terça-feira, 15 de dezembro de 2009

Gênio Mozart, segundo Norbert Elias


Por Francisco José dos Santos Braga *




OBS.: Este artigo foi publicado no Livro Comemorativo dos 60 Anos da Criação da AVL-Academia Valenciana de Letras, Valença-RJ, 2009, p. 263-270, bem como na Revista da Academia de Letras de São João del-Rei, Ano III, nº 3, 2009, p. 235-240.


I - INTRODUÇÃO

O livro "Mozart, Sociologia de um Gênio" é um brilhante estudo sobre a vida e o gênio criativo de Wolfgang Amadeus Mozart, escrito por um dos mais importantes pensadores sociais de nosso tempo: Norbert Elias. Autor de uma vasta obra sociológica até recentemente pouco divulgada, esse pensador foi também um melômano e considerava a música como indissoluvelmente ligada ao tipo de sociedade e à época em que foi produzida. Ao descrever como o compositor Mozart tentou levar em Viena uma vida de músico autônomo, Norbert Elias, em seu livro, esclarece que só na geração seguinte - a de Beethoven - é que foram criadas as condições necessárias para esse gênero de atividade. Mozart fracassou, de acordo com ele, porque deu um passo no sentido da independência numa sociedade que ainda não estava preparada para tal. A rejeição da aristocracia de Viena, as dívidas cada vez maiores e nenhuma perspectiva de satisfazer seus desejos mais íntimos foram os principais fatores que contribuíram para sua morte precoce com a horrível sensação de que sua existência social fôra um fracasso e de que sua vida se tornara vazia de significado.

II - O AUTOR

Norbert Elias nasceu em Breslau em 1897 e morreu em Amsterdam em 1990. De família judaica, teve de fugir da Alemanha nazista exilando-se em 1933 na França, antes de se estabelecer na Inglaterra, onde passaria grande parte de sua carreira. Em 1954, começou como professor na Universidade de Leicester (1945-1962).

Suas obras focam a relação entre poder, comportamento, emoção e conhecimento na História. A obra mais importante de Elias foram os dois volumes de "O Processo Civilizador" (Über dem Prozeβ der Zivilisation). Devido a circunstâncias históricas, Elias permaneceu durante um longo período como um autor marginal, tendo sido redescoberto por uma nova geração de teóricos nos anos 70, quando se tornou um dos mais influentes sociólogos de todos os tempos. O reconhecimento tardio veio apenas aos 70 anos, com a publicação do livro "A Sociedade de Côrte" (Die höfische Gesellschaft), no qual ele analisa a etiqueta como uma forma de dominação utilizada pelo rei para reduzir as tensões, oriundas de uma relação de interdependência no âmbito cortesão. De acordo com Elias, o rei favorece ora um, ora outro cortesão, usando os mecanismos da etiqueta, com a finalidade de incitar as tensões e os ciúmes e de usá-los a seu favor.


III - O LIVRO

1 - A GENIALIDADE DE MOZART

Em tese, a genialidade precisa ser entendida como uma conjunção de fatores que se complementam. Por um lado, há alguém com uma predisposição inata, uma maturidade precoce para determinado modo de pensar, ver e perceber o mundo e de combinar as informações recebidas. Por outro lado, deve haver um meio (familiar, escolar ou social mais amplo) que perceba e reconheça como importantes aquelas qualidades e que se proponha a fazê-las crescer e expandir. Para esse "talento" observado se desenvolver, é preciso que seja valorizado e estimulado.

Esses dois fatores se encontram presentes numa análise do fenômeno "Mozart". O período de aprendizado de Mozart vai de 1756 até 1777. Norbert Elias menciona que "Mozart teve uma infância muito especial. Ainda hoje é visto como o prodígio "par excellence". Aos quatro anos ele era capaz, em muito pouco tempo, de aprender a tocar peças musicais bastante complexas, sob a instrução do pai. Antes de completar seis anos, o pai levou-o e a irmã, em sua primeira "tournée" de concerto a Munique, onde ambas as crianças tocaram para o Eleitor da Baviera, Maximilian III. Mais tarde, em 1762, os três foram para Viena, onde tocaram para a corte imperial e outros públicos... O enorme sucesso que Leopold Mozart obteve exibindo os filhos, especialmente o filho, em Viena, levou-o a organizar uma "tournée" mundial pelos palácios e cortes da Europa". (Elias, [1991] 1995, p. 67)

Por outro lado, Leopold Mozart, pai de Wolfgang, não foi somente um músico competente e atuante, mas um verdadeiro pedagogo, autor de um renomado método de violino, que encontrou em seu filho um talento ávido por algo melhor do que ele podia oferecer. Analisar a genialidade de Mozart, sem relacioná-la aos esforços musicais e afetivos de seu pai, não é possível.

