sexta-feira, 26 de outubro de 2018

Duo Rute Pardini & Francisco Braga - INVOCAÇÃO EM DEFESA DA PÁTRIA


Por Rute Pardini e Francisco Braga



I. INVOCAÇÃO EM DEFESA DA PÁTRIA, W439 

Estilo: "Canto Cívico-Religioso"
Poesia: Manuel Bandeira
Música: Heitor Villa-Lobos

Oh natureza, do meu Brasil,
Mãe altiva de uma raça livre
Tua existência será eterna,
E teus filhos velam tua grandeza (2x)

Oh meu Brasil!
És a Canaã,
És o paraíso para o estrangeiro.

Amigos, clarins da aurora,
Cantai vibrantes
A glória do nosso Brasil.

Oh divino onipotente!
Permiti que a nossa terra
Viva em paz alegremente,
Preservai o horror da guerra.

Zelai pelas campinas,
Céus e mares do Brasil,
Tão amados de seus filhos.

Que estes sejam como irmãos,
Sempre unidos, sempre amigos.
Inspirai-lhes o sagrado,
Santo amor da liberdade,
Concedei a essa pátria querida,
Prosperidade e fartura

Oh divino onipotente!
Permiti que a nossa terra
Viva em paz, alegremente,
Preservai o horror da guerra.

Clarins da aurora!
Cantai vibrantes
A glória do nosso Brasil!



II. COMENTÁRIOS 

Esta canção patriótica para solista, coro misto e orquestra é baseada em letra de Manuel Bandeira e música de Villa-Lobos, que a nomeou “canto cívico-religioso”, e é dedicada a Violeta Coelho Netto de Freitas. Também existe a versão desta obra para coro feminino a cappela a quatro vozes.
Sua estreia foi em 28/10/1943 no Teatro Municipal no Rio de Janeiro, sob a regência de Villa-Lobos.

[COLARUSSO, 2017] escreveu: “(...) Durante o governo de Getúlio Vargas (1930-1945) Villa-Lobos empreendeu o mais importante programa de educação musical que o Brasil já teve até hoje. Com forte apoio do governo estrutura um ambicioso programa de educação musical (Canto orfeônico), educação esta que passou a ser obrigatória. (...) Uma época de um patriotismo exacerbado de obras como Invocação à Defesa da Pátria (1943- texto de Manuel Bandeira) e a trilha sonora do filme O Descobrimento do Brasil, filme de Humberto Mauro de 1936, que levaram o compositor a ser criticado por seu comprometimento com o Estado Novo. Para Villa-Lobos este comprometimento não passava por qualquer viés ideológico e sim por uma oportunidade de ouro para divulgar e praticar a atividade musical. (...)”

Cf. COLARUSSO, Osvaldo: 130 anos de Villa-Lobos, o inventor do “som musical” brasileiro, Revista Prosa Verso e Arte

Ao ouvirmos essa peça, identificamos um Villa-Lobos (1887-1959) multíplice e inesgotável, sinfônico e vocal. É possível também vislumbrar as magnas proporções da figura de Villa-Lobos como educador musical, quando regia milhares de crianças e adolescentes nas concentrações do Dia da Pátria.

Na primeira parte onde o coro canta junto da grande orquestra (do começo até Prosperidade e fartura). Até aqui temos apenas a primeira parte, onde o coro canta acompanhado pela grande orquestra.

Em seguida, é o momento mais belo: o da oração feita pela solista, em Defesa da Pátria. Neste instante, plena de emoção, ela pede a Deus a Sua divina proteção a todos os brasileiros. Ó meu Deus Divino Onipotente, cuide de sua nação, que ora precisa de sua proteção! Amém.

