sábado, 26 de setembro de 2026

Excerto do romance “A COR DA LUA”

Por Alkyóni Papadáki
Traduzido do grego por Francisco José dos Santos Braga

O capítulo traduzido refere-se às páginas 42 a 45 do livro A Cor da Lua. 
Capa de "A Cor da Lua", Ed. Kaléntis, 156 p.

 I. INTRODUÇÃO: apresentação da obra

Lançado originalmente em 1991 e reeditado por editoras importantes na Grécia (como a Kaléntis), o livro é considerado um dos maiores sucessos da carreira da escritora grega Alkyóni Papadáki, considerado um verdadeiro fenômeno cultural e de vendas na Grécia. A obra fez tanto sucesso no país que acabou sendo adaptada para uma série de televisão de grande audiência em 1996 pelo canal grego Antenna (ANT 1), consolidando ainda mais o título no imaginário popular do país. Também foi laureada na Grécia com o 1º prêmio da Sociedade de Literatos Gregos. 
A história é conhecida por seu tom poético, alegórico e profundamente sensível, misturando reflexões sobre os sonhos (que ela descreve como "cor de crepúsculo"), a solidão (representada na cor violeta) e o amor (que tem "a cor da lua cheia"). Embora tenha sido traduzido para idiomas como o espanhol (El color de la luna), o inglês (The Colour of the Moon) e o alemão (Die Farbe des Mondes), "A Cor da Lua" foi e permanece emocionante obra literária infanto-juvenil grega e um aclamado romance social da renomada autora grega Alkyóni Papadáki.  
 
Estilo e Temática 
A obra destaca-se por sua escrita altamente lírica, metafórica e alegórica, característica marcante da prosa de Papadáki. No livro, a autora utiliza personificações e diálogos poéticos profundos entre elementos da natureza (como uma estrela, uma árvore ou uma cerejeira) para refletir sobre os sentimentos humanos e grandes questões existenciais. 
Os diálogos exploram as "cores" abstratas das emoções e das fases da vida: 
• A tristeza: tem a cor do mar agitado quando o sol se põe (um azul profundo e selvagem). 
• Os sonhos: têm a cor do crepúsculo. 
• A solidão: tem a cor da violeta. 
• O amor apaixonado (Érotas): tem a cor da lua cheia. 
O estilo da autora é frequentemente definido como um realismo lírico.
  
Metáforas Sensoriais 
Papadáki usa a natureza, os elementos do cotidiano e a própria luz (ou a falta dela, como a "cor da lua") para externalizar sentimentos internos. A lua, o mar e o vento frequentemente ganham contornos antropomórficos, agindo como espelhos da solidão, do amor ou da busca de identidade dos personagens. 
 
O Legado da Obra 
O livro "A Cor da Lua" serve como uma jornada filosófica de autoconhecimento e amadurecimento emocional, repleto de aforismos e lições de vida sobre a raridade dos momentos felizes e a importância de manter os "olhos do coração" abertos para o mundo. É muito apreciado no cenário da literatura grega contemporânea pela delicadeza com que constrói seus personagens e transmite sua mensagem social e romântica. 
Finalmente, uma das características mais marcantes da obra da autora é o uso de uma linguagem cotidiana que ecoa o falar natural do povo grego. Ao trazer expressões idiomáticas nativas, metáforas, provérbios e ditos populares e nuances culturais para o texto, Papadáki aproxima o leitor da psicologia e da alma de seus personagens, conferindo autenticidade e calor à narrativa. Essas expressões não servem apenas como decoração; elas revelam a bagagem psicológica, a origem social e a visão de mundo dos personagens. Mais do que isso, ela consegue transformar a oralidade grega em alta literatura, evidenciando sua habilidade de unir o popular ao poético.
Resumindo, pode-se dizer que a união desses elementos permite à autora alcançar uma universalidade — embora a linguagem seja profundamente grega e as dores e amores descritos sejam puramente humanos.
 
II. TEXTO TRADUZIDO
 
Frequentemente aos domingos, Fótis tomava o atalho da colina, e subia até o sopé da montanha. Ia à casinha do velho-Gideão. 
O velho amava muito o menino. Emprestava-lhe livros, conversava com ele sobre o ser humano, sobre a vida, sobre as grandes cidades. 
Fótis era o seu único amigo. Certamente também o eram os quatro pintassilgos na gaiola, bem como os pássaros dos campos, para os quais jogava farelos no pátio e cujas canecas enchia com água. Mas o menino tinha um encanto diferente. 
O velho-Gideão! Com aqueles seus olhos azuis escuros. Dois mares bravios que esperavam, dançando, o amanhecer. 
— Mas como você ficou tão sozinho? — o menino se perguntava intrigado. 
— Como assim? Tenho meus pensamentos. Tenho as roseiras. Os pintassilgos! Tenho a ti, meu mais caro amigo... Através de uma frestinha passa todo o amor do mundo, rapaz. Assim como a linha pelo buraco da agulha. Sozinho (sabes) quem é? Aquele que armazena dentro de si a solidão. Você não se cansa de ficar sozinho... O pior é resmungar. Permitir que escorra fel dos teus lábios. Saboreia a tua porção com alegria, sem sujar o lugar onde moras. Toma tua bebida com moderação, e diz (de onde sabes?): "são tantas coisas boas que podem me acontecer a todo momento!" 
— Mas existem algumas pessoas que têm muitos sofrimentos. 
Vejo minha mãe, minha avó. 
— As amarguras são mais numerosas. Mas posso dizer-te uma coisa? Existem milhares de conchas nas praias. É preciso buscá-las para as encontrares. Eu tenho setenta anos. Talvez até mais. Que importância tem isso? Não penses que sei muitas coisas sobre o cosmo ¹. E ainda menos sei sobre mim mesmo. Busco, porém. Não me basta uma vida para a busca saciar-me... 
— Tiveste sorte por viveres tantos anos. 
— E quem te disse como os anos contam, amigo? As horas contam. Os momentos. Tudo que vives em cada momento, tudo que vivemos. 
— Não temes que morrerás? 
— Hoje, pelo menos, estou vivo. Sabes quão importante é isso? Agora estamos juntos! Aperto as tuas mãos, te olho nos olhos. Nunca permitas que o hoje se murche. Não deixes a vida esvair-se como a areia por entre teus dedos. Entendeste? Vive! Não dês o Hoje como penhor daquilo que alguns bolorentos entendem por Amanhã ². O Hoje é só teu, amigo. Ama-o! 
 
Era assim que falavam frequentemente. Depois, saíam ao jardim para regar as roseiras, para limpar as gaiolas, para encher as canecas de água para os pássaros dos campos. E quando terminavam esses serviços, retornavam à cozinha e bebiam tsípouro ³. 
— Ei! Tu. Não queiras competir comigo na bebida. És menino. Traz um pouco de grão-de-bico torrado do armário. Lembra-me de te dar, quando fores embora, umas balas para as meninas. 
E velho-Gideão "entornava" o tsípouro como se fosse água e sorria. 
E as meninas dos olhos dele faziam uma ondinha e dançavam. Dois mares escuros tempestuosos que esperavam sempre algum amanhecer. 
— À tua saúde, menino...  
Há certas pessoas, bem sabes, que ficam sentadas completamente sós, à beira-mar e ficam à espera. Dias, meses, anos... Sentam-se num rochedo e esperam das profundezas do horizonte aparecer o navio. Aquele navio, cuja chaminé foi decorada com a Primavera e cujo leme é guiado pelas aves marinhas. Sabem que ele não virá. Não aches, jamais penses que essas pessoas são tolas. Fica descansado! Sabem muito bem aonde vão os navios, por que vão, quais pessoas controlam os lemes deles. Mas continuam à espera... Estão completamente solitárias ali à beira-mar. A fronte delas está salgada. As mãos delas estão queimadas pelo sol. Os olhos delas, duas canecas que dão de beber água às aves do campo. E ficam à espera... Às vezes, ali mesmo onde estão sentadas em seu rochedo, piscam o olho para Deus. "Beleza, parceiro. Nós nos conhecemos bem. Tudo certo!" E depois se sentam de novo no seu posto e contemplam o mar aberto. [Vamos lá, à tua saúde! Tens ainda muito caminho pela frente.]" ⁴ Agora o teu coração está cheio de pólvora. Ai de ti se não a fizeres explodir algumas vezes. [Traz um pouco de tsípouro ainda. Vamos lá, dá-me essa alegria!] 
 
