terça-feira, 18 de junho de 2013

A CRISE DOS BURROS


Por Francisco José dos Santos Braga


I. INTRODUÇÃO


Durante a recente crise europeia, tem circulado uma parábola intitulada "A Crise dos Burros", traduzida para diversas línguas. A versão que segue abaixo constitui minha tradução quase literal desse texto, diretamente da língua grega. Consta que essa fábula apareceu pela primeira vez em francês, foi traduzida para o italiano e, em seguida, se espalhou por todas as línguas. O pressuposto nesta história é que empresários, banqueiros e autoridades públicas se unem em sintonia, em detrimento dos habitantes de uma aldeia, não identificada, mas que está sujeita às "leis de mercado"... dos burros.

Como se sabe, a situação ali retratada é particularmente sentida nos países da zona do euro, especialmente Grécia, Espanha, Portugal e Itália, que, ao fugirem à bancarrota, são submetidos às maiores atrocidades para cumprirem metas impostas por diversos organismos internacionais que lhes concedem crédito.

Como nenhum país está imune à intempérie nesses nossos tempos de globalização, em que a crise econômica não respeita fronteiras e ameaça indistintamente todos os países, julgo conveniente pensar que a situação descrita nessa fábula também possa não ser muito diferente da brasileira, em que pesem estatísticas e discursos oficiais não quererem reconhecer os maus ventos.


II. Minha tradução para "A CRISE DOS BURROS" ¹



Um dia apareceu numa aldeia um homem de terno e gravata. Subiu no banco da praça e gritou para a população local ouvir que compraria por 100 euros todos os burros que lhe trouxessem, e, ainda por cima, a dinheiro.

Os aldeões ficaram um pouco surpreendidos, mas o preço era muito bom e aqueles que aceitaram vender voltaram para casa com a bolsa cheia e um sorriso nos lábios.

No dia seguinte, o mesmo homem voltou e ofereceu 150 euros por burro não vendido; assim os demais camponeses venderam seus animais. Nos dias subsequentes, aumentou a oferta para 300 euros pelos animais que ficaram sem vender, tendo por consequência os últimos (camponeses) vendido seus burros sem arrependimento.

Quando aquele homem percebeu que na aldeia não restara nenhum burro, anunciou a todos que voltaria uma semana depois para comprar qualquer burro que encontrasse por... 500 euros! E se retirou.

No dia seguinte, confiou a seu sócio a manada de burros que tinha comprado e enviou-o à mesma aldeia com ordem de os vender todos ao preço de 400 euros cada.

Os aldeões anteviram a possibilidade de lucrar 100 euros por animal na semana que se seguiu. Por isso, ao longo dos dias restantes, compraram os burros por 400 euros cada, ou seja, readquiriram seus animais até quatro vezes mais caro do que o preço ao qual os tinham vendido, e, para o fazerem, foram obrigados a pedir EMPRÉSTIMO ao banco local.

Como se pode imaginar, depois da transação, os dois empresários saíram de férias para um paraíso fiscal do Caribe, enquanto os aldeões ficavam superendividados, desapontados e com os burros em sua posse.

É claro que os camponeses tentaram vender os burros para cobrirem as dívidas, mas foi inútil, pois todos já estavam abarrotados de burros cujo preço tinha chegado ao fundo.

Por isso, o banco confiscou os burros e, em seguida, os alugou aos antigos proprietários para tentar cobrar-lhes as dívidas.

Ainda assim, o banqueiro foi até ao prefeito da aldeia e lhe explicou que, caso não recuperasse os fundos emprestados ao Município, não só o prefeito iria à falência, como também pediria a suspensão da linha de crédito concedida ao Município, por via de consequência.

Aterrorizado, o prefeito, para evitar a catástrofe, em vez de dar dinheiro aos aldeões para cobrirem suas dívidas, deu-o ao banqueiro, o qual, aliás, era compadre do presidente da Câmara Municipal. O banqueiro, com a transação dos burros, após ter recuperado o seu capital, não quitou as dívidas dos aldeões nem do Município.

Ao ver as dívidas multiplicarem-se e apertado pelos juros, o prefeito pediu ajuda às prefeituras vizinhas; mas todas responderam negativamente, por terem sofrido prejuízo com seus próprios... burros!

Diante disso, o banqueiro deu ao prefeito o abnegado conselho de diminuir as despesas do Município da seguinte forma: menos dinheiro para as escolas, para o hospital da aldeia, para a polícia municipal, revogação dos programas sociais e de pesquisa, diminuição do financiamento para novas obras de infra-estrutura, aumento da idade para aposentadoria, exoneração da maioria dos funcionários municipais, cortes nos ordenados dos que permanecessem e aumento dos impostos.

Foi dito ser inevitável, mas prometido que aquelas mudanças estruturais eram "para por ordem no funcionamento do Estado, para por fim aos desperdícios" e... para moralizar o comércio dos burros.

A história começou a ficar interessante quando se ficou sabendo que os dois empresários e o banqueiro eram primos e residiam juntos numa ilha próxima a Bahamas, que tinham comprado com o seu... suor!

