quarta-feira, 30 de dezembro de 2015

"ODES E POEMAS" DE ELEVADO MISTICISMO


Por Francisco José dos Santos Braga

Crítica literária da coletânea de poemas editada em opúsculo intitulado "Odes e Poemas", do Deputado José Barbosa. Esse meu trabalho foi publicado originalmente no Jornal de Brasília, Brasília-DF, caderno 2, seção Pauta Livre, edição de 22 de setembro de 1992. 



Vem de ser lançado, pela State-of-the-Art Editora (Rio de Janeiro) o mais recente livro do poeta, advogado e ex-deputado federal José Barbosa (PTB-SP), intitulado Odes e Poemas ¹. A obra vem enriquecer sobremodo as nossas letras, não só pela enorme vivência do autor, mas também pela exuberante inspiração que permeia as 49 páginas do opúsculo.

O livro do respeitado jurista traz estreitas ligações com diversas localidades, em especial com Barretos de sua infância, São Paulo de sua juventude, e Brasília, Nova Friburgo, Rio de Janeiro e Região Amazônica de sua maturidade.

Destaque merece ser dado aos versos carregados de elevado misticismo em que retrata sua atual existência, como "meu barco-nave de metal desconhecido", "meu veleiro de aura iluminado" deslizando sobre as águas o mais fluido dos elementos naturaispara, em seguida, sob o efeito da sutilização, constatar que "minha nave espacial no céu tornou-se estrela", ou ainda:

"_ _ _ _ _ _ _ _ _ _ _ _ _ _ _ _ _ _ _ _
Garça branca perdida no infinito,
À procura, talvez, de outras moradas,
No evangelho por Cristo declaradas."

Alguns poemas revelam a enorme paranormalidade do autor, tais como Quarta Dimensão e Percepção extra-sensorial. Neste último, revela uma experiência que teve em Ribeirão Preto "nos salões ornados e românticos da Recreativa", onde conheceu uma "pálida morena" fantástica literalmente que dançou com ele respondendo laconicamente a suas perguntas e que desapareceu como "sombra etérea ou visões alucinadas" ² .

Todos conhecemos o célebre "Estouro da Boiada", uma das mais lindas páginas em prosa de Euclides da Cunha. O poeta homenageado não se intimida de enveredar pelo caminho já trilhado por um dos nossos maiores escritores e oferece, em versos, uma descrição desse formidável fenômeno. No bojo do poema, o poeta, que se confessa retirado da vida pública, manifesta sua veia satírica, ao denunciar o culpado pela disparada:
O Estouro da Boiada
 
"_ _ _ _ _ _ _ _ _ _ _ _ _ _ _ _ _ _ _ _ _ _ _ _ _ _
Na recontagem de cabeça por cabeça,
No desfile através de uma porteira,
Anotou o sempre atento capataz
A falta de uma rês, uma única arribada...

Concluíram que era aquele boi pintado,
O culatreiro cego das esquerdas,
Que nas viagens pendia para este lado.
Apesar dos vestígios e procura,
Durante muitos dias e até por noite escura,
Este boi nunca mais por ninguém foi encontrado..."

Não posso deixar de mencionar o belíssimo poema de apenas quatro linhas, intitulado Alô ao Rio Madeira, cujos versos mágicos emprestam nostalgia à situação existencial (Sitz im Leben) do poeta: 

"Oh! Velho e legendário rio Madeira!
Nosso esperado encontro, até que enfim!
Você, no seu mistério, sempre assim.
E eu, no meu exílio, já desta maneira..."


O poema Iara do Madeira, na linha clássica dos grandes sonetos das nossas letras, aqui reproduzido para o deleite dos que apreciam o belo em forma poética, é uma obra-prima, sobretudo no seu primeiro quarteto de notáveis efeitos onomatopaicos e no seu segundo terceto:  


Na curva silenciosa de suas águas,
E nos vãos dos vai-e-vem dos roda-paus,
Vi naufragar meus séculos de mágoas,
E a aurora ressurgir em meio do caos.

Na superfície cor de barro do seu leito,
Olhar perdido no infinito de um céu azul,
Uma dor de saudade comprimindo o peito,
Gravei então o epitáfio da Iara loura,

Filha das belas terras das regiões do Sul,
Hereditária lá da itálica península,
Misto de índia, romana e grega antiga,

Na ambivalência mística da face oculta,
No amor menos amante do que amiga
Perpetuada nas águas fundas do Madeira...

Gostaria ainda de registrar que o "poeta da ambivalência", conforme ficou José Barbosa conhecido em Rondônia (embora o escritor Matias Mendes afirme que ele prefere ser considerado "poeta da polivalência"), é capaz de descortinar laivos de elevado humanitarismo ao longo de toda a sua obra, especialmente no poema intitulado Sonhando... , em que firma sua crença na nova era:

Quisera Deus mais lustro possa ainda viver,
Sonhar a Terra azul, e verde, e branca,
Amplexo de arco-íris em círculo total.
As fontes cristalinas, verdejantes prados,
A paz dos santos e predestinados,
Os paralelos Cireneus de nossa cruz,
Na imensa procissão universal...
Descerrar os umbrais do Terceiro Milênio,
A nova era do mundo tão esperada,
Panorama de cósmica harmonia,
Resplandecente sol de uma eterna beleza!
A casta água purificando a vida,
O planeta irmanado nos seus reinos,
Povos se amando na paz e no trabalho,
E o nosso Titanic já livre do naufrágio...
Sonhar, sentir e continuar sonhando, 
E zelar pelas crianças do universo inteiro,
Pois todas têm o mesmo e mais belo sorriso,
E soluçam e choram da mesma maneira,
Os semeadores da esperança do amanhã...
Reencontrar, enfim, outra nave, outro veleiro,
Para novos espaços navegar...