Certo dia, o velho-Gideão olhava no seu jardim para uma rosa cor-de-rosa que lacrimejou. ⁵  
— Parece o sorriso de Melpo ⁶ —, murmurou. 
A seguir, pegou o seu olhar e o lançou para o fim do horizonte, como um pequeno seixo. 
— Vês as nuvens, Fótis? Vai chover. O tempo piorou; que o diabo o leve! Vamos lá, entremos na gaiola. 
 
 
III. NOTAS EXPLICATIVAS
 
 
¹ Esta frase é uma belíssima demonstração de humildade do velho-Gideão, que, apesar de toda a sua sabedoria, confessa as suas limitações ao menino Fótis.
 
² A expressão "o hoje como penhor do amanhã" significa usar o presente (as ações, escolhas e atitudes de agora) como uma garantia, promessa ou segurança de um futuro melhor.
 
³ Aguardente feita a partir do bagaço de uva, muito forte e transparente, semelhante à grappa italiana ou ao bagaço português.
 
⁴ Indicação de que alguém é jovem e tem toda uma vida para viver e descobrir.
 
⁵ A rosa cor-de-rosa cobriu-se de lágrimas (ou seja, de orvalho).
 
⁶No livro de Alkyóni Papadáki, a personagem fictícia Melpo desempenha um papel profundamente simbólico, atuando como uma espécie de ancoragem emocional e ideal de beleza ou pureza para as memórias dos personagens. O nome dela é evocado sempre que os personagens precisam descrever algo de extrema doçura, beleza ou leveza, como uma rosa cor-de-rosa coberta de orvalho. O sorriso de Melpo simboliza a inocência, a alegria genuína e a esperança em meio às amarguras cotidianas que o velho-Gideão tanto debate com Fótis.
Melpo funciona exatamente como essa lembrança viva de alguém que passou pela vida do velho-Gideão (ou de Fótis) e deixou uma marca de tamanha leveza que o seu simples sorriso virou sinônimo de beleza para eles.
O nome Melpo é o diminutivo de Melpómene, que ironicamente na mitologia grega clássica é a Musa de Tragédia. No entanto, na escrita de Papadáki, o nome ganha contornos de ternura humana, representando aquela pessoa cuja simples lembrança ou presença consegue suavizar o "fel" e o peso da solidão do mundo. 

quarta-feira, 23 de setembro de 2026

Excerto de “O NOSSO PÁTIO”

Por Maria Iordanídou
Traduzido do grego por Francisco José dos Santos Braga

O trecho traduzido refere-se às páginas 24-27, 43-46 e 55 do livro.

Capa do livro "O nosso Pátio" de Maria Iordanídou, ed. Vivliopoleíon tis Estias, 1983.

Quando viemos para esta casa, a primeira coisa que me captou o olhar logo que saí para a sacada foi a sacadinha da frente, que tinham cercado com arame até em cima e parecia com um galinheiro ou jaula de uma fera selvagem. Dentro dessa jaula uma criança de cerca de três anos andava de um lado para o outro como animalzinho preso. Num canto da sacada brinquedos estavam amontoados pelo chão. Nossa Senhora! Quantos brinquedos: grandes carrinhos de plástico, bonecos enormes, elefantes, cavalos, todos inanimados. Porém, a criança não se vira para vê-los. Com suas duas mãos segura a grade e enfia a carinha através da fresta, tentando ver os gatos que andam de um lado para o outro embaixo no pátio. Ou tenta agarrar-se à grade, enganchar-se no arame e trepar mais alto. Certamente se tirarem o arame dessa sacada, a criancinha trepará na grade e cairá, porque lhe falta o sentido do perigo. 

Fora o drama da criança da frente, a minha sacada começou a me divertir. Tenho a impressão de que me encontro em camarote de teatro de marionetes. Marionete de verdade. Toda janela, ou antes, toda porta de sacada, é também um palco. Aqui a gente vê uma Giorgina ¹ adornar-se e mais ali vê o Punch ² bater em Judy. 

No terceiro andar do edifício fronteiriço, está de pé defronte à janela um homem robusto com maiô e dá socos em uma bola que pende do teto. Deve ser um pugilista e se exercita, parece. Na outra janela, está de pé uma dona de casa em frente a uma tábua de passar roupa e passa uma saia. 

No piso térreo do mesmo prédio um homem de meia idade empunha uma bengala e persegue um gato para matá-lo. 

— Agarre-o! — ponho-me a gritar. Mas a sra. Panagióta³, que se achava junto de mim, me interrompe. 
— Sra. Panagióta, — grito —, é preciso que algo seja feito com este sr. Evángelos. 
— Ele não se chama Evángelos, — me diz. 
— Não importa, nós o temos chamado assim, porque me lembra o farmacêutico que tínhamos por vizinho nos Ambelokípi ⁴. 
A sra. Panagióta era minha amiga fiel. Vinha toda manhã às 10 horas e tomava seu café. 
— Querida Panagióta —, digo-lhe —, sabe o que faremos? Achemos algum rato para o soltarmos na casa do sr. Evángelos. 
— E imagina que não o fiz? 
— Não diga! 
— Pois é! Tenho uma ratoeira que pega o rato vivo. Até hoje levei para ele três ratos. 
Não aguentei: levantei-me e beijei-a. (...) 

Sinto uma pena imensa daquela criança na sacada da frente. Não posso vê-la como um animalzinho atrás dos arames. Quando eu tinha a idade dela, moramos numa casa de três andares que tinha duas escadas verticais como essas de navio e, no entanto, não me despenquei delas. Muitas vezes ao dia subia e descia nelas. Ninguém me dizia para não fazê-lo. Nem me trancaram atrás dos arames para me protegerem. Circulava livre na casa, e quando ficava inquieta, minha avó me fazia sentar no chão e esvaziava diante de mim o saco com os botões. Os botões que eram juntados ano após ano de roupas velhas que eram para jogar fora. Com aqueles botões tinham brincado todas as crianças da família. Talvez até a minha própria avó. Que lindos botões eram aqueles! Botões de osso, botões de chifre de animal, botões de madre-pérola e de marfim. A madre-pérola, tinha-me dito minha avó, era de conchas. Os botões de marfim eram de dente de elefante. Horas inteiras passava brincando, com tal doçura que me dava água na boca. (...) 

Possivelmente faltassem muitas coisas às crianças da minha época, mas tinham espaço para moverem-se dentro da casa. E a mais pobre casinha daquela época tinha mais espaço interior do que o apartamento de dois cômodos dos atuais edifícios. Depois, tínhamos a rua. Em Istambul, bandos de crianças, na maioria rapazes, transpunham muitas vezes as fronteiras do seu bairro e desapareciam horas a fio. Muitas vezes, nas fronteiras de dois subúrbios, eram misturadas duas nacionalidades, e você escutava os meninos falarem um incrível esperanto feito de grego moderno, turco, hebraico, armênio. Em 1960, quando tínhamos ido Nélli e eu para Istambul, quando encontramos um capitão turco dentro dum barquinho a vapor que ia para as Ilhas dos Príncipes, espantamo-nos com a sua bela língua grega. Perguntamos-lhe onde a aprendeu. Ele sorriu. 

— Aprendi-a brincando com filhos de gregos na rua —, disse-nos. A nossa casa fazia fronteira com um bairro grego e meu primeiro amor era grega. Ela não deu bola para mim, mas a amo até os dias de hoje. 

