quarta-feira, 26 de agosto de 2026

RECUPERE SEU LATIM > > PARTE 24: SUETÔNIO: PRESSÁGIOS SOBRE A MORTE DE JÚLIO CÉSAR

Tradução literal do latim, comentários e bibliografia sugerida por Francisco José dos Santos Braga 
Caio Suetônio Tranquilo (✰ c. 69 A.D. ✞ c. 141 A.D.)

Caesar: The ides of March are come. 
Soothsayer: Ay, Caesar, but not gone. 
William Shakespeare: Julius Caesar 

 

 

I. INTRODUÇÃO

Os presságios da morte de Júlio César são relatos mitológicos e históricos célebres, registrados principalmente pelos historiadores antigos Suetônio e Plutarco. Eles indicavam que o ditador romano corria grave perigo antes de ser assassinado nos Idos de Março (15 de março de 44 a.C.).
Os presságios mais famosos documentados pela tradição incluem: o alerta do arúspice ou adivinho Spurinna, os sonhos premonitórios, sinais da natureza (cavalos que choravam, sacrifício de vítimas sem coração e um "pássaro tirano"). 
 

II. TEXTO LATINO DE VITA DIVI JULI in DE VITA CÆSARUM  

Cap. 81. (...) Caesari futura caedes evidentibus prodigiis denuntiata est. Paucos ante menses, cum in colonia Capua deducti lege Iulia coloni ad extruendas villas vetustissima sepulcra disjicerent idque eo studiosius facerent, quod aliquantum vasculorum operis antiqui scrutantes reperiebant, tabula aenea in monimento, in quo dicebatur Capys conditor Capuae sepultus, inventa est conscripta litteris verbisque Graecis hac sententia: quandoque ossa Capyis detecta essent, fore ut illo prognatus manu consanguineorum necaretur magnisque mox Italiae cladibus vindicaretur. 
 
Cuius rei, ne quis fabulosam aut commenticiam putet, auctor est Cornelius Balbus, familiarissimus Caesaris. Proximis diebus equorum greges, quos in traiciendo Rubiconi flumini consecrarat ac vagos et sine custode dimiserat, comperit pertinacissime pabulo abstinere ubertimque flere. Et immolantem haruspex Spurinna monuit, caveret periculum, quod non ultra Martias Idus proferretur. 
 
Pridie autem easdem Idus avem regaliolum cum laureo ramulo Pompeianae curiae se inferentem volucres varii generis ex proximo nemore persecutae ibidem discerpserunt. Ea vero nocte, cui inluxit dies caedis, et ipse sibi visus est per quietem interdum supra nubes volitare, alias cum Iove dextram iungere; et Calpurnia uxor imaginata est conlabi fastigium domus maritumque in gremio suo confodi; ac subito cubiculi fores sponte patuerunt. 
 
Ob haec simul et ob infirmam valitudinem diu cunctatus an se contineret et quae apud senatum proposuerat agere differret, tandem Decimo Bruto adhortante, ne frequentis ac iam dudum opperientis destitueret, quinta fere hora progressus est libellumque insidiarum indicem ab obvio quodam porrectum libellis ceteris, quos sinistra manu tenebat, quasi mox lecturus commiscuit. Dein pluribus hostiis caesis, cum litare non posset, introiit curiam spreta religione Spurinnamque irridens et ut falsum arguens, quod sine ulla sua noxa Idus Martiae adessent: quanquam is venisse quidem eas diceret, sed non praeterisse.
 
 
II. TRADUÇÃO por Francisco José dos Santos Braga para Vida de Júlio César Deificado in As Vidas dos Doze Césares 
 
Cap. 81 - (...) o iminente assassinato de César foi prenunciado a ele por prodígios claros. Poucos meses antes, como os colonos, levados para a colônia de Cápua pela Lei Juliana ¹, estivessem demolindo túmulos muito antigos, para construir villas; e estivessem exercendo seu trabalho com o maior zelo porque, ao vasculharem, encontraram uma quantidade de vasos de artesanato antigo, foi descoberta em uma tumba, que se dizia ser a de Capys, o fundador de Cápua, uma placa de bronze, inscrita com palavras e caracteres gregos com este propósito:
No dia em que os ossos de Capys forem descobertos, acontecerá que um seu descendente será morto pela mão de seus parentes e logo será vingado com perdas para a Itália.” ²
Que ninguém julgue que esta história é fabulosa ou inventada, pois ela é atestada por Cornélio Balbo, um amigo íntimo de César. Nos dias seguintes, ficou sabendo que a manada de cavalos que ele tinha consagrado ao Rio Rubicão ao cruzá-lo, e deixado solta, sem guarda, rejeitava obstinadamente pastar e chorava copiosamente. E enquanto César estava oferecendo um sacrifício, o arúspice ³ Spurinna advertiu-o para tomar cuidado com um perigo, que não seria adiado para além dos Idos de Março. 