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A NOSSA GRAVAÇÃO

A nossa gravação consistiu de uma redução para piano e sopranos (I e II), que, no caso da voz, foi interpretada pela mesma cantora, Rute Pardini, acompanhada ao piano por seu esposo, Francisco Braga. A introdução orquestral de grandes efeitos foi eliminada, ficando reduzida a um único compasso quaternário no piano constituído pelo lá central do piano (lá 3, 440 Hz), prolongado pela adição de uma fermata. Os compassos seguintes já dão o start para as duas Sopranos I e II, a primeira solando e a segunda fazendo o contracanto.

A gravação não foi feita nos rígidos padrões que se requerem para a obtenção de um resultado que agrade aos mais refinados gostos. Ambos nos dirigimos ao piano num ímpeto e foi feita uma gravação no i-Phone com o piano e a solista (soprano I), sem qualquer preparo, isto é, à primeira vista. A segunda gravação foi realizada por Rute também no mesmo i-Phone cantando a parte da soprano II, com o apoio da gravação anteriormente obtida. Depois, um técnico de áudio são-joanense, Beto Rodrigues, no seu estúdio, fez a edição das duas gravações, aperfeiçoando a sonoridade com seus recursos de sonorização. Quanto a Rute, ela teve o cuidado especial de cantar os versos de maneira bem articulada, embora legato, como queria o compositor Villa-Lobos. Dessa forma, foi possível conseguir que se projetasse a maravilha da letra do poema de nosso tão conhecido, e ao mesmo tempo esquecido, Manuel Bandeira. 

Simples é que agora sentimos que seja o momento certo de promover nosso querido poeta recifense, nascido na cidade do Recife, Pernambuco, em 19 de abril de 1886, e que partiu desta vida em 12 de outubro de 1968. Então, eis a boa oportunidade de comemorarmos também aqui o jubileu de ouro de sua morte. 

Tivemos também a grande dádiva de Deus por ter Heitor Villa-Lobos musicado com tanta inspiração e respeito essa linda canção/oração de Manuel Bandeira.

Então fica aqui nosso carinho a todos vocês, nossos amigos, e nossa homenagem cívica à nossa Pátria Mãe, tão Gentil, que sempre nos abraça a todos sem distinção.

Consideramos que, embora seja uma composição para solista, coro e orquestra, é possível simplificar a sua estrutura para servir mais à prosódia musical e possibilitar sua maior divulgação como um hino cívico, em grupos escolares e em eventos comemorativos. Foi pensando nisso que nosso Duo fez a transposição da tonalidade original (sol menor) para uma quarta abaixo (ré menor), possibilitando não só uma melhor compreensão da linda letra do poema, mas também popularizando, de certa forma, uma partitura escrita originalmente para soprano solista (cantora lírica, operística) de elevada altura vocal, acompanhada por coro misto e grande orquestra. Foi assim que trabalhamos com a nova tonalidade mais confortável (em ré menor) para entoação do “canto cívico-religioso”. Em suma, a ideia que tivemos foi simplesmente adaptar uma canção/oração que foi composta originalmente para apresentação em palcos operísticos e torná-la acessível ao grande público, constituído de nós cidadãos comuns brasileiros, isto é, foi modificar o seu formato, possibilitando em última análise popularizá-lo. Acreditamos ser possível viralizarem matérias de cunho cultural/patriótico na Internet. Seriam então virais positivos, já que a web reconhecidamente é um campo fértil para proliferação de virais, selfies, memes e outras modalidades de breves expressões do pensamento.

Desta forma, foi possível juntar as duas partes, solo e contracanto, na mais bela forma de canção brasileira, legítima “preghiera” em sua defesa da Pátria! Amém! Nosso abraço a todos vocês,
Rute Pardini e Francisco Braga

terça-feira, 23 de outubro de 2018

OS ALERTAS DO JORNAL FINANCIAL TIMES PARA A EUFORIA DO PRIMEIRO-MINISTRO GREGO TSIPRAS


Por Francisco José dos Santos Braga

 

I. INTRODUÇÃO


Em uma década de crise e profunda recessão, iniciada com a quebra do banco Lehmann Brothers, a Grécia já passou por três pacotes de resgate e ainda tem uma dívida que corresponde a 180% do Produto Interno Bruto (PIB). O terceiro pacote de resgate terminou no dia 20 de agosto de 2018, mas a avaliação é de que o país continuará submetido a uma extrema vigilância de seus credores. Cerca de 500 mil gregos já deixaram o país desde que a crise se agravou.

