sábado, 26 de setembro de 2026

Excerto do romance “A COR DA LUA”

Por Alkyóni Papadáki
Traduzido do grego por Francisco José dos Santos Braga

O capítulo traduzido refere-se às páginas 42 a 45 do livro A Cor da Lua. 
Capa de "A Cor da Lua", Ed. Kaléntis, 156 p.

 I. INTRODUÇÃO: apresentação da obra

Lançado originalmente em 1991 e reeditado por editoras importantes na Grécia (como a Kaléntis), o livro é considerado um dos maiores sucessos da carreira da escritora grega Alkyóni Papadáki, considerado um verdadeiro fenômeno cultural e de vendas na Grécia. A obra fez tanto sucesso no país que acabou sendo adaptada para uma série de televisão de grande audiência em 1996 pelo canal grego Antenna (ANT 1), consolidando ainda mais o título no imaginário popular do país. Também foi laureada na Grécia com o 1º prêmio da Sociedade de Literatos Gregos. 
A história é conhecida por seu tom poético, alegórico e profundamente sensível, misturando reflexões sobre os sonhos (que ela descreve como "cor de crepúsculo"), a solidão (representada na cor violeta) e o amor (que tem "a cor da lua cheia"). Embora tenha sido traduzido para idiomas como o espanhol (El color de la luna), o inglês (The Colour of the Moon) e o alemão (Die Farbe des Mondes), "A Cor da Lua" foi e permanece emocionante obra literária infanto-juvenil grega e um aclamado romance social da renomada autora grega Alkyóni Papadáki.  
 
Estilo e Temática 
A obra destaca-se por sua escrita altamente lírica, metafórica e alegórica, característica marcante da prosa de Papadáki. No livro, a autora utiliza personificações e diálogos poéticos profundos entre elementos da natureza (como uma estrela, uma árvore ou uma cerejeira) para refletir sobre os sentimentos humanos e grandes questões existenciais. 
Os diálogos exploram as "cores" abstratas das emoções e das fases da vida: 
• A tristeza: tem a cor do mar agitado quando o sol se põe (um azul profundo e selvagem). 
• Os sonhos: têm a cor do crepúsculo. 
• A solidão: tem a cor da violeta. 
• O amor apaixonado (Érotas): tem a cor da lua cheia. 
O estilo da autora é frequentemente definido como um realismo lírico.
  
Metáforas Sensoriais 
Papadáki usa a natureza, os elementos do cotidiano e a própria luz (ou a falta dela, como a "cor da lua") para externalizar sentimentos internos. A lua, o mar e o vento frequentemente ganham contornos antropomórficos, agindo como espelhos da solidão, do amor ou da busca de identidade dos personagens. 
 
O Legado da Obra 
O livro "A Cor da Lua" serve como uma jornada filosófica de autoconhecimento e amadurecimento emocional, repleto de aforismos e lições de vida sobre a raridade dos momentos felizes e a importância de manter os "olhos do coração" abertos para o mundo. É muito apreciado no cenário da literatura grega contemporânea pela delicadeza com que constrói seus personagens e transmite sua mensagem social e romântica. 
Finalmente, uma das características mais marcantes da obra da autora é o uso de uma linguagem cotidiana que ecoa o falar natural do povo grego. Ao trazer expressões idiomáticas nativas, metáforas, provérbios e ditos populares e nuances culturais para o texto, Papadáki aproxima o leitor da psicologia e da alma de seus personagens, conferindo autenticidade e calor à narrativa. Essas expressões não servem apenas como decoração; elas revelam a bagagem psicológica, a origem social e a visão de mundo dos personagens. Mais do que isso, ela consegue transformar a oralidade grega em alta literatura, evidenciando sua habilidade de unir o popular ao poético.
Resumindo, pode-se dizer que a união desses elementos permite à autora alcançar uma universalidade — embora a linguagem seja profundamente grega e as dores e amores descritos sejam puramente humanos.
 
