“o intercâmbio cultural Itália-Brasil é de longa data, contou com o empenho de muitas instituições, de artistas, músicos, regentes, cantores, políticos, intelectuais e idealistas do Brasil e da Itália, sendo que, nele, o compositor Antonio Carlos Gomes sempre desempenhou papel de central importância [...] — no caso da vida e obra do compositor e de sua difusão na sua época e dos empenhos posteriores para a sua promoção e da própria pesquisa, em todos esses casos foi percebido como necessariamente merecedor de atenção no início do movimento de renovação originado em São Paulo em meados da década de 60 [...]”
“Esse movimento nasceu de preocupações relativas a problemas constatados sobretudo nas áreas de História da Música e de Folclore no Conservatório Musical Carlos Gomes de São Paulo que, pela sua história, direção e corpo docente era uma das principais instituições da comunidade italiana e ítalo-brasileira de São Paulo. [...]
Esses estudos tiveram o seu início em trabalho conjunto com professores do conservatório, de propriedade do maestro Armando Belardi e dirigido por Gemma Rina Peracchi, tendo como diretor-secretário Líbero Vignoli.
Vários professores italianos e ítalo-brasileiros colaboraram com as reflexões, fornecendo dados sobre as suas próprias experiências de vida e profissionais, entre eles: Walter Gandolfi, Dino Pedini, Lybia Piccardi, Henriqueta E. Ricardino, Sisto Mechetti, Yolanda Giovanazzi, Rina Coli, Nicola A. Gregoria e Renata M. Aventurato.
Os trabalhos de campo, de levantamento de acervos e entrevistas foram desenvolvidos em vários bairros e cidades de São Paulo marcados pela presença italiana no âmbito do programa "Musicologia Paulista".
Entre eles salientou-se o bairro do Brás, onde foram visitados protagonistas da vida musical do passado e associações. Importante encontro deu-se por ocasião de visita ao Teatro Colombo, já fechado, antes de sua demolição. O grande edifício no Largo da Concórdia, então também estudado por arquitetos da FAU/USP, permitia reconhecer a estrutura do mercado que lhe dera origem antes de ser arrendado para casa de espetáculos, inaugurada em 1908.
![]() | |
Teatro Colombo, fundado em 19/02/1908 no Brás |
Interior do Teatro Colombo
A própria denominação do teatro testemunhava os seus elos com a Itália no seu orgulho do papel exercido pelos navegantes italianos na história dos Descobrimentos. O teatro representava, assim, o significado de Colombo para os italianos de São Paulo e para a Itália, tendo sido despertado em grande parte pelas comemorações de Colombo nas comemorações dos 400 anos do Descobrimento da América, em 1892.
De acordo com a orientação da atenção do movimento, voltado à superação de esferas entre o erudito, o popular e o folclórico, considerou-se não só programas do teatro e outras casas de espetáculos — cine-teatros —, que testemunharam a presença de notáveis artistas e companhias italianas em São Paulo, como também o papel desempenhado por italianos na história da música popular urbana no Brasil.”
“O empresário Alfredo Gagliotti, com a sua rede de contatos na Itália e no Brasil, em particular através da amizade com a organização artística do San Carlo através de Marchese Parisi, alcançou a vinda de artistas, orquestra, coro, bailado e pessoal técnico e de montagem do renomado teatro, de tanto significado para a história da música no Brasil. Entre os cantores, encontravam-se nomes internacionalmente conhecidos, como Mario Del Monaco e Gianni Raimondi.
De particular interesse para os estudos relativos a Carlos Gomes foi a apresentação da ópera La Gioconda de A. Ponchielli (1834-1886) ao lado de Otello e Nabucco de G. Verdi, quando veio à consciência o extraordinário significado da amizade e da colaboração artística entre Ponchielli e o compositor brasileiro.
Essa vinda do Teatro San Carlo deveria ter sido o início de um grande programa de visita ao Brasil de outros teatros de cidades italianas, o que, porém, não se realizou.”