Com certeza as crianças daquela época em Istambul eram mais felizes do que as de hoje. Mais felizes eram também os idosos. 'Por falar nisso, o que se tornaram todos aqueles idosos? Dentro das casas a gente via então avós, avôs, tias.' Você ficou doente e teve uma pessoa para dar-lhe um copo d'água. 

Agora os idosos estão com os idosos nos asilos, os jovens com os jovens nos estádios e nas discotecas, os bebês nas creches, as crianças pequenas nos jardins de infância e os adultos, homens e mulheres, todos juntos atirando de cabeça no trabalho. (...) 

Não, não posso dizer como as crianças daquela época eram infelizes. Por isso também me dá pena quando assisto hoje a crianças enclausuradas dentro do nosso pátio.

 

II. NOTAS EXPLICATIVAS

 
¹  O nome "Tzortzína" é a variante grega exata para Georgina ou Giorgina. Há a possibilidade de a mencionada Giorgina ser uma das seguintes:
1) Tzortzína Liossi, atriz grega de muito destaque (famosa por séries de televisão locais como Tamam); 
2) Tzortzína Karacháliou, nome de famosa cantora grega que participou de programas de grande audiência na televisão, como o The Voice of Greece e as seletivas nacionais gregas para o festival Eurovision.

²  Punch e Judy são fantoches de luva tipicamente associados à cultura popular do Reino Unido e pertencem a uma tradição britânica muito antiga de teatro de fantoches, cujas origens remontam à Commedia dell'Arte italiana do século XVI (baseado no personagem Pulcinella).
Há um paralelo cultural da Grécia, que possui o seu próprio e famosíssimo teatro de sombras folclórico chamado Karagiózis. Assim como Mr. Punch, o personagem Karagiózis é corcunda, tem um nariz grande e um braço direito longo que serve para representar a malandragem do personagem, e representa uma figura rebelde do povo, servindo frequentemente como o equivalente grego de Punch e Judy em estudos sobre a história mundial dos fantoches.

³  Sra. Panagióta é faxineira que presta serviço para a autora.
 
⁴ Ambelokípi (literalmente, "Jardins de Vinhedos") é o nome de um grande distrito central de Atenas, fazendo fronteira com bairros conhecidos como Zográfou, Goudí e Psychikó. Antigamente a região era uma pacata vila rural repleta de plantações de uva e campos verdes. Antes de se transformar no coração financeiro e residencial que é hoje, a área fornecia vinho e produtos agrícolas para a Atenas histórica. A área é historicamente famosa por abrigar o tradicional estádio do Panathinaikós desde a sua inauguração em 1922. 
A grande transformação do bairro aconteceu em duas fases principais no século XX:
1) A chegada de refugiados (Década de 1920): Após o conflito entre a Grécia e a Turquia em 1922, milhares de refugiados gregos vindos da Ásia Menor se estabeleceram ali. Os antigos campos e vinhedos começaram a dar lugar aos primeiros complexos de habitação popular e edifícios planejados;
2) O "boom" do concreto (Décadas de 1960 e 1970): Durante esse período, Atenas passou por uma urbanização acelerada. Os últimos resquícios verdes de Ambelokípi foram substituídos por grandes avenidas e pelos primeiros arranha-céus da Grécia, como a famosa Torre de Atenas.
 
 
III. BIBLIOGRAFIA sugerida pelo tradutor
 
 
IORDANÍDOU, Maria: O NOSSO PÁTIO, primeiro excerto do livro traduzido por Francisco Braga, consistindo das páginas 11 a 18, publicado pelo Blog do Braga em 17/02/2019

terça-feira, 1 de setembro de 2026

RECUPERE SEU LATIM > > PARTE 25: O MAIOR DESASTRE ESTRUTURAL DA ANTIGUIDADE

Tradução literal do latim, comentários e bibliografia sugerida por Francisco José dos Santos Braga 
 
O colapso do anfiteatro de Fidenae
 
I. INTRODUÇÃO DE “ANAIS” DE TÁCITO, LIVRO IV, cap. 62-63
 
Segundo o site oficial do Guinness World Records, o pior desastre esportivo da Antiguidade ocorreu em Fidenae, perto de Roma, Itália, em 27 A.D. Fidenae era uma cidade do Lácio antigo, localizada a cerca de 8 km ao norte de Roma, na margem esquerda do rio Tibre. Os nascidos ou moradores dessa cidade eram chamados de fidenates. 
Por ser uma cidade muito pequena para ter dezenas de milhares de habitantes próprios envolvidos na tragédia, a multidão que lotava o anfiteatro era composta majoritariamente por moradores de Roma (que ficava a apenas 8 km de distância). 
Antecedentes: A maioria das pessoas viajou de Roma até lá porque o imperador Tibério havia proibido temporariamente os jogos de gladiadores na capital, gerando uma enorme demanda reprimida. 
Quantidade de vítimas: Em vez de um censo prévio, a contagem foi feita após o colapso através de um esforço de emergência médica. Foi o registro de atendimentos públicos e remoção de corpos que serviu de base para os números que os historiadores documentaram mais tarde. 
Subsequentes: Os nobres e cidadãos ricos de Roma abriram suas casas para acolher os feridos. Médicos de toda a região foram requisitados pelo Senado para tratar as vítimas na própria cidade e no trajeto de volta a Roma. 
Relatos históricos ou fontes primárias fundamentais: Tácito, em sua obra Anais (Annales), escreveu que houve 50.000 entre mortos ou gravemente feridos. A sua descrição do trágico desastre em Fidenae encontra-se no quarto livro dos Anais, reconhecido como "o melhor que Tácito já escreveu". Tal livro abrange os anos 23 a 28 A.D., começando quando Tácito notou uma deterioração significativa  no principado do imperador Tibério e a influência cada vez mais malévola de seu "gênio maligno". Já Suetônio, em A Vida dos Doze Césares (De Vita Cæsarum), estimou o número de mortos em 20.000. Vejamos abaixo o texto de cada um desses historiadores.

 
II. TEXTO LATINO DE TÁCITO (“ANAIS”, LIVRO IV, cap. 62-63)
 
Cap. 62: M. Licinio L. Calpurnio consulibus ingentium bellorum cladem aequavit malum improvisum: eius initium simul et finis extitit. nam coepto apud Fidenam amphitheatro Atilius quidam libertini generis, quo spectaculum gladiatorum celebraret, neque fundamenta per solidum subdidit neque firmis nexibus ligneam compagem superstruxit, ut qui non abundantia pecuniae nec municipali ambitione sed in sordidam mercedem id negotium quaesivisset. adfluxere avidi talium, imperitante Tiberio procul voluptatibus habiti, virile ac muliebre secus, omnis aetas, ob propinquitatem loci effusius; unde gravior pestis fuit, conferta mole, dein convulsa, dum ruit intus aut in exteriora effunditur immensamque vim mortalium, spectaculo intentos aut qui circum adstabant, praeceps trahit atque operit. et illi quidem quos principium stragis in mortem adflixerat, ut tali sorte, cruciatum effugere: miserandi magis quos abrupta parte corporis nondum vita deseruerat; qui per diem visu, per noctem ululatibus et gemitu coniuges aut liberos noscebant. iam ceteri fama exciti, hic fratrem, propinquum ille, alius parentes lamentari. etiam quorum diversa de causa amici aut necessarii aberant, pavere tamen; nequedum comperto quos illa vis perculisset, latior ex incerto metus. 

Cap. 63: Ut coepere dimoveri obruta, concursus ad exanimos complectentium, osculantium; et saepe certamen si con fusior facies sed par forma aut aetas errorem adgnoscentibus fecerat. quinquaginta hominum milia eo casu debilitata vel obtrita sunt; cautumque in posterum senatus consulto ne quis gladiatorium munus ederet cui minor quadringentorum milium res neve amphitheatrum imponeretur nisi solo firmitatis spectatae. Atilius in exilium actus est. Ceterum sub recentem cladem patuere procerum domus, fomenta et medici passim praebiti, fuitque urbs per illos dies quamquam maesta facie veterum institutis similis, qui magna post proelia saucios largitione et cura sustentabant. 