II. TEXTO TRADUZIDO
 
Frequentemente aos domingos, Fótis tomava o atalho da colina, e subia até o sopé da montanha. Ia à casinha do velho-Gideão. 
O velho amava muito o menino. Emprestava-lhe livros, conversava com ele sobre o ser humano, sobre a vida, sobre as grandes cidades. 
Fótis era o seu único amigo. Certamente também o eram os quatro pintassilgos na gaiola, bem como os pássaros dos campos, para os quais jogava farelos no pátio e cujas canecas enchia com água. Mas o menino tinha um encanto diferente. 
O velho-Gideão! Com aqueles seus olhos azuis escuros. Dois mares bravios que esperavam, dançando, o amanhecer. 
— Mas como você ficou tão sozinho? — o menino se perguntava intrigado. 
— Como assim? Tenho meus pensamentos. Tenho as roseiras. Os pintassilgos! Tenho a ti, meu mais caro amigo... Através de uma frestinha passa todo o amor do mundo, rapaz. Assim como a linha pelo buraco da agulha. Sozinho (sabes) quem é? Aquele que armazena dentro de si a solidão. Você não se cansa de ficar sozinho... O pior é resmungar. Permitir que escorra fel dos teus lábios. Saboreia a tua porção com alegria, sem sujar o lugar onde moras. Toma tua bebida com moderação, e diz (de onde sabes?): "são tantas coisas boas que podem me acontecer a todo momento!" 
— Mas existem algumas pessoas que têm muitos sofrimentos. 
Vejo minha mãe, minha avó. 
— As amarguras são mais numerosas. Mas posso dizer-te uma coisa? Existem milhares de conchas nas praias. É preciso buscá-las para as encontrares. Eu tenho setenta anos. Talvez até mais. Que importância tem isso? Não penses que sei muitas coisas sobre o cosmo ¹. E ainda menos sei sobre mim mesmo. Busco, porém. Não me basta uma vida para a busca saciar-me... 
— Tiveste sorte por viveres tantos anos. 
— E quem te disse como os anos contam, amigo? As horas contam. Os momentos. Tudo que vives em cada momento, tudo que vivemos. 
— Não temes que morrerás? 
— Hoje, pelo menos, estou vivo. Sabes quão importante é isso? Agora estamos juntos! Aperto as tuas mãos, te olho nos olhos. Nunca permitas que o hoje se murche. Não deixes a vida esvair-se como a areia por entre teus dedos. Entendeste? Vive! Não dês o Hoje como penhor daquilo que alguns bolorentos entendem por Amanhã ². O Hoje é só teu, amigo. Ama-o! 
 
Era assim que falavam frequentemente. Depois, saíam ao jardim para regar as roseiras, para limpar as gaiolas, para encher as canecas de água para os pássaros dos campos. E quando terminavam esses serviços, retornavam à cozinha e bebiam tsípouro ³. 
— Ei! Tu. Não queiras competir comigo na bebida. És menino. Traz um pouco de grão-de-bico torrado do armário. Lembra-me de te dar, quando fores embora, umas balas para as meninas. 
E velho-Gideão "entornava" o tsípouro como se fosse água e sorria. 
E as meninas dos olhos dele faziam uma ondinha e dançavam. Dois mares escuros tempestuosos que esperavam sempre algum amanhecer. 
— À tua saúde, menino...  
Há certas pessoas, bem sabes, que ficam sentadas completamente sós, à beira-mar e ficam à espera. Dias, meses, anos... Sentam-se num rochedo e esperam das profundezas do horizonte aparecer o navio. Aquele navio, cuja chaminé foi decorada com a Primavera e cujo leme é guiado pelas aves marinhas. Sabem que ele não virá. Não aches, jamais penses que essas pessoas são tolas. Fica descansado! Sabem muito bem aonde vão os navios, por que vão, quais pessoas controlam os lemes deles. Mas continuam à espera... Estão completamente solitárias ali à beira-mar. A fronte delas está salgada. As mãos delas estão queimadas pelo sol. Os olhos delas, duas canecas que dão de beber água às aves do campo. E ficam à espera... Às vezes, ali mesmo onde estão sentadas em seu rochedo, piscam o olho para Deus. "Beleza, parceiro. Nós nos conhecemos bem. Tudo certo!" E depois se sentam de novo no seu posto e contemplam o mar aberto. [Vamos lá, à tua saúde! Tens ainda muito caminho pela frente.]" ⁴ Agora o teu coração está cheio de pólvora. Ai de ti se não a fizeres explodir algumas vezes. [Traz um pouco de tsípouro ainda. Vamos lá, dá-me essa alegria!] 
 