“O ano de 1970 foi marcado pelas comemorações paulistanas do centenário da primeira representação de Il Guarany no Teatro alla Scala de Milão. Para elas, A. Belardi preparou um concerto coral-sinfônico no qual foram executadas várias obras de Carlos Gomes.
O concerto, realizado nas escadarias do Museu Paulista do Ipiranga, adquiriu dimensões político-culturais que foram por muitos consideradas como questionáveis. O evento realizou-se em data na qual concomitantemente comemorou-se uma Semana da Revolução de março de 1964 e, assim, do regime militar.
Este, porém, não foi o único evento comemorativo do centenário de Il Guarany em São Paulo.
Cumprindo finalidades de difusão cultural, o Departamento de Cultura, em 31 de maio, promoveu um concerto com obras de Carlos Gomes na Praça Roosevelt. A ópera foi apresentada como primeira récita de gala na temporada lírica oficial do Teatro Municipal de São Paulo.”
“O centenário de Il Guarany foi celebrado compreensivelmente sobretudo em Campinas, destacando-se aqui o empenho do historiador José de Castro Mendes, colaborador do jornal Correio Popular. Pouco antes de falecer, antevendo a aproximação da data do centenário da primeira apresentação da ópera, Castro Mendes procurou intensamente despertar interesses para a ocorrência, realizando projetos e preparando um alentado trabalho sobre o compositor. Neste intento, incentivado por José Acchilles Faria, deu início a uma publicação que foi lançada postumamente como suplemento do jornal.
Com esse suplemento, o Correio Popular procurou não só prestar homenagem ao compositor, que levou o nome do Brasil ao Exterior, como também celebrar a memória de José de Castro Mendes, que dedicou parte de sua vida à memória de Carlos Gomes.
O suplemento foi aberto com uma poesia de O. Neto, no qual o autor decanta a obra como "voz da terra que canta dentro da natureza esplendorosa do Brasil". Tudo nessa página imortal seria força, vida e amor, e o Il Guarany representaria a alma de Carlos Gomes e o próprio Brasil.”
“despertou nos círculos líricos de São Paulo o intento de retribuição e de apresentação, na Itália, de cantores e músicos brasileiros ou ítalo-brasileiros.
O principal motor da iniciativa foi mais uma vez o empresário Alfredo Gagliotti, que alcançou apoios de instâncias brasileiras e italianas e o interesse de artistas brasileiros. Entre êles, participaram do empreendimento Niza de Castro Tank, Assis Pacheco, Costanzo Mascitti, Wilson Carrara, Paulo Adonis Gonzáles, Assadur Kiultzian, Andréa Ramus, Benedito Silva e Carlos Ebide. A regência esteve a cargo de Armando Belardi e Henrique Morelenbaum. O corpo de baile foi formado com bailarinos de São Paulo e do Rio de Janeiro, com coreografia de Johnny Franklin.Da esq. p/ dir.: Tenor César D'Ottaviano em Dom Álvaro/Soprano Niza Tank, o rouxinol do Brasil, no papel de Ceci/Tenor Assis Pacheco em Pery numa das récitas de Il Guarany no Teatro San Carlo de Nápoles (abril de 1971)
Foi a primeira vez que um grupo considerável de cantores, músicos, técnicos e bailarinos do Brasil dirigiu-se à Itália para a apresentar-se num dos principais teatros da terra por excelência da arte lírica.
Foi, assim, um marco na história do intercâmbio Itália-Brasil na sua devida reciprocidade. Além do mais, o significado do empreendimento salientou-se pelo fato de ser a obra escolhida aquela de um compositor brasileiro que com ela alcançou o seu maior sucesso na Itália.
O grupo foi recebido, em abril de 1971, com grande cordialidade em Nápoles pelas autoridades e representantes do tradicional Teatro, onde realizou quatro apresentações, com sucesso de público. Sendo filho de italianos, Armando Belardi foi recebido com simpatia pelos membros da orquestra e do coro de Nápoles, que por fim colocaram um seu retrato na sala da orquestra.”