A revista Exame, em conexão com a Agence France-Presse (AFP), fez a cobertura do otimismo que tomou conta do primeiro-ministro, em artigo datado do dia 21/10/2018, intitulado "A Grécia assume hoje seu destino, diz primeiro-ministro", com o subtítulo "O primeiro-ministro Alexis Tsipras comemorou o final das políticas de austeridade e de recessão aplicadas desde 2010". A euforia dele deveu-se a saída da Grécia do 3º programa grego de resgate. Por representar um bom retrato desse importante momento histórico para a Grécia, entendo ser conveniente reproduzir na íntegra aqui todo o artigo, que é curto:
 
A Grécia assume hoje seu destino, disse nesta terça-feira o primeiro-ministro grego, Alexis Tsipras, em uma mensagem televisionada da ilha de Ítaca, símbolo da longa viagem de Ulisses.
A Grécia recebeu 289 bilhões de euros em empréstimos em três programas em oito anos (Yiorgos Kontarinis/Eurokinissi/Reuters)

Tsipras quis marcar o primeiro dia da “nova era” de seu país “livre dos planos de ajuda internacional e da tutela dos credores que pesou sobre o país durante os últimos oito anos”, disse de Ítaca, mar Jônico, ponto de partida e de regresso de Ulisses em ‘A Odisseia’ de Homero.

O primeiro-ministro disse que “um novo dia chegou” para a Grécia. “Um dia histórico (…) o do final das políticas de austeridade e de recessão”, ressaltou.

Em seu discurso, ele fez várias referências a ‘A Odisseia’, comparando a valentia dos Gregos com a de Ulisses.

“A Odisseia moderna que nosso país tem atravessado desde 2010 chegou ao fim”, acrescentou, sobre a conclusão de oito anos de reformas impostas à Grécia por seus credores, a União Europeia (UE) e o Fundo Monetário Internacional (FMI), com base em redução de salários e aposentadorias e no aumento de impostos.

No total, a Grécia recebeu 289 bilhões de euros em empréstimos em três programas (2010, 2012 e 2015).

A Grécia é o último país, depois de Portugal, Irlanda, Espanha e Chipre, a sair dos programas de ajuda internacionais.




II. QUEDA DE BRAÇO ENTRE O FINANCIAL TIMES E O GOVERNO GREGO DO PRIMEIRO-MINISTRO ALÉXIS TSÍPRAS

O jornal Financial Times responde a Aléxis Tsípras sobre a saída da Grécia dos “Memorandos”, ou seja, do programa de ajuda financeira da União Europeia, em minha tradução do conteúdo do vídeo in https://youtu.be/XBJkcHc28DU)

・A Grécia está saindo de um programa de assistência financeira, mas a economia está muito atrás do nível pré-crise.
・O desemprego beira os 20% ⏤ aproximadamente 1.000.000 de pessoas desempregadas.
・O desemprego grego está em nível mais do que o dobro de antes da crise, comparando maio/2007 com maio/2018.
・Os empréstimos pessoais (de consumidores), para empresas e para aquisição de imóveis continuam inadimplentes.
・Aproximadamente metade de todos os empréstimos estão inadimplentes.
・O tamanho dos empréstimos inadimplentes é 8 vezes maior do que os níveis pré-crise.
・O PIB está 3,5% maior do que a média de 2015.
・Mas permanece 25% abaixo dos níveis de 2007.
・O PIB previsto para 2023 será 17% abaixo dos níveis de 2007.
・O PIB grego está recuperando, mas está contraído.
・O investimento está 70% abaixo dos níveis do pico pré-crise.
・Os preços dos imóveis estão 42% mais baratos.
・Os preços dos imóveis despencaram 42% dos níveis da época pré-crise.
・A Grécia é o 4º país mais pobre da União Europeia.
・(Vem) depois da Bulgária, Croácia e Romênia.
 