Ficaram conhecidos por "família dos mercados financeiros", e com grande bravura se ofereceram para financiar a campanha eleitoral dos prefeitos das aldeias da região.

Em todo caso, a história não terminou aí, porque ninguém soube o que fizeram depois os camponeses.


III. NOTAS DO AUTOR


¹  Fonte: http://alfeiospotamos.pblogs.gr/2013/05/h-krish-twn-ga-darwn-kai-to-ellhniko-hreos.html

15 comentários:

D.Everson POETA DE MARTE disse...

essa história é tão real kkkkkk

Pedro Paulo Torga da Silva disse...

Muito boa, até parece que já vi essa estória ou história??? rsrsrsrs
Pedro Paulo

José Maurício de Carvalho disse...

Parabéns.
José Maurício

Benedito Franco disse...

Prezado Amigo

Parabéns pela tradução e pelos comentários – quisera eu ter esta capacidade.

Abraços

Benedito Franco

José Ribas da Costa Filho disse...

ÉÉÉÉ.....
Abs
Ribas

João Carlos Ramos disse...

Bom dia! É sempre um prazer falar com você e usufruir mais sabedoria. Aproveito para agradecer-lhe o apoio incondicional a nossa Diretoria. A fidelidade é rara nesses tempos de BURROS.
Abraços!
João Carlos Ramos

Ulisses Passarelli disse...

Esta narrativa me parece bastante familiar. Por vezes penso que o Brasil tem o maior rebanho asinino do mundo,com alguns representantes de quatro patas e muitos de duas. Por isto, "investidores" deste naipe lucram bastante por aqui. Enquanto isto o povo vai pastando.
Ah, sim, quase me esquecia...Parabéns Francisco por nos fazer refletir sobre estas coisas. Ótimo!!! Excelente Blog. Ulisses.

Célio Tavares disse...

Maravilha, nobre Francisco.

Peço a sua permissão para publicá-la na minha coluna das quartas feiras no Jornal Agora, com o registro do crédito.

Atenciosamente,

Célio Tavares

Fernando Antonio Camargos disse...

Francisco parabéns gostei muito abraços Fernando

Prof. Conrado Silva disse...

muito bom!
abraços
Conrado

Eustáquio Grilo disse...

Muuuuito boa, Francisco,

muito boa mesmo essa fábula. Ótima síntese.

Obrigado

Abração

duGrilo

Petronio Portella Nunes Filho disse...

Gostei da fábula. Muito representativa da atual crise do euro.
Abraço,
Petronio

Cléia Soares Silveira disse...

Prezado,
Confirmamos o recebimento de e-mail, e informamos que será apresentado em reunião de coordenação de agenda.

Assim, tão logo haja deferimento, entraremos em contato.

Certa da compreensão,

Cléia Soares Silveira
Divisão de Agenda do Ministro da Justiça


Atenciosamente,

Anônimo disse...

Prezado Francisco,

Agradecemos seu contato e e-mail de divulgação.

Atenciosamente,

Assessoria de Comunicação
Secretaria de Estado de Cultura de Minas Gerais

Prof. José Luiz Celeste disse...

Braga: obrigado e tenho que lhe dizer que o que pega com relação aos brasileiros não é
tanto os burros mas a burrice. Por exemplo: só agora é que eles descobrem e se exaltam sobre espionagem dos EEUU, sobre contrato de uso da base de lançamento de foguetes de Alcântara, de fatos antigos do início do golpe de 64, etc. Mas por que só agora? É claro que é para desviar a atenção do povo que reclama, com toda a razão, da roubalheira, da falta de vergonha desse governo.

Quanto ao contrato de uso da base de Alcântara, diz a Dilma que é uma afronta à soberania do Brasil. Isso porque reza o contrato que brasileiros não podem por os pés lá, a não ser autorizados, quando porventura haja lançamento de foguetes americanos. Eu acho sinceramente que não é uma afronta: é um atestado de burrice aos brasileiros, esses sim é que não têm vergonha na cara de assinar um contrato desses.

Enfim é isso. Agora, eu temo o que possa acontecer em decorrência do que se pretende agora, plebiscito, constituinte etc.. Vi na TV, há já alguns anos, um professor de política internacional, português, ou de Angola. Tinha sido expulso de Angola. Falava de Agostinho dos Santos, esse flagelo que existe por lá. Então o entrevistador afirmou, por entre suas perguntas, que Lula não era de fato de esquerda, que tinha perdido essa bandeira. Ao quê, afirmou o professor, que nada disso; que era sim de esquerda e que se dissimulava, porque não podia mostrar in totum sua verdadeira face. Alarmante, não é? Isso mais ou menos se vislumbra nas gafes de sua política internacional. Ainda bem que se tornaram gafes, que são coisas para rir e não para acreditar!

Enfim, mudando de assunto, ouvi recentemente o seu santo nome em meio a notícias sobre o Festival de Campos do Jordão, na Radio Cultura FM, 103.3. Era mesmo de vc que se falava? Disseram "Francisco Braga". Você está andando por essas plagas geladas no momento?

Mande notícias. Lembre-me à Rute e
Abçs

Celeste