mamoré. Reproduzo abaixo o que me parece relevante para bem situar as preocupações cívicas de Dr. José Barbosa que deveriam estar na fundação do novo Estado:  


E agora, quando escrevo este final da 4ª edição do livro, devo registrar mais um lance da história, que é a decisão do governo do Estado de Rondônia, de reconstruir e reativar a E. F. Madeira-Mamoré em toda a sua extensão, de Porto Velho a Guajará-Mirim. Realmente, tendo tomado posse no cargo no início de 1987, o governador Jerônimo Garcia de Santana logo tomou as primeiras providências para restaurar a ferrovia, em toda a sua extensão. Essa decisão deve ser registrada neste livro, pois ela não deixa de ser histórica. 
Em setembro de 1987, realizou-se em Manaus reunião do Instituto de Estudos da Amazônia - ISEA, tendo a delegação do Estado de Rondônia apresentado seis propostas, das quais a mais importante dizia respeito à restauração da Estrada de Ferro Madeira-Mamoré, e cujos termos, de autoria do ex-deputado federal por São Paulo e atual assessor especial do Governador Jerônimo Garcia de Santana (Dr. José Barbosa), são os seguintes: 
"Os membros conselheiros do Instituto Superior de Estudos da Amazônia - ISEA, infra-assinados, propõem a essa douta Mesa Diretora dos Trabalhos, ouvido o plenário, sejam adotadas providências junto aos órgãos competentes no sentido da restauração da extinta Estrada de Ferro Madeira-Mamoré - E.F.M.M., a tradicional e histórica "Ferrovia do Diabo", como bem a definiu o escritor Manoel Rodrigues Ferreira."  
"Trata-se de ferrovia que marcou época na vida social e econômica do atual Estado de Rondônia. "
"A sua construção foi iniciada em 1872 e, em decorrência do Tratado de Petrópolis, após longos anos de ingentes sacrifícios dos seus construtores, com alguns hiatos motivados por razões superiores, inclusive com a perda de preciosas vidas decorrentes de ataques dos silvícolas e de endemias rurais, é inaugurada em 1º de agosto de 1912, com 366 quilômetros de extensão e ligando Porto Velho a Guajará-Mirim."  
"Durante o período do seu funcionamento, deu dias de glória a toda a comunidade rondoniense, e boliviana em particular, que tanto por ela ansiou como o meio mais eficaz para o seu desenvolvimento e transporte dos seus produtos."
Depois de relatar que a ferrovia fora desativada em consequência do Decreto Federal nº 58.501, de 25 de maio de 1966, "causando os maiores vexames, apreensão e tristeza a todos os seus usuários", prossegue a proposta:  
"Houve dilapidação do seu acervo, por razões lamentáveis e ignoradas, mesmo assim, em 1981, mercê da abnegação e devotamento de velhos e laboriosos servidores da mui saudosa e sentida ferrovia, com o apoio do não menos saudoso ex-governador do antes Território Federal e hoje Estado de Rondônia, Jorge Teixeira de Oliveira, foi recuperado um pequeno trecho da E.F.M.M. e, também, uma locomotiva e alguns vagões, que passaram a realizar viagens turísticas dominicais entre a velha estação e a localidade denominada Cachoeira do Teotônio, em Porto Velho, convindo ressaltar que tais viagens foram interrompidas por alguns meses, em virtude de defeitos na estrada produzidos por erosão pluvial, a qual há bem pouco tempo foi restaurada, e a composição voltou a funcionar em trecho menor, entre a estação e a histórica localidade da Cachoeira de Santo Antônio, que precedeu a Porto Velho como capital de Estado." 
"Justifica-se, desse modo, a restauração total da legendária ferrovia, sonho acalentado de há muito por toda a comunidade de Rondônia e Bolívia, como o meio de transporte eficaz e ao alcance de todos." 
"Pouco resta do seu acervo, que se constitui em patrimônio histórico e cultural de Rondônia, zelado e mantido carinhosamente pelo governo do Estado, através da Secretaria de Estado da Cultura, Esporte e Turismo - SECET e por alguns abnegados ferroviários, idosos e já aposentados, que têm na completa restauração da extinta ferrovia, não apenas o seu grande sonho, porém o seu grande amor." 
"Com essas e outras razões de interesse nacional, os Conselheiros signatários reiteram o apoio desse nascente e já conceituado órgão no sentido de que, efetivamente, possa ser conseguida tal restauração para o bem e felicidade do povo rondoniense e da Bolívia, nossa nação amiga por todos os motivos, beneficiando, assim, todo o complexo da rica região amazônica." 
"Esse o pensamento do Governador Jerônimo Garcia de Santana que, como parlamentar, por três legislaturas seguidas, clamou contra o erro da erradicação dessa legendária ferrovia." 
"Somos todos Rondônia, somos todos Brasil." 
"Manaus, Sala das Sessões, em 25 de setembro de 1987." 
Ao mesmo tempo, o Governador Jerônimo Garcia de Santana dirigiu-se ao Presidente José Sarnxey, em longa exposição de motivos, para provar que a E.F. Madeira-Mamoré não deveria ter sido desativada, pois ela fora construída para atender ao compromisso assumido pelo Brasil para com a Bolívia através do Tratado de Petrópolis, não podendo, pois, "ser desativada unilateralmente, tal como ocorreu". E o governador do Estado de Rondônia propunha ao Presidente da República dignar-se determinar urgentes medidas administrativas objetivando: 
"1. Cessão gratuita de todos os imóveis, construções e benfeitorias da extinta Estrada de Ferro Madeira-Mamoré, ao Estado de Rondônia, com a finalidade específica de promover a restauração da Estrada de Ferro Madeira-Mamoré, podendo instituir Fundação capaz de alcançar esse objetivo, passando os bens ora cedidos a integrar o seu patrimônio, para os devidos fins de Direito." 
"2. Definição de recursos financeiros a cargo da União Federal para que, numa ação conjunta do Ministério dos Transportes e do Governo de Rondônia, seja iniciado o trabalho de recuperação da linha férrea e das locomotivas, bem como as reformas nos bens imóveis pertencentes ao acervo da Estrada de Ferro Madeira-Mamoré." 
Dessa maneira, a história da ferrovia entra numa nova fase. E uma fase surpreendente, inesperada à da sua restauração completa. Não há dúvida de que, quando estiver totalmente reativada, constituirá, como era antes, uma das mais belas ferrovias do mundo, das mais pitorescas, ao atravessar a majestosa floresta equatorial amazônica, junto às belas cachoeiras dos imponentes rios Mamoré e Madeira. Assim, ao lado do seu valor econômico, deve-se ressaltar também a sua importância turística. Voltará então a Madeira-Mamoré, cuja história atribulada sempre atribuí às disputas entre os anjos do céu e os das trevas, a ser novamente, não mais a ferrovia do diabo mas a FERROVIA DO SENHOR.