Certo dia, o velho-Gideão olhava no seu jardim para uma rosa cor-de-rosa que lacrimejou. ⁵  
— Parece o sorriso de Melpo ⁶ —, murmurou. 
A seguir, pegou o seu olhar e o lançou para o fim do horizonte, como um pequeno seixo. 
— Vês as nuvens, Fótis? Vai chover. O tempo piorou; que o diabo o leve! Vamos lá, entremos na gaiola. 
 
 
III. NOTAS EXPLICATIVAS
 
 
¹ Esta frase é uma belíssima demonstração de humildade do velho-Gideão, que, apesar de toda a sua sabedoria, confessa as suas limitações ao menino Fótis.
 
² A expressão "o hoje como penhor do amanhã" significa usar o presente (as ações, escolhas e atitudes de agora) como uma garantia, promessa ou segurança de um futuro melhor.
 
³ Aguardente feita a partir do bagaço de uva, muito forte e transparente, semelhante à grappa italiana ou ao bagaço português.
 
⁴ Indicação de que alguém é jovem e tem toda uma vida para viver e descobrir.
 
⁵ A rosa cor-de-rosa cobriu-se de lágrimas (ou seja, de orvalho).
 
⁶No livro de Alkyóni Papadáki, a personagem fictícia Melpo desempenha um papel profundamente simbólico, atuando como uma espécie de ancoragem emocional e ideal de beleza ou pureza para as memórias dos personagens. O nome dela é evocado sempre que os personagens precisam descrever algo de extrema doçura, beleza ou leveza, como uma rosa cor-de-rosa coberta de orvalho. O sorriso de Melpo simboliza a inocência, a alegria genuína e a esperança em meio às amarguras cotidianas que o velho-Gideão tanto debate com Fótis.
Melpo funciona exatamente como essa lembrança viva de alguém que passou pela vida do velho-Gideão (ou de Fótis) e deixou uma marca de tamanha leveza que o seu simples sorriso virou sinônimo de beleza para eles.
O nome Melpo é o diminutivo de Melpómene, que ironicamente na mitologia grega clássica é a Musa de Tragédia. No entanto, na escrita de Papadáki, o nome ganha contornos de ternura humana, representando aquela pessoa cuja simples lembrança ou presença consegue suavizar o "fel" e o peso da solidão do mundo. 

quarta-feira, 23 de setembro de 2026

Excerto de “O NOSSO PÁTIO”

Por Maria Iordanídou
Traduzido do grego por Francisco José dos Santos Braga

O trecho traduzido refere-se às páginas 24-27, 43-46 e 55 do livro.

Capa do livro "O nosso Pátio" de Maria Iordanídou, ed. Vivliopoleíon tis Estias, 1983.

Quando viemos para esta casa, a primeira coisa que me captou o olhar logo que saí para a sacada foi a sacadinha da frente, que tinham cercado com arame até em cima e parecia com um galinheiro ou jaula de uma fera selvagem. Dentro dessa jaula uma criança de cerca de três anos andava de um lado para o outro como animalzinho preso. Num canto da sacada brinquedos estavam amontoados pelo chão. Nossa Senhora! Quantos brinquedos: grandes carrinhos de plástico, bonecos enormes, elefantes, cavalos, todos inanimados. Porém, a criança não se vira para vê-los. Com suas duas mãos segura a grade e enfia a carinha através da fresta, tentando ver os gatos que andam de um lado para o outro embaixo no pátio. Ou tenta agarrar-se à grade, enganchar-se no arame e trepar mais alto. Certamente se tirarem o arame dessa sacada, a criancinha trepará na grade e cairá, porque lhe falta o sentido do perigo. 

Fora o drama da criança da frente, a minha sacada começou a me divertir. Tenho a impressão de que me encontro em camarote de teatro de marionetes. Marionete de verdade. Toda janela, ou antes, toda porta de sacada, é também um palco. Aqui a gente vê uma Giorgina ¹ adornar-se e mais ali vê o Punch ² bater em Judy. 