Link: https://thelatinlibrary.com/tacitus/tac.ann4.shtml 
 
 
TEXTO DE TÁCITO TRADUZIDO PARA O PORTUGUÊS 
 
Cap. 62. Sendo cônsules M. Licínio e L. Calpúrnio ¹, um desastre imprevisto igualou a calamidade de grandes guerras: começou e terminou ao mesmo tempo. Um certo Atílio — na condição de liberto —, querendo celebrar um espetáculo de gladiadores em Fidenae, construiu um anfiteatro, (mas) sem assentar suas fundações em base sólida nem edificar sobre esta uma estrutura de madeira com conexões firmes; do mesmo modo, como alguém que motivou o empreendimento não por abundância de dinheiro nem por vaidade política local, mas sim com vistas a um lucro sórdido ². Afluíram pessoas ávidas por tais espetáculos — já que no reinado de Tibério foram mantidos longe dos jogos (de gladiadores) —, do sexo viril e feminino, de todas as idades, mais desmedidamente por causa da proximidade do local; donde a calamidade foi mais grave, com a estrutura apinhada de gente, em seguida despedaçada, enquanto rui para o lado de dentro ou se espalha para o lado de fora por sobre uma imensa quantidade de seres humanos, os que estavam atentos (ao espetáculo) ou os que estavam do lado de fora nos arredores, (os quais) o precipício arrasta e sepulta. E aqueles, de fato, a quem o início do colapso tinha arremessado à morte, considerando a circunstância de tal destino, escaparam do tormento: mais dignos de compaixão (foram) os que, embora tivessem partes do corpo decepadas, a (sua) vida ainda não (lhes) havia abandonado; os que, durante o dia pela visão, e durante a noite por uivos e gemidos, reconheciam seus cônjuges ou filhos. Então, os demais, atraídos pelos boatos, lamentavam, este um irmão, aquele um parente, e outro os seus pais. Mesmo aqueles cujos amigos ou entes queridos estavam ausentes por um motivo diferente, ainda assim temeram; e como ainda não se sabia ao certo quem aquela força violenta havia atingido, o medo era ainda maior por causa da incerteza.
 
Cap. 63. Assim que os escombros começaram a ser removidos, houve uma corrida em direção aos mortos por parte daqueles que os abraçavam e beijavam; e frequentemente surgia uma disputa, se um rosto mais desfigurado, mas uma estatura ou idade semelhante, tivesse gerado erro naqueles que tentavam reconhecê-los. Cinquenta mil homens foram mutilados ou esmagados ³ por aquele desastre; e, para o futuro, precaveu-se por meio de um senatusconsulto que ninguém promovesse um espetáculo de gladiadores cujo patrimônio fosse inferior a quatrocentos mil sestércios, e que nenhum anfiteatro fosse erguido a não ser em solo de comprovada solidez. Atílio foi expulso (do território romano) para o exílio. De resto, logo após a recente catástrofe, as mansões dos patrícios ⁴ foram abertas, curativos e médicos foram oferecidos por toda parte; e a cidade ⁵, naqueles dias, embora com uma triste aparência, assemelhava-se aos costumes antigos, quando, após grandes batalhas, amparavam os feridos com generosidade e cuidados ⁶.
 
NOTAS EXPLICATIVAS
 
¹  Outra tradução aceitável é: No consulado de M. Licínio e L. Calpúrnio... Observe que o verbo ser (esse) não possui particípio presente em latim. Trata-se do ablativo absoluto em que o sujeito M. Licinius et L. Calpurnius vai para o ablativo (M. Licinio et L. Calpunio) e o predicativo do sujeito consules também aparece no ablativo (consulibus).
O desastre esportivo aconteceu em 27 A.D. 
 
² Com essas palavras (in sordidam mercedem), Tácito expõe a motivação mesquinha e puramente mercantil do liberto Atílio ao construir o anfiteatro de Fidenae. A frase serve para enfatizar a condenação moral de Tácito à ganância que resultou no colapso estrutural.
 
³ Pode não haver necessariamente uma discrepância entre o número apresentado por Tácito e Suetônio, uma vez que este fala em 20.000 “mortos”, enquanto aquele fala em 50.000 “mortos e feridos”. 
 
⁴ Próceres ou nobres. Ao longo dos séculos (sob a Monarquia, República e Império), foram mantidas divisões de classe muito nítidas. O próprio relato de Tácito ilustra isso: ele cita os proceres (nobres), os libertini (ex-escravos como Atílio) e a linha de riqueza dos 400 mil sestércios (que definia a Ordem Equestre). 
 
⁵ Refere-se a Roma. 
 
⁶Com essa passagem, Tácito conclui de forma solene a narrativa sobre o desabamento do anfiteatro. O elogio ao passado da República Romana (Mos Maiorum) é uma das maiores marcas da filosofia do historiador Tácito. O Mos Maiorum (costume dos maiores ou dos antepassados) era entendido como um conjunto de conduta não escrito, moldado por séculos de tradições, que os romanos consideravam a base do sucesso e da estabilidade de sua civilização, que todo cidadão romano (especialmente os da elite) deveria cultivar. O critério para a licitude ou ilicitude de atos do cidadão era a própria fonte viva do direito (Ius non scriptum), que vigorou plenamente no período arcaico e parcialmente no período clássico, sob a égide da Lei das XII Tábuas que oficializaram esses costumes ancestrais. Como Tácito viveu durante o Alto Império Romano (57 A.D. a 120 A.D.), pode-se considerar que Tácito, sob uma ótica moderna, era ideologicamente retrógrado, conservador e saudosista, mas no contexto intelectual da Roma Antiga, essa postura não era vista como um atraso, mas sim como a expressão máxima do patriotismo e do rigor intelectual. 
 
III. TEXTO LATINO DE SUETÔNIO (“De Vita Cæsarum”), cap. 40,  parágrafo 2
 
Statimque revocante assidua obtestatione populo ¹ propter cladem, qua apud Fidenas supra viginti hominum milia gladiatorio munere ² amphitheatri ruina ³ perierant (...)
 
 
TEXTO DE SUETÔNIO TRADUZIDO PARA O PORTUGUÊS 
 
E enquanto o povo o ⁴ chamava de volta imediatamente, com insistente súplica, por causa da catástrofe em Fidenae, onde mais de vinte mil pessoas haviam morrido na ruína de um anfiteatro durante um espetáculo de gladiadores, (...)
 
NOTAS EXPLICATIVAS 
  
¹  Revocante populo: ablativo absoluto. 
² Gladiatorio munere, expressão no ablativo.  “Munus, -eris” (substantivo neutro) originalmente significava dever sagrado aos mortos, exéquias, funeral, ou também ofício público, ocupação; mais tarde, os “munera” passaram a designar jogos, espetáculos e combates de gladiadores.
³ Ruina, palavra no ablativo. Pode ser traduzido por "na ruína" ou "pelo desabamento".
⁴O imperador Tibério. Como se comportou Tibério quando tomou conhecimento do desastre de Fidenae? No momento do desabamento do anfiteatro de Fidenae no ano 27 A.D., o imperador Tibério estava na ilha de Capri, localizada no Golfo de Nápoles. Exausto das pressões políticas de Roma e de sua relação tensa com o Senado, Tibério havia se retirado para Capri no ano anterior (26 A.D.), onde governava o império à distância a partir de seu palácio fortificado, a famosa Villa Jovis (Vila de Júpiter). Apesar de seu isolamento voluntário, os historiadores antigos registram que o impacto da tragédia civil foi tão profundo que Tibério deixou temporariamente o seu isolamento na ilha de Capri  e retornou ao continente italiano, dirigindo-se imediatamente para a região de Fidenae devido ao clamor e à comoção gerados pela magnitude da calamidade em Fidenae, a fim de coordenar pessoalmente o atendimento médico e os esforços de socorro às dezenas de milhares de vítimas. O impacto do seu gesto na opinião pública foi muito favorável, tendo a aristocracia e o povo de Roma elogiado temporariamente a sua atitude, pois ele demonstrou sua benevolência e presença que há muito faltavam a seu governo. Apesar de ter prestado esse atendimento pessoal, logo após a situação ser controlada, Tibério voltou definitivamente para Capri, de onde continuou governando de forma isolada até sua morte em 37 A.D.
 