Por último, alegra-me saudar não só o lançamento de "Odes e Poemas", como também o cumprimento de se publicarem proximamente as Memórias de José Barbosa que, tendo desempenhado importante papel na redemocratização do nosso País, oxalá possa lançar muitas luzes sobre inúmeros acontecimentos e vultos da história brasileira contemporânea. 


I.  NOTAS  EXPLICATIVAS


¹  A coletânea ODES E POEMAS, por José Barbosa, é composta dos seguintes poemas: Sic transit gloria mundi, Meu veleiro, Amazônia, Rondônia, Navegar..., Iara do Madeira, Alô ao rio Madeira, Exorcismo, Garimpo, Rio do Sem Nome, Quarta dimensão, Faculdade do Largo de São Francisco, Percepção extra-sensorial, Recordações, Miragens, Retratos, A mulher da fazenda, Mulher errada, O Estouro da Boiada, Cantigas do rio Grande, Êta! chão preto! terra boa é Barreto...sss!, Brasília, Enseada do Mar do Norte, Arpoador, Absurdo, Solidão, Visita, Canção da noite, Nêga na janela, Sonhando... e Elogio dos setenta.

Esses poemas vieram precedidos de pequeno prefácio que o autor José Barbosa intitulou "Duas Palavras". Ali se lê: 
Ao concordar com a publicação de Odes e Poemas aos Setenta e Cinco, por solicitação de amigos, incluímos, para melhor entendimento de possíveis leitores, o Elogio dos Setenta, escrito em 1987 e ilustrado pelo consagrado pintor Augusto Rodrigues. 
Com exceção de Iara do Madeira ³ e Alô ao rio Madeira, já divulgados, que mereceram algumas alterações no título e no texto, os demais são inéditos.  
Dispenso-me de analisar outros aspectos da poesia, que emana das fontes perenes em todas as faixas etárias. 
Ela está na vida e no mistério.
É divina e demoníaca.
Música e ritmo.
E não é escrava da técnica.

 
Rio, maio de 1992. 

José Barbosa 


²   Contou-me José Barbosa que essa mulher fantástica, alma penada que dançou com ele, respondia enigmaticamente a suas perguntas com apenas "sim" e "não".


³  Com relação a "Iara do Madeira", o autor me informou que o poema inicialmente tinha 12 versos, tendo sido transformado num soneto, com os seguintes acréscimos:
1) No primeiro terceto: o verso mediano "Hereditária lá da itálica península".
Logo, originalmente, o primeiro terceto aparecia assim, omitido o verso central:

Filha das belas terras das regiões do Sul,
_ _ _ _ _ _ _ _ _ _ _ _ _ _ _ _ _ _ _ _ _ _
Misto de índia, romana e grega antiga,

2) No segundo terceto: originalmente, aparecia omitido o verso mediano "No amor menos amante do que amiga", bem como substuída a palavra "Sepultada" por "Perpetuada" no último verso.
 
Na ambivalência mística da face oculta,
_ _ _ _ _ _ _ _ _ _ _ _ _ _ _ _ _ _ _ _ _ _
Sepultada nas águas fundas do Madeira...



⁴  Este poema apareceu com o título "Sonhando com o terceiro milênio" numa Antologia da Casa do Poeta Brasileiro-Poébras - Seção de Brasília-DF, publicada em outubro de 1999, 166 p., intitulada "No Limiar do Terceiro Milênio".



II.  OBRA CONSULTADA


BARBOSA, José: ODES E POEMAS, Rio de Janeiro: State-of-the-Art Editora Ltda., 1992, 49 p., ilustrações de Márcia Süssekind.



5 comentários:

Francisco José dos Santos Braga (escritor, pianista e compositor, gerente do Blog de São João del-Rei e do Blog do Braga) disse...

Tenho o prazer de brindar o leitor do Blog do Braga com minha crítica literária da coletânea de poemas editada em opúsculo intitulado "ODES E POEMAS" do Deputado José Barbosa. Esse meu trabalho foi publicado originalmente no Jornal de Brasília, Brasília-DF, caderno 2, seção Pauta Livre, edição de 22 de setembro de 1992.

Este é o segundo post publicado no Blog do Braga tratando da obra poética de José Barbosa, o qual conheci quando trabalhei para o governo de Rondônia no ano de 1987.

Conservamos nossa amizade até seus últimos dias, encontrando-nos com frequência, quando residíamos eu em Brasília e ele em Nova Friburgo-RJ.

Cordial abraço de Francisco Braga

Prof. Fernando Teixeira (professor universitário, escritor e Secretário Geral da Academia Divinopolitana de Letras) disse...

Suas notas críticas, caro Braga, sobre o poeta José Barbosa denotam a valia literária da obra por ele elaborada. E isto a avaliza sobremodo. Abraço-o nestes estertores do 2015. Fernando Teixeira

Dr. Mário Pellegrini Cupello (pesquisador, escritor e presidente do Instituto Cultural Visconde do Rio Preto, de Valença) disse...

Caro amigo Braga
Agradecemos pela gentil lembrança em nos enviar a sua bem fundamentada crítica literária, de refinada pesquisa e de importante interesse literário.
Igualmente somos gratos pelo post, tratando da obra do seu amigo Poeta José Barbosa.
Com um cordial abraço,
O amigo Mário.

Dr. Rogério Medeiros Garcia de Lima (desembargador, palestrante, conferencista, escritor e membro correspondente da Academia de Letras de São João del-Rei) disse...

MUITO BEM!!!

Eudóxia de Barros (pianista e membro da Academia Brasileira de Música) disse...

Parabéns, obrigada pelo envio, abs.,

Eudóxia.