No terceiro andar do edifício fronteiriço, está de pé defronte à janela um homem robusto com maiô e dá socos em uma bola que pende do teto. Deve ser um pugilista e se exercita, parece. Na outra janela, está de pé uma dona de casa em frente a uma tábua de passar roupa e passa uma saia. 

No piso térreo do mesmo prédio um homem de meia idade empunha uma bengala e persegue um gato para matá-lo. 

— Agarre-o! — ponho-me a gritar. Mas a sra. Panagióta³, que se achava junto de mim, me interrompe. 
— Sra. Panagióta, — grito —, é preciso que algo seja feito com este sr. Evángelos. 
— Ele não se chama Evángelos, — me diz. 
— Não importa, nós o temos chamado assim, porque me lembra o farmacêutico que tínhamos por vizinho nos Ambelokípi ⁴. 
A sra. Panagióta era minha amiga fiel. Vinha toda manhã às 10 horas e tomava seu café. 
— Querida Panagióta —, digo-lhe —, sabe o que faremos? Achemos algum rato para o soltarmos na casa do sr. Evángelos. 
— E imagina que não o fiz? 
— Não diga! 
— Pois é! Tenho uma ratoeira que pega o rato vivo. Até hoje levei para ele três ratos. 
Não aguentei: levantei-me e beijei-a. (...) 

Sinto uma pena imensa daquela criança na sacada da frente. Não posso vê-la como um animalzinho atrás dos arames. Quando eu tinha a idade dela, moramos numa casa de três andares que tinha duas escadas verticais como essas de navio e, no entanto, não me despenquei delas. Muitas vezes ao dia subia e descia nelas. Ninguém me dizia para não fazê-lo. Nem me trancaram atrás dos arames para me protegerem. Circulava livre na casa, e quando ficava inquieta, minha avó me fazia sentar no chão e esvaziava diante de mim o saco com os botões. Os botões que eram juntados ano após ano de roupas velhas que eram para jogar fora. Com aqueles botões tinham brincado todas as crianças da família. Talvez até a minha própria avó. Que lindos botões eram aqueles! Botões de osso, botões de chifre de animal, botões de madre-pérola e de marfim. A madre-pérola, tinha-me dito minha avó, era de conchas. Os botões de marfim eram de dente de elefante. Horas inteiras passava brincando, com tal doçura que me dava água na boca. (...) 

Possivelmente faltassem muitas coisas às crianças da minha época, mas tinham espaço para moverem-se dentro da casa. E a mais pobre casinha daquela época tinha mais espaço interior do que o apartamento de dois cômodos dos atuais edifícios. Depois, tínhamos a rua. Em Istambul, bandos de crianças, na maioria rapazes, transpunham muitas vezes as fronteiras do seu bairro e desapareciam horas a fio. Muitas vezes, nas fronteiras de dois subúrbios, eram misturadas duas nacionalidades, e você escutava os meninos falarem um incrível esperanto feito de grego moderno, turco, hebraico, armênio. Em 1960, quando tínhamos ido Nélli e eu para Istambul, quando encontramos um capitão turco dentro dum barquinho a vapor que ia para as Ilhas dos Príncipes, espantamo-nos com a sua bela língua grega. Perguntamos-lhe onde a aprendeu. Ele sorriu. 

— Aprendi-a brincando com filhos de gregos na rua —, disse-nos. A nossa casa fazia fronteira com um bairro grego e meu primeiro amor era grega. Ela não deu bola para mim, mas a amo até os dias de hoje. 

Com certeza as crianças daquela época em Istambul eram mais felizes do que as de hoje. Mais felizes eram também os idosos. 'Por falar nisso, o que se tornaram todos aqueles idosos? Dentro das casas a gente via então avós, avôs, tias.' Você ficou doente e teve uma pessoa para dar-lhe um copo d'água. 

Agora os idosos estão com os idosos nos asilos, os jovens com os jovens nos estádios e nas discotecas, os bebês nas creches, as crianças pequenas nos jardins de infância e os adultos, homens e mulheres, todos juntos atirando de cabeça no trabalho. (...) 

Não, não posso dizer como as crianças daquela época eram infelizes. Por isso também me dá pena quando assisto hoje a crianças enclausuradas dentro do nosso pátio.