Essa foi a resposta do Financial Times a Tsípras a respeito de a Grécia deixar os “Memorandos”.
Embora o governo compartilhado de esquerda possa engambelar os Gregos com contos de fadas sobre a suposta saída dos “Memorandos”, as evidências econômicas reais sobre a terrível situação financeira grega é inexorável!
A Grécia é o 4º país mais pobre da Europa.



Donald Tusk, president of the European Council, tuitou em 19/8/2018: “You did it! Congratulations to Greece and its people on ending the programme of financial assistance. With huge efforts and European solidarity you seized the day.

(Minha tradução: Por ocasião do fim do 3º programa grego de resgate, Donald Tusk, presidente do Conselho Europeu, tuitou em 19/8/2018: “Vocês conseguiram! Parabéns à Grécia e ao seu povo por chegar ao fim do programa de assistência financeira. Com enormes esforços e a solidariedade europeia, vocês podem aproveitar o dia de hoje (carpe diem).”)

Em 20/8/2018, Lionel Barber, editor do Financial Times, em relação ao comentário de Donald Tusk no Twitter, replicou: “Greece will never repay its mountain of debt. This is more extend and pretend to cover up for European banks who lent irresponsibly. Greece may have been “corrupt to the bone” (ex PM A Papandreou), but Greeks did not deserve this treatment. Explains (partly) why EU so unpopular.

(Minha tradução: No dia seguinte, Lionel Barber, editor do Financial Times, em relação ao comentário de Donald Tusk no Twitter, replicou: “A Grécia nunca saldará sua montanha de dívida. A saída (grega dos "Memorandos") é simplesmente outro antídoto temporário para encobrir os empréstimos irresponsáveis dos bancos europeus. A Grécia pode ter sido corrupta ‘como o osso’ (como tinha dito o seu ex-Primeiro- Ministro, Andréas Papandréou), mas os Gregos não mereciam este tratamento. Isso explica, em parte, porque a União Europeia é tão impopular”.)


quarta-feira, 17 de outubro de 2018

VIAGEM AO REDOR DE UMA FRASE ATRIBUÍDA AO IMPERADOR CARLOS V


Por Francisco José dos Santos Braga
 

Mikhaíl Vasíl'evich LOMONÓSOV (1711-1765), grande cientista e defensor da ciência russa e criador da gramática científica russa, o qual, por tais feitos, deu seu nome à Universidade Estatal de Moscou (MGU), teria escrito o seguinte, segundo [BABAITSEVA, 2013, 116]:
"Карл Пятый, римский император, говоривал,  что испанским языком с Богом, французским с друзьями, немецким с неприятелями, итальянским с женским полом говорить прилично. Но если бы он российскому языку был искусен, то, конечно, к тому присовокупил бы, что им со всеми оными говорить пристойно,  ибо нашел бы в нем великолепие испанского, живость французского, крепость немецкого, нежность итальянского, сверх того богатство и сильную в изображениях краткость греческого и латинского языка."
Михаил Васильевич Ломоносов 

Minha tradução:
 
Carlos V ¹, imperador romano ², costumava dizer que era decente falar em espanhol com Deus, em francês com amigos, em alemão com inimigos ³, em italiano com as damas. Mas se ele fosse habilidoso na língua russa, então, decerto, a isso teria acrescentado que era possível falar decentemente com todos: tanto com Deus, quanto com os amigos, com os inimigos, assim como com as damas, porque a língua russa possui: a grandeza do espanhol, a vivacidade do francês, o vigor do alemão, a ternura do italiano; além disso, a riqueza e a forte brevidade nas imagens do grego e do latim.”
Mikhail Vasil'evich Lomonosov 
Lomonósov, o "Da Vinci russo", no primeiro plano; 
no fundo, edifício principal da MGU