IV.  ALGUMAS FOTOGRAFIAS DE ÉPOCA


Ao centro e no fundo, da esq. p/ dir.: empresário Luiz Tourinho, Dr. José Barbosa e o autor deste artigo
O autor em conversa com o governador Jerônimo Santana no Palácio Getúlio Vargas
O autor tocando para a aniversariante Adriana no Palácio Getúlio Vargas
O autor saboreando sorvete de açaí numa das praças de Porto Velho
Da esq. p/ dir.: O autor, sua esposa Rute Pardini, Deputado José Barbosa, escritora Léa Sayão,
uma amiga e Ivonilda da Silva Santos, a "Ive", na residência desta última no Lago Norte (set/2002)

 V.  AGRADECIMENTO



Agradeço à minha esposa, Rute Pardini, por oportunizar aos leitores do Blog do Braga as imagens deste artigo.

10 comentários:

Francisco José dos Santos Braga (compositor, pianista, escritor, gerente do Blog do Braga e do Blog de São João del-Rei) disse...

Tive a sorte de conhecer o Deputado José Barbosa no "entourage" do governador de Rondônia, Jerônimo Santana, no começo de 1987. Conservamos nossa amizade até seus últimos dias, encontrando-nos com frequência quer no meu gabinete no Senado Federal, quer na minha residência em Brasília. Como meu amigo vinha muito frequentemente a Brasília, eu costumava buscá-lo no aeroporto e levá-lo ao Hotel das Nações. Nos dias seguintes à sua chegada, convocava-me para circular com ele por Brasília devido à sua dificuldade de locomoção.

Amigo de muitos membros do Congresso Nacional, Barbosa pôde apresentar-me a diversos parlamentares da velha guarda, principalmente os senadores do Rio de Janeiro: Nelson Carneiro, Saturnino Braga e Amaral Peixoto. Apresentou-me também ao senador Áureo de Moura Andrade, poeta amazonense e amigo do governador Santana. Barbosa era também muito ligado ao Deputado Ulisses Guimarães, o "Senhor Diretas", para quem redigiu inúmeras emendas, que foram aprovadas e incluídas na Constituição federal de 1988. Também era assíduo na Sala da Imprensa no Senado, onde se reunia com jornalistas, velhos amigos de diversas partes do País.