 

II. NOTAS EXPLICATIVAS

 
¹  O nome "Tzortzína" é a variante grega exata para Georgina ou Giorgina. Há a possibilidade de a mencionada Giorgina ser uma das seguintes:
1) Tzortzína Liossi, atriz grega de muito destaque (famosa por séries de televisão locais como Tamam); 
2) Tzortzína Karacháliou, nome de famosa cantora grega que participou de programas de grande audiência na televisão, como o The Voice of Greece e as seletivas nacionais gregas para o festival Eurovision.

²  Punch e Judy são fantoches de luva tipicamente associados à cultura popular do Reino Unido e pertencem a uma tradição britânica muito antiga de teatro de fantoches, cujas origens remontam à Commedia dell'Arte italiana do século XVI (baseado no personagem Pulcinella).
Há um paralelo cultural da Grécia, que possui o seu próprio e famosíssimo teatro de sombras folclórico chamado Karagiózis. Assim como Mr. Punch, o personagem Karagiózis é corcunda, tem um nariz grande e um braço direito longo que serve para representar a malandragem do personagem, e representa uma figura rebelde do povo, servindo frequentemente como o equivalente grego de Punch e Judy em estudos sobre a história mundial dos fantoches.

³  Sra. Panagióta é faxineira que presta serviço para a autora.
 
⁴ Ambelokípi (literalmente, "Jardins de Vinhedos") é o nome de um grande distrito central de Atenas, fazendo fronteira com bairros conhecidos como Zográfou, Goudí e Psychikó. Antigamente a região era uma pacata vila rural repleta de plantações de uva e campos verdes. Antes de se transformar no coração financeiro e residencial que é hoje, a área fornecia vinho e produtos agrícolas para a Atenas histórica. A área é historicamente famosa por abrigar o tradicional estádio do Panathinaikós desde a sua inauguração em 1922. 
A grande transformação do bairro aconteceu em duas fases principais no século XX:
1) A chegada de refugiados (Década de 1920): Após o conflito entre a Grécia e a Turquia em 1922, milhares de refugiados gregos vindos da Ásia Menor se estabeleceram ali. Os antigos campos e vinhedos começaram a dar lugar aos primeiros complexos de habitação popular e edifícios planejados;
2) O "boom" do concreto (Décadas de 1960 e 1970): Durante esse período, Atenas passou por uma urbanização acelerada. Os últimos resquícios verdes de Ambelokípi foram substituídos por grandes avenidas e pelos primeiros arranha-céus da Grécia, como a famosa Torre de Atenas.
 
 
III. BIBLIOGRAFIA sugerida pelo tradutor
 
 
IORDANÍDOU, Maria: O NOSSO PÁTIO, primeiro excerto do livro traduzido por Francisco Braga, consistindo das páginas 11 a 18, publicado pelo Blog do Braga em 17/02/2019

terça-feira, 1 de setembro de 2026

RECUPERE SEU LATIM > > PARTE 25: O MAIOR DESASTRE ESTRUTURAL DA ANTIGUIDADE

Tradução literal do latim, comentários e bibliografia sugerida por Francisco José dos Santos Braga 
 
