segunda-feira, 15 de abril de 2013

A LÍNGUA DE HOMERO CONTINUA VIVA?


Por Francisco José dos Santos Braga




I. INTRODUÇÃO

O leitor do Blog do Braga deve ter percebido que, no dia 20 de março de 2013, inaugurei uma nova seção com artigos de minha autoria e/ou textos de minha tradução que privilegiem o aprendizado e contribuam para o ensino da língua grega nos países lusófonos, especificamente com o meu artigo “Implicações da Reforma Ortográfica da Língua Grega em 1976”, o qual teve outros atores opinando sobre acordos e reformas ortográficas aqui e noutros países. Claro que o foco ali era abordar as consequências da simplificação promovida na língua falada por todos os falantes nativos na Grécia e Chipre e pelos Gregos espalhados por todo o mundo, especialmente as grandes comunidades gregas na Austrália, nos Estados Unidos e no Canadá, depois das inúmeras migrações dos Gregos no século XX, fato que ficou conhecido como a diáspora grega.

O linguista espanhol e filólogo helenista Dr. Francisco Rodríguez Adrados, nascido em Salamanca em 1922, catedrático de grego na Universidade Complutense de Madri de 1952 a 1988 e professor honorário da Universidade do Peloponeso em Kalamata, autor da “História da Língua Grega (desde os primórdios aos nossos dias)” assim se expressa a respeito: “O grego e o chinês são as únicas línguas com contínua presença viva dos próprios povos e no mesmo lugar há 4.000 anos. Todas as línguas são consideradas cripto-helênicas (κρυφοελληνικές), com ricos aportes (empréstimos) da língua-mãe, o grego. 
  
De fato, línguas específicas como a grega e a chinesa, as únicas vivas há 4.000 anos, de acordo com o linguista espanhol, constituem matriz criadora de um complexo mais amplo de línguas que de forma nenhuma poderão substituir a língua materna. Afirma ainda que a língua grega marcou com indelével sinete todas as línguas da Europa Ocidental, as quais tacha de cripto-helênicas; segundo ele, não só estas, mas também as demais línguas do planeta hoje podem ser assim consideradas, fato que é confirmado pelos Departamentos de Estudos Helênicos por todo o mundo. 

Consequentemente, a ligação mais óbvia entre os Gregos antigos e modernos é a sua língua, fruto de uma tradição contínua e documentada desde pelo menos o século XIV a.C. até os dias atuais. Não houve uma interrupção como a que ocorreu entre o latim e as modernas línguas românicas. A única língua que também compartilha a mesma continuidade da língua grega é a chinesa.
No presente artigo, meu propósito é mostrar que o vínculo que permanence entre a língua grega moderna e a antiga, apesar dos muitos percalços neste trajeto, mostrando a fidelidade e tradição do povo grego, que considera a sua língua um símbolo nacional e seu principal cartão de visita. 

É bom relembrar aqui que as agruras por que passa o povo grego no momento não são exclusividade da nação grega, e sim fruto das contingências que fazem parte dos ciclos do capitalismo e das crises que são gestadas no seu interior. Já me convenci de que as crises migram de um país a outro, dependendo das grandes e globais conveniências.

Nossa linguista e filóloga, Dra. Guida Nedda Barata Parreiras Horta, professora titular da Faculdade de Letras da UFRJ, fez a seguinte consideração por ocasião do Sesquicentenário da Independência da Grécia, em 25/03/1971 [HORTA (1980, pp. 21-22)]: 
Contudo, ninguém exprimiu melhor o sentimento universal da presença espiritual da Hélade, em nossos dias, do que um de seus mais brilhantes poetas modernos — Kostís Palamás, falecido em plena conflagração mundial, na luta pela liberdade, contra o nazi-fascismo, em 1943 — num poema, do qual, tomando a Grécia por objeto, permitimo-nos roubar uma parte da beleza intrínseca, traduzindo-o: 

AMO-TE
Por Kostís Palamás¹

Amo-te na linguagem do pássaro, e na do rouxinol, e com palavras inexprimíveis, com tudo o que, em minha razão nebulosa, vive a meio, arrastando após si uma caótica multidão, e que, ansiosamente, busca a forma e a luz.
Amo-te, com todas as estrelas de meu céu profundo. Fica, meu amor criador, em meu pensamento obscuro!
Pois o enxame das sombras zumbe em teu redor, e como! 
Para extrair de ti a forma e a luz.” 

II. MINHA TRADUÇÃO DE EXCELENTE ARTIGO QUE COMPROVA QUE VÁRIOS ELEMENTOS DO GREGO ANTIGO CONTINUA PRESENTE NA LÍNGUA GREGA MODERNA, INDEPENDENTE DE ACORDOS E REFORMAS ORTOGRÁFICAS 

 
Vocês sabem que hoje falamos a língua de Homero?
Por Sophia Kostara (Editora chefe do Blog InfoKids.gr)

Desde a época que falou Homero até hoje, falamos, respiramos e cantamos com a mesma língua.
Giorgos Seféris 

Qual palavra grega é antiga e qual é nova? Por que uma palavra homérica nos parece difícil e incompreensível?
Os Gregos hoje, independente da instrução, falamos homericamente, porém não o sabemos, porque ignoramos o significado das palavras que utilizamos.
Para comprovar a pertinência de nosso argumento, citaremos vários exemplos para verificarmos que a língua homérica não só não está morta, mas está completamente viva.
Αυδή é a voz [φωνή]. Hoje usamos o adjetivo άναυδος [sem fala, estupefato, atônito].
Αλέξω na época de Homero significa “impedir, dissuadir”. Agora usamos as palavras αλεξίπτωτο [pára-quedas], αλεξίσφαιρο [à prova de bala], αλεξικέραυνο [pára-raios],  αλεξήλιο [guarda-sol], Αλέξανδρος [aquele que repele os homens (machos adultos)], etc.
Com o advérbio τήλε em Homero subentendiam “longe”, usamos os vocábulos τηλέφωνο [telefone], τηλεόραση [televisão], τηλεπικοινωνία [telecomunicação], τηλεβόλο [canhão], τηλεπάθεια [telepatia], etc.
Λάας ou λας chamavam a pedra. Nós dizemos λατομείο [pedreira], λαξεύω [entalhar, gravar].
Πέδον em Homero significa solo; agora dizemos στρατόπεδο [quartel], πεδινός [plano, de planície].
A cama era chamada de λέχος, nós denominamos λεχώνα [parturiente] a mulher que recentemente pariu e fica na cama.
Πόρος chamavam a passagem, a travessia; hoje usamos o vocábulo πορεία. Também denominamos εύπορο [rico, opulento] alguém que tem dinheiro, porque possui facilidades (meios de atingir um objetivo), ou seja, pode passar onde quiser, e άπορο aquele que não tem meios de subsistência, o pobre.
Φρην é a lógica. Desse vocábulo provêm το φρενοκομείο [manicômio], ο φρενοβλαβής [demente], ο εξωφρενικός [extravagante], ο άφρων [insensato], etc.
Δόρπος chamavam o jantar[δείπνο]; hoje o vocábulo é επιδόρπιο [sobremesa].
Λώπος é, em Homero, roupa. Agora, chamamos aquele que nos furtou (despiu a nossa casa) λωποδύτη [ladrão].
Ύλη denominavam um lugar com árvores; nós dizemos lenhador [υλοτόμος].
Άρουρα era o terreno [χωράφι]; todos conhecemos a ratazana [αρουραίος].
Chamavam a ira [θυμός] de χόλο. Essa palavra deu origem à χολή [bílis], com o significado da amargura [πίκρα]. Dizemos também que alguém está aflito [χολωμένος].
Νόστος significa retorno à pátria. A palavra permaneceu como παλινόστηση [regresso à pátria] ou νοσταλγία [saudade].
Άλγος em Homero é o sofrimento corporal; dele provém o analgésico [αναλγητικό].
O peso [βάρος]  chamavam de άχθος, hoje dizemos αχθοφόρος [carregador].
Ρύπος [sujeira, porcaria] prossegue e se diz assim — ρύπανση [poluição].
Da palavra αιδώς [vergonha, hoje ντροπή] proveio o αναιδής [insolente, descarado].
Πέδη significa atadura, ligamento [δέσιμο] e agora dizemos πέδιλο [sandália]. Também usamos a palavra χειροπέδες [algemas].
De φάος, a luz [φως] provém a expressão φαεινές ιδέες [ideias luminosas].
Άγχω significa apertar o pescoço; hoje dizemos αγχόνη [forca, patíbulo]. Também é a ansiedade [άγχος] por algum aperto, ou por pressão.
Βρύχια em Homero são as águas profundas, donde o submarino [υποβρύχιο].
Φερνή chamavam o dote[προίκα]. Daí prevaleceu chamarmos a bem dotada de πολύφερνη νύφη [noiva bem dotada].
A refeição, à qual cada um que comparecia trazia consigo sua comida, chamava-se έρανος. A palavra permaneceu, com a diferença que hoje não contribuímos com comida, mas com dinheiro.
Há palavras, da época de Homero, que, enquanto a sua primeira forma mudou — χειρ ficou χέρι [mão], ύδωρ virou νερό [água], ναυς tornou-se πλοίο [navio], άστυ deu πόλη [cidade], sendo que na composição se manteve a primeira forma da palavra.
Assim, a partir da palavra χειρ temos: χειρουργός [cirurgião], χειριστής [operador], χειροτονία [relig. ordenação], χειραφέτηση [emancipação], χειρονομία [gesto], χειροδικώ [agir pela lei do mais forte], etc.
A partir de ύδωρ, temos as palavras: ύδρευση [abastecimento de água], υδραγωγείο [aqueduto], υδραυλικός [hidráulico], υδροφόρος [aquífero], υδρογόνο [hidrogênio], υδροκέφαλος [hidrocéfalo], αφυδάτωση [desidratação], ενυδρείο [aquário], etc.
A partir da palavra ναυς temos: ναυπηγός [engenheiro naval], ναύαρχος [almirante], ναυμαχία [batalha naval], ναυτικός [marinheiro], ναυαγός [náufrago], ναυτιλία [navegação], ναύσταθμος [estaleiro; porto naval], ναυτοδικείο [tribunal marítimo], ναυαγοσώστης [salva-vidas], ναυτία [náusea, enjoo], etc.
A partir do vocábulo άστυ temos: αστυνομία [polícia], αστυνομικός [agente policial], αστυφιλία [urbanismo], etc.

De acordo com supracitados exemplos, resulta que: Não existem palavras gregas antigas e novas, mas apenas palavras gregas.

A língua grega é una e essencialmente indivisível ao longo do tempo. Desde a época de Homero até hoje, apenas poucas palavras foram acrescentadas à língua grega. (Pelo contrário, foi criado um grande número de palavras compostas, cujos componentes constituem palavras originais ou derivadas do grego antigo.)

O conhecimento da etimologia e dos significados das palavras nos ajudará a compreendermos que falamos a língua da poesia homérica, uma língua que Homero não descobriu,  preexistente a ele muitos milênios.


III. NOTA DO AUTOR 


¹ Kostís Palamás, poeta, prosador, teatrólogo, historiador e crítico literário, nasceu em Patras, em 13 de janeiro de 1859. Foi considerado o mais importante da sua época, morreu em Atenas no dia 27 de fevereiro de 1943. É de sua autoria a letra do seu “Hino Olímpico”, escrita em 1896 quando dos primeiros Jogos Olímpicos da Era Moderna, com música de Spýros Samáras. Foi um dos candidatos ao Prêmio Nobel da Literatura em 1939. Palamás, que foi também romancista, dramaturgo e crítico, deixou uma vasta e variada obra literária. Dentro do movimento demoticista, Palamás teve papel primordial e dominou a cena literária por várias décadas, com uma vasta produção de ensaios e artigos, tendo publicado sua melhor poesia entre 1900 e 1910. 
Em 1936 e 1937, numerosas manifestações foram organizadas, na Grécia e no estrangeiro, para comemorar o cinquentenário da publicação do seu primeiro livro, “Cantos da minha Pátria”, uma coletânea poética que veio a lume em 1886.
Em 1937, tornou-se Cavaleiro da Legião de Honra Francesa
Os últimos anos da sua vida foram marcados pela solidão e por doenças. Só recebia visitas de amigos, que o acompanharam até a hora da morte. O seu funeral foi pretexto para comoventes apelos à resistência, face à ocupação alemã, feitos pelo poeta Ángelos Sikelianós, pelo arcebispo de Atenas e pelo povo, que cantou em uníssono o hino nacional grego.



Σ' ΑΓΑΠΩ
Κωστής Παλαμάς

Σ' αγαπώ με τη γλώσσα
του πουλιού τ' αηδονιού
και με τ' άφραστα· μ' όσα
στο θαμπό μου το νού

μισοζούν, αργορεύουν,
από χάος λαός,
κ' εναγώνια γυρεύουν
τη μορφή και το φως.

Σ' αγαπώ μ' όλα τ' άστρα
τού βαθιού μου ουρανού.
Στήσου, αγάπη μου πλάστρα
στο θαμπό μου το νου,

και των ίσκιων το σμάρι
βουΐζει γύρω σου, ω πώς !
από σέ για να πάρη
τη μορφή και το φως.

(Τα παράκαιρα, 1919
'Απαντα, τομ. Ζ´, σελ. 188)



IV.  REFERÊNCIAS  BIBLIOGRÁFICAS 




HORTA, G.N.B.P. : "A Luz da Hélade" (Ensaios Literários nº 1). Rio de Janeiro: Editora J. di Giogio & Cia. Ltda., 1980, 248 p.


KOSTARA, S. : "Γνωρίζετε ότι σήμερα μιλάμε την ομηρική γλώσσα;", artigo publicado no Blog InfoKids.gr

4 comentários:

José Maurício de Carvalho disse...

Muito interessante.
Maurício

Tarcízio Dinoá Medeiros disse...

Braga, parabéns, por sua iniciativa cultural.

Tarcízio

Anderson Braga Horta disse...

Terei prazer em divulgar os links, na medida em que me ocorram estudiosos do grego antigo. Por enquanto, só me vem à lembrança o nome de um amigo que andou estudando o grego – moderno... Repasso-os a ele.

Abraços,

Anderson

Paulo Rodrigo Natividade Milagre disse...

Caro amigo. Estávamos pensando em criar na ADL um curso rápido de latim e, posteriormente, grego. Cheguei até a sugerir, o que foi bem aceito. Estamos à procura de alguém que possa nos dar este curso voluntariamente. O Fernando ficou de ver se consegue algum padre para colaborar. Ainda existem alguns "doidos como nós" que pensam diferente. Isso é muito bom, pois assim a cultura sobrevive. Abraços. Paulo.