Outra reflexão a respeito do "gênio", enfatizada por Elias, é como sociedades, mentalidades e períodos históricos diferentes lidam com o "gênio" de forma distinta: se Mozart tivesse vivido no século XIX, por exemplo, teria sido totalmente acolhido e louvado como o modelo do artista romântico.

Nascido numa sociedade que ainda não conhecia o conceito romântico de "gênio" e que não permitia que em seu meio houvesse qualquer lugar legítimo para um artista de gênio altamente individualizado, é natural que tivesse suas investidas rechaçadas e suas criações típicas de um "gênio" do Romantismo desprezadas ou não valorizadas. Mozart, de fato, antecipou as atitudes e os sentimentos de um tipo posterior de artista, encarnado por exemplo por Beethoven uns 15 anos depois, o qual teve muito mais oportunidades de impor seu gosto ao público musical.

2 - AS CONTRADIÇÕES DE MOZART

Um dos aspectos mais importantes que ressalta da análise de Elias no livro são as contradições que marcaram a vida de Mozart. Músico de excepcional talento e valor, entretanto não passava de uma curiosidade exótica, de um entretenimento divertido para a aristocracia. Ao mesmo tempo que Mozart, como representante da "pequena burguesia" da época, por um lado desprezava essa aristocracia, por se considerar igual ou superior a ela, por outro lado solicitava-lhe atenção e condescendência. Desejava que ela reconhecesse o valor e a qualidade de seu trabalho, embora fosse consciente de que jamais conseguiria obtê-lo.

Movendo-se em círculos da aristocracia da corte, cujo gosto musical adotou e cujo padrão de comportamento deveria seguir, Mozart fugiu desse estereótipo: sendo extremamente rude em sua conduta pessoal, com um comportamento totalmente franco e direto, nunca se tornou um "homme du monde", isto é, um cavalheiro, como pretendia seu pai. Profundamente identificado com a nobreza da corte e seu gosto, Mozart sentia profundo ressentimento pela humilhação que ela lhe impunha.

As cartas de seu período parisiense são um reflexo do desagrado que sentia com o tratamento altaneiro dos nobres da corte de que era vítima. Esse ressentimento cada vez crescente evoluiu para um franco enfrentamento, o que se deu com a escolha feita do libretto de Da Ponte para "As Bodas de Fígaro", ópera cujo tema o próprio Mozart escolheu e que foi considerado politicamente suspeito, segundo o ponto de vista absolutista.

3 - VISÃO DO ARTISTA LIVRE

Diz Elias que "a estrutura de sua personalidade era a de alguém que desejava, acima de tudo, seguir sua própria imaginação. Em outras palavras, Mozart representava o artista livre que confia acima de tudo em sua inspiração individual, numa época em que a execução e a composição da música mais valorizada pela sociedade repousavam, a bem dizer, exclusivamente nas mãos de músicos artesãos com postos permanentes, seja nas côrtes ou nas igrejas das cidades. A distribuição social de poder que se expressava nesse tipo de produção musical estava, de modo geral, intacta." (Elias, [1991], 1994, p. 34)

As encomendas que Mozart, por uma questão de sobrevivência, era obrigado a atender, raramente ou nunca correspondiam a seu ideal de obra musical acabada e perfeita.

Não existia ainda o padrão que gradualmente se formou no século XIX de a produção musical ser feita por artistas relativamente livres e que competiam por um público essencialmente anônimo.
Quando sua composição não era encomendada, aproximando-se desse padrão que vai vigorar de Beethoven em diante, aí é possível observar-se a exuberância musical de sua escrita. Podemos citar dois exemplos: a Missa em Dó Menor (K. 427) e o Concerto para Piano em Ré Menor (K. 466).