O colapso do anfiteatro de Fidenae
 
I. INTRODUÇÃO DE “ANAIS” DE TÁCITO, LIVRO IV, cap. 62-63
 
Segundo o site oficial do Guinness World Records, o pior desastre esportivo da Antiguidade ocorreu em Fidenae, perto de Roma, Itália, em 27 A.D. Fidenae era uma cidade do Lácio antigo, localizada a cerca de 8 km ao norte de Roma, na margem esquerda do rio Tibre. Os nascidos ou moradores dessa cidade eram chamados de fidenates. 
Por ser uma cidade muito pequena para ter dezenas de milhares de habitantes próprios envolvidos na tragédia, a multidão que lotava o anfiteatro era composta majoritariamente por moradores de Roma (que ficava a apenas 8 km de distância). 
Antecedentes: A maioria das pessoas viajou de Roma até lá porque o imperador Tibério havia proibido temporariamente os jogos de gladiadores na capital, gerando uma enorme demanda reprimida. 
Quantidade de vítimas: Em vez de um censo prévio, a contagem foi feita após o colapso através de um esforço de emergência médica. Foi o registro de atendimentos públicos e remoção de corpos que serviu de base para os números que os historiadores documentaram mais tarde. 
Subsequentes: Os nobres e cidadãos ricos de Roma abriram suas casas para acolher os feridos. Médicos de toda a região foram requisitados pelo Senado para tratar as vítimas na própria cidade e no trajeto de volta a Roma. 
Relatos históricos ou fontes primárias fundamentais: Tácito, em sua obra Anais (Annales), escreveu que houve 50.000 entre mortos ou gravemente feridos. A sua descrição do trágico desastre em Fidenae encontra-se no quarto livro dos Anais, reconhecido como "o melhor que Tácito já escreveu". Tal livro abrange os anos 23 a 28 A.D., começando quando Tácito notou uma deterioração significativa  no principado do imperador Tibério e a influência cada vez mais malévola de seu "gênio maligno". Já Suetônio, em A Vida dos Doze Césares (De Vita Cæsarum), estimou o número de mortos em 20.000. Vejamos abaixo o texto de cada um desses historiadores.

 
II. TEXTO LATINO DE TÁCITO (“ANAIS”, LIVRO IV, cap. 62-63)
 
Cap. 62: M. Licinio L. Calpurnio consulibus ingentium bellorum cladem aequavit malum improvisum: eius initium simul et finis extitit. nam coepto apud Fidenam amphitheatro Atilius quidam libertini generis, quo spectaculum gladiatorum celebraret, neque fundamenta per solidum subdidit neque firmis nexibus ligneam compagem superstruxit, ut qui non abundantia pecuniae nec municipali ambitione sed in sordidam mercedem id negotium quaesivisset. adfluxere avidi talium, imperitante Tiberio procul voluptatibus habiti, virile ac muliebre secus, omnis aetas, ob propinquitatem loci effusius; unde gravior pestis fuit, conferta mole, dein convulsa, dum ruit intus aut in exteriora effunditur immensamque vim mortalium, spectaculo intentos aut qui circum adstabant, praeceps trahit atque operit. et illi quidem quos principium stragis in mortem adflixerat, ut tali sorte, cruciatum effugere: miserandi magis quos abrupta parte corporis nondum vita deseruerat; qui per diem visu, per noctem ululatibus et gemitu coniuges aut liberos noscebant. iam ceteri fama exciti, hic fratrem, propinquum ille, alius parentes lamentari. etiam quorum diversa de causa amici aut necessarii aberant, pavere tamen; nequedum comperto quos illa vis perculisset, latior ex incerto metus. 

Cap. 63: Ut coepere dimoveri obruta, concursus ad exanimos complectentium, osculantium; et saepe certamen si con fusior facies sed par forma aut aetas errorem adgnoscentibus fecerat. quinquaginta hominum milia eo casu debilitata vel obtrita sunt; cautumque in posterum senatus consulto ne quis gladiatorium munus ederet cui minor quadringentorum milium res neve amphitheatrum imponeretur nisi solo firmitatis spectatae. Atilius in exilium actus est. Ceterum sub recentem cladem patuere procerum domus, fomenta et medici passim praebiti, fuitque urbs per illos dies quamquam maesta facie veterum institutis similis, qui magna post proelia saucios largitione et cura sustentabant. 