NOTAS  EXPLICATIVAS 


¹  O referenciado foi imperador do Sacro Império Romano-Germânico como Carlos V a partir de 1519, e rei da Espanha como Carlos I, de 1516 até o ano de sua abdicação (1556), em favor de seu irmão mais novo Fernando I no império e de seu filho Filipe II na Espanha. Carlos era o herdeiro de três das principais dinastias europeias: a Casa de Habsburgo, a Casa de Valois-Borgonha dos Países Baixos Borgonheses e a Casa de Trastâmara das coroas de Aragão e Castela. Governou vastos domínios na Europa central, oriental e do sul, além das colônias espanholas nas Américas. Como o primeiro monarca a governar Castela, Leão e Aragão simultaneamente, tornou-se o primeiro rei da Espanha. Em 1556 abdicou de todos os seus títulos, passando a Monarquia de Habsburgo para seu irmão mais novo Fernando I no império, enquanto a Espanha ficava com seu filho Filipe II. Os dois impérios permaneceriam aliados até o século XVIII.

²  O mais correto teria sido, em vez de "imperador romano", ter mencionado: "imperador do Sacro Império Romano-Germânico e rei de Espanha". Carlos V era imperador de um território tão vasto que se tornou autor de outra citação que ganhou notoriedade: "No meu império, o Sol não se põe (nunca)."
Domínios da Casa de Habsburgo na Europa na abdicação de Carlos V

³   Carlos V identifica no idioma alemão um lado autoritário, através do qual costumava impressionar e ameaçar seus oponentes.


⁴  [BABAITSEVA, idem], no seu comentário ao texto de Lomonosov, inicialmente indaga: Por que a língua russa é capaz de expressar com sutileza e precisão os mais diferentes pensamentos e sentimentos? De onde tomou ela tais qualidades como grandeza, vivacidade, vigor, ternura e outras? 

A resposta a essas perguntas diz ela se encontra na história da língua russa, em sua originalidade de capturar as melhores características das línguas, com as quais teve contato. Da complexa história da língua russa resulta sua mais rica sinonímia, incluídas as diversidades variadas de meios de expressão, permitindo destacar na língua russa literária um tanto de estilos.


V. V. Vinagradov escreveu: “Diversos estilos na língua russa estão conectados com diversos meios de expressão sinonímicos, com uma variedade brilhante de cores expressivas.”

A riqueza estilística da língua russa é fornecida primeiro por sua sinonímia lexical, morfêmica, morfológica e sintática.


♧               ♧               ♧ 


Na primeira parte do dito de Lomonosov, apreciamos a citação de Carlos V; na segunda parte, Lomonosov faz uma exaltação à língua russa que, para ele, sintetiza não só as vantagens de todos os outros idiomas mencionados por Carlos V (1500-1558), mas também ainda podia rivalizar com o grego e o latim nas suas qualidades principais: a riqueza vocabular e a concisão dos conceitos.

Inicialmente, é recomendável precaver-se de citações. É muito comum a gente querer referir-se a alguma personalidade preeminente ou autoridade, fazendo uso de citações e pensamentos supostamente declarados. Às vezes, essas citações costumam aparecer distorcidas ou eventualmente inventadas na Web. Costumam ser atribuídas a determinada personalidade e delas são muitas vezes tiradas falsas interpretações ou conclusões apressadas de longo alcance.

Também cabe mencionar que há inúmeras variantes daquilo que efetivamente foi dito (ipsissima verba) pelo histórico imperador Carlos V. Por certo, é difícil afirmar o que efetivamente foi dito por Carlos V e até mesmo por Lomonosov, porque é possível encontrar também variantes para a tal declaração do russo, objeto da presente discussão. Quanto à referida citação de Lomonosov, não consegui estabelecer em qual ensaio e em que ano tais palavras de Carlos V foram mencionadas pelo russo. Possivelmente tenha sido retirada da sua Gramática Russa. O texto oferecido na abertura do presente ensaio encontra-se na página 114 do livro de Vera Vasil'evna Babaitseva, mencionado na bibliografia.