 
IV. BIBLIOGRAFIA

CHAMPLIN, Edward: Tiberius and His Age: Myth, Sex, Luxury, and Power. Publicado pela Princeton University Press, 2026, 288 p.
 
GUINNESS WORLD RECORDS: Worst sporting disaster 
 
MARTIN, R. H. & WOODMAN, A. J. (Eds.): Tacitus: Annals Book IV. Publicado pela Cambridge University Press, 1989, 292 p. 
 
NAPOLITANO, Rebecca: Failure at Fidenae: Visualization and analysis of the largest estrutural disaster in the Roman world, tese apresentada como requisito parcial para a obtenção do grau de bacharel em Artes em Física, Connecticut College, 2015, 100 p.
Link: https://digitalcommons.conncoll.edu/physicshp/7/ 

quarta-feira, 26 de agosto de 2026

RECUPERE SEU LATIM > > PARTE 24: SUETÔNIO: PRESSÁGIOS SOBRE A MORTE DE JÚLIO CÉSAR

Tradução literal do latim, comentários e bibliografia sugerida por Francisco José dos Santos Braga 
Caio Suetônio Tranquilo (✰ c. 69 A.D. ✞ c. 141 A.D.)

Caesar: “The ides of March are come.” 
Soothsayer: “Ay, Caesar, but not gone.” 
William Shakespeare: Julius Caesar 

 

 

I. INTRODUÇÃO

Os presságios da morte de Júlio César são relatos mitológicos e históricos célebres, registrados principalmente pelos historiadores antigos Suetônio e Plutarco. Eles indicavam que o ditador romano corria grave perigo antes de ser assassinado nos Idos de Março (15 de março de 44 a.C.).
Os presságios mais famosos documentados pela tradição incluem: o alerta do arúspice ou adivinho Spurinna, os sonhos premonitórios, sinais da natureza (cavalos que choravam, sacrifício de vítimas sem coração e um "pássaro tirano"). 
 

II. TEXTO LATINO DE VITA DIVI JULI in “DE VITA CÆSARUM”  

Cap. 81. (...) Caesari futura caedes evidentibus prodigiis denuntiata est. Paucos ante menses, cum in colonia Capua deducti lege Iulia coloni ad extruendas villas vetustissima sepulcra disjicerent idque eo studiosius facerent, quod aliquantum vasculorum operis antiqui scrutantes reperiebant, tabula aenea in monimento, in quo dicebatur Capys conditor Capuae sepultus, inventa est conscripta litteris verbisque Graecis hac sententia: quandoque ossa Capyis detecta essent, fore ut illo prognatus manu consanguineorum necaretur magnisque mox Italiae cladibus vindicaretur. 
 
Cuius rei, ne quis fabulosam aut commenticiam putet, auctor est Cornelius Balbus, familiarissimus Caesaris. Proximis diebus equorum greges, quos in traiciendo Rubiconi flumini consecrarat ac vagos et sine custode dimiserat, comperit pertinacissime pabulo abstinere ubertimque flere. Et immolantem haruspex Spurinna monuit, caveret periculum, quod non ultra Martias Idus proferretur. 
 
Pridie autem easdem Idus avem regaliolum cum laureo ramulo Pompeianae curiae se inferentem volucres varii generis ex proximo nemore persecutae ibidem discerpserunt. Ea vero nocte, cui inluxit dies caedis, et ipse sibi visus est per quietem interdum supra nubes volitare, alias cum Iove dextram iungere; et Calpurnia uxor imaginata est conlabi fastigium domus maritumque in gremio suo confodi; ac subito cubiculi fores sponte patuerunt. 
 
Ob haec simul et ob infirmam valitudinem diu cunctatus an se contineret et quae apud senatum proposuerat agere differret, tandem Decimo Bruto adhortante, ne frequentis ac iam dudum opperientis destitueret, quinta fere hora progressus est libellumque insidiarum indicem ab obvio quodam porrectum libellis ceteris, quos sinistra manu tenebat, quasi mox lecturus commiscuit. Dein pluribus hostiis caesis, cum litare non posset, introiit curiam spreta religione Spurinnamque irridens et ut falsum arguens, quod sine ulla sua noxa Idus Martiae adessent: quanquam is venisse quidem eas diceret, sed non praeterisse.
 
 
II. TRADUÇÃO por Francisco José dos Santos Braga para Vida de Júlio César Deificado in As Vidas dos Doze Césares 
 
Cap. 81 - (...) o iminente assassinato de César foi prenunciado a ele por prodígios claros. Poucos meses antes, como os colonos, levados para a colônia de Cápua pela Lei Juliana ¹, estivessem demolindo túmulos muito antigos, para construir villas; e estivessem exercendo seu trabalho com o maior zelo porque, ao vasculharem, encontraram uma quantidade de vasos de artesanato antigo, foi descoberta em uma tumba, que se dizia ser a de Capys, o fundador de Cápua, uma placa de bronze, inscrita com palavras e caracteres gregos com este propósito:
“No dia em que os ossos de Capys forem descobertos, acontecerá que um seu descendente será morto pela mão de seus parentes e logo será vingado com perdas para a Itália.” ²
Que ninguém julgue que esta história é fabulosa ou inventada, pois ela é atestada por Cornélio Balbo, um amigo íntimo de César. Nos dias seguintes, ficou sabendo que a manada de cavalos que ele (César) tinha consagrado ao Rio Rubicão ao cruzá-lo, e deixado solta, sem guarda, rejeitava obstinadamente pastar e chorava copiosamente. E enquanto César estava oferecendo um sacrifício, o arúspice ³ Spurinna advertiu-o para tomar cuidado com um perigo, que não seria adiado para além dos Idos de Março. 

Por outro lado, na véspera dos mesmos Idos, uma ave-rei 
⁴, carregando um ramo de louro ⁵, voou em direção à Cúria de Pompeu ⁶, perseguida por outras de várias espécies vindas de um bosque próximo, que a despedaçaram aí mesmo. Quanto à referida noite após a qual rompeu a aurora do dia do assassinato, César sonhou que ele próprio ora sobrevoava as nuvens, ora segurava a mão direita de Júpiter; e sua esposa Calpúrnia sonhou que a cumeeira da casa estava desabando e que seu marido estava sendo esfaqueado nos braços dela; e de repente as portas do quarto se abriram sozinhas. 
 
Tanto por estas razões ⁷ quanto por problemas de saúde, (César) hesitou durante muito tempo se deveria ficar em casa e adiar o que pretendia tratar no Senado; mas finalmente, por exortação de Décimo Bruto ⁸, [César decidiu ir] para não desapontar os [senadores] que já se encontravam reunidos em grande número e esperando por ele há muito tempo. Ele saiu quase no final da quinta hora ⁹; e quando alguém ¹⁰ que vinha ao seu encontro lhe entregou uma petição que denunciava a conspiração, ele a misturou com outras que segurava na mão esquerda, pretendendo lê-los logo. Em seguida, tendo sido sacrificadas várias vítimas, sem que pudesse conseguir presságios favoráveis ¹¹, ele entrou na Cúria, desprezando a religião, zombando de Spurinna e acusando-o de falso, porque os Idos de Março chegaram sem lhe causar danos; embora este tenha dito que eles realmente tinham chegado, mas não tinham ido. 
 
