quinta-feira, 14 de abril de 2011

Tradução de poemas poloneses > > Parte 1


Por Francisco José dos Santos Braga

Pelo presente, venho trazer ao público lusófono algumas traduções de minha lavra para poemas poloneses, que o Blog do Braga publicou em 18 de março de 2010 como apêndice à Parte 6 da série de matérias e ensaios dedicados a comemorar condignamente o bicentenário do nascimento do compositor polonês Franciszek Fryderyk Chopin (Żelazowa Wola, 1810 - Paris, 1849), sob a denominação "2010-Ano Chopin". O motivo dessa transposição para esta página se deve à sugestão de minha irmã Elizabeth, que me recomendou dar o devido destaque a esses poemas de fino labor intelectual e que são uma expressão viva da cultura polonesa.

Consta que o celebrado poeta italiano Eugenio Montale, ao ser-lhe concedido o Prêmio Nobel de Literatura em 1975, proferiu importante discurso intitulado "É ainda possível a poesia?", onde se pergunta sobre o lugar que ainda pode ocupar "a mais discreta das artes" num mundo em que "o homem civilizado chegou ao ponto de ter horror de si". A resposta continha ainda alguma esperança: para a poesia "que surge quase por milagre e parece condensar toda uma época, para essa poesia não há morte possível..."

Já se passaram quase 36 anos depois do célebre questionamento. Por acaso, não há agora maiores motivos para se ficar inquieto quanto ao futuro da poesia? Os condicionalismos que se faziam sentir na década de 70 do século passado não se agravaram, com o triunfo da mediocracia? No século XXI a poesia ainda é possível?

Em Mensagem homenageando o Dia Mundial da Poesia, em 21 de março de 2010, o poeta português António Osório deu a seguinte resposta à minha indagação:

"A defesa da poesia cabe aos poetas. Muito têm resistido, têm que resistir mais ainda.

A experiência diz-me que as leituras de poesias nas escolas e nas universidades, pelos próprios poetas, o diálogo que têm que estabelecer com os alunos seus ouvintes é uma das melhores formas de humanizar o poeta e chamar o interesse para a poesia que faz. E não se devem limitar essas leituras ao próprio país... (...) Não basta o esforço isolado do poeta. O confinamento ao seu próprio país lhe é nefasto. (...)

Sem dúvida, a poesia terá que ser um 'refúgio' contra a voragem tecnocrática, contra o desrespeito pela beleza do mundo, contra a destruição da paisagem. Os seus são os valores da vida, a poesia é, como Croce sempre defendeu, a 'palavra cósmica', uma forma de não se submeter, mas de se indignar, de estar ao lado dos humilhados, uma afirmação humanista.

Retenhamos essas palavras de Rainer Maria Rilke, nas suas Cartas a um jovem Poeta: 'ser artista é amanhecer como as árvores, que não duvidam da própria seiva e que enfrentam tranquilas as tempestades da Primavera, sem recear que o Verão não chegue.'

Teremos de ser como elas, que não põem em causa a própria seiva e que resistem às tempestades da Primavera."

Nesta matéria veremos alguns defensores da causa poética na Polônia.




A escritora Wisława Szymborska nasceu em Kórnik, em 2 de julho de 1923.
Destacou-se como poetisa com uma obra que tem como tema as vicissitudes da Polônia moderna. Emprega uma linguagem simples e coloquial, herança do realismo social que dominou a Europa oriental, mas sua modernidade se revela no tom irônico e na complexidade formal de muitas de suas poesias.

Recebeu o Prêmio Nobel de Literatura de 1996.

Prof. Dr. Henryk Siewierski, professor do Departamento de Teoria Literária e Literaturas da UnB, escreve a respeito de Szymborska : " (...) No centro desta poesia reside uma concepção trágica do mundo e da existência humana, mas a poetisa é uma fingidora que sabe controlar e disfarçar as suas emoções. Ela finge que escreve apenas sobre as questões cotidianas, que não se preocupa com a arte poética, que escreve com facilidade e que tudo é mais simples e mais leve do que parece ser. (...)" (História da Literatura Polonesa, p. 210-211, Ed. UnB, 2000)



VIETNAM

Wisława Szymborska

Mulher, como te chamas? — Não sei.
Quando nasceste, donde vens? — Não sei.
Para que cavaste uma toca na terra? — Não sei.
Desde quando aqui te escondes? — Não sei.
Por que mordeste meu dedo anular? — Não sei.
Sabes que nada te fizemos de mal? — Não sei.
De que lado estás? — Não sei.
Agora é guerra, precisas escolher. — Não sei.
Tua aldeia ainda existe? — Não sei.
Estes são os teus filhos? — Sim.