Link: https://thelatinlibrary.com/tacitus/tac.ann4.shtml 
 
 
TEXTO DE TÁCITO TRADUZIDO PARA O PORTUGUÊS 
 
Cap. 62. Sendo cônsules M. Licínio e L. Calpúrnio ¹, um desastre imprevisto igualou a calamidade de grandes guerras: começou e terminou ao mesmo tempo. Um certo Atílio — na condição de liberto —, querendo celebrar um espetáculo de gladiadores em Fidenae, construiu um anfiteatro, (mas) sem assentar suas fundações em base sólida nem edificar sobre esta uma estrutura de madeira com conexões firmes; do mesmo modo, como alguém que motivou o empreendimento não por abundância de dinheiro nem por vaidade política local, mas sim com vistas a um lucro sórdido ². Afluíram pessoas ávidas por tais espetáculos — já que no reinado de Tibério foram mantidos longe dos jogos (de gladiadores) —, do sexo viril e feminino, de todas as idades, mais desmedidamente por causa da proximidade do local; donde a calamidade foi mais grave, com a estrutura apinhada de gente, em seguida despedaçada, enquanto rui para o lado de dentro ou se espalha para o lado de fora por sobre uma imensa quantidade de seres humanos, os que estavam atentos (ao espetáculo) ou os que estavam do lado de fora nos arredores, (os quais) o precipício arrasta e sepulta. E aqueles, de fato, a quem o início do colapso tinha arremessado à morte, considerando a circunstância de tal destino, escaparam do tormento: mais dignos de compaixão (foram) os que, embora tivessem partes do corpo decepadas, a (sua) vida ainda não (lhes) havia abandonado; os que, durante o dia pela visão, e durante a noite por uivos e gemidos, reconheciam seus cônjuges ou filhos. Então, os demais, atraídos pelos boatos, lamentavam, este um irmão, aquele um parente, e outro os seus pais. Mesmo aqueles cujos amigos ou entes queridos estavam ausentes por um motivo diferente, ainda assim temeram; e como ainda não se sabia ao certo quem aquela força violenta havia atingido, o medo era ainda maior por causa da incerteza.
 
Cap. 63. Assim que os escombros começaram a ser removidos, houve uma corrida em direção aos mortos por parte daqueles que os abraçavam e beijavam; e frequentemente surgia uma disputa, se um rosto mais desfigurado, mas uma estatura ou idade semelhante, tivesse gerado erro naqueles que tentavam reconhecê-los. Cinquenta mil homens foram mutilados ou esmagados ³ por aquele desastre; e, para o futuro, precaveu-se por meio de um senatusconsulto que ninguém promovesse um espetáculo de gladiadores cujo patrimônio fosse inferior a quatrocentos mil sestércios, e que nenhum anfiteatro fosse erguido a não ser em solo de comprovada solidez. Atílio foi expulso (do território romano) para o exílio. De resto, logo após a recente catástrofe, as mansões dos patrícios ⁴ foram abertas, curativos e médicos foram oferecidos por toda parte; e a cidade ⁵, naqueles dias, embora com uma triste aparência, assemelhava-se aos costumes antigos, quando, após grandes batalhas, amparavam os feridos com generosidade e cuidados ⁶.
 
NOTAS EXPLICATIVAS
 
¹  Outra tradução aceitável é: No consulado de M. Licínio e L. Calpúrnio... Observe que o verbo ser (esse) não possui particípio presente em latim. Trata-se do ablativo absoluto em que o sujeito M. Licinius et L. Calpurnius vai para o ablativo (M. Licinio et L. Calpunio) e o predicativo do sujeito consules também aparece no ablativo (consulibus).
O desastre esportivo aconteceu em 27 A.D. 
 
² Com essas palavras (in sordidam mercedem), Tácito expõe a motivação mesquinha e puramente mercantil do liberto Atílio ao construir o anfiteatro de Fidenae. A frase serve para enfatizar a condenação moral de Tácito à ganância que resultou no colapso estrutural.
 
³ Pode não haver necessariamente uma discrepância entre o número apresentado por Tácito e Suetônio, uma vez que este fala em 20.000 “mortos”, enquanto aquele fala em 50.000 “mortos e feridos”. 
 
⁴ Próceres ou nobres. Ao longo dos séculos (sob a Monarquia, República e Império), foram mantidas divisões de classe muito nítidas. O próprio relato de Tácito ilustra isso: ele cita os proceres (nobres), os libertini (ex-escravos como Atílio) e a linha de riqueza dos 400 mil sestércios (que definia a Ordem Equestre). 
 
⁵ Refere-se a Roma. 
 