Artemidoro de Cnido entrega bilhete a César denunciando a conspiração - Crédito: Getty Images

 
 
 
III. NOTAS EXPLICATIVAS
 
¹ A Lei Juliana Agrária (Lex Julia Agraria), promulgada em 59 a.C. pertence às reformas agrárias implementadas por Júlio César. Durante o seu primeiro consulado, Júlio César propôs essa medida para resolver dois problemas graves da República Romana: a falta de terras para os cidadãos urbanos empobrecidos e a necessidade de recompensar os soldados veteranos de guerra de Pompeu. Os cidadãos beneficiados eram enviados para estabelecer novas colônias agrícolas (daí o termo "colonos"). Para evitar a especulação imobiliária, os novos colonos não podiam vender as terras recebidas por um período mínimo de 20 anos. 
 
²  A profecia da tabuazinha de bronze de Cápua, narrada por Suetônio, antecipa a trágica e devastadora guerra civil que seguiu o assassinato de Júlio César e culminou na punição dos conjurados, considerados culpados pela morte de César.
Temos a fazer algumas observações sobre o conteúdo da tabuazinha:
1) Poucos meses antes do evento trágico, colonos enviados a Cápua sob a Lei Júlia estavam demolindo túmulos antigos para construir suas casas — uma tarefa que realizavam com especial empenho, pois, ao trabalharem com cuidado, frequentemente descobriam vasos de manufatura antiga. No próprio monumento que, segundo se dizia, abrigava os restos mortais de Cápis, o fundador de Cápua, foi encontrada uma placa de bronze com uma inscrição em grego: "Quando os ossos de Cápis forem descobertos, um descendente de Iulo será assassinado por seus próprios parentes e, logo em seguida, vingado por meio de grande mortandade e luto em toda a Itália".
Para garantir que ninguém descartasse essa história como mito ou invenção, ela foi registrada por Cornélio Balbo, um amigo íntimo de César.
O descendente de Cápys: Refere-se a Júlio César, visto que a gens Júlia (e os troianos fundadores) traçavam sua linhagem mítica até Iulo e Enéias, ligados a essa ancestralidade troiana/Campânia.
2) A morte pelas mãos de parentes: Aponta para a traição dentro do próprio círculo e de aliados/familiares políticos (como Bruto), colaborando ativamente com os conspiradores para o assassinato de César. 
Marco Júnio Bruto era um dos aliados mais próximos e queridos de César. Filho de Servília (a amante mais famosa do ditador), havia rumores na época de que Bruto poderia ser filho biológico de César. Ele foi convencido a liderar a trama porque sua família descendia diretamente de Lucius Junius Brutus, o herói lendário que havia expulsado o último rei de Roma séculos antes. Sua presença dava legitimidade moral ao assassinato.
Suetônio sugere que a última frase real de César teria sido dita em grego: "Kai su, téknon?" (Também tu, meu filho?)
3) A vingança com grandes perdas para a Itália (magnis mox Italiae cladibus): Profetiza com precisão o banho de sangue subsequente das guerras civis lideradas por Marco Antônio e Otaviano contra Bruto e Cássio, além das proscrições e das fomes e crises que castigaram profundamente a península itálica.
4) Segundo relatos de historiadores antigos como Suetônio, nenhum dos assassinos de Júlio César em 44 a.C. sobreviveu por mais de três anos após o crime, morrendo seja em batalha, por suicídio ou assassinados por inimigos políticos.
 
³ Na Roma Antiga, era o nome dado ao sacerdote ou adivinho que previa o futuro examinando as entranhas (especialmente o fígado e os órgãos internos) de animais sacrificados. 
Nos dias que antecederam os Idos de Março, César não estava completamente alheio ao que estava sendo planejado. De acordo com o historiador grego Plutarco, um adivinho advertiu César de que sua vida estaria em perigo o mais tardar nos Idos de Março (15 de março de 44 a.C.). O biógrafo romano Suetônio identifica esse vidente como um Arúspice chamado Spurinna. 
 
⁴  Observe que Suetônio se refere a uma "avis regaliolum". 
Comecemos por verificar que uma das acepções para "avis" é exatamente a de presságio. Observe ainda que a palavra "regaliolum" tem relação direta com o radical do adjetivo latino "regalis", cujo sentido é "real ou de rei", que também deu origem ao termo "regalia" (as coisas ou prerrogativas da realeza). O nosso "regaliolum" é um composto do radical "regalis" + sufixo diminutivo "iolum". 
Outra questão refere-se à palavra "avis", que em português, no caso, imaginamos que possa ser traduzida por pássaro ou passarinho por suas pequenas dimensões (10 cm de comprimento). "Passer, -eris" em latim é o nosso conhecido pardal, uma ave urbana muito comum nas ruas e telhados da Roma antiga. Como os romanos viam pardais o tempo todo, o nome dessa espécie acabou sendo usado no dia a dia para se referir a qualquer ave pequena. A palavra portuguesa "pássaro" vem de "passer", passando por "passaru" do latim vulgar.
Alguns tradutores entendem que esse pássaro-rei tenha a ver com a carriça ou régulo (assim chamado por possuir uma coroa de penas vistosas na cabeça), achando que Suetônio pensava exatamente nesse pássaro com um ramo de louro no bico, quando, no capítulo 81, relata os presságios agourentos ocorridos pouco antes do assassinato do "rei" ou ditador romano nos Idos de Março. O relato de Suetônio nos dá conta de que uma "avis regaliolum" (uma "avezinha-rei" ou carriça/régulo) voou para o interior da Cúria de Pompeu carregando um ramo de louro, e logo em seguida foi perseguida e despedaçada por vários outros tipos de pássaros vindos de um bosque próximo. 
Apesar de ser a carriça uma das menores aves da Europa, há uma fábula de Esopo em que ela conquistou o título de "rei das aves" por sair-se vitoriosa em disputa com a águia na competição pelo teste do voo mais alto. 
 
⁵ O ramo de louro é o símbolo máximo de vitória, triunfo, honra e sabedoria na história ocidental. O louro era associado a Apolo, o deus grego da luz, da poesia, da música e da profecia. Por isso, poetas destacados, artistas e pensadores eram coroados com louros (origem do termo "poeta laureado").
Na Grécia e na Roma Antiga, coroas feitas com ramos de louro eram entregues aos generais que retornavam vitoriosos das guerras e aos atletas campeões dos Jogos Olímpicos. Imperadores romanos (como Júlio César) e, mais tarde, figuras como Napoleão Bonaparte, utilizavam coroas de louro em moedas e pinturas para legitimar seu poder supremo e eterno. 
 
⁶ Cf. Virgílio, Eneida, X, 143. A Cúria de Pompeu será o local do assassinato de César no dia seguinte. 
Recentemente (2012), arqueólogos desenterraram a monumental estrutura em concreto em Torre Argentina, em Roma, com as dimensões de 3m X 2m que pode ter sido erigida por César Augusto para condenar o assassinato de seu tio. A estrutura está na base da Cúria, ou Teatro, de Pompeu, o local onde escritores clássicos narraram que aconteceu o esfaqueamento de Júlio César.
Link: https://www.livescience.com/23900-julius-caesar-assassination-place-discovered.html 
 
⁷ As tais "razões" se referem aos presságios, inclusive ao sonho de Calpúrnia. 
 
⁸Apesar de todos esses sinais e de um forte mal-estar físico, César foi convencido pelo conspirador Décimo Bruto a comparecer à sessão, sob o argumento de que sua ausência seria vista como um insulto ao Senado.
 
⁹  O sistema de contagem romano dividia o período de luz solar (do amanhecer ao pôr do sol) em exatamente 12 horas diárias, independentemente da estação do ano. A "quinta hora" corresponde aproximadamente ao período entre 10h e 11h da manhã (ou, dependendo da estação do ano, estendendo-se até próximo ao meio-dia). A "primeira hora" começava exatamente ao nascer do sol. A "hora sexta" correspondia sempre ao meio-dia exato. Portanto, a quinta hora representava o último intervalo de tempo antes do meio-dia.
 