Seu poema "O Estouro da Boiada", reproduzido no Blog do Braga para deleite de meus leitores, foi originalmente publicado no seu livro "Odes e Poemas" do Deputado José Barbosa, publicado em 1992, pp. 26-31.

Cordial abraço,
Francisco Braga

Jota Dangelo (médico, escritor, jornalista, diretor teatral, ator, dramaturgo, gestor cultural e fundador da Escola de Samba Qualquer Nome Serve) disse...

Nada como aprender, que nunca é tarde para mais conhecimento. José Barbosa não era do meu entorno, nem do meu encéfalo. E eis que você mo apresentou da melhor forma possível, a poética. Magnífico o poema do Estouro da Boiada, assim como a figura do autor, que gostaria de ter conhecido em pessoa e com ele batido um papo.
Obrigado pela lição, Braga.
Dangelo

José Ribas da Costa Filho (antiquário e militar da Aeronáutica) disse...

Obrigado, abraço.
Ribas

Rute Pardini (cunhada de Elizabeth dos Santos Braga, cantora lírica e bacharel em canto lírico pela UnB) disse...
Este comentário foi removido por um administrador do blog.
Prof. Fernando Teixeira (professor universitário, escritor e membro da Academia Divinopolitana de Letras, onde é Secretário Geral) disse...

Há pessoas que marcam sua passagem por nossas vidas, especialmente quando trazem a simplicidade como signo. Deve ter sido assim o José Barbosa. O seu poema nos estampa a imagem do sertão e do sertanejo conquistando estradas. E a boiada,lenta e pachorrenta, mas capaz de assustar-se e revoltar-se, fugir, para conquistar suas próprias estradas. Gostei do poema, bem sertanejo e do poeta de quem você me fez companheiro. Abraço para você e Rute.
Fernando Teixeira

Eduardo Oliveira (ex-salesiano e animador sociocultural) disse...

Caramba, sô!

Você faz cada trabalho...
Parabéns!

Tenha um bom Natal com as bênçãos do Menino e sua Santa Mãe.

Edu.

Rute Pardini (cantora lírica e bacharel em canto lírico pela UnB) disse...

Ô querido!
Parabéns pelo maravilhoso artigo!
Saudades desse povo todo!
Tempo bom, né?
Eu cresci e aprendi muito com esses gigantes que souberam fazer parte da história.
Da minha história de vida!
Te amo eternamente!
Rute

Dr. Rogério Medeiros Garcia de Lima (desembargador, escritor e membro da Academia de Letras de São João del-Rei) disse...

muito bem!
e vamos estourar a boiada desse Brasil indignado!
abs

rogério

Carlos Fernando dos Santos Braga (administrador, funcionário da UFSJ-Universidade Federal de São João del-Rei, ex-funcionário da Casa da Moeda no Rio de Janeiro e ex-Chefe de Gabinete do Ministério da Administração em Brasília) disse...

Querido Irmão, boa tarde.
Desculpe-me o atraso, mas só lhe escrevo já passado o Natal. Houve falta de tempo.
Imagine você como esse mundo é pequeno, quatro anos antes tive a oportunidade de percorrer Rondônia (Porto Velho) para o sul, Ariquemes, Ji-Paraná, Pimenta Bueno, etc e para o oeste, Guajará-Mirim, Extrema, etc. Não cheguei a ir ao Forte Príncipe da Beira, foi uma pena. Mas em compensação conheci as cachoeiras de Santo Antônio, via Madeira-Mamoré, que na época percorria essa pequena distância turisticamente. Não saberia dizer se ainda está em atividade, tal como São João del-Rei - Tiradentes, pois as cachoeiras sumiram nas águas de uma barragem no Madeira, Hidrelétrica de Santo Antônio. Imagine a dor do nosso querido Barbosa, sem o trem e sem as cachoeiras. Será que mantiveram a Capela de Santo Antônio??
Você e o Deputado trabalharam no próprio Palácio Getúlio Vargas, centro governamental de Rondônia, e onde lamentaram a mediocridade usurpando o poder. O Barbosa era um bom político, saiu como entrou, pela porta da frente. Políticos assim não existem mais e que curriculum o seu! Sobremaneira excelente.
Não me lembro mais o assunto que acompanhei para o Deputado José Barbosa na Administração Federal, uma vez que me enalteceu em seu bilhete. Apenas imagino qual deve ter sido esse obséquio.
Quanto ao seu poema O Estouro da boiada, já o conhecia e o tenho em minha estante, é livro de cabeceira, esplêndido.
A sua iniciativa, inclusive como amigo próximo, de prestar-lhe essa homenagem é digna de louvor.
Seu irmão, Fernando

Mercemiro Oliveira Silva (escritor, contista e membro da Academia Divinopolitana de Letras) disse...