Wietnam

Kobieto, jak się nazywasz? - Nie wiem.

Kiedy się urodziłaś, skąd pochodzisz? - Nie wiem.

Dlaczego wykopałaś sobie norę w ziemi? – Nie wiem.
Odkąd się tu ukrywasz? - Nie wiem.

Czemu ugryzłaś mnie w serdeczny palec? - Nie wiem.

Czy wiesz, że nie zrobimy ci nic złego? - Nie wiem.

Po czyjej jesteś stronie? - Nie wiem.

Teraz jest wojna musisz wybrać. - Nie wiem.

Czy twoja wieś jeszcze istnieje? - Nie wiem.

Czy to są twoje dzieci? - Tak.


ELOGIO DA IRMÃ
Wisława Szymborska

Minha irmã não escreve poemas
e é improvável que vá começar de repente a escrever poemas.
Puxou isso à mãe, que não escrevia poemas,
ou ao pai, o qual também não escrevia poemas.
Sob o teto de minha irmã me sinto segura:
por nada neste mundo, o marido dela escreveria poemas.
E apesar de isso soar como uma obra de Adam Macedoński,
nenhum dos parentes se ocupa de escrever poemas.

Nas gavetas de minha irmã não há antigos poemas
nem na bolsa os escritos recentemente.
E quando minha irmã me convida para almoçar,
sei que não pretende ler para mim seus poemas.
Suas sopas são excelentes sem premeditação,
e o café não se derrama nos manuscritos.

Em muitas famílias ninguém escreve poemas,
mas nas que isso se faz — raro é só uma pessoa.
Às vezes a poesia flui em cascatas de gerações,
nos sentimentos mútuos criando redemoinhos sérios.

Minha irmã cultiva boa prosa,
e toda a sua obra escrita são cartões postais de férias,
com um texto prometendo a mesma coisa, todo ano:
que ao retornar
tudo
tudo
tudo vai contar.

Pochwała siostry

Moja siostra nie pisze wierszy

i chyba już nie zacznie nagle pisać wierszy.

Ma to po matce, która nie pisała wierszy,

oraz po ojcu, który też nie pisał wierszy.

Pod dachem mojej siostry czuję się bezpieczna:

mąż siostry za nic w świecie nie pisałby wierszy.

I choć to brzmi jak utwór Adama Macedońskiego,
nikt z krewnych nie zajmuje się pisaniem wierszy.



W szufladach mojej siostry nie ma dawnych wierszy
ani w torebce napisanych świeżo.

A kiedy siostra zaprasza na obiad,

to wiem, że nie w zamiarze czytania mi wierszy.

Jej zupy są wyborne bez premedytacji,

a kawa nie rozlewa się na rękopisy.



W wielu rodzinach nikt nie pisze wierszy,

ale jak już - to rzadko jedna tylko osoba.

Czasem poezja spływa kaskadami pokoleń,

co stwarza groźne wiry w uczuciach wzajemnych.



Moja siostra uprawia niezłą prozę mówioną,

a całe jej pisarstwo to widokówki z urlopu,

z tekstem obiecującym to samo każdego roku:

że jak wróci,

to wszystko
wszystko
wszystko opowie.





Sobre o escritor Leopold Staff, deixo as notícias a cargo da visão autorizada do Prof. Dr. Henryk Siewierski: "Leopold Staff (1878-1957) nasceu em Lvov numa família de austríacos polonizados, estudou filologia românica e filosofia, foi editor da importante série de obras filosóficas Sympozjon. Em 1918 muda-se para Varsóvia, onde participa da organização da Academia Polonesa de Literatura. Durante a Segunda Guerra permanece em Varsóvia, traduzindo autores latinos e publicando os seus poemas na imprensa clandestina. Depois da guerra vive na Polônia. Aclamado como o maior poeta contemporâneo, premiado e condecorado, continua fiel a si mesmo, buscando novas formas de expressão. Staff é também considerado um dos maiores tradutores poloneses das literaturas clássicas e modernas." (Ibidem, p. 133)


AMAR E PERDER
Leopold Staff

Amar e perder, desejar e lamentar,
Cair doridamente e de novo erguer-se,
Gritar com saudade "Fora!" e implorar "Guie!"
Eis uma vida: nada, e contudo bastante...