Por outro lado, na véspera dos mesmos Idos, uma ave-rei 
, carregando um ramo de louro , voou em direção à Cúria de Pompeu , perseguida por outras de várias espécies vindas de um bosque próximo, que a despedaçaram aí mesmo. Quanto à referida noite após a qual rompeu a aurora do dia do assassinato, César sonhou que ele próprio ora sobrevoava as nuvens, ora segurava a mão direita de Júpiter; e sua esposa Calpúrnia sonhou que a cumeeira da casa estava desabando e que seu marido estava sendo esfaqueado nos braços dela; e de repente as portas do quarto se abriram sozinhas. 
 
Tanto por estas razões  quanto por problemas de saúde, hesitou durante muito tempo se deveria ficar em casa e adiar o que pretendia tratar no Senado; mas finalmente, por exortação de Décimo Bruto , [César decidiu ir] para não desapontar os [senadores] que já se encontravam reunidos em grande número e esperando por ele há muito tempo. Ele saiu quase no final da quinta hora ; e quando alguém ¹ que vinha ao seu encontro lhe entregou uma petição que denunciava a conspiração, ele a misturou com outras que segurava na mão esquerda, pretendendo lê-los logo. Em seguida, tendo sido sacrificadas várias vítimas, sem que pudesse conseguir presságios favoráveis ¹¹, ele entrou na Cúria, desprezando a religião, zombando de Spurinna e acusando-o de falso, porque os Idos de Março chegaram sem lhe causar danos; embora este tenha dito que eles realmente tinham chegado, mas eles não tinham ido. 
 
Artemidoro de Cnido entrega bilhete a César denunciando a conspiração - Crédito: Getty Images

 
 
 
III. NOTAS EXPLICATIVAS
 
¹ A Lei Juliana Agrária (Lex Julia Agraria), promulgada em 59 a.C. pertence às reformas agrárias implementadas por Júlio César. Durante o seu primeiro consulado, Júlio César propôs essa medida para resolver dois problemas graves da República Romana: a falta de terras para os cidadãos urbanos empobrecidos e a necessidade de recompensar os soldados veteranos de guerra de Pompeu. Os cidadãos beneficiados eram enviados para estabelecer novas colônias agrícolas (daí o termo "colonos"). Para evitar a especulação imobiliária, os novos colonos não podiam vender as terras recebidas por um período mínimo de 20 anos. 
 
²  A profecia da tabuazinha de bronze de Cápua, narrada por Suetônio, antecipa a trágica e devastadora guerra civil que seguiu o assassinato de Júlio César e culminou na punição dos conjurados, considerados culpados pela morte de César.
Temos a fazer algumas observações sobre o conteúdo da tabuazinha:
1) O descendente de Cápys: Refere-se a Júlio César, visto que a gens Júlia (e os troianos fundadores) traçavam sua linhagem mítica até Iulo e Enéias, ligados a essa ancestralidade troiana/Campânia.
2) A morte pelas mãos de parentes: Aponta para a traição dentro do próprio círculo e de aliados/familiares políticos (como Bruto), colaborando ativamente com os conspiradores para o assassinato de César. 
Marco Júnio Bruto era um dos aliados mais próximos e queridos de César. Filho de Servília (a amante mais famosa do ditador), havia rumores na época de que Bruto poderia ser filho biológico de César. Ele foi convencido a liderar a trama porque sua família descendia diretamente de Lucius Junius Brutus, o herói lendário que havia expulsado o último rei de Roma séculos antes. Sua presença dava legitimidade moral ao assassinato.
Suetônio sugere que a última frase real de César teria sido dita em grego: "Kai su, teknon?" (Também tu, meu filho?)
3) A vingança com grandes perdas para a Itália (magnis mox Italiae cladibus): Profetiza com precisão o banho de sangue subsequente das guerras civis lideradas por Marco Antônio e Otaviano contra Bruto e Cássio, além das proscrições e das fomes e crises que castigaram profundamente a península itálica.
4) Segundo relatos de historiadores antigos como Suetônio, nenhum dos assassinos de Júlio César em 44 a.C. sobreviveu por mais de três anos após o crime, morrendo seja em batalha, por suicídio ou assassinados por inimigos políticos.
 