A Missa - a mais impactante de Mozart por sua força expressiva, sua beleza concentrada e seu tratamento todo especial dado ao texto, não foi encomendada. Trata-se de uma composição para cumprir uma promessa que se cumpriu: o casamento com Constance. A sua exuberância musical pode ser interpretada como uma experiência de libertação das regras impostas pelo príncipe-arcebispo de Salzburgo (1771-1803), Conde Hieronymus Colloredo, patrão de seu pai e do próprio Mozart em duas oportunidades de sua juventude. Sabe-se que Colloredo era um autocrata, não tolerava insubordinação, era contrário à liberdade de expressão dos seus subordinados e para ele a fé só poderia ser expressa de maneira contida e recatada.

Mozart, acusado de introduzir no âmbito da composição sacra elementos da música profana, mostra nessa composição que a beleza e a fé não conhecem fronteiras e que as categorias de sacro e profano podem ser fundidas e transcendidas em algo muito maior que maravilha no silêncio da reflexão e da oração. Nela encontramos as mais diversas poéticas musicais: o rococó pré-clássico no início do Gloria, o fugatto tradicional das missas austríacas (Cum Sancto Spiritu), o sofisticado estilo contrapontístico do norte da Alemanha (Quoniam), o coro trágico (Kyrie), a harmonia dissonante e a rítmica enérgica (Qui tollis), a arte suprema do quarteto vocal (Quoniam e Benedictus) e o airoso do "bel canto" napolitano (Christe e Et incarnatus). Foi essa a maneira que Mozart encontrou para nos comunicar sua torturada e verdadeira fé.

O Concerto para Piano em Ré Menor é outro exemplo do emprego de sua força criativa com espontaneidade. Elias relata que, ao compô-lo, Mozart se achava "enfastiado pela subordinação de seus poderes criativos a uma força maior, como se estivesse se rebelando... Percebe-se que ele está inteiramente indiferente ao que as pessoas possam pensar. Está escrevendo música como a sente, talvez até mesmo com a intenção consciente ou inconsciente de chocar - pour épater la noblesse". Não ficou mais popular com esta obra, e precisava de dinheiro". (Elias, [1991], 1995, p. 42)

4 - CIRCUNSTÂNCIAS HISTÓRICAS

É preciso lembrar, que na metade do século XVIII, a posição social do músico estava sofrendo transformações, mas o perfil de artista autônomo, tal como o conhecemos hoje - alguém que cria de acordo com sua imaginação - ainda não tinha se firmado como opção para a sobrevivência. Vejamos o que ocorreu com os três compositores da Primeira Escola de Viena: Haydn (1732-1809), Mozart (1756- 1791) e Beethoven (1770-1827). Embora poucas décadas os separem, cada um deles teve uma existência social diferente.

Haydn foi músico empregado da família Esterházy durante toda a sua vida e, embora a imposição do gosto de seus patrões o incomodasse, manteve-se em sua posição de subordinado até o fim da vida.

Mozart, por sua vez, não se sujeitou à mediocridade de sua pequena cidade natal e à de seu patrão, e procurou viver às custas de suas obras: concertos por assinatura, encomendas de obras e produção das próprias óperas. Foi para Viena em busca de novos ouvintes, mais esclarecidos, esperando encontrar retornos financeiro e artístico suficientes para sua sobrevivência física e criativa. Infelizmente, não foi o que aconteceu.

Beethoven foi, talvez, o primeiro músico bem sucedido no caminho da autonomia artística. No curto período que separa Beethoven de Mozart, o fazer musical se libertou da exclusividade dos palácios e das igrejas e cresceu em seu negócio: toda uma estrutura de empresários, teatros, editores e público pagante se organizou, possibilitando a compositores como Beethoven negociarem suas obras conforme lhes conviesse. O risco de ousar, de inventar e de propor novidades ao público passou a ser uma questão musical, cujo grau de ousadia passou a ser decidido unicamente pelo compositor. Lamentavelmente, Mozart não teve essa possibilidade em seu horizonte artístico Seu insucesso financeiro e sua tragédia pessoal foram resultado daquele momento histórico de transição e sua imensa força criativa não encontrou ressonância na sociedade vienense de então.