¹⁰ Artemidoro de Cnido, professor de literatura grega em Roma que conhecia alguns dos conspiradores e tentou salvar a vida de César. 
 
¹¹ O resultado do sacrifício foi decepcionante para César, eis que a vítima (o animal sacrificado) não possuía coração, o que foi considerado um dos piores e mais sinistros presságios da história romana. O terrível augúrio aconteceu da seguinte forma: ao abrir o animal para examinar as entranhas, o arúspice (ou adivinho Spurinna) constatou que faltava o coração na vítima. A reação de César, diante dessa evidência, foi minimizar o aviso divino e ironizar a situação, mostrando-se cético em relação a superstições. Ele declarou que o presságio apenas significava que "ele teria coragem", ou que um animal sem coração não era algo extraordinário na natureza. Logo após ignorar esse e outros avisos (como o seu pesadelo e o de sua esposa Calpúrnia e o famoso alerta "Cuidado com os Idos de Março", ou "Beware the Ides of March", tão recorrente na tragédia de Shakespeare), César seguiu para a Cúria de Pompeu e acabou assassinado por um grupo de senadores conspiradores. Desse golpe político e tiranicídio resultou o seguinte desdobramento: em vez de serem aclamados como heróis defensores da República, os conspiradores tiveram fins trágicos. Quase todos os assassinos de Júlio César foram perseguidos, perderam o poder político em Roma e morreram violentamente ou cometeram suicídio poucos anos após o crime de 44 a.C., derrotados pelas forças do Segundo Triunvirato liderado por Marco Antônio e Otaviano (o mesmo que iria inaugurar o Império Romano, com o título de Otaviano Augusto que lhe seria concedido pelo senado em 27 a.C.).
 
IV. BIBLIOGRAFIA 
 
BRAGA, F.J.S.: RECUPERE SEU LATIM > > PARTE 15: EXCERTOS DA HISTÓRIA ROMANA POR EUTRÓPIO, publicado no Blog do Braga em 16/12/2022
 
SUETÔNIO: DE VITA CÆSARUM: DE VITA DIVI JULI  
 
__________:  A Vida dos Doze Césares, Brasília: Secretaria de Editoração e Publicações do Senado Federal, 2012, 320 p.

sábado, 22 de agosto de 2026

RECUPERE SEU LATIM > > PARTE 23: CÍCERO: CARTAS

Tradução literal do latim, comentários e bibliografia sugerida por Francisco José dos Santos Braga 
Marco Túlio Cícero (✰ 106 a.C., Arpino ✞ 43 a.C., Fórmias)

I. INTRODUÇÃO: visão geral sobre as cartas, sua autoria e seus correspondentes 

Para introduzir o leitor no tema das Cartas de Cícero a Ático, julgo oportuno tomar emprestado o trecho inicial da Introdução das Cartas de Cícero I. Cartas a Ático I, livro publicado pelo Editorial Gredos, mencionado na bibliografia e traduzido por mim do espanhol:
“INTRODUÇÃO por Miguel Rodríguez-Pantoja Márquez 
Os 16 livros de Cartas a Ático contêm quase 50% da correspondência ciceroniana conservada que, se somarmos as respostas de outras pessoas (algo mais de 70), alcança a cifra total de 931 cartas. São, juntamente com as dirigidas a seu irmão Quinto, as mais "privadas" do corpus, tanto no conteúdo (Cícero se expressa muitas vezes com grande espontaneidade, deixando transparecer seus sentimentos mais íntimos ou suas opiniões mais discutíveis) quanto na forma: utiliza o sermo cotidianus das classes cultas de seu tempo, não dessa cadência rítmica das frases que tão zelosamente elabora em boa parte de suas obras (sem excluir não poucas das cartas dirigidas a muitos destinatários), concede amplo espaço à língua grega (não só nas citações e frases, mas também na redação de passagens inteiras como recurso — por sinal algo muito significativo do ponto de vista cultural — para ocultar  questões especialmente delicadas das leituras indiscretas dos entregadores). 
Nelas Marco Túlio "conversa" aberta e livremente quem tem como seu melhor amigo (e conhecido é o valor que dava a esta palavra que, inclusive, foi autor de um tratado, Sobre a Amizade) e a ele confia, comenta e consulta sobre todo tipo de questões, políticas sem dúvida (...), mas também sociais e pessoais. Ao mesmo tempo, as cartas esporadicamente intercaladas de seus correspondentes permitem conhecer outros pontos de vista e outras formas de se expressar. 
A leitura atenta destas páginas, que abarcam cronologicamente 25 anos decisivos na história do Ocidente — de novembro de 68 a novembro de 44 —, proporciona um excelente posto de observação para contemplar o vaivém cotidiano de pessoas e instituições que integram (ou talvez melhor, desintegram) uma sociedade em crise. (...)”

Complementarmente a essas informações, a Wikipédia acrescenta outros dados muito curiosos, que apresentamos aqui para apreciação do leitor:

A coleção Epistulae ad Atticum compreende 16 livros e foi publicada antes de 66 pelo editor e empresário romano Atticus, destinatário desta correspondência de Cícero, da qual era fiel amigo e confidente. “Mais do que todos os outros, Atticus era amado por Cícero, que não tinha um afeto mais intenso e próximo por seu irmão Quinto”, diz Cornelius Nepos, seu colaborador e biógrafo. Desta amizade quotidiana, restam 454 cartas a Atticus (das 813 cartas de Cícero que chegaram até nós) que se retiram do diário e dizem respeito às mais diversas questões. Cornelius Nepos afirmou que Atticus coletou a correspondência em 11 livros. 
Foi Francesco Petrarca quem deu a conhecer as Cartas de Cícero a Ático, preservadas em um manuscrito descoberto em 1345 na biblioteca do capítulo de Verona, do qual ele mandou fazer uma cópia. Esta cópia foi usada pelas edições importantes destas obras, como a de Paolo Manuzio, no século XVI.
A coleção das cartas de Cícero é indubitavelmente a parte mais valiosa e interessante de sua obra literária. Inclui cerca de 800 cartas escritas por ele e perto de 100 por ele recebidas de uma ampla variedade de correspondentes. As cartas cobrem um imenso leque de tópicos, mas acima de tudo fornecem um quadro vivo do próprio Cícero.
”

Tomando como referencial o pano de fundo acima citado, passemos a apreciar trechos de duas cartas a seu amigo Ático, cujo nome completo era Tito Pompônio Ático (em latim, Titus Pomponius Atticus).

Cicero e seus dois Amigos, Ático and Quinto, em sua Villa em Arpinum (1769-70), pelo pintor Richard Wilson - Ashmolean Museum
 
II. TEXTO, TRADUÇÃO E COMENTÁRIOS
 
1) Cartas de Cícero ao amigo Ático 

a) Livro III, carta XXVI 
Scr. Dyrrachi m. Ianuario a. 697 ¹ (57 A.C.).
CICERO ATTICO SAL.  ²
Litterae ³ mihi a Quinto fratre cum senatus consulto quod de me est factum adlatae sunt. Mihi in animo est legum lationem exspectare et, si obtrectabitur, utar auctoritate senatus et potius vita quam patria carebo. Tu, quaeso, festina ad nos venire.
 
Comentário: Para tradução desse texto, proponho alterar a ordem de certas palavras para maior simplificação do nosso trabalho para a seguinte construção:
Adlatae sunt mihi litterae a fratre Quinto cum consulto senatus quod factum est de me.
Recebi uma carta do (meu) irmão Quinto juntamente com um decreto aprovado no senado, sobre mim.
Est mihi in animo expectare lationem legum, et, si obtrectabitur, utar auctoritate senatus, et carebo potius vita quam patria. 
É minha intenção esperar que as leis sejam votadas, e, se se houver oposição, usarei da autoridade do senado, e renunciarei antes à vida do que à pátria.
Tu, quaeso, festina venire ad nos.
Quanto a ti, peço, apressa-te em vir até mim (nós).  
 