É importante determinar em que contexto Carlos V se referiu às línguas que falava. Suponhamos a situação em que determinado embaixador lhe tivesse indagado como ele conseguia governar um vasto império na Europa e América com múltiplas línguas. A sua resposta foi com os estereótipos europeus daquela época. Ele nasceu no Condado de Borgonha; então o francês era a língua com a qual cresceu falando e se sentia mais confortável. O neerlandês dos Países Baixos deve ter sido sua segunda língua. Quando chegou à Espanha, mal podia falar espanhol e seus súditos o consideraram um príncipe estrangeiro. Teve que reprimir muitas revoltas ao longo da Espanha para reivindicar seu trono e isso deve ter-se constituído prioridade sobre o resto dos assuntos de seu império. Depois de ter-se tornado rei de Castela (e mais tarde Aragão) como Carlos I, esforçou-se para falar castelhano, o que deve ter sido uma condição imposta pela nobreza castelhana para lhe dar apoio. Quando abdicou do trono, buscou a Espanha para se recolher (primeiro, no Mosteiro de Yuste em Extremadura e depois se internou no Mosteiro de San Lorenzo de El Escorial). Logo, esta a razão de ter dito: "falo o espanhol com Deus". Como imperador, Carlos V passou algum tempo na Alemanha e Itália. Quando presidiu a Dieta de Worms de 1521, por exemplo, precisou de um porta-voz para falar por ele, Johann Eck, um assistente de Richard von Greiffenklau zu Vollrads, príncipe-arcebispo de Tréveris, ocasião em que Martinho Lutero foi convocado pelo imperador a comparecer perante a assembleia, não sem antes receber do príncipe Frederico III um salvo-conduto, o que lhe possibilitou comparecer à assembleia do dia 16 a 18 de abril de 1521. Como Lutero não se retratou, em 8 de maio efetivou o banimento de Lutero. A Itália foi o sítio de inúmeros conflitos entre o Império e a França com o Império Otomano. Partes da Itália ao norte, como Bolonha (onde Carlos V foi coroado como imperador pelo Papa), eram possessões imperiais, mas a Sardenha, Nápoles e Sicília eram todas partes da herança aragonesa, demandando intervenção militar de Aragão e Castela. Ignora-se se Carlos V falava bem o italiano, mas pode ser que, quando se referiu a "falar em italiano com o sexo feminino" possa ser uma alusão à conquista de meretrizes em suas campanhas militares e viagens, porque a rainha era portuguesa, Isabel de Portugal (1503-1539), filha de Manuel I. Com ela teve sete filhos, mas teve outros sete filhos ilegítimos .

Lomonosov tomou uma das variantes existentes para compor o seu texto ou teria eventualmente "amenizado" as palavras efetivamente ditas por Carlos V? Acha-se na Internet uma variante que afirma que Carlos V teria declarado que era decente falar "em alemão com meu cavalo", por exemplo, em vez de "em alemão com inimigos". É claro que a diferença é significativa. Outra diz "em alemão com os meus soldados." Hoje, é até difícil imaginar que alguém tenha se referido tão pejorativamente ao idioma de Goethe, Schiller, Hölderlin ou Rilke. 

Também é possível imaginar que Carlos V estivesse sugerindo que uma língua particular combinava com um uso particular e buscasse aplicar cada uma do seu império a uma função específica. Assim, o espanhol como a língua da religião (Espanha era a principal região católica naquela época), o italiano como a língua da comunicação com o sexo feminino, o francês como a língua da diplomacia e dos cortesãos, e, mediante o emprego de certo eufemismo, o alemão como a língua adequada para dar comandos a seus guardas da cavalaria alemã, sendo o cavalo símbolo do vigor e da conquista (o Sacro Império Romano-Germânico foi possível com o concurso do Reino da Alemanha, mais tarde referido como o II e o III Reich).