Correr desertos por uma jóia só,
Ir às profundezas atrás de uma pérola pela beleza do prodígio,
Para que atrás de nós ficassem apenas eles —
Rastros na areia e círculos na água.

Kochać i tracić

Kochać i tracić, pragnąc i żałować,
Padać boleśnie i znów się podnosić,
Krzyczeć tęsknocie "precz!" i błagać "prowadź!"
Oto jest życie: nic, a jakże dosyć...

Zbiegać za jednym klejnotem pustynie,
Iść w toń za perłą o cudu urodzie,
Ażeby po nas zostały jedynie
Siady na piasku i kręgi na wodzi.




Jan Brzechwa (1898-1966) nasceu em Żmerynka, Podolia (hoje Ucrânia), de uma família polonesa de descendência judaica, foi um poeta e autor, principalmente conhecido por sua contribuição para a literatura infantil.
Após mudar-se para a cidade de Varsóvia, graduou-se em Direito pela Universidade de Varsóvia. Durante a Guerra Polaco-Soviética, serviu no 36º Regimento da Legião Acadêmica e sua estréia formal como escritor aconteceu em 1920 através de várias revistas de humor.
Brzechwa morreu em Varsóvia em 1966.

O PREGUIÇOSO
Jan Brzechwa

No sofá-cama está sentado o preguiçoso,
Não faz nada o dia inteiro.

— Oh! rejeito isso para mim!
Como assim? Eu não faço nada?
E quem está sentado no sofá-cama?
E quem tomou o café da manhã?
E quem hoje cuspia e pegava?
E quem se coçou na cabeça?
E quem hoje perdeu as galochas?
Ah! Por favor!

No sofá-cama está sentado o preguiçoso,
Não faz nada o dia inteiro.

— Com licença! E eu não tomava emulsão de Scott?
E hoje não lavava as orelhas?
E não arranquei botão?
E não mostrei língua?
E não estava indo para tosquiar-me?
Isso tudo se chama nada?

No sofá-cama está sentado o preguiçoso,
Não faz nada o dia inteiro.

Ele não foi à escola, porque não lhe apeteceu.
Não fez o dever de casa, porque teve pouco tempo demais,
Não amarrou os cadarços, porque não estava a fim,
Não disse "bom dia", porque isso daria trabalho demais,
Não deu de beber a Totó, porque a água fica longe demais.
Não alimentou o canário, porque teve dó do tempo;
Ia jantar — apenas mascou com a boca,
Ia deitar-se — não teve tempo — adormeceu.
Sonhou que se incomodava enormemente com algo,
Ficou tão cansado desse sonho que acordou.

Leń

Na tapczanie siedzi leń,
nic nie robi cały dzień.

"O, wypraszam to sobie!
Jak to ja nic nie robię?
A kto siedzi na tapczanie?
A kto zjadł pierwsze śniadanie?
A kto dzisiaj pluł i łapał?
A kto się w głowę podrapał?
A kto dziś zgubił kalosze?
O - o! Proszę!"

Na tapczanie siedzi leń,
nic nie robi cały dzień.

"Przepraszam! A tranu nie piłem?
A uszu dzisiaj nie myłem?
A nie urwałem guzika?
A nie pokazałem języka?
A nie chodziłem się strzyc?
To wszystko nazywa się nic?"

Na tapczanie siedzi leń,
nic nie robi cały dzień.

Nie poszedł do szkoły, bo mu się nie chciało,
nie odrobił lekcji, bo czasu miał za mało.
Nie zasznurował trzewików, bo nie miał ochoty,
nie powiedział "dzień dobry", bo z tym za dużo roboty,
nie napoił Azorka, bo za daleko jest woda,
nie nakarmił kanarka, bo czasu mu było szkoda.
Miał zjeść kolację - tylko ustami mlasnął,
miał położyć się spać - nie zdążył - zasnął.
Śniło mu się, że nad czymś ogromnie się trudził.
Tak zmęczył się tym snem, że się obudził.