“O Scambio Culturale Italia-Brasile, sob os auspícios da Prefeitura Municipal de São Paulo, fez a apresentação de Il Guarany por conjunto de artistas brasileiros sob a direção de Armando Belardi e Tullio Colacioppo em Palermo, Sicília, em março de 1974. Realizaram-se sete récitas, com grande sucesso. A viagem foi de iniciativa do empresário Alfredo Gagliotti, em cooperação com Marchese Parisi, na Itália. Essa viagem retribuía, após cinco anos, a visita do Teatro San Carlo ao Brasil.
A ópera, dentro da programação do Teatro Massimo, então em obras, deu-se no Teatro Politeama ou Politeama Garibaldi. Este teatro histórico, construído entre 1867 e 1874, cuja arquitetura traz referências a Pompeia, é um dos principais monumentos arquitetônicos da cidade. O espetáculo esteve a cargo de artistas e técnicos de ambos os países em exemplo de extraordinária cooperação bi-lateral. O corpo de baile e técnicos do Teatro Municipal de São Paulo atuaram com a orquestra e coro do Teatro Massimo.
A coreografia esteve a cargo de Marília Franco, tendo como primeira bailarina Mariangela D'Andrea — Ivonice Satie, e solistas Vera Torres, Elenice Ferreira e Waldivia Rangel. Aos componentes do corpo de baile do Teatro Municipal de São Paulo juntaram-se bailarinos do Teatro Municipal do Rio de Janeiro. A direção de cena esteve a cargo de Paulo Fortes e a cenografia de Francisco Giacheri com a assistência de Emmerson Eckmann. Herminia Russo e Marcel Klass atuaram como maestros substitutos. O maestro de coro foi Mario Tagini. Entre os cantores que se apresentaram em Palermo, encontravam-se Paulo Adonis Gonzales, Niza de Castro Tank, Benito Maresca, Aguinaldo de Miranda Albert, Costanzo Mascitti, Assadur Kiultzian, Andrea Ramus, Benedito Antonio Silva e Wilson Carrara. (BELARDI, 1986: 154-8)”
“os anos de 1974/75 foram marcados por mudanças sensíveis na vida operística de São Paulo com o afastamento, por idade ou por motivos político-culturais, daqueles que durante décadas tinham-se por ela empenhado. Sem querer esmorecer, Armando Belardi constituiu, no ano da comemoração do sesquicentenário da imigração italiana ao Brasil, um Studio com artistas e amantes do bel canto. Esse Studio foi administrado por Gemma Rina Peracchi, musicista que tinha colaborado através de décadas com o seu trabalho, em particular também no secretariado do Conservatório Musical Carlos Gomes. A convite do Teatro Lírico de Equipe, organizou-se um Concerto Lírico Carlos Gomes no Museu de Arte de São Paulo. (ibidem, 159-160)”
“Entre as omissões de acontecimentos (no livro de Belardi), estão as circunstâncias em que saiu da direção artística do Theatro Municipal em 1975, sem nenhuma referência direta ao acontecimento, culpando apenas a “ambição de colegas” e mudanças administrativas na prefeitura pela pouca atividade profissional do maestro naquele ano. (BELARDI, 1986: 159)”
Uma última temática da autobiografia é a acusação de que, à época que o livro foi escrito, vivia-se uma “decadência cultural”: “[...] Belardi se diz completamente desiludido com a cultura em São Paulo, cidade que teve tudo para ser a capital cultural do País, título hoje, para ele, irremediavelmente perdido. ‘É lutar contra o impossível. Vivemos hoje uma completa decadência cultural no Brasil inteiro. [...]’ (PENTEADO, 1986: 31)
Essa “decadência cultural” teria como causas, segundo o maestro, a ausência de escolas de música erudita de qualidade, as poucas políticas públicas na área de Cultura, e a falta de mais salas de concerto.