A variante, frequentemente encontrada na Internet, que cita Carlos V falando "em alemão com seu cavalo", tem sua razão de ser, já que se verifica em manifestação de outra autoridade, tão ou mais conhecida do que o russo Lomonosov: o Reverendo irlandês JONATHAN SWIFT (1667-1745), autor de As Viagens de Gulliver, livro que ele pretendia fosse uma sátira da humanidade e dos livros de viajantes e das histórias sobre naufrágios em ilhas desertas. E o mais importante os leitores de Gulliver eram, supostamente, mais exigentes, no sentido humanitário, do que os leitores de Lomonosov; por isso é possível imaginar que a citação do irlandês tenha sido mais fidedigna. 

Claro que a versão de Lomonosov não deve ser desconsiderada, mas é possível imaginar que ele tenha deliberadamente "amenizado" a declaração do imperador Carlos V para não desagradar a Acadêmicos, naqueles anos que predominantemente falavam alemão. Tendo sido admitido em 1736 na recém-criada Academia de Ciências de São Petersburgo, Lomonosov foi enviado para estudar na Universidade de Marburg, onde se tornou discípulo do filósofo racionalista Christian Wolff. Durante três anos, recebeu um forte embasamento em ciências teóricas com o próprio Wolff (filosofia, matemática e física) e química (com Julius Duising), além de desenho e língua francesa. Em 1739, passou a estudar mineralogia e metalurgia com o químico Johann Friedrich Henckel e outros na cidade de Freiberg, na Saxônia. As desavenças com Henckel culminaram com o retorno de Lomonosov a Marburg ainda em 1739, onde se casou com Elizabeth Christine Zilch, uma garota alemã, que o convenceu a aceitar o ritual protestante, fato que, para não decepcionar a Igreja Ortodoxa russa, o levou a manter em segredo seu casamento por vários anos com receio de não ser aceito pelos seus compatriotas. Antes de voltar a São Petersburgo em julho de 1741, onde ficaria até a sua morte, Lomonosov ainda visitou muitas minas na Alemanha e Holanda, finalizando sua "formação estrangeira". Além disso, na casa de São Petersburgo, os Lomonosovs usualmente falavam o alemão. 

Na Parte IV do livro As Viagens de Gulliver, intitulada "Uma Viagem ao país dos Houyhnhnms", ele relata no Capítulo III a última jornada do viajante Gulliver ao país dos cavalos falantes (Houyhnhnms). Quando Gulliver foi morar em casa de um desses habitantes, passando a admirar e imitá-lo, bem como a assumir o seu estilo de vida, por outro lado passou a rejeitar a raça de criaturas humanóides selvagens e deformadas, muito semelhantes a seres humanos primitivos (chamados de Yahoos, dotados de um pouco de razão, que eles usavam apenas para exacerbar os vícios que lhes deu a natureza e a sua ganância), pelos quais nutre uma antipatia violenta. Por sua vez, esses Houyhnhnms eram uma raça de cavalos falantes, dotados de extrema polidez e virtude. Eles (os cavalos) eram os senhores, enquanto que os humanóides (Yahoos) eram escravos dos cavalos. Os Yahoos puxavam carroças em que os cavalos é que cavalgavam.

Então, conforme dizia, relendo as Viagens de Gulliver, por Jonathan Swift (1667-1745), deparei-me com a referência do autor irlandês ao comentário sobre a língua alemã feito por Carlos V na Parte IV Capítulo III. Observe que o narrador-protagonista ali se aplicava à aprendizagem do idioma dos Huyhnhnms (cavalos falantes); seu amo, um Houyhnhnm, o auxiliava no aprendizado; finalmente, o idioma é descrito. 