¹ (Litterae) scriptae Dirrachi ⁴ mense Ianuario anno 697 (57 A.C.)
Ab urbe condita 697 ou anno urbis conditae 697: no ano 697 da fundação de Roma ou 57 A.C. no nosso calendário.

² A abertura combinava o nome de quem escrevia (no caso nominativo), o nome de quem recebia (no caso dativo) e a saudação. Exemplo: 
Cicero Attico salutem. 
Tradução: "Cícero [deseja] saúde a Ático" ou "Cícero (envia) saudações a Ático" ou ainda "Cícero (envia) cumprimentos a Ático".
Observe que a palavra latina salus assume diversas acepções, dependendo do contexto em que for usada. Pode significar saúde (física e mental), saudação ou cumprimento, ou ainda salvação/segurança/bem-estar. Neste último caso, não nos esqueçamos do célebre aforismo de Cícero: Que o bem-estar do povo seja a lei suprema (em latim: Salus populi suprema lex esto), mencionado em sua obra jurídica e política De Legibus (Das Leis), especificamente no Livro III.

³ Pluralia tantum são palavras que só existem ou só se usam no plural.
Como em português, também no latim alguns substantivos só registram o número plural e se referem a um único objeto e só possuem essa forma. É o caso de castra (acampamento), insidiae (emboscada), etc. 
Litterae (carta) não é um exemplo estrito de pluralia tantum em latim, porque a palavra existe também no singular (littera), com o significado de letra.
 
 
⁴ O antigo Dyrrachium, situado na Illyria, hoje Durrës, estava localizado na costa da Albânia, às margens do Mar Adriático, o terminal ocidental da Via Egnácia, a grande estrada romana que cortava os Bálcans até Bizâncio (atual Istambul). Era por ali que Cícero recebia de forma mais rápida as cartas, boatos e notícias políticas vindas da capital durante este seu exílio. 
Nas cartas de Cícero, essa cidade portuária ganha enorme relevância porque foi o seu principal refúgio durante o exílio em 58 a.C., além de ter sido um ponto estratégico fundamental de comunicações e logística na República Romana. 
 
b) Livro III, carta XXVII
Scr. Dyrrachi ex. m. Ian. a. 697 (57 A.C.).
CICERO ATTICO SAL.

ex tuis litteris et ex re ipsa nos funditus perisse video. te oro ut quibus in rebus tui mei indigebunt nostris miseriis ne desis. ego te, ut scribis, cito videbo.

Da tua carta e pela própria situação, vejo que estou completamente arruinado. Nos assuntos em que os meus (de minha família) precisam de tua ajuda, suplico-te que não nos desampares em nossa miséria. Conforme tua carta, ver-te-ei em breve. 
 
2) Carta de Cícero a sua esposa Terência
 
c) Livro LXIV, carta 22 
Scr. Brundisii ⁵ an. 707 (47 A.C.) 
TULLIUS S. D. TERENTIAE SUAE 
 
S. v. b. e.; e. v. ⁶ Nos cotidie tabellarios nostros exspectamus; qui si venerint, fortasse erimus certiores quid nobis faciendum sit, faciemusque te certiorem statim. Valetudinem tuam cura diligenter. Vale. 
K. Septemb.
 
(Carta) escrita em Brundisi no ano 707 (47 A.C.)
Túlio envia saudações a sua (esposa) Terência
 
Se vais bem, alegro-me; eu vou bem. Todos os dias espero nossos mensageiros. Se eles vierem, talvez ficarei ciente do que devo fazer, e te mantenha informada imediatamente. Cuida diligentemente de tua saúde. Passa bem!
Nas calendas de setembro.
 
⁵ Brundisium (conhecida hoje como Brindisi) ficava localizada na região da Apúlia (Puglia), no sudeste da Itália. A cidade está situada exatamente no "salto da bota" da península italiana, banhada pelas águas do Mar Adriático. Na época, a cidade era o destino final da famosa Via Ápia, a estrada monumental que ligava Roma ao sul do país.
 
⁶ Si vales, bene est; ego valeo. Era comum, na época de Cícero, o uso de diversas fórmulas abreviadas em latim e usadas no cabeçalho para saudar o destinatário.
Nesta carta, há dois tipos dessas fórmulas: S. D. (Salutem Dicit, significando "diz saudações" ou "envia saudações") e S. v. b. e.; e. v. (Si vales, bene est; ego valeo.)
 
3) Carta de Cícero a Curião
 
d) Livro II Ad familiares, carta 4 

Scr. Romae an. 701 (53 A.C.) 
CICERO S. D. C. ⁷ CURIONI ⁸

Epistularum genera multa esse non ignoras sed unum illud certissimum, cuius causa inventa res ipsa est, ut certiores faceremus absentis si quid esset quod eos scire aut nostra aut ipsorum interesset. (...)

Carta escrita em Roma no ano 701 (53 A.C.)
Cícero envia saudações a Curião e aos demais 

Você bem sabe que existem muitos gêneros de cartas, mas um por excelência, por causa do qual a coisa mesma foi inventada, para que mantivéssemos os ausentes informados do que acontece, que importaria ou a nós ou a eles próprios saber. (...)
 
⁷ Nas cartas de Cícero, a sigla S.D.C. significa Salutem Dicit Ceterisque (ou variantes como Salutem Dicit Ceteris). Esta é outra fórmula utilizada na abertura (cabeçalho) da correspondência quando o remetente desejava saudar o destinatário principal e também as demais pessoas ligadas a ele, como familiares, amigos próximos ou membros de uma mesma comitiva, sem precisar listar o nome de cada um individualmente.
 
⁸ O nome completo de Curião, o famoso amigo e correspondente de Cícero, é Caio Escribônio Curião (em latim, Gaius Escribonius Curio). Foi tribuno da plebe em 50 a.C. e amigo íntimo de Marco Antônio. Apesar de sua juventude rebelde e cheia de escândalos, Cícero gostava muito dele, tentou atuar como seu mentor político e lhe enviou várias cartas que sobreviveram na coletânea Epistulae ad Familiares. Mais tarde, Curião mudou de lado e morreu lutando por Júlio César na Guerra Civil. 
 
III. BIBLIOGRAFIA 
 
BRAGA, F. J. S.: RECUPERE O SEU LATIM > > PARTE 3, matéria publicada em 16/12/2017 pelo Blog do Braga
 
______________: CONSPIRAÇÃO CONTRA A REPÚBLICA ROMANA (65-63 a.C.), matéria publicada em 11/04/2016 pelo Blog do Braga
 
______________: RECUPERE SEU LATIM > > PARTE 9: ÚLTIMAS PALAVRAS DE CIRO, O GRANDE, SOBRE A ALMA, matéria publicada em 07/06/2022 pelo Blog do Braga
 
______________: RECUPERE SEU LATIM > > PARTE 19, matéria publicada em 15/03/2024 pelo Blog do Braga
 
______________:  RECUPERE SEU LATIM > > PARTE 21: SOBRE IDADE AVANÇADA, POR CÍCERO, matéria publica em 02/06/2025 pelo Blog do Braga
 
CÍCERO, Marco Túlio: Cartas I. Cartas a Ático I. Madri: Editorial Gredos, 1996, introdução, tradução e notas por Miguel Rodríguez-Pantoja Márquez
Link: https://archive.org/details/ciceron-marco-tulio.-cartas-i.-cartas-a-atico-i-g-1996_202202/page/n1/mode/2up 
 
COSTA, Rafaela Manha da: Cícero e sua relação de amicitia com Ático: dinâmicas financeiras (IAEC), dissertação apresentada à Faculdade de Ciências Humanas e Sociais, Universidade Estadual Paulista “Júlio de Mesquita Filho”, como pré-requisito para obtenção do Título de Mestre em História, 2025, 209 p.
 
WIKIPÉDIA: verbete "Lettres à Atticus"