³ Na Roma Antiga, era o nome dado ao sacerdote ou adivinho que previa o futuro examinando as entranhas (especialmente o fígado e os órgãos internos) de animais sacrificados. 
Nos dias que antecederam os Idos de Março, César não estava completamente alheio ao que estava sendo planejado. De acordo com o historiador grego Plutarco, um adivinho advertiu César de que sua vida estaria em perigo o mais tardar nos Idos de Março (15 de março de 44 a.C.). O biógrafo romano Suetônio identifica esse vidente como um Arúspice chamado Spurinna. 
 
  Observe que Suetônio se refere a uma "avis regaliolum". 
Comecemos por verificar que uma das acepções para "avis" é exatamente a de presságio. Observe ainda que a palavra "regaliolum" tem relação direta com o radical do adjetivo latino "regalis", cujo sentido é "real ou de rei", que também deu origem ao termo "regalia" (as coisas ou prerrogativas da realeza). O nosso "regaliolum" é um composto do radical "regalis" + sufixo diminutivo "iolum". 
Outra questão refere-se à palavra "avis", que em português, no caso, imaginamos que possa ser traduzida por pássaro ou passarinho por suas pequenas dimensões (10 cm de comprimento). "Passer, -eris" em latim é o nosso conhecido pardal, uma ave urbana muito comum nas ruas e telhados da Roma antiga. Como os romanos viam pardais o tempo todo, o nome dessa espécie acabou sendo usado no dia a dia para se referir a qualquer ave pequena. A palavra portuguesa "pássaro" vem de "passer", passando por "passaru" do latim vulgar.
Alguns tradutores entendem que esse pássaro-rei tenha a ver com a carriça ou régulo (assim chamado por possuir uma coroa de penas vistosas na cabeça), achando que Suetônio pensava exatamente nesse pássaro com um ramo de louro no bico, quando, no capítulo 81, relata os presságios agourentos ocorridos pouco antes do assassinato do "rei" ou ditador romano nos Idos de Março. O relato de Suetônio nos dá conta de que uma "avis regaliolum" (uma "avezinha-rei" ou carriça/régulo) voou para o interior da Cúria de Pompeu carregando um ramo de louro, e logo em seguida foi perseguida e despedaçada por vários outros tipos de pássaros vindos de um bosque próximo. 
Apesar de ser a carriça uma das menores aves da Europa, há uma fábula de Esopo em que ela conquistou o título de "rei das aves" por sair-se vitoriosa em disputa com a águia na competição pelo teste do voo mais alto. 
 
 O ramo de louro é o símbolo máximo de vitória, triunfo, honra e sabedoria na história ocidental. O louro era associado a Apolo, o deus grego da luz, da poesia, da música e da profecia. Por isso, poetas destacados, artistas e pensadores eram coroados com louros (origem do termo "poeta laureado").
Na Grécia e na Roma Antiga, coroas feitas com ramos de louro eram entregues aos generais que retornavam vitoriosos das guerras e aos atletas campeões dos Jogos Olímpicos. Imperadores romanos (como Júlio César) e, mais tarde, figuras como Napoleão Bonaparte, utilizavam coroas de louro em moedas e pinturas para legitimar seu poder supremo e eterno. 
 
 Cf. Virgílio, Eneida, X, 143. A Cúria de Pompeu será o local do assassinato de César no dia seguinte. 
Recentemente (2012), arqueólogos desenterraram a monumental estrutura em concreto em Torre Argentina, em Roma, com as dimensões de 3m X 2m que pode ter sido erigida por César Augusto para condenar o assassinato de seu tio. A estrutura está na base da Cúria, ou Teatro, de Pompeu, o local onde escritores clássicos narraram que aconteceu o esfaqueamento de Júlio César.
Link: https://www.livescience.com/23900-julius-caesar-assassination-place-discovered.html 
 
 As tais razões se referem aos presságios e o sonho de Calpúrnia. 
 