Vou reproduzir aqui o pequeno trecho da citada obra: 
"My principal endeavour was to learn the language: which my master (for so I shall henceforth call him) and his children, and every servant of his house, were desirous to teach me; for they looked upon it as a prodigy, that a brute animal should discover such marks of a rational creature. I pointed to everything, and inquired the name of it, which I wrote down in my journal-book when I was alone; and corrected my bad accent by desiring those of the family to pronounce it often. In this employment a sorrel nag, one of the under-servants, was very ready to assist me.
In speaking they pronounce through the nose and throat; and their language approaches nearest to the High Dutch or German of any I know in Europe; but is much more graceful and significant. The Emperor Charles V. made almost the same observation when he said that 'If he were to speak to his horse, it should be in High-Dutch'.
The curiosity and impatience of my master were so great, that he spent many hours of his leisure to instruct me. He was convinced (as he afterwards told me) that I must be a Yahoo; but my teachableness, civility, and cleanliness astonished him; which were qualities altogether opposite to those animals. (...)" 


Minha tradução:
 
"Minha principal tarefa consistia em aprender o idioma; para isso, meu amo (pois assim passarei a chamá-lo), seus filhos, e todos os criados de sua casa desejavam me ensinar, pois eles consideravam um prodígio que um animal irracional revelasse as marcas de uma criatura racional. Eu apontava para os objetos, e perguntava sobre os seus respectivos nomes, os quais anotava em meu diário quando estava sozinho, e corrigia o meu mau sotaque pedindo aos membros da família para repetirem várias vezes a pronúncia. Nesta ocupação estava sempre à minha disposição para me ajudar um cavalo alazão, que era um dos criados subalternos.
Ao falarem, eles pronunciam através do nariz e da garganta, e o idioma deles tem maiores semelhanças com o alto holandês, ou alemão, do que com qualquer outro idioma que eu conheço na Europa; mas é muito mais gracioso e expressivo. O imperador Carlos V fez quase a mesma observação, quando afirmou que, 'Se ele tivesse de conversar com seu cavalo, o idioma seria o alemão'.
A curiosidade e impaciência de meu amo eram tamanhas que ele passava muitas horas de seu lazer ensinando-me. Ele estava convencido (como me disse mais tarde) de que eu fosse um Yahoo: porém, minha aptidão para aprender, civilidade e asseio o surpreenderam; que eram qualidades completamente opostas àqueles animais. (...)" 
Observe que o autor aqui se aplica à aprendizagem da língua dos Houyhnhnms. Seu amo, Houyhnhnm, seus filhos, bem como todos os criados (também cavalos) o auxiliam no aprendizado. O idioma é descrito.




NOTAS  EXPLICATIVAS (cont.) 




  Foge ao escopo do presente ensaio uma análise das particularidades da rica biografia de Carlos V e do contexto histórico-social de seu tempo. Aos interessados na matéria, recomendo buscarem maiores detalhes  no texto do documentário "Memória de Espanha", citado na Bibliografia, ou em obras com esse perfil.

    "Hochdeutsch" ou alemão oficial.





BIBLIOGRAFIA CONSULTADA




BABAITSEVA, Vera Vasil'évna: Língua Russa. Classes 10-11, Moscou: Дрофа, 2013, 447 p. 
https://books.google.com.br/books?id=VJ5fDwAAQBAJ&pg=PA114&lpg=PA114#v=onepage&q&f=false

CHENKMAN, Ian: Lomonossov, o pioneiro da ciência russa, Gazeta Russa, 29/03/2014.

DOVIDAUSKAS, Sérgio & DEMETS, Grégoire Jean-François: 300 anos de Lomonosov, Campo Grande: revista Orbital Electronic Journal of Chemistry, vol. 3, nº 3, jul/set 2011, p. 150-173

TVE: documentário intitulado "Memória de Espanha", cujo texto é "O imperador Carlos V da Alemanha - o 1º de Espanha"