Caro confrade,
Encantado com a obra de José Barbosa. Com meus votos de que o 2016 seja mais pródigo, para você e esposa meu pequeno conto que não é de réis, nem do vigário:

CONCURSO DE CARTAS A PAPAI NOEL


A iniciativa de um concurso de carta a Papai Noel, para incentivar a criatividade e a redação entre crianças e jovens, foi da academia de letras do lugar, com o apoio da comunidade empresarial, das escolas e do público em geral, especialmente as crianças.

O regulamento não especificava faixa etária, mas sugeria como critério prestigiar-se a criatividade e a originalidade do pedido. O grau de correção no uso da língua não era o mais importante, apesar de, nesse particular, as academias literárias e organizações afins serem rigorosas.

Visando abrir-se o leque dos atingidos pela promoção, além do primeiro prêmio, devia haver prêmios menores aos cinco finalistas do certame e outras menções honrosas. O empresariado incumbiu-se de oferecer os prêmios. Uma grande usina siderúrgica propôs-se a oferecer uma bolsa de estudos ao vencedor até o curso universitário, incluindo as despesas paralelas que o mesmo acarretar. As maiores escolas particulares ofereceram bolsas para o segundo grau. O comércio ofereceu muitos outros prêmios destinados ao vencedor, aos finalistas e vários outros classificados.

Foi enorme a afluência de trabalhos concorrentes com os mais variados e inusitados pedidos, desde os mais modestos brinquedos até moto, automóvel, jetisqui. Muitos pediram emprego para o pai ou casa para a família. A comissão de julgamento tinha empresários e representantes das escolas. Como disseram, não foi fácil a discussão em torno da distribuição dos prêmios, pois cada jurado tinha um gosto diferente. Só foi tranqüila a indicação da melhor carta. Aí, foi uma unanimidade.
A carta, contudo, não foi dirigida a Papai Noel. Apesar disso, ninguém pensou em desclassificar a criança concorrente. Tomando a liberdade de corrigir uma ou outra impropriedade ortográfica, melhor é transcrever que comentar a carta vencedora:
“Querido Menino Jesus,
Sei que Papai Noel tem muita coisa para dar às crianças. Mas o que eu vou pedir, só o Senhor pode dar. Mas não vou mais falar “o Senhor”, porque Você também é menino, né?
Eu ia escrever ao Papai Noel, não era para pedir nada. Era só para poder falar “Papai”. Ele parece velhinho, mas é bom papai.
O que eu quero é que Você cure meu pai. Ele não é velho como Papai Noel, mas também parece novo. É trabalhador, mas está bebendo muito. Cada vez mais. Às vezes, perde emprego por causa disso. Eu não gosto quando os moleques mexem com ele na rua e ele grita nomes feios.
Quando chega a casa, tarde da noite e está muito tonto, cai num lugar e dorme. De outras vezes, me espanca e espanca minha mãe, quebra alguma coisa em casa, depois dorme. Não faz mal ele me bater, mas não queria que ele batesse mais em minha mãe. Um dia, quebrou na minha cabeça o último brinquedo que me deu. Nunca mais deu outro. Mas o pior é que também não tem carinho pra dar. E eu só queria o papai de novo, pra ficar junto de mim e de minha mamãe. Queria ver mamãe alegre e cantando. Mas ela ficou rouca e esqueceu de cantar. Queria ver os dois sentados juntos na hora da comida ou só pra conversar.
Você sabe que meu papai é muito bom e eu não quero outro pai.
E Você pode fazer meu papai parar de beber para voltar a ser bom. Se Você me der isso, não precisa me dar mais nada. Este é o presente que eu quero neste Natal pra mim e pra minha mãe.”
Dizem que, à noite, na mesa da ceia do Natal, dos jurados que leram essa carta, não houve outra bebida além de sucos naturais e leite gelado.

Mercemiro