Apesar de todos esses sinais e de um forte mal-estar físico, César foi convencido pelo conspirador Décimo Bruto a comparecer à sessão, sob o argumento de que sua ausência seria vista como um insulto ao Senado.
 
  O sistema de contagem romano dividia o período de luz solar (do amanhecer ao pôr do sol) em exatamente 12 horas diárias, independentemente da estação do ano. A "quinta hora" corresponde aproximadamente ao período entre 10h e 11h da manhã (ou, dependendo da estação do ano, estendendo-se até próximo ao meio-dia). A "primeira hora" começava exatamente ao nascer do sol. A "hora sexta" correspondia sempre ao meio-dia exato. Portanto, a quinta hora representava o último intervalo de tempo antes do meio-dia.
 
¹ Artemidoro de Cnido, professor de literatura grega em Roma que conhecia alguns dos conspiradores e tentou salvar a vida de César. 
 
¹¹ O resultado do sacrifício foi decepcionante para César, eis que a vítima (o animal sacrificado) não possuía coração, o que foi considerado um dos piores e mais sinistros presságios da história romana. O terrível augúrio aconteceu da seguinte forma: ao abrir o animal para examinar as entranhas, o arúspice (ou adivinho Spurinna) constatou que faltava o coração na vítima. A reação de César, diante dessa evidência, foi minimizar o aviso divino e ironizar a situação, mostrando-se cético em relação a superstições. Ele declarou que o presságio apenas significava que "ele teria coragem", ou que um animal sem coração não era algo extraordinário na natureza. Logo após ignorar esse e outros avisos (como o seu pesadelo e o de sua esposa Calpúrnia e o famoso alerta "Cuidado com os Idos de Março", ou "Beware the Ides of March", tão recorrente na tragédia de Shakespeare), César seguiu para a Cúria de Pompeu e acabou assassinado por um grupo de senadores conspiradores. Desse golpe político e tiranicídio resultou o seguinte desdobramento: em vez de serem aclamados como heróis defensores da República, os conspiradores tiveram fins trágicos. Quase todos os assassinos de Júlio César foram perseguidos, perderam o poder político em Roma e morreram violentamente ou cometeram suicídio poucos anos após o crime de 44 a.C., derrotados pelas forças do Segundo Triunvirato liderado por Marco Antônio e Otaviano (o mesmo que iria inaugurar o Império Romano, com o título de Otaviano Augusto que lhe concedido pelo senado em 27 a.C.).
 
IV. BIBLIOGRAFIA 
 
BRAGA, F.J.S.: RECUPERE SEU LATIM > > PARTE 15: EXCERTOS DA HISTÓRIA ROMANA POR EUTRÓPIO, publicado no Blog do Braga em 16/12/2022
 
SUETÔNIO: De Vita Caesarum: IULI  
 
__________:  A Vida dos Doze Césares, Brasília: Secretaria de Editoração e Publicações do Senado Federal, 2012, 320 p.

Um comentário:

Francisco José dos Santos Braga disse...

Francisco José dos Santos Braga (compositor, pianista, escritor, tradutor, gerente do Blog do Braga e do Blog de São João del-Rei) disse...

Prezad@,
Em 15 de março de 44 a.C., o ditador romano Júlio César foi assassinado por cerca de 60 senadores com 23 punhaladas. Existem vários relatos desse incidente, mas o mais famoso e provavelmente o mais preciso é o escrito pelo biógrafo de César, Caio SUETÔNIO Tranquilo (c. 70-c. 135 a.C.), que parece ter tido acesso aos arquivos imperiais e pode ter consultado relatos de testemunhas oculares.
Antes do assassínio de César, Suetônio introduz o leitor na série de presságios que davam conta de que algo muito trágico estava para acontecer. No relato desses presságios, fica a impressão de que César está tomado pela hybris (em grego ὕβρις), conceito que alude a uma confiança excessiva, um orgulho exagerado, presunção, arrogância ou insolência (originalmente contra os deuses), que com frequência termina sendo punida.
Parece que César não se importava ou não tolerava os sinais claros de que algo mortal pudesse incidir sobre sua augusta pessoa. E, diante de toda evidência, decidiu afrontar com coragem a sua própria sorte.

Link: https://bragamusician.blogspot.com/2026/08/recupere-seu-latim-parte-24-suetonio.html

Cordial abraço,
Francisco Braga