5 - MOZART SIMPLESMENTE DESISTIU

É dessa forma que Elias abre o seu livro, constatando o fato de que, "antes de morrer, Mozart várias vezes esteve próximo do desespero. Aos poucos, foi se sentindo derrotado pela vida... O sucesso em Viena, que para ele talvez significasse mais do que qualquer outro, jamais se concretizou. A alta sociedade vienense deu-lhe as costas... Sem dúvida alguma, morreu com a sensação de que sua existência social fora um fracasso... Assim os dois fatores que privaram de sentido a vida de Mozart - a perda do reconhecimento do público e o arrefecimento do afeto da esposa - ligavam-se entre si. Eram duas camadas inseparáveis, interdependentes, no sentimento de vazio que o dominou em seus últimos anos... Sabia que morreria em breve; em seu caso isto provavelmente significava que desejou morrer, e que, de certa maneira, escreveu o Réquiem para si mesmo." (Elias, [1991], 1995, pp. 9 a 11)

6 - PERSONALIDADE DE MOZART

Outro ponto muito interessante trazido pelo livro é a interpretação que hoje a sociedade tem da "pessoa" de Mozart. Consideramos difícil entender como o criador de uma música considerada sublime, angelical, alegre e relaxante poderia ter sido criada por um ser debochado, infantil, que adorava escrever cartas com vocabulário chulo, que se divertia com referências claras à escatologia.

Elias não dissocia a "pessoa" do "criador", como fazemos, e também o fazem confortavelmente alguns biógrafos temerosos de que a vida pessoal de Mozart macule a sua obra. Ao contrário, Elias nos mostra como a intensa luta entre conteúdos tão conflitantes, necessidades e aspirações tão incoerentemente fundidas em uma mesma alma é, antes de tudo, a condição humana, a possibilidade de existir como homem em sua plenitude e complexidade. Talvez exatamente por essa razão é que a obra de Mozart seja dotada de tanto vigor, beleza e verdade.

IV - BIBLIOGRAFIA

a) ELIAS, Norbert: Mozart: Sociologia de um Gênio, Jorge Zahar Ed., Rio de Janeiro, 1995.

b) GROUT, Donald J. e PALISCA, Claude V.: História da Música Ocidental, cap. 13 e 14, pp. 475 a 544, Gradiva Publ. Ltda, Lisboa, Portugal, 1994.

c) "Mozart, um compositor e suas contradições" (Entrevista da Prof. Yara Caznok em 29/4/2006 a IHU On-Line, no http://amaivos.uol.com.br)

Imagem: Reprodução da pintura de Barbara Krafft, 1819


* Francisco José dos Santos Braga, cidadão são-joanense, tem Bacharelado em Letras (Faculdade Dom Bosco de Filosofia, Ciências e Letras, atual UFSJ) e Composição Musical (UnB), bem como Mestrado em Administração (EAESP-FGV). Além de escrever artigos para revistas e jornais, é autor de dois livros e traduziu vários livros na área de Administração Financeira. Participa ativamente de instituições no País e no exterior, como Membro, cabendo destacar as seguintes: Académie Internationale de Lutèce (Paris), Familia Sancti Hieronymi (Clearwater, Flórida), SBME-Sociedade Brasileira de Música Eletroacústica (2º Tesoureiro), CBG-Colégio Brasileiro de Genealogia (Rio de Janeiro), Academia de Letras e Instituto Histórico e Geográfico de São João del-Rei-MG, Instituto Histórico e Geográfico de Campanha-MG, Academia Valenciana de Letras e Instituto Cultural Visconde do Rio Preto de Valença-RJ e Fundação Oscar Araripe em Tiradentes-MG. Possui o Blog do Braga (www.bragamusician.blogspot.com), um locus de abordagem de temas musicais, literários, literomusicais, históricos e genealógicos, dedicado, entre outras coisas, ao resgate da memória e à defesa do nosso patrimônio histórico.Mais...

2 comentários:

Alvaro Henrique disse...

Parabéns pelo texto. Fiquei curioso em conhecer o trabalho de Norbert Elias depois desse post.

Abraços,
Alvaro Henrique

Amon Aires disse...

Interessante perspectiva. Como o colega Alvaro daí de cima, também fiquei curioso.