⁶Com essa passagem, Tácito conclui de forma solene a narrativa sobre o desabamento do anfiteatro. O elogio ao passado da República Romana (Mos Maiorum) é uma das maiores marcas da filosofia do historiador Tácito. O Mos Maiorum (costume dos maiores ou dos antepassados) era entendido como um conjunto de conduta não escrito, moldado por séculos de tradições, que os romanos consideravam a base do sucesso e da estabilidade de sua civilização, que todo cidadão romano (especialmente os da elite) deveria cultivar. O critério para a licitude ou ilicitude de atos do cidadão era a própria fonte viva do direito (Ius non scriptum), que vigorou plenamente no período arcaico e parcialmente no período clássico, sob a égide da Lei das XII Tábuas que oficializaram esses costumes ancestrais. Como Tácito viveu durante o Alto Império Romano (57 A.D. a 120 A.D.), pode-se considerar que Tácito, sob uma ótica moderna, era ideologicamente retrógrado, conservador e saudosista, mas no contexto intelectual da Roma Antiga, essa postura não era vista como um atraso, mas sim como a expressão máxima do patriotismo e do rigor intelectual. 
 
III. TEXTO LATINO DE SUETÔNIO (“De Vita Cæsarum”), cap. 40,  parágrafo 2
 
Statimque revocante assidua obtestatione populo ¹ propter cladem, qua apud Fidenas supra viginti hominum milia gladiatorio munere ² amphitheatri ruina ³ perierant (...)
 
 
TEXTO DE SUETÔNIO TRADUZIDO PARA O PORTUGUÊS 
 
E enquanto o povo o ⁴ chamava de volta imediatamente, com insistente súplica, por causa da catástrofe em Fidenae, onde mais de vinte mil pessoas haviam morrido na ruína de um anfiteatro durante um espetáculo de gladiadores, (...)
 
NOTAS EXPLICATIVAS 
  
¹  Revocante populo: ablativo absoluto. 
² Gladiatorio munere, expressão no ablativo.  “Munus, -eris” (substantivo neutro) originalmente significava dever sagrado aos mortos, exéquias, funeral, ou também ofício público, ocupação; mais tarde, os “munera” passaram a designar jogos, espetáculos e combates de gladiadores.
³ Ruina, palavra no ablativo. Pode ser traduzido por "na ruína" ou "pelo desabamento".
⁴O imperador Tibério. Como se comportou Tibério quando tomou conhecimento do desastre de Fidenae? No momento do desabamento do anfiteatro de Fidenae no ano 27 A.D., o imperador Tibério estava na ilha de Capri, localizada no Golfo de Nápoles. Exausto das pressões políticas de Roma e de sua relação tensa com o Senado, Tibério havia se retirado para Capri no ano anterior (26 A.D.), onde governava o império à distância a partir de seu palácio fortificado, a famosa Villa Jovis (Vila de Júpiter). Apesar de seu isolamento voluntário, os historiadores antigos registram que o impacto da tragédia civil foi tão profundo que Tibério deixou temporariamente o seu isolamento na ilha de Capri  e retornou ao continente italiano, dirigindo-se imediatamente para a região de Fidenae devido ao clamor e à comoção gerados pela magnitude da calamidade em Fidenae, a fim de coordenar pessoalmente o atendimento médico e os esforços de socorro às dezenas de milhares de vítimas. O impacto do seu gesto na opinião pública foi muito favorável, tendo a aristocracia e o povo de Roma elogiado temporariamente a sua atitude, pois ele demonstrou sua benevolência e presença que há muito faltavam a seu governo. Apesar de ter prestado esse atendimento pessoal, logo após a situação ser controlada, Tibério voltou definitivamente para Capri, de onde continuou governando de forma isolada até sua morte em 37 A.D.
 
 
IV. BIBLIOGRAFIA

CHAMPLIN, Edward: Tiberius and His Age: Myth, Sex, Luxury, and Power. Publicado pela Princeton University Press, 2026, 288 p.
 
GUINNESS WORLD RECORDS: Worst sporting disaster 
 
MARTIN, R. H. & WOODMAN, A. J. (Eds.): Tacitus: Annals Book IV. Publicado pela Cambridge University Press, 1989, 292 p. 
 
NAPOLITANO, Rebecca: Failure at Fidenae: Visualization and analysis of the largest estrutural disaster in the Roman world, tese apresentada como requisito parcial para a obtenção do grau de bacharel em Artes em Física, Connecticut College, 2015, 100 p.
Link: https://digitalcommons.conncoll.edu/physicshp/7/