A acusação de Belardi coincide com uma época de intenso debate nos meios de comunicação a respeito dos espaços artísticos e das políticas públicas na área cultural da cidade, cujo estopim foi a segunda reforma (1980-1991) do Theatro Municipal. Eram discutidas a condução dessa reforma feita pelos órgãos governamentais, além do fato de não haver outras salas de concerto do porte do Theatro Municipal em São Paulo. A autobiografia e as memórias de Belardi sinalizam, portanto, um possível diálogo com essas questões, e suas propostas seriam a São Paulo de outrora e a construção de um teatro exclusivo para óperas na cidade.
O retrato de São Paulo e de seus artistas feito por Belardi em Vocação e Arte é, portanto, uma necessidade de imortalizar uma São Paulo da qual há apenas alguns resquícios no momento da escrita: a São Paulo dos imigrantes italianos, dos políticos amantes da arte, de teatros que não existem mais, dos cinemas e rádios que mantinham uma programação de qualidade de música erudita, das pessoas que saíam com sua melhor roupa para assistir ópera, e do ensino de música de qualidade.
Mas a denúncia dessa “decadência” seria também uma rejeição a ideais estéticos e artísticos diferentes dos de Belardi. Na velhice, afastado dos principais centros de produção artística, assistindo à ascensão de uma nova elite artística e política na metrópole com outra orientação artística e cultural, Belardi defende em seu discurso uma arte conservadora, europeizada, elitizada, “clássica”: o ballet clássico, a música de mestres consagrados da música europeia e da música brasileira como Carlos Gomes, e, especialmente, a ópera. A defesa dessa cultura “clássica” se faz clara no seguinte trecho sobre a gestão do então Secretário de Cultura Mario Chamie:
[...] Na verdade o Dr. Chamie tomou certas deliberações que só serviram para descentralizar o funcionamento do nosso Teatro Municipal. De início acabou com o “Corpo de Baile do Teatro” como parte integrante dos Corpos Estáveis, criando, ou seja, transformando-o em “Ballet da Cidade de São Paulo”. Resultado: o Teatro Municipal ficou privado de seu Corpo de Bailado, e sempre que ele necessitou, teve que recorrer ou à Escola Municipal de Bailado (alunos) ou às Escolas particulares, sendo que o Ballet da Cidade de São Paulo passou a exibir-se independentemente, e mesmo abandonando a base de todas as escolas, ou seja: a clássica. (BELARDI, 1986: 167)
Defensor da ópera na capital, neste trecho está explícito como idealizava o Theatro Municipal como uma casa de ópera à semelhança das casas europeias:
[...] Na realidade, o que era preciso e a totalidade dos artistas e do público de São Paulo desejavam e que ainda desejam, seria transformar o Teatro Municipal num verdadeiro centro de ópera, com todos os meios necessários, ou seja: escola de canto, de representação, de arte cênica, cenografia, “ateliêr” e tudo que faz parte de uma grande organização lírica e operística, funcionando pelo menos durante 8 meses ao ano. [...] Desta forma, São Paulo teria voltado a ser a “Capital Artística” do país, igualada aos grandes teatros das principais capitais do mundo. Infelizmente, tudo isto foi um verdadeiro “sonho de uma noite de verão”[...] (BELARDI, 1986: 168)”
II. NOTA EXPLICATIVA
Link: http://revista.brasil-europa.eu/161/Scambio_culturale_Italia_Brasile.html
GABRIEL, Ana Paula dos Anjos & IGAYARA-SOUZA, Susana Cecília: São Paulo, capital da Música: memória e escrita autobiográfica em VOCAÇÃO E ARTE, por Armando Belardi (1898-1989), monografia apresentada no VII Simpósio Nacional de História Cultural-Anais do Evento de 10 a 14 de novembro de 2014 e divulgada por História Cultural: Escritas, Circulação, Leituras e Recepções da USP