Também sobre Julian Tuwim, ouçamos o que o Prof. Dr. Siewierski tem a nos dizer:
"Julian Tuwim (1894-1953) passou a infância e a juventude em Łódź, uma grande cidade industrial. Em 1916 muda-se para Varsóvia onde estuda Direito e Filosofia, escreve para a revista de jovens Pro Arte et Studio e apresenta-se no cabaré "Pod Pikadorem". (...) Seus poemas dinâmicos captam cenas da cidade grande, focalizam a situação do homem comum, expressando na linguagem da rua os encantos da vida cotidiana. Com o tempo, a afirmação da realidade dá cada vez mais lugar à crítica social. (...) Fascinado pela língua, pesquisa e explora seus vários registros, desde a língua de Jan Kochanowski até o jargão dos bêbados (é autor de um Dicionário Polonês de Bêbados). Interessa-se pela poesia de Walt Whitman e pelo Futurismo russo. É também autor de inigualáveis poemas para crianças. Exilado durante a Segunda Guerra, passa dois anos no Brasil..." (Ibidem, p. 146-147)


ÓCULOS
Julian Tuwim

Sr. Hilário corre, grita:
"Onde estão meus óculos?"

Procura na calça e no casaco,
No sapato direito, no sapato esquerdo.

Revirou tudo nos guarda-roupas,
Apalpa o roupão, o sobretudo tateia.

"Um escândalo! — grita — é incrível!
Alguém me furtou os óculos."

Sob o sofá, no sofá,

Em toda a parte busca, bufa, arfa!

Procura no forno e na chaminé,
Na toca do rato, do piano entre as teclas.


Já quer arrancar o piso,
Já começou a chamar a polícia.

De repente — olhou para o espelho...
Não quer acreditar... De novo olha.

Eureka!... Cá estão! O que se passou
É que ele os traz no próprio nariz.

Okulary

Biega, krzyczy pan Hilary:

"Gdzie są moje okulary?"



Szuka w spodniach i w surducie,

W prawym bucie, w lewym bucie.



Wszystko w szafach poprzewracał,

Maca szlafrok, palto maca.



"Skandal! - krzyczy - nie do wiary!

Ktoś mi ukradł okulary!"



Pod kanapą, na kanapie,

Wszędzie szuka, parska, sapie!



Szuka w piecu i w kominie,

W mysiej dziurze i w pianinie.



Już podłogę chce odrywać,

Już policję zaczął wzywać.



Nagle zerknął do lusterka...

Nie chce wierzyć... Znowu zerka.



Znalazł! Są! Okazało się,

Że je ma na własnym nosie.





* Francisco José dos Santos Braga, cidadão são-joanense, tem Bacharelado em Letras (Faculdade Dom Bosco de Filosofia, Ciências e Letras, atual UFSJ) e Composição Musical (UnB), bem como Mestrado em Administração (EAESP-FGV). Além de escrever artigos para revistas e jornais, é autor de dois livros e traduziu vários livros na área de Administração Financeira. Participa ativamente de instituições no País e no exterior, como Membro, cabendo destacar as seguintes: Académie Internationale de Lutèce (Paris), Familia Sancti Hieronymi (Clearwater, Flórida), SBME-Sociedade Brasileira de Música Eletroacústica (2º Tesoureiro), CBG-Colégio Brasileiro de Genealogia (Rio de Janeiro), Academia de Letras e Instituto Histórico e Geográfico de São João del-Rei-MG, Instituto Histórico e Geográfico de Campanha-MG, Academia Valenciana de Letras e Instituto Cultural Visconde do Rio Preto de Valença-RJ e Fundação Oscar Araripe em Tiradentes-MG. Possui o Blog do Braga (www.bragamusician.blogspot.com), um locus de abordagem de temas musicais, literários, literomusicais, históricos e genealógicos, dedicado, entre outras coisas, ao resgate da memória e à defesa do nosso patrimônio histórico.Mais...

Nenhum comentário: